quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Série Instrumentos Mortais - Cidade dos Ossos 15

15 – Alto e Seco
Os lobos encurvados, abaixo e raivosos, e os vampiros, parecendo espantados, se
afastaram. Apenas Raphael permaneceu onde estava. Ele ainda segurava seu braço
ferido, sua camisa uma bagunça manchada de sangue e sujeira. "Los Niños de la
Luna," ele sibilou. Mesmo Clary, cujo espanhol era quase inexistente, sabia que ele
tinha dito. As crianças da lua - lobisomens. "Eu achei que eles se odiavam um ou
outro," ela sussurrou para Jace. "Vampiros e lobisomens."
"Eles se odeiam. Eles nunca vão ao covil um do outro. Nunca. O Pacto proíbe isso."
Ele parecia quase indignado. "Algo deve ter acontecido. Isto é ruim. Muito ruim."
"Como é que pode ser pior do que era antes?"
"Porque," ele disse, "estamos prestes a estar no meio de uma guerra."
"COMO VOCÊS SE ATREVEM A ENTRAR EM NOSSO LUGAR?" Raphael gritou. O rosto
estava muito vermelho, coberto com sangue.
O maior dos lobos, um monstro listrado de cinza com dentes como os de um tubarão,
deu uma ofegada como um cachorro rindo. Enquanto ele avançava, entre um passo e
o próximo, ele pareceu deslocar e mudar como uma onda crescente se encurvando.
Agora, ele era um homem alto e fortemente musculoso, com cabelos longos que
estavam presos em um cordão cinza – como uma trança. Ele usava jeans e uma
jaqueta de couro grosso, e ainda havia algo de lobo no conjunto de seu esguio rosto
resistente ao tempo. "Não viemos para um banho de sangue," ele disse. "Nós viemos
pela garota."
Raphael conseguiu parecer furioso e atônito de uma só vez. "Quem?"
"A garota humana." O lobisomem estendeu um braço rígido, apontando Clary.
Ela estava muito chocada para se mover. Simon, que tinha estado se contorcendo
tentando se segurar, ficou imóvel. Atrás dela, Jace murmurou algo que soou
distintamente blasfemante. "Não me diga que você conhece alguns lobisomens." Ela
podia ouvir o ligeiro desprezo em seu tom superficial, ele estava tão surpreso quanto
ela estava.
"Eu não," ela disse.
"Isso é ruim," Jace disse.
"Você disse isso antes."
"Parece que vale a pena repetir."
"Bem, não vale." Clary encolheu-se contra ele. "Jace. Estão todos olhando para mim."
Cada rosto estava voltado para ela; a maioria parecia espantada. Os olhos de Raphael
estavam estreitos. Ele virou as costas para o lobisomem, lentamente. "Você não pode
ter ela," ele disse. "Ela passou os limites de nossa terra, ela é nossa."
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O lobisomem riu. "Estou tão feliz por você ter dito isso," ele disse, e se lançou em
frente. Em meio ao ar, seu corpo ondulou, e ele era novamente um lobo, a cobertura
de seus pêlos se eriçando, os maxilares escancarados, prontos para rasgar. Ele
atingiu Raphael no nível do peito, e os dois foram um para cima do outro se
contorcendo, os rosnados se confundindo. Como se respondendo aos uivos de raiva,
os vampiros enfrentaram os lobisomens, se encontrando com eles no centro do salão.
O barulho era como algo que nunca Clary tinha ouvido. Se a pintura do inferno de
Bosch tivesse uma trilha sonora, ela teria soado como isto.
Jace assobiava. "Raphael está realmente tendo uma excepcional noite ruim."
"Então o quê?" Clary não tinha qualquer simpatia para com o vampiro. "O que é que
vamos fazer?"
Ele olhou ao redor. Eles estavam presos em um canto da barulhenta massa de
corpos; e eles estavam sendo ignorados por agora, e não seria por muito tempo.
Antes de Clary poder dizer esse pensamento, Simon subitamente guinchou
violentamente, livre do seu aperto e saltou para o chão. "Simon!" Ela gritou enquanto
ele se lançava para o canto em uma pilha apodrecida de cortinas de veludo. "Simon,
pare!"
As sobrancelhas de Jace se eleveram inquisitivamente. "O que é que ele..." Ele
agarrou o seu braço, sacudindo ela de volta. "Clary, não siga o rato. Ele está fugindo.
Isso é o que os ratos fazem."
Ela lhe atirou um olhar furioso. "Ele não é um rato. Ele é Simon. E ele mordeu
Raphael por você, seu cretino ingrato." Ela puxou com força seu braço livre e se
atirou após Simon, que estava encolhido nas pregas da cortina, tremendo com
entusiasmo e mexendo as patas para eles. Tardiamente, percebendo o que ele estava
tentando dizer a ela, ela puxou as cortinas de lado. Elas estavam pegajosas com o
bolor, mas por detrás delas havia...
"Uma porta," ela respirava. "Você é um rato gênio."
Simon chiou modestamente enquanto ela o levantava. Jace foi logo atrás dela. "Uma
porta, hein? Bem, ela está aberta?"
Ela agarrou a maçaneta e se virou para ele, cabisbaixa. "Está fechada. Ou
bloqueada."
Jace se atirou contra a porta. Ela não se moveu. Ele xingou. "Meu ombro nunca mais
será o mesmo. Eu espero que você cuide de mim até eu voltar a ter saúde."
"Apenas quebre a porta, você vai?"
Ele olhou atrás dela, com os olhos bem abertos. "Clary..."
Ela se virou. Um enorme lobo tinha se afastado da briga e estava correndo na direção
dela, orelhas achatadas em sua estreita cabeça. Era enorme, cinza, preto e listrado,
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com uma longa e vermelha língua para fora. Clary gritou. Jace se atirou contra a
porta novamente, ainda praguejando. Ela alcançou o seu cinto, agarrando o punhal, e
o atirou.
Ela nunca tinha jogado uma arma antes, nunca pensou sequer em jogar uma. O mais
próximo que ela tinha chegado de armamento antes desta semana, era para tirar
fotos delas, por isso que Clary estava mais surpresa do que quem quer que fosse, ela
suspeitou, quando a adaga voou, vacilante mas de verdade, e se afundou no lado do
lobisomem.
Ele ganiu, vagarosamente, mas três de seus companheiros já estavam correndo na
direção dele. Um parou ao lado do lobo ferido, mas os outros se lançaram para a
porta. Clary gritou novamente, enquanto Jace arremessava seu corpo contra a porta
uma terceira vez. Deu com um explosivo barulho agudo de trituração da ferrugem e
de madeira estilhaçando. "Três vezes o encanto," ele ofegou, segurando seu ombro.
Ele mergulhou no escuro abrindo espaço para além da porta quebrada, e se virou
para segurar uma impaciente mão. "Clary, vamos lá."
Com um suspiro ela se arremessou após ele e se atirou na porta fechada, justo
quando dois corpos estrondaram pesados contra ela. Ela tateou pela maçaneta, mas
tinha desaparecido, despedaçada para longe onde Jace tinham quebrado através dela.
"Se abaixe," ele disse, e enquanto ela fazia, a estela chicoteou sobre sua cabeça,
cortando linhas escuras na pulverizada madeira da porta. Ela suspendeu o pescoço
para ver o que ele tinha esculpido: uma curva como uma foice, três linhas paralelas,
uma estrela emitindo raios: Para segurar contra a perseguição.
"Eu perdi a sua adaga," ela confessou. "Me desculpe."
"Isso acontece." Ele guardou sua estela. Ela podia ouvir os baques indistintos
enquanto os lobos se lançavam contra a porta de novo e de novo, mas eram detidos.
"A runa irá mantê-los para trás, mas não por muito tempo. É melhor nos
apressarmos."
Ela olhou para cima. Eles estavam em uma passagem úmida; um estreito conjunto de
escadas subiam para escuridão. Os degraus eram de madeira, o corrimão
membranoso com poeira. Simon impulsionou seu nariz para fora do bolso de sua
jaqueta, seus olhos de botão preto brilharam na luz fraca. "Tudo bem," ela acenou
para Jace. "Você vai primeiro."
Jace pareceu como se quisesse sorrir, mas estava muito cansado. "Você sabe como
eu gosto de ser o primeiro. Mas lentamente," ele acrescentou. "Não estou certo de
que a escada possa manter o nosso peso."
Clary também não tinha certeza. Os degraus rangiam e gemiam enquanto eles
subiam, como uma anciã reclamando de suas dores e sofrimentos. Clary apertou o
corrimão para ter equilíbrio, e um pedaço dele se quebrou caindo de sua mão,
fazendo ela guinchar e forçando um exausto sorriso de Jace. Ele tomou a mão dela.
"Aqui. Se firme".
Simon fez um som que, para um rato, soou muito parecido com um bufar. Jace
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pareceu não ter ouvido. Eles estavam tropeçando nos degraus tão rapidamente
quando eles avançavam. A passagem subia em uma grande espiral, pelo meio do
edifício. Eles passaram andar após andar, mas sem portas. Eles tinham chegado ao
quarto sem nenhum sinal distintivo, quando uma explosão abafada balançou as
escadas, e uma nuvem de poeira rolou para cima.
"Eles conseguiram passar pela a porta," disse Jace violentamente. "Maldição, eu
pensei que daria para deter por mais tempo."
"Vamos correr agora?" Clary indagou.
"Agora vamos correr," ele disse, e eles ribombaram subindo as escadas, que
choramingava e gemia sob seu peso, os pregos estalando como tiros. Eles estavam
no quinto andar agora – ela podia ouvir o suave baque-baque das patas dos lobos
sobre os degraus inferiores agora, ou talvez tenha sido apenas a sua imaginação. Ela
sabia que não havia realmente ar quente na parte de trás do pescoço dela, mas os
rosnados e uivos, ficaram mais altos quanto mais perto eles estavam, eram reais e
aterradores.
O sexto andar passou na frente deles e eles meio quase continuaram se lançando a si
mesmos. Clary estava arfando, sua respiração passando dolorosamente em seus
pulmões, mas ela exprimiu um fraca animação quando ela viu uma porta. Era de aço
pesado, rebitado com pregos, e apoiada aberta com um tijolo. Ela quase não teve
tempo para perguntar por que razão, quando Jace chutou ela aberta, empurrando ela
através, e, depois, batendo ela fechada. Ela ouviu um definitivo clique, uma vez que
ficou trancada atrás deles. Graças a Deus, ela pensou.
Então ela olhou ao redor.
O céu noturno rodava acima dela, espalhado com estrelas como um punhado de
diamantes soltos. Não estava negro, mas um claro azul escuro, a cor próxima do
amanhecer. Eles estavam em pé em um telhado de ardósia em forma de torre com
chaminés de tijolos. Uma velha torre de água, preta pela negligência, foi levantada
sobre uma plataforma de uma das pontas; uma pesada lona ocultava uma pilha cheia
de pedaços de sucata uma sobre a outra. "Ali deve ser o modo como eles entram e
saem," Jace disse, olhos de volta na porta. Clary podia vê-lo propriamente agora na
luz pálida, as linhas de tensão em torno de seus olhos como cortes superficiais. O
sangue em suas roupas, principalmente o de Raphael, parecia preto. "Eles voam até
aqui. Não é que isso nos faça muita coisa boa."
"Deve haver um escada de incêndio," Clary sugeriu. Juntos, eles escolheram
cuidadosamente o seu caminho à beira do telhado. Clary nunca tinha gostado de
altura, e o décimo andar em relação a rua, fez o estômago dela rodar. Então havia
um sinal de escada de incêndio, um retorcido, e inutilizável pedaço de metal ainda
agarrado ao lado da pedra fachada do hotel. "Ou não," ela disse. Ela olhou de volta à
porta em que eles haviam emergido. Foi fundada em uma estrutura como uma cabine
no centro do telhado. Estava vibrando, a maçaneta sacudindo selvagemente. É só iria
segurar por mais alguns minutos, talvez menos.
Jace pressionou as costas das mãos contra os olhos dele. O ar pesado descia sobre
eles, fazendo a parte de trás do pescoço de Clary espetar. Ela podia ver o suor
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escorrendo em seu colarinho. Ela desejou, irrelevantemente, que estivesse chovendo.
A chuva iria estourar essa bolha de calor como uma bolha furada.
Jace balbuciava para si mesmo. "Pense, Wayland, pense..."
Alguma coisa começou a tomar forma dentro da mente de Clary. Uma runa dançava
contra o interior das pálpebras dela: dois triângulos descendente, ligados por uma
única barra – uma runa como um par de asas...
"É isso," Jace respirou, soltando suas mãos, e por um atemorizado momento Clary se
perguntou se ele tinha lido a sua mente. Ele parecia febril, os seus olhos dourados
cobriam-se com manchas muito brilhantes. "Eu não posso acreditar que eu não
pensei nisso antes." Ele se lançou na extremidade no fim do telhado e, então pausou
e olhou de volta para ela. Ela ainda estava de pé confusa, seu pensamento cheio do
brilho fraco de formas. "Vamos, Clary."
Ela o seguiu, empurrando os pensamentos de runas de sua mente. Ele tinha chegado
à lona e estava puxando a borda da mesma. Ela se afastou, revelando não lixo, mas
brilhantes cromados, couro trabalhado, e pintura reluzente. "Motocicletas?"
Jace chegou a uma mais próxima, uma enorme Harley vermelha escura com chamas
douradas no tanque e no pará-choque. Ele colocou uma perna por cima e olhou sobre
seu ombro para ela. "Suba."
Clary o encarou. "Você está brincando? Você nem sabe como dirigir essa coisa? Você
tem as chaves?"
"Eu não preciso de chaves," ele explicou com paciência infinita. "Ele roda em energias
demoniacas. Agora, você vai subir, ou você quer montar em uma só para você?"
Entorpecida Clary deslizou na moto atrás dele. Em algum lugar, em alguma parte do
seu cérebro, uma pequena voz estava gritando sobre aquilo ser uma péssima idéia.
"Bom," Jace disse. "Agora, ponha seus braços em volta de mim." Ela o fez, sentindo a
musculatura rígida do seu abdómen contraído, enquanto ele se inclinava para frente e
encravava a ponta da estela dentro da ignição. Para o seu espanto, ela sentiu o moto
estremecer com vida sob ela. Em seu bolso Simon guinchou ruidosamente.
"Está tudo bem," ela disse, tão tranqüilizante quanto ela podia. "Jace!" ela gritou,
acima do som do motor da motocicleta. "O que você está fazendo?"
Ele gritou de volta algo que soava como "Pressionando o afogador!"
Clary piscou. "Bem, se apresse! A porta..."
Nesse momento, a porta do telhado explodiu aberta com um estraçalhar, arrancada
de suas dobradiças. Lobisomens fluíam através da lacuna, correndo pelo telhado em
direção a eles. Acima deles, voavam os vampiros, sibiliando e guinchando, enchendo
a noite com choros predatórios.
Ela sentiu o braço de Jace virar a guinada brusca a frente da moto, enviando o seu
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estômago para trás em sua coluna. Ela agarrou com força, convulsivamente a cintura
de Jace enquanto eles se atiravam à frente, os pneus patinando ao longo das
ardósias, dispersando os lobos, que latiam enquanto eles saltavam de lado. Ela ouviu
Jace gritar alguma coisa, suas palavras se despedaçaram se afastando pelo barulho
das rodas, do vento e do motor. A borda do telhado estava vindo rápido, tão rápido, e
Clary quis fechar seus olhos, mas algo segurou eles abertos enquanto a motocicleta
esbarrava sobre o parapeito e mergulhava como uma pedra em direção ao solo, dez
andares para baixo.
Se Clary gritou, ela não conseguiu lembrar mais tarde. Aquela foi como a primeira
queda em uma montanha russa, onde a trilha cai e você se sente sozinho empurrado
através do espaço, inutilmente acenando as mãos no ar e seu estômago comprimido
ao redor de suas orelhas. Quando a moto se endireitou com um crepitar e uma
sacudida, ela quase não ficou surpresa. Em vez de mergulharem descendo, eles
estavam agora sendo empurrados em direção ao céu cheio de diamantes.
Clary olhou para trás e viu um grupo de vampiros de pé sobre o telhado do hotel,
rodeado por lobos. Ela olhou para longe, se ela nunca mais visse o hotel novamente,
que fosse bem breve.
Jace estava gritando, altos berros agudos de entusiasmo e alívio. Clary se inclinou
para frente, braços apertados em volta dele. "Minha mãe sempre me disse que se eu
andasse numa motocicleta com um garoto, ela iria me matar," ela falou acima do
ruído do vento chicoteando passando em suas orelhas e o ensurdecedor estrondo do
motor.
Ela não podia ouvir ele rir, mas ela sentiu seu corpo tremer. "Ela não diria isso se ela
me conhecesse," ele falou de volta para ela, confiantemente. "Eu sou um excelente
motorista."
Tardiamente, Clary se lembrou de algo. "Eu pensei que vocês rapazes disseram que
apenas algumas das motos dos vampiros podiam voar?"
Com habilidade, Jace virou eles em torno de um sinal de trânsito no processo de se
tornar de vermelho para o verde. Abaixo, Clary podia ouvir as buzinas dos carros, as
sirenes de ambulância lamentando, os ônibus bafejando em suas paradas, mas não
ousava olhar para baixo. "Apenas algumas delas podem!"
"Como você sabia que esta era um delas?"
"Eu não sabia!" Ele pôs pra fora alegremente, e fez uma coisa que fez com que a
moto subisse quase verticalmente no ar. Clary gritou e agarrou a sua cintura
novamente.
"Você devia olhar para baixo!" Jace gritou. "É impressionante!"
A completa curiosidade forçou seu caminho passando pelo terror e pela vertigem.
Engolindo com dificuldade, Clary abriu os olhos dela.
Eles estavam mais acima do que ela tinha notado, e por um momento a terra girou
vertiginosamente debaixo dela, uma paisagem embaçada de sombra e luz. Eles
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estavam voando para o leste, longe do parque, em direção à estrada que serpenteava
ao longo da margem direita da cidade.
Houve uma dormência nas mãos de Clary, uma dura pressão em seu peito. Era
ótimo, ela podia ver aquilo: a cidade subindo ao seu lado como uma violenta floresta
de vidro e prata, o embotado tremular cinza do East River, cortando entre Manhattan
e os municípios, como uma cicatriz. O vento estava frio em seus cabelos, em sua
pele, delicioso depois de tantos dias de calor e pegajosidade. Ainda assim, ela nunca
voou, nem sequer em um avião, e o grande espaço vazio entre eles e a terra
aterrorizou ela. Ela não podia manter arqueado seus olhos, quase fechados, enquanto
eles se atiraram ao longo do rio. Bastava seguir a ponte de Queensboro, Jace virou a
moto para o sul se dirigindo aos pés da ilha. O céu tinha começado a clarear, e a
distância Clary podia ver o arco brilhante da ponte do Brooklyn, e para além disso,
uma mancha no horizonte, a Estátua da Liberdade.
"Você está bem?" Jace gritou.
Clary não disse nada, apenas o agarrou mais vigorosamente. Ele inclinou a moto e,
em seguida, eles estavam navegando em direção à ponte, Clary podia ver estrelas
através dos cabos de suspensão. Um trem de manhã cedo foi chacoalhando acima da
Q, transportando um carregamento de sonolentos passageiros da madrugada. Ela
pensou em quantas vezes ela tinha ido nesse trem. Uma onda de vertigem inundou
ela, e ela fechou os olhos apertado, arfando com as náuseas.
"Clary?" Jace chamou. "Clary, você está bem?"
Ela balançou a cabeça, os olhos ainda fechados, sozinha no escuro e no rasgante
vento, com apenas o arranhar de seu coração. Alguma coisa distinta arranhou contra
seu peito. Ela a ignorou até que aquilo veio de novo, mais insistente. Fracamente
abrindo um olho, ela viu que era Simon, cutucando sua cabeça para fora do seu
bolso, puxando seu casaco com uma pata urgente. "Está tudo bem, Simon," ela disse
com esforço, não olhando para baixo. "Foi apenas a ponte..."
Ele arranhou ela novamente, e então apontou uma pata urgente para a zona
ribeirinha de Brooklyn, elevando-se sobre a sua esquerda. Tonta e doente, ela olhou
e viu, além dos contornos dos armazéns e fábricas, uma faixa dourada do nascer do
sol apenas visível, como a borda de uma pálida moeda coberta de ouro. "Sim, muito
bonito," Clary disse, fechando os olhos dela novamente. "Lindo amanhecer."
Jace ficou todo rígido, como se ele tivesse sido baleado.
"Amanhecer?" gritou, então a moto sacudiu violentamente para a direita. Os olhos de
Clary saltaram abertos enquanto eles mergulhavam em direção à água, que tinha
começado a cintilar com o azul da aproximação do amanhecer.
Clary se inclinou tão perto de Jace quanto ela poderia ficar sem esmagar Simon entre
eles. "O que há de tão ruim com o amanhecer?"
"Eu te falei! A bicicleta funciona com energias demoniacas!" Ele puxou para trás de
modo que eles estavam no nível do rio, apenas deslizando ao longo da superfície com
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as rodas jogando salpicos de água. A água do rio respingando no rosto de Clary.
"Logo que o sol surge..."
A moto começou a travar. Jace xingando vivamente, batendo seu punho no
acelerador. A moto se arremessou a frente uma vez e, em seguida, engasgou,
vibrando debaixo deles como um cavalo empinando. Jace ainda estava praguejando
enquanto o sol espreitava o esfacelado cais do Brooklyn, iluminando o mundo com
clareza devastadora. Clary podia ver cada pedra, cada seixo embaixo dele enquanto
eles transpunham o rio e ao longo do estreito banco. Abaixo deles estava a rodovia,
já com o fluxo de tráfego da manhã. Eles apenas passaram aquilo, as rodas
arranhando o teto de um caminhão passando. Além, estava o lixo espalhado no
terreno do estacionamento de um enorme supermercado.
"Segurem-se em mim!" Jace estava gritando, enquanto a moto sacudia e estremecia
debaixo deles. "Segurem-se em mim, Clary, e não deixe...”
A moto inclinou e atingiu o asfalto do estacionamento, a roda da frente primeiro. Ela
se atirou em frente, balançando violentamente, e foi em um longo derrapar, saltando
e batendo sobre o terreno irregular, lançando a cabeça de Clary para frente e para
trás forçando o pescoço. O ar empesteou de borracha queimada. Mas a moto estava
diminuindo, derrapando em uma travada, e então eles atingiram uma barreira de
concreto com tal força que ela foi levantada ao ar e arremessada de lado, a mão livre
do aperto na cintura de Jace. Ela quase não teve tempo para se curvar em si mesma
em uma bola de proteção, segurando seus braços tão fortes quanto possível e
rezando para que Simon não fosse esmagado, quando eles atingiram o solo.
Ela bateu forte, a agonia gritando em seu braço. Algo molhou em seu rosto, e ela
estava tossindo enquanto rebatia sobre ela, rolando sobre suas costas. Ela agarrou o
seu bolso. Ele estava vazio. Ela tentou dizer o nome de Simon, mas o ar tinha sido
nocauteado dela. Ela ofegou enquanto ela respirava o ar. Seu rosto estava molhado e
a umidade estava correndo para sua gola.
Isso é sangue? Ela abriu seus olhos nubladamente. Ela sentiu seu rosto com um
grande hematoma, seus braços, sentindo dor e picando, como carne crua. Ela tinha
rolado para o seu lado e estava deitada meio dentro e meio fora de uma poça de
água suja. O amanhecer tinha realmente vindo – ela podia ver os restos da moto,
afundada em um amontoado de cinzas irreconhecível enquanto os raios de sol
golpeavam ela.
E lá estava Jace, ficando dolorosamente nos pés dele. Ele começou a se apressar na
direção dela, então diminui enquanto se aproximava. A manga de sua camisa estava
rasgada fora e havia um longo arranhado sangrento ao longo de seu braço esquerdo.
Seu rosto, sob a coberta dos cachos dourados escuros estavam emaranhados com
suor, poeira e sangue, estava branco como um lençol. Ela se perguntou por que ele
estava olhando daquele jeito.
Sua perna foi rasgada fora na área do estacionamento em algum lugar numa piscina
de sangue?
Ela começou a lutar para cima e sentiu uma mão sobre seu ombro. "Clary?"
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"Simon!"
Ele estava ajoelhado próximo a ela, piscando, como se ele não pudesse acreditar
naquilo também. Suas roupas estavam amassadas e sujas, e ele havia perdido seus
óculos em algum lugar, mas ele parecia, fora isso, ileso. Sem os óculos ele parecia
mais jovem, indefeso, e um pouco ofuscado. Ele chegou a tocar seu rosto, mas ela
hesitou para trás. "Ai!"
"Você está bem? Você parece ótima," ele disse, com uma surpresa em sua voz. "A
melhor coisa que eu já vi..."
"Isso é porque você não tem os seus óculos," ela disse fracamente, mas se ela tinha
esperado por uma resposta espertinha, ela não teve uma. Em vez disso ele jogou os
braços em torno dela, segurando ela firmemente junto a ele. Suas roupas cheiravam
a sangue, suor e sujeira, e seu coração estava batendo um milhão por um minuto e
ele pressionava suas contusões, mas era um alívio, no entanto, ser abraçada por ele
e saber, realmente saber, que estava tudo bem com ele. "Clary," ele disse
asperamente. "Eu pensei, eu pensei que você..."
"Não voltaria para você? Mas é claro que eu iria," ela disse. "Claro que iria."
Ela colocou seus braços em volta dele. Tudo sobre ele era familiar, do tecido
manchado de sua camiseta ao acentuado ângulo da clavícula que repousava sob seu
queixo. Ele disse o nome dela, e ela o acalmou de volta reassegurando. Quando ela
olhou de volta por apenas um momento, ela viu Jace desviar-se como se o brilho do
sol nascente machucasse seus olhos.
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