14 – Hotel Dumort
À noite na rua Diamond, a igreja parecia espectral, suas janelas em arcos góticos
refletindo o luar prateado como espelhos. Uma cerca de ferro forjado rodeava o
prédio que era pintado em um preto fosco. Clary agitou o portão da frente, mas um
robusto cadeado o mantinha fechado.
"Está trancado," ela disse, olhando para Jace por sobre seu ombro.
Ele brandiu sua estela. "Me deixa com ele."
Ela o olhava enquanto ele trabalhava na fechadura, olhando as magras curvas de
suas costas, o crescer de músculos sob as mangas curtas de sua camiseta. O luar
limpava a cor do seu cabelo, tornando-o mais prateado do que dourado.
O cadeado bateu no chão com um som estridente, um pedaço de metal retorcido.
Jace parecia contente com ele mesmo. "Como sempre," ele disse, "eu sou
incrivelmente bom nisso."
Clary de repente se sentiu incomodada. "Quando a parte do seu alto-me-parabenizo
da noite tiver acabado, talvez pudéssemos voltar a salvar o meu melhor amigo de ser
dessangrado até a morte?"
"Dessangrado," Jace disse, impressionado. "Essa é uma palavra grande."
"E você é um grande..."
"Tsk, tsk," ele interrompeu. "Não xingue na igreja."
"Não estamos na igreja ainda," Clary murmurou, seguindo ele acima no caminho de
pedra para as portas duplas frontais. O arco de pedra acima das portas era
lindamente esculpido, uma anjo olhando para baixo a partir do seu ponto mais alto.
Acentuadamente os pináculos apontavam suas silhuetas escuras contra o céu
noturno, e Clary notou que esta era a igreja que tinha anteriormente vislumbrado a
noite no Parque McCarren. Ela mordeu seu lábio. "Parece errado de alguma forma
quebrar a fechadura da porta de uma igreja."
O perfil de Jace sob o luar estava sereno. "Não estamos fazendo isso," ele disse,
deslizando sua estela em seu bolso. Ele colocou uma fina mão bronzeada, marcada
acima com delicadas cicatrizes brancas, como um disfarce de renda, contra a madeira
da porta, um pouco acima do trinco. "Em nome do Clave," ele disse, "eu peço entrada
para este lugar sagrado. Em nome da batalha que nunca acaba, peço o uso de suas
armas. E em nome do Anjo Raziel, peço suas bênçãos sobre a minha missão contra a
escuridão." Clary olhou para ele. Ele não se moveu, embora o vento da noite soprasse
os cabelos dele nos seus olhos, ele piscou, e quando ela estava prestes a falar, a
porta se abriu com um clique e um ranger de dobradiças. E se colocou para dentro
suavemente ante eles, abrindo para um frio espaço vazio, iluminado por pontos de
fogo. Jace deu um passo para trás. "Depois de você."
Quando Clary entrou no interior, uma onda de ar frio envolveu ela, juntamente com o
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cheiro de pedra e velas de cera. Tênues fileiras de banco de igreja se esticavam em
direção ao altar, e um banco de velas brilhavam como uma cama de faíscas contra a
parede distante. Ela notou que, além do Instituto, o que realmente não contava, na
verdade ela nunca esteve dentro de uma igreja antes. Ela tinha visto fotos, e visto o
interior das igrejas, em filmes e shows de anime, onde eles apareciam regularmente.
Uma cena em uma de suas séries de anime favoritas tinha como lugar uma igreja, e
com um monstruoso vampiro como sacerdote. Era suposto que se devia se sentir
segura dentro de uma igreja, mas ela não se sentia. Estranhas formas pareciam se
elevar sobre ela para fora das sombras. Ela estremeceu.
"As paredes de pedra mantém o calor," Jace disse, percebendo.
"Não é isso," disse ela. "Você sabe, eu nunca estive em uma igreja antes."
"Você esteve no Instituto."
"Quero dizer, em uma verdadeira igreja. Com serviços. Esse tipo de coisa."
"É verdade. Bem, esta é a nave, onde os bancos estão. É onde as pessoas se sentam
durante a missa." Eles se moveram a frente, sua voz ecoando nas paredes de pedra.
"Aqui em cima está a cúpula. É onde nós estamos de pé. E este é o altar, onde o
padre realiza a Eucaristia. É sempre no lado leste da igreja." Ele se ajoelhou na frente
do altar, e ela pensou por um momento que ele estava rezando. O altar em si era
alto, feito de granito negro, e coberto com um pano vermelho. Atrás aparecia uma
tela ornada em ouro, pintada com figuras de santos e mártires, cada uma com um
disco plano de ouro atrás de sua cabeça representando uma auréola.
"Jace," ela sussurrou. "O que você está fazendo?"
Ele colocou suas mãos sobre o chão de pedra e estava movimentando elas para
frente e para trás rapidamente, como se estivesse procurando algo, os seus dedos
mexendo na poeira. "Procurando por armas."
"Aqui?"
"Elas ficam escondidas, normalmente em torno do altar. Mantido para nosso uso em
caso de emergência."
"E isto é o quê, algum tipo de trato que vocês tem com a Igreja Católica?"
"Não especificamente. Demônios tem estado na Terra, a tanto tempo quanto nós
temos. Estão em todo o mundo, nas suas diferentes formas – demônios gregos,
daevas persa, asuras hindus, oni japonês. A maioria dos sistemas de crença têm
algum método de incorporar tanto a sua existência quanto a luta contra eles.
Caçadores de sombras não estão ligados a nenhuma religião, e, por sua vez, todas as
religiões nos ajudam em nossa batalha. Eu poderia facilmente ter ido procurar ajuda
em uma sinagoga judaica ou um templo Shinto, ou... Ah. Aqui está." Ele limpou a
poeira de lado, enquanto ela se ajoelhava ao lado dele. Esculpida em uma das pedras
octogonais antes do altar estava uma runa. Clary a reconheceu, quase tão facilmente
quanto se ela fosse ler uma palavra em Inglês. Era a runa que significava "Nephilim."
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Jace tirou sua estela e a tocou na pedra. Com um alto som ela se deslocou para trás,
revelando um compartimento escuro embaixo. Dentro do compartimento havia uma
caixa de madeira longa; Jace levantou a tampa, e olhou com satisfação os objetos
dispostos no interior.
"O que é tudo isso?" Clary perguntou.
"Frascos de água benta, facas abençoadas, lâminas de aço e prata," Jace disse,
empilhando as armas no chão ao lado dele, “fio de electrum25 não é muito útil no
momento, mas é sempre bom ter balas de prata sobressalentes, encantos de
proteção, crucifixos, estrelas de David..."
"Jesus," disse Clary.
"Duvido que ele usaria."
"Jace."
Clary ficou horrorizada.
"O quê?"
"Eu não sei, parece errado fazer piadas como essa em uma igreja."
Ele deu de ombros. "Eu não sou realmente um cristão."
Clary olhou para ele surpreendida. "Você não é?"
Ele agitou sua cabeça. Seu cabelo caiu sobre o seu rosto, mas ele estava examinando
um frasco de líquido claro e não chegou a empurrá-lo de volta. Os dedos de Clary
coçaram com a vontade de fazer isso para ele. "Você pensou que eu era religioso?"
ele disse.
"Bem." Ela hesitou. "Se há demônios, então deve haver..."
"Deve haver o quê?" Jace deslizou o frasco em seu bolso. "Ah," ele disse. "Você quer
dizer, se houver isso" – ele apontou para baixo, em direção ao chão, "então deve
haver aquilo." Ele apontou para cima, em direção ao teto.
"Isso faz sentido. Não faz?"
Jace baixou sua mão e pegou uma espada, e examinou o cabo. "Eu vou te dizer,"
disse ele. "Venho matando demônios há um terço da minha vida. Devo ter enviado
quinhentos deles de volta a qualquer que seja a dimensão infernal em que eles se
dissolvem. E em todo esse tempo, eu nunca vi um anjo. Nunca sequer ouvi falar de
alguém que tenha visto. "
25
Electrum é uma liga natural de ouro e prata, utilizada nos fins dos tempos pré-históricos e clássicos para a fabricação
de pratos e moedas.
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"Mas foi um anjo que criou os Caçadores de Sombras em primeiro lugar," disse Clary.
"Foi o que Hodge disse."
"Isso faz uma boa história." Jace olhou para ela através das fendas de seus olhos
como um felino. "Meu pai acreditava em Deus," ele disse. "Eu não."
"De jeito nenhum?" Ela não tinha certaza do porquê é que ela estava alfinetando ele,
ela nunca recebeu qualquer orientação para saber se ela acreditava ou não em Deus
e em anjos, e se perguntada, ela teria dito que ela não acreditava. Havia alguma
coisa sobre Jace, porém, que a fazia querer pressioná-lo, quebrar aquela casca de
cinismo e admitir que ele acreditava em algo, sentia alguma coisa, preocupava-se
com alguma coisa.
"Me deixe colocar dessa maneira," ele disse, deslizando um par de facas em seu
cinto. A luz tênue era filtrada através das janelas de vidro colorido e jogava
quadrados de cor em todo o seu rosto. "Meu pai acreditava em um Deus justo. „Volts
Deus‟, este era seu lema, „porque é a vontade de Deus‟. Era o lema dos Cruzados, e
eles saíram para batalha e foram abatidos, tal como o meu pai. E quando eu o vi
deitado morto em uma piscina de seu próprio sangue, então eu sabia que eu não
tinha parado de acreditar em Deus. Eu só parei de acreditar que Deus se importasse.
Pode haver um Deus, Clary, e pode ser que não, mas acho que não interessa. De
qualquer forma, nós estamos por nossa própria conta.”
***
Eles eram os únicos passageiros no carro do metrô voltando para a zona residencial.
Clary sentou-se sem falar, pensando em Simon. De vez em quando Jace olhava acima
para ela como se estivesse prestes a dizer algo, antes de voltar a se perder em um
não característico silêncio.
Quando eles subiram para fora da estação de metrô, as ruas estavam desertas, o ar
pesado e com gosto de metal, as lojinhas, lavanderias e os centros de troca estavam
em silêncio atrás de suas portas de aço ondulado para a hora noturna. Eles
encontraram o hotel, finalmente, depois de uma hora de procura, em uma rua lateral
ao longo da 116. Eles caminharam passando ele por duas vezes, pensando que era
apenas mais um edifício abandonado, antes de Clary ver o sinal. Ele estava impreciso
como feito à unha e pendurado escondido atrás de uma árvore atrofiada, Hotel
Dumont, deveria ser dito, mas alguém tinha pintado o N e substituído com um R.
"Hotel Dumort," Jace disse quando ela apontou aquilo para ele. "Lindo."
Clary tinha só tinha dois anos de francês, mas foi o suficiente para entender a piada.
"Du mort," ela disse. "É a morte."
Jace acenou. Ele tinha ficado todo alerta, como um gato que vê um rato se movendo
atrás de um sofá.
"Mas não pode ser o hotel," disse Clary. "As janelas são todas tampadas, e a porta foi
emparedada... Ah," ela terminou, sacando o olhar dele. "Certo. Vampiros. Mas como
eles vão para dentro?"
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"Eles voam," disse Jace, e indicou os andares superiores do edifício. Em uma vez,
claramente, deveria ter sido um elegante e luxuoso hotel. A fachada de pedra era
elegantemente decorado com cacheados esculpidos e flores-de-lis, escuras e
corroídas pelos anos de exposição ao ar poluído e a chuva ácida.
"Nós não voamos," Clary se sentiu impelida a chamar atenção pra isso.
"Não," Jace concordou. "Nós não voamos. Nós quebramos e entramos." Ele começou
a atravessar a rua em direção ao hotel.
"Voando parece mais divertido," Clary disse, correndo para alcançar ele.
"Agora tudo parece mais divertido." Ela se perguntou o que ele quis dizer com isso.
Havia um entusiasmo sobre ele, uma antecipação da caçada que não parecia a ela o
quanto ele estava tão infeliz quanto ele alegava. Ele matou mais demônios do que
alguém de sua idade. Você não mataria aquele tanto de demônios voltando atrás
relutantemente de uma luta.
Um vento quente tinha vindo para cima, agitando as folhas das árvores raquíticas de
fora do hotel, enviando o lixo nas sarjetas e na calçada agitando o pavimento
quebrado. A área estava estranhamente deserta, Clary pensou, geralmente, em
Manhattan, havia sempre alguém na rua, mesmo as quatro da manhã. Várias das
luzes da cidade alinhadas na calçada estavam desligadas, embora a de um hotel mais
próximo soltava uma turvo brilho amarelo em todo o percurso rachado que levava ao
que tinha sido a porta da frente.
"Fique fora da luz," Jace disse, puxando ela em direção a ele através de sua manga.
"Eles podem estar vendo das janelas. E não olhe para cima," ele acrescentou, mas
era tarde demais. Clary já tinha olhado acima para as janelas quebradas dos pisos
superiores. Por um momento ela meio que pensou ter vislumbrado uma cintilação de
movimento em uma das janelas, um flash de brancura que poderia ter sido um rosto,
ou um uma mão puxando de volta uma pesada cortina...
"Vamos lá." Jace puxou ela para evaporarem-se nas sombras mais próximas do hotel.
Ela sentiu seu crescente nervosismo em sua espinha, na batida de seu pulso, no forte
batimento do sangue em suas orelhas. O distante zumbido de carros parecia muito
mais distante, o único som de triturar de seus próprios sapatos sobre o lixo em plena
calçada. Ela desejou poder andar silenciosamente, como um Caçador de Sombras.
Talvez algum dia ela pediria para Jace ensinar ela.
Ele escorregou ao virar a esquina do hotel em um beco que tinha provavelmente sido
uma faixa de serviço para as entregas. Ele era estreito, bloqueado com o lixo:
bolorentas caixas de papelão, garrafas de vidro vazias, plástico rasgado, espalhando
coisas que Clary pensou que era a primeira vista palitos, mas de perto pareciam
como...
"Ossos," Jace disse sem rodeios. "Ossos de cachorro, ossos de gato. Não olhe muito
de perto, passar pelo lixo dos vampiros, é raramente é uma imagem bonita."
Ela engoliu suas náuseas. "Bem," ela disse, "pelo menos sabemos que estamos no
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lugar certo," e foi recompensada pelo brilho de respeito que foi mostrado,
brevemente, nos olhos de Jace.
"Oh, nós estamos no lugar certo," disse ele. "Agora só temos que descobrir como
chegar lá dentro."
Havia existido claramente janelas aqui uma vez, agora emparedada. Não havia
nenhum sinal de porta e escada de incêndio. "Quando isso era um hotel," Jace disse
devagar, "eles devem ter recebido suas entregas aqui. Quero dizer, eles não teriam
trazido suas coisas pela porta da frente, e não há nenhum lugar para caminhões
desembarcarem. Então, deve haver uma maneira de entrar."
Clary pensou nas pequenas lojas e armazéns perto de sua casa no Brooklyn. Ela tinha
visto eles receberem suas entregas, de manhã cedo, enquanto ela estava caminhando
para a escola, visto os proprietários coreanos de comida abrirem suas portas de metal
fixadas na calçada do lado de fora, em frente a sua porta, então eles podiam carregar
as caixas de toalhas e de comida de gato em seu porão de estoque. "Aposto que as
portas estão no chão. Provavelmente enterradas embaixo de todo esse lixo."
Jace, um passo atrás dela, concordou. "Era isso o que eu estava pensando." Ele
suspirou. "Acho que seria melhor mover o lixo. Podemos começar com a lixeira." Ele
apontou para ela, parecendo distintamente não entusiasmado.
"Você preferia enfrentar uma horda de demônios vorazes, não é?" Clary disse.
"Pelo menos eles não estariam rastejando com os vermes. Bem," ele acrescentou
pensativamente, "não a maioria deles, de qualquer maneira. Havia este demônio,
uma vez, que eu segui debaixo dos esgotos do Grande Central..."
"Não." Clary levantou uma mão em alerta. "Eu realmente não estou de bom humor
no momento."
"Essa deve ser a primeira vez que uma garota diz não para mim," Jace meditou.
"Meta-se comigo e não será a última."
O canto da boca de Jace se contorceu. "Essa dificilmente é hora para brincadeiras.
Nós temos lixo para fuçar." Ele foi na ponta dos pés até a lixeira e pegou um lado
dela. "Você pega o outro. Nós vamos incliná-la."
"Virá-la vai fazer muito barulho," Clary argumentou, segurando sua ponta do outro
lado do enorme container. Era uma caçamba de lixo padrão da cidade, pintada em
verde escuro, marcada com estranhas manchas. É empesteada, ainda mais que a
maioria das lixeiras, de lixo e outra coisa, algo espesso e doce que enchia sua
garganta e fez ela querer vomitar. "Devemos empurrá-la."
"Agora, olha...," Jace começou, quando uma voz falou, subitamente, saindo das
sombras atrás deles.
"Vocês realmente estão pensando que deveriam estar fazendo isso?" aquilo
perguntou.
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Clary congelou, olhando para as sombras na boca do beco. Em um momento de
pânico ela perguntou se ela tinha imaginado a voz, mas Jace estava também
congelado, o espanto em seu rosto. Era raro alguém surpreendê-lo, raro que alguém
escapasse dele. Ele andou se afastando da lixeira, deslizando sua mão em direção a
sua cintura, sua voz plana.
"Tem alguém aí?"
"Dios mio."
A voz era masculina, divertida, falando um líquido espanhol. "Você não é desta
vizinhança, é?"
Ele pisou à frente, fora das pesadas sombras. A forma dele desenvolvendo-se
lentamente: um rapaz, pouco mais velho do que Jace e provavelmente 15
centímetros mais baixo. Ele era magro sem parecer os ossos, com os grandes olhos
escuros e pele cor de mel de uma pintura de Diego Rivera. Ele vestia calças pretas e
uma camisa branca aberta no pescoço, e uma corrente de ouro em volta do pescoço
que brilhava ligeiramente quando ele se moveu para mais perto da luz.
"Você poderia dizer isso," Jace disse cuidadosamente, não deslocando sua mão para
longe do seu cinto.
"Você não deveria estar aqui." O rapaz limpou para um lado os espessos cachos
negros que se derramavam sobre sua testa. "Este lugar é perigoso."
Ele quer dizer que essa é uma má vizinhança. Clary quase quis rir, mesmo que tudo
aquilo não fosse nada engraçado. "Nós sabemos," ela disse. "Nós só estamos um
pouco perdidos, isso é tudo."
O rapaz fez um gesto para a lixeira. "O que vocês estavam fazendo com isso?"
Não sou boa em mentiras rápidas, Clary pensou, e olhou para Jace, que ela esperava,
seria excelente nisso.
Ele decepcionou ela imediatamente. "Nós estávamos tentando entrar no hotel.
Pensávamos que poderia haver uma porta de porão por baixo da caçamba de lixo."
Os olhos do menino cresceram em descrença. "Puta Madre – por que você iria querer
fazer algo parecido com isso?"
Jace deu de ombros. "Para uma brincadeira, você sabe. Apenas por um pouco de
diversão."
"Vocês não entendem. Este lugar é mal assombrado, amaldiçoado. Má sorte." Ele
balançou a cabeça energicamente e disse várias coisas em espanhol que Clary
suspeitou que tinha a ver com a estupidez mostrada pelas crianças brancas em geral,
e a estupidez deles, em particular. "Vamos comigo, eu vou levá-los até o metrô."
"Sabemos onde é o metrô," Jace disse.
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O garoto riu um suave, e vibrante sorriso. "Claro. Claro que sim, mas se vocês vierem
comigo, ninguém vai incomodar vocês. Vocês não querem problemas, querem?"
"Isso depende," Jace disse, e se moveu para que o seu casaco ficasse ligeiramente
aberto, mostrando o brilho das armas atravessadas em seu cinto. "Quanto é que eles
estão te pagando para manter as pessoas longe do hotel?"
O rapaz olhou para atrás de Jace, os nervos de Clary vibraram enquanto ela
imaginava a entrada do beco estreito se enchendo de outras figuras sombrias, faces
brancas, bocas vermelhas, o brilho das presas tão repentino quanto metal soltando
faíscas no pavimento. Quando ele olhou de volta para Jace, sua boca era uma linha
fina. "Quanto é que você me paga, chico?"
"Os vampiros. Quanto é que eles estão pagando a você? Ou é outra coisa – eles te
disseram que vão tornar você um deles, ofereceram a você vida eterna, sem dor, sem
doença, você quer viver para sempre? Porque não vale a pena. A vida se estica por
muito tempo quando você nunca vê a luz do sol, Chico," Jace disse.
O rapaz estava inexpressivo. "Meu nome é Raphael. Não, Chico."
"Mas você sabe do que estamos falando. Você sabe sobre os vampiros?" Clary disse.
Raphael virou o rosto para o lado e cuspiu. Quando ele olhou atrás deles, seus olhos
estavam cheios de um reluzente ódio. "Los vampiros, sí, os bebedores de sangue
animal. Mesmo antes do hotel ser bloqueado, haviam estórias, o riso tarde da noite,
os pequenos animais desaparecendo, os sons..." Ele parou, balançando sua cabeça.
"Todo mundo no bairro sabe que tem que ficar longe, mas o que você pode fazer?
Você não pode ligar para polícia e dizer a eles que o seu problema são os vampiros."
"Você já viu eles?" Jace perguntou. "Ou você conhece alguém que viu?"
Raphael falou lentamente. "Havia alguns garotos, uma vez, um grupo de amigos. Eles
pensaram que era uma boa idéia, ir para dentro do hotel e matar os monstros no
interior. Eles levaram armas com eles, facas também, todas abençoadas por um
sacerdote. Eles nunca sairam. Minha tia, ela encontrou suas roupas mais tarde, em
frente da casa."
"Na casa de sua tia?" Jace disse.
"Sí. Um dos garotos era meu irmão," Raphael disse sem rodeios. "Então, agora você
sabe por que eu ando por aqui no meio da noite, às vezes, no caminho da minha casa
para a casa da minha tia, e por isso que eu alerto vocês. Se vocês entrarem lá
dentro, você não vão sair de novo."
"Meu amigo está lá dentro", Clary disse. "Nós viemos buscá-lo."
"Ah," disse Raphael, "então talvez eu não possa te prevenir para irem embora."
"Não," disse Jace. "Mas não se preocupe. O que aconteceu com seus amigos não vai
acontecer com a gente." Ele tirou uma das lâminas de anjo de sua cintura e a
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segurou, a fraca luz vinda dela iluminou as cavidades dos ossos de sua face,
sombreando os olhos dele. "Eu matei muitos vampiros antes. Seus corações não
batem, mas eles ainda podem morrer."
Raphael inalou bruscamente e disse algo em espanhol muito baixo e rápido para Clary
compreender. Ele veio em direção a eles, quase tropeçando sobre uma pilha de
plásticos amarrotados em sua pressa. "Eu sei o que você é – eu já tinha ouvido falar
sobre sua espécie, de um antigo padre em Santa Cecilia. Eu pensei que era apenas
uma história."
"Todas as histórias são verdadeiras," Clary disse, mas tão quietamente que ele não
pareceu ouvir ela. Ele estava olhando Jace, seus punhos trincados.
"Eu quero ir com você," ele disse.
Jace balançou a cabeça. "Não. Absolutamente não."
"Eu posso te mostrar como chegar lá dentro," Raphael disse.
Jace oscilou, a tentação clara em seu rosto. "Nós não podemos levar você."
"Ótimo." Raphael andou até ele e chutou para o lado um amontoado de lixo
empilhado contra um muro. Havia uma grade de metal lá, barras finas cobertas com
um revestimento vermelho acastanhado de ferrugem. Ele se ajoelhou, segurou as
barras, e levantou a grade do caminho. "Assim é como meu irmão e seus amigos
entraram. Ela desce até o porão, eu acho." Ele olhou acima para Jace e Clary se
juntou a ele. Clary mal podia segurar sua respiração, o cheiro do lixo era esmagador
e, mesmo na escuridão ela podia ver as formas em movimento das baratas
rastejando acima das pilhas.
Um fino sorriso tinha formado, apenas nos cantos da boca de Jace. Ele ainda estava
segurando a lâmina do anjo em sua mão. A luz de bruxa que veio dele emprestou a
seu rosto um molde espectral, lembrando a ela o jeito que Simon segurava uma
lanterna em seu queixo enquanto contava a ela histórias de terror, quando ambos
tinham onze. "Obrigado," disse a Raphael. "Isso vai servir muito bem."
O rosto do outro garoto estava pálido. "Você vai lá dentro e faz pelo seu amigo o que
eu não pude fazer pelo meu irmão."
Jace escorregou a lâmina serafim para trás em seu cinto e olhou para Clary. "Siga-
me," ele disse, e deslizou através da grade em um único movimento suave, os pés
primeiro. Ela segurou sua respiração, esperando por um grito de agonia ou espanto,
mas houve apenas um baque de aterrissagem suave dos pés em terra firme. "Está
tudo bem," ele chamou, sua voz abafada. "Pule e eu pego você."
Ela olhou para Raphael. "Obrigada por sua ajuda."
Ele não disse nada, apenas segurou suas mãos. Ela as usou para firmar a si mesma,
enquanto ela manobrava sua posição. Os dedos dele estavam frios. Ele a deixou ir
enquanto ela se desprendia e descia através da grade. Foi apenas um segundo de
queda e Jace segurou ela, seu vestido encolheu ao redor de suas coxas e as mãos
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dele roçaram suas pernas enquanto ela mergulhava em seus braços. Ele soltou ela
quase que imediatamente. "Você está bem?"
Ela puxou seu vestido para baixo, satisfeita por ele não poder vê-la no escuro. "Estou
bem."
Jace puxou a lâmina de anjo brilhando turvamente de sua cintura e a levantou,
deixando a sua crescente iluminação banhar sobre seus arredores. Eles estavam de
pé em uma superfície, um espaço de teto e debaixo com piso de concreto rachado.
Espaços de sujeira mostravam onde o piso estava quebrado, e Clary pode ver as
estrias pretas que tinham começado a se contorcer nas paredes. Uma passagem,
faltando a sua porta, aberta para outro quarto.
Um baque forte fez ela se sobressaltar, e ela se virou para ver Raphael aterrizando,
joelhos dobrados, a poucos metros dela. Ele os seguiu através da grade. Ele se
endireitou e sorriu maniacamente.
Jace parecia furioso. "Eu disse para você..."
"E eu te ouvi." Raphael acenou a mão desprezando. "O que você vai fazer sobre isso?
Eu não posso voltar da forma como entrei, e você não pode simplesmente me deixar
aqui para a morte me encontrar... ou pode?"
"Estou pensando nisso," Jace disse. Ele parecia cansado, Clary viu com alguma
surpresa, as sombras sob os olhos mais pronunciada.
Raphael apontou. "Temos de ir por aquele caminho, em direção à escada. Eles estão
lá em cima nos andares superiores do hotel. Você vai ver." Ele empurrou, passando
Jace e indo através da passagem estreita. Jace olhou para ele, balançando sua
cabeça.
"Estou realmente começando a odiar os mundanos," ele disse.
O piso inferior do hotel era uma colônia de corredores como labirintos que iam para
salas de armazenamento, uma lavandaria deserta, bolorentas pilhas de toalhas de
linho acumulavam em cima de cestas de vime – mesmo uma fantasmagórica cozinha,
com bancos de aço inoxidável e uma bancada se alongando para dentro das sombras.
A maioria dos degraus para subir tinham desaparecido; não apodrecendo mas
deliberadamente cortada em pedaços, reduzidos a pilhas de gravetos empurrados
contra a parede, pedaços do que uma vez foi um luxuoso tapete persa agarrava-se a
eles como flores cobertas pelo molde.
A falta de escadas confundiu Clary. O que os vampiros tinham contra as escadas?
Eles finalmente encontraram uma não danificada, enfiada atrás da lavanderia. Os
empregados devem ter usado ela para transportar as roupas de cama para cima e
para baixo das escadas, no tempo anterior aos elevadores. Uma poeira espessa
descansava sobre os degraus agora, como uma camada de neve empoeirada cinza,
que fez Clary tossir.
"Shh," assobiou Raphael. "Eles vão ouvi-la. Estamos perto de onde eles dormem."
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"Como você sabe?" ela sussurrou de volta. Ele nem sequer era supostamente para
estar lá. O que lhe dava o direito à sua palestra sobre o ruído?
"Eu posso sentir." O canto do seu olho estremeceu, e ela viu que ele estava tão
assustado quanto ela. "Você não?"
Ela balançou a cabeça dela. Ela não sentia nada, exceto o estranho frio; após o calor
sufocante da noite lá fora, o frio no interior do hotel, era intenso.
No topo das escadas havia uma porta sobre a qual estava pintada a palavra "Saguão"
que era pouco legível abaixo dos anos de sujeira acumulada. A porta gotejou
ferrugem quando Jace empurrou ela aberta. Clary abraçou a si mesma...
Mas a sala além estava vazia. Eles estavam em um grande saguão, o apodrecido
carpete rasgado mostrava as placas de piso despedaçadas abaixo. Houve uma vez
que a peça central desta sala havia sido uma grande escadaria, graciosamente
curvando, alinhando um corrimão coberto de dourado e ricamente acarpetado em
ouro e escarlate. Agora tudo o que restava eram os degraus mais elevados, se
levando para dentro da escuridão. O restante da escada terminava logo acima de
suas cabeças, suspensa no ar. A visão era tão surreal quanto uma das pinturas
abstratas Magritte que JoceIyn tinha amado. Esta é uma, Clary pensou, que poderia
ser chamada de escada para nenhum lugar.
A voz dela soou tão seca quanto a poeira que revestia tudo. "O que os vampiros têm
contra as escadas?"
"Nada," disse Jace. "Eles simplesmente não precisam de usá-las."
"É uma maneira de mostrar que este lugar é deles." Os olhos de Raphael estavam
brilhantes. Ele parecia quase animado. Jace olhou para ele de lado.
"Você alguma vez viu um vampiro, Raphael?" ele perguntou.
Raphael olhou para ele quase distraído. "Eu sei como eles se parecem. Eles são
pálidos, mais magros do que os seres humanos, mas muito fortes. Andam como
gatos e movem-se com a rapidez das serpentes. Eles são bonitos e terríveis. Como
este hotel."
"Você acha que isso é bonito?" Clary perguntou, surpresa.
"Você poderia ver como ele era, anos atrás. Como uma anciã, que foi uma vez linda,
mas o tempo tirou sua beleza. Você precisa imaginar esta escadaria da forma como
ela foi uma vez, com as lâmpadas a gás iluminando tudo acima e abaixo dos degraus,
como vagalumes no escuro, e os balcões cheios de pessoas. Não do jeito que é agora,
tão..." Ele interrompeu, em busca de uma palavra.
"Quebrado?" Jace sugeriu secamente.
Raphael olhou quase assustado, como se Jace tivesse interrompido ele de seu
devaneio. Ele riu tremulamente e se afastou.
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Clary se virou para Jace. "Onde eles estão afinal? Os vampiros, eu quero dizer."
"Lá em cima, provavelmente. Eles gostam de estar no alto quando eles dormem,
como os morcegos. E está quase amanhecendo."
Como fantoches com suas cabeças presas a cordas, ambos Clary e Raphael olharam
para cima ao mesmo tempo. Não havia nada acima deles, mas o teto de afrescos,
rachados e negros em alguns lugares como se tivesse sido queimado em um incêndio.
Uma passagem arqueada a sua esquerda levava mais adentro da escuridão; os
pilares em cada lado era gravado com motivos de folhas e flores. Quando Raphael
olhou de volta para baixo, uma cicatriz na base de sua garganta, muito branca contra
a sua pele marrom, cintilou como o piscar de um olho. Ela se perguntou como foi que
ele conseguiu ela.
"Eu acho que devemos voltar para a escada dos empregados," ela sussurrou. "Eu me
sinto muito exposta aqui."
Jace concordou. "Você percebe, que quando chegarmos lá, você vai ter que gritar por
Simon e esperar que ele possa ouvi-la?"
Ela se perguntou se o medo que ela sentia aparecia em seu rosto. "Eu..."
Suas palavras foram cortadas por um curto grito descomunal. Clary girou.
Raphael.
Ele se foi, sem marcas na poeira mostrando onde ele teria caminhado, ou sido
arrastado. Ela se aproximou de Jace, em reflexo, mas ele já estava em movimento,
correndo em direção ao arco escancarado na parede e até as sombras mais além. Ela
não podia vê-lo, mas seguiu o lampejo da luz de bruxa que ele carregava, como uma
viajante sendo conduzida no meio de um pântano por um traiçoeiro fogo fátuo.
Além do arco havia o que tinha sido um grande salão de baile. O arruinado chão era
de mármore branco, agora tão pessimamente quebrado que se assemelhava a um
mar de um ártico gelo flutuante. Balcões curvados corriam ao longo das paredes,
seus parapeitos cobertor por ferrugem. Espelhos emoldurados dourados estava
pendurados em intervalos entre eles, cada um ornando com uma cabeça dourada de
cupido. Teias de aranha eram levadas pelas correntes de ar úmido como antigos véus
de casamento.
Raphael estava em pé no centro da sala, os braços a seu lado. Clary correu até ele,
Jace seguiu mais lentamente atrás dela. "Você está bem?" ela perguntou sem fôlego.
Ele concordou lentamente. "Eu pensei ter visto um movimento nas sombras. Não era
nada."
"Nós decidimos voltar a escada de empregados," Jace disse. "Não há nada neste
andar."
Raphael acenou a cabeça. "Boa idéia."
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Ele foi a frente para a porta, não olhando para ver se eles o seguiam. Ele tinha dado
apenas alguns passos quando Jace disse, "Raphael?"
Rafael se virou, ampliando os olhos inquisitivamente, e Jace jogou sua faca.
O reflexos de Raphael foram rápidos, mas não rápidos o bastante. A lâmina acertou o
alvo, a força do impacto golpeando ele com força. Seus pés moveram-se para baixo,
e ele caiu pesadamente no chão de mármore rachado. Na turva luz de bruxa seu
sangue parecia preto.
"Jace."
Clary sibilou em descrença, o choque esmagando através dela. Ele tinha dito que
odiava os mundanos, mas ele nunca iria...
Quando ela se virou para ir até Raphael, Jace brutalmente a empurrou de lado. Ele
próprio se jogou sobre o outro garoto e agarrou a faca acertando o peito de Raphael.
Mas Raphael foi mais rápido. Ele segurou a faca, e então gritou quando a mão dele
entrou em contato com a cruz em forma de cabo. Esse fez barulho caindo no piso em
mármore, a lâmina manchada de preto. Jace tinha uma mão cerrada no material da
camisa de Raphael, a Sanvi na outra. Ela estava cintilando com uma luz brilhante que
Clary poderia ver as cores novamente: o azul royal do papel de parede se
descancando, as manchas de ouro no mármore no chão, a mancha vermelha difusa
no peito de Raphael.
Mas Rafael estava rindo. "Você perdeu," ele disse, e sorrindo pela primeira vez,
mostrando afiados incisivos brancos. "Você perdeu o meu coração."
Jace reforçou seu aperto. "Você se moveu no último minuto," disse. "Isso foi muito
imprudente."
Raphael de cara amarrada cuspiu, vermelho. Clary andou para trás, olhando em
crescente horror.
"Quando você descobriu?" Ele exigiu. Seu sotaque tinha sumido, suas palavras mais
precisas e juntas agora.
"Eu acho que no beco," Jace disse. "Mas eu pensei que você nos levando até o
interior do hotel, então se viraria contra nós. Uma vez que infringimos o limite,
estaríamos fora da proteção do Pacto. Jogo justo. Quando não, eu pensei que poderia
estar enganado. Então eu vi a cicatriz na sua garganta." Sentando um pouco para
trás, ainda mantendo a lâmina na garganta de Raphael. "Eu pensei que quando a vi
pela primeira vez, que sua corrente parecia do tipo que não reagiria a proximidade
de uma cruz. E o que você fez, não você, quando você saiu para ver a sua família? O
que é a cicatriz de uma pequena queimadura, quando seu tipo cicatriza tão rápido?"
Raphael riu. "Era só isso? Minha cicatriz?"
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"Quando você deixou o saguão, seus pés não deixaram marcas na poeira. Então eu
soube."
"Não foi o seu irmão que passou por aqui à procura de monstros e nunca saiu, não
é?" Clary disse, percebendo. "Foi você."
"Vocês são ambos muito inteligentes," disse Raphael. "Apesar de não serem
inteligentes o suficiente. Olhem para cima," ele disse, e levantou uma mão para o
ponto no teto.
Jace golpeou sua mão sem mover o seu olhar de Raphael. "Clary. O que você vê?"
Ela levantou a cabeça lentamente, o pavor coalhando no poço de seu estômago.
Você precisa imaginar esta escadaria da forma como ela foi uma vez, com as
lâmpadas a gás iluminando tudo acima e abaixo dos degraus, como vagalumes no
escuro, e os balcões cheios de pessoas.
Eles estavam cheios de pessoas agora, fileiras e fileiras de vampiros com suas faces
brancas de mortos, suas bocas vermelhas esticadas, fitando perplexos para baixo.
Jace ainda estava olhando para Raphael. "Você os chamou, não foi?"
Raphael ainda estava sorrindo. O sangue tinha parado de ser expelido da ferida em
seu peito. "Isso importa? Existem muitos deles, até mesmo para você, Wayland."
Jace não disse nada. Embora ele não tivesse se deslocado, ele estava respirando
curto e rápido, e Clary quase podia sentir a força do seu desejo de matar o garoto
vampiro, de enfiar a faca no seu coração, e limpar aquele largo sorriso do seu rosto
de sempre.
"Jace," ela disse advertindo. "Não o mate."
"Porque não?"
"Talvez possamos usá-lo como um refém."
Os olhos de Jace se ampliaram. "Um refém?"
Ela podia ver eles, muito deles, preenchendo a passagem arqueada, movimentando-
se tão silenciosamente quanto os Irmãos da Cidade do Osso. Mas os irmãos não
tinham a pele tão branca e incolor, nem as mãos que se curvavam em garras nas
pontas...
Clary lambeu seus lábios secos. "Sei o que estou fazendo. Segure-o a seus pés,
Jace."
Jace olhou para ela, então deu de ombros. "Tudo bem."
Raphael rebateu, "Isto não é engraçado."
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"É por isso que ninguém está rindo." Jace levantou Raphael o deixando ereto,
pressionando a ponta de sua faca entre as omoplatas de Raphael. "Eu posso furar o
seu coração tão facilmente através das suas costas," ele disse. "Eu não me moveria
se eu fosse você."
Clary se afastou deles, para enfrentar as formas escuras se aproximando. Ela elevou
uma mão. "Parem bem aí," ela disse. "Ou ele vai colocar essa lâmina através do
coração de Raphael."
Uma espécie de murmúrio correu através da multidão que poderia ser sussurros ou
risadas. "Pare," Clary disse novamente, e desta vez Jace fez alguma coisa, que ela
não viu o quê, que fez Raphael chorar surpreendido pela dor.
Um dos vampiros levantou um braço para segurar seus companheiros. Clary
reconheceu ele como o rapaz magro e loiro com o brinco que ela tinha visto na festa
de Magnus. "Ela quer dizer que," ele disse. "Eles são Caçadores de Sombras."
Outro vampiro empurrou seu caminho através da multidão para repousar ao seu lado,
uma linda garota asiática com cabelo azul em uma saia de prata drapeada. Clary se
perguntou se havia algum vampiro feio, ou talvez algum gordo. Talvez eles não
faziam vampiros de pessoas feias. Ou talvez pessoas feias simplesmente não
quisessem viver para sempre. "Caçadores de Sombras invadindo o nosso território,"
ela disse para ela. "Eles estão fora da proteção do Pacto. Eu digo para matar eles –
eles tem matado o suficiente da nossa espécie."
"Qual de vocês é o mestre deste lugar?" Jace disse, sua voz muito superficial. "Deixe
ele dar um passo a frente."
A garota expôs seus dentes afiados. "Não use a linguagem da Clave em nós, Caçador
de Sombras. Você quebrou o seu precioso Pacto, vindo até aqui. A lei não irá protegê-
lo."
"Isso é o suficiente, Lily," o garoto loiro disse acentuadamente. "A nossa mestre não
está aqui. Ela está em Idris."
"Alguém deve manter as regras em seu lugar," observou Jace.
Houve um silêncio. Os vampiros nas varandas estavam dependurados ao longo dos
parapeitos, inclinados para baixo para ouvir o que era dito. Finalmente, "Raphael nos
lidera," disse o vampiro loiro.
A garota de cabelo azul, Lily, deu um silvo de desaprovação. "Jacob."
"Eu proponho uma troca," Clary disse rapidamente, cortando o discurso de Lily e a
réplica de Jacob. "Mesmo agora vocês devem saber que vocês levaram para casa
algumas pessoas da festa esta noite. Uma delas era o meu amigo Simon."
Jacob levantou suas sobrancelhas. "Você é amiga de um vampiro?"
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"Ele não é um vampiro. E não é um Caçador de Sombras também," ela acrescentou,
vendo os olhos estreitos de Lily. "Apenas um simples humano."
"Nós não trouxemos para casa nenhum garoto humano da festa de Magnus. Isso teria
sido uma violação do Pacto."
"Ele tinha sido transformado em um rato. Um pequeno rato marrom," Clary disse.
"Alguém pode ter pensado que ele era um animal de estimação, ou..."
Sua voz falhando. Eles estavam olhando para ela como se ela estivesse louca. Um frio
desespero penetrou em seus ossos.
"Deixa ver se eu entendi," Lily disse. "Você está oferecendo a troca de Raphael pela
vida de um rato?"
Clary olhou de volta sem resposta para Jace. Ele deu um olhar que dizia, Esta idéia foi
sua. Você está por sua conta.
"Sim," ela disse, virando de volta para os vampiros. "Essa é a troca que estamos
oferecendo."
Eles olharam para ela, suas faces brancas quase inexpressivas. Em outro contexto
Clary teria dito que eles pareciam desconcertados.
Ela podia sentir Jace em pé atrás dela, ouvindo sua respiração irritada. Ela se
perguntou se ele estava procurando em seu cérebro tentando descobrir o porquê ela
deixou ele ser arrastado até aqui, em primeiro lugar. Ela se perguntou se ele estava
começando a odiar ela.
"Você quer dizer este rato?"
Clary piscou. Outro vampiro, um rapaz magro com tranças pretas, tinha empurrado
seu caminho para a frente da multidão. Ele estava segurando algo em suas mãos,
algo marrom que contorcia-se com delicadeza. "Simon?" ela sussurrou.
O rato guinchou e começou a se rebater selvagemente no aperto do garoto. Ele olhou
para baixo no cativeiro do roedor com uma expressão de desagrado. "Cara, eu pensei
que ele era Zeke. Eu estava me perguntando o porquê dele estar se esquivando com
tanta atitude." Ele balançou a cabeça, suas tranças balançando. "Cara, eu digo que
ela pode pegar ele. Ele já me mordeu umas cinco vezes."
Clary se aproximou de Simon, suas mãos ansiosas para abraçá-lo. Mas Lily deu um
passo a frente dela antes que ela pudesse dar mais um passo em sua direção.
"Espere," Lily disse. "Como saberemos que você não vai simplesmente pegar o rato e
matar Raphael afinal?"
"Nós vamos dar a nossa palavra," Clary disse imediatamente, então ficou tensa,
esperando que eles rissem.
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Ninguém riu. Raphael xingou suavemente em espanhol. Lily olhou curiosamente para
Jace.
"Clary," ele disse. Havia ali corrente desespero exasperado oculto em sua voz. “Isso
é realmente um... "
"Sem juramento, sem troca," Lily disse imediatamente, apreensão em seu tom
incerto. "Elliott, segure o rato."
O garoto com tranças reforçou o seu controle sobre Simon, que afundou os dentes
selvagemente na mão de Elliott. "Cara," ele disse com mal humor. "Isso dói."
Clary aproveitou a oportunidade para sussurrar para Jace. "Só jure! Isso não vai
machucar?"
"Juramento para nós não é como para vocês mundanos," ele respondeu de volta com
raiva. "Eu sempre vou estar preso a qualquer juramento que eu faça."
"Ah, é? O que aconteceria se você quebrasse ele?"
"Eu não iria quebrá-lo, esse é o ponto..."
"Lily está certa," disse Jacob. "Um juramento é exigido. Jure que não vai machucar
Raphael. Mesmo quando nós dermos o rato de volta."
"Não vou machucar Raphael," Clary disse imediatamente. "Não importa o quê."
Lily sorriu para ela tolerantemente. "Não é com você que estamos preocupados." Ela
apontou um tiro de olhar para Jace, que estava segurando Raphael tão
apertadamente que os nós de seus dedos estavam brancos. Uma mancha de suor
escureceu o pano de sua camisa, entre seus ombros.
Ele disse, "Tudo bem. Eu vou jurar."
"Fale o juramento," Lily disse rapidamente. "Jure sobre o Anjo. Diga tudo."
Jace balançou a cabeça. "Você jura primeiro."
Suas palavras caíram em silêncio como pedras, enviando uma onda de murmúrios
através da multidão. Jacob pareceu preocupado; Lily furiosa. "Sem chance, Caçador
de Sombras."
"Temos o seu líder." A ponta da faca de Jace escavou mais fundo a garganta de
Raphael. "E o que você tem aí? Um rato."
Simon, preso nas mãos de Elliott, guinchou furiosamente. Clary desejou poder tentar
agarrá-lo, mas se segurou a si mesma. "Jace..."
Lily olhou para Raphael. "Mestre?"
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Raphael tinha sua cabeça inclinada para baixo, seus cachos escuros caidos escondiam
seu rosto. Sangue corava o colarinho de sua camisa, escorrendo por baixo de sua nua
pele marrom. "Um rato muito importante," ele disse, "para você vir aqui por todo
esse caminho para ele. É você, Caçador de Sombras, eu penso, que irá jurar
primeiro."
A contenção de Jace sobre ele apertando convulsivamente. Clary viu o aperto da
musculatura sob a pele, o branqueamento de seus dedos e nas laterais da boca dele
enquanto ele lutava com sua raiva.
"O rato é um mundano," ele disse abruptamente. "Se você matar ele, você estará
sujeito à Lei..."
"Ele está no nosso território. Invasores não são protegidos pelo Pacto, você sabe
que..."
"Vocês o trouxeram para cá," Clary interrompeu. "Ele não invadiu."
"Tecnicamente," Rafael disse, sorrindo para ela, não obstante a faca na garganta
dele. "Além disso. Você acha que nós não ouvimos os rumores, a notícia que está
correndo através do Downworld, como sangue através das veias? Valentine está de
volta. Não haverá nenhum Acordo e nenhum Pacto em breve."
Jace sacudiu sua cabeça acima. "Onde você ouviu isso?"
Raphael franziu as sobrancelhas com desdém. "Todo Downworld sabe. Ele pagou um
bruxo para levantar um bando de Raveners apenas uma semana atrás. Ele enviou
seus Esquecidos para procurar a Taça Mortal. Quando ele encontrá-la, não haverá
mais a falsa paz entre nós, só a guerra. Nenhuma Lei me impedirá de jogar o seu
coração lá fora nas rua, Caçador de Sombras..."
Isso foi o suficiente para Clary. Ela pulou em cima de Simon, jogando Lily de lado, e
arrebatou o rato para fora das mãos de Elliott. Simon subiu em seu braço, agarrando-
se em sua manga com patas frenéticas.
"Está tudo ok," ela sussurrou, "Está tudo ok." Embora ela soubesse que não. Ela se
virou para correr, e sentiu mãos segurando sua jaqueta, prendendo ela. Ela lutou,
mas seus esforços para se libertar, livre das mãos que a seguravam – Lily, estreitas e
ósseas com unhas pretas, estava a atrasando em seu medo de desalojar Simon, que
aderia à sua jaqueta com patas e dentes. "Me solte!" ela gritou, chutando a garota
vampiro. Ela chutou o dedo do pé dela, forte, e Lily gritou com dor e raiva. Ela moveu
sua mão com rapidez a frente, acertando Clary na bochecha com força suficiente para
jogar a cabeça dela para trás.
Clary oscilou e quase caiu. Ela ouviu Jace gritar seu nome, e se virou para ver que ele
tinha largado Raphael e estava correndo na direção dela. Clary tentou ir para ele,
mas seus ombros foram agarrados por Jacob, seus dedos cavando em sua pele.
Clary gritou, o som se perdeu no ruído do grito elevado de Jace, apanhando um dos
frascos de vidro de sua jaqueta, e jogando o seu conteúdo na direção dela. Ela sentiu
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o úmido frio respingar em seu rosto, e ouviu Jacob gritar quando a água tocou sua
pele. Fumaça subiu de seus dedos e ele libertou Clary, uivando como um grande
animal. Lily se arremessou sobre ele, chamando o seu nome e, no tumulto, Clary
sentiu alguém agarrar seu pulso. Ela lutou para manter a distância.
"Pare sua idiota, sou eu," Jace ofegou em sua orelha.
"Oh!" Ela relaxou momentaneamente, em seguida, ficou tensa novamente, vendo
uma familiar forma surgir atrás Jace. Ela gritou e Jace mergulhou e se virou apenas
quando Raphael saltou em cima dele, dentes à mostra, rápido como um gato. Seus
dentes pegaram a camisa de Jace perto do ombro e rasgou o tecido
longitudinalmente enquanto Jace ficava chocado. Raphael se agarrou como um aperto
de uma aranha, os dentes próximos à garganta de Jace. Clary tateou em sua mochila
pela adaga que Jace lhe deu...
Uma pequena forma marrom cruzou o chão, acertando os pés de Clary, e lançando-se
sobre Raphael.
Raphael gritou. Simon se pendurou violentamente no seu antebraço, os seus
acentuados dentes de rato afundaram profundamente na carne. Raphael largou Jace,
debatendo-se para trás, sangue esguinchava enquanto um fluxo de obscenidades em
espanhol vertiam de sua boca.
Jace interrompeu, sua boca aberta. "Filho da..."
Recuperando seu equilíbrio, Raphael arrancou o rato libertando seu braço e o lançou
no chão em mármore. Simon guinchou uma vez com dor e, então foi para Clary. Ela
se abaixou e o arrebatou, segurando ele contra o peito dela tão apertado quanto ela
poderia, sem machucar ele. Ela poderia sentir o ritmo do seu minúsculo batimento
cardíaco contra seus dedos. "Simon," ela sussurrou. "Simon..."
"Não há tempo para isso. Segure ele." Jace tinha segurado ela pelo seu braço direito,
pressionando com uma força dolorosa. Na outra mão ele segurava uma reluzente
lâmina serafim. "Ande."
Ele começou meio que empurrando e puxando ela até o canto da multidão. Os
vampiros piscaram se afastando da luz da lâmina serafim que se arremessava sobre
eles, todos eles sibilaram como gatos escaldados.
"Chega de ficar ao redor deles!" Era Raphael. O braço dele estava fluindo sangue, os
lábios curvados sobre seus incisores afiados. Ele olhou para a apinhada massa de
vampiros rondando em confusão. "Ataquem os invasores," ele gritou. "Matem eles, o
rato também!"
Os vampiros começaram a irem em direção deJace e Clary, alguns deles
caminhando, outros deslizando, outros se lançando das varandas acima como
oscilantes morcegos preto. Jace aumentou seu passo enquanto eles se livravam do
grupo, indo em direção à parede mais distante. Clary se contorceu, girando em volta
para olhar para ele. "Nós não deveríamos ir mais e mais para trás, ou algo assim?"
"O que? Por que?”
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"Eu não sei. No cinema é o que eles fazem neste tipo de situação...".
Ela sentiu ele estremecer. Ele estava assustado? Não, ele estava rindo. "Você," ele
respirou. "Você é a mais..."
"A mais o quê?" ela exigiu indignadamente. Eles ainda estavam se apoiando, andando
cuidadosamente para evitar os pedaços de móveis quebrados e os pedaços de
mármore que descansavam sobre o piso. Jace levantou a lâmina do anjo acima das
suas cabeças. Ela podia ver a forma como os vampiros circulavam ao redor das
bordas do brilhante círculo que se lançava. Ela se perguntou por quanto tempo aquilo
os manteria fora.
"Nada," ele disse. "Esta não é uma situação, ok? Eu guardei esta palavra para
quando as coisas estão realmente ruins."
"Realmente ruim? Isto não é realmente ruim? O que você quer, uma bomba nuclear...
"
Ela rompeu com um grito quando Lily, desafiando a luz, se lançou em Jace, dentes a
mostra em um rosnar insensível. Jace puxou a segunda lâmina do seu cinto e a
lançou através do ar; Lily gritando alto caiu para trás, um longo corte profundo
fritando seu braço. Enquanto ela cambaleava, os outros vampiros adiantaram-se ao
seu redor. Havia tantos deles, Clary pensou, tantos...
Ela tateou no seu cinto, fechando os dedos em torno do cabo da adaga. Ela sentia fria
e diferente, em sua mão. Ela não sabia como usar uma faca. Ela nunca bateu em
ninguém, muito menos, esfaqueou. Ela mesmo escapou da aula de ginástica no dia
em que eles ensinaram como repelir ladrões e estupradores com objetos comuns
como chaves de carro e lápis. Ela puxou a adaga a libertando, a levantou com uma
mão trêmula...
As janelas explodiram para dentro em um chuveiro de vidros quebrados. Ela se ouviu
gritar, viu os vampiros – a apenas um braço de distância dela e de Jace – girando
atônitos, o choque confundindo com o terror em seus rostos. Através das janelas
destroçadas vieram dezenas de formas lustrosas, quadrúpedes e mais próximas ao
chão, suas peles de animal espalhando a luz da lua e pedaços de vidro quebrado.
Seus olhos eram azuis como o azul do fogo, e a partir de suas gargantas veio um
combinado rosnar baixo que soou como um agitar da queda de uma cachoeira.
Lobisomens.
"Agora isso," Jace disse, "esta é uma situação."
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