quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Série Instrumentos Mortais - Cidade dos Ossos

Declínio escuro

1 - PANDEMONIUM


"Você deve que estar brincando comigo," disse o porteiro, dobrando seus braços em
torno de seu enorme peito. Ele olhou para o garoto numa jaqueta vermelha de zíper e
esfregou sua cabeça raspada.
"Você não pode trazer isso para cá."
Os cinquenta ou mais adolescentes na fila do lado de fora do Clube Pandemonium se
inclinaram em direção para escutar. Era uma longa espera para entrar no clube de
todas as idades, especialmente em um domingo, e não muito geralmente acontecia
em fila. Os porteiros eram ferozes e iam para cima instantaneamente de qualquer um
que parecia que iria começar uma encrenca. Clary Fray de quinze anos estava em pé
na fila com o seu melhor amigo, Simon, inclinado em direção junto como todo
mundo, esperando por alguma coisa excitante.
“Ah, vamos lá.” O garoto elevou a coisa acima de sua cabeça. Era parecido com uma
trave de madeira, apontada no fim. “Isso é parte da minha fantasia.”
O porteiro levantou uma sobrancelha: “Qual é?”
O garoto sorriu. Ele parecia suficientemente normal.Clary pensou, para o
Pandemonium. Ele tinha cabelo pintado num azul elétrico, preso ao redor de sua
cabeça como os tentáculos saindo de um polvo, sem nenhuma elaborada tatuagem
facial ou grandes barras de metal atravessando suas orelhas ou lábios.
“Eu sou um caçador de vampiros.” Ele empurrou para baixo sua coisa de madeira.
Aquilo flexionou tão facilmente quanto uma haste de grama curvando nos lados. “É
falso. Espuma de borracha. Tá vendo?”
Os enormes olhos do menino estavam muito brilhantes com o verde. Clary notou:
uma cor anticongelante, grama de primavera.Lentes de contato coloridas,
provavelmente. O porteiro encolheu os ombros, abruptamente entediado. “Tanto faz,
entre.”
O menino deslizou passando por ele, rápido quanto uma enguia. Clary gostou do
ritmo dos seus ombros, o jeito como ele arremessou seus cabelos enquanto ele
entrava. Havia uma palavra para ele que sua mãe teria usado – negligente.
“Você pensou que ele era uma graça,” Simon disse, soando resignado. “Não pensou?”
Clary empurrou seu cotovelo nas costelas dele, mas não respondeu.

Lá dentro, o clube estava cheio de fumaça de gelo seco. Luzes coloridas tocavam a
pista de dança, tornando ela um multicolorido reino folclórico com azuis e verdes
ácidos, quentes rosas e dourados.
O garoto de jaqueta vermelha movimentou a longa espada afiada como uma lâmina
em suas mãos, um despreocupado sorriso brincando em seus lábios. Aquilo havia sido
tão fácil - um pouquinho de glamour na sua lâmina, para torná-la inofensiva. Outro
glamour em seus olhos, e no momento que o porteiro olhou direto para ele, ele
estava dentro. É claro, ele podia provavelmente ter entrado sem todo aquele
problema, mas essa era a parte engraçada – enganar os mundanos, fazendo tudo em
aberto bem na frente deles, saindo em seus olhares brancos em suas caras de
ovelhas.
Não que os humanos não tinham em seus costumes. O garoto de olhos verdes
escaneou a pista de dança, onde fracos membros cobertos em pedaços de seda e
couro preto apareciam e desapareciam dentro das revolventes colunas de fumaça
onde os mundanos dançavam. Garotas jogavam seus cabelos, garotos balançavam
seus quadris cobertos por couro e a pele desnuda brilhando com o suor. Apenas
vitalidade se derramava deles, ondas de energia daquilo, o preenchiam como um
bêbado entorpecido. Seus lábios se curvaram. Eles não sabiam o quanto eles tinham
sorte. Eles não sabiam que aquilo era como suprir vida em um mundo morto, onde o
sol pairava sem energia no céu como uma brasa queimada. Suas vidas se consumiam
brilhantemente como velas em chamas – e eram tão fáceis de se extinguir.
Sua mão apertou na lâmina que ele carregava, e ele começou a andar para dentro da
pista de dança quando uma garota barrou seu caminho na massa de dançarinos e
começou a andar em direção a ele. Ele encarou ela. Ela era bonita, para uma humana
de cabelo comprido proximamente da cor de tinta negra, olhos desenhados à lápis.
Um longo vestido branco, do tipo que as mulheres costumavam usar quando este
mundo era jovem. Mangas rendadas tocavam ao redor de seus braços esbeltos. Ao
redor do seu pescoço estava uma grossa corrente de prata, o que segurava um
pingente vermelho escuro do tamanho de um punho de um bebê. Sua boca começou
a se encher de água quando ela se aproximou dele. Energia vital pulsava dela como
sangue numa ferida aberta. Ela sorriu, passando por ele, acenando com seus olhos.
Ele se virou para segui-la, sentindo o chiar do fantasma da morte dela em seus
lábios.
Aquilo era sempre fácil. Ele já podia sentir o poder da sua evaporante vida correndo
através de suas veias como fogo. Humanos eram tão estúpidos. Eles tinham algo tão
precioso, e eles meramente o protegiam.
Eles jogavam fora suas vidas por dinheiro, por pacotes de pó, por um estranho com
um sorriso encantador. A garota era um fantasma pálido recuando através da fumaça
colorida. Ela atingiu o muro e virou, juntando sua saia em suas mãos, levantando-a
como se ela sorrisse para ele. Debaixo da saia, ela estava usando botas de cano
longo.
Ele se juntou a ela, a pele dela se arrepiou com sua proximidade. De perto ela não
era tão perfeita: Ele podia ver o rímel sobre os olhos dela, o suor grudando em seu
cabelo na nuca. Ele podia sentir o cheiro da mortalidade dela, o doce da corrupção.
Te peguei, ele pensou.

Um sorriso frio curvou seus lábios. Ela se moveu para o lado, e ele podia ver que ela
estava se inclinando contra uma porta fechada, NÃO ENTRE – DEPÓSITO estava
escrito em tinta vermelha. Ela alcançou atrás dela a maçaneta, virando-a,
escorregando para dentro. Ele pegou um vislumbre de caixas empilhadas, a fiação
emaranhada. Uma sala de depósito. Ele olhou atrás dele, ninguém estava olhando.
Era muito melhor se ela queria privacidade.
Ele escorregou para a sala depois dela, desconhecendo que ele estava sendo seguido.

“Então,” Simon disse, “música muito boa, heim?”
Clary não respondeu. Eles estavam dançando, ou passando por isso, um monte de
remexidas para frente e para trás com ocasionais balanços em direção ao chão,
como se um deles tivesse derrubado uma lente de contato – em um espaço entre um
grupo de garotos adolescentes em espartilhos metálicos, e um jovem casal asiático
que estavam se agarrando cheios de paixão, seus extensos cabelos coloridos
emaranhados juntos como uma trepadeira. Um garoto com um piercing no lábio e
uma mochila de Teddy o urso, estava segurando livre tabletes de erva de ecstasy,
suas calças de paraquedista se agitando na brisa vinda da máquina de vento. Clary
não estava prestando muita atenção no seu ambiente imediato – seus olhos estavam
no garoto de cabelo azul que tinha falado sobre ele na entrada do clube. Ele estava
rondando através da multidão como se ele estivesse procurando por alguma coisa.
Tinha alguma coisa sobre o jeito como ele se movia que lembrava ela de algo...
“Eu, por um lado,” Simon começou, “estou aproveitando imensamente.”
Isso parecia improvável. Simon, como sempre, ficava preso fora do clube como uma
ferida no polegar, em seus jeans e na velha camiseta onde se dizia Feita no Brooklin
em toda a frente. Seus cabelos recentemente lavados eram castanhos escuros ao
contrário de verde ou rosa, e seus óculos ficavam curvadamente empoleirados no fim
de seu nariz. Ele parecia menos como se ele estivesse contemplando os poderes das
trevas e mais como se ele estivesse a caminho do clube de xadrez.
“Mmmm-hmmm.” Clary sabia perfeitamente bem que ele vinha para o Pandemonium
com ela só porque ela gostava disso, e que ele achava que era chato. Ela não tinha
certeza do porquê aquilo era o que ela gostava – as roupas, a música faziam aquilo
como um sonho, a vida de outra pessoa, não sua real vida chata de jeito nenhum.
Mas ela era sempre tão tímida para falar com alguém além de Simon.
O garoto de cabelo azul estava fazendo seu caminho fora da pista de dança. Ele
parecia um pouco perdido, como se ele não tivesse encontrado quem ele estava
procurando. Clary se perguntou o que poderia acontecer se ela aparecesse e se
apresentasse oferecendo mostrar a ele ao redor. Talvez ele apenas olhasse para ela.
Ou talvez ele fosse tímido também. Talvez ele se sentiria grato e contente, e tentasse
não demonstrar isso, o jeito como os garotos faziam – mas ela saberia. Talvez...
O garoto de cabelo azul se endireitou de repente, virando sua atenção, como um cão
de caça no alvo. Clary seguiu a linha do seu olhar, e viu a garota no vestido branco.
Oh, bem.
Clary pensou, tentando não se sentir como um murcho balão de festa. Acho que é
isso. A garota era linda, o tipo de garota que gostaria de ser – alta e esbelta – com

um longo cabelo preto escorrido. Mesmo daquela distância Clary podia ver o pingente
vermelho ao redor do pescoço dela. Aquilo pulsava embaixo das luzes da pista de
dança como um coração separado, fora do corpo.
“Eu acho,” Simon continuou, “que nesta noite o DJ Bat está fazendo um trabalho
singularmente excepcional. Você não concorda?”
Clary rolou os olhos e não respondeu, Simon odiava música trance 1. Sua atenção
estava na garota no vestido branco. Através da escuridão, fumaça, e neblina artificial,
seu pálido vestido brilhava como um farol. Não era à toa que o garoto de cabelo azul
estava seguindo ela como se ele estivesse sob um feitiço, tão distraído que não
notava nada ao redor dele. Mesmo as duas rígidas formas escuras em seus
calcanhares, avançando depois dele através da multidão.
Clary diminuiu sua dança e olhou. Ela podia apenas ver que aquelas duas formas
eram garotos, altos e vestindo roupas pretas. Ela não podia dizer como ela sabia que
eles estavam seguindo o outro garoto, mas ela sabia. Ela podia ver o caminho que
eles traçavam por ele, sua cuidadosa vigilância, a furtiva graça de seus movimentos.
Uma pequena flor de apreensão começou a se abrir dentro do seu peito.
"Entretanto," Simon acrescentou, "eu queria te dizer que ultimamente tenho me
travestindo. Também, eu estou dormindo com sua mãe. Eu achei que você deveria
saber."
A garota tinha chegado a parede, e estava abrindo a porta escrita NÃO ENTRE. Ela
acenou para o rapaz de cabelo azul atrás dela, e eles deslizaram pela porta. Isso não
era nada que Clary já não tenha visto antes, um casal escapando para os cantos
escuros do clube para transar – mas o que fazia aquilo estranho era que eles estavam
sendo seguidos.
Ela se levantou a si mesma nas pontas dos pés, tentando ver através da multidão. Os
dois caras tinham parado na porta e pareciam estar deliberando um com o outro. Um
deles era loiro, o outro tinha cabelo escuro. O loiro encontrou alguma coisa em sua
jaqueta e puxou a coisa longa e afiada que reluziu embaixo das fortes luzes. Uma
faca.
“Simon!” Clary gritou, e prendeu seu braço.
“O que?” Simon olhou alarmado. “Eu realmente não estou dormindo com sua mãe,
você sabe. Eu estava apenas tentando chamar sua atenção. Não que a sua mãe não
seja uma mulher muito atraente, para a idade dela.”
“Você está vendo aqueles caras?” Ela apontou selvagemente, quase acertando uma
curvilínea garota negra que estava dançando mais próximo. A garota encarou ela
com um olhar maldoso.
“Desculpe, desculpe!” Clary virou-se de volta a Simon.
“Você não está vendo aqueles dois caras, lá? Na porta?”
Simon deu uma olhada, então balançou os ombros. “Eu não estou vendo nada.”
“Há dois deles. Eles estavam seguindo o cara com o cabelo azul...”
1
Tipo de música eletrônica.

“Aquele que você achou que era fofo?”
“Sim, mas esse não é o ponto. O loiro puxou uma faca.”
“Você tem certeza?” Simon olhou mais apurado, balançando sua cabeça. “Eu ainda
não vejo ninguém.”
“Eu tenho certeza.”
De repente todo negócios, Simon endireitou seus ombros. “Eu vou chamar um dos
guardas da segurança. Você fica aqui.” Ele avançou pelo caminho, se empurrando
através da multidão.
Clary se voltou no momento em que viu o garoto loiro entrar pela porta de NÃO
ENTRE, seu amigo perto de seus calcanhares. Ela olhou ao redor; Simon ainda estava
tentando empurrar seu caminho através da pista de dança, mas ele não estava
fazendo muito progresso. Mesmo se ela gritasse agora, ninguém iria ouví-la, e até
que Simon voltasse, algo terrível poderia já ter acontecido. Mordendo forte seu lábio
de baixo. Clary começou a se movimentar através das pessoas.

“Qual é o seu nome?”
Ela se virou e sorriu. Tinha uma suave luz que estava na sala de depósito se
derramando através das altas janelas manchadas com sujeira; pilhas de cabos
elétricos, ao longo com pedaços de bolas de discoteca quebradas e latas de tinta
descartadas em desordem no chão.
“Isabelle.”
“Esse é um nome legal.” Ele andou em direção a ela, passando cuidadosamente entre
os fios, no caso de algum deles estar ligado. Na tênue luz ela pareceu meio
transparente, branqueada de cor, envolvida em branco como um anjo. Seria um
prazer fazer ela cair... “Eu não te vi por aqui antes.”
“Você está me perguntando se eu venho aqui com freqüência.” Ela sorriu, cobrindo
seu sorriso com sua mão. Havia uma espécie de pulseira em torno de seu pulso, logo
abaixo da manga do vestido dela, então, quando ele se aproximou dela, ele viu que
não era uma pulseira, mas um padrão de pintura na sua pele, uma matriz de linhas
espiraladas.
Ele congelou. “Você...”
Ele não terminou. Ela se moveu com uma rapidez relâmpago, atingindo-o com sua
mão aberta, um golpe em seu peito que teria levado ele ao chão arfando, se ele fosse
um humano. Ele cambaleou para trás, e agora tinha alguma coisa em sua mão, um
chicote enrolado que brilhava dourado, que ela jogou para baixo, curvando sobre
seus tornozelos, vibrando ele em seus pés. Ele acertou o chão, encurvado, o odioso
metal mordendo profundo dentro de sua pele. Ela ria, parada acima dele, e
tontamente ele pensou que ele deveria ter adivinhado. Nenhuma garota humana
usaria um vestido como aquele que Isabelle usava. Ela o usaria para cobrir sua pele –
toda sua pele.
Isabelle sacudiu com força o seu chicote, segurando-o. Seu sorriso brilhava como
água envenenada. “Ele é todo seu, garotos.”


Uma risada baixa soou atrás dele, e agora suas mãos estavam nele levantando-o
para cima e o arremessando contra os pilares de concreto. Ele podia sentir a úmida
pedra contra suas costas. Suas mãos foram puxadas para atrás dele, seus pulsos
presos com fio. Quando ele lutou, alguém andou em volta do pilar para dentro de seu
campo de visão: um garoto, tão jovem quanto Isabelle e também muito bonito. Seus
olhos ocre brilhavam como fichas de âmbar.
“Então,” o garoto disse. “Existe mais alguma coisa com você.”
O garoto de cabelo azul podia sentir o sangue brotando debaixo do apertado
metálico, fazendo seus pulsos escorregadios.
“Que outra coisa?”
“Agora vamos lá.” O garoto de olhos cobre segurou suas mãos, e suas mangas
escuras escorregaram para baixo, mostrando as runas pintadas sob seus pulsos, as
costas das suas mãos, suas palmas. “Você sabe o que eu sou.”
Lá no fundo dentro de seu crânio, a mandíbula do garoto algemado começou a
ranger.
"Caçador de sombras," ele assobiou.
O outro rapaz abriu um sorriso sobre todo seu rosto. "Te peguei," ele disse.

Clary empurrou a porta da sala do depósito aberta, e andou para dentro. Por um
momento ela pensou que estava deserta. As únicas janelas estavam no alto e
trancadas; um ruído indistinto vinha através delas, o som de buzinas de carros e
freios guinchando. A sala cheirava como tinta velha, e uma pesada camada de poeira
cobria o chão, marcado por manchas de impressões de sapatos.
Não tem ninguém aqui, ela percebeu olhando ao redor desnorteada. Estava frio
naquela sala, apesar do calor de agosto lá fora. Suas costas estavam geladas com o
suor. Ela deu um passo para frente, emaranhando seus pés nos cabos elétricos. Ela
se curvou para baixo para libertar seu tênis dos cabos – e ouviu vozes. Uma risada de
garota, um rapaz respondendo aguçadamente. Então ela foi direto para cima, quando
ela os viu.
Era como se eles tivessem sustentado suas existências entre um piscar de olhos dela
para o outro. Ali estava a garota com seu longo vestido branco, seus cabelos pretos
caindo em suas costas como úmida alga marinha. Dois garotos estavam com ela –
um alto com cabelo preto como o dela, e um menor, belo, cujo cabelo lampejava
como metal na fraca luz que vinha através das janelas acima. O garoto bonito estava
parado com suas mãos em seus bolsos, enfrentando o garoto punk, que estava
amarrado ao pilar com o que parecia um fio de piano, as mãos esticadas atrás dele,
as pernas presas nos tornozelos. Seu rosto estava repuxado com dor e medo.
Com o coração martelando no seu peito, Clary se escondeu atrás do pilar de concreto
mais próximo e espiou em torno dele. Ela assistiu o rapaz loiro andando para frente e
para trás, seus braços agora cruzados sobre o seu peito. "Então," ele disse. "Você
ainda não me disse se aqui tem outro de sua espécie com você."

Sua espécie?
Clary se perguntou do que ele estava falando. Talvez ela tenha tropeçado dentro de
algum tipo de guerra de gangues.
“Eu não sei do que você está falando.” O tom do garoto de cabelo azul era doloroso,
mas mal-humorado.
“Ele quer dizer outros demônios,” disse o garoto de cabelo escuro, falando pela
primeira vez. “Você sabe o que é um demônio, não sabe?”
O garoto amarrado no pilar virou seu rosto para longe, sua boca trabalhando.
“Demônios,” desenhou o rapaz loiro, traçando a palavra no ar com seu dedo.
"Religiosamente definidos como habitantes do inferno, os servos de Satanás, mas
entendido aqui, para os propósitos da Clave, por ser qualquer espírito malévolo cuja
origem está fora de nossa própria casa dimensão..."
“Já chega, Jace,” a garota disse.
“Isabelle está certa,” concordou o garoto mais alto. “Ninguém aqui precisa de uma
lição de semântica ou de demônologia.”
Eles são loucos, Clary pensou. Realmente loucos.
Jace levantou sua cabeça e sorriu. Havia alguma coisa de selvagem sobre aquele
gesto, algo que lembrava Clary nos documentários que ela havia assistido sobre leões
no Discovery Channel, o modo como aqueles grandes gatos levantavam suas cabeças
e cheiravam o ar pela presa.
“Isabelle e Alec pensam que eu falo muito,” ele disse, confidentemente. “Você acha
que eu falo muito também?”
O garoto de cabelo azul não respondeu. Sua boca ainda estava trabalhando. “Eu
posso dar a você uma informação,” ele disse, “Eu sei onde Valentine está.”
Jace olhou de volta para Alec, que encolheu os ombros.
“Valentine está enterrado,” Jace disse. “Esta coisa está apenas brincando conosco.”
Isabelle jogou seu cabelo. “Mate ele, Jace,” ela disse. “Isso não vai nos dizer nada.”
Jace levantou sua mão, e Clary viu uma clara luz brilhar da faca que ele estava
segurando. Aquilo era estranhamente translúcido, a lâmina clara como cristal, afiada
como caco de vidro, o cabo fixado com pedras vermelhas.
O garoto preso ofegou. “Valentine está de volta!” ele protestou arrastando os laços
que prendiam suas mãos atrás de suas costas. “Todo o Mundo Infernal sabe disso –
eu sei disso – eu posso dizer a vocês onde ele está...”
Raiva subitamente flutuou nos olhos gelados de Jace. “Pelo Anjo, cada vez que nós
capturamos um de vocês bastardos, vocês alegam saber onde Valentine está. Bem,
nós todos sabemos onde ele está também. Ele está no inferno. E você...” Jace virou a
faca em sua mão, a ponta brilhando como uma linha de fogo. “Você pode se juntar a
ele lá.”

Clary não pode mais se segurar. Ela andou para fora do pilar. “Pare!” ela chorou.
“Você não pode fazer isso.”
Jace girou, tão assustado que a faca voou de sua mão caindo contra o piso de
concreto. Isabelle e Alec juntamente se viraram como ele, usando idênticas
expressões de espanto. O garoto de cabelo azul segurou em suas amarras, estupefato
e boquiaberto.
E foi Alec que falou primeiro, “O que é isso?” Ele demandou, olhando de Clary para
seus companheiros, como se eles não pudessem saber o que ela estava fazendo ali.
“É uma garota,” Jace disse, recobrando sua compostura. “Certamente você já viu
uma garota antes, Alec. Sua irmã Isabelle é uma.” Ele deu um passo próximo a Clary,
piscando como se ele não pudesse acreditar no que ele estava vendo. “Uma garota
mundana,” ele disse, meio que para si mesmo. “E ela pode nos ver.”
“É claro que eu posso ver você,” Clary disse. “Eu não sou cega, sabia.”
“Ah, mas vocês são,” disse Jace, flexionando para pegar sua faca. “Você apenas não
sabia disso.” Ele se endireitou. “É melhor você sair daqui, se você sabe o que é bom
para você.”
“Eu não estou indo para lugar nenhum,” Clary disse. “Se eu for, vocês vão matar ele.”
Ela apontou para o garoto com o cabelo azul.
“Isso é verdade,” Jace admitiu, girando sua faca entre seus dedos. “O que te importa
se eu matar ele ou não?”
“Por-porque...,” Clary gaguejou. “Você não pode sair simplesmente por ai matando
pessoas.”
“Você está certa,” disse Jace. “Nós não podemos sair por ai matando pessoas.” Ele
apontou para o garoto com cabelo azul, cujos olhos estavam estreitos. Clary imaginou
se ele iria desmaiar.
“Aquilo não é uma pessoa, garotinha. Isso pode parecer como uma pessoa e falar
como uma pessoa e talvez sangrar como uma pessoa. Mas ele é um monstro.”
“Jace,” Isabelle disse alertadamente. “Já chega.”
“Vocês estão loucos,” Clary disse, se afastando dele. “Eu já chamei a policia, você
sabe. Eles estarão aqui a qualquer segundo.”
“Ela está mentindo,” Alec disse, mas havia dúvida em seu rosto. “Jace, você...”
Ele não terminou a sua frase. Naquele momento o garoto de cabelo azul, com um
alto, uivo de choro, rasgou livre do obstáculo que o prendia ao pilar, e arremessou a
si mesmo em Jace.
Eles caíram no chão e rolaram juntos, o garoto de cabelo azul rasgando Jace com as
mãos que brilhavam como se virassem metal. Clary voltou atrás, querendo correr,
mas os pés dela se prenderam em um laço de fiação e ela caiu, tirando o fôlego de
seu peito. Ela podia ouvir Isabelle gritando. Rolando para cima, Clary viu o garoto de
cabelo azul sentado no peito de Jace. Sangue cintilava da ponta da sua lâmina como
garras.


Isabelle e Alec correram em direção a ele. Isabelle brandindo um chicote em sua
mão. O garoto de cabelo azul cortava Jace com garras estendidas. Jace jogou o braço
para se proteger, das garras recortando ele, espalhando sangue. O rapaz de cabelo
azul – deu um bote novamente – o chicote de Isabelle veio abaixo atravessando as
costas dele. Ele deu um grito agudo e caiu para o lado.
Veloz como uma chibatada do chicote de Isabelle, Jace rolou. Havia uma lâmina
reluzindo em sua mão. Ele afundou a faca dentro do peito do garoto de cabelo azul.
Um líquido enegrecido explodiu em torno do cabo.
O garoto arqueou no piso, gorgolejando e retorcendo. Com uma careta Jace se
levantou. Sua camisa preta ficou negra agora em alguns lugares, molhada com
sangue. Ele olhou para baixo para aquela forma se contraindo a seus pés e puxou a
faca. O cabo estava lustroso com o fluído preto.
O garoto de cabelo azul piscou os olhos abertos. Seus olhos, fixados em Jace,
pareciam queimar. Entre seus dentes, ele assobiou, “Que assim seja. O desamparado
terá todos vocês.”
Jace pareceu rosnar. Os olhos do garoto reviraram. Seu corpo começou a estremecer
e contorcer enquanto ele se enrugava, dobrando-se sobre si mesmo, decrescendo
menor e menor até que ele desapareceu por completo.
Clary lutou com seus pés, chutando livre do cabo elétrico. Ela começou a andar para
longe. Nenhum deles estava prestando atenção nela. Alec tinha se encontrado com
Jace e estava segurando seu braço, puxando a manga, provavelmente tentando dar
uma boa olhada no ferimento. Clary virou para correr – encontrou seu caminho
bloqueado por Isabelle, o chicote em sua mão. O comprimento dourado daquilo
estava manchado com líquido preto. Ela chicoteou aquilo em direção a Clary, e o fio
enrolou em si mesmo em torno de seu pulso e o ontraiu apertando.
“Estúpida mundaninha,” Isabelle disse entre os seus dentes. “Você poderia ter
permitido Jace de ter sido morto.”
“Ele é louco,” Clary disse, tentando empurrar seu pulso de volta. O chicote picando
mais fundo sua pele. “Vocês todos são loucos. O que vocês pensam que são,
assassinos vigilantes? A polícia...”
“A polícia não está habitualmente interessada, a menos que você produza um corpo,”
Jace disse. Embalando o seu braço, ele escolheu seu caminho através dos cabos,
andando em direção a Clary. Alec seguiu atrás dele, seu rosto preso em uma
carranca.
Clary olhou para o local em que o menino tinha desaparecido, e não disse nada. Não
havia sequer um traço de sangue, pois nada mostrava que o garoto sequer havia
existido.
“Eles retornam para suas dimensões quando eles morrem,” Jace disse “No caso de
você estar pensando.”
“Jace,” Alec assobiou. “Tenha cuidado.”
Jace balançou seu braço. Um macabro traço de sangue marcando seu rosto. Ele ainda
lembrava ela um leão, com seu extenso passo, olhos cor de luz, e aquele tostado
cabelo dourado. ”Ela pode nos ver, Alec,” ele disse. “Ela já sabe demais”.

“Então, o que é que você quer que eu faça com ela?” Isabelle demandou.
“Liberte ela,” Jace disse quietamente. Isabelle olhou ele com surpresa, quase um
olhar de raiva, mas não discutiu. O chicote deslizou para longe, libertando o braço de
Clary. Ela friccionou seu pulso dolorido e imaginou que diabos ela faria para sair de
lá.
“Talvez nós devêssemos trazer ela junto com a gente,” Alec disse. “Eu aposto que
Hodge gostaria de falar com ela.”
“De jeito nenhum nós levaremos ela para o Instituto,” disse Isabelle. “Ela é uma
mundana.”
“Ou ela é?” Jace disse suavemente. Seu tom calmo era pior do que a rispidez de
Isabelle ou a raiva de Alec. “Você já teve relações com os demônios, garotinha?
Andou com bruxos, conversou com Crianças da Noite? Você tem...”
“Meu nome não é „garotinha‟,” Clary interrompeu. “E eu não tenho idéia do que você
está falando.” Não tem? uma voz disse atrás de sua cabeça. Você viu aquele garoto
sumir diluído no ar. Jace não é um louco – você apenas quer que ele seja. “Eu não
acredito em demônios, ou tanto faz o que você...”
“Clary?” Era a voz de Simon. Ela girou ao redor. Ele estava parado na porta da sala
do depósito. Um dos musculosos porteiros que estavam estampando as mãos na
porta da frente estava próximo dele. “Você está bem?” Ele espiou ela através da
escuridão. “Por que você está aqui sozinha? O que aconteceu com os caras, você
sabe, aqueles com as facas?”
Clary olhou para ele, então olhou para trás dela, onde Jace, Isabelle e Alec estavam,
Jace ainda em sua camiseta ensangüentada com a faca em sua mão. Ele sorriu para
ela e soltando um meio-desculpando, meio-zombeteiro dar de ombros. Claramente
ele não estava surpreso que nem Simon, nem o porteiro, podiam ver eles.
De algum modo nem Clary. Lentamente, ela se virou de volta para Simon, sabendo
que ela tinha de olhar para ele, em pé sozinha em um quarto poeirento de
armazenamento, os pés dela emaranhados no plástico brilhante dos cabos de fiação.
"Pensei que eles tinham vindo para cá," disse ela esfarrapadamente. "Mas eu acho
que não. Me desculpem." Ela olhou para Simon, cuja expressão tinha mudado de
preocupado para embaraçado, para o porteiro, que parecia chateado. “Isso foi um
engano.”
Atrás dela, Isabelle riu.

“Eu não acredito nisso,” Simon disse teimosamente enquanto Clary parada no meio
fio, tentava desesperadamente chamar um táxi. Limpadores de rua tinham passado
pela viela enquanto eles estavam dentro do clube, e a rua estava brilhando preta com
água oleosa.
“Eu sei,” ela concordou. “Pensei que aqui teria taxis. Onde alguém iria à meia-noite
em um Domingo?” Ela deu as costas para ele, balançando. “Você acha que teriamos
mais sorte em Houston?”

“Não o táxi,” Simon disse, “Você... Eu não acredito em você. Eu não acredito que
aqueles caras com facas simplesmente desapareceram.”
Clary suspirou. ”Talvez não tinha nenhum cara com facas, Simon. Talvez eu tenha
imaginado a coisa toda.”
“Sai fora.” Simon levantou sua mão acima de sua cabeça, mas o próximo táxi passou
zumbindo, espirrando água suja. “Eu vi a sua cara quando eu entrei na sala do
depósito. Você parecia seriamente fora de si, como se você tivesse visto um
fantasma.”
Clary pensou em Jace com seus olhos de leão. Ela olhou para seu pulso, enrolado por
uma fina linha vermelha onde o chicote de Isabelle tinha se enroscado. Não, não um
fantasma, ela pensou. Alguma coisa mais estranha do que aquilo.
“Foi apenas um engano,” ela disse, secamente. Ela se perguntou porque ela não
estava dizendo a ele a verdade. Exceto, é claro, que ele iria pensar que ela era
maluca. E aquilo era algo que tinha acontecido – alguma coisa sobre o sangue negro
borbulhando ao redor da faca de Jace, alguma coisa naquela sua voz quando ele disse
„Você tem falado com as Crianças da Noite?‟ aquilo ela precisava manter para ela
mesma.
“Bom, aquilo foi um inferno de um embaraçoso engano,” Simon disse. Ele olhou de
volta para o clube, onde uma fila ainda serpenteava na porta a meio caminho da
quadra. “Eu duvido que eles irão deixar a gente entrar de volta no Pandemonium.”
“Por que você se importa? Você odeia o Pandemonium.” Clary levantou sua mão de
novo para uma forma amarela veloz em direção a eles através do nevoeiro. Dessa
vez, entretanto, o taxi freou para um parar em seu canto, o motorista descansando
em seu volante como se ele precisasse ganhar sua atenção.
“Finalmente tivemos sorte,” Simon se empurrou para a porta aberta do taxi e deslizou
dentro dos bancos cobertos de plástico. Clary seguiu ele, inalando o familiar cheiro de
taxi de Nova York, de fumaça velha de cigarro, couro e spray de cabelo. “Estamos
indo para o Brooklin,” Simon disse para o taxista, e então ele virou para Clary. “Olha,
você sabe que pode me contar qualquer coisa, certo?”
Clary hesitou por um momento, então concordou.
”Claro, Simon,” ela disse “Eu sei que eu posso.”
Ela bateu a porta do táxi e fechou atrás dela, e o táxi arrancou dentro da noite.
 

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