24 – EPILOGO – A Ascenção acenou
O corredor do hospital estava cegantemente branco. Depois de tantos dias vivendo à
luz de tochas, à gás, e a misteriosa luz de bruxa, a iluminação fluorescente fazia as
coisas parecerem amareladas e antinaturais. Quando Clary assinou em frente ao
balcão, ela percebeu que a enfermeira lhe entregando a prancheta tinha uma pele
que parecia estranhamente amarelada sob as luzes brilhantes. Talvez ela seja um
demônio, Clary pensou, entregando a prancheta de volta. "Última porta no final do
corredor," disse a enfermeira, mostrando um sorriso gentil. Ou posso estar
enlouquecendo.
"Eu sei," disse Clary. "Eu estava aqui ontem." E anteontem, e um dia antes do que
isso. Era começo da noite, e o corredor não estava cheio. Um velho se arrastava nos
chinelos atoalhados e num roupão, arrastando uma unidade móvel de oxigênio atrás
dele. Dois médicos em jalecos verdes cirúrgicos carregavam copos de isopor de café,
o vapor subindo da superfície do líquido para o ar gelado. Dentro do hospital, estava
agressivamente ventilado com o ar condicionado, embora do lado de fora o tempo
tinha finalmente se tornado outono.
Clary encontrou a porta no final do corredor. Estava aberta. Ela espreitou lá dentro,
não querendo acordar Luke se ele estivesse dormindo na cadeira à beira do leito,
como tinha estado nas últimas duas vezes que ela tinha ido. Mas ele estava em pé e
conversando com um homem alto em um manto cor de pergaminho dos Irmãos do
Silêncio. Ele se virou, como se sentindo a chegada de Clary, e ela viu que era Irmão
Jeremiah.
Ela cruzou seus braços ao longo do seu peito. "O que está acontecendo?"
Luke parecia exausto, com merecidos três dias de barba mal feita em crescimento,
seus óculos colocados no topo da cabeça. Ela podia ver a maior parte das ataduras
que ainda envolviam sua parte superior do tórax debaixo de sua camisa solta de
flanela. "Irmão Jeremiah já estava saindo," ele disse.
Levantando seu capuz, Jeremiah se moveu em direção à porta, mas Clary bloqueou o
seu caminho. "Então?" Ela desafiou ele. "Você vai ajudar a minha mãe?"
Jeremiah se aproximou dela. Ela podia sentir o frio que se suspendia fora do corpo
dele, como o vapor de um iceberg. Você não pode salvar os outros até que você
primeiro salve a si mesmo, disse a voz em sua mente.
"Essa coisa de biscoito da sorte está ficando realmente ultrapassada," Clary disse. "O
que há de errado com a minha mãe? Você sabe? Os Irmãos do Silêncio podem ajudar
ela, como vocês ajudaram Alec?"
Nós não ajudamos ninguém, Jeremiah disse. Nem é nossa obrigação ajudar aqueles
que voluntariamente se separaram da Clave.
Ela se afastou enquanto Jeremiah passava por ela para o corredor. Ela olhou ele se
afastando, se confundindo com a multidão, nenhum deles lhe deu uma segunda
olhada. Quando ela deixou seus próprios olhos caírem semicerrados ela viu o tremular
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da aura de glamour que rodeava ele, e se perguntou o que estavam vendo: Outro
paciente? Um médico apressado em um jaleco cirúrgico? Um visitante em luto?
"Ele estava dizendo a verdade," Luke disse atrás dela. "Ele não curou Alec, foi
Magnus Bane. E ele não sabe o que há de errado com sua mãe também."
"Eu sei," Clary disse, se virando para o quarto. Ela se aproximou do leito
cuidadosamente. Era difícil para conectar a pequena figura branca na cama, coberta
por cima e por baixo de tubos, com seus vibrantes cabelos cor de chama com a mãe.
Claro, o cabelo dela ainda estava vermelho, espalhados por todo o travesseiro como
fios de um xale de cobre, mas sua pele era tão pálida que ela lembrou Clary da Bela
Adormecida em cera no Madame Tussauds33, cujo o peito subia e descia apenas
porque estava animado por um mecanismo.
Ela tomou a fina mão de sua mãe e a segurou, como ela havia feito ontem, e no dia
anterior. Ela podia sentir a pulsação batendo no pulso de Jocelyn, firme e insistente.
Ela quer acordar, Clary pensou. Eu sei que ela quer.
"É claro que ela quer," Luke disse, e Clary caiu em si que tinha falado em voz alta.
"Ela tem tudo para ficar melhor, mais ainda do que ela poderia saber."
Clary deitou a mão de sua mãe suavemente abaixo na cama. "Você quer dizer Jace."
"É claro que eu quis dizer Jace," Luke disse. "Ela esteve de luto por ele por dezessete
anos. Se eu pudesse dizer a ela que não precisava se lamentar..." ele interrompeu.
"Dizem que as pessoas em coma às vezes podem ouvir," Clary ofereceu.
Evidentemente, os médicos também haviam dito que este não era um coma comum,
nenhuma lesão, nenhuma falta de oxigênio, nenhuma súbita falha do coração ou do
cérebro tinha causado isso. Era como se ela estivesse apenas dormindo, e não
poderia ser despertada.
"Eu sei," Luke disse. "Eu tenho falado com ela. Quase sem parar." Ele mostrou um
sorriso cansado. "Eu disse a ela como você foi corajosa. Como ela teria orgulho de
você. Sua filha guerreira."
Algo afiado e doloroso subiu na parte de trás de sua garganta. Ela a engoliu, olhando
além de Luke afastado da janela. Através da qual ela podia ver a parede branca de
tijolos do edifício oposto. Sem vistas bonitas de árvores ou rios aqui. "Eu fiz as
compras que você pediu," ela disse. "Tenho manteiga de amendoim, leite e cereais e
pão dos Irmãos Fortunato." Ela cavou no bolso de seus jeans. "Eu tenho o troco..."
"Fique com ele," Luke disse. "Você pode usá-lo no táxi de volta."
"Simon me leva de volta," Clary disse. Ela checou o relógio de borboleta pendente no
seu chaveiro. "Na verdade, ele provavelmente está lá embaixo agora."
"Bom, estou feliz que você esteja passando algum tempo com ele." Luke pareceu
aliviado. "Fique com o dinheiro, de qualquer forma. Dê uma saída hoje à noite."
33
Madame Tussauds é uma cadeia de museus de cera que existem pelo mundo, conhecida por suas famosas réplicas de artistas,
celebridades, etc.
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Ela abriu a sua boca para argumentar, e então fechou. Luke era, como sua mãe
sempre tinha dito, uma rocha em momentos de angústia, sólido, confiável, e
totalmente imóvel. "Vá para casa de vez em quando, ok? Você precisa dormir
também."
"Dormir? Quem precisa dormir?" ele zombou, mas ela viu o cansaço em seu rosto
quando ele voltou a se sentar na cama da mãe. Gentilmente ele retirou um fio de
cabelo o afastando do rosto de Jocelyn. Clary se virou para longe, os olhos dela
ardendo.
***
A van de Eric estava estacionada na beira da calçada enquanto ela caminhava pela
saída principal do hospital. O céu arqueava acima, o perfeito azul de uma porcelana
chinesa, escurecendo para um safira sobre o rio Hudson, onde o sol estava se pondo.
Simon se inclinou para abrir a porta para ela, e ela se arrastou acima do banco ao
lado dele. "Obrigada."
"Para onde? Voltar para casa?" Ele perguntou, puxando a van para o tráfego em
primeira marcha.
Clary suspirou. "Eu nem sei mais onde é isso."
Simon olhou a seu lado. "Sentindo pena de si mesma, Fray?" Seu tom era de
gozação, mas suave. Se ela olhasse atrás dele, ela ainda poderia ver as manchas
escuras no banco traseiro onde Alec tinha se deitado, sangrando, em todo o colo de
Isabelle.
"Sim. Não. Eu não sei." Ela suspirou novamente, puxando um teimoso cacho do
cabelo cobre. "Tudo mudou. Tudo está diferente. As vezes eu gostaria que tudo
voltasse atrás do jeito que era antes."
"Eu não," Simon disse, para sua surpresa. "Onde é que vamos outra vez? Me diz,
subúrbio ou o centro finalmente."
"Para o Instituto," Clary disse. "Me desculpe," acrescentou ela, enquanto ele
executava uma espantosa meia-volta ilegal. A van, rodou sobre duas rodas,
guinchando em protesto. "Eu devia ter te dito isso antes."
"Huh," disse Simon. "Você não tinha voltado ainda, certo? Desde que..."
"Não, não desde que," disse Clary. "Jace me ligou e me disse que Alec e Isabelle
estavam bem. Aparentemente, os pais voltaram de Idris, agora que alguém
realmente contou a eles o que está acontecendo. Eles vão estar aqui em poucos
dias."
"Isso é estranho, vindo de Jace?" Simon perguntou, a voz dele cuidadosamente
neutra. "Quero dizer, desde que vocês descobriram..."
Sua voz diminuiu.
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"Sim?" disse Clary, sua voz afiadamente cortante. "Desde que eu descobri o quê? Que
ele é um assassino travestido que molesta gatos?"
"Não me admira que o gato dele odeia todo mundo."
"Ah, cala boca, Simon," Clary disse zangada. "Eu sei o que você quer dizer, e não,
não era estranho. Nada aconteceu entre nós, de qualquer forma."
"Nada?" Simon ecoou, em seu tom de simples descrença.
"Nada," Clary repetiu firmemente, olhando para fora da janela para que ele não
pudesse ver as lágrimas manchando suas bochechas. Eles estavam passando uma fila
de restaurantes, e ela podia ver o Taki‟s, iluminado brilhantemente no cair do
crepúsculo.
Eles viraram a esquina, justo quando o sol desapareceu por trás da janela rosada do
Instituto, inundando a rua abaixo com uma concha de luz que só eles podiam ver.
Simon estacionou em frente da porta e desligou o motor, nervosamente balançando
as chaves na mão. "Você quer que eu vá com você?"
Ela hesitou. "Não. Eu devo fazer isso sozinha."
Ela viu o olhar de decepção flutuar pelo rosto dele, mas ele desapareceu
rapidamente. Simon, ela pensou, tinha crescido muito nestas últimas duas semanas,
tal como ela tinha. O que foi bom, pois ela não queria deixá-lo para trás. Ele era parte
dela, tanto quanto o seu talento para desenhar, o ar empoeirado do Brooklyn, o
sorriso de sua mãe, seu próprio sangue de Caçador de Sombras. "Tudo bem," disse
ele. "Você vai precisar de uma carona mais tarde?"
Ela balançou a cabeça dela. "Luke me deu dinheiro para um táxi. De qualquer forma
você quer vir amanhã?" acrescentou. "Podemos assistir Trigun 34, com pipoca. Eu
poderia passar um tempo no sofá."
Ele acenou. "Isso parece bom." Ele então se inclinou em frente, e roçou de leve um
beijo na sua bochecha. Foi um beijo leve como uma folha soprada, mas ela sentiu um
arrepio percorrer os seus ossos. Ela olhou para ele.
"Você acha que isso foi uma coincidência?" ela perguntou.
"O que eu acho que foi uma coincidência?"
"Que nós fossemos ao Pandemonium na mesma noite que Jace e os outros pintaram
por lá, perseguindo um demônio? A noite anterior a Valentine vir atrás de minha
mãe?"
Simon balançou a cabeça. "Eu não acredito em coincidências," ele disse.
"Nem eu."
34
Trigun é um anime.
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"Mas tenho que admitir," Simon acrescentou, "coincidência ou não, isso se tornou
uma ocorrência fortuita."
"Ocorrência fortuita," Clary disse. "Agora temos um nome de banda para você."
"É melhor do que a maioria dos que tivemos," Simon admitiu.
"Pode apostar." Ela saltou para fora da van, fechando a porta atrás dela. Ela ouviu ele
buzinar enquanto ela corria no caminho para a porta entre a folhas de grama alta, e
acenou sem se virar.
***
O interior da catedral estava fresco e escuro, e cheirava a chuva e papel úmido. Suas
pegadas ecoaram alto no piso de pedra, e ela pensou em Jace na igreja em Brooklyn:
Pode haver um Deus, Clary, e pode ser que não, mas acho que não interessa. De
qualquer forma, nós estamos por nossa própria conta.
No elevador ela deu uma olhada em si mesma no espelho enquanto a porta rangia
fechada atrás dela. A maior parte das suas contusões e arranhões tinham curado,
ficando invisíveis. Ela perguntou se Jace já tinha visto o seu visual tão cerimonioso
como ela estava hoje – ela se vestiu para ir ao hospital, uma saia pregueada preta,
gloss labial rosa, e uma antiga blusa com gola de marinheiro. Ela achou que ela
parecia ter oito.
Não que importasse o que Jace pensava em como ela se parecia, ela lembrou a si
mesma, agora ou sempre. Ela se perguntou se eles seriam do jeito que Simon era
com sua irmã: uma mistura de aborrecimento e um amor irritado. Ela não podia
imaginar.
Ela ouviu altos meows antes mesmo da porta do elevador se abrir. “Ei, Church,” Ela
disse, se ajoelhando para a bola cinza se ziguezagueando no piso. “Onde está todo
mundo?”
Church, que claramente queria que seu estômago fosse esfregado, resmungou
ameaçadoramente. Com um suspiro Clary lhe deu um. "Gato debilóide," ela disse, o
coçando com vigor. "Onde..."
"Clary!" Era Isabelle, se lançando no saguão em uma saia vermelha longa, o cabelo
dela empilhado em cima de sua cabeça com grampos cheios de jóias. "É tão bom ver
você!"
Ela desceu sobre Clary com um abraço que quase desequilibrou ela.
"Isabelle," Clary arfou. "É bom te ver, também," acrescentou, deixando Isabelle
puxá-la para uma posição em pé.
"Eu estava tão preocupada com você," Isabelle disse alegremente. "Depois que vocês
saíram para biblioteca com Hodge, e eu fiquei com Alec, ouvi a mais terrível explosão,
e quando eu cheguei à biblioteca, é claro, vocês tinham desaparecido, e tudo estava
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espalhado por todo o piso. E havia sangue e uma coisa pegajosa preta pra todo o
lado." Ela estremeceu. "O que foi aquilo?"
"A maldição," Clary disse calmamente. "A maldição de Hodge".
"Oh, certo," Isabelle disse. "Jace me falou sobre Hodge."
"Ele falou?" Clary estava surpresa.
"Que ele retirou a maldição de si e ele foi embora? Sim, ele disse. Eu achei que ele
ficaria para dizer adeus." Isabelle acrescentou. "Eu estou meio decepcionada com ele.
Mas acho que ele estava com medo da Clave. Ele vai entrar em contato no final das
contas, eu aposto."
Então Jace não tinha dito que Hodge havia traído eles, Clary pensou, não tendo
certeza como ela se sentia sobre isso. Então, se Jace estava tentando poupar Isabelle
da confusão e desapontamento, talvez ela não devesse interferir.
“De qualquer jeito,” Isabelle continuou, "foi horrível, eu não sei o que nós teriamos
feito se Magnus não tivesse aparecido e emagicado Alec de volta ao normal. É uma
palavra, 'emagicado'?" Ela enrugou entre suas sobrancelhas. "Jace nos contou tudo
sobre o que aconteceu na ilha depois. Na verdade, nós já sabíamos sobre ele mesmo
antes, porque Magnus estava ao telefone falando sobre isso a noite toda. Todo mundo
no Downworld estava fofocando sobre isso. Você é famosa, sabe."
"Eu?"
"Claro. A filha de Valentine."
Clary estremeceu. "Então eu acho que Jace é famoso também."
"Ambos são famosos," Isabelle disse na mesma voz animada. "Os famosos irmão e
irmã."
Clary olhou curiosamente Isabelle. "Eu não esperava que você tivesse essa alegria em
me ver, eu tenho que admitir."
A outra garota colocou suas mãos em seu quadril indignadamente. "Porque não?"
"Eu não achava que você gostava de mim tanto assim."
O brilho de Isabelle se esvaiu e ela olhou para baixo em seus dedos prateados. "Eu
não acho que eu goste," ela admitiu. "Mas quando eu fui procurar por você e Jace, e
vocês foram embora..." A voz dela foi sumindo. "Eu não estava apenas preocupada
com ele, eu estava preocupada com você, também. Há algo tão... tranqüilizador em
você. E Jace fica muito melhor quando você está ao redor."
Os olhos de Clary se abriram. "Ele fica?"
"Ele fica, na verdade. Menos sarcástico, de alguma forma. Não que ele esteja amável,
mas que ele deixa você ver a bondade nele." Ela se interrompeu. "E eu acho que eu
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me ressentia com você no início, mas agora eu percebo que era estupidez. Só porque
eu nunca tive um amigo que fosse uma garota não significava que eu não pudesse
aprender a ter uma."
"Eu também, na realidade," Clary disse. "E Isabelle?"
"Sim?”
“Você não precisa fingir ser legal. É melhor quando você age como você mesma.”
“Uma vaca, você quer dizer?” Isabelle disse, e riu.
Clary estava prestes a protestar quando Alec entrou se equilibrando na entrada em
um par de muletas. Uma de suas pernas estava com ataduras, seus jeans enrolados
até o joelho, e havia um outro curativo em sua têmpora, sob os cabelos escuros. Em
todo o caso ele parecia espantosamente saudável para quem estava quase morrendo
a quatro dias atrás. Ele acenou uma muleta em saudação.
"Oi," Clary disse, surpresa em vê-lo em pé e por aí. "Você está..."
"Bem? Eu estou bem," Alec disse. "Não vou mesmo precisar delas dentro de alguns
dias."
Culpa preencheu sua garganta. Se não fosse por ela, Alec não estaria de muletas.
"Estou realmente feliz por você estar bem, Alec," ela disse, colocando cada peso de
sinceridade em sua voz que ela pudesse reunir.
Alec piscou. "Obrigado."
"Então Magnus consertou você?" Clary disse. "Luke disse..."
"Ele fez!" Isabelle disse. "Foi tão incrível. Ele apareceu e ordenou que todos saíssem
do quarto e fechou a porta. Faíscas azuis e vermelhas ficavam explodindo pelo
corredor por baixo da porta."
"Não me lembro de nada," Alec disse.
"Então ele se sentou na cama de Alec a noite toda e pela manhã para ter certeza que
ele acordaria bem," Isabelle acrescentou.
"Também não me lembro disso," Alec acrescentou apressadamente.
Os lábios vermelhos de Isabelle se curvaram em um sorriso. "Eu me pergunto como
Magnus soube para ter vindo? Eu perguntei a ele, mas ele não me disse."
Clary lembrou do papel dobrado que Hodge tinha atirado ao fogo após Valentine ter
ido embora. Ele era um homem estranho, ela pensou, que tinha tirado tempo para
fazer o que podia para salvar Alec, embora traísse todo mundo e tudo o que ele tinha
cuidado. “Eu não sei,” ela disse.
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Isabelle deu de ombros. “Eu acho que ele ouviu sobre isso em algum lugar. Ele
parece viciado em uma enorme rede de fofoca. Ele é como uma garota.”
“Ele é o Alto Bruxo do Brooklyn, Isabelle.” Alec lembrou a ela. Mas não sem alguma
diversão. Ele se virou para Clary. “Jace está na estufa, se você quiser vê-lo,” ele
disse. “Eu levo você.”
“Você leva?”
“Claro.” Alec parecia só um pouco desconfortável. “Por que não?”
Clary olhou para Isabelle, que sacudiu os ombros. Seja lá o que estava querendo, ele
não ia dividir isso com sua irmã. “Vão em frente,” Isabelle disse. “Eu tenho coisas
para fazer, de qualquer forma.” Ela acenou uma mão para eles. “Xô!”
Eles zarparam pelo corredor juntos. Alec ia rápido, mesmo com muletas. Clary teve
que correr para manter o passo. “Eu tenho as pernas curtas,” ela lembrou a ele.
“Me desculpe,” ele diminuiu, arrependido. “Olha,” ele começou. “Aquelas coisas que
você disse para mim, quando eu gritei com você sobre o Jace...”
“Eu me lembro,” ela disse em uma voz pequena.
“Quando você me disse aquilo, você sabe, aquilo que eu estava apenas... aquilo era
por que...” Ele pareceu estar tendo problemas em formar uma frase completa. Ele
tentou de novo. “Quando você disse que eu estava...”
“Alec, não.”
“Claro. Não importa.” Ele apertou seus lábios juntos. “Você não quer falar sobre
aquilo.”
“Não é isso. É que eu me sinto terrível sobre o que eu disse. Aquilo foi horrível. Não
era verdade de forma...”
“Mas era verdade,” Alec disse. “Cada palavra.”
"Isso não faz ficar tudo bem," ela disse. "Nem tudo era verdade sobre você nunca ter
matado um demônio, ele disse que era porque você estava sempre o protegendo e a
Isabelle. Foi uma coisa boa o que ele estava dizendo sobre você. Jace pode ser um
idiota, mas ele..." Te ama, ela estava para dizer, e parou. "Ele nunca disse uma coisa
ruim sobre você para mim, nunca. Eu juro."
"Você não tem que jurar," ele disse. "Eu já sei."
Ele parecia tranqüilo, mesmo confiante de uma maneira que ele nunca soou antes.
Ela olhou para ele, surpresa. "Eu sei que eu não matei o Abbadon. Mas eu apreciei
você ter me dito que eu tinha."
Ela riu tremulamente. "Você apreciou eu ter mentido para você?"
"Você fez isso por simpatia," disse ele. "Isso significa muito, que você foi gentil
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comigo, mesmo depois de como eu tratei você."
"Acho que Jace teria ficado muito chateado por eu ter mentido, se ele não estivesse
tão abalado naquela hora," Clary disse. "Não tão bravo quanto ele ficaria se ele
soubesse o que eu disse a você antes, apesar de tudo."
"Eu tenho uma idéia," disse Alec, sua boca virando nos cantos. "Não vamos dizer a
ele. Quero dizer, talvez Jace possa decapitar um demônio Du'sien a uma distância de
cinqüenta metros, só com um saca-rolha e um elástico, mas às vezes eu acho que ele
não sabe muito sobre as pessoas."
"Eu acho que sim." Clary sorriu.
Eles tinham chegado ao início da escada espiral que levava ao telhado. "Eu não posso
ir para cima." Alec tocou sua muleta contra um degrau de metal. Ela retiniu
metalicamente.
"Tudo bem. Eu posso achar meu caminho."
Ele virou como se fosse embora, então olhou, de costas para ela. "Eu deveria ter
adivinhado que você era irmã de Jace," ele disse. "Vocês dois tem o mesmo talento
artístico."
Clary interrompeu, o seu pé no degrau mais baixo. Ela estava voltando. "Jace
desenha?"
"Não." Quando Alec sorriu, seus olhos azuis eram lâmpadas acesas, e Clary pode ver
o que Magnus tinha encontrado de tão cativante sobre ele. "Eu só estava brincando.
Ele não consegue desenhar uma linha reta." Rindo, ele saiu capengando em suas
muletas. Clary o viu ir embora, confusa. Um Alec que soltava piadas e fazia gracinhas
de Jace era algo que ela poderia se acostumar, mesmo que o seu senso de humor
fosse algo inexplicável.
***
A estufa estava do jeito que ela se lembrava, embora o céu acima do telhado de vidro
estivesse safira agora. O limpo e ensaboado cheiro das flores limpava a cabeça dela.
Respirando profundamente, ela se empurrou através dos estreitos galhos e folhas.
Ela encontrou Jace sentado na bancada em mármore, no meio da vegetação. Sua
cabeça estava inclinada, e ele parecia estar virando um objeto em suas mãos, à toa.
Ele olhou para cima enquanto ela mergulhava debaixo de um galho, e rapidamente
fechou sua mão ao redor do objeto. "Clary." Ele pareceu surpreso. "O que você está
fazendo aqui?"
"Eu vim te ver," ela disse. "Eu queria saber como você estava."
"Eu estou bem." Ele estava vestindo jeans e uma camiseta branca. Ela ainda podia
ver as suas contusões sumindo, como as manchas escuras sobre a polpa branca de
uma maçã. Claro, ela pensou, as verdadeiras lesões eram internas, escondidas de
todos, mesmo dele.
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"O que é isso?" ela perguntou, apontando para a sua mão fechada.
Ele abriu os dedos. Um irregular caco de prata descansava em sua palma, refletindo
azul e verde em seus cantos. "Um pedaço do espelho do Portal."
Ela sentou no banco ao lado dele. "Dá para ver alguma coisa nele?"
Ele o virou um pouco, deixando a luz passar como a água sobre ele. "Pedaços do céu.
Árvores, um caminho... Eu fico angulando ele, tentando ver a mansão. Meu pai."
"Valentine," ela corrigiu. "Por quê você iria querer vê-lo?"
“Eu pensei que talvez eu pudesse ver o que ele estava fazendo com a Taça Mortal,”
ele disse relutantemente. “Onde ela está.”
“Jace, isso não é mais nossa responsabilidade. Não é problema nosso. Agora que a
Clave finalmente sabe o que aconteceu, os Lightwoods estarão de volta. Deixe eles
lidarem com isso.”
Agora ele olhava para ela. Ela se perguntou como é que eles poderiam ser irmão e
irmã se parecendo tão pouco. Ela não podia ter pelo menos aqueles cílios longos
escuros ou os ossos angulares do rosto? Parecia pouco justo. Ele disse, "Quando eu
olhei através do Portal e vi Idris, eu sabia exatamente o que Valentine estava
tentando fazer, ele queria ver se eu me sensibilizava. E isso não importou, eu ainda
queria ir muito para casa, mas do que eu poderia ter imaginado."
Ela balançou sua cabeça. "Não vejo o que há de tão incrível em Idris. É apenas um
lugar. O jeito como você e Hodge falam sobre isso..." Ela interrompeu.
Ele fechou sua mão sobre o caco novamente. "Eu era feliz lá. Ele foi o único lugar em
que eu estava realmente feliz."
Clary arrancou uma haste de um arbusto próximo e começou a despetalar suas
folhas. "Você sentiu pena de Hodge. É por isso que você não disse a Alec e a Isabelle
o que ele realmente fez."
Ele deu de ombros.
"Eles vão descobrir qualquer hora, sabe."
"Eu sei. Mas não vai ser eu quem vai dizer a eles."
"Jace..." A superfície do lago estava verde com as folhas caídas. "Como você pôde ter
sido feliz lá? Eu sei o que você pensou, mas Valentine foi um péssimo pai. Ele matou
seus animais de estimação, mentiu para você, e eu sei que ele batia em você – e nem
tente fingir que ele não batia."
A cintilação de um sorriso flutuou no rosto de Jace. "Somente nas quintas-feiras
alternadas."
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"Então, como podia..."
"Foi a única vez que eu senti certeza sobre quem eu era. Onde eu pertencia. Isso soa
burrice, mas..." Ele balançou os ombros. "Eu mato demônios, porque eu sou bom
nisso e foi o que me foi ensinado a fazer, mas não é quem eu sou. E eu estava
parcialmente bem com isso porque depois que eu pensei que o meu pai tinha
morrido, eu estava livre. Sem importância. Ninguém para ficar de luto. Ninguém tinha
interesse na minha vida, porque eles tinham sido parte do que foi dado a mim." Seu
rosto parecia como se tivesse sido esculpido em algo duro. "Eu não me sinto mais
assim."
O galho ficou inteiramente desnudo de folhas; Clary o jogou de lado. "Porque não?"
"Por sua causa," ele disse. "Se não fosse por você, eu teria ido com o meu pai através
do Portal. Se não fosse por você, eu iria atrás dele agora mesmo."
Clary olhou para baixo no lago obstruído. Sua garganta queimou. "Eu achei que você
se sentia deslocado."
"Tem sido assim por muito tempo," ele disse simplesmente, "eu acho que eu estava
deslocado pela idéia de se sentir como se eu não pertencesse a lugar nenhum. Mas
você me fez sentir que eu pertenço."
"Eu quero você venha comigo em um lugar," ela disse abruptamente.
Ele olhou para seu lado. Algo sobre a forma como a luz dourada dos cabelos caindo
nos olhos dele fez ela se sentir insuportavelmente triste. "Onde?"
"Eu estava esperando que você viesse comigo para o hospital."
"Eu sabia." Seus olhos se estreitaram até que eles parecessem bordas de moedas.
"Clary, aquela mulher..."
"Ela é sua mãe também, Jace."
"Eu sei," ele disse. "Mas ela é uma estranha para mim. Eu sempre tive apenas um
pai, e ele foi embora. Pior do que estar morto."
"Eu sei. E sei que não há nenhum ponto em dizer a você o quão ótima minha mãe é,
uma incrível, fantástica, e maravilhosa pessoa que ela é, e que você tem sorte em
conhecê-la. Não estou pedindo isso para você, eu estou pedindo por mim. Acho que
se ela ouvir a sua voz... "
"Então o quê?"
"Ela poderia acordar." Ela o olhou com firmeza.
Ele segurou seu olhar e, em seguida, o quebrou com um sorriso torto, um pouco
cansado, mas um sorriso verdadeiro. "Tudo bem. Eu vou com você." Ele se levantou.
"Você não tem que me dizer coisas boas sobre a sua mãe," ele acrescentou. "Eu já a
conheço."
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"Você conhece?"
Ele deu de ombros ligeiramente. "Ela cuidou de você, não é?" Ele olhou em direção ao
telhado de vidro. "O sol está quase sumindo."
Clary ficou sob seus pés. "Nós devemos ir ao hospital. Eu pago o táxi," ela
acrescentou depois. "Luke me deu dinheiro."
"Isso não será necessário." O sorriso de Jace se alargou. "Vamos lá. Eu tenho algo
para te mostrar."
“Mas de onde você tirou isso?” Clary exigiu, olhando para a moto empoleirada à beira
do telhado da catedral. Era um chamativo envenenado verde, com prata margeando
as rodas e as brilhantes chamas pintadas sobre o banco.
"Magnus estava reclamando que alguém havia deixado lá fora da casa dele, na última
vez que ele fez uma festa," Jace disse. "Eu o convenci a dar ela para mim."
"E você voou com ela até aqui?" Ela ainda estava olhando.
"Uh-huh. Estou ficando muito bom nisso." Ele colocou uma perna por cima do banco,
e acenou para ela subir e sentar atrás dele. "Vamos, eu vou mostrar para você."
"Bem, pelo menos dessa vez você sabe como funciona," ela disse, ficando atrás dele.
"Se a gente bater contra um estacionamento de um supermercado eu vou matar
você, sabia?"
"Não seja ridícula," Jace disse. "Não há estacionamento em Upper East Side. Porque
dirigir quando você pode receber sua mercadoria entregue?" A moto começou com
um rugir, abafando sua risada. Gargalhando, Clary agarrou o seu cinto enquanto a
moto se movia sob o inclinado teto do Instituto, e se lançava no espaço.
O vento bagunçava seu cabelo enquanto eles se elevavam, sobre a catedral, acima
dos telhados altos e elevados prédios de apartamentos. E lá estava se estendendo
perante ela como um cuidadosamente aberto porta-jóias, esta cidade mais populosa e
mais incrível do que ela tinha imaginado: Havia o quadrado esmeralda do Central
Park, onde uma corte de fadas se reunia em plena noite de verão, onde tinha as luzes
dos clubes e bares no centro, onde os vampiros dançavam noites afora no
Pandemonium; onde nos becos de Chinatown os lobisomens se retiravam à noite, os
seus pêlos refletindo as luzes da cidade. Onde andavam bruxos em toda a sua
extravagância, o glorioso olhar de gato, e aqui, enquanto eles se lançavam rio acima,
ela via os flashes lançados de multicoloridas caudas sob a pele prateada da água, o
vislumbre ao longe, de pérolas derramadas sobre os cabelos, e ouviu altas, as risadas
onduladas das sereias.
Jace virou para olhar sobre seu ombro, o vento chicoteando em seus cabelos
emaranhados. "O que você está pensando?" ele chamou ela de volta.
"Apenas como tudo é diferente agora, você sabe, agora que eu posso ver."
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"Tudo lá é exatamente o mesmo," ele disse, angulando a moto para o East River. Eles
foram em direção à ponte novamente. "Você é a única que é diferente."
As mãos apertaram convulsivamente o seu cinto enquanto eles mergulhavam mais e
mais ao longo do rio. "Jace!"
"Não se preocupe." Ele parecia irritantemente divertido. "Eu sei o que estou fazendo.
Eu não vou afundar a gente."
Ela estreitou seus olhos contra o vento rasgante. "Você está testando o que Alec disse
sobre algumas dessas motos serem capazes de ir debaixo d‟agua?"
"Não." Ele nivelou a moto cuidadosamente enquanto eles subiam vindos da superfície
do rio. "Acho que é só uma história."
"Mas Jace," ela disse. "Todas as histórias são verdadeiras."
Ela não o ouviu rir, mas ela sentiu, através da gaiola de suas costelas sob seus
dedos. Ela o abraçou fortemente enquanto ele dirigia a moto para cima, acelerando
para que ela disparasse a frente e se lançasse ao lado da ponte como um pássaro
libertado de uma gaiola. Seu estômago caiu abaixo enquanto o rio prateado girava
para longe e os pináculos da ponte deslizavam sob seus pés, mas desta vez Clary
manteve seus olhos abertos, só para que ela pudesse ver tudo.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
Série Instrumentos Mortais - Cidade dos Ossos 23
23 – Valentine
“Posso ver que estou interrompendo algo,” Valentine disse, sua voz tão seca quanto
um deserto a tarde. “Filho, você se importaria de me dizer quem é essa? Uma das
crianças Lighwood, talvez?”
“Não,” Jace disse. Ele soava cansado e infeliz, mas sua mão não largava o pulso dela.
“Esta é Clary. Clarissa Fray. Ela é uma amiga minha. Ela...”
Os olhos escuros de Valentine varreram ela lentamente, do topo de sua desgrenhada
cabeça, até os dedos suados nos tênis. Eles rapidamente permaneceram na adaga
ainda presa na mão dela.
Um indefinido olhar passou por sua face – parte divertido, parte irritado. “Onde você
conseguiu esta adaga, jovenzinha?”
Clary respondeu friamente. “Jace a deu para mim.”
“É claro que ele deu,” Valentine disse. Seu tom era brando. “Eu posso vê-la?”
“Não!” Clary deu um passo para trás, como se ela pensasse que ele poderia jogá-la
nela, ela sentiu a adaga ser arrancada facilmente de seus dedos. Jace, segurando a
adaga, olhou para ela com uma expressão de desculpas. “Jace,” ela sibilou,
colocando cada pitada de traição que ela sentiu dentro de cada sílaba do nome dele.
Tudo o que ele disse foi, “Você ainda não entende, Clary.” Com um tipo de respeito
que fez ela sentir seu estômago adoecer, ele foi até Valentine e pôs nas mãos dele a
adaga. “Aqui está, pai.”
Valentine tomou a adaga em sua mão grande e com ossos longos, e a examinou.
“Esta é uma kindjal, uma adaga caucasiana. Esta em particular era utilizada para ser
uma em um par combinado. Aqui, veja a estrela dos Morgensterns, incrustada dentro
da lâmina.” Ele a virou para cima, mostrando aquilo para Jace. “Eu estou surpreso
por os Lightwoods não terem notado isso.”
“Eu nunca a mostrei para eles,” Jace disse. “Eles me deixaram ter minhas próprias
coisas privadas. Eles não bisbilhotavam.”
“É claro que não,” Valentine disse. Ele deu a kindjal de volta para Jace. “Eles
pensavam que você era filho de Michael Wayland.”
Jace, deslizando o cabo vermelho da adaga em sua cintura, olhou para cima. "Eu
também," ele disse suavemente, e naquele momento Clary viu que aquilo não era
uma piada. Que Jace não estava só brincando consigo mesmo. Ele realmente pensava
que Valentine era o pai que retornou para ele.
Um frio desespero foi se espalhando através da veias de Clary. Jace irritado, Jace
hostil, furioso, ela podia ter lidado com isso, mas este novo Jace, frágil e brilhando à
luz do seu próprio milagre, era um estranho para ela.
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Valentine olhou para ela acima da cabeça aloirada de Jace, seus olhos eram frios com
a diversão. "Talvez," ele disse, "seria uma boa idéia você se sentar agora, Clary?"
Ela cruzou seus braços teimosamente sobre seu peito. "Não."
"Como você quiser." Valentine puxou uma cadeira e se sentou na cabeceira da mesa.
Após um momento Jace sentou também, ao lado de meia garrafa cheia de vinho.
"Mas você vai ouvir algumas coisas que podem fazer você desejar tomar uma
cadeira."
"Eu vou deixar você saber," Clary disse a ele, "se isso acontecer."
"Muito bem." Valentine apoiou as costas, mãos atrás da cabeça. O pescoço da sua
camisa entreabriu um pouco, mostrando sua cicatriz na clavícula. Cicatrizes, como
seu filho, tal como todos os Nephilim. Uma vida de cicatrizes e matança, Hodge disse.
"Clary," ele disse de novo, como se saboreando o som do seu nome. "Versão curta de
Clarissa? Não é um nome que eu teria escolhido."
Havia um sinistro sorriso curvando seus lábios. Ele sabe que sou sua filha, Clary
pensou. De alguma maneira, ele sabe. Mas ele não está dizendo isso. Porque ele não
está dizendo isso?
Por causa de Jace, ela percebeu. Jace iria pensar – ela não podia imaginar o que ele
iria pensar. Valentine tinha visto eles se abraçando quando ele caminhou pela porta.
Ele deve saber que ele tem uma devastadora peça de informação em suas mãos. Em
algum lugar por trás daqueles insondáveis olhos negros, sua mente afiada estava
escolhendo rapidamente, tentando decidir qual a melhor forma de utilizar o que ele
sabia.
Ela expressou outro olhar suplicante sobre Jace, mas ele estava olhando para baixo,
para o cálice de vinho em sua mão esquerda, meio cheia do líquido vermelho
púrpura. Ela podia ver o rápido subir e descer do seu peito enquanto ele respirava,
ele estava mais chateado do que ele estava transparecendo.
"Eu realmente não me importo com o que você teria escolhido," Clary disse.
"Eu tenho certeza," Valentine respondeu, se inclinando a frente, "que você não se
importaria."
"Você não é o pai de Jace," ela disse. "Você está tentando nos enganar. Jace era filho
de Michael Wayland. Os Lightwoods sabem disso. Toda mundo sabe disso."
"O Lightwoods foram mal informados," Valentine disse. "Eles realmente acreditaram –
acreditam que Jace é o filho de seu amigo Michael. Como a Clave. Mesmo os Irmãos
do Silêncio não sabem quem ele realmente é. Embora em breve, eles saberão."
"Mas o anel de Wayland..."
"Ah, sim," Valentine disse, olhando a mão de Jace, onde o anel reluzia como escamas
de serpente . "O anel. Engraçado, não é, como um M usado para cima se assemelha a
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um W? Claro, se você tivesse se incomodado em pensar sobre isso, você
provavelmente teria achado um pouco estranho que o símbolo da família Wayland
fosse uma estrela cadente. Mas não de todo estranho que seria o símbolo dos
Morgensterns."
Clary o encarou. "Eu não tenho idéia do que você quer dizer."
"Eu esqueci como é lamentavelmente negligente a educação mundana," disse
Valentine. "Morgenstern significa „estrela da manhã‟. Como em Como caíste desde o
céu, ó Lúcifer, filho da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as
nações!"
Um pequeno arrepio passou por Clary. "Você quer dizer Satanás."
"Ou qualquer grande poder perdido," disse Valentine, "por se recusar a servir. Como
eu fui. Eu não iria servir um governo corrupto, e por isso que eu perdi a minha
família, minha terra, quase a minha vida..."
"A revolta foi sua culpa!" Clary rebateu. "Pessoas morreram nela! Caçadores de
Sombras como você!"
"Clary." Jace se inclinou em frente, quase batendo sobre o copo com seu cotovelo.
"Apenas escute ele, você vai? Não é como você pensava. Hodge mentiu para nós."
"Eu sei," disse Clary. "Ele nos traiu por Valentine. Ele era um peão de Valentine".
"Não," Jace disse. "Não, Hodge era um dos que queriam há muito tempo a Taça
Mortal. Ele foi a pessoa que enviou os Raveners atrás de sua mãe. Meu pai –
Valentine só descobriu sobre isso depois, e veio para detê-lo. Ele trouxe sua mãe aqui
para curá-la, não para machucá-la."
"E você acredita nessa porcaria?" Clary disse enojada. "Não é verdade. Hodge estava
trabalhando para Valentine. Eles estavam nisso juntos, pegando a Taça. Ele nos
conduziu, é verdade, mas ele era apenas um instrumento."
"Mas ele era um dos que precisavam da Taça Mortal," Jace disse. "Assim, ele poderia
retirar a maldição de cima dele e fugir antes que o meu pai dissesse a Clave sobre
tudo o que ele havia feito."
"Eu sei que isso não é verdade!" Clary disse com fervor. "Eu estava lá!" Ela se virou
para Valentine. "Eu estava na sala quando você entrou para pegar a Taça. Você não
pôde me ver, mas eu estava lá. Eu vi você. Você pegou a Taça e retirou a maldição
de Hodge. Ele não poderia ter feito aquilo por si mesmo. Ele disse que sim."
"Eu retirei sua maldição," Valentine disse uniformemente, "mas fui movido pela pena.
Ele parecia tão patético."
"Você não sente pena. Você não sente nada."
"Já chega, Clary!" Era Jace. Ela olhou para ele. Suas bochechas estavam ruborizadas,
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como se ele tivesse bebido do vinho em seu cotovelo, os olhos muito brilhantes. "Não
fale com o meu pai desse jeito."
"Ele não é seu pai!"
Jace pareceu como se ela tivesse batido nele. "Por que você está tão determinada em
não acreditar em nós?"
"Porque ela te ama," disse Valentine.
Clary sentiu o sangue escorrer para fora do seu rosto. Ela olhou para ele, não
sabendo o que ele poderia dizer a seguir, mas temeu isso. Ela sentia como se ela
fosse em direção a orla de um precipício, um terrível empurrão para o nada e em
lugar nenhum. Vertigens agarravam seu estômago.
"O quê?" Jace pareceu surpreso.
Valentine estava olhando para Clary com divertimento, como se ele tivesse alfinetado
ela como uma borboleta em um quadro. "Ela teme que eu esteja tirando vantagem de
você," ele disse. "Que eu tenha feito uma lavagem cerebral em você. Não é assim, é
claro. Se você olhasse para suas próprias memórias, Clary, você saberia."
"Clary." Jace começou a ficar de pé, seus olhos sobre ela. Ela podia ver os círculos
debaixo deles, que ele estava sob tensão. "Eu..."
"Sente-se," Valentine disse. "Deixe que ela venha por si própria, Jonathan."
Jace abrandou instantaneamente, afundando de volta na cadeira. Através da tontura
da vertigem, Clary procurou entender. Jonathan? "Eu pensei que o seu nome fosse
Jace," ela disse. "Você mentiu sobre isso, também?"
"Não. Jace é um apelido."
Ela estava muito perto do precipício agora, tão perto que ela quase poderia olhar para
baixo. "De quê?"
Ele olhou para ela como se ele não pudesse entender por que ela estava fazendo
tanto por algo tão pequeno. "São minhas iniciais," ele disse. "J. C."
O precipício se abriu diante dela. Ela podia ver a longa queda em trevas. "Jonathan,"
ela disse ligeiramente. "Jonathan Christopher."
As sobrancelhas de Jace se levantaram juntas. "Como é que você...?"
Valentine o cortou. Sua voz era calmante. "Jace, eu tinha pensado em poupar você.
Pensei que a história de uma mãe que morreu iria magoá-lo menos do que a história
de uma mãe que abandonou você antes do seu primeiro aniversário."
Os delgados dedos de Jace se esticaram convulsivamente ao redor da haste do vidro.
Clary por um momento pensou que ela poderia quebrar. "Minha mãe está viva?"
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"Ela está," Valentine disse. "Viva, e dormindo em uma das salas abaixo neste
momento. Sim," ele disse, interrompendo Jace antes que ele pudesse falar, "JoceIyn
é a sua mãe, Jonathan. E Clary... Clary é sua irmã."
Jace jogou sua mão de volta. O cálice de vinho virou, derramando o espumante
líquido escarlate em toda a toalha branca.
"Jonathan," Valentine disse.
Jace estava em uma cor horrível, uma espécie de cor branca esverdeada. "Isso não é
verdade," ele disse. "Deve se um engano. Isso não pode ser verdade."
Valentine olhou firmemente para seu filho. "Um motivo de alegria," ele disse em uma
baixa, e contemplativa voz, “eu teria pensado. Ontem você era um órfão, Jonathan. E
agora tem um pai, uma mãe, uma irmã, que você nunca soube que você tinha."
"Não é possível," disse Jace novamente. "Clary não é a minha irmã. Se ela fosse..."
"Então o quê?" Valentine disse.
Jace não respondeu, mas o seu olhar doentio de horror nauseante foi suficiente para
Clary. Tropeçando um pouco, ela veio ao redor da mesa e se ajoelhou ao lado de sua
cadeira, para alcançar a mão dele. "Jace..."
Ele se jogou para longe dela, seus dedos batendo na toalha encharcada. "Não."
O ódio por Valentine queimava na garganta como lágrimas não derramadas. Ele se
encostou para trás, e por não dizer o que sabia, que ela era sua filha, fez dela sua
cúmplice em seu silêncio. E agora, depois de ter caído a verdade sobre eles com o
peso de uma triturante rocha, ele se assentava para ver os resultados com uma fria
consideração. Como Jace não podia ver quão odioso ele era?
"Me diga que isso não é verdade," Jace disse, olhando para a toalha.
Clary engoliu contra o ardor na garganta. "Eu não posso fazer isso."
Valentine soou como se ele estivesse sorrindo. "Então você admite agora que tenho
dito a verdade todo este tempo?"
"Não," ela disparou para trás, sem olhar para ele. "Você está dizendo mentiras com
um pouco de verdade misturada nelas, isso é tudo."
"Isto aumenta o cansaço," disse Valentine. "Se você quiser ouvir a verdade, Clarissa,
esta é a verdade. Você já ouviu as histórias da Revolta e por isso que você acha que
eu sou um vilão. Isso está correto?"
Clary não disse nada. Ela estava olhando para Jace, que parecia como se ele
estivesse prestes a vomitar. Valentine continuava com crueldade. "É simples,
realmente. A história que você ouviu era verdade em algumas de suas partes, mas
não em outras, mentiras misturadas como um pouco de verdade, como você disse. O
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fato é que Michael Wayland não é, e nunca foi o pai de Jace. Wayland foi morto
durante a Revolta. Eu assumi o nome de Michael e o lugar quando eu fugi da Cidade
de Vidro com o meu filho. Foi fácil; Wayland não tinha relações verdadeiras, e os seus
amigos mais íntimos, os Lightwoods, estavam no exílio. Ele próprio tinha estado em
desgraça por sua participação na Revolta, então eu vivi aquela vida desgraçada,
suficientemente calma, a sós com Jace na propriedade dos Waylands. Eu lia meus
livros. Educava o meu filho. E eu aguardava a minha hora." Ele tocava as filigranas
da ponta do copo pensativamente. Ele era canhoto, Clary viu. Como Jace.
"Dez anos depois, eu recebi uma carta. O escritor da carta indicava que ele sabia a
minha verdadeira identidade, e se eu não estivesse disposto a tomar certas medidas,
ele iria me revelar. Eu não sabia de quem era a carta, mas não importava. Eu não
estava preparado para dar ao escritor o que o que ele queria. Além disso, eu sabia
que a minha segurança estava comprometida, e que ao menos ele pensasse que eu
estava morto, além de seu alcance. Eu encenei a minha morte uma segunda vez, com
a ajuda de Blackwell e Pangorn, e para a própria segurança de Jace e a certeza que
meu filho seria enviado para cá, para a proteção do Lightwoods."
"Assim, você deixou Jace pensar que você estava morto? Você simplesmente deixou
ele pensar que você estava morto, todos estes anos? Isso é desprezível."
"Não," Jace disse novamente. Ele levantou as mãos para cobrir seu rosto. Ele falou
contra os seus próprios dedos, a voz abafada. "Não, Clary."
Valentine olhou para seu filho com um sorriso que Jace não podia ver. "Jonathan
tinha de pensar que eu estava morto, sim. Ele tinha de pensar que ele era o filho de
Michael Wayland, ou o Lightwoods não teriam protegido ele como o fizeram. Foi por
Michael que eles deviam uma dívida, não a mim. E era por este débito com Michael
que eles o amaram, não meu."
"Talvez eles o amassem por sua própria conta," disse Clary.
"Uma louvável interpretação sentimental," Valentine disse, "mas improvável. Você
não conhece os Lightwoods como uma vez eu conheci." Ele não pareceu ver a
hesitação de Jace, ou se ele viu, ele a ignorou. "Isso quase não importou, no final,"
Valentine acrescentou. "O Lightwoods foram destinados para a proteção de Jace, e
não como uma família substituta, você vê. Ele tem uma família. Ele tem um pai."
Jace fez um ruído em sua garganta, e moveu suas mãos para longe de seu rosto.
"Minha mãe..."
"Fugiu após a revolta," Valentine disse. "Eu era um homem desgraçado. A Clave iria
me caçar quando eles soubessem que eu tinha sobrevivido. Ela não pôde suportar a
sua associação comigo, e fugiu." A dor na voz dele era palpável e fingida, Clary
pensou amargamente. A manipuladora fluência. "Eu não sabia que ela estava grávida
naquele tempo. De Clary." Ele sorriu um pouco, correndo o dedo lentamente para
baixo no copo de vinho. "Mas o sangue chama sangue, como se costuma dizer," ele
continuou. "O destino nos deu esta convergência. Nossa família, junta novamente.
Podemos utilizar o Portal," ele disse, virando seu olhar para Jace. "Ir para Idris. Voltar
para a mansão."
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Jace estremeceu um pouco, mas concordou, ainda fitando entorpecidamente as suas
mãos.
"Nós vamos estar juntos lá," disse Valentine. "Como devemos estar."
Isso parece fantástico, Clary pensou. Só você, com sua esposa em coma, seu filho em
estado de choque, e sua filha, que odeia a sua cara de pau. Sem mencionar que seus
dois filhos podem estar apaixonados um pelo outro. Sim, isso soa como uma perfeita
reunião familiar. Alto, ela apenas disse: "Eu não vou a qualquer lugar com você, e
nem a minha mãe."
"Ele está certo, Clary," Jace disse roucamente. Ele flexionou suas mãos, as pontas
dos dedos estavam coradas em vermelho. "É o único lugar para nós irmos. Nós
podemos reparar as coisas lá."
"Você não pode estar falando sério."
Um enorme barulhou veio de baixo, tão alto que ele soava como se uma parede do
hospital tivesse desmoronado dentro dele. Luke, Clary pensou, saltando em seus pés.
Jace, apesar de seu olhar de nauseado horror, respondeu automaticamente, meio se
levantando de sua cadeira, sua mão indo ao seu cinto. "Pai, eles estão..."
"Eles estão a caminho." Valentine se colocou em seus pés. Clary ouviu passos. Um
momento depois a porta da sala foi aberta, e Luke ficou na soleira dela.
Clary engoliu um choro. Ele estava coberto de sangue, seu jeans e camiseta escura e
coagulada, a metade inferior de seu rosto com aquilo. Suas mãos estavam vermelhas
até os pulsos, o sangue que manchava elas ainda estava molhado e escorrendo. Ela
não tinha idéia se algum daquele sangue era dele. Ela se ouviu gritar seu nome, em
seguida, ela estava correndo por todo o quarto para ele, e quase tropeçou sobre si
mesma na sua ânsia de agarrar o peito da camisa dele e segurar, do jeito que ela não
fazia desde que ela tinha oito anos de idade.
Por um instante sua mão grande apareceu e fechou na parte detrás da cabeça dela,
segurando ela contra ele em com uma mão, um meio abraço de urso. Então ele a
empurrou delicadamente. "Eu estou coberto de sangue," ele disse. "Não se preocupe,
não é meu."
"Então, de quem ele é?" Era a voz de Valentine, e Clary se virou, o braço de Luke
protetoramente em seus ombros. Valentine estava olhando ambos, seus olhos
estreitos e engenhosos. Jace tinha se levantado sob seus pés e deu à volta na mesa e
estava parado hesitantemente atrás de seu pai. Clary não conseguia se lembrar dele
fazendo algo hesitante antes.
"De Pangborn," Luke disse.
Valentine passou uma mão sobre o seu rosto, como se a notícia fosse dolorosa para
ele. "Estou vendo. Você rasgou a garganta dele com os seus dentes?"
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"Na verdade," Luke disse, "eu matei ele com isso." Com sua mão livre ele segurou
uma longa e fina adaga que ele tinha matado o Esquecido. À luz ela podia ver as
pedras azuis no cabo. "Você se lembra?"
Valentine olhou para aquilo, e Clary viu sua mandíbula apertar. "Eu lembro," ele
disse, e Clary se perguntou se ele, também estava se lembrando da conversa anterior
deles.
Esta é uma kindjal, uma adaga caucasiana. Esta em particular era utilizada para ser
uma, em um par combinado.
"Você deu ela a mim a dezessete anos atrás e me disse para por um fim a minha vida
com ela," Luke disse, a arma firmemente agarrada em sua mão. A lâmina era mais
longa do que a lâmina da kindjal com punho vermelho no cinto de Jace, ela ficava em
algum lugar entre uma adaga e uma espada, e a lâmina tinha a ponta afilada. "E eu
quase o fiz."
"Você espera que eu negue isso?" Havia dor na voz de Valentine, a memória de uma
velha dor. "Eu tentei salvá-lo de si mesmo, Lucian. Cometi um grave erro. Se apenas
eu tivesse tido a força para matá-lo eu mesmo, você poderia ter morrido como um
homem."
"Tal como você?" Luke perguntou, e nesse momento Clary viu algo nele, do Luke que
ela tinha sempre conhecido, que poderia dizer quando ela estava mentindo ou
fingindo, que chamava sua atenção quando ela estava sendo arrogante ou falsa. Na
amargura da sua voz ela ouviu o amor quando ele tinha tido uma vez por Valentine,
coalhado em um cansado ódio. "Um homem que acorrenta sua esposa inconsciente
em uma cama na esperança de torturar ela por informação quando ela acordar? Essa
é a sua coragem?"
Jace estava olhando para seu pai. Clary viu o ataque de raiva que momentaneamente
retorceu as feições de Valentine, então ela tinha ido embora, e seu rosto estava
suave. "Eu não torturei ela," ele disse. "Ela está presa para sua própria proteção."
"Contra o quê?" Luke exigiu, andando para mais longe dentro da sala. "A única coisa
perigosa para ela é você. A única coisa que sempre ameaçou ela foi você. Ela passou
sua vida fugindo, para ficar longe de você."
"Eu a amava," Valentine disse. "Eu nunca teria machucado ela. Foi você que virou ela
contra mim."
Luke riu. "Ela não precisou de mim para se virar contra você. Ela aprendeu a te odiar
por ela mesma."
"Isso é uma mentira!" Valentine rosnou com súbita selvageria, e puxou a sua espada
da bainha em sua cintura. A lâmina era plana e preto fosco, padronizada com um
desenho de estrelas prateadas. Ele nivelou a espada para o coração de Luke.
Jace deu um passo em direção a Valentine. "Pai..."
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"Jonathan, faça silêncio!" gritou Valentine, mas era tarde demais; Clary viu o choque,
no rosto de Luke quanto ele olhou para Jace.
"Jonathan?" ele sussurrou.
A boca de Jace torcia. "Não me chame assim," ele disse ferozmente, seus olhos
dourados em chamas. "Eu mesmo vou te matar se você me chamar assim."
Luke, ignorando a espada apontada para seu coração, não tirava seus olhos de Jace.
"Sua mãe ficaria orgulhosa," ele disse, tão silenciosamente que mesmo Clary, em pé
ao lado dele, tinha se esforçado para o ouvir.
"Eu não tenho uma mãe," Jace disse. Suas mãos estavam tremendo. "A mulher que
me deu à luz foi para longe de mim antes que eu aprendesse a me lembrar do rosto
dela. Eu não era nada para ela, então ela não é nada para mim."
"Sua mãe não é a única que foi para longe de você," Luke disse, o seu olhar se
deslocando lentamente para Valentine. "Eu nunca teria pensado que mesmo você,"
ele disse lentamente, "usaria a sua própria carne e sangue, como isca. Acho que eu
estava enganado."
"Já chega." O tom de Valentine era quase lânguido, mas havia ferocidade no mesmo,
uma fome de ameaça de violência. "Deixe minha filha ir, ou eu vou te matar onde
você está."
"Eu não sou sua filha," disse Clary ferozmente, mas Luke a empurrou para longe dele,
tão forte que ela quase caiu.
"Saia daqui," ele disse. "Vá para um lugar seguro."
"Eu não vou deixar você!"
"Clary, eu quero dizer isso. Saia daqui." Luke já estava levantando sua adaga. "Esta
não é a sua luta."
Clary tropeçou para longe dele, em direção à porta que levava a passagem. Talvez
ela pudesse chamar por ajuda, por Alaric...
Então Jace estava na frente dela, bloqueando seu caminho para a porta. Ela tinha se
esquecido do quão rápido ele se movia, macio como um gato, rápido como a água.
"Você está louca?" ele sibilou. "Eles quebraram a porta da frente. Este lugar vai estar
cheio de Esquecidos."
Ela se empurrou nele. "Me deixe sair."
Jace a segurou de volta com uma aperto como ferro. "E então eles poderem te rasgar
em pedaços? Sem chance."
Um forte choque de metais soou atrás dela. Clary se puxou para longe de Jace e viu
que Valentine tinha golpeado Luke, que tinha desviado do seu golpe por uma orelha –
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da espada. Suas espadas cairam à parte, e agora eles estavam se movendo ao longo
do chão, em um borrão de fintas e golpes.
"Oh, meu Deus," ela sussurrou. "Eles vão se matar um ao outro."
Os olhos de Jace estavam quase pretos. "Você não entende," ele disse. "Isto é como
faz..." Ele interrompeu e sugou um respiração enquanto Luke deslizava passando a
guarda de Valentine, pegando ele em um golpe através do ombro. O sangue fluiu
livremente, manchando o pano de sua camisa branca.
Valentine jogou sua cabeça para trás e riu. "Um verdadeiro talento," ele disse. "Eu
não pensei que você o tinha, Lucian."
Luke estava muito ereto, a faca bloqueando o seu rosto da visão de Clary. "Você
mesmo me ensinou este movimento."
"Mas isso foi há anos atrás," disse Valentine em uma voz como seda pura, "e desde
então, você dificilmente precisou usar uma espada, não é? Não quando você tem
garras e dentes à sua disposição."
"Tudo do melhor para arrancar o seu coração."
Valentine balançou a cabeça. "Você arrancou o meu coração anos atrás," ele disse, e
mesmo Clary não podia dizer se a tristeza em sua voz era verdadeira ou falsa.
"Quando você me traiu e me desertou." Luke o atingiu novamente, mas Valentine foi
rapidamente para trás através do chão. Para um homem grande, ele se movia com
leveza surpreendente. "Foi você que virou minha esposa contra sua própria espécie.
Você veio a ela quando ela estava mais fraca, com sua pena, sua indefesa
necessidade. Eu estava distante, e ela achou que você a amava. Ela era um tola."
Jace estava tenso como um fio ao lado de Clary. Ela podia sentir a sua tensão, como
as faíscas saindo por um cabo elétrico. "Essa é a sua mãe que Valentine está
falando," ela disse.
"Ela me abandonou," Jace disse. "Mamãe."
"Ela pensou que você estava morto. Você quer saber como eu sei disso? Porque ela
mantinha uma caixa em seu quarto. Tinha suas iniciais nela. J.C."
"Então, ela tinha uma caixa," Jace disse. "Muitas pessoas tem caixas. Guardam coisas
nelas. É uma moda crescente, eu ouvi."
"Tinha um cacho do seu cabelo nela. Cabelo de bebê. E uma fotografia, talvez duas.
Ela costumava pegar ela a cada ano e chorar sobre isso. Chorando terrivelmente com
o coração-partido..."
A mão de Jace se apertou do seu lado. "Pare com isso," ele disse entre os dentes.
"Parar o quê? De dizer a você a verdade? Ela pensou que você tinha morrido – ela
nunca teria deixado você se ela soubesse que você estava vivo. Ela pensou que o seu
pai estava morto..."
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"Eu vi ele morrer! Ou eu pensei que eu tinha visto. Eu apenas não... apenas ouvi
sobre isso e escolhi acreditar nisso!"
"Ela encontrou seus ossos queimados," Clary disse quietamente. "Nas ruínas de sua
casa. Juntamente com os ossos da mãe e do pai dela."
Finalmente Jace olhou para ela. Ela viu a descrença plana em seus olhos, e em torno
de seus olhos, o esforço em manter essa descrença. Ela podia ver, quase como se via
através de um glamour, a frágil construção de sua fé em seu pai que ele usou como
uma armadura transparente, o protegendo da verdade. Em algum lugar, ela pensou,
havia uma fissura naquela armadura, em algum lugar, se ela pudesse encontrar as
palavras certas, poderia ser aberta a brecha.
"Isso é ridículo," ele disse. "Eu não morri – não havia ossos."
"Havia."
"Então isso era um encantamento," ele disse bruscamente.
"Pergunte ao seu pai o que aconteceu com sua sogra e seu sogro," Clary disse. Ela
chegou a tocar a sua mão. "Pergunte a ele se isso era um glamour, também..."
"Cale a boca!" O controle de Jace quebrou e ele se virou sobre ela, lívido. Clary viu o
olhar de Luke na direção deles, assustado pelo barulho, e nesse momento de
distração Valentine mergulhou sob sua guarda e, com um único impulso a frente,
dirigiu a lâmina da sua espada no peito de Luke, logo abaixo de sua clavícula.
Os olhos de Luke alargaram-se como se em espanto, em vez de dor. Valentine puxou
sua mão para trás, e deslizou a lâmina de volta, manchada de vermelho até o cabo.
Com uma forte gargalhada Valentine o golpeou novamente, desta vez retirando a
arma da mão de Luke. Ela bateu no chão com um tinido oco e Valentine a chutou com
força, a enviando girando para debaixo da mesa, enquanto Luke caia.
Valentine levantou a espada preta sobre o corpo deitado de Luke, pronto para dar o
ataque assassino. Incrustada estrelas prateadas brilharam ao longo do comprimento
da lâmina e Clary pensou, congelada em um momento de horror, como poderia algo
tão mortal ser tão bonita?
Jace, como se sabendo o que Clary iria fazer, antes que ela o fizesse, girou sobre ela.
"Clary..."
O momento passou congelado. Clary se retorceu se afastando de Jace, esquivando do
alcance de suas mãos, e correu pelo chão de pedra para Luke. Ele estava no chão, se
apoiando com um braço; Clary se atirou sobre ele, enquanto a espada de Valentine
vinha descendo.
Ela viu os olhos de Valentine enquanto a espada despencava na direção dela, aquilo
pareceu como um interminável período de tempo, embora ela só poderia ter sido em
um piscar de segundo. Ela viu que ele poderia parar o golpe se ele quisesse. Viu que
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ele sabia que ela poderia ser acertada se ele não parasse. Viu que ele faria aquilo de
qualquer jeito.
Ela jogou as mãos para cima, apertando os olhos fechados...
Houve um som estridente. Ela ouviu Valentine gritar, e ela olhou acima e viu ele
segurando, sem a espada, a mão que estava sangrando. A kindjal de cabo vermelho
descansava a vários metros sobre o piso de pedra, ao lado da espada negra. Passado
o susto, ela viu Jace na porta, o braço dele ainda levatado, e percebeu que ele deve
ter jogado a adaga com força suficiente para atingir a espada preta para fora da mão
de seu pai.
Muito pálido, ele baixou lentamente o braço dele, seus olhos sobre Valentine largos e
suplicantes. "Pai, eu..."
Valentine olhava para sua mão sangrando, e por um momento, Clary viu um espasmo
de raiva cruzar seu rosto, como uma luz cintilante. Sua voz, quando falou, era leve.
"Este foi um excelente lançamento, Jace."
Jace hesitou. "Mas a sua mão. Achei..."
"Eu não teria machucado sua irmã," disse Valentine, movendo rapidamente para
recuperar tanto a espada e quanto a kindjal vermelha, que ele prendeu através de
seu cinto. "Eu teria parado o golpe. Mas a sua preocupação com a família é louvável."
Mentiroso. Mas Clary não teve tempo para xingar Valentine. Ela se virou para olhar
para Luke e sentiu uma forte pancada de náusea. Luke estava deitado sobre suas
costas, os olhos semi-fechados, sua respiração irregular. Sangue borbulhava do
buraco na sua camisa rasgada.
"Preciso de um curativo," Clary disse em um colapso de voz. “Panos... qualquer
coisa.”
"Não se mova, Jonathan," disse Valentine em uma voz cortante, e Jace congelou onde
estava, a mão já chegando no bolso. "Clarissa," seu pai disse, em uma voz tão
derretida quanto um astuto aço com manteiga, "este homem é um inimigo da nossa
família, um inimigo da Clave. Nós somos caçadores, e isso significa que, às vezes,
somos assassinos. Certamente você entende isso."
"Caçadores de demônios," Clary disse. "Demônios mortais. Não assassinos. Há uma
diferença."
"Ele é um demônio, Clarissa," Valentine disse, ainda na mesma voz suave. "Um
demônio com um rosto de homem. Sei como tais monstros podem ser enganadores.
Lembre-se, uma vez eu mesmo poupei ele."
"Monstro?" Clary ecoou. Ela pensou em Luke, Luke a empurrando no balanços quando
tinha cinco anos, mais alto, sempre mais alto; Luke em sua formatura do primeiro
grau, a câmera clicando ao longe como um orgulhoso pai; Luke escolhendo através
de cada caixa de livros quando chegava a sua loja, procurando por alguma coisa que
ela iria gostar e pondo de lado. Luke a levantando para puxar para baixo as maçãs
das árvores perto de sua fazenda. Luke, cujo lugar como seu pai, este homem estava
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tentando tirar. "Luke não é um monstro," ela disse em uma voz que combinava com a
de Valentine, aço com aço. "Ou um assassino. Você é."
"Clary!" Era Jace.
Clary ignorou ele. Seus olhos estavam fixos sobre os frios e negros do pai. "Você
matou os pais de sua esposa, e não em batalha, mas a sangue frio," ela disse. "E eu
aposto que você assassinou Michael Wayland e seu filho, também. Atirou seus ossos
com os meus avós, para que minha mãe pensasse que você e Jace estivessem
mortos. Colocando seu colar em torno do pescoço de Michael Wayland antes de o
queimar, assim todas as pessoas pensariam que os ossos eram de vocês. E depois de
tudo você fala sobre o sangue incontaminado da Clave – você não se importa sobre o
sangue deles ou com os inocentes que você matou, não é? Abate pessoas idosas e
crianças a sangue frio, isso é monstruoso."
Outro espasmo de raiva contorceu as feições de Valentine. "Chega!" Valentine rugiu,
levantando a espada preta estrelada novamente e Clary ouviu a verdade de que ele
estava em sua voz, a raiva que tinha impelido ele toda a sua vida. As intermináveis
borbulhante raiva. "Jonathan! Arraste sua irmã para fora do meu caminho, ou pelo
Anjo, eu vou acertar ela, para matar o monstro que ela está protegendo!"
Por um breve momento Jace hesitou. Então ele levantou a cabeça. "Certamente, pai,"
disse ele, e atravessou a sala até Clary. Antes que ela pudesse jogar suas mãos para
se desviar dele, ele a segurou duramente com seu braço. Ele a empurrou, arrastando
ela para longe de Luke.
"Jace," ela sussurrou, horrorizada.
"Não," ele disse. Seus dedos escavando dolorosamente em seus braços. Ele cheirava
a vinho, a metal e suor. "Não fale comigo."
"Mas."
"Eu disse, não fale." Ele a sacudiu, forte. Ela tropeçou, e recuperando seu apoio,
olhou para ver Valentine de pé, encarando fixamente o corpo caído de Luke. Ele
aproximou com firmeza a ponta da bota e chutou Luke, que fez um barulho asfixiado.
"Deixe ele em paz!" Clary gritou, tentando se empurrar para longe do alcance de
Jace. Era inútil, ele era muito forte.
"Pare," ele sibilou na sua orelha. "Você só vai tornar a situação pior para você. É
melhor se você não olhar."
"Como você faz?" ela sibilou de volta. "Fechar os olhos e fingir que nada está
acontecendo, não faz isso ser verdade, Jace. Você deveria saber melhor..."
"Clary, pare."
Seu tom quase surpreendeu ela. Ele soava desesperado.
Valentine estava gargalhando. "Se apenas eu tivesse pensado," ele disse, "em trazer
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comigo uma espada de prata verdadeira, eu poderia ter despachado você na
verdadeira forma de sua verdadeira espécie, Lucian."
Luke rugiu algo que Clary não pôde ouvir. Ela esperou que fosse rude. Ela tentou
girar se afastando de Jace. Seus pés escorregaram e ele segurou ela, puxando as
costas dela com uma agonizante força. Ele tinha os braços em torno dela, ela pensou,
mas não do jeito que ela tinha uma vez esperado, não como ela nunca tinha
imaginado.
"Pelo menos deixe eu me levantar," disse Luke. "Deixe-me morrer sob meus pés."
Valentine olhou para ele, ao longo do comprimento da espada, e encolheu os ombros.
"Você pode morrer deitado ou de joelhos," ele disse. "Mas só um homem merece
morrer de pé, e você não é um homem."
"NÃO!" Clary gritou enquanto, sem olhar para ela, Luke começou a se puxar
dolorosamente em uma posição ajoelhada.
"Porque você tem que fazer o que é pior para si mesma?" Jace exigiu em um baixo, e
tenso sussurrar. "Eu te disse para não olhar."
Ela estava arquejando com esforço e dor. "Porque você tem que mentir para você
mesmo?"
"Não estou mentindo!" Sua contenção sobre ela estava apertado selvagemente,
embora ela não tivesse tentado se puxar para longe. "Eu apenas quero o que é
melhor em minha vida, meu pai, minha família, eu não posso perder tudo de novo."
Luke estava ajoelhado ereto agora. Valentine havia levantado a espada manchada de
sangue. Os olhos de Luke estavam fechados, e ele estava murmurando alguma coisa:
palavras, uma oração, Clary não sabia. Ela se contorceu nos braços Jace, se
afastando ao redor para que ela pudesse olhar para cima em seu rosto. Seus lábios
estavam tensamente finos, o seu maxilar apertado, mas seus olhos...
A frágil armadura estava quebrando. Era necessário apenas um último empurrão
dela. Ela lutava pelas palavras.
"Você tem uma família," disse ela. "Família, são apenas aquelas pessoas que Amam
você. Como os Lightwoods amam você. Alec, Isabelle..." Sua voz se quebrou. "Luke é
minha família, e você vai me fazer vê-lo morrer como você pensou que você viu seu
pai morrer quando tinha dez anos? É isso que você quer, Jace? É este o tipo de
homem que deseja ser?”
“Como –”
Ela se interrompeu, subitamente aterrorizada que ela tivesse ido longe demais.
"Tal como o meu pai," disse ele. Sua voz era gelada, distante, plana como a lâmina
de uma faca.
Eu o perdi, ela pensou desesperadamente.
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"Se abaixe," ele disse, e a empurrou, forte. Ela tropeçou, caiu ao chão, rolando em
um joelho. Ajoelhada na vertical, ela viu Valentine levantar sua espada acima de sua
cabeça. O brilho do lustre acima de sua cabeça tocando ao longo da espada enviando
brilhantes pontos de luz agudos em seus olhos. "Luke!" gritou.
A lâmina bateu dentro do chão da casa. Luke não estava longe de lá. Jace, tinha se
movido mais rápido do que Clary teria pensado ser possível até mesmo para um
Caçador de Sombras, ele se jogou no seu caminho, enviando Luke se esparramando
de lado. Jace se pôs de pé encarando seu pai por acima do cabo trêmulo da espada,
com o rosto branco, mas seu olhar era firme.
"Eu acho que você deveria ir," Jace. disse
Valentine olhou incredulamente para seu filho. "O que você disse?"
Luke tinha puxado a si mesmo em uma posição sentada. Sangue fresco manchando
sua camisa. Ele olhou para Jace enquanto chegava uma mão gentil, quase
desinteressadamente, acariciando o cabo da espada, que tinha sido empurrada para o
chão. "Eu acho que você me ouviu, pai."
A voz de Valentine era como um chicote. "Jonathan Morgenstern."
Rápido como um relâmpago, Jace segurou o cabo da espada, retirando ela livre da
placa do piso, e a levantou. Ele a segurou, equilibrada e plana, a ponto de pairar a
poucos centímetros abaixo do queixo do pai.
"Este não é o meu nome," ele disse. "Meu nome é Jace Wayland."
O olhos de Valentine estavam fixados em Jace, ele quase não parecia a notar a
espada na garganta dele. "Wayland?" rosnou ele. "Você não tem o sangue de
Wayland! Michael Wayland era um estranho para você..."
"Então," Jace disse calmamente, "você é." Ele puxou a espada para a esquerda.
"Agora mova-se."
Valentine balançou sua cabeça. "Nunca. Eu não recebo ordens de uma criança."
A ponta da espada tocou a garganta de Valentine. Clary olhou em um fascinado
horror. "Eu sou uma criança muito bem treinada," Jace disse. "Você me instruiu na
precisa arte de matar. Eu só preciso mover dois dedos para cortar sua garganta, você
sabia disso?" Seus olhos eram acirrados. "Eu suponho que sim."
"Você é hábil o suficiente," disse Valentine. Seu tom era desprezível, mas, Clary
notou que, ele permanecia muito parado ainda. "Mas você não pode me matar. Você
sempre foi piedoso."
"Talvez ele não pudesse." Era Luke, em seus pés agora, pálido e sangrento, mas em
pé. "Mas eu posso. E eu não estou completamente certo de que ele poderia me
parar."
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Os olhos de Valentine febrilmente piscavam para Luke, e de volta para seu filho. Jace
não tinha virado quando Luke falou, mas se mantinha ainda como uma estátua, a
espada imóvel em sua mão. "Você ouviu o monstro me ameaçando, Jonathan,"
Valentine disse. "Você apoia isso?"
"Tem um ponto," Jace disse suavemente. "Não estou inteiramente certo que eu
poderia detê-lo se ele quisesse lhe fazer algum dano. Lobisomens cicatrizam tão
rápido."
O lábio de Valentine curvou. "Então," ele cuspiu, "como sua mãe, você prefere esta
criatura, esta coisa demônio semi-gerada do que seu próprio sangue, sua própria
família?"
Pela primeira vez, a espada na mão de Jace pareceu tremer. "Você me deixou quando
eu era uma criança," ele disse em uma cuidadosa voz. "Você me deixou pensar que
estava morto e me mandou embora para viver com estranhos. Você nunca me disse
que eu tinha uma mãe, uma irmã. Você me deixou sozinho." A palavra era um choro.
"Fiz isso por você, para mantê-lo seguro," protestou Valentine.
"Se você se importava com Jace, se você se preocupasse com o sangue, você não
teria matado seus avós. Vocês assassinou pessoas inocentes," Clary interrompeu,
furiosa.
"Inocente?" Valentine respondeu. "Ninguém é inocente em uma guerra! Eles estavam
ao lado de Jocelyn contra mim! Eles teriam deixado ela levar meu filho de mim!"
Luke deixar sair um assobio na respiração. "Você sabia que ela ia deixar você," ele
disse. "Você sabia que ela ia fugir, antes mesmo da revolta?"
"Claro que eu sabia!" Valentine rosnou. Seu frio controle tinha rachado e Clary podia
ver a derretida fúria fervilhando por baixo, endurecendo os tendões em seu pescoço,
cerrando suas mãos em punhos. "Eu fiz o que tinha que fazer, proteger a mim
mesmo, e no final eu lhes dei mais do que nunca mereceram: uma pira de funeral
concedida apenas para os maiores guerreiros da Clave!"
"Você queimou eles," Clary disse sem rodeios.
"Sim!" Valentine gritou. "Eu os queimei."
Jace fez um ruído estrangulado. "Meus avós..."
"Você nunca soube deles," Valentine disse. "Não finja uma dor que você não sente."
A ponta da espada estava tremendo mais rapidamente agora. Luke colocou uma mão
sobre o ombro Jace. "Firme," ele disse.
Jace não olhou para ela. Ele estava respirando como se ele tivesse estado correndo.
Clary podia ver o suor cintilando sobre a acentuada divisão de sua clavicula, jogando
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seu cabelo para suas temporas. As veias eram visíveis ao longo das costas de suas
mãos. Ele vai matá-lo, ela pensou. Ele vai matar Valentine.
Ela andou rapidamente a frente. "Jace, precisamos da Taça. Ou você sabe o que ele
irá fazer com ela."
Jace lambeu seus lábios secos. "A Taça, pai. Onde ela está?"
"Em Idris," Valentine disse calmamente. "Onde você nunca irá encontrá-la."
A mão de Jace estava tremendo. "Me diga..."
"Me dê a espada, Jonathan." Era Luke, sua voz calma, mesmo tipo.
Jace soou como se ele estivesse falando do fundo de um poço. "O quê?"
Clary deu um passo em frente. "Dê a espada a Luke. Deixe ele pegá-la Jace."
Ele agitou sua cabeça. "Eu não posso fazer isso."
Ela deu outro passo em frente, mais um, e ela desejou estar perto o suficiente para
tocá-lo. "Sim, você pode," ela disse suavemente. "Por favor."
Ele não olhou para ela. Seus olhos estavam fechados em seu pai. O momento se
prolongou, mais e mais, interminável. Finalmente ele acenou, curtamente, sem
baixar a mão dele. Mas ele deixou Luke se deslocar para se colocar ao lado dele, e
colocar a sua mão sobre a de Jace, no cabo da espada. "Você pode soltá-la agora,
Jonathan," Luke disse, e depois, vendo o rosto de Clary, se corrigiu. "Jace."
Jace pareceu não ter ouvido ele. Ele soltou o cabo e se afastou de seu pai. Um pouco
da cor de Jace tinha voltado, e ele estava agora com um tom mais como massa de
vidraceiro, seu lábio sangrando onde ele tinha mordido. Clary desejou tocar ele, por
seus braços em volta dele, sabendo que ele nunca iria deixá-la.
"Tenho uma sugestão,"
surpreendente.
Valentine
disse
para
Luke,
em
um
mesmo
tom
"Me deixe adivinhar," Luke disse. "É 'Não me mate‟, não é?"
Valentine riu, um som sem qualquer humor nele. "Eu dificilmente me rebaixaria
suplicando por minha vida," ele disse.
"Bom," disse Luke, cutucando o queixo do outro homem com sua lâmina. "Não vou te
matar a menos que você force a minha mão, Valentine. Eu me nego a assassiná-lo na
frente dos seus próprios filhos. O que eu quero é a Taça."
O barulho abaixo das escadas estava mais alto agora. Clary podia ouvir o que soava
como pegadas no corredor lá fora. "Luke..."
"Eu ouvi," ele reclamou.
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"A Taça está em Idris, eu te disse," disse Valentine, seus olhos se desviando além de
Luke.
Luke estava suando. "Se está em Idris, você usou o Portal para levá-la para lá. Eu
vou com você. Trazê-la de volta." Os olhos de Luke estavam inquietos. Havia mais
movimento no corredor lá fora agora, sons de gritos, de alguma coisa se quebrando.
"Clary, fique com o seu irmão. Depois que nós passarmos, vocês usem o Portal para
os levarem para um lugar seguro."
"Não vou sair daqui," Jace disse.
"Sim, você vai." Algo estrondou contra a porta. Luke levantou sua voz, "Valentine, o
Portal. Mexa-se."
"Ou o quê?" Os olhos de Valentine estavam fixados
consideração.
na porta com um olhar de
"Eu vou matar você, se você forçar a minha mão," Luke disse. "Na frente deles, ou
não. O portal, Valentine. Agora."
Valentine estendeu suas mãos largamente. "Se você quiser."
Ele andou ligeiramente para trás, justo quando a porta explodiu adentro, espalhando
as dobradiças em todo o piso. Luke mergulhou para fora do caminho evitando ser
esmagado pela queda da porta, girando quando ele fez isso, a espada ainda na sua
mão.
Um lobo permaneceu na entrada, uma montanha de rosnar, pêlos listrados, ombros
arqueados para frente, os lábios curvados para trás e acima rosnando entre os
dentes. Sangue escorria de inúmeros talhos em sua pele.
Jace estava praguejando suavemente, uma lâmina serafim já em sua mão. Clary
segurou o seu pulso. "Não, ele é um amigo."
Jace lhe atirou um olhar incrédulo, mas baixou seu braço.
"Alaric..." Luke gritou alguma coisa em seguida, em uma linguagem que Clary não
entendeu. Alaric rosnou novamente, se abaixando mais perto do chão, e por um
momento confuso ela pensou que ele ia atirar-se em Luke. Então ela viu a mão de
Valentine em seu cinto, o flash das jóias vermelhas, e percebeu que tinha esquecido
que ele ainda tinha a adaga de Jace.
Ela ouviu uma voz gritar o nome de Luke, apesar disso ela então percebeu que sua
garganta parecia colada com cola, e que era Jace quem tinha gritado.
Luke saltou na vertical ao redor, dolorosamente lento, pareceu, enquanto a faca na
mão esquerda de Valentine voava em direção dele como uma borboleta prata,
girando mais e mais no ar. Luke levantou sua lâmina e algo enorme e marrom
amarelado e cinza se empurrou entre ele e Valentine. Ela ouviu o ulular de Alaric,
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aumentando, de repente morrendo; ouviu o som como da lâmina atingindo. Ela arfou
e tentou correr em frente, mas Jace puxou ela de volta.
O lobo caído aos pés de Luke, o sangue manchando seus pêlos. Delicadamente, com
suas patas, Alaric agarrou o cabo da faca projetada em seu peito.
Valentine riu. "E esta é a forma como você reembolsa a lealdade inqüestionável que
você comprou tão barato, Lucian," disse ele. "Ao deixá-los morrer por você." Ele
estava indo para trás, seus olhos ainda sobre Luke.
Luke, de rosto pálido, olhou para ele, e então abaixo para Alaric; agitou sua cabeça
uma vez, e caiu de joelhos, inclinando sobre o lobisomem morto. Jace, ainda
segurando Clary pelos ombros, sibilou, "Fique aqui, está me ouvindo? Fique aqui," e
depois seguiu Valentine, que estava correndo, inexplicavelmente, em direção à
parede ao longe. O plano dele era se lançar afora pela janela? Clary poderia ver o seu
reflexo no grande espelho emoldurado em ouro, enquanto ele se aproximava, a
expressão em seu rosto, uma espécie de alívio sarcástico cheia com uma fúria
assassina.
"O inferno que eu vou," ela murmurou, seguindo Jace. Ela parou apenas para pegar a
kindjal com punho azul no chão debaixo da mesa, onde Valentine tinha chutado ela. A
arma na mão dela a fez se sentir confortável agora, tranqüilizando, enquanto ela
empurrava uma cadeira caída para fora de seu caminho e se aproximava do espelho.
Jace tinha retirado a lâmina serafim, a sua luz lançando uma forte iluminação acima,
escurecendo os círculos sob seus olhos, as cavidades das suas bochechas. Valentine
tinha se virado e ficou delineado em sua luz, suas costas contra o espelho. Na sua
superfície Clary também pode ver Luke atrás deles, que tinha posto sua espada para
baixo, e estava puxando o cabo vermelho da kindjal para fora do peito de Alaric,
suavemente e com cuidado. Ela se sentiu doente e agarrou a sua própria lâmina mais
firmemente. "Jace..." ela começou.
Ele não se virou para olhar para ela, embora, evidentemente que ele pudesse vê-la
no reflexo do espelho. "Clary, eu te disse para esperar."
"Ela é como a mãe dela," Valentine disse. Uma de suas mãos estava atrás dele, ele
estava se movendo ao longo da borda da pesada moldura dourada do espelho. "Não
gosta de fazer o que lhe dizem."
Jace não estava tremendo como ele tinha estado mais cedo, mas Clary podia sentir o
quão fino seu controle tinha sido esticado, como uma pele ao longo de um tambor.
"Eu vou com ele para Idris, Clary. Vou trazer a Taça de volta."
"Não, você não pode," Clary começou, e viu, no espelho, como seu rosto retorceu.
"Você tem uma idéia melhor?" Ele reclamou.
"Mas Luke..."
"Lucian," Valentine disse em uma voz como seda, "está se ocupando com um
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companheiro caído. Enquanto a Taça, e Idris, não estão longe. Através do espelho,
por assim dizer."
Os olhos de Jace se estreitaram. "O espelho é o Portal?"
Os lábios de Valentine afinaram e ele soltou sua mão, se deslocando atrás do espelho
como se a imagem nela girasse e mudasse como aquarelas se movendo em uma
pintura. Em vez da sala escura com a madeira e velas, Clary agora podia ver os
campos verdes, as grossas folhas esmeraldas das árvores, bem como uma vasta
campina varrer para baixo para uma grande casa de pedra à distância. Ela podia
ouvir o som vibrante de abelhas e o sussurro do vento nas folhas, e cheiro de
madressilvas transportadas pelo vento.
"Eu disse a você que não estava longe." Valentine colocou-se no que era agora um
dourado pórtico arqueado, o cabelo dele se movendo no mesmo vento que agitava as
folhas sobre as árvores distantes. "É como você se lembra dela, Jonathan? Tem algo
mudado?"
O coração de Clary apertou dentro de seu peito. Ela não tinha dúvida que aquilo era a
casa da infância de Jace, apresentada para tentá-lo como você poderia seduzir uma
criança com doces ou um brinquedo. Ela olhou em direção a Jace, mas ele não
pareceu ver ela de modo algum. Ele estava olhando para o Portal, e a visão além dos
campos verdes e da mansão. Ela viu o rosto dele suavizar, a saudosa curva de sua
boca, como se ele estivesse olhando para alguém que ele amava.
"Você ainda pode voltar para casa," disse seu pai. A luz da lâmina serafim que Jace
segurava jogou a sombra dele para trás que parecia se mover através do Portal,
escurecendo os brilhante campos, além da campina.
O sorriso desapareceu da boca de Jace. "Essa não é a minha casa," ele disse. "Esta é
a minha casa agora."
Um espasmo de fúria contorceu suas feições, Valentine olhou para seu filho. Ela
nunca iria esquecer aquele olhar – aquilo fez ela sentir um súbito e selvagem anseio
por sua mãe. Porque não importava o quão irritada sua mãe tinha ficado com ela,
Jocelyn nunca olhou para ela assim. Ela sempre tinha olhado para ela com amor.
Se ela pudesse sentir mais pena por Jace do que ela já sentia, ela então teria
sentindo.
"Muito bem," Valentine disse, e deu um rápido passo para trás através do Portal, para
que seus pés atingissem a terra de Idris. Seus lábios curvados em um sorriso. "Ah,"
ele disse, "casa."
Jace tropeçou à beira do Portal antes de parar, uma mão contra a moldura dourada.
Uma estranha hesitação parecia ter tomado conta dele, mesmo com Idris tremulando
diante de seus olhos como uma miragem no deserto. Isso só levaria um passo...
"Jace, não," disse Clary rapidamente. "Não vá atrás dele."
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"Mas a Taça," Jace disse. Ela não pôde dizer o que ele estava pensando, mas a lâmina
em sua mão estava se agitando violentamente enquanto sua mão tremia.
"Deixe a Clave pegá-la! Jace, por favor." Se você passar por esse portal, você pode
nunca mais voltar. Valentine vai matar você. Você não quer acreditar, mas ele irá.
"A sua irmã tem razão." Valentine estava de pé no meio de uma grama verde e flores
selvagens, as lâminas flutuando em torno de seus pés, e Clary percebeu que apesar
deles estarem a centimetros de distância um do outro, elas se situavam em
diferentes países. "Você realmente acha que pode vencer isto? Apesar de você ter
uma lâmina serafim e eu estar desarmado? Não apenas sou mais forte do que você,
mas duvido que você possa me matar. E você vai ter que me matar, Jonathan, antes
que eu dê a Taça para você."
Jace firmou seu aperto sobre a lâmina do anjo. "Eu posso..."
"Não, você não pode." Valentine chegou fora, através do Portal, e agarrou o pulso de
Jace com sua mão, o arrastando até a ponta da lâmina serafim tocar seu peito.
Quando a mão de Jace e seu pulso passaram através do Portal, eles pareceram
tremular, como se tivessem sido arremessados em água. "Faça isso, então,"
Valentine disse. "Impulsione a lâmina. Sete, talvez dez centímetros." Ele puxou a
lâmina a frente, a ponta do punhal cortando o tecido de sua camisa. Um círculo
vermelho como uma papoula floresceu um pouco acima de seu coração. Jace, com
um suspiro, puxou seu braço se libertando e cambaleou para trás.
"Como eu pensei," disse Valentine. "Muito piedoso." E com uma chocante surpresa ele
jogou seu punho em direção a Jace. Clary gritou, mas o golpe não o acertou: uma
vez que atingiu a superfície do Portal entre eles, com um som como mil coisas frágeis
se estilhaçando. Como teias de aranha fendendo o vidro-que-não-era-vidro, a última
coisa que Clary ouviu antes que o Portal se dissolvesse em um dilúvio de cacos
barulhentos, foi a risada irônica de Valentine.
Vidro agitou-se ao longo do chão como uma ducha de gelo, uma estranhamente bela
cascata de cacos prateados. Clary foi para trás, mas Jace manteve-se ainda imóvel
enquanto chovia vidro em torno dele, olhando para a moldura vazia do espelho.
Clary tinha esperado que ele xingasse, gritasse ou amaldiçoa-se seu pai, mas em vez
disso ele só esperou que cacos parassem de cair. Quando eles pararam, ele se
ajoelhou silenciosamente e cuidadosamente na bagunça de vidros quebrados, pegou
um dos pedaços maiores, virando ele para cima em suas mãos.
"Não." Clary se ajoelhou ao lado dele, colocando para baixo a faca que ela tinha
estado segurando. Sua presença já não a confortava. "Não havia nada que você
pudesse ter feito."
"Sim, havia." Ele ainda estava olhando abaixo para o vidro. Lascas quebradas
salpicavam o seu cabelo. "Eu podia ter matado ele." Ele virou o caco para ela. "Olhe,"
disse ele.
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Ela olhou. No pedaço de vidro que ela ainda podia ver, uma parte de Idris, um pouco
de céu azul, a sombra das folhas verdes. Ela exalou dolorosamente. "Jace..."
"Vocês estão bem?"
Clary olhou para cima. Era Luke, parado perto deles. Ele estava desarmado, os olhos
dele afundados em círculos azuis de exaustão. "Estamos bem," ela disse. Ela podia
ver uma figura machucada no chão atrás dele, semi-coberta com o longo casaco de
Valentine. Uma mão projetava-se por baixo da borda do tecido, ela estava curvada
com garras.
"Alaric...?"
"Está morto," Luke disse. Havia um abundante controle da dor em sua voz, embora
ela mal tivesse conhecido Alaric, Clary sabia que o esmagador peso da culpa iria ficar
com ele para sempre. E Esta é a forma como você reembolsa a inquestionável
lealdade que você comprou tão barato, Lucian. Deixando eles morrerem por você.
"Meu pai fugiu," disse Jace. "Com a Taça." Sua voz era monótona. "Nós demos ela
direto para ele. Eu falhei."
Luke deixou cair uma de suas mãos sobre a cabeça de Jace, limpando o vidro de seu
cabelo. Suas garras ainda estavam pra fora, seus dedos manchados de sangue, mas
Jace recebeu seu toque, como se ele não se importasse, e não disse nada. "Não é sua
culpa," Luke disse, olhando abaixo para Clary. Seus olhos azuis eram serenos. Eles
diziam: Seu irmão precisa de você, fique com ele.
Ela acenou, e Luke os deixou e foi para a janela. Ele a colocou aberta, enviando uma
corrente de ar através da sala que apagou as velas. Clary podia ouvir ele gritando,
chamando os lobos abaixo.
Ela se ajoelhou ao lado de Jace. "Está tudo bem," disse ela hesitantemente, embora
claramente não estava, e nunca poderia estar novamente, e ela colocou a mão sobre
seu ombro. O pano de sua camisa era áspero sob seus dedos, úmido com suor,
estranhamente reconfortante. "Nós temos a minha mãe de volta. Nós temos você.
Nós temos tudo o que importa."
"Ele tinha razão. É por isso que eu não podia me fazer passar pelo portal," Jace
sussurrou. "Eu não podia fazer isso. Eu não podia matá-lo."
"A única maneira que você teria falhado," ela disse, "é se você tivesse."
Ele não disse nada, apenas sussurrou algo debaixo de sua respiração. Ela não podia
ouvir bem as palavras, mas ela se aproximou e tirou um pedaço de vidro fora de sua
mão. Ele estava sangrando quando ele tinha segurado aquilo, por dois finos e
estreitos cortes. Ela colocou o caco abaixo e tomou sua mão, fechando os dedos
sobre a palma ferida. "Honestamente, Jace," ela disse, enquanto ela tocava
suavemente ele, "você não sabe que é melhor não brincar com vidro quebrado?"
Ele fez um som como um sorriso abafado antes que ele se aproximasse e a puxasse
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para seus braços. Ela estava consciente de Luke os olhando da janela, mas ela fechou
os olhos resolutamente e enterrou seu rosto contra o ombro de Jace. Ele cheirava a
sal e a sangue, e só quando sua boca chegou perto do seu ouvido que ela entendeu o
que ele estava dizendo, o que ele havia sussurrado antes, e era a mais simples
ladainha de sempre: seu nome, apenas seu nome.
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“Posso ver que estou interrompendo algo,” Valentine disse, sua voz tão seca quanto
um deserto a tarde. “Filho, você se importaria de me dizer quem é essa? Uma das
crianças Lighwood, talvez?”
“Não,” Jace disse. Ele soava cansado e infeliz, mas sua mão não largava o pulso dela.
“Esta é Clary. Clarissa Fray. Ela é uma amiga minha. Ela...”
Os olhos escuros de Valentine varreram ela lentamente, do topo de sua desgrenhada
cabeça, até os dedos suados nos tênis. Eles rapidamente permaneceram na adaga
ainda presa na mão dela.
Um indefinido olhar passou por sua face – parte divertido, parte irritado. “Onde você
conseguiu esta adaga, jovenzinha?”
Clary respondeu friamente. “Jace a deu para mim.”
“É claro que ele deu,” Valentine disse. Seu tom era brando. “Eu posso vê-la?”
“Não!” Clary deu um passo para trás, como se ela pensasse que ele poderia jogá-la
nela, ela sentiu a adaga ser arrancada facilmente de seus dedos. Jace, segurando a
adaga, olhou para ela com uma expressão de desculpas. “Jace,” ela sibilou,
colocando cada pitada de traição que ela sentiu dentro de cada sílaba do nome dele.
Tudo o que ele disse foi, “Você ainda não entende, Clary.” Com um tipo de respeito
que fez ela sentir seu estômago adoecer, ele foi até Valentine e pôs nas mãos dele a
adaga. “Aqui está, pai.”
Valentine tomou a adaga em sua mão grande e com ossos longos, e a examinou.
“Esta é uma kindjal, uma adaga caucasiana. Esta em particular era utilizada para ser
uma em um par combinado. Aqui, veja a estrela dos Morgensterns, incrustada dentro
da lâmina.” Ele a virou para cima, mostrando aquilo para Jace. “Eu estou surpreso
por os Lightwoods não terem notado isso.”
“Eu nunca a mostrei para eles,” Jace disse. “Eles me deixaram ter minhas próprias
coisas privadas. Eles não bisbilhotavam.”
“É claro que não,” Valentine disse. Ele deu a kindjal de volta para Jace. “Eles
pensavam que você era filho de Michael Wayland.”
Jace, deslizando o cabo vermelho da adaga em sua cintura, olhou para cima. "Eu
também," ele disse suavemente, e naquele momento Clary viu que aquilo não era
uma piada. Que Jace não estava só brincando consigo mesmo. Ele realmente pensava
que Valentine era o pai que retornou para ele.
Um frio desespero foi se espalhando através da veias de Clary. Jace irritado, Jace
hostil, furioso, ela podia ter lidado com isso, mas este novo Jace, frágil e brilhando à
luz do seu próprio milagre, era um estranho para ela.
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Valentine olhou para ela acima da cabeça aloirada de Jace, seus olhos eram frios com
a diversão. "Talvez," ele disse, "seria uma boa idéia você se sentar agora, Clary?"
Ela cruzou seus braços teimosamente sobre seu peito. "Não."
"Como você quiser." Valentine puxou uma cadeira e se sentou na cabeceira da mesa.
Após um momento Jace sentou também, ao lado de meia garrafa cheia de vinho.
"Mas você vai ouvir algumas coisas que podem fazer você desejar tomar uma
cadeira."
"Eu vou deixar você saber," Clary disse a ele, "se isso acontecer."
"Muito bem." Valentine apoiou as costas, mãos atrás da cabeça. O pescoço da sua
camisa entreabriu um pouco, mostrando sua cicatriz na clavícula. Cicatrizes, como
seu filho, tal como todos os Nephilim. Uma vida de cicatrizes e matança, Hodge disse.
"Clary," ele disse de novo, como se saboreando o som do seu nome. "Versão curta de
Clarissa? Não é um nome que eu teria escolhido."
Havia um sinistro sorriso curvando seus lábios. Ele sabe que sou sua filha, Clary
pensou. De alguma maneira, ele sabe. Mas ele não está dizendo isso. Porque ele não
está dizendo isso?
Por causa de Jace, ela percebeu. Jace iria pensar – ela não podia imaginar o que ele
iria pensar. Valentine tinha visto eles se abraçando quando ele caminhou pela porta.
Ele deve saber que ele tem uma devastadora peça de informação em suas mãos. Em
algum lugar por trás daqueles insondáveis olhos negros, sua mente afiada estava
escolhendo rapidamente, tentando decidir qual a melhor forma de utilizar o que ele
sabia.
Ela expressou outro olhar suplicante sobre Jace, mas ele estava olhando para baixo,
para o cálice de vinho em sua mão esquerda, meio cheia do líquido vermelho
púrpura. Ela podia ver o rápido subir e descer do seu peito enquanto ele respirava,
ele estava mais chateado do que ele estava transparecendo.
"Eu realmente não me importo com o que você teria escolhido," Clary disse.
"Eu tenho certeza," Valentine respondeu, se inclinando a frente, "que você não se
importaria."
"Você não é o pai de Jace," ela disse. "Você está tentando nos enganar. Jace era filho
de Michael Wayland. Os Lightwoods sabem disso. Toda mundo sabe disso."
"O Lightwoods foram mal informados," Valentine disse. "Eles realmente acreditaram –
acreditam que Jace é o filho de seu amigo Michael. Como a Clave. Mesmo os Irmãos
do Silêncio não sabem quem ele realmente é. Embora em breve, eles saberão."
"Mas o anel de Wayland..."
"Ah, sim," Valentine disse, olhando a mão de Jace, onde o anel reluzia como escamas
de serpente . "O anel. Engraçado, não é, como um M usado para cima se assemelha a
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um W? Claro, se você tivesse se incomodado em pensar sobre isso, você
provavelmente teria achado um pouco estranho que o símbolo da família Wayland
fosse uma estrela cadente. Mas não de todo estranho que seria o símbolo dos
Morgensterns."
Clary o encarou. "Eu não tenho idéia do que você quer dizer."
"Eu esqueci como é lamentavelmente negligente a educação mundana," disse
Valentine. "Morgenstern significa „estrela da manhã‟. Como em Como caíste desde o
céu, ó Lúcifer, filho da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as
nações!"
Um pequeno arrepio passou por Clary. "Você quer dizer Satanás."
"Ou qualquer grande poder perdido," disse Valentine, "por se recusar a servir. Como
eu fui. Eu não iria servir um governo corrupto, e por isso que eu perdi a minha
família, minha terra, quase a minha vida..."
"A revolta foi sua culpa!" Clary rebateu. "Pessoas morreram nela! Caçadores de
Sombras como você!"
"Clary." Jace se inclinou em frente, quase batendo sobre o copo com seu cotovelo.
"Apenas escute ele, você vai? Não é como você pensava. Hodge mentiu para nós."
"Eu sei," disse Clary. "Ele nos traiu por Valentine. Ele era um peão de Valentine".
"Não," Jace disse. "Não, Hodge era um dos que queriam há muito tempo a Taça
Mortal. Ele foi a pessoa que enviou os Raveners atrás de sua mãe. Meu pai –
Valentine só descobriu sobre isso depois, e veio para detê-lo. Ele trouxe sua mãe aqui
para curá-la, não para machucá-la."
"E você acredita nessa porcaria?" Clary disse enojada. "Não é verdade. Hodge estava
trabalhando para Valentine. Eles estavam nisso juntos, pegando a Taça. Ele nos
conduziu, é verdade, mas ele era apenas um instrumento."
"Mas ele era um dos que precisavam da Taça Mortal," Jace disse. "Assim, ele poderia
retirar a maldição de cima dele e fugir antes que o meu pai dissesse a Clave sobre
tudo o que ele havia feito."
"Eu sei que isso não é verdade!" Clary disse com fervor. "Eu estava lá!" Ela se virou
para Valentine. "Eu estava na sala quando você entrou para pegar a Taça. Você não
pôde me ver, mas eu estava lá. Eu vi você. Você pegou a Taça e retirou a maldição
de Hodge. Ele não poderia ter feito aquilo por si mesmo. Ele disse que sim."
"Eu retirei sua maldição," Valentine disse uniformemente, "mas fui movido pela pena.
Ele parecia tão patético."
"Você não sente pena. Você não sente nada."
"Já chega, Clary!" Era Jace. Ela olhou para ele. Suas bochechas estavam ruborizadas,
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como se ele tivesse bebido do vinho em seu cotovelo, os olhos muito brilhantes. "Não
fale com o meu pai desse jeito."
"Ele não é seu pai!"
Jace pareceu como se ela tivesse batido nele. "Por que você está tão determinada em
não acreditar em nós?"
"Porque ela te ama," disse Valentine.
Clary sentiu o sangue escorrer para fora do seu rosto. Ela olhou para ele, não
sabendo o que ele poderia dizer a seguir, mas temeu isso. Ela sentia como se ela
fosse em direção a orla de um precipício, um terrível empurrão para o nada e em
lugar nenhum. Vertigens agarravam seu estômago.
"O quê?" Jace pareceu surpreso.
Valentine estava olhando para Clary com divertimento, como se ele tivesse alfinetado
ela como uma borboleta em um quadro. "Ela teme que eu esteja tirando vantagem de
você," ele disse. "Que eu tenha feito uma lavagem cerebral em você. Não é assim, é
claro. Se você olhasse para suas próprias memórias, Clary, você saberia."
"Clary." Jace começou a ficar de pé, seus olhos sobre ela. Ela podia ver os círculos
debaixo deles, que ele estava sob tensão. "Eu..."
"Sente-se," Valentine disse. "Deixe que ela venha por si própria, Jonathan."
Jace abrandou instantaneamente, afundando de volta na cadeira. Através da tontura
da vertigem, Clary procurou entender. Jonathan? "Eu pensei que o seu nome fosse
Jace," ela disse. "Você mentiu sobre isso, também?"
"Não. Jace é um apelido."
Ela estava muito perto do precipício agora, tão perto que ela quase poderia olhar para
baixo. "De quê?"
Ele olhou para ela como se ele não pudesse entender por que ela estava fazendo
tanto por algo tão pequeno. "São minhas iniciais," ele disse. "J. C."
O precipício se abriu diante dela. Ela podia ver a longa queda em trevas. "Jonathan,"
ela disse ligeiramente. "Jonathan Christopher."
As sobrancelhas de Jace se levantaram juntas. "Como é que você...?"
Valentine o cortou. Sua voz era calmante. "Jace, eu tinha pensado em poupar você.
Pensei que a história de uma mãe que morreu iria magoá-lo menos do que a história
de uma mãe que abandonou você antes do seu primeiro aniversário."
Os delgados dedos de Jace se esticaram convulsivamente ao redor da haste do vidro.
Clary por um momento pensou que ela poderia quebrar. "Minha mãe está viva?"
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"Ela está," Valentine disse. "Viva, e dormindo em uma das salas abaixo neste
momento. Sim," ele disse, interrompendo Jace antes que ele pudesse falar, "JoceIyn
é a sua mãe, Jonathan. E Clary... Clary é sua irmã."
Jace jogou sua mão de volta. O cálice de vinho virou, derramando o espumante
líquido escarlate em toda a toalha branca.
"Jonathan," Valentine disse.
Jace estava em uma cor horrível, uma espécie de cor branca esverdeada. "Isso não é
verdade," ele disse. "Deve se um engano. Isso não pode ser verdade."
Valentine olhou firmemente para seu filho. "Um motivo de alegria," ele disse em uma
baixa, e contemplativa voz, “eu teria pensado. Ontem você era um órfão, Jonathan. E
agora tem um pai, uma mãe, uma irmã, que você nunca soube que você tinha."
"Não é possível," disse Jace novamente. "Clary não é a minha irmã. Se ela fosse..."
"Então o quê?" Valentine disse.
Jace não respondeu, mas o seu olhar doentio de horror nauseante foi suficiente para
Clary. Tropeçando um pouco, ela veio ao redor da mesa e se ajoelhou ao lado de sua
cadeira, para alcançar a mão dele. "Jace..."
Ele se jogou para longe dela, seus dedos batendo na toalha encharcada. "Não."
O ódio por Valentine queimava na garganta como lágrimas não derramadas. Ele se
encostou para trás, e por não dizer o que sabia, que ela era sua filha, fez dela sua
cúmplice em seu silêncio. E agora, depois de ter caído a verdade sobre eles com o
peso de uma triturante rocha, ele se assentava para ver os resultados com uma fria
consideração. Como Jace não podia ver quão odioso ele era?
"Me diga que isso não é verdade," Jace disse, olhando para a toalha.
Clary engoliu contra o ardor na garganta. "Eu não posso fazer isso."
Valentine soou como se ele estivesse sorrindo. "Então você admite agora que tenho
dito a verdade todo este tempo?"
"Não," ela disparou para trás, sem olhar para ele. "Você está dizendo mentiras com
um pouco de verdade misturada nelas, isso é tudo."
"Isto aumenta o cansaço," disse Valentine. "Se você quiser ouvir a verdade, Clarissa,
esta é a verdade. Você já ouviu as histórias da Revolta e por isso que você acha que
eu sou um vilão. Isso está correto?"
Clary não disse nada. Ela estava olhando para Jace, que parecia como se ele
estivesse prestes a vomitar. Valentine continuava com crueldade. "É simples,
realmente. A história que você ouviu era verdade em algumas de suas partes, mas
não em outras, mentiras misturadas como um pouco de verdade, como você disse. O
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fato é que Michael Wayland não é, e nunca foi o pai de Jace. Wayland foi morto
durante a Revolta. Eu assumi o nome de Michael e o lugar quando eu fugi da Cidade
de Vidro com o meu filho. Foi fácil; Wayland não tinha relações verdadeiras, e os seus
amigos mais íntimos, os Lightwoods, estavam no exílio. Ele próprio tinha estado em
desgraça por sua participação na Revolta, então eu vivi aquela vida desgraçada,
suficientemente calma, a sós com Jace na propriedade dos Waylands. Eu lia meus
livros. Educava o meu filho. E eu aguardava a minha hora." Ele tocava as filigranas
da ponta do copo pensativamente. Ele era canhoto, Clary viu. Como Jace.
"Dez anos depois, eu recebi uma carta. O escritor da carta indicava que ele sabia a
minha verdadeira identidade, e se eu não estivesse disposto a tomar certas medidas,
ele iria me revelar. Eu não sabia de quem era a carta, mas não importava. Eu não
estava preparado para dar ao escritor o que o que ele queria. Além disso, eu sabia
que a minha segurança estava comprometida, e que ao menos ele pensasse que eu
estava morto, além de seu alcance. Eu encenei a minha morte uma segunda vez, com
a ajuda de Blackwell e Pangorn, e para a própria segurança de Jace e a certeza que
meu filho seria enviado para cá, para a proteção do Lightwoods."
"Assim, você deixou Jace pensar que você estava morto? Você simplesmente deixou
ele pensar que você estava morto, todos estes anos? Isso é desprezível."
"Não," Jace disse novamente. Ele levantou as mãos para cobrir seu rosto. Ele falou
contra os seus próprios dedos, a voz abafada. "Não, Clary."
Valentine olhou para seu filho com um sorriso que Jace não podia ver. "Jonathan
tinha de pensar que eu estava morto, sim. Ele tinha de pensar que ele era o filho de
Michael Wayland, ou o Lightwoods não teriam protegido ele como o fizeram. Foi por
Michael que eles deviam uma dívida, não a mim. E era por este débito com Michael
que eles o amaram, não meu."
"Talvez eles o amassem por sua própria conta," disse Clary.
"Uma louvável interpretação sentimental," Valentine disse, "mas improvável. Você
não conhece os Lightwoods como uma vez eu conheci." Ele não pareceu ver a
hesitação de Jace, ou se ele viu, ele a ignorou. "Isso quase não importou, no final,"
Valentine acrescentou. "O Lightwoods foram destinados para a proteção de Jace, e
não como uma família substituta, você vê. Ele tem uma família. Ele tem um pai."
Jace fez um ruído em sua garganta, e moveu suas mãos para longe de seu rosto.
"Minha mãe..."
"Fugiu após a revolta," Valentine disse. "Eu era um homem desgraçado. A Clave iria
me caçar quando eles soubessem que eu tinha sobrevivido. Ela não pôde suportar a
sua associação comigo, e fugiu." A dor na voz dele era palpável e fingida, Clary
pensou amargamente. A manipuladora fluência. "Eu não sabia que ela estava grávida
naquele tempo. De Clary." Ele sorriu um pouco, correndo o dedo lentamente para
baixo no copo de vinho. "Mas o sangue chama sangue, como se costuma dizer," ele
continuou. "O destino nos deu esta convergência. Nossa família, junta novamente.
Podemos utilizar o Portal," ele disse, virando seu olhar para Jace. "Ir para Idris. Voltar
para a mansão."
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Jace estremeceu um pouco, mas concordou, ainda fitando entorpecidamente as suas
mãos.
"Nós vamos estar juntos lá," disse Valentine. "Como devemos estar."
Isso parece fantástico, Clary pensou. Só você, com sua esposa em coma, seu filho em
estado de choque, e sua filha, que odeia a sua cara de pau. Sem mencionar que seus
dois filhos podem estar apaixonados um pelo outro. Sim, isso soa como uma perfeita
reunião familiar. Alto, ela apenas disse: "Eu não vou a qualquer lugar com você, e
nem a minha mãe."
"Ele está certo, Clary," Jace disse roucamente. Ele flexionou suas mãos, as pontas
dos dedos estavam coradas em vermelho. "É o único lugar para nós irmos. Nós
podemos reparar as coisas lá."
"Você não pode estar falando sério."
Um enorme barulhou veio de baixo, tão alto que ele soava como se uma parede do
hospital tivesse desmoronado dentro dele. Luke, Clary pensou, saltando em seus pés.
Jace, apesar de seu olhar de nauseado horror, respondeu automaticamente, meio se
levantando de sua cadeira, sua mão indo ao seu cinto. "Pai, eles estão..."
"Eles estão a caminho." Valentine se colocou em seus pés. Clary ouviu passos. Um
momento depois a porta da sala foi aberta, e Luke ficou na soleira dela.
Clary engoliu um choro. Ele estava coberto de sangue, seu jeans e camiseta escura e
coagulada, a metade inferior de seu rosto com aquilo. Suas mãos estavam vermelhas
até os pulsos, o sangue que manchava elas ainda estava molhado e escorrendo. Ela
não tinha idéia se algum daquele sangue era dele. Ela se ouviu gritar seu nome, em
seguida, ela estava correndo por todo o quarto para ele, e quase tropeçou sobre si
mesma na sua ânsia de agarrar o peito da camisa dele e segurar, do jeito que ela não
fazia desde que ela tinha oito anos de idade.
Por um instante sua mão grande apareceu e fechou na parte detrás da cabeça dela,
segurando ela contra ele em com uma mão, um meio abraço de urso. Então ele a
empurrou delicadamente. "Eu estou coberto de sangue," ele disse. "Não se preocupe,
não é meu."
"Então, de quem ele é?" Era a voz de Valentine, e Clary se virou, o braço de Luke
protetoramente em seus ombros. Valentine estava olhando ambos, seus olhos
estreitos e engenhosos. Jace tinha se levantado sob seus pés e deu à volta na mesa e
estava parado hesitantemente atrás de seu pai. Clary não conseguia se lembrar dele
fazendo algo hesitante antes.
"De Pangborn," Luke disse.
Valentine passou uma mão sobre o seu rosto, como se a notícia fosse dolorosa para
ele. "Estou vendo. Você rasgou a garganta dele com os seus dentes?"
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"Na verdade," Luke disse, "eu matei ele com isso." Com sua mão livre ele segurou
uma longa e fina adaga que ele tinha matado o Esquecido. À luz ela podia ver as
pedras azuis no cabo. "Você se lembra?"
Valentine olhou para aquilo, e Clary viu sua mandíbula apertar. "Eu lembro," ele
disse, e Clary se perguntou se ele, também estava se lembrando da conversa anterior
deles.
Esta é uma kindjal, uma adaga caucasiana. Esta em particular era utilizada para ser
uma, em um par combinado.
"Você deu ela a mim a dezessete anos atrás e me disse para por um fim a minha vida
com ela," Luke disse, a arma firmemente agarrada em sua mão. A lâmina era mais
longa do que a lâmina da kindjal com punho vermelho no cinto de Jace, ela ficava em
algum lugar entre uma adaga e uma espada, e a lâmina tinha a ponta afilada. "E eu
quase o fiz."
"Você espera que eu negue isso?" Havia dor na voz de Valentine, a memória de uma
velha dor. "Eu tentei salvá-lo de si mesmo, Lucian. Cometi um grave erro. Se apenas
eu tivesse tido a força para matá-lo eu mesmo, você poderia ter morrido como um
homem."
"Tal como você?" Luke perguntou, e nesse momento Clary viu algo nele, do Luke que
ela tinha sempre conhecido, que poderia dizer quando ela estava mentindo ou
fingindo, que chamava sua atenção quando ela estava sendo arrogante ou falsa. Na
amargura da sua voz ela ouviu o amor quando ele tinha tido uma vez por Valentine,
coalhado em um cansado ódio. "Um homem que acorrenta sua esposa inconsciente
em uma cama na esperança de torturar ela por informação quando ela acordar? Essa
é a sua coragem?"
Jace estava olhando para seu pai. Clary viu o ataque de raiva que momentaneamente
retorceu as feições de Valentine, então ela tinha ido embora, e seu rosto estava
suave. "Eu não torturei ela," ele disse. "Ela está presa para sua própria proteção."
"Contra o quê?" Luke exigiu, andando para mais longe dentro da sala. "A única coisa
perigosa para ela é você. A única coisa que sempre ameaçou ela foi você. Ela passou
sua vida fugindo, para ficar longe de você."
"Eu a amava," Valentine disse. "Eu nunca teria machucado ela. Foi você que virou ela
contra mim."
Luke riu. "Ela não precisou de mim para se virar contra você. Ela aprendeu a te odiar
por ela mesma."
"Isso é uma mentira!" Valentine rosnou com súbita selvageria, e puxou a sua espada
da bainha em sua cintura. A lâmina era plana e preto fosco, padronizada com um
desenho de estrelas prateadas. Ele nivelou a espada para o coração de Luke.
Jace deu um passo em direção a Valentine. "Pai..."
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"Jonathan, faça silêncio!" gritou Valentine, mas era tarde demais; Clary viu o choque,
no rosto de Luke quanto ele olhou para Jace.
"Jonathan?" ele sussurrou.
A boca de Jace torcia. "Não me chame assim," ele disse ferozmente, seus olhos
dourados em chamas. "Eu mesmo vou te matar se você me chamar assim."
Luke, ignorando a espada apontada para seu coração, não tirava seus olhos de Jace.
"Sua mãe ficaria orgulhosa," ele disse, tão silenciosamente que mesmo Clary, em pé
ao lado dele, tinha se esforçado para o ouvir.
"Eu não tenho uma mãe," Jace disse. Suas mãos estavam tremendo. "A mulher que
me deu à luz foi para longe de mim antes que eu aprendesse a me lembrar do rosto
dela. Eu não era nada para ela, então ela não é nada para mim."
"Sua mãe não é a única que foi para longe de você," Luke disse, o seu olhar se
deslocando lentamente para Valentine. "Eu nunca teria pensado que mesmo você,"
ele disse lentamente, "usaria a sua própria carne e sangue, como isca. Acho que eu
estava enganado."
"Já chega." O tom de Valentine era quase lânguido, mas havia ferocidade no mesmo,
uma fome de ameaça de violência. "Deixe minha filha ir, ou eu vou te matar onde
você está."
"Eu não sou sua filha," disse Clary ferozmente, mas Luke a empurrou para longe dele,
tão forte que ela quase caiu.
"Saia daqui," ele disse. "Vá para um lugar seguro."
"Eu não vou deixar você!"
"Clary, eu quero dizer isso. Saia daqui." Luke já estava levantando sua adaga. "Esta
não é a sua luta."
Clary tropeçou para longe dele, em direção à porta que levava a passagem. Talvez
ela pudesse chamar por ajuda, por Alaric...
Então Jace estava na frente dela, bloqueando seu caminho para a porta. Ela tinha se
esquecido do quão rápido ele se movia, macio como um gato, rápido como a água.
"Você está louca?" ele sibilou. "Eles quebraram a porta da frente. Este lugar vai estar
cheio de Esquecidos."
Ela se empurrou nele. "Me deixe sair."
Jace a segurou de volta com uma aperto como ferro. "E então eles poderem te rasgar
em pedaços? Sem chance."
Um forte choque de metais soou atrás dela. Clary se puxou para longe de Jace e viu
que Valentine tinha golpeado Luke, que tinha desviado do seu golpe por uma orelha –
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da espada. Suas espadas cairam à parte, e agora eles estavam se movendo ao longo
do chão, em um borrão de fintas e golpes.
"Oh, meu Deus," ela sussurrou. "Eles vão se matar um ao outro."
Os olhos de Jace estavam quase pretos. "Você não entende," ele disse. "Isto é como
faz..." Ele interrompeu e sugou um respiração enquanto Luke deslizava passando a
guarda de Valentine, pegando ele em um golpe através do ombro. O sangue fluiu
livremente, manchando o pano de sua camisa branca.
Valentine jogou sua cabeça para trás e riu. "Um verdadeiro talento," ele disse. "Eu
não pensei que você o tinha, Lucian."
Luke estava muito ereto, a faca bloqueando o seu rosto da visão de Clary. "Você
mesmo me ensinou este movimento."
"Mas isso foi há anos atrás," disse Valentine em uma voz como seda pura, "e desde
então, você dificilmente precisou usar uma espada, não é? Não quando você tem
garras e dentes à sua disposição."
"Tudo do melhor para arrancar o seu coração."
Valentine balançou a cabeça. "Você arrancou o meu coração anos atrás," ele disse, e
mesmo Clary não podia dizer se a tristeza em sua voz era verdadeira ou falsa.
"Quando você me traiu e me desertou." Luke o atingiu novamente, mas Valentine foi
rapidamente para trás através do chão. Para um homem grande, ele se movia com
leveza surpreendente. "Foi você que virou minha esposa contra sua própria espécie.
Você veio a ela quando ela estava mais fraca, com sua pena, sua indefesa
necessidade. Eu estava distante, e ela achou que você a amava. Ela era um tola."
Jace estava tenso como um fio ao lado de Clary. Ela podia sentir a sua tensão, como
as faíscas saindo por um cabo elétrico. "Essa é a sua mãe que Valentine está
falando," ela disse.
"Ela me abandonou," Jace disse. "Mamãe."
"Ela pensou que você estava morto. Você quer saber como eu sei disso? Porque ela
mantinha uma caixa em seu quarto. Tinha suas iniciais nela. J.C."
"Então, ela tinha uma caixa," Jace disse. "Muitas pessoas tem caixas. Guardam coisas
nelas. É uma moda crescente, eu ouvi."
"Tinha um cacho do seu cabelo nela. Cabelo de bebê. E uma fotografia, talvez duas.
Ela costumava pegar ela a cada ano e chorar sobre isso. Chorando terrivelmente com
o coração-partido..."
A mão de Jace se apertou do seu lado. "Pare com isso," ele disse entre os dentes.
"Parar o quê? De dizer a você a verdade? Ela pensou que você tinha morrido – ela
nunca teria deixado você se ela soubesse que você estava vivo. Ela pensou que o seu
pai estava morto..."
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"Eu vi ele morrer! Ou eu pensei que eu tinha visto. Eu apenas não... apenas ouvi
sobre isso e escolhi acreditar nisso!"
"Ela encontrou seus ossos queimados," Clary disse quietamente. "Nas ruínas de sua
casa. Juntamente com os ossos da mãe e do pai dela."
Finalmente Jace olhou para ela. Ela viu a descrença plana em seus olhos, e em torno
de seus olhos, o esforço em manter essa descrença. Ela podia ver, quase como se via
através de um glamour, a frágil construção de sua fé em seu pai que ele usou como
uma armadura transparente, o protegendo da verdade. Em algum lugar, ela pensou,
havia uma fissura naquela armadura, em algum lugar, se ela pudesse encontrar as
palavras certas, poderia ser aberta a brecha.
"Isso é ridículo," ele disse. "Eu não morri – não havia ossos."
"Havia."
"Então isso era um encantamento," ele disse bruscamente.
"Pergunte ao seu pai o que aconteceu com sua sogra e seu sogro," Clary disse. Ela
chegou a tocar a sua mão. "Pergunte a ele se isso era um glamour, também..."
"Cale a boca!" O controle de Jace quebrou e ele se virou sobre ela, lívido. Clary viu o
olhar de Luke na direção deles, assustado pelo barulho, e nesse momento de
distração Valentine mergulhou sob sua guarda e, com um único impulso a frente,
dirigiu a lâmina da sua espada no peito de Luke, logo abaixo de sua clavícula.
Os olhos de Luke alargaram-se como se em espanto, em vez de dor. Valentine puxou
sua mão para trás, e deslizou a lâmina de volta, manchada de vermelho até o cabo.
Com uma forte gargalhada Valentine o golpeou novamente, desta vez retirando a
arma da mão de Luke. Ela bateu no chão com um tinido oco e Valentine a chutou com
força, a enviando girando para debaixo da mesa, enquanto Luke caia.
Valentine levantou a espada preta sobre o corpo deitado de Luke, pronto para dar o
ataque assassino. Incrustada estrelas prateadas brilharam ao longo do comprimento
da lâmina e Clary pensou, congelada em um momento de horror, como poderia algo
tão mortal ser tão bonita?
Jace, como se sabendo o que Clary iria fazer, antes que ela o fizesse, girou sobre ela.
"Clary..."
O momento passou congelado. Clary se retorceu se afastando de Jace, esquivando do
alcance de suas mãos, e correu pelo chão de pedra para Luke. Ele estava no chão, se
apoiando com um braço; Clary se atirou sobre ele, enquanto a espada de Valentine
vinha descendo.
Ela viu os olhos de Valentine enquanto a espada despencava na direção dela, aquilo
pareceu como um interminável período de tempo, embora ela só poderia ter sido em
um piscar de segundo. Ela viu que ele poderia parar o golpe se ele quisesse. Viu que
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ele sabia que ela poderia ser acertada se ele não parasse. Viu que ele faria aquilo de
qualquer jeito.
Ela jogou as mãos para cima, apertando os olhos fechados...
Houve um som estridente. Ela ouviu Valentine gritar, e ela olhou acima e viu ele
segurando, sem a espada, a mão que estava sangrando. A kindjal de cabo vermelho
descansava a vários metros sobre o piso de pedra, ao lado da espada negra. Passado
o susto, ela viu Jace na porta, o braço dele ainda levatado, e percebeu que ele deve
ter jogado a adaga com força suficiente para atingir a espada preta para fora da mão
de seu pai.
Muito pálido, ele baixou lentamente o braço dele, seus olhos sobre Valentine largos e
suplicantes. "Pai, eu..."
Valentine olhava para sua mão sangrando, e por um momento, Clary viu um espasmo
de raiva cruzar seu rosto, como uma luz cintilante. Sua voz, quando falou, era leve.
"Este foi um excelente lançamento, Jace."
Jace hesitou. "Mas a sua mão. Achei..."
"Eu não teria machucado sua irmã," disse Valentine, movendo rapidamente para
recuperar tanto a espada e quanto a kindjal vermelha, que ele prendeu através de
seu cinto. "Eu teria parado o golpe. Mas a sua preocupação com a família é louvável."
Mentiroso. Mas Clary não teve tempo para xingar Valentine. Ela se virou para olhar
para Luke e sentiu uma forte pancada de náusea. Luke estava deitado sobre suas
costas, os olhos semi-fechados, sua respiração irregular. Sangue borbulhava do
buraco na sua camisa rasgada.
"Preciso de um curativo," Clary disse em um colapso de voz. “Panos... qualquer
coisa.”
"Não se mova, Jonathan," disse Valentine em uma voz cortante, e Jace congelou onde
estava, a mão já chegando no bolso. "Clarissa," seu pai disse, em uma voz tão
derretida quanto um astuto aço com manteiga, "este homem é um inimigo da nossa
família, um inimigo da Clave. Nós somos caçadores, e isso significa que, às vezes,
somos assassinos. Certamente você entende isso."
"Caçadores de demônios," Clary disse. "Demônios mortais. Não assassinos. Há uma
diferença."
"Ele é um demônio, Clarissa," Valentine disse, ainda na mesma voz suave. "Um
demônio com um rosto de homem. Sei como tais monstros podem ser enganadores.
Lembre-se, uma vez eu mesmo poupei ele."
"Monstro?" Clary ecoou. Ela pensou em Luke, Luke a empurrando no balanços quando
tinha cinco anos, mais alto, sempre mais alto; Luke em sua formatura do primeiro
grau, a câmera clicando ao longe como um orgulhoso pai; Luke escolhendo através
de cada caixa de livros quando chegava a sua loja, procurando por alguma coisa que
ela iria gostar e pondo de lado. Luke a levantando para puxar para baixo as maçãs
das árvores perto de sua fazenda. Luke, cujo lugar como seu pai, este homem estava
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tentando tirar. "Luke não é um monstro," ela disse em uma voz que combinava com a
de Valentine, aço com aço. "Ou um assassino. Você é."
"Clary!" Era Jace.
Clary ignorou ele. Seus olhos estavam fixos sobre os frios e negros do pai. "Você
matou os pais de sua esposa, e não em batalha, mas a sangue frio," ela disse. "E eu
aposto que você assassinou Michael Wayland e seu filho, também. Atirou seus ossos
com os meus avós, para que minha mãe pensasse que você e Jace estivessem
mortos. Colocando seu colar em torno do pescoço de Michael Wayland antes de o
queimar, assim todas as pessoas pensariam que os ossos eram de vocês. E depois de
tudo você fala sobre o sangue incontaminado da Clave – você não se importa sobre o
sangue deles ou com os inocentes que você matou, não é? Abate pessoas idosas e
crianças a sangue frio, isso é monstruoso."
Outro espasmo de raiva contorceu as feições de Valentine. "Chega!" Valentine rugiu,
levantando a espada preta estrelada novamente e Clary ouviu a verdade de que ele
estava em sua voz, a raiva que tinha impelido ele toda a sua vida. As intermináveis
borbulhante raiva. "Jonathan! Arraste sua irmã para fora do meu caminho, ou pelo
Anjo, eu vou acertar ela, para matar o monstro que ela está protegendo!"
Por um breve momento Jace hesitou. Então ele levantou a cabeça. "Certamente, pai,"
disse ele, e atravessou a sala até Clary. Antes que ela pudesse jogar suas mãos para
se desviar dele, ele a segurou duramente com seu braço. Ele a empurrou, arrastando
ela para longe de Luke.
"Jace," ela sussurrou, horrorizada.
"Não," ele disse. Seus dedos escavando dolorosamente em seus braços. Ele cheirava
a vinho, a metal e suor. "Não fale comigo."
"Mas."
"Eu disse, não fale." Ele a sacudiu, forte. Ela tropeçou, e recuperando seu apoio,
olhou para ver Valentine de pé, encarando fixamente o corpo caído de Luke. Ele
aproximou com firmeza a ponta da bota e chutou Luke, que fez um barulho asfixiado.
"Deixe ele em paz!" Clary gritou, tentando se empurrar para longe do alcance de
Jace. Era inútil, ele era muito forte.
"Pare," ele sibilou na sua orelha. "Você só vai tornar a situação pior para você. É
melhor se você não olhar."
"Como você faz?" ela sibilou de volta. "Fechar os olhos e fingir que nada está
acontecendo, não faz isso ser verdade, Jace. Você deveria saber melhor..."
"Clary, pare."
Seu tom quase surpreendeu ela. Ele soava desesperado.
Valentine estava gargalhando. "Se apenas eu tivesse pensado," ele disse, "em trazer
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comigo uma espada de prata verdadeira, eu poderia ter despachado você na
verdadeira forma de sua verdadeira espécie, Lucian."
Luke rugiu algo que Clary não pôde ouvir. Ela esperou que fosse rude. Ela tentou
girar se afastando de Jace. Seus pés escorregaram e ele segurou ela, puxando as
costas dela com uma agonizante força. Ele tinha os braços em torno dela, ela pensou,
mas não do jeito que ela tinha uma vez esperado, não como ela nunca tinha
imaginado.
"Pelo menos deixe eu me levantar," disse Luke. "Deixe-me morrer sob meus pés."
Valentine olhou para ele, ao longo do comprimento da espada, e encolheu os ombros.
"Você pode morrer deitado ou de joelhos," ele disse. "Mas só um homem merece
morrer de pé, e você não é um homem."
"NÃO!" Clary gritou enquanto, sem olhar para ela, Luke começou a se puxar
dolorosamente em uma posição ajoelhada.
"Porque você tem que fazer o que é pior para si mesma?" Jace exigiu em um baixo, e
tenso sussurrar. "Eu te disse para não olhar."
Ela estava arquejando com esforço e dor. "Porque você tem que mentir para você
mesmo?"
"Não estou mentindo!" Sua contenção sobre ela estava apertado selvagemente,
embora ela não tivesse tentado se puxar para longe. "Eu apenas quero o que é
melhor em minha vida, meu pai, minha família, eu não posso perder tudo de novo."
Luke estava ajoelhado ereto agora. Valentine havia levantado a espada manchada de
sangue. Os olhos de Luke estavam fechados, e ele estava murmurando alguma coisa:
palavras, uma oração, Clary não sabia. Ela se contorceu nos braços Jace, se
afastando ao redor para que ela pudesse olhar para cima em seu rosto. Seus lábios
estavam tensamente finos, o seu maxilar apertado, mas seus olhos...
A frágil armadura estava quebrando. Era necessário apenas um último empurrão
dela. Ela lutava pelas palavras.
"Você tem uma família," disse ela. "Família, são apenas aquelas pessoas que Amam
você. Como os Lightwoods amam você. Alec, Isabelle..." Sua voz se quebrou. "Luke é
minha família, e você vai me fazer vê-lo morrer como você pensou que você viu seu
pai morrer quando tinha dez anos? É isso que você quer, Jace? É este o tipo de
homem que deseja ser?”
“Como –”
Ela se interrompeu, subitamente aterrorizada que ela tivesse ido longe demais.
"Tal como o meu pai," disse ele. Sua voz era gelada, distante, plana como a lâmina
de uma faca.
Eu o perdi, ela pensou desesperadamente.
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"Se abaixe," ele disse, e a empurrou, forte. Ela tropeçou, caiu ao chão, rolando em
um joelho. Ajoelhada na vertical, ela viu Valentine levantar sua espada acima de sua
cabeça. O brilho do lustre acima de sua cabeça tocando ao longo da espada enviando
brilhantes pontos de luz agudos em seus olhos. "Luke!" gritou.
A lâmina bateu dentro do chão da casa. Luke não estava longe de lá. Jace, tinha se
movido mais rápido do que Clary teria pensado ser possível até mesmo para um
Caçador de Sombras, ele se jogou no seu caminho, enviando Luke se esparramando
de lado. Jace se pôs de pé encarando seu pai por acima do cabo trêmulo da espada,
com o rosto branco, mas seu olhar era firme.
"Eu acho que você deveria ir," Jace. disse
Valentine olhou incredulamente para seu filho. "O que você disse?"
Luke tinha puxado a si mesmo em uma posição sentada. Sangue fresco manchando
sua camisa. Ele olhou para Jace enquanto chegava uma mão gentil, quase
desinteressadamente, acariciando o cabo da espada, que tinha sido empurrada para o
chão. "Eu acho que você me ouviu, pai."
A voz de Valentine era como um chicote. "Jonathan Morgenstern."
Rápido como um relâmpago, Jace segurou o cabo da espada, retirando ela livre da
placa do piso, e a levantou. Ele a segurou, equilibrada e plana, a ponto de pairar a
poucos centímetros abaixo do queixo do pai.
"Este não é o meu nome," ele disse. "Meu nome é Jace Wayland."
O olhos de Valentine estavam fixados em Jace, ele quase não parecia a notar a
espada na garganta dele. "Wayland?" rosnou ele. "Você não tem o sangue de
Wayland! Michael Wayland era um estranho para você..."
"Então," Jace disse calmamente, "você é." Ele puxou a espada para a esquerda.
"Agora mova-se."
Valentine balançou sua cabeça. "Nunca. Eu não recebo ordens de uma criança."
A ponta da espada tocou a garganta de Valentine. Clary olhou em um fascinado
horror. "Eu sou uma criança muito bem treinada," Jace disse. "Você me instruiu na
precisa arte de matar. Eu só preciso mover dois dedos para cortar sua garganta, você
sabia disso?" Seus olhos eram acirrados. "Eu suponho que sim."
"Você é hábil o suficiente," disse Valentine. Seu tom era desprezível, mas, Clary
notou que, ele permanecia muito parado ainda. "Mas você não pode me matar. Você
sempre foi piedoso."
"Talvez ele não pudesse." Era Luke, em seus pés agora, pálido e sangrento, mas em
pé. "Mas eu posso. E eu não estou completamente certo de que ele poderia me
parar."
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Os olhos de Valentine febrilmente piscavam para Luke, e de volta para seu filho. Jace
não tinha virado quando Luke falou, mas se mantinha ainda como uma estátua, a
espada imóvel em sua mão. "Você ouviu o monstro me ameaçando, Jonathan,"
Valentine disse. "Você apoia isso?"
"Tem um ponto," Jace disse suavemente. "Não estou inteiramente certo que eu
poderia detê-lo se ele quisesse lhe fazer algum dano. Lobisomens cicatrizam tão
rápido."
O lábio de Valentine curvou. "Então," ele cuspiu, "como sua mãe, você prefere esta
criatura, esta coisa demônio semi-gerada do que seu próprio sangue, sua própria
família?"
Pela primeira vez, a espada na mão de Jace pareceu tremer. "Você me deixou quando
eu era uma criança," ele disse em uma cuidadosa voz. "Você me deixou pensar que
estava morto e me mandou embora para viver com estranhos. Você nunca me disse
que eu tinha uma mãe, uma irmã. Você me deixou sozinho." A palavra era um choro.
"Fiz isso por você, para mantê-lo seguro," protestou Valentine.
"Se você se importava com Jace, se você se preocupasse com o sangue, você não
teria matado seus avós. Vocês assassinou pessoas inocentes," Clary interrompeu,
furiosa.
"Inocente?" Valentine respondeu. "Ninguém é inocente em uma guerra! Eles estavam
ao lado de Jocelyn contra mim! Eles teriam deixado ela levar meu filho de mim!"
Luke deixar sair um assobio na respiração. "Você sabia que ela ia deixar você," ele
disse. "Você sabia que ela ia fugir, antes mesmo da revolta?"
"Claro que eu sabia!" Valentine rosnou. Seu frio controle tinha rachado e Clary podia
ver a derretida fúria fervilhando por baixo, endurecendo os tendões em seu pescoço,
cerrando suas mãos em punhos. "Eu fiz o que tinha que fazer, proteger a mim
mesmo, e no final eu lhes dei mais do que nunca mereceram: uma pira de funeral
concedida apenas para os maiores guerreiros da Clave!"
"Você queimou eles," Clary disse sem rodeios.
"Sim!" Valentine gritou. "Eu os queimei."
Jace fez um ruído estrangulado. "Meus avós..."
"Você nunca soube deles," Valentine disse. "Não finja uma dor que você não sente."
A ponta da espada estava tremendo mais rapidamente agora. Luke colocou uma mão
sobre o ombro Jace. "Firme," ele disse.
Jace não olhou para ela. Ele estava respirando como se ele tivesse estado correndo.
Clary podia ver o suor cintilando sobre a acentuada divisão de sua clavicula, jogando
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seu cabelo para suas temporas. As veias eram visíveis ao longo das costas de suas
mãos. Ele vai matá-lo, ela pensou. Ele vai matar Valentine.
Ela andou rapidamente a frente. "Jace, precisamos da Taça. Ou você sabe o que ele
irá fazer com ela."
Jace lambeu seus lábios secos. "A Taça, pai. Onde ela está?"
"Em Idris," Valentine disse calmamente. "Onde você nunca irá encontrá-la."
A mão de Jace estava tremendo. "Me diga..."
"Me dê a espada, Jonathan." Era Luke, sua voz calma, mesmo tipo.
Jace soou como se ele estivesse falando do fundo de um poço. "O quê?"
Clary deu um passo em frente. "Dê a espada a Luke. Deixe ele pegá-la Jace."
Ele agitou sua cabeça. "Eu não posso fazer isso."
Ela deu outro passo em frente, mais um, e ela desejou estar perto o suficiente para
tocá-lo. "Sim, você pode," ela disse suavemente. "Por favor."
Ele não olhou para ela. Seus olhos estavam fechados em seu pai. O momento se
prolongou, mais e mais, interminável. Finalmente ele acenou, curtamente, sem
baixar a mão dele. Mas ele deixou Luke se deslocar para se colocar ao lado dele, e
colocar a sua mão sobre a de Jace, no cabo da espada. "Você pode soltá-la agora,
Jonathan," Luke disse, e depois, vendo o rosto de Clary, se corrigiu. "Jace."
Jace pareceu não ter ouvido ele. Ele soltou o cabo e se afastou de seu pai. Um pouco
da cor de Jace tinha voltado, e ele estava agora com um tom mais como massa de
vidraceiro, seu lábio sangrando onde ele tinha mordido. Clary desejou tocar ele, por
seus braços em volta dele, sabendo que ele nunca iria deixá-la.
"Tenho uma sugestão,"
surpreendente.
Valentine
disse
para
Luke,
em
um
mesmo
tom
"Me deixe adivinhar," Luke disse. "É 'Não me mate‟, não é?"
Valentine riu, um som sem qualquer humor nele. "Eu dificilmente me rebaixaria
suplicando por minha vida," ele disse.
"Bom," disse Luke, cutucando o queixo do outro homem com sua lâmina. "Não vou te
matar a menos que você force a minha mão, Valentine. Eu me nego a assassiná-lo na
frente dos seus próprios filhos. O que eu quero é a Taça."
O barulho abaixo das escadas estava mais alto agora. Clary podia ouvir o que soava
como pegadas no corredor lá fora. "Luke..."
"Eu ouvi," ele reclamou.
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"A Taça está em Idris, eu te disse," disse Valentine, seus olhos se desviando além de
Luke.
Luke estava suando. "Se está em Idris, você usou o Portal para levá-la para lá. Eu
vou com você. Trazê-la de volta." Os olhos de Luke estavam inquietos. Havia mais
movimento no corredor lá fora agora, sons de gritos, de alguma coisa se quebrando.
"Clary, fique com o seu irmão. Depois que nós passarmos, vocês usem o Portal para
os levarem para um lugar seguro."
"Não vou sair daqui," Jace disse.
"Sim, você vai." Algo estrondou contra a porta. Luke levantou sua voz, "Valentine, o
Portal. Mexa-se."
"Ou o quê?" Os olhos de Valentine estavam fixados
consideração.
na porta com um olhar de
"Eu vou matar você, se você forçar a minha mão," Luke disse. "Na frente deles, ou
não. O portal, Valentine. Agora."
Valentine estendeu suas mãos largamente. "Se você quiser."
Ele andou ligeiramente para trás, justo quando a porta explodiu adentro, espalhando
as dobradiças em todo o piso. Luke mergulhou para fora do caminho evitando ser
esmagado pela queda da porta, girando quando ele fez isso, a espada ainda na sua
mão.
Um lobo permaneceu na entrada, uma montanha de rosnar, pêlos listrados, ombros
arqueados para frente, os lábios curvados para trás e acima rosnando entre os
dentes. Sangue escorria de inúmeros talhos em sua pele.
Jace estava praguejando suavemente, uma lâmina serafim já em sua mão. Clary
segurou o seu pulso. "Não, ele é um amigo."
Jace lhe atirou um olhar incrédulo, mas baixou seu braço.
"Alaric..." Luke gritou alguma coisa em seguida, em uma linguagem que Clary não
entendeu. Alaric rosnou novamente, se abaixando mais perto do chão, e por um
momento confuso ela pensou que ele ia atirar-se em Luke. Então ela viu a mão de
Valentine em seu cinto, o flash das jóias vermelhas, e percebeu que tinha esquecido
que ele ainda tinha a adaga de Jace.
Ela ouviu uma voz gritar o nome de Luke, apesar disso ela então percebeu que sua
garganta parecia colada com cola, e que era Jace quem tinha gritado.
Luke saltou na vertical ao redor, dolorosamente lento, pareceu, enquanto a faca na
mão esquerda de Valentine voava em direção dele como uma borboleta prata,
girando mais e mais no ar. Luke levantou sua lâmina e algo enorme e marrom
amarelado e cinza se empurrou entre ele e Valentine. Ela ouviu o ulular de Alaric,
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aumentando, de repente morrendo; ouviu o som como da lâmina atingindo. Ela arfou
e tentou correr em frente, mas Jace puxou ela de volta.
O lobo caído aos pés de Luke, o sangue manchando seus pêlos. Delicadamente, com
suas patas, Alaric agarrou o cabo da faca projetada em seu peito.
Valentine riu. "E esta é a forma como você reembolsa a lealdade inqüestionável que
você comprou tão barato, Lucian," disse ele. "Ao deixá-los morrer por você." Ele
estava indo para trás, seus olhos ainda sobre Luke.
Luke, de rosto pálido, olhou para ele, e então abaixo para Alaric; agitou sua cabeça
uma vez, e caiu de joelhos, inclinando sobre o lobisomem morto. Jace, ainda
segurando Clary pelos ombros, sibilou, "Fique aqui, está me ouvindo? Fique aqui," e
depois seguiu Valentine, que estava correndo, inexplicavelmente, em direção à
parede ao longe. O plano dele era se lançar afora pela janela? Clary poderia ver o seu
reflexo no grande espelho emoldurado em ouro, enquanto ele se aproximava, a
expressão em seu rosto, uma espécie de alívio sarcástico cheia com uma fúria
assassina.
"O inferno que eu vou," ela murmurou, seguindo Jace. Ela parou apenas para pegar a
kindjal com punho azul no chão debaixo da mesa, onde Valentine tinha chutado ela. A
arma na mão dela a fez se sentir confortável agora, tranqüilizando, enquanto ela
empurrava uma cadeira caída para fora de seu caminho e se aproximava do espelho.
Jace tinha retirado a lâmina serafim, a sua luz lançando uma forte iluminação acima,
escurecendo os círculos sob seus olhos, as cavidades das suas bochechas. Valentine
tinha se virado e ficou delineado em sua luz, suas costas contra o espelho. Na sua
superfície Clary também pode ver Luke atrás deles, que tinha posto sua espada para
baixo, e estava puxando o cabo vermelho da kindjal para fora do peito de Alaric,
suavemente e com cuidado. Ela se sentiu doente e agarrou a sua própria lâmina mais
firmemente. "Jace..." ela começou.
Ele não se virou para olhar para ela, embora, evidentemente que ele pudesse vê-la
no reflexo do espelho. "Clary, eu te disse para esperar."
"Ela é como a mãe dela," Valentine disse. Uma de suas mãos estava atrás dele, ele
estava se movendo ao longo da borda da pesada moldura dourada do espelho. "Não
gosta de fazer o que lhe dizem."
Jace não estava tremendo como ele tinha estado mais cedo, mas Clary podia sentir o
quão fino seu controle tinha sido esticado, como uma pele ao longo de um tambor.
"Eu vou com ele para Idris, Clary. Vou trazer a Taça de volta."
"Não, você não pode," Clary começou, e viu, no espelho, como seu rosto retorceu.
"Você tem uma idéia melhor?" Ele reclamou.
"Mas Luke..."
"Lucian," Valentine disse em uma voz como seda, "está se ocupando com um
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companheiro caído. Enquanto a Taça, e Idris, não estão longe. Através do espelho,
por assim dizer."
Os olhos de Jace se estreitaram. "O espelho é o Portal?"
Os lábios de Valentine afinaram e ele soltou sua mão, se deslocando atrás do espelho
como se a imagem nela girasse e mudasse como aquarelas se movendo em uma
pintura. Em vez da sala escura com a madeira e velas, Clary agora podia ver os
campos verdes, as grossas folhas esmeraldas das árvores, bem como uma vasta
campina varrer para baixo para uma grande casa de pedra à distância. Ela podia
ouvir o som vibrante de abelhas e o sussurro do vento nas folhas, e cheiro de
madressilvas transportadas pelo vento.
"Eu disse a você que não estava longe." Valentine colocou-se no que era agora um
dourado pórtico arqueado, o cabelo dele se movendo no mesmo vento que agitava as
folhas sobre as árvores distantes. "É como você se lembra dela, Jonathan? Tem algo
mudado?"
O coração de Clary apertou dentro de seu peito. Ela não tinha dúvida que aquilo era a
casa da infância de Jace, apresentada para tentá-lo como você poderia seduzir uma
criança com doces ou um brinquedo. Ela olhou em direção a Jace, mas ele não
pareceu ver ela de modo algum. Ele estava olhando para o Portal, e a visão além dos
campos verdes e da mansão. Ela viu o rosto dele suavizar, a saudosa curva de sua
boca, como se ele estivesse olhando para alguém que ele amava.
"Você ainda pode voltar para casa," disse seu pai. A luz da lâmina serafim que Jace
segurava jogou a sombra dele para trás que parecia se mover através do Portal,
escurecendo os brilhante campos, além da campina.
O sorriso desapareceu da boca de Jace. "Essa não é a minha casa," ele disse. "Esta é
a minha casa agora."
Um espasmo de fúria contorceu suas feições, Valentine olhou para seu filho. Ela
nunca iria esquecer aquele olhar – aquilo fez ela sentir um súbito e selvagem anseio
por sua mãe. Porque não importava o quão irritada sua mãe tinha ficado com ela,
Jocelyn nunca olhou para ela assim. Ela sempre tinha olhado para ela com amor.
Se ela pudesse sentir mais pena por Jace do que ela já sentia, ela então teria
sentindo.
"Muito bem," Valentine disse, e deu um rápido passo para trás através do Portal, para
que seus pés atingissem a terra de Idris. Seus lábios curvados em um sorriso. "Ah,"
ele disse, "casa."
Jace tropeçou à beira do Portal antes de parar, uma mão contra a moldura dourada.
Uma estranha hesitação parecia ter tomado conta dele, mesmo com Idris tremulando
diante de seus olhos como uma miragem no deserto. Isso só levaria um passo...
"Jace, não," disse Clary rapidamente. "Não vá atrás dele."
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Cassandra Cale – The Mortal Instruments 01 – City of Bones
"Mas a Taça," Jace disse. Ela não pôde dizer o que ele estava pensando, mas a lâmina
em sua mão estava se agitando violentamente enquanto sua mão tremia.
"Deixe a Clave pegá-la! Jace, por favor." Se você passar por esse portal, você pode
nunca mais voltar. Valentine vai matar você. Você não quer acreditar, mas ele irá.
"A sua irmã tem razão." Valentine estava de pé no meio de uma grama verde e flores
selvagens, as lâminas flutuando em torno de seus pés, e Clary percebeu que apesar
deles estarem a centimetros de distância um do outro, elas se situavam em
diferentes países. "Você realmente acha que pode vencer isto? Apesar de você ter
uma lâmina serafim e eu estar desarmado? Não apenas sou mais forte do que você,
mas duvido que você possa me matar. E você vai ter que me matar, Jonathan, antes
que eu dê a Taça para você."
Jace firmou seu aperto sobre a lâmina do anjo. "Eu posso..."
"Não, você não pode." Valentine chegou fora, através do Portal, e agarrou o pulso de
Jace com sua mão, o arrastando até a ponta da lâmina serafim tocar seu peito.
Quando a mão de Jace e seu pulso passaram através do Portal, eles pareceram
tremular, como se tivessem sido arremessados em água. "Faça isso, então,"
Valentine disse. "Impulsione a lâmina. Sete, talvez dez centímetros." Ele puxou a
lâmina a frente, a ponta do punhal cortando o tecido de sua camisa. Um círculo
vermelho como uma papoula floresceu um pouco acima de seu coração. Jace, com
um suspiro, puxou seu braço se libertando e cambaleou para trás.
"Como eu pensei," disse Valentine. "Muito piedoso." E com uma chocante surpresa ele
jogou seu punho em direção a Jace. Clary gritou, mas o golpe não o acertou: uma
vez que atingiu a superfície do Portal entre eles, com um som como mil coisas frágeis
se estilhaçando. Como teias de aranha fendendo o vidro-que-não-era-vidro, a última
coisa que Clary ouviu antes que o Portal se dissolvesse em um dilúvio de cacos
barulhentos, foi a risada irônica de Valentine.
Vidro agitou-se ao longo do chão como uma ducha de gelo, uma estranhamente bela
cascata de cacos prateados. Clary foi para trás, mas Jace manteve-se ainda imóvel
enquanto chovia vidro em torno dele, olhando para a moldura vazia do espelho.
Clary tinha esperado que ele xingasse, gritasse ou amaldiçoa-se seu pai, mas em vez
disso ele só esperou que cacos parassem de cair. Quando eles pararam, ele se
ajoelhou silenciosamente e cuidadosamente na bagunça de vidros quebrados, pegou
um dos pedaços maiores, virando ele para cima em suas mãos.
"Não." Clary se ajoelhou ao lado dele, colocando para baixo a faca que ela tinha
estado segurando. Sua presença já não a confortava. "Não havia nada que você
pudesse ter feito."
"Sim, havia." Ele ainda estava olhando abaixo para o vidro. Lascas quebradas
salpicavam o seu cabelo. "Eu podia ter matado ele." Ele virou o caco para ela. "Olhe,"
disse ele.
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Ela olhou. No pedaço de vidro que ela ainda podia ver, uma parte de Idris, um pouco
de céu azul, a sombra das folhas verdes. Ela exalou dolorosamente. "Jace..."
"Vocês estão bem?"
Clary olhou para cima. Era Luke, parado perto deles. Ele estava desarmado, os olhos
dele afundados em círculos azuis de exaustão. "Estamos bem," ela disse. Ela podia
ver uma figura machucada no chão atrás dele, semi-coberta com o longo casaco de
Valentine. Uma mão projetava-se por baixo da borda do tecido, ela estava curvada
com garras.
"Alaric...?"
"Está morto," Luke disse. Havia um abundante controle da dor em sua voz, embora
ela mal tivesse conhecido Alaric, Clary sabia que o esmagador peso da culpa iria ficar
com ele para sempre. E Esta é a forma como você reembolsa a inquestionável
lealdade que você comprou tão barato, Lucian. Deixando eles morrerem por você.
"Meu pai fugiu," disse Jace. "Com a Taça." Sua voz era monótona. "Nós demos ela
direto para ele. Eu falhei."
Luke deixou cair uma de suas mãos sobre a cabeça de Jace, limpando o vidro de seu
cabelo. Suas garras ainda estavam pra fora, seus dedos manchados de sangue, mas
Jace recebeu seu toque, como se ele não se importasse, e não disse nada. "Não é sua
culpa," Luke disse, olhando abaixo para Clary. Seus olhos azuis eram serenos. Eles
diziam: Seu irmão precisa de você, fique com ele.
Ela acenou, e Luke os deixou e foi para a janela. Ele a colocou aberta, enviando uma
corrente de ar através da sala que apagou as velas. Clary podia ouvir ele gritando,
chamando os lobos abaixo.
Ela se ajoelhou ao lado de Jace. "Está tudo bem," disse ela hesitantemente, embora
claramente não estava, e nunca poderia estar novamente, e ela colocou a mão sobre
seu ombro. O pano de sua camisa era áspero sob seus dedos, úmido com suor,
estranhamente reconfortante. "Nós temos a minha mãe de volta. Nós temos você.
Nós temos tudo o que importa."
"Ele tinha razão. É por isso que eu não podia me fazer passar pelo portal," Jace
sussurrou. "Eu não podia fazer isso. Eu não podia matá-lo."
"A única maneira que você teria falhado," ela disse, "é se você tivesse."
Ele não disse nada, apenas sussurrou algo debaixo de sua respiração. Ela não podia
ouvir bem as palavras, mas ela se aproximou e tirou um pedaço de vidro fora de sua
mão. Ele estava sangrando quando ele tinha segurado aquilo, por dois finos e
estreitos cortes. Ela colocou o caco abaixo e tomou sua mão, fechando os dedos
sobre a palma ferida. "Honestamente, Jace," ela disse, enquanto ela tocava
suavemente ele, "você não sabe que é melhor não brincar com vidro quebrado?"
Ele fez um som como um sorriso abafado antes que ele se aproximasse e a puxasse
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para seus braços. Ela estava consciente de Luke os olhando da janela, mas ela fechou
os olhos resolutamente e enterrou seu rosto contra o ombro de Jace. Ele cheirava a
sal e a sangue, e só quando sua boca chegou perto do seu ouvido que ela entendeu o
que ele estava dizendo, o que ele havia sussurrado antes, e era a mais simples
ladainha de sempre: seu nome, apenas seu nome.
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Série Instrumentos Mortais - Cidade dos Ossos 22
22 – As ruínas de Renwick
Foi um longo momento após Luke ter terminado de falar, houve silêncio dentro da
sala. O único som era o longínquo gotejar de água nas paredes de pedra. Finalmente
ele disse: “Diga alguma coisa, Clary.”
“O que você quer que eu diga?”
Ele suspirou. “Talvez que você entendeu?”
Clary podia ouvir o seu sangue golpeando em suas orelhas. Ela sentia como se sua
vida tivesse sido construída sobre uma lâmina de gelo tão fina quanto papel, e agora
o gelo estava começando a rachar, ameaçando mergulhar ela na sua gélida escuridão
abaixo. Embaixo, dentro da água escura, ela pensava, onde todos os segredos da sua
mãe eram levados nas correntes, os esquecidos restos de uma naufragada vida.
Ela olhou para Luke. Ele parecia hesitante, indistinto, como se ela olhasse através de
um vidro embaçado. "Meu pai," ela disse. "Aquela foto que minha mãe sempre
manteve sobre a janela..."
"Aquele não era o seu pai," Luke disse.
"Ele nunca sequer existiu?" A voz de Clary aumentou. "Houve alguma vez um John
Clark, ou minha mãe inventou ele também?"
"John Clark existiu. Mas ele não era seu pai. Ele era o filho de dois dos vizinhos de
sua mãe quando ela morava no East Village. Ele morreu em um acidente de carro,
assim como a sua mãe lhe disse, mas ela nunca conheceu ele. Ela tinha sua foto,
porque os vizinhos tinham encomendado a ela a pintura de um retrato dele em seu
uniforme de exército. Ela lhes deu a pintura, mas manteve a fotografia, e fingiu que o
homem tinha sido seu pai. Acho que ela pensou que era a forma mais fácil. Afinal de
contas, se ela alegasse que ele tinha fugido ou desaparecido, você iria querer
procurar por ele. Um homem morto..."
"Será que suas mentiras não se contradizem," Clary falou para ele amargamente. "Ela
não pensou que estava errada, todos os anos, me deixando pensar que o meu pai
estava morto, quando o meu verdadeiro pai..."
Luke nada disse, deixando ela encontrar o fim da frase por si mesma, deixando ela
pensar o impensável por si própria.
"É Valentine." Sua voz tremeu. "Era isso o que você estava me dizendo, certo? Aquele
Valentine era... é... meu pai?"
Luke acenou, seus nós dos dedos o único sinal da tensão que ele sentia. "Sim."
"Oh, meu Deus." Clary saltou para os pés dela, já não capaz de se sentar imóvel. Ela
andou para as barras da cela. "Não é possível. Isto apenas não é possível."
"Clary, por favor, não fique nervosa..."
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"Não fique nervosa? Você está me dizendo que o meu pai é um cara que é
basicamente um soberano do mal, e você quer que eu não fique nervosa?"
"Ele não era mal no início," Luke disse, soando quase em defensiva.
"Oh, eu imploro para discordar. Eu acho que ele era claramente mal. Todas as coisas
que ele estava recitando sobre como manter a raça humana pura e da importância do
sangue não contaminado – ele era como um daqueles caras assustadores do poder
branco31. E vocês dois caíram nessa totalmente."
"Eu não era o único falando sobre Downworlders 'nojentos' a poucos minutos atrás,"
Luke disse calmamente. "Ou sobre como eles não podem ser confiáveis."
"Isso não é a mesma coisa!" Clary podia ouvir as lágrimas em sua voz. "Eu tinha um
irmão," ela passou, sua voz presa. "Avós, também. Eles estão mortos?"
Luke acenou, olhando para baixo em suas grandes mãos, abertas nos joelhos. "Eles
estão mortos."
"Jonathan," ela disse suavemente. "Ele teria sido mais velho do que eu? Um ano mais
velho?"
Luke nada disse.
"Eu sempre quis ter um irmão," ela disse.
"Não," ele disse miseravelmente. "Não se torture. Você pode ver por que sua mãe
manteve tudo isso longe de você, você pode? Que bem faria se você soubesse o que
tinha perdido antes mesmo de você nascer?”
“Aquela caixa,” sua mente trabalhando febrilmente. "Com o J.C. sobre ela. Jonathan
Christopher. Aquilo era o que sempre fazia ela chorar, aquilo era o cacho de cabelo,
do meu irmão, não de meu pai."
"Sim."
"E quando você disse „Clary não é Jonathan‟, você queria dizer o meu irmão. Minha
mãe era tão superprotetora comigo, porque ela já tinha tido um filho que morreu."
Antes que Luke pudesse responder, a porta da cela retiniu aberta e Gretel entrou. O
"kit de cura", que Clary tinha previsto como sendo uma caixa dura de plástico rígido
com as insígnias da Cruz Vermelha sobre a mesma, tornou-se um grande tabuleiro de
madeira, empilhada com bandagens dobradas, tigelas de vapor com líquidos não
identificados, e ervas, que exalavam um pungente odor de limão. Gretel colocou a
bandeja para baixo e ao lado do beliche e fez sinais para Clary se sentar, o que ela
fez de má vontade.
"Essa é uma boa garota," disse a mulher-lobo, mergulhando um pano em uma das
31
White Power = Supremacia branca ou ariana, nazismo.
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tijelas e a levando para a cara de Clary. Gentilmente ela limpou o sangue seco. "O
que aconteceu com você?" ela perguntou com desaprovação, como se ela suspeitasse
que Clary tomasse um ralador de queijo no seu rosto.
"Eu estava pensando o mesmo," Luke disse, observando o vai e vem com braços
dobrados.
"Hugo me atacou." Clary tentou não estremecer enquanto o líquido adstringente
picava suas feridas.
"Hugo?" Luke piscou.
"O pássaro de Hodge. Acho que era o seu pássaro, de qualquer forma. Talvez fosse
de Valentine."
"Hugin," Luke disse suavemente. "Hugin e Munin eram as aves de estimação de
Valentine. Seus nomes significam „Pensamento‟ e „Memória‟."
"Bem, eles deveriam ser „Ataque‟ e „Mate‟,” Clary disse. "Hugo quase rasgou meus
olhos fora."
"Isso deve ser o que ele foi treinado para fazer." Luke estava batendo os dedos de
uma mão contra o seu outro braço. "Hodge deve ter pego ele após a revolta. Mas ele
ainda era uma criatura de Valentine."
"Assim como Hodge era," Clary disse, recuando enquanto Gretel limpava os
compridos talhos ao longo de seu braço, que estavam incrustados com sujeira e
sangue seco. Então Gretel começou enfaixá-los acima ordenadamente.
"Clary..."
"Eu não quero falar mais sobre o passado," ela disse ferozmente. "Quero saber o que
vamos fazer agora. Agora que Valentine tem minha mãe, Jace e a Taça. E nós não
temos nada."
"Eu não diria que não temos nada," Luke disse. "Nós temos um poderoso bando de
lobos. O problema é que não sabemos onde está Valentine."
Clary balançou a cabeça dela. Frouxos fios de cabelo caíram em seus olhos, e ela os
jogou de volta com impaciência. Deus, ela estava imunda. A única coisa que ela
precisava mais do que qualquer coisa, quase qualquer coisa, era uma ducha.
"Valentine não têm algum tipo de esconderijo? Um covil secreto?"
"Se ele tem," Luke disse, "ele tem mantido isso em absoluto segredo."
Gretel soltou Clary, que moveu seu braço delicadamente. A pomada verdosa que
Gretel tinha esfregado sobre o corte havia minimizado a dor, mas seu braço
permanecia rígido e desajeitado. "Espere um segundo," Clary disse.
"Eu nunca entendo porque as pessoas dizem isso," Luke disse, para ninguém em
particular. "Eu não estava indo para lugar algum."
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"Valentine poderia estar em algum lugar em Nova Iorque?"
"Possivelmente."
"Quando eu o vi no Instituto, ele veio através de um Portal. Magnus disse que só
existem dois portais em Nova Iorque. Um em Dorothea, e um em Renwick. O de
Dorothea foi destruído, e eu não posso vê-lo escondido lá mesmo assim, então..."
"No de Renwick?" Luke pareceu desconcertado. "Renwick não é um nome de Caçador
de Sombras."
"E se Renwick não é uma pessoa, de qualquer forma?" Clary disse. "E se for um
lugar? Renwick's. Como num restaurante, ou... ou um hotel ou algo assim."
Os olhos de Luke ficaram subitamente largos. Ele se virou para Gretel, que estava
avançando sobre ele com o kit médico. "Me traga uma lista telefônica," ele disse.
Ela parou em seu caminho, segurando a bandeja em direção a ele em uma maneira
acusatória. "Mas, senhor, suas feridas."
"Esqueça minhas feridas e me pegue uma lista telefônica," ele rebateu. "Estamos em
uma delegacia. Acho que teria bastantes das antigas por aí."
Com um olhar de desdenhosa exasperação Gretel colocou a bandeja no chão e
marchou para fora do quarto. Luke olhou Clary sobre seus óculos, que tinha deslizado
metade do caminho abaixo de seu nariz. "Bem lembrado."
Ela não respondeu. Havia um nó duro no centro de seu estômago. Ela encontrou a si
mesma tentando respirar em torno dela. O início de um pensamento fez cócegas na
ponta de sua mente, esperando se resolver a si mesmo dentro de um estouro cheio
de realização. Mas ela o empurrou firmemente para baixo e para longe. Ela não podia
se permitir de dar a ela recursos, sua energia, para qualquer coisa mas ao problema
imediatamente à mão.
Gretel retornou com uma parecendo úmida – páginas amarelas – e empurrou elas
para Luke. Ele leu o livro em pé, enquanto a mulher-lobo atacava suas feridas ao lado
com bandagens adesivas e potes de pomada. "Há sete Renwicks na lista telefônica,"
ele disse finalmente. "Nenhum restaurante, hotéis ou outros locais." Ele empurrou
seus óculos para cima, eles deslizaram de novo instantaneamente. "Eles não são
Caçadores de Sombras," ele disse, "e me parece pouco provável que Valentine tenha
criado um quartel general em uma casa de um mundano ou um Downworlder.
Embora, talvez..."
"Vocês têm um telefone?" Clary interrompeu.
"Não comigo." Luke, ainda segurando a lista telefônica, olhou abaixo para Gretel.
"Você poderia pegar o telefone?"
Com um desgostoso urro ela jogou o chumaço de panos ensanguentados que ela
tinha estado segurando e jogou ao chão, e saiu da sala num segundo. Luke colocou a
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lista de telefones sobre a mesa, pegou o rolo de ataduras, e começou a contornar em
torno da diagonal, atravessando suas costelas. "Desculpe," ele disse, enquanto Clary
olhava. "Sei que é nojento."
"Se a gente pegar Valentine," ela perguntou abruptamente, "nós podemos matar
ele?"
Luke quase largou as ataduras. "O quê?"
Ela se ocupou com um casual fio cutucando fora do bolso do seu jeans. "Ele matou o
meu irmão mais velho. Ele matou meus avós. Não matou?"
Luke colocou as ataduras em cima da mesa e puxou a camisa para baixo. "E você
acha que matar ele fará o quê? Apagar essas coisas?"
Gretel retornou antes que Clary pudesse dizer alguma coisa sobre isso. Ela usava
uma martirizada expressão e entregou a Luke um parecendo desajeitado e antiquado
celular. Clary se perguntou quem pagava as contas do telefone.
Clary segurou a sua mão. "Me deixa fazer uma ligação."
Luke pareceu hesitante. "Clary..."
"É sobre Renwick. Vai levar apenas um segundo."
Ele lhe entregou o telefone cautelosamente. Ela teclou nos números, e meio se virou,
se afastando dele para dar a ela mesma a ilusão de privacidade.
Simon atendeu no terceiro toque. "Alô?"
"Sou eu."
Sua voz aumentou uma oitava. "Você está bem?"
"Eu estou bem. Por quê? Você já ouviu alguma coisa de Isabelle?"
"Não. O que eu ouviria de Isabelle? Existe algo de errado? E Alec?"
"Não," Clary disse, não querendo mentir e dizer que Alec estava bem. "Não sei sobre
Alec. Olha, eu só preciso que você procure no Google algo para mim."
Simon aspirou. "Você está brincando. Eles não têm um computador? Você sabe o
quê, não responda a isso." Ela ouviu o som de uma porta abrir e a pancada miada
enquanto o gato da mãe de Simon era banido de seu poleiro no teclado do seu
computador. Ela podia imaginar Simon muito claramente na sua cabeça enquanto ele
se sentava, seus dedos deslocando-se rapidamente ao longo do teclado. "O que você
quer que eu procure?"
Ela disse a ele. Ela podia sentir os olhos preocupados de Luke nela enquanto ela
falava. Era da mesma forma que ele olhava para ela quando ela tinha onze anos e
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teve uma gripe culminada com uma febre. Ele trouxe cubos de gelo para ela sugar e
tinha lido para ela seus livros favoritos, fazendo todas as vozes.
"Você está certa," Simon disse, a tirando do seu devaneio. "É um lugar. Ou, pelo
menos, era um lugar. Está abandonado agora."
Sua mão suada escorregou sobre o telefone, e ela apertou sua mão. "Me fale sobre
isso."
"O mais famoso dos manicômios, prisões de devedores, e hospitais construídos na
Ilha de Roosevelt em 1800," Simon leu lealmente. " Hospital Renwick Smallpox foi
projetado pelo arquiteto Jacob Renwick e destinado a quarentena das mais pobres
vítimas em Manhattan da epidemia incontrolável de varíola. Durante o século
seguinte, o hospital foi abandonado à ruína. O acesso público às ruínas é proibido."
"Ok, isso é suficiente," Clary disse, seu coração batendo. "Isso tem que ser ele. Ilha
de Roosevelt? Não vivem pessoas lá?"
"Nem todo mundo vive em uma ladeira, princesa," Simon disse, com um justo grau
de falso sarcasmo. "De qualquer maneira, você precisa de mim para te dar uma
carona de novo ou algo assim?"
"Não! Eu estou bem, eu não preciso de nada. Eu só queria a informação."
"Tudo bem." Ele soou um pouco machucado, Clary pensou, mas ela disse a si mesma
que não importava. Ele estava seguro em casa, e isso era o que era importante.
Ela desligou, se voltando para Luke. "Há um hospital abandonado no extremo sul da
Ilha de Roosevelt chamado Renwick. Acho que Valentine está lá."
Luke empurrou seus óculos de novo. "Ilha de Blackwell. É Claro."
"O que você quer dizer com Blackwell? Eu disse..."
Ele cortou ela com um gesto. "Isso era como a Ilha de Roosevelt costumava ser
chamada. Blackwell. Ela era a propriedade de uma antiga família de Caçadores de
Sombras. Eu devia ter adivinhado." Ele se virou para Gretel. "Traga Alaric. Vamos
precisar de todo mundo aqui de volta o mais rápido possível." Seus lábios se
curvaram em um meio sorriso que lembrou Clary do frio sorriso que Jace usou
durante a luta. "Diga para eles se aprontarem para a batalha."
***
Eles fizeram o seu caminho até a rua através de um sinuoso labirinto de celas e
corredores que eventualmente se abriam, uma vez, para o que tinha sido o saguão de
uma delegacia. O edifício estava abandonado agora, e a inclinada luz da tarde lançava
estranhas sombras sobre as escrivaninhas vazias, os armários trancados com
cadeados eram marcados por buracos negros de cupim, o piso de mosaicos rachados
anunciavam o lema da NYPD: Fidélis ad mortem.
"Fiel até à morte," disse Luke, seguindo seu olhar.
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"Me deixe adivinhar," Clary disse. "No interior é uma delegacia abandonada, a partir
do exterior, os mundanos só vêem um edifício condenado, ou um lote vago, ou..."
"Na verdade ele se parece com um restaurante chinês no exterior," Luke disse. "Só
entrega, nenhum serviço de mesa."
"Um restaurante chinês?" Clary ecoou com descrença.
Ele deu de ombros. "Bem, estamos em Chinatown. Esta era a Segunda Jurisdição
construída."
"As pessoas devem pensar que é estranho que não haja um número de telefone para
se ligar para as encomendas."
Luke sorriu. "Há sim. Nós apenas não atendemos muito. Às vezes, se eles estiverem
chateados, alguns dos novatos fazem algumas entregas de porco mu shu."
"Você está brincando."
"De jeito nenhum. As gorjetas vêm a calhar." Ele empurrou a porta da frente aberta,
deixando um fluxo de luz solar.
Ainda sem certeza se ele estava brincando ou não, Clary seguiu Luke em toda a
Baxter Street onde o seu carro estava estacionado. O interior da caminhonete era
confortantemente familiar. O indistinto cheiro de madeira, papel velho e sabão, o par
de dados de pelúcia dourado desbotado que ela tinha lhe dado quando ela tinha dez
porque eles pareciam dados de ouro pendurados a frente do espelho retrovisor do
Millennium Falcon. As descartadas embalagens de chiclete e copos vazios de café
rolando pelo chão. Clary colocou a si mesma em um assento do passageiro, fixando-
se atrás contra o encosto de cabeça com um suspiro. Ela estava mais cansada do que
ela gostaria de admitir.
Luke fechou a porta atrás dela. "Fique aqui."
Ela observou enquanto ele falava com Alaric e Gretel, que estavam de pé nos degraus
da antiga delegacia, esperando pacientemente. Clary distraiu-se sozinha, deixando os
olhos dela desaparecer dentro e fora de foco, observando o glamour aparecer e
desaparecer. Primeiro era uma antiga delegacia, então ela era uma frente de uma
loja dilapidada ostentando um toldo amarelo em que se lia Lobo de Jade Cozinha
Chinesa.
Luke estava gesticulando para o seu segundo e terceiro, apontando para baixo na
rua. Sua pickup era a primeira em uma linha de furgões, motocicletas, pipes, e até
mesmo um parecendo arruinado, velho ônibus escolar. Os veículos se esticavam em
uma linha para baixo da quadra e viravam em uma esquina. Um comboio de
lobisomens. Clary perguntou como eles pediram, tomaram emprestado, roubaram ou
confiscaram tantos veículos em um prazo tão curto. No lado positivo, pelo menos,
eles não tinham que ir de bonde elétrico.
Luke aceitou um saco de papel branco de Gretel, e com um aceno, saltou de volta na
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pickup. Dobrando seu corpo esguio, ao volante, ele lhe entregou o saco. "Você está
encarregada disto."
Clary perscrutou aquilo com suspeita. "O que é isso? Armas?"
Os ombros de Luke se sacudiram com uma risada sem som. "Pães cozinhados no
vapor, na verdade," ele disse, puxando o caminhão para fora na rua. "E café."
Clary rasgou o saco o abrindo enquanto eles dirigiam cidade acima, seu estômago
rosnava furiosamente. Ela rasgou um rolo aparte, saboreando o rico e apetitoso sabor
salgado da carne de porco, mastigando a massa branca. Ela empurrou aquilo abaixo
com um gole do super doce café preto, e ofereceu um rolo a Luke. "Quer um?"
"Claro." Era quase como nos velhos tempos, ela pensou, enquanto eles se
movimentavam pela rua do Canal, quando eles pegavam sacos de bolinhos quentes
na Panificadora Carruagem Dourada e comiam metade deles se dirigindo para casa,
acima da ponte de Manhattan.
"Então, me fale sobre este Jace," Luke disse.
Clary quase engasgou com um rolo. Ela alcançou o café, afogando suas tosses com o
líquido quente. "O quê sobre ele?"
"Você tem alguma idéia do que Valentine poderia querem com ele?"
"Não."
Luke amarrou a cara para o sol. "Eu pensava que esse Jace era uma das crianças dos
Lightwood?"
"Não." Clary mordeu seu terceiro rolo. "Seu sobrenome é Wayland. Seu pai era..."
"Michael Wayland?"
Ela concordou. "E quando Jace tinha dez anos, Valentine matou ele. Michael, eu quero
dizer."
"Isso soa como algo que ele faria," Luke disse. Seu tom era neutro, mas havia algo
na sua voz que fez Clary olhar para ele de lado. Ele não acreditava nela?
"Jace viu ele morrer," ela acrescentou, como se para apoiar a sua alegação.
"Isso é horrível," Luke disse. "Pobre garoto confuso."
Eles estavam dirigindo acima da rua da ponte cinquenta e nove. Clary olhou para
baixo e viu o rio se tornar todo em ouro e sangue pelo sol. Ela podia vislumbrar o
extremo sul da Ilha Roosevelt a partir dali, porém, era apenas uma mancha ao norte.
"Ele não é tão ruim," disse ela. "Os Lightwoods tomaram conta dele."
"Eu posso imaginar. Estavam sempre próximos a Michael," Luke observou, desviando-
se para a faixa da esquerda. No espelho lateral Clary pôde ver a caravana de veículos
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os seguindo alterando seu curso para imitar o dele. "Eles iriam querer cuidar do filho
dele."
"Então o que acontece quando a lua aparece?" ela perguntou. "Está tudo indo quando
de repente o lobo sai, ou o quê?"
A boca de Luke se contorceu. "Não exatamente. Apenas os jovens, os que acabaram
de se Mudar, não podem controlar as suas transformações. A maior parte do resto de
nós temos aprendido como, ao longo dos anos. Somente a lua, na forma mais cheia
pode forçar uma mudança em mim agora."
"Então, quando a lua está apenas parcialmente cheia, você só se sente um pequeno
lobinho?" Clary perguntou.
"Você pode dizer isso."
"Bem, você pode ir em frente e colocar sua cabeça para fora da janela do carro, se
você quiser."
Luke riu. "Eu sou um lobisomem, e não um golden retriever."
"Há quanto tempo você é o líder do clã?" ela perguntou abruptamente.
Luke hesitou. "Cerca de uma semana."
Clary se virou em torno para olhar para ele. "Uma semana?"
Ele suspirou. "Eu sabia que Valentine tinha levado sua mãe," ele disse sem muita
inflexão. "Eu sabia que tinha poucas chances contra ele por mim mesmo e que eu não
poderia esperar nenhuma assistência da Clave. Levei um dia para rastrear a
localização da próxima matilha de licantropos."
"Você matou o líder do clã, assim você poderia tomar seu lugar?"
"Foi o caminho mais rápido que eu poderia tomar para adquirir um número de aliados
em um curto período de tempo," Luke disse, sem arrependimento no seu tom,
embora sem qualquer orgulho também. Ela se lembrou de ter espiado ele na sua
casa, como ela havia notado os profundos arranhões nas mãos e rosto e da forma
como ele recuava quando ele movia o seu braço. "Eu teria feito isso antes. Tive
bastante certeza que eu poderia fazê-lo novamente." Ele deu de ombros. "Sua mãe
tinha ido embora. Eu sabia que eu tinha feito você me odiar. Eu não tinha nada a
perder."
Clary amarrou seus tênis verdes contra o painel. Através do rachado pará-brisa,
acima das pontas dos pés, a lua estava subindo acima da ponte. "Bem," disse ela.
"Você tem agora."
O hospital, no extremo sul da Ilha de Roosevelt estava iluminado pela noite, os seus
contornos fantasmagóricos curiosamente visíveis contra a escuridão do rio e da
grande iluminação de Manhattan. Luke e Clary ficaram em silêncio enquanto a pickup
passava pela pequena ilha, enquanto a estrada pavimentada se tornava em saibro e
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finalmente em uma acumulada sujeira. A estrada seguia a curva de uma alta grade
com aros fechados, no topo de cada estavam fios afiados amarrados em arabesco
como festivos laços de fita.
Quando a estrada ficou muito acidentada para eles seguirem mais adiante, Luke
levou a caminhonete para uma parada e desligou as luzes. Ele olhou para Clary. "Há
alguma chance se eu te pedir para esperar por mim aqui, você faria isso?"
Ela balançou a cabeça dela. "Não seria necessariamente mais seguro dentro do carro.
Quem sabe se Valentine está patrulhando seu perímetro?"
Luke riu suavemente. "Perímetro. Olhe só você." Ele se colocou para fora do
caminhão e foi em torno ao seu lado para ajudá-la a descer. Ela podia, por si mesma,
ter saltado para fora da caminhonete, mas foi bom ter ajuda, do jeito como ele fazia
quando ela era pequena demais para ela própria escalar pra fora.
Seus pés bateram na sujeira seca acumulada, enviando flocos de poeira. Os carros
que tinham seguido eles estavam subindo, um por um, formando uma espécie de
círculo em torno do caminhão de Luke. Seus faróis varriam toda a sua visão, e
iluminando as grades da cerca para um branco prateado. Além da cerca, o hospital
em si era uma ruína banhada na dura luz que apontava sua dilapidada situação: as
paredes sem teto sobressaiam no terreno irregular como dentes quebrados, os
parapeitos de pedra da fortificação estavam cobertos com um tapete verde de hera.
"É um desastre," ela se ouviu dizer suavemente, um vacilar de apreensão em sua
voz. "Não vejo como Valentine poderia eventualmente esconder aqui."
Luke olhou além dela para o hospital. "É um glamour forte," ele disse. "Tente olhar
além das luzes." Alaric estava andando na direção deles ao longo da estrada, a leve
brisa fazendo seu casaco de sarja sacudiu em aberto, mostrando a cicatriz no peito
por baixo. Os lobisomens andando atrás dele pareciam completamente pessoas
comuns, Clary pensou. Se ela tivesse visto eles todos juntos em um grupo em algum
lugar, ela pode ter pensado que se conheciam uns aos outros de alguma maneira,
havia uma certa semelhança não física, uma rudeza em seus olhares, uma força em
suas expressões. Ela poderia ter pensado que eram agricultores, já que pareciam
mais bronzeados, curvados, e magros do que a maioria dos moradores da cidade, ou
talvez ela achasse que eles eram de uma gangue de motociclistas. Mas eles em nada
se pareciam como monstros.
Eles se reuniram em uma conferência rápida no caminhão de Luke, como uma
amontoada reunião de futebol. Clary, lançando-se muito do lado de fora, virou-se
para olhar para o hospital novamente. Desta vez ela tentou olhar ao redor da luz, ou
através delas, da forma como você por vezes poderia olhar através de um fino
acabamento de tinta para ver o que estava por baixo. Como normalmente ela fazia,
pensando em como ela iria pintá-lo, isso ajudou. As luzes pareceram desaparecer, e
agora ela estava olhando através de um carvalho – o gramado limpo para uma
estrutura ornada gótica do Renascimento que parecia se assomar acima das árvores
como a amurada de um grande navio. As janelas dos andares mais baixos eram
escuras e blindadas, mas através da luz derramada das esquadrias dos arcos das
janelas do terceiro andar, como uma linha de chamas queimando ao longo do cume
de uma montanha distante. Uma pesada pedra na varanda cobria o exterior,
escondendo a porta da frente.
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"Você vê?" Era Luke, que veio atrás dela com a passada graciosa de... bem, um lobo.
Ela ainda estava olhando. "É mais parecido com um castelo do que com um hospital."
Tomando ela pelos ombros, Luke a virou para olhá-lo. "Clary, me escute." Seu aperto
foi dolorosamente com força. "Eu quero que você fique ao meu lado. Se mova quando
eu passar. Segure a minha manga se tiver necessidade. Os outros vão ficar em torno
de nós, nos protegendo, mas se você ficar fora do círculo, eles não serão capazes de
proteger você. Eles estão indo para nos mover em direção à porta." Ele desceu as
mãos de seus ombros, e quando ele se moveu, ela viu o brilho de algo de metal no
interior da sua jaqueta.
Ela não percebeu que ele estava carregando uma arma, mas então ela lembrou que
Simon havia dito sobre o que estava na velha mala verde de Luke e supostamente
fazia sentido. "Você promete que você vai fazer o que eu disse?"
"Eu prometo."
A grade era real, não fazia parte do glamour. Alaric, ainda na frente, a agitou
experimentando, em seguida, colocou uma mão preguiçosa. Longas garras brotando
abaixo de suas unhas, e ele cortou o alambrado com elas, cortando o metal em tiras.
Elas caíram em um empilhado barulho, como Tinkertoys32.
"Vão." Ele gesticulou para os outros atravessarem. Eles agitaram-se à frente como
uma pessoa, um mar de movimentos coordenados. Pressionando o braço de Clary,
Luke a empurrou rente dele, abaixando a cabeça para seguir. Eles se indireitaram no
interior da cerca, olhando para cima em direção ao hospital, onde recolhidas formas
escuras, reunidas na varanda, estavam começando a se deslocar pelos degraus.
Alaric tinha levantado sua cabeça, farejando o vento. "O fedor da morte paira pesado
no ar."
A respiração de Luke deixou seus pulmões em um sibilo apressado. "Esquecidos."
Ele empurrou Clary para atrás dele, ela foi, tropeçando levemente sobre o terreno
irregular. O grupo começou a se mover em direção a ela e de Luke; enquanto eles se
aproximavam, eles todos se baixaram em quatro, lábios rosnando por trás de suas
longas presas, membros se estendendo longamente, as extremidades forradas de
pêlos, roupas cobertas por peles. Uma pequena voz instintiva na parte de trás do
cérebro de Clary estava gritando para ela: Lobos! Fujam! Mas ela lutou e permaneceu
onde ela estava, embora ela podia sentir o salto e os tremores nos nervos em suas
mãos.
O bando rodeou eles, de frente para fora. Mais lobos flanquearam de ambos os lados
do círculo. Era como se ela e Luke estivessem no centro de uma estrela. Com isso,
eles começaram a avançar em direção a varanda do hospital. Ainda atrás de Luke,
Clary nem sequer viu o primeiro dos Esquecidos que eles atingiram. Ela ouviu um
uivo de lobo como se em dor. O uivo subiu e subiu, transformando rapidamente em
32
Brinquedo feito de varetas e junções, você une elas do jeito que você quiser.
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um rosnado. Houve um som de queda, e então o gorgolejante choro e um som como
de papel rasgando...
Clary ficou se perguntando se os Esquecidos eram comestíveis.
Ela olhou para Luke. O rosto estava concentrado. Ela podia vê-los agora, além do
círculo de lobos, o palco iluminado de brilho e pelos refletores tremulando o brilho de
Manhattan: dezenas de Esquecidos, sua pele pálida de cadáver no luar, queimados
por lesões como runas. Seus olhos eram vagos enquanto eles se lançavam aos lobos,
e os lobos encontrando eles na cabeça, garras arranhando, dentes arrancando e
rasgando. Ela viu um dos guerreiros Esquecidos – uma mulher – cair, a garganta
despedaçada, os braços ainda se debatendo. Outro picado por um lobo com um
braço, enquanto o outro braço descansava no terreno a um metro de distância,
sangue pulsando da ponta. Sangue negro, repulsivo como a água de pântano,
correndo em um jorro, tornando a grama escorregadia, então os pés de Clary se
escorregaram para fora debaixo dela. Luke pegou ela antes que ela pudesse cair.
"Fique comigo."
Estou aqui, ela queria dizer, mas não havia palavras que saíssem de sua boca. O
grupo ainda estava subindo o gramado em direção ao hospital, agonizantemente
lento. O aperto de Luke era rígido como ferro. Clary não poderia dizer quem estava
ganhando, ou se ninguém. Os lobos tinham tamanho e a velocidade do seu lado, mas
os Esquecidos se moviam com uma sinistrainevitabilidade e eram
surpreendentemente difíceis de matar. Ela viu o grande lobo listrado que era Alaric
pegar um abaixo, rasgando suas pernas abaixo delas, em seguida, pulando para a
sua garganta. O Esquecido manteve o movimento, mesmo quando ele rasgou aquela
parte, o corte do machado abrindo uma longa ferida vermelha no casaco de Alaric.
Distraída, Clary quase não notou que o Esquecido tinha furado através do círculo de
proteção, até que se jogou na frente dela, como se tivesse surgido vindo da grama a
seus pés. Com olhar branco, cabelo emaranhado, ele levantou uma faca respingando.
Ela gritou. Luke girou, a arrastando para seu lado, pegou o pulso da coisa, e torceu.
Ela ouviu um estalo de osso e, a faca caiu na grama. A mão do Esquecido balançou
frouxamente, mas se manteve vindo em direção a eles, sem evidenciar nenhum sinal
de dor. Luke estava gritando roucamente para Alaric. Clary tentou alcançar a adaga
em sua cintura, mas o aperto de Luke em seu braço era demasiado forte. Antes que
ela pudesse gritar com ele para soltá-la, um golpe de uma estrutura delgada prateada
se chocou entre eles. Era Gretel. Ela aterrissou com suas patas da frente contra o
peito do Esquecido, lançando-o para o chão. Um feroz queixar de raiva veio da
garganta de Gretel, mas o Esquecido era mais forte, ele lançou ela para o lado como
uma boneca de trapo e rolou para seus pés.
Alguma coisa tinha levantado Clary sob seus pés. Ela gritou, mas era Alaric, metade
sim e metade não em sua forma de lobo, suas mãos a prendiam com afiadas garras.
Ainda assim, elas a seguravam gentilmente colocando ela em seus braços.
Luke estava fazendo sinal para eles. "Leve ela daqui! Leve ela para as portas!" ele
estava gritando.
"Luke!" Clary se virou nos braços de Alaric.
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"Não olhe," Alaric disse com um rosnar.
Mas ela olhou. Tempo suficiente para começar a ver Luke indo em direção a Gretel,
uma lâmina em sua mão, mas ele estava muito atrasado. O Esquecido segurou uma
faca, que havia caído na grama molhada de sangue, e a afundou nas costas de
Gretel, de novo e de novo, enquanto ela o agarrava e lutava e finalmente
desmoronava, a luz em seus olhos prateados desvanescendo em trevas. Com um
grito Luke projetou sua espada na garganta do Esquecido...
"Eu lhe disse para não olhar," Alaric rosnou, virando aquela linha de visão dela que foi
bloqueada por seu volume agigantado. Eles estavam correndo acima dos degraus, o
som do arranhar de seus pés friccionando o granito como unhas em uma lousa.
"Alaric," Clary disse.
"Sim?"
"Sinto muito por ter jogado uma faca em você."
"Não se desculpe. Foi um golpe bem colocado."
Ela tentou olhar além dele. "Onde está Luke?"
"Eu estou aqui," Luke disse. Alaric se virou. Luke foi chegando aos passos, deslizando
sua espada de volta a sua bainha, que estava presa ao seu lado, sob o seu casaco. A
lâmina estava negra e pegajosa.
Alaric deixou Clary deslizar para a varanda. Ela desceu se virando. Ela não podia ver
Gretel ou o Esquecido que tinha matado ela, só uma massa de corpos e metais
brilhando. Seu rosto estava molhado. Ela o alcançou com uma mão livre para ver se
ela estava sangrando, mas percebeu que em vez disso, ela estava chorando. Luke
olhou para ela curiosamente. "Ela era apenas uma Downworlder," ele disse.
Os olhos de Clary queimavam. "Não diga isso."
"Eu vejo." Ele se virou para Alaric. "Obrigado por cuidar dela. Enquanto nós vamos
para dentro... "
"Eu vou com você," Alaric disse. Ele tinha feito a maior parte da transformação para a
forma de homem, mas seus olhos ainda eram os olhos de um lobo e seus lábios
puxados para trás dos dentes, tão longos quanto palitos de dentes. Ele flexionou as
longas unhas de suas mãos.
Os olhos de Luke estavam preocupados. "Alaric, não."
A voz rosnada de Alaric estava plana. "Você é o líder do bando. Sou seu segundo
agora que Gretel está morta. Não seria correto deixar você ir sozinho."
"Eu..." Luke olhou Clary e, em seguida, de volta lá fora na área em frente ao
hospital. "Eu preciso de você aqui fora, Alaric. Sinto muito. Isso é uma ordem."
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Os olhos de Alaric lampejaram ressentidamente, mas ele andou para o lado. A porta
do hospital era pesadamente ornamentada com madeira esculpida, os padrões eram
familiares para Clary, as rosas de Idris, runas enroscadas, sóis imitindo raios. Ela
abriu com um barulho de estrondo no trinco quando Luke chutou ela. Ele empurrou
Clary em direção a porta aberta largamente. "Entre."
Ela tropeçou passando por ele, e virou-se na soleira da porta. Ela pegou um único
breve vislumbre de Alaric olhando para eles, seus olhos de lobo reluziam. Atrás dele,
o gramado em frente ao hospital, estava espalhado com corpos, as sujeiras
manchadas de sangue, preto e vermelho. Quando a porta se fechou atrás dela,
cortando sua visão, ela ficou agradecida.
Ela e Luke ficaram na semi-iluminada escuridão, em uma pedra na entrada, o
caminho era iluminado por uma única tocha. Depois do ruído da batalha o silêncio era
como um manto opressor. Clary encontrou a si mesma arfando para respirar o ar, o
ar que não era espesso com umidade e o cheiro de sangue.
Luke agarrou o seu ombro com a mão. "Você está bem?"
Ela limpou suas bochechas. "Você não deveria ter dito aquilo. Sobre Gretel ser apenas
uma Downworlder. Eu não penso assim."
"Estou feliz em ouvir isso." Ele se aproximou da tocha em um apoio de metal. "Eu
odiei a idéia do Lightwoods terem transformado você em uma cópia deles."
"Bem, eles não fizeram."
A tocha não saía do lugar nas mãos de Luke, ele franziu a sobrancelha. Escavando em
seu bolso, Clary removeu a suave pedra de runa que Jace tinha lhe dado no seu
aniversário, e a levantou para o alto. A luz brotou entre seus dedos, como se ela
rachasse uma semente na escuridão, soltando toda a iluminação presa lá dentro.
Luke largou a tocha.
"Luz de bruxa?" ele disse.
"Jace a deu para mim." Ela podia sentir seu pulso na sua mão, como o batimento
cardíaco de um pequeno pássaro. Ela se perguntou onde Jace estava nesta pilha de
pedra cinza de quartos, se ele estava amedrontado, se ele se perguntava se veria ela
novamente.
"Já faz anos desde que eu lutei com uma luz de bruxa," Luke disse, e começou a subir
as escadas. Elas rangiam ruidosamente sob suas botas. "Me siga."
O chamejante brilho da luz de bruxa se lançava as suas sombras, estranhamente
alongadas, contra as lisas paredes de granito. Eles pararam em uma pedra aterrada
que se curvava em torno de um arco. Acima deles ela podia ver luz. "Isso é o que o
hospital costumava ser a centenas de anos atrás?" Clary sussurrou.
"Oh, a estrutura do que Renwick construiu ainda está aqui," Luke disse. "Mas eu
imagino que Valentine, Blackwell e os outros tenham remodelado o local para ser um
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pouco mais ao gosto deles. Veja aqui." Ele raspou a bota ao longo do piso: Clary
olhou para baixo e viu uma runa esculpida em granito sob seus pés: um círculo, no
centro do qual havia um ditado em latim: Em Hoc Signo Vinces.
"O que significa isso?" ela perguntou.
"Significa, „Por este sinal nós iremos conquistar‟. Era o lema do Círculo."
Ela olhou acima, em direção à luz. "Então, eles estão aqui."
"Eles estão aqui," Luke disse, e havia uma antecipação na ponta estreita de seu tom.
"Venha."
Eles subiram a escada sinuosa, circulando abaixo da luz até que elas estavam em
torno deles e eles estavam de pé na entrada de um longo e estreito corredor. Tochas
queimavam ao longo da passagem. Clary fechou sua mão sobre a luz de bruxa, e ela
piscou como uma estrela se extinguindo.
Havia portas colocadas em intervalos ao longo do corredor, todas elas fechadas
firmemente. Ela se perguntou se elas haviam sido enfermarias, quando havia sido um
hospital, ou talvez, quartos particulares. Enquanto eles se moviam pelo corredor,
Clary viu as marcas de pegadas, enlameadas da grama lá fora, cruzando a passagem.
Alguém tinha andado aqui recentemente.
A primeira porta que eles tentaram abrir cedeu facilmente, mas do outro lado da sala
estava vazio: apenas o polido piso de madeira e paredes de pedra, iluminadas pelo
misterioso derramar do luar através da janela. O fraco rugido da batalha lá fora
preenchia a sala, tão rítmicas quanto o som do oceano. A segunda sala estava cheia
de armas: espadas, clavas, e machados. A luz da lua corria como água prateada com
filas após filas de aço frio desembainhado. Luke assobiou sob a sua respiração. "O
bastante para uma coleção."
"Você acha que Valentine utiliza todas elas?"
"Improvável. Eu suspeito que elas são para o seu exército." Luke se afastou.
A terceira sala era um quarto. Os dosséis em torno dos quatro postes da cama eram
azuis, o tapete persa padronizado em azul, preto e cinza, e os móveis eram pintados
de branco, como o mobiliário em um quarto infantil. Uma fina camada de
fantasmagórica poeira cobria tudo, cintilando ligeiramente ao luar.
Deitada na cama, Jocelyn dormia.
Ela estava em suas costas, uma mão cuidadosamente jogada em seu peito, seus
cabelos espalhados por todo o travesseiro. Ela usava uma espécie de camisola branca
que Clary nunca tinha visto, e ela estava respirando regularmente e em silêncio. Na
penetrante luz da lua Clary pode ver o tremular de pálpebras de sua mãe enquanto
ela sonhava.
Com um gritinho Clary se atirou em direção... mas Luke voou seu braço a prendendo
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em todo seu peito como uma barra de ferro, a segurando de volta. "Espere," ele
disse, a sua própria voz tensa com o esforço. "Temos que ter cuidado."
Clary olhou para ele, mas ele estava olhando além dela, sua expressão furiosa e
dolorosa. Ela seguiu a linha de seu olhar e viu o que ela não tinha querido ver antes.
Algemas prateadas se fechavam em torno dos pulsos e pés de Jocelyn, e as pontas
das suas correntes mergulhadas profundamente na piso de pedra em cada lado da
cama. A mesa ao lado da cama estava coberta com o estranho conjunto de tubos e
garrafas, frascos de vidros longos, e maldosamente inclinados, cintilantes
instrumentos cirúrgicos de aço. Um tubo de borracha corria de um dos frascos de
vidro para uma veia do braço esquerdo de Jocelyn.
Clary se sacudiu se afastando das mãos restritivas de Luke e disparou em direção a
cama, embalando seus braços em torno do corpo impassível de sua mãe. Mas foi
como tentar um abraço em uma boneca mal articulada. Jocelyn permanecia imóvel e
rígida, a sua respiração lenta, inalterada.
Uma semana atrás Clary teria chorado como ela tinha feito naquela primeira noite
terrível que ela tinha descoberto que sua mãe estava faltando, chorou e saiu. Mas
nenhuma lágrima veio agora, enquanto ela deixava sua mãe e se endireitava. Não
havia terror nela agora, e nenhuma auto-piedade: apenas uma amarga fúria e uma
necessidade de encontrar o homem que havia feito isto, o responsável por tudo isso.
"Valentine," ela disse.
"É claro." Luke estava ao lado dela, tocando levemente o rosto de sua mãe,
levantando suas pálpebras. Os olhos abaixo estavam brancos como mármores. "Ela
não está drogada," ele disse. "É algum tipo de feitiço, eu espero."
Clary deixou sua respiração sair em um apertado meio soluçar. "Como é que vamos
tirá-la daqui?"
"Eu não posso tocar as algemas," disse Luke. "Prata. Você pode..."
"A sala de armas," Clary disse, de pé. "Eu vi lá um machado. Vários. Podíamos cortar
as correntes..."
"As correntes são inquebráveis." A voz que falou da porta era baixa, arenosa, e
familiar. Clary virou-se e viu Blackwell. Ele estava sorrindo agora, usando a mesma
veste cor de sangue coagulado como antes, a capa empurrada para trás, botas
lamacentas visíveis sob a bainha. "Graymark," ele disse. "Que surpresa agradável."
Luke se endireitou. "Se você está surpreso, você é um idiota," ele disse. "Eu não
cheguei exatamente em silêncio."
As bochechas de Blackwell coraram em um roxo mais escuro, mas ele não se moveu
em direção a Luke. "Líder de um clã novamente, não é?" ele disse, e deu uma
desagradável risada. "Não é possível você quebrar o hábito de botar os Downworlders
para fazer seu trabalho sujo? As tropas de Valentine estão ocupadas espalhando
pedaços deles em todo o gramado, e você está aqui em cima à salvo com suas
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namoradas." Ele olhou com desprezo na direção de Clary. "Essa parece um pouco
jovem para você, Lucian."
Clary corou furiosamente, suas mãos se dobrando nos punhos, mas a voz de Luke,
quando ele respondeu, era educada. "Eu não chamaria exatamente aquilo de tropas,
Blackwell," ele disse. "Eles são Esquecidos. Atormentados, sendo uma vez seres
humanos. Se me lembro corretamente, a Clave olha bem feio para tudo isso –
pessoas torturadas, preparadas por magia negra. Eu não posso imaginar eles ficando
muito satisfeitos."
"Maldita Clave," Blackwell rugiu. "Nós não precisamos deles e sua meia-raça de
tolerantes. Além disso, os Esquecidos não serão Esquecidos por muito tempo. Uma
vez que Valentine utilizar a Taça sobre eles, eles serão tão bons Caçadores de
Sombras quanto o resto de nós, melhor do que aquilo que a Clave está fazendo
passar como guerreiros hoje em dia. Downworlders amando covardes." Ele revelou
seus dentes desbotados.
"Se for esse o seu plano para a Taça," Luke disse, "porque ele já não o fez? O que é
que ele está esperando?"
As sobrancelhas de Blackwell se levantaram. "Como você sabia? Ele tem o seu..."
Uma sedosa risada interrompeu ele. Pangborn tinham aparecido atrás dele, todo em
preto com uma tira de couro através de seu ombro. "Já chega, Blackwell," ele disse.
"Você fala demais, como sempre." Ele reluziu seus dentes afiados para Luke. "Jogada
interessante, Graymark. Eu não achei que você teria estômago para conduzir o seu
mais novo clã em uma missão suicida."
Um músculo da bochecha de Luke retorceu. "Jocelyn," ele disse. "O que ele fez com
ela?"
Pangborn gargalhou musicalmente. "Eu pensei que você não se importasse."
"Não vejo o que ele quer com ela agora," prosseguiu Luke, ignorando o sarcasmo.
"Ele tem a Taça. Ela não pode ser utilizada. Valentine nunca foi um assassino sem
propósito. Assassino com um objetivo. Agora, isso poderia ser uma história
diferente."
Pangborn encolheu os ombros com indiferença. "Não faz diferença para nós o que ele
faz com ela," ele disse. "Ela era sua esposa. Talvez ele odeie ela. Esse é um ponto."
"Deixe-a ir," Luke disse, "e nós saímos com ela, chamarei o clã para fora. Vou te
dever uma."
"Não!" A explosão de fúria de Clary fez Pangborn e Blackwell virarem seus olhares
para ela. Ambos pareceram ligeiramente incrédulos, como se ela fosse dizer uma
conversa barata. Ela se virou para Luke. "Há ainda Jace. Ele está aqui em algum
lugar."
Blackwell estava rindo. "Jace? Nunca ouvi falar de um Jace," ele disse. "Agora, eu
poderia pedir a Pangborn para deixar ela ir. Mas eu prefiro que não. Ela sempre foi
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uma cadela para mim, Jocelyn. Pensei que ela era melhor do que o resto de nós, com
sua aparência e sua linhagem. Apenas uma cadela com pedigree, isso é tudo. Ela só
casou com ele, para que ela pudesse ficar em torno de nós todos..."
"Decepcionado por você mesmo não conseguir casar com ele, Blackwell?" era tudo
que Luke disse em resposta, embora Clary pudesse ouvir a fria raiva em sua voz.
Blackwell, seu rosto se arroxeando, deu um passo zangado para dentro do quarto.
E Luke, se movendo tão rapidamente que Clary quase não o viu fazer isso, agarrou
um bisturi apreendido da mesa de cabeceira e o arremessou. Ele girou duas vezes no
ar e afundou no primeiro ponto da garganta de Blackwell, cortando seu rosnado de
revide. Ele silenciou, os olhos rolaram até ficarem brancos, e caiu em seus joelhos, as
mãos na garganta. Um líquido vermelho pulsante espalhava-se entre seus dedos. Ele
abriu a sua boca como se para falar, mas apenas uma linha fina de sangue gotejou
para fora. Suas mãos escorregaram de sua garganta, e ele caiu no chão como uma
árvore caindo.
"Oh, querido," disse Pangborn, olhando para o corpo caído de seu companheiro com
um manhoso desgosto. "Que desagradável."
O sangue da garganta cortada de Blackwell estava se espalhando por todo o chão em
uma viscosa piscina vermelha. Luke, pegando o ombro de Clary, sussurrou algo no
ouvido dela. Aquilo não significou nada. Clary tinha apenas o conhecimento de um
zumbido entorpecido em sua cabeça. Ela lembrou de outro poema da aula de Inglês,
algo sobre como após a primeira morte que você viu, não importava as outras
mortes. Esse poeta não sabia o que ele estava falando.
Luke soltou ela. "As chaves, Pangborn," ele disse.
Pangborn cutucou Blackwell com um pé, e olhou para cima. Ele parecia irritado. "Ou o
quê? Você vai atirar uma seringa em mim? Havia apenas uma lâmina sobre a mesa.
Não," ele acrescentou, se chegando para detrás dele e alcançando em seus ombros
uma longa e parecendo exagerada espada, “eu temo que se você quer as chaves,
você terá que vir e levá-la. Não porque me interesso sobre Jocelyn Morgenstern de
uma forma ou de outra, você entende, mas apenas porque eu, estou ansioso por
matar você... há anos."
Ele falou a última palavra para fora, saboreando com uma deliciosa exultação
enquanto ele avançava pelo quarto. Sua espada reluziu, lançando um raio da luz da
lua. Clary viu Luke empurrar uma mão em direção a ela – uma estranhamente e
alongada mão, inclinada com unhas como minúsculos punhais e ela percebeu duas
coisas: que ele estava prestes a mudar, e que o que ele tinha sussurrado em seu
ouvido foi uma única palavra.
Corra.
Ela fugiu. Ela ziquezagueou em torno de Pangorn, que mal olhou para ela, evitando o
corpo de Blackwell, que estava fora da porta e no corredor, o coração batendo, antes
que a transformação de Luke estivesse completa. Ela não olhou para trás, mas ela
ouviu um uivo, longo e penetrante, o som de metal no metal, e uma queda
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estilhaçando. Vidro quebrando, ela pensou. Talvez eles tivessem derrubado a mesa
de cabeceira.
Ela se lançou ao fundo do corredor para a sala de armas. No interior, ela puxou o
cabo de aço do machado. Estava firmemente preso à parede, não importasse quão
duramente ela se esforçasse em retirar. Ela tentou uma espada e, em seguida, uma
lança – e até mesmo um pequeno punhal, mas não havia uma única arma que vinha
livre em sua mão. Por fim, com as unhas despedaçadas e os dedos sangrando pelo
esforço, ela teve que desistir. Havia magia nesta sala, e tão pouco uma magia rúnica:
era algo selvagem e estranho, algo escuro.
Ela saiu da sala. Não havia nada neste andar que poderia ajudá-la. Ela avançou com
dificuldade pelo corredor, ela estava começando a sentir a dor da verdadeira exaustão
em suas pernas e braços, e ela se encontrou na junção das escadas. Para cima ou
para baixo? Abaixo, ela lembrou, havia a escuridão, o vazio. É claro, que havia a luz
de bruxa no seu bolso, mas algo nela desanimava o pensamento de entrar naqueles
espaços pretos sozinha. Escadas acima ela viu o queimar de mais luzes, pegando o
tremeluzir de algo que poderia ter sido um movimento.
Ela subiu. Suas pernas doiam, seus pés doiam, tudo doia. Seus cortes tinham sido
atados, mas isso não os impedia de arder. Seu rosto machucado onde Hugo tinha
cortado sua bochecha, e sua boca tinha um gosto metálico e amargo.
Ela atingiu o último andar. Era suavemente curvo como a proa de um navio, tão
silencioso aqui quanto tinha sido escadas abaixo, não havia o som dos combates lá
fora que alcançasse suas orelhas. Outro longo corredor esticava-se em frente a ela,
com as mesmas múltiplas portas, mas aqui algumas estavam abertas, derramando
ainda mais luz para o corredor. Ela foi em frente, e algum instinto direcionou ela para
a última porta à sua esquerda. Cautelosamente ela olhou o interior.
A primeira vista o quarto lembrava ela de um período de reconstrução exibido no
Museu Metropolitano de Arte. Era como se ela entrasse no passado, os painéis nas
paredes brilhavam como se fossem recentemente ilustradas, como era
interminavelmente longa a mesa de jantar em conjunto com a delicada porcelana
chinesa. Um ornamentado espelho com moldura dourada adornava a parede mais
distante, entre dois retratos à óleo com pesadas molduras. Tudo reluzia sob a luz das
tochas: os pratos na mesa, preenchidos com alimentos, o sulco dos vidros em forma
de lírios, os panos da mesa tão brancos que eles cegavam. No final do quarto
estavam duas grandes janelas, guarnecidas com um veludo pesado pendurado. Jace
estava parado em uma das janelas, tão imóvel que por um momento ela imaginou
que ele era uma estátua, até que ela percebeu que podia ver a luz brilhando em seu
cabelo. Sua mão esquerda segurava uma cortina de lado e, na janela escura havia o
reflexo das dezenas de velas no interior da sala, presas no vidro como vagalumes.
"Jace," ela disse. Ela ouviu sua própria voz como se há distância: surpresa, gratidão,
saudade, tão acentuadas quanto dolorosas. Ele se virou, deixando a cortina cair, e ela
viu o olhar admirado sobre o seu rosto.
"Jace!" ela disse novamente, e correu em direção a ele. Ele capturou ela enquanto ela
mesma se lançava sobre ele. Os braços dele a envolviam com força em torno dela.
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"Clary." Sua voz era quase irreconhecível. "Clary, o que você está fazendo aqui?"
Sua voz estava abafada contra sua camisa. "Eu vim por você."
"Você não deveria ter vindo." Seu domínio sobre ela desapertou de repente, ele se
afastou para trás, segurando ela um pouco longe dele. "Meu Deus," ele disse, tocando
o rosto dela. "Idiota, que coisa a se fazer." Sua voz era brava, mas o olhar que varria
o rosto dela, os dedos que suavemente escovavam o cabelo dela para trás, eram
carinhosos. Ela nunca tinha visto ele sob este aspecto, havia uma espécie de
fragilidade nele, como se ele pudesse ser não apenas tocado mas machucado. "Por
que você nunca pensa?" ele sussurrou.
“Eu estava pensando,” ela disse. "Eu estava pensando em você."
Ele fechou os olhos por um instante. "Se alguma coisa tivesse acontecido com
você..." Suas mãos traçaram a linha dos braços suavemente, abaixo até os pulsos
dela, como se ele estivesse se reassegurando que ela estava realmente lá. "Como
você me encontrou?"
"Luke," ela respondeu. "Eu vim com Luke. Para resgatar você."
Ainda a segurando, ele olhou do seu rosto para a janela, um ligeiro franzido
ondulando no canto de sua boca. "Portanto aqueles eram... você veio com um clã de
lobos?" ele perguntou, um estranho tom em sua voz.
"Luke," disse ela. "Ele é um lobisomem, e..."
"Eu sei." Jace cortou ela. "Eu deveria ter adivinhado... as algemas." Ele olhou em
direção à porta. "Onde ele está?"
"Escadas abaixo," Clary disse lentamente. Ele matou Blackwell. Eu vim procurar por
você..."
"Ele vai ter de chamá-los para fora," Jace disse.
Ela olhou para ele sem compreender. "O quê?"
"Luke," Jace disse. "Ele vai ter que chamar os lobos de seu bando. Há um mal
entendido."
"O quê, você mesmo se sequestrou?" Ela quis soar provocando, mas a voz dela
estava muito leve. "Vamos lá, Jace."
Ela puxou o seu pulso, mas ele resistiu. Ele estava olhando para ela intensamente, e
ela notou com um choque o que ela não tinha notado, em sua primeira precipitação
de alívio.
A última vez que ela tinha visto ele, ele estava cortado e contundido, as roupas
manchadas de sangue e sujeira, seu cabelo imundo e com serosidade de sangue e
poeira. Agora, ele estava vestido com uma camisa branca solta e calças escuras, o
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seu cabelo limpo caindo por todo o rosto, ouro pálido e esvoaçante. Ele limpou alguns
fios dos seus olhos com uma delgada mão, e ela viu que o seu pesado anel de prata
estava atrás em seu dedo.
"Essas são suas roupas?" ela perguntou, confusa. "E… seus ferimentos estão todos
cuidados..." Sua voz falhou. "Parece que Valentine esteve cuidando terrivelmente
bem de você."
Ele sorriu para ela com um carinho cansado. "Se eu te dissesse a verdade, você diria
que eu estou louco," ele disse.
Ela sentiu seu coração agitando duramente contra o interior do seu peito, como uma
rápida batida de asas de um beija-flor. "Não, eu não diria."
"Meu pai me deu essas roupas," ele disse.
A palpitação tornou-se um rápido tumulto. "Jace," ela disse com cuidado, "seu pai
está morto."
"Não." Ele agitou sua cabeça. Ela teve a sensação de que ele estava segurando por
dentro um enorme sentimento, como horror ou prazer – ou ambos. "Eu achava que
ele estava, mas ele não está. Foi tudo um engano."
Ela se lembrou do que Hodge tinha dito sobre Valentine e sua habilidade de ser
encantador e convincente em mentiras. "Isto é algo que Valentine disse a você?
Porque ele é um mentiroso, Jace. Lembre-se do que Hodge disse. Se ele está dizendo
que seu pai está vivo, é uma mentira para que você faça aquilo que ele quer."
"Eu vi o meu pai," Jace disse. "Eu tenho conversado com ele. Ele me deu isto." Ele
puxou sua nova camisa limpa, como se fosse uma prova inevitável. "Meu pai não está
morto. Valentine não o matou. Hodge mentiu para mim. Todos estes anos eu pensei
que ele estava morto, mas ele não estava."
Clary olhou selvagemente ao redor, para a sala com a sua brilhante porcelana chinesa
e tochas derretendo e esvaziando, o espelho reluzente. "Bem, se o seu pai está
realmente neste lugar, então onde está ele? Valentine seqüestrou ele também?"
Os olhos de Jace estavam brilhando. O pescoço de sua camisa estava aberto e ela
podia ver as finas cicatrizes brancas que cobriam sua clavícula, como fissuras na
macia pele dourada. "Meu pai..."
A porta da sala, que Clary tinha fechado atrás dela, se abriu com um rangido, e um
homem caminhava para o quarto.
Era Valentine. Seus cabelos prateados cortados reluziam como um elmo de aço polido
e sua boca estava dura. Ele usava na cintura uma grossa bainha em seu cinto e o
cabo de uma longa espada projetava-se a partir do início da mesma.
"Então," disse ele, descansando a mão sobre o cabo enquanto ele falava, "você já
recolheu suas coisas? Nossos Esquecidos podem distanciar os homens lobo por
apenas... "
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Vendo Clary, ele se interrompeu no meio da sentença. Ele não era o tipo de homem
que realmente era apanhado fora guarda, mas ela viu o tremular de espanto nos
olhos dele. "O que é isso?" ele perguntou, virando seu olhar para Jace.
Mas Clary já estava tateando sua cintura pela adaga. Ela a agarrou pelo cabo,
sacudindo ela fora de sua bainha, e puxou a mão dela de volta. A fúria golpeava atrás
de seus olhos como um tambor. Ela poderia matar este homem. Ela iria matá-lo.
Jace segurou seu pulso. "Não."
Ela não podia conter sua incredulidade. "Mas, Jace..."
"Clary," ele disse firmemente. "Este é o meu pai."
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Foi um longo momento após Luke ter terminado de falar, houve silêncio dentro da
sala. O único som era o longínquo gotejar de água nas paredes de pedra. Finalmente
ele disse: “Diga alguma coisa, Clary.”
“O que você quer que eu diga?”
Ele suspirou. “Talvez que você entendeu?”
Clary podia ouvir o seu sangue golpeando em suas orelhas. Ela sentia como se sua
vida tivesse sido construída sobre uma lâmina de gelo tão fina quanto papel, e agora
o gelo estava começando a rachar, ameaçando mergulhar ela na sua gélida escuridão
abaixo. Embaixo, dentro da água escura, ela pensava, onde todos os segredos da sua
mãe eram levados nas correntes, os esquecidos restos de uma naufragada vida.
Ela olhou para Luke. Ele parecia hesitante, indistinto, como se ela olhasse através de
um vidro embaçado. "Meu pai," ela disse. "Aquela foto que minha mãe sempre
manteve sobre a janela..."
"Aquele não era o seu pai," Luke disse.
"Ele nunca sequer existiu?" A voz de Clary aumentou. "Houve alguma vez um John
Clark, ou minha mãe inventou ele também?"
"John Clark existiu. Mas ele não era seu pai. Ele era o filho de dois dos vizinhos de
sua mãe quando ela morava no East Village. Ele morreu em um acidente de carro,
assim como a sua mãe lhe disse, mas ela nunca conheceu ele. Ela tinha sua foto,
porque os vizinhos tinham encomendado a ela a pintura de um retrato dele em seu
uniforme de exército. Ela lhes deu a pintura, mas manteve a fotografia, e fingiu que o
homem tinha sido seu pai. Acho que ela pensou que era a forma mais fácil. Afinal de
contas, se ela alegasse que ele tinha fugido ou desaparecido, você iria querer
procurar por ele. Um homem morto..."
"Será que suas mentiras não se contradizem," Clary falou para ele amargamente. "Ela
não pensou que estava errada, todos os anos, me deixando pensar que o meu pai
estava morto, quando o meu verdadeiro pai..."
Luke nada disse, deixando ela encontrar o fim da frase por si mesma, deixando ela
pensar o impensável por si própria.
"É Valentine." Sua voz tremeu. "Era isso o que você estava me dizendo, certo? Aquele
Valentine era... é... meu pai?"
Luke acenou, seus nós dos dedos o único sinal da tensão que ele sentia. "Sim."
"Oh, meu Deus." Clary saltou para os pés dela, já não capaz de se sentar imóvel. Ela
andou para as barras da cela. "Não é possível. Isto apenas não é possível."
"Clary, por favor, não fique nervosa..."
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"Não fique nervosa? Você está me dizendo que o meu pai é um cara que é
basicamente um soberano do mal, e você quer que eu não fique nervosa?"
"Ele não era mal no início," Luke disse, soando quase em defensiva.
"Oh, eu imploro para discordar. Eu acho que ele era claramente mal. Todas as coisas
que ele estava recitando sobre como manter a raça humana pura e da importância do
sangue não contaminado – ele era como um daqueles caras assustadores do poder
branco31. E vocês dois caíram nessa totalmente."
"Eu não era o único falando sobre Downworlders 'nojentos' a poucos minutos atrás,"
Luke disse calmamente. "Ou sobre como eles não podem ser confiáveis."
"Isso não é a mesma coisa!" Clary podia ouvir as lágrimas em sua voz. "Eu tinha um
irmão," ela passou, sua voz presa. "Avós, também. Eles estão mortos?"
Luke acenou, olhando para baixo em suas grandes mãos, abertas nos joelhos. "Eles
estão mortos."
"Jonathan," ela disse suavemente. "Ele teria sido mais velho do que eu? Um ano mais
velho?"
Luke nada disse.
"Eu sempre quis ter um irmão," ela disse.
"Não," ele disse miseravelmente. "Não se torture. Você pode ver por que sua mãe
manteve tudo isso longe de você, você pode? Que bem faria se você soubesse o que
tinha perdido antes mesmo de você nascer?”
“Aquela caixa,” sua mente trabalhando febrilmente. "Com o J.C. sobre ela. Jonathan
Christopher. Aquilo era o que sempre fazia ela chorar, aquilo era o cacho de cabelo,
do meu irmão, não de meu pai."
"Sim."
"E quando você disse „Clary não é Jonathan‟, você queria dizer o meu irmão. Minha
mãe era tão superprotetora comigo, porque ela já tinha tido um filho que morreu."
Antes que Luke pudesse responder, a porta da cela retiniu aberta e Gretel entrou. O
"kit de cura", que Clary tinha previsto como sendo uma caixa dura de plástico rígido
com as insígnias da Cruz Vermelha sobre a mesma, tornou-se um grande tabuleiro de
madeira, empilhada com bandagens dobradas, tigelas de vapor com líquidos não
identificados, e ervas, que exalavam um pungente odor de limão. Gretel colocou a
bandeja para baixo e ao lado do beliche e fez sinais para Clary se sentar, o que ela
fez de má vontade.
"Essa é uma boa garota," disse a mulher-lobo, mergulhando um pano em uma das
31
White Power = Supremacia branca ou ariana, nazismo.
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tijelas e a levando para a cara de Clary. Gentilmente ela limpou o sangue seco. "O
que aconteceu com você?" ela perguntou com desaprovação, como se ela suspeitasse
que Clary tomasse um ralador de queijo no seu rosto.
"Eu estava pensando o mesmo," Luke disse, observando o vai e vem com braços
dobrados.
"Hugo me atacou." Clary tentou não estremecer enquanto o líquido adstringente
picava suas feridas.
"Hugo?" Luke piscou.
"O pássaro de Hodge. Acho que era o seu pássaro, de qualquer forma. Talvez fosse
de Valentine."
"Hugin," Luke disse suavemente. "Hugin e Munin eram as aves de estimação de
Valentine. Seus nomes significam „Pensamento‟ e „Memória‟."
"Bem, eles deveriam ser „Ataque‟ e „Mate‟,” Clary disse. "Hugo quase rasgou meus
olhos fora."
"Isso deve ser o que ele foi treinado para fazer." Luke estava batendo os dedos de
uma mão contra o seu outro braço. "Hodge deve ter pego ele após a revolta. Mas ele
ainda era uma criatura de Valentine."
"Assim como Hodge era," Clary disse, recuando enquanto Gretel limpava os
compridos talhos ao longo de seu braço, que estavam incrustados com sujeira e
sangue seco. Então Gretel começou enfaixá-los acima ordenadamente.
"Clary..."
"Eu não quero falar mais sobre o passado," ela disse ferozmente. "Quero saber o que
vamos fazer agora. Agora que Valentine tem minha mãe, Jace e a Taça. E nós não
temos nada."
"Eu não diria que não temos nada," Luke disse. "Nós temos um poderoso bando de
lobos. O problema é que não sabemos onde está Valentine."
Clary balançou a cabeça dela. Frouxos fios de cabelo caíram em seus olhos, e ela os
jogou de volta com impaciência. Deus, ela estava imunda. A única coisa que ela
precisava mais do que qualquer coisa, quase qualquer coisa, era uma ducha.
"Valentine não têm algum tipo de esconderijo? Um covil secreto?"
"Se ele tem," Luke disse, "ele tem mantido isso em absoluto segredo."
Gretel soltou Clary, que moveu seu braço delicadamente. A pomada verdosa que
Gretel tinha esfregado sobre o corte havia minimizado a dor, mas seu braço
permanecia rígido e desajeitado. "Espere um segundo," Clary disse.
"Eu nunca entendo porque as pessoas dizem isso," Luke disse, para ninguém em
particular. "Eu não estava indo para lugar algum."
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"Valentine poderia estar em algum lugar em Nova Iorque?"
"Possivelmente."
"Quando eu o vi no Instituto, ele veio através de um Portal. Magnus disse que só
existem dois portais em Nova Iorque. Um em Dorothea, e um em Renwick. O de
Dorothea foi destruído, e eu não posso vê-lo escondido lá mesmo assim, então..."
"No de Renwick?" Luke pareceu desconcertado. "Renwick não é um nome de Caçador
de Sombras."
"E se Renwick não é uma pessoa, de qualquer forma?" Clary disse. "E se for um
lugar? Renwick's. Como num restaurante, ou... ou um hotel ou algo assim."
Os olhos de Luke ficaram subitamente largos. Ele se virou para Gretel, que estava
avançando sobre ele com o kit médico. "Me traga uma lista telefônica," ele disse.
Ela parou em seu caminho, segurando a bandeja em direção a ele em uma maneira
acusatória. "Mas, senhor, suas feridas."
"Esqueça minhas feridas e me pegue uma lista telefônica," ele rebateu. "Estamos em
uma delegacia. Acho que teria bastantes das antigas por aí."
Com um olhar de desdenhosa exasperação Gretel colocou a bandeja no chão e
marchou para fora do quarto. Luke olhou Clary sobre seus óculos, que tinha deslizado
metade do caminho abaixo de seu nariz. "Bem lembrado."
Ela não respondeu. Havia um nó duro no centro de seu estômago. Ela encontrou a si
mesma tentando respirar em torno dela. O início de um pensamento fez cócegas na
ponta de sua mente, esperando se resolver a si mesmo dentro de um estouro cheio
de realização. Mas ela o empurrou firmemente para baixo e para longe. Ela não podia
se permitir de dar a ela recursos, sua energia, para qualquer coisa mas ao problema
imediatamente à mão.
Gretel retornou com uma parecendo úmida – páginas amarelas – e empurrou elas
para Luke. Ele leu o livro em pé, enquanto a mulher-lobo atacava suas feridas ao lado
com bandagens adesivas e potes de pomada. "Há sete Renwicks na lista telefônica,"
ele disse finalmente. "Nenhum restaurante, hotéis ou outros locais." Ele empurrou
seus óculos para cima, eles deslizaram de novo instantaneamente. "Eles não são
Caçadores de Sombras," ele disse, "e me parece pouco provável que Valentine tenha
criado um quartel general em uma casa de um mundano ou um Downworlder.
Embora, talvez..."
"Vocês têm um telefone?" Clary interrompeu.
"Não comigo." Luke, ainda segurando a lista telefônica, olhou abaixo para Gretel.
"Você poderia pegar o telefone?"
Com um desgostoso urro ela jogou o chumaço de panos ensanguentados que ela
tinha estado segurando e jogou ao chão, e saiu da sala num segundo. Luke colocou a
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lista de telefones sobre a mesa, pegou o rolo de ataduras, e começou a contornar em
torno da diagonal, atravessando suas costelas. "Desculpe," ele disse, enquanto Clary
olhava. "Sei que é nojento."
"Se a gente pegar Valentine," ela perguntou abruptamente, "nós podemos matar
ele?"
Luke quase largou as ataduras. "O quê?"
Ela se ocupou com um casual fio cutucando fora do bolso do seu jeans. "Ele matou o
meu irmão mais velho. Ele matou meus avós. Não matou?"
Luke colocou as ataduras em cima da mesa e puxou a camisa para baixo. "E você
acha que matar ele fará o quê? Apagar essas coisas?"
Gretel retornou antes que Clary pudesse dizer alguma coisa sobre isso. Ela usava
uma martirizada expressão e entregou a Luke um parecendo desajeitado e antiquado
celular. Clary se perguntou quem pagava as contas do telefone.
Clary segurou a sua mão. "Me deixa fazer uma ligação."
Luke pareceu hesitante. "Clary..."
"É sobre Renwick. Vai levar apenas um segundo."
Ele lhe entregou o telefone cautelosamente. Ela teclou nos números, e meio se virou,
se afastando dele para dar a ela mesma a ilusão de privacidade.
Simon atendeu no terceiro toque. "Alô?"
"Sou eu."
Sua voz aumentou uma oitava. "Você está bem?"
"Eu estou bem. Por quê? Você já ouviu alguma coisa de Isabelle?"
"Não. O que eu ouviria de Isabelle? Existe algo de errado? E Alec?"
"Não," Clary disse, não querendo mentir e dizer que Alec estava bem. "Não sei sobre
Alec. Olha, eu só preciso que você procure no Google algo para mim."
Simon aspirou. "Você está brincando. Eles não têm um computador? Você sabe o
quê, não responda a isso." Ela ouviu o som de uma porta abrir e a pancada miada
enquanto o gato da mãe de Simon era banido de seu poleiro no teclado do seu
computador. Ela podia imaginar Simon muito claramente na sua cabeça enquanto ele
se sentava, seus dedos deslocando-se rapidamente ao longo do teclado. "O que você
quer que eu procure?"
Ela disse a ele. Ela podia sentir os olhos preocupados de Luke nela enquanto ela
falava. Era da mesma forma que ele olhava para ela quando ela tinha onze anos e
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teve uma gripe culminada com uma febre. Ele trouxe cubos de gelo para ela sugar e
tinha lido para ela seus livros favoritos, fazendo todas as vozes.
"Você está certa," Simon disse, a tirando do seu devaneio. "É um lugar. Ou, pelo
menos, era um lugar. Está abandonado agora."
Sua mão suada escorregou sobre o telefone, e ela apertou sua mão. "Me fale sobre
isso."
"O mais famoso dos manicômios, prisões de devedores, e hospitais construídos na
Ilha de Roosevelt em 1800," Simon leu lealmente. " Hospital Renwick Smallpox foi
projetado pelo arquiteto Jacob Renwick e destinado a quarentena das mais pobres
vítimas em Manhattan da epidemia incontrolável de varíola. Durante o século
seguinte, o hospital foi abandonado à ruína. O acesso público às ruínas é proibido."
"Ok, isso é suficiente," Clary disse, seu coração batendo. "Isso tem que ser ele. Ilha
de Roosevelt? Não vivem pessoas lá?"
"Nem todo mundo vive em uma ladeira, princesa," Simon disse, com um justo grau
de falso sarcasmo. "De qualquer maneira, você precisa de mim para te dar uma
carona de novo ou algo assim?"
"Não! Eu estou bem, eu não preciso de nada. Eu só queria a informação."
"Tudo bem." Ele soou um pouco machucado, Clary pensou, mas ela disse a si mesma
que não importava. Ele estava seguro em casa, e isso era o que era importante.
Ela desligou, se voltando para Luke. "Há um hospital abandonado no extremo sul da
Ilha de Roosevelt chamado Renwick. Acho que Valentine está lá."
Luke empurrou seus óculos de novo. "Ilha de Blackwell. É Claro."
"O que você quer dizer com Blackwell? Eu disse..."
Ele cortou ela com um gesto. "Isso era como a Ilha de Roosevelt costumava ser
chamada. Blackwell. Ela era a propriedade de uma antiga família de Caçadores de
Sombras. Eu devia ter adivinhado." Ele se virou para Gretel. "Traga Alaric. Vamos
precisar de todo mundo aqui de volta o mais rápido possível." Seus lábios se
curvaram em um meio sorriso que lembrou Clary do frio sorriso que Jace usou
durante a luta. "Diga para eles se aprontarem para a batalha."
***
Eles fizeram o seu caminho até a rua através de um sinuoso labirinto de celas e
corredores que eventualmente se abriam, uma vez, para o que tinha sido o saguão de
uma delegacia. O edifício estava abandonado agora, e a inclinada luz da tarde lançava
estranhas sombras sobre as escrivaninhas vazias, os armários trancados com
cadeados eram marcados por buracos negros de cupim, o piso de mosaicos rachados
anunciavam o lema da NYPD: Fidélis ad mortem.
"Fiel até à morte," disse Luke, seguindo seu olhar.
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"Me deixe adivinhar," Clary disse. "No interior é uma delegacia abandonada, a partir
do exterior, os mundanos só vêem um edifício condenado, ou um lote vago, ou..."
"Na verdade ele se parece com um restaurante chinês no exterior," Luke disse. "Só
entrega, nenhum serviço de mesa."
"Um restaurante chinês?" Clary ecoou com descrença.
Ele deu de ombros. "Bem, estamos em Chinatown. Esta era a Segunda Jurisdição
construída."
"As pessoas devem pensar que é estranho que não haja um número de telefone para
se ligar para as encomendas."
Luke sorriu. "Há sim. Nós apenas não atendemos muito. Às vezes, se eles estiverem
chateados, alguns dos novatos fazem algumas entregas de porco mu shu."
"Você está brincando."
"De jeito nenhum. As gorjetas vêm a calhar." Ele empurrou a porta da frente aberta,
deixando um fluxo de luz solar.
Ainda sem certeza se ele estava brincando ou não, Clary seguiu Luke em toda a
Baxter Street onde o seu carro estava estacionado. O interior da caminhonete era
confortantemente familiar. O indistinto cheiro de madeira, papel velho e sabão, o par
de dados de pelúcia dourado desbotado que ela tinha lhe dado quando ela tinha dez
porque eles pareciam dados de ouro pendurados a frente do espelho retrovisor do
Millennium Falcon. As descartadas embalagens de chiclete e copos vazios de café
rolando pelo chão. Clary colocou a si mesma em um assento do passageiro, fixando-
se atrás contra o encosto de cabeça com um suspiro. Ela estava mais cansada do que
ela gostaria de admitir.
Luke fechou a porta atrás dela. "Fique aqui."
Ela observou enquanto ele falava com Alaric e Gretel, que estavam de pé nos degraus
da antiga delegacia, esperando pacientemente. Clary distraiu-se sozinha, deixando os
olhos dela desaparecer dentro e fora de foco, observando o glamour aparecer e
desaparecer. Primeiro era uma antiga delegacia, então ela era uma frente de uma
loja dilapidada ostentando um toldo amarelo em que se lia Lobo de Jade Cozinha
Chinesa.
Luke estava gesticulando para o seu segundo e terceiro, apontando para baixo na
rua. Sua pickup era a primeira em uma linha de furgões, motocicletas, pipes, e até
mesmo um parecendo arruinado, velho ônibus escolar. Os veículos se esticavam em
uma linha para baixo da quadra e viravam em uma esquina. Um comboio de
lobisomens. Clary perguntou como eles pediram, tomaram emprestado, roubaram ou
confiscaram tantos veículos em um prazo tão curto. No lado positivo, pelo menos,
eles não tinham que ir de bonde elétrico.
Luke aceitou um saco de papel branco de Gretel, e com um aceno, saltou de volta na
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pickup. Dobrando seu corpo esguio, ao volante, ele lhe entregou o saco. "Você está
encarregada disto."
Clary perscrutou aquilo com suspeita. "O que é isso? Armas?"
Os ombros de Luke se sacudiram com uma risada sem som. "Pães cozinhados no
vapor, na verdade," ele disse, puxando o caminhão para fora na rua. "E café."
Clary rasgou o saco o abrindo enquanto eles dirigiam cidade acima, seu estômago
rosnava furiosamente. Ela rasgou um rolo aparte, saboreando o rico e apetitoso sabor
salgado da carne de porco, mastigando a massa branca. Ela empurrou aquilo abaixo
com um gole do super doce café preto, e ofereceu um rolo a Luke. "Quer um?"
"Claro." Era quase como nos velhos tempos, ela pensou, enquanto eles se
movimentavam pela rua do Canal, quando eles pegavam sacos de bolinhos quentes
na Panificadora Carruagem Dourada e comiam metade deles se dirigindo para casa,
acima da ponte de Manhattan.
"Então, me fale sobre este Jace," Luke disse.
Clary quase engasgou com um rolo. Ela alcançou o café, afogando suas tosses com o
líquido quente. "O quê sobre ele?"
"Você tem alguma idéia do que Valentine poderia querem com ele?"
"Não."
Luke amarrou a cara para o sol. "Eu pensava que esse Jace era uma das crianças dos
Lightwood?"
"Não." Clary mordeu seu terceiro rolo. "Seu sobrenome é Wayland. Seu pai era..."
"Michael Wayland?"
Ela concordou. "E quando Jace tinha dez anos, Valentine matou ele. Michael, eu quero
dizer."
"Isso soa como algo que ele faria," Luke disse. Seu tom era neutro, mas havia algo
na sua voz que fez Clary olhar para ele de lado. Ele não acreditava nela?
"Jace viu ele morrer," ela acrescentou, como se para apoiar a sua alegação.
"Isso é horrível," Luke disse. "Pobre garoto confuso."
Eles estavam dirigindo acima da rua da ponte cinquenta e nove. Clary olhou para
baixo e viu o rio se tornar todo em ouro e sangue pelo sol. Ela podia vislumbrar o
extremo sul da Ilha Roosevelt a partir dali, porém, era apenas uma mancha ao norte.
"Ele não é tão ruim," disse ela. "Os Lightwoods tomaram conta dele."
"Eu posso imaginar. Estavam sempre próximos a Michael," Luke observou, desviando-
se para a faixa da esquerda. No espelho lateral Clary pôde ver a caravana de veículos
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os seguindo alterando seu curso para imitar o dele. "Eles iriam querer cuidar do filho
dele."
"Então o que acontece quando a lua aparece?" ela perguntou. "Está tudo indo quando
de repente o lobo sai, ou o quê?"
A boca de Luke se contorceu. "Não exatamente. Apenas os jovens, os que acabaram
de se Mudar, não podem controlar as suas transformações. A maior parte do resto de
nós temos aprendido como, ao longo dos anos. Somente a lua, na forma mais cheia
pode forçar uma mudança em mim agora."
"Então, quando a lua está apenas parcialmente cheia, você só se sente um pequeno
lobinho?" Clary perguntou.
"Você pode dizer isso."
"Bem, você pode ir em frente e colocar sua cabeça para fora da janela do carro, se
você quiser."
Luke riu. "Eu sou um lobisomem, e não um golden retriever."
"Há quanto tempo você é o líder do clã?" ela perguntou abruptamente.
Luke hesitou. "Cerca de uma semana."
Clary se virou em torno para olhar para ele. "Uma semana?"
Ele suspirou. "Eu sabia que Valentine tinha levado sua mãe," ele disse sem muita
inflexão. "Eu sabia que tinha poucas chances contra ele por mim mesmo e que eu não
poderia esperar nenhuma assistência da Clave. Levei um dia para rastrear a
localização da próxima matilha de licantropos."
"Você matou o líder do clã, assim você poderia tomar seu lugar?"
"Foi o caminho mais rápido que eu poderia tomar para adquirir um número de aliados
em um curto período de tempo," Luke disse, sem arrependimento no seu tom,
embora sem qualquer orgulho também. Ela se lembrou de ter espiado ele na sua
casa, como ela havia notado os profundos arranhões nas mãos e rosto e da forma
como ele recuava quando ele movia o seu braço. "Eu teria feito isso antes. Tive
bastante certeza que eu poderia fazê-lo novamente." Ele deu de ombros. "Sua mãe
tinha ido embora. Eu sabia que eu tinha feito você me odiar. Eu não tinha nada a
perder."
Clary amarrou seus tênis verdes contra o painel. Através do rachado pará-brisa,
acima das pontas dos pés, a lua estava subindo acima da ponte. "Bem," disse ela.
"Você tem agora."
O hospital, no extremo sul da Ilha de Roosevelt estava iluminado pela noite, os seus
contornos fantasmagóricos curiosamente visíveis contra a escuridão do rio e da
grande iluminação de Manhattan. Luke e Clary ficaram em silêncio enquanto a pickup
passava pela pequena ilha, enquanto a estrada pavimentada se tornava em saibro e
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finalmente em uma acumulada sujeira. A estrada seguia a curva de uma alta grade
com aros fechados, no topo de cada estavam fios afiados amarrados em arabesco
como festivos laços de fita.
Quando a estrada ficou muito acidentada para eles seguirem mais adiante, Luke
levou a caminhonete para uma parada e desligou as luzes. Ele olhou para Clary. "Há
alguma chance se eu te pedir para esperar por mim aqui, você faria isso?"
Ela balançou a cabeça dela. "Não seria necessariamente mais seguro dentro do carro.
Quem sabe se Valentine está patrulhando seu perímetro?"
Luke riu suavemente. "Perímetro. Olhe só você." Ele se colocou para fora do
caminhão e foi em torno ao seu lado para ajudá-la a descer. Ela podia, por si mesma,
ter saltado para fora da caminhonete, mas foi bom ter ajuda, do jeito como ele fazia
quando ela era pequena demais para ela própria escalar pra fora.
Seus pés bateram na sujeira seca acumulada, enviando flocos de poeira. Os carros
que tinham seguido eles estavam subindo, um por um, formando uma espécie de
círculo em torno do caminhão de Luke. Seus faróis varriam toda a sua visão, e
iluminando as grades da cerca para um branco prateado. Além da cerca, o hospital
em si era uma ruína banhada na dura luz que apontava sua dilapidada situação: as
paredes sem teto sobressaiam no terreno irregular como dentes quebrados, os
parapeitos de pedra da fortificação estavam cobertos com um tapete verde de hera.
"É um desastre," ela se ouviu dizer suavemente, um vacilar de apreensão em sua
voz. "Não vejo como Valentine poderia eventualmente esconder aqui."
Luke olhou além dela para o hospital. "É um glamour forte," ele disse. "Tente olhar
além das luzes." Alaric estava andando na direção deles ao longo da estrada, a leve
brisa fazendo seu casaco de sarja sacudiu em aberto, mostrando a cicatriz no peito
por baixo. Os lobisomens andando atrás dele pareciam completamente pessoas
comuns, Clary pensou. Se ela tivesse visto eles todos juntos em um grupo em algum
lugar, ela pode ter pensado que se conheciam uns aos outros de alguma maneira,
havia uma certa semelhança não física, uma rudeza em seus olhares, uma força em
suas expressões. Ela poderia ter pensado que eram agricultores, já que pareciam
mais bronzeados, curvados, e magros do que a maioria dos moradores da cidade, ou
talvez ela achasse que eles eram de uma gangue de motociclistas. Mas eles em nada
se pareciam como monstros.
Eles se reuniram em uma conferência rápida no caminhão de Luke, como uma
amontoada reunião de futebol. Clary, lançando-se muito do lado de fora, virou-se
para olhar para o hospital novamente. Desta vez ela tentou olhar ao redor da luz, ou
através delas, da forma como você por vezes poderia olhar através de um fino
acabamento de tinta para ver o que estava por baixo. Como normalmente ela fazia,
pensando em como ela iria pintá-lo, isso ajudou. As luzes pareceram desaparecer, e
agora ela estava olhando através de um carvalho – o gramado limpo para uma
estrutura ornada gótica do Renascimento que parecia se assomar acima das árvores
como a amurada de um grande navio. As janelas dos andares mais baixos eram
escuras e blindadas, mas através da luz derramada das esquadrias dos arcos das
janelas do terceiro andar, como uma linha de chamas queimando ao longo do cume
de uma montanha distante. Uma pesada pedra na varanda cobria o exterior,
escondendo a porta da frente.
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"Você vê?" Era Luke, que veio atrás dela com a passada graciosa de... bem, um lobo.
Ela ainda estava olhando. "É mais parecido com um castelo do que com um hospital."
Tomando ela pelos ombros, Luke a virou para olhá-lo. "Clary, me escute." Seu aperto
foi dolorosamente com força. "Eu quero que você fique ao meu lado. Se mova quando
eu passar. Segure a minha manga se tiver necessidade. Os outros vão ficar em torno
de nós, nos protegendo, mas se você ficar fora do círculo, eles não serão capazes de
proteger você. Eles estão indo para nos mover em direção à porta." Ele desceu as
mãos de seus ombros, e quando ele se moveu, ela viu o brilho de algo de metal no
interior da sua jaqueta.
Ela não percebeu que ele estava carregando uma arma, mas então ela lembrou que
Simon havia dito sobre o que estava na velha mala verde de Luke e supostamente
fazia sentido. "Você promete que você vai fazer o que eu disse?"
"Eu prometo."
A grade era real, não fazia parte do glamour. Alaric, ainda na frente, a agitou
experimentando, em seguida, colocou uma mão preguiçosa. Longas garras brotando
abaixo de suas unhas, e ele cortou o alambrado com elas, cortando o metal em tiras.
Elas caíram em um empilhado barulho, como Tinkertoys32.
"Vão." Ele gesticulou para os outros atravessarem. Eles agitaram-se à frente como
uma pessoa, um mar de movimentos coordenados. Pressionando o braço de Clary,
Luke a empurrou rente dele, abaixando a cabeça para seguir. Eles se indireitaram no
interior da cerca, olhando para cima em direção ao hospital, onde recolhidas formas
escuras, reunidas na varanda, estavam começando a se deslocar pelos degraus.
Alaric tinha levantado sua cabeça, farejando o vento. "O fedor da morte paira pesado
no ar."
A respiração de Luke deixou seus pulmões em um sibilo apressado. "Esquecidos."
Ele empurrou Clary para atrás dele, ela foi, tropeçando levemente sobre o terreno
irregular. O grupo começou a se mover em direção a ela e de Luke; enquanto eles se
aproximavam, eles todos se baixaram em quatro, lábios rosnando por trás de suas
longas presas, membros se estendendo longamente, as extremidades forradas de
pêlos, roupas cobertas por peles. Uma pequena voz instintiva na parte de trás do
cérebro de Clary estava gritando para ela: Lobos! Fujam! Mas ela lutou e permaneceu
onde ela estava, embora ela podia sentir o salto e os tremores nos nervos em suas
mãos.
O bando rodeou eles, de frente para fora. Mais lobos flanquearam de ambos os lados
do círculo. Era como se ela e Luke estivessem no centro de uma estrela. Com isso,
eles começaram a avançar em direção a varanda do hospital. Ainda atrás de Luke,
Clary nem sequer viu o primeiro dos Esquecidos que eles atingiram. Ela ouviu um
uivo de lobo como se em dor. O uivo subiu e subiu, transformando rapidamente em
32
Brinquedo feito de varetas e junções, você une elas do jeito que você quiser.
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um rosnado. Houve um som de queda, e então o gorgolejante choro e um som como
de papel rasgando...
Clary ficou se perguntando se os Esquecidos eram comestíveis.
Ela olhou para Luke. O rosto estava concentrado. Ela podia vê-los agora, além do
círculo de lobos, o palco iluminado de brilho e pelos refletores tremulando o brilho de
Manhattan: dezenas de Esquecidos, sua pele pálida de cadáver no luar, queimados
por lesões como runas. Seus olhos eram vagos enquanto eles se lançavam aos lobos,
e os lobos encontrando eles na cabeça, garras arranhando, dentes arrancando e
rasgando. Ela viu um dos guerreiros Esquecidos – uma mulher – cair, a garganta
despedaçada, os braços ainda se debatendo. Outro picado por um lobo com um
braço, enquanto o outro braço descansava no terreno a um metro de distância,
sangue pulsando da ponta. Sangue negro, repulsivo como a água de pântano,
correndo em um jorro, tornando a grama escorregadia, então os pés de Clary se
escorregaram para fora debaixo dela. Luke pegou ela antes que ela pudesse cair.
"Fique comigo."
Estou aqui, ela queria dizer, mas não havia palavras que saíssem de sua boca. O
grupo ainda estava subindo o gramado em direção ao hospital, agonizantemente
lento. O aperto de Luke era rígido como ferro. Clary não poderia dizer quem estava
ganhando, ou se ninguém. Os lobos tinham tamanho e a velocidade do seu lado, mas
os Esquecidos se moviam com uma sinistrainevitabilidade e eram
surpreendentemente difíceis de matar. Ela viu o grande lobo listrado que era Alaric
pegar um abaixo, rasgando suas pernas abaixo delas, em seguida, pulando para a
sua garganta. O Esquecido manteve o movimento, mesmo quando ele rasgou aquela
parte, o corte do machado abrindo uma longa ferida vermelha no casaco de Alaric.
Distraída, Clary quase não notou que o Esquecido tinha furado através do círculo de
proteção, até que se jogou na frente dela, como se tivesse surgido vindo da grama a
seus pés. Com olhar branco, cabelo emaranhado, ele levantou uma faca respingando.
Ela gritou. Luke girou, a arrastando para seu lado, pegou o pulso da coisa, e torceu.
Ela ouviu um estalo de osso e, a faca caiu na grama. A mão do Esquecido balançou
frouxamente, mas se manteve vindo em direção a eles, sem evidenciar nenhum sinal
de dor. Luke estava gritando roucamente para Alaric. Clary tentou alcançar a adaga
em sua cintura, mas o aperto de Luke em seu braço era demasiado forte. Antes que
ela pudesse gritar com ele para soltá-la, um golpe de uma estrutura delgada prateada
se chocou entre eles. Era Gretel. Ela aterrissou com suas patas da frente contra o
peito do Esquecido, lançando-o para o chão. Um feroz queixar de raiva veio da
garganta de Gretel, mas o Esquecido era mais forte, ele lançou ela para o lado como
uma boneca de trapo e rolou para seus pés.
Alguma coisa tinha levantado Clary sob seus pés. Ela gritou, mas era Alaric, metade
sim e metade não em sua forma de lobo, suas mãos a prendiam com afiadas garras.
Ainda assim, elas a seguravam gentilmente colocando ela em seus braços.
Luke estava fazendo sinal para eles. "Leve ela daqui! Leve ela para as portas!" ele
estava gritando.
"Luke!" Clary se virou nos braços de Alaric.
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"Não olhe," Alaric disse com um rosnar.
Mas ela olhou. Tempo suficiente para começar a ver Luke indo em direção a Gretel,
uma lâmina em sua mão, mas ele estava muito atrasado. O Esquecido segurou uma
faca, que havia caído na grama molhada de sangue, e a afundou nas costas de
Gretel, de novo e de novo, enquanto ela o agarrava e lutava e finalmente
desmoronava, a luz em seus olhos prateados desvanescendo em trevas. Com um
grito Luke projetou sua espada na garganta do Esquecido...
"Eu lhe disse para não olhar," Alaric rosnou, virando aquela linha de visão dela que foi
bloqueada por seu volume agigantado. Eles estavam correndo acima dos degraus, o
som do arranhar de seus pés friccionando o granito como unhas em uma lousa.
"Alaric," Clary disse.
"Sim?"
"Sinto muito por ter jogado uma faca em você."
"Não se desculpe. Foi um golpe bem colocado."
Ela tentou olhar além dele. "Onde está Luke?"
"Eu estou aqui," Luke disse. Alaric se virou. Luke foi chegando aos passos, deslizando
sua espada de volta a sua bainha, que estava presa ao seu lado, sob o seu casaco. A
lâmina estava negra e pegajosa.
Alaric deixou Clary deslizar para a varanda. Ela desceu se virando. Ela não podia ver
Gretel ou o Esquecido que tinha matado ela, só uma massa de corpos e metais
brilhando. Seu rosto estava molhado. Ela o alcançou com uma mão livre para ver se
ela estava sangrando, mas percebeu que em vez disso, ela estava chorando. Luke
olhou para ela curiosamente. "Ela era apenas uma Downworlder," ele disse.
Os olhos de Clary queimavam. "Não diga isso."
"Eu vejo." Ele se virou para Alaric. "Obrigado por cuidar dela. Enquanto nós vamos
para dentro... "
"Eu vou com você," Alaric disse. Ele tinha feito a maior parte da transformação para a
forma de homem, mas seus olhos ainda eram os olhos de um lobo e seus lábios
puxados para trás dos dentes, tão longos quanto palitos de dentes. Ele flexionou as
longas unhas de suas mãos.
Os olhos de Luke estavam preocupados. "Alaric, não."
A voz rosnada de Alaric estava plana. "Você é o líder do bando. Sou seu segundo
agora que Gretel está morta. Não seria correto deixar você ir sozinho."
"Eu..." Luke olhou Clary e, em seguida, de volta lá fora na área em frente ao
hospital. "Eu preciso de você aqui fora, Alaric. Sinto muito. Isso é uma ordem."
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Os olhos de Alaric lampejaram ressentidamente, mas ele andou para o lado. A porta
do hospital era pesadamente ornamentada com madeira esculpida, os padrões eram
familiares para Clary, as rosas de Idris, runas enroscadas, sóis imitindo raios. Ela
abriu com um barulho de estrondo no trinco quando Luke chutou ela. Ele empurrou
Clary em direção a porta aberta largamente. "Entre."
Ela tropeçou passando por ele, e virou-se na soleira da porta. Ela pegou um único
breve vislumbre de Alaric olhando para eles, seus olhos de lobo reluziam. Atrás dele,
o gramado em frente ao hospital, estava espalhado com corpos, as sujeiras
manchadas de sangue, preto e vermelho. Quando a porta se fechou atrás dela,
cortando sua visão, ela ficou agradecida.
Ela e Luke ficaram na semi-iluminada escuridão, em uma pedra na entrada, o
caminho era iluminado por uma única tocha. Depois do ruído da batalha o silêncio era
como um manto opressor. Clary encontrou a si mesma arfando para respirar o ar, o
ar que não era espesso com umidade e o cheiro de sangue.
Luke agarrou o seu ombro com a mão. "Você está bem?"
Ela limpou suas bochechas. "Você não deveria ter dito aquilo. Sobre Gretel ser apenas
uma Downworlder. Eu não penso assim."
"Estou feliz em ouvir isso." Ele se aproximou da tocha em um apoio de metal. "Eu
odiei a idéia do Lightwoods terem transformado você em uma cópia deles."
"Bem, eles não fizeram."
A tocha não saía do lugar nas mãos de Luke, ele franziu a sobrancelha. Escavando em
seu bolso, Clary removeu a suave pedra de runa que Jace tinha lhe dado no seu
aniversário, e a levantou para o alto. A luz brotou entre seus dedos, como se ela
rachasse uma semente na escuridão, soltando toda a iluminação presa lá dentro.
Luke largou a tocha.
"Luz de bruxa?" ele disse.
"Jace a deu para mim." Ela podia sentir seu pulso na sua mão, como o batimento
cardíaco de um pequeno pássaro. Ela se perguntou onde Jace estava nesta pilha de
pedra cinza de quartos, se ele estava amedrontado, se ele se perguntava se veria ela
novamente.
"Já faz anos desde que eu lutei com uma luz de bruxa," Luke disse, e começou a subir
as escadas. Elas rangiam ruidosamente sob suas botas. "Me siga."
O chamejante brilho da luz de bruxa se lançava as suas sombras, estranhamente
alongadas, contra as lisas paredes de granito. Eles pararam em uma pedra aterrada
que se curvava em torno de um arco. Acima deles ela podia ver luz. "Isso é o que o
hospital costumava ser a centenas de anos atrás?" Clary sussurrou.
"Oh, a estrutura do que Renwick construiu ainda está aqui," Luke disse. "Mas eu
imagino que Valentine, Blackwell e os outros tenham remodelado o local para ser um
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pouco mais ao gosto deles. Veja aqui." Ele raspou a bota ao longo do piso: Clary
olhou para baixo e viu uma runa esculpida em granito sob seus pés: um círculo, no
centro do qual havia um ditado em latim: Em Hoc Signo Vinces.
"O que significa isso?" ela perguntou.
"Significa, „Por este sinal nós iremos conquistar‟. Era o lema do Círculo."
Ela olhou acima, em direção à luz. "Então, eles estão aqui."
"Eles estão aqui," Luke disse, e havia uma antecipação na ponta estreita de seu tom.
"Venha."
Eles subiram a escada sinuosa, circulando abaixo da luz até que elas estavam em
torno deles e eles estavam de pé na entrada de um longo e estreito corredor. Tochas
queimavam ao longo da passagem. Clary fechou sua mão sobre a luz de bruxa, e ela
piscou como uma estrela se extinguindo.
Havia portas colocadas em intervalos ao longo do corredor, todas elas fechadas
firmemente. Ela se perguntou se elas haviam sido enfermarias, quando havia sido um
hospital, ou talvez, quartos particulares. Enquanto eles se moviam pelo corredor,
Clary viu as marcas de pegadas, enlameadas da grama lá fora, cruzando a passagem.
Alguém tinha andado aqui recentemente.
A primeira porta que eles tentaram abrir cedeu facilmente, mas do outro lado da sala
estava vazio: apenas o polido piso de madeira e paredes de pedra, iluminadas pelo
misterioso derramar do luar através da janela. O fraco rugido da batalha lá fora
preenchia a sala, tão rítmicas quanto o som do oceano. A segunda sala estava cheia
de armas: espadas, clavas, e machados. A luz da lua corria como água prateada com
filas após filas de aço frio desembainhado. Luke assobiou sob a sua respiração. "O
bastante para uma coleção."
"Você acha que Valentine utiliza todas elas?"
"Improvável. Eu suspeito que elas são para o seu exército." Luke se afastou.
A terceira sala era um quarto. Os dosséis em torno dos quatro postes da cama eram
azuis, o tapete persa padronizado em azul, preto e cinza, e os móveis eram pintados
de branco, como o mobiliário em um quarto infantil. Uma fina camada de
fantasmagórica poeira cobria tudo, cintilando ligeiramente ao luar.
Deitada na cama, Jocelyn dormia.
Ela estava em suas costas, uma mão cuidadosamente jogada em seu peito, seus
cabelos espalhados por todo o travesseiro. Ela usava uma espécie de camisola branca
que Clary nunca tinha visto, e ela estava respirando regularmente e em silêncio. Na
penetrante luz da lua Clary pode ver o tremular de pálpebras de sua mãe enquanto
ela sonhava.
Com um gritinho Clary se atirou em direção... mas Luke voou seu braço a prendendo
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em todo seu peito como uma barra de ferro, a segurando de volta. "Espere," ele
disse, a sua própria voz tensa com o esforço. "Temos que ter cuidado."
Clary olhou para ele, mas ele estava olhando além dela, sua expressão furiosa e
dolorosa. Ela seguiu a linha de seu olhar e viu o que ela não tinha querido ver antes.
Algemas prateadas se fechavam em torno dos pulsos e pés de Jocelyn, e as pontas
das suas correntes mergulhadas profundamente na piso de pedra em cada lado da
cama. A mesa ao lado da cama estava coberta com o estranho conjunto de tubos e
garrafas, frascos de vidros longos, e maldosamente inclinados, cintilantes
instrumentos cirúrgicos de aço. Um tubo de borracha corria de um dos frascos de
vidro para uma veia do braço esquerdo de Jocelyn.
Clary se sacudiu se afastando das mãos restritivas de Luke e disparou em direção a
cama, embalando seus braços em torno do corpo impassível de sua mãe. Mas foi
como tentar um abraço em uma boneca mal articulada. Jocelyn permanecia imóvel e
rígida, a sua respiração lenta, inalterada.
Uma semana atrás Clary teria chorado como ela tinha feito naquela primeira noite
terrível que ela tinha descoberto que sua mãe estava faltando, chorou e saiu. Mas
nenhuma lágrima veio agora, enquanto ela deixava sua mãe e se endireitava. Não
havia terror nela agora, e nenhuma auto-piedade: apenas uma amarga fúria e uma
necessidade de encontrar o homem que havia feito isto, o responsável por tudo isso.
"Valentine," ela disse.
"É claro." Luke estava ao lado dela, tocando levemente o rosto de sua mãe,
levantando suas pálpebras. Os olhos abaixo estavam brancos como mármores. "Ela
não está drogada," ele disse. "É algum tipo de feitiço, eu espero."
Clary deixou sua respiração sair em um apertado meio soluçar. "Como é que vamos
tirá-la daqui?"
"Eu não posso tocar as algemas," disse Luke. "Prata. Você pode..."
"A sala de armas," Clary disse, de pé. "Eu vi lá um machado. Vários. Podíamos cortar
as correntes..."
"As correntes são inquebráveis." A voz que falou da porta era baixa, arenosa, e
familiar. Clary virou-se e viu Blackwell. Ele estava sorrindo agora, usando a mesma
veste cor de sangue coagulado como antes, a capa empurrada para trás, botas
lamacentas visíveis sob a bainha. "Graymark," ele disse. "Que surpresa agradável."
Luke se endireitou. "Se você está surpreso, você é um idiota," ele disse. "Eu não
cheguei exatamente em silêncio."
As bochechas de Blackwell coraram em um roxo mais escuro, mas ele não se moveu
em direção a Luke. "Líder de um clã novamente, não é?" ele disse, e deu uma
desagradável risada. "Não é possível você quebrar o hábito de botar os Downworlders
para fazer seu trabalho sujo? As tropas de Valentine estão ocupadas espalhando
pedaços deles em todo o gramado, e você está aqui em cima à salvo com suas
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namoradas." Ele olhou com desprezo na direção de Clary. "Essa parece um pouco
jovem para você, Lucian."
Clary corou furiosamente, suas mãos se dobrando nos punhos, mas a voz de Luke,
quando ele respondeu, era educada. "Eu não chamaria exatamente aquilo de tropas,
Blackwell," ele disse. "Eles são Esquecidos. Atormentados, sendo uma vez seres
humanos. Se me lembro corretamente, a Clave olha bem feio para tudo isso –
pessoas torturadas, preparadas por magia negra. Eu não posso imaginar eles ficando
muito satisfeitos."
"Maldita Clave," Blackwell rugiu. "Nós não precisamos deles e sua meia-raça de
tolerantes. Além disso, os Esquecidos não serão Esquecidos por muito tempo. Uma
vez que Valentine utilizar a Taça sobre eles, eles serão tão bons Caçadores de
Sombras quanto o resto de nós, melhor do que aquilo que a Clave está fazendo
passar como guerreiros hoje em dia. Downworlders amando covardes." Ele revelou
seus dentes desbotados.
"Se for esse o seu plano para a Taça," Luke disse, "porque ele já não o fez? O que é
que ele está esperando?"
As sobrancelhas de Blackwell se levantaram. "Como você sabia? Ele tem o seu..."
Uma sedosa risada interrompeu ele. Pangborn tinham aparecido atrás dele, todo em
preto com uma tira de couro através de seu ombro. "Já chega, Blackwell," ele disse.
"Você fala demais, como sempre." Ele reluziu seus dentes afiados para Luke. "Jogada
interessante, Graymark. Eu não achei que você teria estômago para conduzir o seu
mais novo clã em uma missão suicida."
Um músculo da bochecha de Luke retorceu. "Jocelyn," ele disse. "O que ele fez com
ela?"
Pangborn gargalhou musicalmente. "Eu pensei que você não se importasse."
"Não vejo o que ele quer com ela agora," prosseguiu Luke, ignorando o sarcasmo.
"Ele tem a Taça. Ela não pode ser utilizada. Valentine nunca foi um assassino sem
propósito. Assassino com um objetivo. Agora, isso poderia ser uma história
diferente."
Pangborn encolheu os ombros com indiferença. "Não faz diferença para nós o que ele
faz com ela," ele disse. "Ela era sua esposa. Talvez ele odeie ela. Esse é um ponto."
"Deixe-a ir," Luke disse, "e nós saímos com ela, chamarei o clã para fora. Vou te
dever uma."
"Não!" A explosão de fúria de Clary fez Pangborn e Blackwell virarem seus olhares
para ela. Ambos pareceram ligeiramente incrédulos, como se ela fosse dizer uma
conversa barata. Ela se virou para Luke. "Há ainda Jace. Ele está aqui em algum
lugar."
Blackwell estava rindo. "Jace? Nunca ouvi falar de um Jace," ele disse. "Agora, eu
poderia pedir a Pangborn para deixar ela ir. Mas eu prefiro que não. Ela sempre foi
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uma cadela para mim, Jocelyn. Pensei que ela era melhor do que o resto de nós, com
sua aparência e sua linhagem. Apenas uma cadela com pedigree, isso é tudo. Ela só
casou com ele, para que ela pudesse ficar em torno de nós todos..."
"Decepcionado por você mesmo não conseguir casar com ele, Blackwell?" era tudo
que Luke disse em resposta, embora Clary pudesse ouvir a fria raiva em sua voz.
Blackwell, seu rosto se arroxeando, deu um passo zangado para dentro do quarto.
E Luke, se movendo tão rapidamente que Clary quase não o viu fazer isso, agarrou
um bisturi apreendido da mesa de cabeceira e o arremessou. Ele girou duas vezes no
ar e afundou no primeiro ponto da garganta de Blackwell, cortando seu rosnado de
revide. Ele silenciou, os olhos rolaram até ficarem brancos, e caiu em seus joelhos, as
mãos na garganta. Um líquido vermelho pulsante espalhava-se entre seus dedos. Ele
abriu a sua boca como se para falar, mas apenas uma linha fina de sangue gotejou
para fora. Suas mãos escorregaram de sua garganta, e ele caiu no chão como uma
árvore caindo.
"Oh, querido," disse Pangborn, olhando para o corpo caído de seu companheiro com
um manhoso desgosto. "Que desagradável."
O sangue da garganta cortada de Blackwell estava se espalhando por todo o chão em
uma viscosa piscina vermelha. Luke, pegando o ombro de Clary, sussurrou algo no
ouvido dela. Aquilo não significou nada. Clary tinha apenas o conhecimento de um
zumbido entorpecido em sua cabeça. Ela lembrou de outro poema da aula de Inglês,
algo sobre como após a primeira morte que você viu, não importava as outras
mortes. Esse poeta não sabia o que ele estava falando.
Luke soltou ela. "As chaves, Pangborn," ele disse.
Pangborn cutucou Blackwell com um pé, e olhou para cima. Ele parecia irritado. "Ou o
quê? Você vai atirar uma seringa em mim? Havia apenas uma lâmina sobre a mesa.
Não," ele acrescentou, se chegando para detrás dele e alcançando em seus ombros
uma longa e parecendo exagerada espada, “eu temo que se você quer as chaves,
você terá que vir e levá-la. Não porque me interesso sobre Jocelyn Morgenstern de
uma forma ou de outra, você entende, mas apenas porque eu, estou ansioso por
matar você... há anos."
Ele falou a última palavra para fora, saboreando com uma deliciosa exultação
enquanto ele avançava pelo quarto. Sua espada reluziu, lançando um raio da luz da
lua. Clary viu Luke empurrar uma mão em direção a ela – uma estranhamente e
alongada mão, inclinada com unhas como minúsculos punhais e ela percebeu duas
coisas: que ele estava prestes a mudar, e que o que ele tinha sussurrado em seu
ouvido foi uma única palavra.
Corra.
Ela fugiu. Ela ziquezagueou em torno de Pangorn, que mal olhou para ela, evitando o
corpo de Blackwell, que estava fora da porta e no corredor, o coração batendo, antes
que a transformação de Luke estivesse completa. Ela não olhou para trás, mas ela
ouviu um uivo, longo e penetrante, o som de metal no metal, e uma queda
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estilhaçando. Vidro quebrando, ela pensou. Talvez eles tivessem derrubado a mesa
de cabeceira.
Ela se lançou ao fundo do corredor para a sala de armas. No interior, ela puxou o
cabo de aço do machado. Estava firmemente preso à parede, não importasse quão
duramente ela se esforçasse em retirar. Ela tentou uma espada e, em seguida, uma
lança – e até mesmo um pequeno punhal, mas não havia uma única arma que vinha
livre em sua mão. Por fim, com as unhas despedaçadas e os dedos sangrando pelo
esforço, ela teve que desistir. Havia magia nesta sala, e tão pouco uma magia rúnica:
era algo selvagem e estranho, algo escuro.
Ela saiu da sala. Não havia nada neste andar que poderia ajudá-la. Ela avançou com
dificuldade pelo corredor, ela estava começando a sentir a dor da verdadeira exaustão
em suas pernas e braços, e ela se encontrou na junção das escadas. Para cima ou
para baixo? Abaixo, ela lembrou, havia a escuridão, o vazio. É claro, que havia a luz
de bruxa no seu bolso, mas algo nela desanimava o pensamento de entrar naqueles
espaços pretos sozinha. Escadas acima ela viu o queimar de mais luzes, pegando o
tremeluzir de algo que poderia ter sido um movimento.
Ela subiu. Suas pernas doiam, seus pés doiam, tudo doia. Seus cortes tinham sido
atados, mas isso não os impedia de arder. Seu rosto machucado onde Hugo tinha
cortado sua bochecha, e sua boca tinha um gosto metálico e amargo.
Ela atingiu o último andar. Era suavemente curvo como a proa de um navio, tão
silencioso aqui quanto tinha sido escadas abaixo, não havia o som dos combates lá
fora que alcançasse suas orelhas. Outro longo corredor esticava-se em frente a ela,
com as mesmas múltiplas portas, mas aqui algumas estavam abertas, derramando
ainda mais luz para o corredor. Ela foi em frente, e algum instinto direcionou ela para
a última porta à sua esquerda. Cautelosamente ela olhou o interior.
A primeira vista o quarto lembrava ela de um período de reconstrução exibido no
Museu Metropolitano de Arte. Era como se ela entrasse no passado, os painéis nas
paredes brilhavam como se fossem recentemente ilustradas, como era
interminavelmente longa a mesa de jantar em conjunto com a delicada porcelana
chinesa. Um ornamentado espelho com moldura dourada adornava a parede mais
distante, entre dois retratos à óleo com pesadas molduras. Tudo reluzia sob a luz das
tochas: os pratos na mesa, preenchidos com alimentos, o sulco dos vidros em forma
de lírios, os panos da mesa tão brancos que eles cegavam. No final do quarto
estavam duas grandes janelas, guarnecidas com um veludo pesado pendurado. Jace
estava parado em uma das janelas, tão imóvel que por um momento ela imaginou
que ele era uma estátua, até que ela percebeu que podia ver a luz brilhando em seu
cabelo. Sua mão esquerda segurava uma cortina de lado e, na janela escura havia o
reflexo das dezenas de velas no interior da sala, presas no vidro como vagalumes.
"Jace," ela disse. Ela ouviu sua própria voz como se há distância: surpresa, gratidão,
saudade, tão acentuadas quanto dolorosas. Ele se virou, deixando a cortina cair, e ela
viu o olhar admirado sobre o seu rosto.
"Jace!" ela disse novamente, e correu em direção a ele. Ele capturou ela enquanto ela
mesma se lançava sobre ele. Os braços dele a envolviam com força em torno dela.
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"Clary." Sua voz era quase irreconhecível. "Clary, o que você está fazendo aqui?"
Sua voz estava abafada contra sua camisa. "Eu vim por você."
"Você não deveria ter vindo." Seu domínio sobre ela desapertou de repente, ele se
afastou para trás, segurando ela um pouco longe dele. "Meu Deus," ele disse, tocando
o rosto dela. "Idiota, que coisa a se fazer." Sua voz era brava, mas o olhar que varria
o rosto dela, os dedos que suavemente escovavam o cabelo dela para trás, eram
carinhosos. Ela nunca tinha visto ele sob este aspecto, havia uma espécie de
fragilidade nele, como se ele pudesse ser não apenas tocado mas machucado. "Por
que você nunca pensa?" ele sussurrou.
“Eu estava pensando,” ela disse. "Eu estava pensando em você."
Ele fechou os olhos por um instante. "Se alguma coisa tivesse acontecido com
você..." Suas mãos traçaram a linha dos braços suavemente, abaixo até os pulsos
dela, como se ele estivesse se reassegurando que ela estava realmente lá. "Como
você me encontrou?"
"Luke," ela respondeu. "Eu vim com Luke. Para resgatar você."
Ainda a segurando, ele olhou do seu rosto para a janela, um ligeiro franzido
ondulando no canto de sua boca. "Portanto aqueles eram... você veio com um clã de
lobos?" ele perguntou, um estranho tom em sua voz.
"Luke," disse ela. "Ele é um lobisomem, e..."
"Eu sei." Jace cortou ela. "Eu deveria ter adivinhado... as algemas." Ele olhou em
direção à porta. "Onde ele está?"
"Escadas abaixo," Clary disse lentamente. Ele matou Blackwell. Eu vim procurar por
você..."
"Ele vai ter de chamá-los para fora," Jace disse.
Ela olhou para ele sem compreender. "O quê?"
"Luke," Jace disse. "Ele vai ter que chamar os lobos de seu bando. Há um mal
entendido."
"O quê, você mesmo se sequestrou?" Ela quis soar provocando, mas a voz dela
estava muito leve. "Vamos lá, Jace."
Ela puxou o seu pulso, mas ele resistiu. Ele estava olhando para ela intensamente, e
ela notou com um choque o que ela não tinha notado, em sua primeira precipitação
de alívio.
A última vez que ela tinha visto ele, ele estava cortado e contundido, as roupas
manchadas de sangue e sujeira, seu cabelo imundo e com serosidade de sangue e
poeira. Agora, ele estava vestido com uma camisa branca solta e calças escuras, o
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seu cabelo limpo caindo por todo o rosto, ouro pálido e esvoaçante. Ele limpou alguns
fios dos seus olhos com uma delgada mão, e ela viu que o seu pesado anel de prata
estava atrás em seu dedo.
"Essas são suas roupas?" ela perguntou, confusa. "E… seus ferimentos estão todos
cuidados..." Sua voz falhou. "Parece que Valentine esteve cuidando terrivelmente
bem de você."
Ele sorriu para ela com um carinho cansado. "Se eu te dissesse a verdade, você diria
que eu estou louco," ele disse.
Ela sentiu seu coração agitando duramente contra o interior do seu peito, como uma
rápida batida de asas de um beija-flor. "Não, eu não diria."
"Meu pai me deu essas roupas," ele disse.
A palpitação tornou-se um rápido tumulto. "Jace," ela disse com cuidado, "seu pai
está morto."
"Não." Ele agitou sua cabeça. Ela teve a sensação de que ele estava segurando por
dentro um enorme sentimento, como horror ou prazer – ou ambos. "Eu achava que
ele estava, mas ele não está. Foi tudo um engano."
Ela se lembrou do que Hodge tinha dito sobre Valentine e sua habilidade de ser
encantador e convincente em mentiras. "Isto é algo que Valentine disse a você?
Porque ele é um mentiroso, Jace. Lembre-se do que Hodge disse. Se ele está dizendo
que seu pai está vivo, é uma mentira para que você faça aquilo que ele quer."
"Eu vi o meu pai," Jace disse. "Eu tenho conversado com ele. Ele me deu isto." Ele
puxou sua nova camisa limpa, como se fosse uma prova inevitável. "Meu pai não está
morto. Valentine não o matou. Hodge mentiu para mim. Todos estes anos eu pensei
que ele estava morto, mas ele não estava."
Clary olhou selvagemente ao redor, para a sala com a sua brilhante porcelana chinesa
e tochas derretendo e esvaziando, o espelho reluzente. "Bem, se o seu pai está
realmente neste lugar, então onde está ele? Valentine seqüestrou ele também?"
Os olhos de Jace estavam brilhando. O pescoço de sua camisa estava aberto e ela
podia ver as finas cicatrizes brancas que cobriam sua clavícula, como fissuras na
macia pele dourada. "Meu pai..."
A porta da sala, que Clary tinha fechado atrás dela, se abriu com um rangido, e um
homem caminhava para o quarto.
Era Valentine. Seus cabelos prateados cortados reluziam como um elmo de aço polido
e sua boca estava dura. Ele usava na cintura uma grossa bainha em seu cinto e o
cabo de uma longa espada projetava-se a partir do início da mesma.
"Então," disse ele, descansando a mão sobre o cabo enquanto ele falava, "você já
recolheu suas coisas? Nossos Esquecidos podem distanciar os homens lobo por
apenas... "
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Vendo Clary, ele se interrompeu no meio da sentença. Ele não era o tipo de homem
que realmente era apanhado fora guarda, mas ela viu o tremular de espanto nos
olhos dele. "O que é isso?" ele perguntou, virando seu olhar para Jace.
Mas Clary já estava tateando sua cintura pela adaga. Ela a agarrou pelo cabo,
sacudindo ela fora de sua bainha, e puxou a mão dela de volta. A fúria golpeava atrás
de seus olhos como um tambor. Ela poderia matar este homem. Ela iria matá-lo.
Jace segurou seu pulso. "Não."
Ela não podia conter sua incredulidade. "Mas, Jace..."
"Clary," ele disse firmemente. "Este é o meu pai."
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