24 – EPILOGO – A Ascenção acenou
O corredor do hospital estava cegantemente branco. Depois de tantos dias vivendo à
luz de tochas, à gás, e a misteriosa luz de bruxa, a iluminação fluorescente fazia as
coisas parecerem amareladas e antinaturais. Quando Clary assinou em frente ao
balcão, ela percebeu que a enfermeira lhe entregando a prancheta tinha uma pele
que parecia estranhamente amarelada sob as luzes brilhantes. Talvez ela seja um
demônio, Clary pensou, entregando a prancheta de volta. "Última porta no final do
corredor," disse a enfermeira, mostrando um sorriso gentil. Ou posso estar
enlouquecendo.
"Eu sei," disse Clary. "Eu estava aqui ontem." E anteontem, e um dia antes do que
isso. Era começo da noite, e o corredor não estava cheio. Um velho se arrastava nos
chinelos atoalhados e num roupão, arrastando uma unidade móvel de oxigênio atrás
dele. Dois médicos em jalecos verdes cirúrgicos carregavam copos de isopor de café,
o vapor subindo da superfície do líquido para o ar gelado. Dentro do hospital, estava
agressivamente ventilado com o ar condicionado, embora do lado de fora o tempo
tinha finalmente se tornado outono.
Clary encontrou a porta no final do corredor. Estava aberta. Ela espreitou lá dentro,
não querendo acordar Luke se ele estivesse dormindo na cadeira à beira do leito,
como tinha estado nas últimas duas vezes que ela tinha ido. Mas ele estava em pé e
conversando com um homem alto em um manto cor de pergaminho dos Irmãos do
Silêncio. Ele se virou, como se sentindo a chegada de Clary, e ela viu que era Irmão
Jeremiah.
Ela cruzou seus braços ao longo do seu peito. "O que está acontecendo?"
Luke parecia exausto, com merecidos três dias de barba mal feita em crescimento,
seus óculos colocados no topo da cabeça. Ela podia ver a maior parte das ataduras
que ainda envolviam sua parte superior do tórax debaixo de sua camisa solta de
flanela. "Irmão Jeremiah já estava saindo," ele disse.
Levantando seu capuz, Jeremiah se moveu em direção à porta, mas Clary bloqueou o
seu caminho. "Então?" Ela desafiou ele. "Você vai ajudar a minha mãe?"
Jeremiah se aproximou dela. Ela podia sentir o frio que se suspendia fora do corpo
dele, como o vapor de um iceberg. Você não pode salvar os outros até que você
primeiro salve a si mesmo, disse a voz em sua mente.
"Essa coisa de biscoito da sorte está ficando realmente ultrapassada," Clary disse. "O
que há de errado com a minha mãe? Você sabe? Os Irmãos do Silêncio podem ajudar
ela, como vocês ajudaram Alec?"
Nós não ajudamos ninguém, Jeremiah disse. Nem é nossa obrigação ajudar aqueles
que voluntariamente se separaram da Clave.
Ela se afastou enquanto Jeremiah passava por ela para o corredor. Ela olhou ele se
afastando, se confundindo com a multidão, nenhum deles lhe deu uma segunda
olhada. Quando ela deixou seus próprios olhos caírem semicerrados ela viu o tremular
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da aura de glamour que rodeava ele, e se perguntou o que estavam vendo: Outro
paciente? Um médico apressado em um jaleco cirúrgico? Um visitante em luto?
"Ele estava dizendo a verdade," Luke disse atrás dela. "Ele não curou Alec, foi
Magnus Bane. E ele não sabe o que há de errado com sua mãe também."
"Eu sei," Clary disse, se virando para o quarto. Ela se aproximou do leito
cuidadosamente. Era difícil para conectar a pequena figura branca na cama, coberta
por cima e por baixo de tubos, com seus vibrantes cabelos cor de chama com a mãe.
Claro, o cabelo dela ainda estava vermelho, espalhados por todo o travesseiro como
fios de um xale de cobre, mas sua pele era tão pálida que ela lembrou Clary da Bela
Adormecida em cera no Madame Tussauds33, cujo o peito subia e descia apenas
porque estava animado por um mecanismo.
Ela tomou a fina mão de sua mãe e a segurou, como ela havia feito ontem, e no dia
anterior. Ela podia sentir a pulsação batendo no pulso de Jocelyn, firme e insistente.
Ela quer acordar, Clary pensou. Eu sei que ela quer.
"É claro que ela quer," Luke disse, e Clary caiu em si que tinha falado em voz alta.
"Ela tem tudo para ficar melhor, mais ainda do que ela poderia saber."
Clary deitou a mão de sua mãe suavemente abaixo na cama. "Você quer dizer Jace."
"É claro que eu quis dizer Jace," Luke disse. "Ela esteve de luto por ele por dezessete
anos. Se eu pudesse dizer a ela que não precisava se lamentar..." ele interrompeu.
"Dizem que as pessoas em coma às vezes podem ouvir," Clary ofereceu.
Evidentemente, os médicos também haviam dito que este não era um coma comum,
nenhuma lesão, nenhuma falta de oxigênio, nenhuma súbita falha do coração ou do
cérebro tinha causado isso. Era como se ela estivesse apenas dormindo, e não
poderia ser despertada.
"Eu sei," Luke disse. "Eu tenho falado com ela. Quase sem parar." Ele mostrou um
sorriso cansado. "Eu disse a ela como você foi corajosa. Como ela teria orgulho de
você. Sua filha guerreira."
Algo afiado e doloroso subiu na parte de trás de sua garganta. Ela a engoliu, olhando
além de Luke afastado da janela. Através da qual ela podia ver a parede branca de
tijolos do edifício oposto. Sem vistas bonitas de árvores ou rios aqui. "Eu fiz as
compras que você pediu," ela disse. "Tenho manteiga de amendoim, leite e cereais e
pão dos Irmãos Fortunato." Ela cavou no bolso de seus jeans. "Eu tenho o troco..."
"Fique com ele," Luke disse. "Você pode usá-lo no táxi de volta."
"Simon me leva de volta," Clary disse. Ela checou o relógio de borboleta pendente no
seu chaveiro. "Na verdade, ele provavelmente está lá embaixo agora."
"Bom, estou feliz que você esteja passando algum tempo com ele." Luke pareceu
aliviado. "Fique com o dinheiro, de qualquer forma. Dê uma saída hoje à noite."
33
Madame Tussauds é uma cadeia de museus de cera que existem pelo mundo, conhecida por suas famosas réplicas de artistas,
celebridades, etc.
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Ela abriu a sua boca para argumentar, e então fechou. Luke era, como sua mãe
sempre tinha dito, uma rocha em momentos de angústia, sólido, confiável, e
totalmente imóvel. "Vá para casa de vez em quando, ok? Você precisa dormir
também."
"Dormir? Quem precisa dormir?" ele zombou, mas ela viu o cansaço em seu rosto
quando ele voltou a se sentar na cama da mãe. Gentilmente ele retirou um fio de
cabelo o afastando do rosto de Jocelyn. Clary se virou para longe, os olhos dela
ardendo.
***
A van de Eric estava estacionada na beira da calçada enquanto ela caminhava pela
saída principal do hospital. O céu arqueava acima, o perfeito azul de uma porcelana
chinesa, escurecendo para um safira sobre o rio Hudson, onde o sol estava se pondo.
Simon se inclinou para abrir a porta para ela, e ela se arrastou acima do banco ao
lado dele. "Obrigada."
"Para onde? Voltar para casa?" Ele perguntou, puxando a van para o tráfego em
primeira marcha.
Clary suspirou. "Eu nem sei mais onde é isso."
Simon olhou a seu lado. "Sentindo pena de si mesma, Fray?" Seu tom era de
gozação, mas suave. Se ela olhasse atrás dele, ela ainda poderia ver as manchas
escuras no banco traseiro onde Alec tinha se deitado, sangrando, em todo o colo de
Isabelle.
"Sim. Não. Eu não sei." Ela suspirou novamente, puxando um teimoso cacho do
cabelo cobre. "Tudo mudou. Tudo está diferente. As vezes eu gostaria que tudo
voltasse atrás do jeito que era antes."
"Eu não," Simon disse, para sua surpresa. "Onde é que vamos outra vez? Me diz,
subúrbio ou o centro finalmente."
"Para o Instituto," Clary disse. "Me desculpe," acrescentou ela, enquanto ele
executava uma espantosa meia-volta ilegal. A van, rodou sobre duas rodas,
guinchando em protesto. "Eu devia ter te dito isso antes."
"Huh," disse Simon. "Você não tinha voltado ainda, certo? Desde que..."
"Não, não desde que," disse Clary. "Jace me ligou e me disse que Alec e Isabelle
estavam bem. Aparentemente, os pais voltaram de Idris, agora que alguém
realmente contou a eles o que está acontecendo. Eles vão estar aqui em poucos
dias."
"Isso é estranho, vindo de Jace?" Simon perguntou, a voz dele cuidadosamente
neutra. "Quero dizer, desde que vocês descobriram..."
Sua voz diminuiu.
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"Sim?" disse Clary, sua voz afiadamente cortante. "Desde que eu descobri o quê? Que
ele é um assassino travestido que molesta gatos?"
"Não me admira que o gato dele odeia todo mundo."
"Ah, cala boca, Simon," Clary disse zangada. "Eu sei o que você quer dizer, e não,
não era estranho. Nada aconteceu entre nós, de qualquer forma."
"Nada?" Simon ecoou, em seu tom de simples descrença.
"Nada," Clary repetiu firmemente, olhando para fora da janela para que ele não
pudesse ver as lágrimas manchando suas bochechas. Eles estavam passando uma fila
de restaurantes, e ela podia ver o Taki‟s, iluminado brilhantemente no cair do
crepúsculo.
Eles viraram a esquina, justo quando o sol desapareceu por trás da janela rosada do
Instituto, inundando a rua abaixo com uma concha de luz que só eles podiam ver.
Simon estacionou em frente da porta e desligou o motor, nervosamente balançando
as chaves na mão. "Você quer que eu vá com você?"
Ela hesitou. "Não. Eu devo fazer isso sozinha."
Ela viu o olhar de decepção flutuar pelo rosto dele, mas ele desapareceu
rapidamente. Simon, ela pensou, tinha crescido muito nestas últimas duas semanas,
tal como ela tinha. O que foi bom, pois ela não queria deixá-lo para trás. Ele era parte
dela, tanto quanto o seu talento para desenhar, o ar empoeirado do Brooklyn, o
sorriso de sua mãe, seu próprio sangue de Caçador de Sombras. "Tudo bem," disse
ele. "Você vai precisar de uma carona mais tarde?"
Ela balançou a cabeça dela. "Luke me deu dinheiro para um táxi. De qualquer forma
você quer vir amanhã?" acrescentou. "Podemos assistir Trigun 34, com pipoca. Eu
poderia passar um tempo no sofá."
Ele acenou. "Isso parece bom." Ele então se inclinou em frente, e roçou de leve um
beijo na sua bochecha. Foi um beijo leve como uma folha soprada, mas ela sentiu um
arrepio percorrer os seus ossos. Ela olhou para ele.
"Você acha que isso foi uma coincidência?" ela perguntou.
"O que eu acho que foi uma coincidência?"
"Que nós fossemos ao Pandemonium na mesma noite que Jace e os outros pintaram
por lá, perseguindo um demônio? A noite anterior a Valentine vir atrás de minha
mãe?"
Simon balançou a cabeça. "Eu não acredito em coincidências," ele disse.
"Nem eu."
34
Trigun é um anime.
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"Mas tenho que admitir," Simon acrescentou, "coincidência ou não, isso se tornou
uma ocorrência fortuita."
"Ocorrência fortuita," Clary disse. "Agora temos um nome de banda para você."
"É melhor do que a maioria dos que tivemos," Simon admitiu.
"Pode apostar." Ela saltou para fora da van, fechando a porta atrás dela. Ela ouviu ele
buzinar enquanto ela corria no caminho para a porta entre a folhas de grama alta, e
acenou sem se virar.
***
O interior da catedral estava fresco e escuro, e cheirava a chuva e papel úmido. Suas
pegadas ecoaram alto no piso de pedra, e ela pensou em Jace na igreja em Brooklyn:
Pode haver um Deus, Clary, e pode ser que não, mas acho que não interessa. De
qualquer forma, nós estamos por nossa própria conta.
No elevador ela deu uma olhada em si mesma no espelho enquanto a porta rangia
fechada atrás dela. A maior parte das suas contusões e arranhões tinham curado,
ficando invisíveis. Ela perguntou se Jace já tinha visto o seu visual tão cerimonioso
como ela estava hoje – ela se vestiu para ir ao hospital, uma saia pregueada preta,
gloss labial rosa, e uma antiga blusa com gola de marinheiro. Ela achou que ela
parecia ter oito.
Não que importasse o que Jace pensava em como ela se parecia, ela lembrou a si
mesma, agora ou sempre. Ela se perguntou se eles seriam do jeito que Simon era
com sua irmã: uma mistura de aborrecimento e um amor irritado. Ela não podia
imaginar.
Ela ouviu altos meows antes mesmo da porta do elevador se abrir. “Ei, Church,” Ela
disse, se ajoelhando para a bola cinza se ziguezagueando no piso. “Onde está todo
mundo?”
Church, que claramente queria que seu estômago fosse esfregado, resmungou
ameaçadoramente. Com um suspiro Clary lhe deu um. "Gato debilóide," ela disse, o
coçando com vigor. "Onde..."
"Clary!" Era Isabelle, se lançando no saguão em uma saia vermelha longa, o cabelo
dela empilhado em cima de sua cabeça com grampos cheios de jóias. "É tão bom ver
você!"
Ela desceu sobre Clary com um abraço que quase desequilibrou ela.
"Isabelle," Clary arfou. "É bom te ver, também," acrescentou, deixando Isabelle
puxá-la para uma posição em pé.
"Eu estava tão preocupada com você," Isabelle disse alegremente. "Depois que vocês
saíram para biblioteca com Hodge, e eu fiquei com Alec, ouvi a mais terrível explosão,
e quando eu cheguei à biblioteca, é claro, vocês tinham desaparecido, e tudo estava
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espalhado por todo o piso. E havia sangue e uma coisa pegajosa preta pra todo o
lado." Ela estremeceu. "O que foi aquilo?"
"A maldição," Clary disse calmamente. "A maldição de Hodge".
"Oh, certo," Isabelle disse. "Jace me falou sobre Hodge."
"Ele falou?" Clary estava surpresa.
"Que ele retirou a maldição de si e ele foi embora? Sim, ele disse. Eu achei que ele
ficaria para dizer adeus." Isabelle acrescentou. "Eu estou meio decepcionada com ele.
Mas acho que ele estava com medo da Clave. Ele vai entrar em contato no final das
contas, eu aposto."
Então Jace não tinha dito que Hodge havia traído eles, Clary pensou, não tendo
certeza como ela se sentia sobre isso. Então, se Jace estava tentando poupar Isabelle
da confusão e desapontamento, talvez ela não devesse interferir.
“De qualquer jeito,” Isabelle continuou, "foi horrível, eu não sei o que nós teriamos
feito se Magnus não tivesse aparecido e emagicado Alec de volta ao normal. É uma
palavra, 'emagicado'?" Ela enrugou entre suas sobrancelhas. "Jace nos contou tudo
sobre o que aconteceu na ilha depois. Na verdade, nós já sabíamos sobre ele mesmo
antes, porque Magnus estava ao telefone falando sobre isso a noite toda. Todo mundo
no Downworld estava fofocando sobre isso. Você é famosa, sabe."
"Eu?"
"Claro. A filha de Valentine."
Clary estremeceu. "Então eu acho que Jace é famoso também."
"Ambos são famosos," Isabelle disse na mesma voz animada. "Os famosos irmão e
irmã."
Clary olhou curiosamente Isabelle. "Eu não esperava que você tivesse essa alegria em
me ver, eu tenho que admitir."
A outra garota colocou suas mãos em seu quadril indignadamente. "Porque não?"
"Eu não achava que você gostava de mim tanto assim."
O brilho de Isabelle se esvaiu e ela olhou para baixo em seus dedos prateados. "Eu
não acho que eu goste," ela admitiu. "Mas quando eu fui procurar por você e Jace, e
vocês foram embora..." A voz dela foi sumindo. "Eu não estava apenas preocupada
com ele, eu estava preocupada com você, também. Há algo tão... tranqüilizador em
você. E Jace fica muito melhor quando você está ao redor."
Os olhos de Clary se abriram. "Ele fica?"
"Ele fica, na verdade. Menos sarcástico, de alguma forma. Não que ele esteja amável,
mas que ele deixa você ver a bondade nele." Ela se interrompeu. "E eu acho que eu
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me ressentia com você no início, mas agora eu percebo que era estupidez. Só porque
eu nunca tive um amigo que fosse uma garota não significava que eu não pudesse
aprender a ter uma."
"Eu também, na realidade," Clary disse. "E Isabelle?"
"Sim?”
“Você não precisa fingir ser legal. É melhor quando você age como você mesma.”
“Uma vaca, você quer dizer?” Isabelle disse, e riu.
Clary estava prestes a protestar quando Alec entrou se equilibrando na entrada em
um par de muletas. Uma de suas pernas estava com ataduras, seus jeans enrolados
até o joelho, e havia um outro curativo em sua têmpora, sob os cabelos escuros. Em
todo o caso ele parecia espantosamente saudável para quem estava quase morrendo
a quatro dias atrás. Ele acenou uma muleta em saudação.
"Oi," Clary disse, surpresa em vê-lo em pé e por aí. "Você está..."
"Bem? Eu estou bem," Alec disse. "Não vou mesmo precisar delas dentro de alguns
dias."
Culpa preencheu sua garganta. Se não fosse por ela, Alec não estaria de muletas.
"Estou realmente feliz por você estar bem, Alec," ela disse, colocando cada peso de
sinceridade em sua voz que ela pudesse reunir.
Alec piscou. "Obrigado."
"Então Magnus consertou você?" Clary disse. "Luke disse..."
"Ele fez!" Isabelle disse. "Foi tão incrível. Ele apareceu e ordenou que todos saíssem
do quarto e fechou a porta. Faíscas azuis e vermelhas ficavam explodindo pelo
corredor por baixo da porta."
"Não me lembro de nada," Alec disse.
"Então ele se sentou na cama de Alec a noite toda e pela manhã para ter certeza que
ele acordaria bem," Isabelle acrescentou.
"Também não me lembro disso," Alec acrescentou apressadamente.
Os lábios vermelhos de Isabelle se curvaram em um sorriso. "Eu me pergunto como
Magnus soube para ter vindo? Eu perguntei a ele, mas ele não me disse."
Clary lembrou do papel dobrado que Hodge tinha atirado ao fogo após Valentine ter
ido embora. Ele era um homem estranho, ela pensou, que tinha tirado tempo para
fazer o que podia para salvar Alec, embora traísse todo mundo e tudo o que ele tinha
cuidado. “Eu não sei,” ela disse.
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Isabelle deu de ombros. “Eu acho que ele ouviu sobre isso em algum lugar. Ele
parece viciado em uma enorme rede de fofoca. Ele é como uma garota.”
“Ele é o Alto Bruxo do Brooklyn, Isabelle.” Alec lembrou a ela. Mas não sem alguma
diversão. Ele se virou para Clary. “Jace está na estufa, se você quiser vê-lo,” ele
disse. “Eu levo você.”
“Você leva?”
“Claro.” Alec parecia só um pouco desconfortável. “Por que não?”
Clary olhou para Isabelle, que sacudiu os ombros. Seja lá o que estava querendo, ele
não ia dividir isso com sua irmã. “Vão em frente,” Isabelle disse. “Eu tenho coisas
para fazer, de qualquer forma.” Ela acenou uma mão para eles. “Xô!”
Eles zarparam pelo corredor juntos. Alec ia rápido, mesmo com muletas. Clary teve
que correr para manter o passo. “Eu tenho as pernas curtas,” ela lembrou a ele.
“Me desculpe,” ele diminuiu, arrependido. “Olha,” ele começou. “Aquelas coisas que
você disse para mim, quando eu gritei com você sobre o Jace...”
“Eu me lembro,” ela disse em uma voz pequena.
“Quando você me disse aquilo, você sabe, aquilo que eu estava apenas... aquilo era
por que...” Ele pareceu estar tendo problemas em formar uma frase completa. Ele
tentou de novo. “Quando você disse que eu estava...”
“Alec, não.”
“Claro. Não importa.” Ele apertou seus lábios juntos. “Você não quer falar sobre
aquilo.”
“Não é isso. É que eu me sinto terrível sobre o que eu disse. Aquilo foi horrível. Não
era verdade de forma...”
“Mas era verdade,” Alec disse. “Cada palavra.”
"Isso não faz ficar tudo bem," ela disse. "Nem tudo era verdade sobre você nunca ter
matado um demônio, ele disse que era porque você estava sempre o protegendo e a
Isabelle. Foi uma coisa boa o que ele estava dizendo sobre você. Jace pode ser um
idiota, mas ele..." Te ama, ela estava para dizer, e parou. "Ele nunca disse uma coisa
ruim sobre você para mim, nunca. Eu juro."
"Você não tem que jurar," ele disse. "Eu já sei."
Ele parecia tranqüilo, mesmo confiante de uma maneira que ele nunca soou antes.
Ela olhou para ele, surpresa. "Eu sei que eu não matei o Abbadon. Mas eu apreciei
você ter me dito que eu tinha."
Ela riu tremulamente. "Você apreciou eu ter mentido para você?"
"Você fez isso por simpatia," disse ele. "Isso significa muito, que você foi gentil
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comigo, mesmo depois de como eu tratei você."
"Acho que Jace teria ficado muito chateado por eu ter mentido, se ele não estivesse
tão abalado naquela hora," Clary disse. "Não tão bravo quanto ele ficaria se ele
soubesse o que eu disse a você antes, apesar de tudo."
"Eu tenho uma idéia," disse Alec, sua boca virando nos cantos. "Não vamos dizer a
ele. Quero dizer, talvez Jace possa decapitar um demônio Du'sien a uma distância de
cinqüenta metros, só com um saca-rolha e um elástico, mas às vezes eu acho que ele
não sabe muito sobre as pessoas."
"Eu acho que sim." Clary sorriu.
Eles tinham chegado ao início da escada espiral que levava ao telhado. "Eu não posso
ir para cima." Alec tocou sua muleta contra um degrau de metal. Ela retiniu
metalicamente.
"Tudo bem. Eu posso achar meu caminho."
Ele virou como se fosse embora, então olhou, de costas para ela. "Eu deveria ter
adivinhado que você era irmã de Jace," ele disse. "Vocês dois tem o mesmo talento
artístico."
Clary interrompeu, o seu pé no degrau mais baixo. Ela estava voltando. "Jace
desenha?"
"Não." Quando Alec sorriu, seus olhos azuis eram lâmpadas acesas, e Clary pode ver
o que Magnus tinha encontrado de tão cativante sobre ele. "Eu só estava brincando.
Ele não consegue desenhar uma linha reta." Rindo, ele saiu capengando em suas
muletas. Clary o viu ir embora, confusa. Um Alec que soltava piadas e fazia gracinhas
de Jace era algo que ela poderia se acostumar, mesmo que o seu senso de humor
fosse algo inexplicável.
***
A estufa estava do jeito que ela se lembrava, embora o céu acima do telhado de vidro
estivesse safira agora. O limpo e ensaboado cheiro das flores limpava a cabeça dela.
Respirando profundamente, ela se empurrou através dos estreitos galhos e folhas.
Ela encontrou Jace sentado na bancada em mármore, no meio da vegetação. Sua
cabeça estava inclinada, e ele parecia estar virando um objeto em suas mãos, à toa.
Ele olhou para cima enquanto ela mergulhava debaixo de um galho, e rapidamente
fechou sua mão ao redor do objeto. "Clary." Ele pareceu surpreso. "O que você está
fazendo aqui?"
"Eu vim te ver," ela disse. "Eu queria saber como você estava."
"Eu estou bem." Ele estava vestindo jeans e uma camiseta branca. Ela ainda podia
ver as suas contusões sumindo, como as manchas escuras sobre a polpa branca de
uma maçã. Claro, ela pensou, as verdadeiras lesões eram internas, escondidas de
todos, mesmo dele.
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"O que é isso?" ela perguntou, apontando para a sua mão fechada.
Ele abriu os dedos. Um irregular caco de prata descansava em sua palma, refletindo
azul e verde em seus cantos. "Um pedaço do espelho do Portal."
Ela sentou no banco ao lado dele. "Dá para ver alguma coisa nele?"
Ele o virou um pouco, deixando a luz passar como a água sobre ele. "Pedaços do céu.
Árvores, um caminho... Eu fico angulando ele, tentando ver a mansão. Meu pai."
"Valentine," ela corrigiu. "Por quê você iria querer vê-lo?"
“Eu pensei que talvez eu pudesse ver o que ele estava fazendo com a Taça Mortal,”
ele disse relutantemente. “Onde ela está.”
“Jace, isso não é mais nossa responsabilidade. Não é problema nosso. Agora que a
Clave finalmente sabe o que aconteceu, os Lightwoods estarão de volta. Deixe eles
lidarem com isso.”
Agora ele olhava para ela. Ela se perguntou como é que eles poderiam ser irmão e
irmã se parecendo tão pouco. Ela não podia ter pelo menos aqueles cílios longos
escuros ou os ossos angulares do rosto? Parecia pouco justo. Ele disse, "Quando eu
olhei através do Portal e vi Idris, eu sabia exatamente o que Valentine estava
tentando fazer, ele queria ver se eu me sensibilizava. E isso não importou, eu ainda
queria ir muito para casa, mas do que eu poderia ter imaginado."
Ela balançou sua cabeça. "Não vejo o que há de tão incrível em Idris. É apenas um
lugar. O jeito como você e Hodge falam sobre isso..." Ela interrompeu.
Ele fechou sua mão sobre o caco novamente. "Eu era feliz lá. Ele foi o único lugar em
que eu estava realmente feliz."
Clary arrancou uma haste de um arbusto próximo e começou a despetalar suas
folhas. "Você sentiu pena de Hodge. É por isso que você não disse a Alec e a Isabelle
o que ele realmente fez."
Ele deu de ombros.
"Eles vão descobrir qualquer hora, sabe."
"Eu sei. Mas não vai ser eu quem vai dizer a eles."
"Jace..." A superfície do lago estava verde com as folhas caídas. "Como você pôde ter
sido feliz lá? Eu sei o que você pensou, mas Valentine foi um péssimo pai. Ele matou
seus animais de estimação, mentiu para você, e eu sei que ele batia em você – e nem
tente fingir que ele não batia."
A cintilação de um sorriso flutuou no rosto de Jace. "Somente nas quintas-feiras
alternadas."
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"Então, como podia..."
"Foi a única vez que eu senti certeza sobre quem eu era. Onde eu pertencia. Isso soa
burrice, mas..." Ele balançou os ombros. "Eu mato demônios, porque eu sou bom
nisso e foi o que me foi ensinado a fazer, mas não é quem eu sou. E eu estava
parcialmente bem com isso porque depois que eu pensei que o meu pai tinha
morrido, eu estava livre. Sem importância. Ninguém para ficar de luto. Ninguém tinha
interesse na minha vida, porque eles tinham sido parte do que foi dado a mim." Seu
rosto parecia como se tivesse sido esculpido em algo duro. "Eu não me sinto mais
assim."
O galho ficou inteiramente desnudo de folhas; Clary o jogou de lado. "Porque não?"
"Por sua causa," ele disse. "Se não fosse por você, eu teria ido com o meu pai através
do Portal. Se não fosse por você, eu iria atrás dele agora mesmo."
Clary olhou para baixo no lago obstruído. Sua garganta queimou. "Eu achei que você
se sentia deslocado."
"Tem sido assim por muito tempo," ele disse simplesmente, "eu acho que eu estava
deslocado pela idéia de se sentir como se eu não pertencesse a lugar nenhum. Mas
você me fez sentir que eu pertenço."
"Eu quero você venha comigo em um lugar," ela disse abruptamente.
Ele olhou para seu lado. Algo sobre a forma como a luz dourada dos cabelos caindo
nos olhos dele fez ela se sentir insuportavelmente triste. "Onde?"
"Eu estava esperando que você viesse comigo para o hospital."
"Eu sabia." Seus olhos se estreitaram até que eles parecessem bordas de moedas.
"Clary, aquela mulher..."
"Ela é sua mãe também, Jace."
"Eu sei," ele disse. "Mas ela é uma estranha para mim. Eu sempre tive apenas um
pai, e ele foi embora. Pior do que estar morto."
"Eu sei. E sei que não há nenhum ponto em dizer a você o quão ótima minha mãe é,
uma incrível, fantástica, e maravilhosa pessoa que ela é, e que você tem sorte em
conhecê-la. Não estou pedindo isso para você, eu estou pedindo por mim. Acho que
se ela ouvir a sua voz... "
"Então o quê?"
"Ela poderia acordar." Ela o olhou com firmeza.
Ele segurou seu olhar e, em seguida, o quebrou com um sorriso torto, um pouco
cansado, mas um sorriso verdadeiro. "Tudo bem. Eu vou com você." Ele se levantou.
"Você não tem que me dizer coisas boas sobre a sua mãe," ele acrescentou. "Eu já a
conheço."
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"Você conhece?"
Ele deu de ombros ligeiramente. "Ela cuidou de você, não é?" Ele olhou em direção ao
telhado de vidro. "O sol está quase sumindo."
Clary ficou sob seus pés. "Nós devemos ir ao hospital. Eu pago o táxi," ela
acrescentou depois. "Luke me deu dinheiro."
"Isso não será necessário." O sorriso de Jace se alargou. "Vamos lá. Eu tenho algo
para te mostrar."
“Mas de onde você tirou isso?” Clary exigiu, olhando para a moto empoleirada à beira
do telhado da catedral. Era um chamativo envenenado verde, com prata margeando
as rodas e as brilhantes chamas pintadas sobre o banco.
"Magnus estava reclamando que alguém havia deixado lá fora da casa dele, na última
vez que ele fez uma festa," Jace disse. "Eu o convenci a dar ela para mim."
"E você voou com ela até aqui?" Ela ainda estava olhando.
"Uh-huh. Estou ficando muito bom nisso." Ele colocou uma perna por cima do banco,
e acenou para ela subir e sentar atrás dele. "Vamos, eu vou mostrar para você."
"Bem, pelo menos dessa vez você sabe como funciona," ela disse, ficando atrás dele.
"Se a gente bater contra um estacionamento de um supermercado eu vou matar
você, sabia?"
"Não seja ridícula," Jace disse. "Não há estacionamento em Upper East Side. Porque
dirigir quando você pode receber sua mercadoria entregue?" A moto começou com
um rugir, abafando sua risada. Gargalhando, Clary agarrou o seu cinto enquanto a
moto se movia sob o inclinado teto do Instituto, e se lançava no espaço.
O vento bagunçava seu cabelo enquanto eles se elevavam, sobre a catedral, acima
dos telhados altos e elevados prédios de apartamentos. E lá estava se estendendo
perante ela como um cuidadosamente aberto porta-jóias, esta cidade mais populosa e
mais incrível do que ela tinha imaginado: Havia o quadrado esmeralda do Central
Park, onde uma corte de fadas se reunia em plena noite de verão, onde tinha as luzes
dos clubes e bares no centro, onde os vampiros dançavam noites afora no
Pandemonium; onde nos becos de Chinatown os lobisomens se retiravam à noite, os
seus pêlos refletindo as luzes da cidade. Onde andavam bruxos em toda a sua
extravagância, o glorioso olhar de gato, e aqui, enquanto eles se lançavam rio acima,
ela via os flashes lançados de multicoloridas caudas sob a pele prateada da água, o
vislumbre ao longe, de pérolas derramadas sobre os cabelos, e ouviu altas, as risadas
onduladas das sereias.
Jace virou para olhar sobre seu ombro, o vento chicoteando em seus cabelos
emaranhados. "O que você está pensando?" ele chamou ela de volta.
"Apenas como tudo é diferente agora, você sabe, agora que eu posso ver."
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Cassandra Cale – The Mortal Instruments 01 – City of Bones
"Tudo lá é exatamente o mesmo," ele disse, angulando a moto para o East River. Eles
foram em direção à ponte novamente. "Você é a única que é diferente."
As mãos apertaram convulsivamente o seu cinto enquanto eles mergulhavam mais e
mais ao longo do rio. "Jace!"
"Não se preocupe." Ele parecia irritantemente divertido. "Eu sei o que estou fazendo.
Eu não vou afundar a gente."
Ela estreitou seus olhos contra o vento rasgante. "Você está testando o que Alec disse
sobre algumas dessas motos serem capazes de ir debaixo d‟agua?"
"Não." Ele nivelou a moto cuidadosamente enquanto eles subiam vindos da superfície
do rio. "Acho que é só uma história."
"Mas Jace," ela disse. "Todas as histórias são verdadeiras."
Ela não o ouviu rir, mas ela sentiu, através da gaiola de suas costelas sob seus
dedos. Ela o abraçou fortemente enquanto ele dirigia a moto para cima, acelerando
para que ela disparasse a frente e se lançasse ao lado da ponte como um pássaro
libertado de uma gaiola. Seu estômago caiu abaixo enquanto o rio prateado girava
para longe e os pináculos da ponte deslizavam sob seus pés, mas desta vez Clary
manteve seus olhos abertos, só para que ela pudesse ver tudo.
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