quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Série Instrumentos Mortais - Cidade dos Ossos 6

6 – Esquecido

A sala das armas parecia exatamente do jeito que alguma coisa era chamada „sala
das armas, e soava como aquilo que se via. Paredes de metal escovado onde
estavam pendurados todo tipo de espada, punhal, lança, bastão, baioneta, açoite,
clava, gancho e arco. Sacos de couro macio cheios de flechas balançavam nos
ganchos, e havia pilhas de botas, couraças para pernas, luvas metálicas para punhos
e braços. O lugar cheirava a metal, couro e aço polido. Alec e Jace, já não descalços,
estavam sentados ao longo de uma mesa no centro da sala, suas cabeças curvadas
sobre um objeto entre eles. Jace olhou para porta fechada atrás de Clary. “Onde está
Hodge?” ele disse.
“Escrevendo para os Irmãos do Silêncio.”
Alec reprimiu um estremecimento. “Ugh.”
Ela se aproximou da mesa lentamente, consciente do olhar de Alec. “O que vocês
estão fazendo?”
“Pondo os últimos toques nisso” Jace se moveu para o lado então ela pode ver o que
estava sobre a mesa: três longas e finas varinhas de um brilho pesadamente
prateado. Elas não pareciam afiadas ou particularmente perigosas. “Sanvi, Sansanvi e
Semangelaf. Elas são lâminas serafim.”
“Elas não se parecem com facas. O que elas fazem? Mágica?”
Alec olhou horrorizado, como se ela tivesse pedido a ele para colocar um frufru e
executar uma perfeita pirueta. “A coisa engraçada sobre os mundanos,” Jace disse,
para ninguém em particular, “é como são obcecados com mágica que eles que são
por um punhado de pessoas que nunca souberam o que a palavra significa.”
“Eu sei o que significa.” Clary rebateu.
“Não, você não sabe, você apenas pensa que sabe. Mágica é uma escura e elemental
força, e não apenas um monte de varinhas de condão, bolas de cristal e peixes
dourados falando.”
“Eu nunca disse que era um monte de peixe dourado falando, eu...”
Jace balançou uma mão, cortando ela. “Só porque você chama uma enguia elétrica de
patinho de borracha isso não faz dele um patinho de borracha, não é? E Deus ajude o
pobre coitado que decidir que eles precisam tomar banho com um patinho.”
“Você está viajando,” Clary observou.
“Eu não estou,” Jace disse, com grande dignidade.
“Sim, você está,” Alec disse, bastante inesperadamente. “Olha, nós não fazemos
mágica, ok?” ele adicionou, sem olhar para Clary. “Isso é tudo o que você precisa
saber sobre isso.

Clary queria dar um fora nele, mas conteve-se. Alec já não parecia gostar dela, não
havia nenhum ponto em agravar sua hostilidade.
Ela se virou para Jace. “Hodge disse que eu posso ir para casa.”
Jace quase largou a lâmina serafim que ele estava segurando. “Ele disse o quê?”
“Para dar uma olhada nas coisas da minha mãe,” ela emendou. “Se você vier
comigo.”
“Jace,” Alec exalou, mas Jace ignorou ele.
“Se você realmente quer provar que minha mãe ou pai era um Caçador de Sombras,
nós deveríamos olhar as coisas da minha mãe. O que restou delas.”
“Descer a toca do coelho,” Jace sorriu torto. “Boa idéia. Se nós formos agora, nós
devemos ter outras três, quatro horas de luz do dia.”
“Você quer que eu vá com vocês?” Alec perguntou, enquanto Clary e Jace se moviam
em direção a porta. Clary olhou de volta para ele. Ele estava meio fora da cadeira, os
olhos em expectativa.
“Não.” Jace não se virou. “Está tudo bem. Clary e eu podemos lidar com isso por
nossa conta.”
O olhar que Alec atirou para Clary era tão amargo quanto veneno. Ela estava feliz
quando a porta se fechou atrás dela.
Jace liderou o caminho pelo saguão, Clary meio correndo para se manter com os
longos passos largos dele. “Você tem as chaves de sua casa?”
Clary olhou abaixo para seus sapatos. “Yeah.”
“Bom. Não que nós não possamos arrombar, mas nós corremos uma grande chance
de perturbar qualquer vigilância que possa haver se nós fizermos isso.”
“Se você diz.” O saguão ampliou-se em um foyer de piso de mármore, um portão de
metal preto afixado em uma parede. Foi só quando Jace empurrou um botão perto do
portão que ele acendeu e que ela percebeu que era um elevador. Aquilo rangia e
gemia enquanto subia até chegar a eles. “Jace?”
“Sim?”
“Como você sabia que eu tinha sangue de Caçador de Sombras? Havia algum jeito de
você poder dizer?”
O elevador chegou com um gemido final. Jace moveu o portão deslizando-o aberto. O
interior lembrava a Clary uma gaiola, todo em metal negro e decorado com pedaços
de dourado. “Eu chutei,” ele disse, fechando a porta atrás deles. “Parecia a explicação
mais provável.”

“Você adivinhou? Você deveria ter tido mais certeza, considerando que você podia ter
me matado.”
Ele pressionou o botão na parede, e o elevador solavancou em uma ação com um
vibrante gemido enquanto ela sentia tudo ao longo dos ossos de seus pés. “Eu tinha
noventa por cento de certeza.”
“Sei,” Clary disse.
Deve ter havido alguma coisa em sua voz, porque ele se virou para olhar para ela.
Sua mão estalou no rosto dele, uma bofetada que balançou ele em seus calcanhares.
Ele pôs a mão em sua bochecha, mais com surpresa do que por dor. “O que diabos foi
isso?”
“Os outros dez por cento,” ela disse, e eles andaram o resto do caminho para a rua
em silêncio.
Jace passou a viagem de trem para o Brooklyn envolto em um irritado silêncio. Clary
prosseguiu perto dele mesmo assim, sentindo um pouco culpada, especialmente
quando ela olhou a marca vermelha do tapa que ela deixou em sua bochecha.
Ela realmente não se importava com o silêncio, aquilo lhe dava a chance de pensar.
Ela se manteve revivendo a conversa com Luke, de novo e de novo em sua cabeça.
Doía pensar sobre aquilo, como se estivesse mordendo com um dente quebrado, mas
ela não podia parar de fazer isso.
Mais abaixo no trem, duas garotas adolescentes sentadas em um banco laranja
estavam rindo juntas. O tipo de garotas que Clary nunca havia gostado na St. Xavier,
mostrando sapatilhas de mule rosa e falso bronzeado. Clary por um momento se
perguntou se elas estavam rindo dela, antes que ela percebesse que elas estavam
olhando para Jace.
Ela se lembrou da garota na cafeteria que estava encarando Simon. Garotas sempre
olham em seus rostos quando elas acham alguém bonitinho. Ela quase tinha se
esquecido que Jace era fofo, dado a tudo o que tinha acontecido. Ele não tinha a
aparência delicada de camafeu como Alec, mas o rosto de Jace era mais interessante.
À luz do dia os seus olhos eram da cor de xarope dourado e estavam... olhando direto
para ela. Ele levantou uma sobrancelha. “Posso te ajudar com alguma coisa?”
Clary se virou instantâneamente contra as traidoras do seu gênero. “Aquelas garotas
do outro lado do carro estão olhando para você.”
Jace assumiu um ar jovial de gratificação. “É claro que estão,” ele disse. “Eu sou
terrivelmente atraente.”
“Alguma vez você já ouviu que modéstia é uma característica atraente?”
“Apenas vindo das pessoas feias,” Jace confidenciou. “Os mansos herdarão a terra,
mas no momento ela pertence aos vaidosos. Como eu.” Ele piscou para as garotas,
que riram e se esconderam atrás de seus cabelos.

Clary suspirou. “Como elas podem ver você?”
"Glamours são dolorosos de se usar. Às vezes nós não nos incomodamos." O
incidente com as meninas no trem pareceu deixá-lo em um melhor estado de espírito.
Quando eles deixaram a estação e se direcionaram da colina para o apartamento de
Clary, ele pegou uma das lâminas serafim de seu bolso e começou a lançá-la para
frente e para trás entre os dedos e através de suas juntas, sussurrando para si
mesmo.
“Você tem que fazer isso?” Clary perguntou. “É irritante.”
Jace zumbiu mais alto. Aquilo estava alto, um melódico zumbir, em algum lugar entre
„Feliz Aniversário‟ e „ O Hino da Batalha da República‟.
“Sinto muito ter te batido,” ela disse.
Ele parou o zumbido. “Fique feliz por você ter me acertado e não ao Alec. Ele teria te
batido de volta.”
“Ele parece estar se coçando pela chance,” Clary disse. “Do que foi que você chamou
Alec? Para-alguma coisa?”
“Parabatai.” Jace disse. “Isso significa um par de guerreiros que lutam juntos – que
são próximos mais do que irmãos. Alec é mais do que meu melhor amigo. Meu pai e
seu pai eram parabatai quando eles eram mais jovens. Seu pai era meu padrinho –
esse é o porquê eu vivo com eles. Eles são minha família adotiva.
“Mas seu último nome não é Lightwood.”
“Não,” Jace disse, e ela teria perguntado o que era, mas eles haviam chegado a sua
casa, e seu coração começou a bater tão alto que ela tinha certeza de que poderia
estar audível a milhas. Houve um zumbido em seus ouvidos, e as palmas de suas
mãos estavam úmidas com o suor. Ele parou em frente a cerca viva, e levantou os
olhos devagar, esperando ver a fita amarela do cordão de isolamento da polícia em
frente a porta, vidros quebrados espalhados pelo gramado, a coisa toda reduzida a
escombros.
Mas não havia sinais de destruição.
Banhada com a luz agradável da tarde, o triplex parecia brilhar. Abelhas zumbiam
preguiçosamente ao redor dos buquês de flores debaixo da janela de Madame
Dorothea.
“Parece o mesmo,” Clary disse.
“Do lado de fora.” Jace alcançou o bolso de seu jeans outro dispositivo de metal e
plástico que ela tinha confundido com um celular.
“Então, isso é um sensor? O que ele faz?” ela perguntou.

“Ele pega freqüências, como um rádio faz, mas essas freqüências são de origem
demoníacas.”
“Ondas curtas de demônio?
“Algo como isso.” Jace segurou o sensor em frente a ele enquanto se aproximava da
casa. Ele clicou ligeiramente enquanto ele subia as escadas, então parou. Jace ficou
carrancudo. “Está pegando alguns vestígios de atividade, mas podem ter sido
deixados para trás naquela noite. Não estou recebendo nada suficientemente forte
para que haja demônios presentes agora.”
Clary deixou sair um suspiro, quando ela não tinha notado que estava segurando.
“Bom.” Ela se curvou para recuperar suas chaves. Quando ela se endireitou, ela viu
os arranhões na porta da frente. Devia estar muito escuro para que ela tivesse visto
elas da última vez. Eles pareciam marcas de garra, longas e paralelas, enfiado
profundamente na madeira.
Jace tocou seu braço. “Eu vou primeiro,” ele disse. Clary queria dizer a ele que ela
não precisava ficar se escondendo atrás dele, mas as palavras não vieram. Ela pode
sentir o gosto do terror que ela sentiu quando ela viu pela primeira vez o Ravener. O
sabor era ácido e como cobre na sua língua como moedas velhas.
Ele empurrou a porta com uma mão, acenando para ela após ele, com a mão, que ele
segurava o sensor. Uma vez na entrada, Clary piscou, ajustando seus olhos para a
falta de claridade. A lâmpada acima estava desligada, a clarabóia muito suja não
passava nenhuma luz, e lançava sombras finas através do chão estragado. A porta de
Madame Dorothea estava firmemente fechada. Nenhuma luz mostrava-se através da
fenda abaixo dela. Clary imaginou preocupadamente se alguma coisa tinha acontecido
a ela.
Jace levantou sua mão e correu ao longo do corrimão. Ele parecia molhado, listrado
com alguma coisa que parecia vermelha escura na luz fraca. “Sangue.”
“Talvez o meu.” Sua voz soou pequena. “Da outra noite.”
“Já estaria seco agora se fosse,” Jace disse, “Vamos.”
Ele foi a frente subindo as escadas, Clary próxima atrás dele. As escadas estavam
escuras, e ela tentou apalpar suas chaves três vezes antes de ela conseguir deslizar a
certa dentro da fechadura. Jace se inclinou sobre ela, assistindo impacientemente.
“Não respire no meu pescoço,” ela assobiou; sua mão estava tremendo. Finalmente
alcançou a tranca da fechadura.
Jace empurrou ela para trás. “Eu vou primeiro.”
Ela hesitou, então foi para o lado para deixá-lo passar. Suas mãos estavam
pegajosas, e não eram pelo calor. Na verdade, estava frio no interior do apartamento,
quase um ar friorento penetrava pela entrada, picando sua pele. Ela sentia o impacto
da expectativa subindo enquanto ela seguia Jace pelo curto corredor e entrava na
sala.

Ela estava vazia. Surpreendentemente, completamente vazia, do jeito que tinha sido
quando elas tinham se mudado pela primeira vez – as paredes e o chão nus, os
móveis se foram, até mesmo as cortinas rasgadas das janelas. Apenas o leve
apagado quadrado da pintura na parede onde mostrava onde as pinturas de sua mãe
tinham sido penduradas. Como se num sonho, Clary se virou e caminhou em direção
à cozinha, Jace seguindo ela, seus olhos estreitaram-se.
A cozinha estava apenas vazia, até mesmo a geladeira se foi, as cadeiras, a mesa –
os armários da cozinha abertos, suas prateleiras vazias lembrando-a de uma canção
de ninar. Ela limpou sua garganta. “O que os demônios,” ela disse, “querem com
nosso microondas?”
Jace balançou sua cabeça, a boca curvando debaixo dos cantos. “Eu não sei, mas eu
não estou sensoriando nenhuma presença demoníaca agora. Eu diria que eles estão
muito longe.”
Ela olhou ao redor mais uma vez. Alguém tinha limpado o molho derramado de
Tabasco, ela notou distantemente.
“Você está satisfeita?” Jace perguntou. “Não há nada aqui.”
Ela balançou sua cabeça. “Eu preciso ver o meu quarto.” Ele olhou para ela como se
fosse dizer algo, então pensou melhor sobre isso.
"Se tem o que pegar," disse ele, deslizando a lâmina serafim em seu bolso.
A luz do corredor estava apagada, mas Clary não precisava de muita luz para andar
dentro de sua própria casa. Com Jace logo atrás dela, ela achou a porta de seu quarto
e chegou a maçaneta. Ela estava fria em sua mão – tão fria que chegou a doer, como
estar tocando em um pingente de gelo com sua pele nua. Ela viu Jace olhar para ela
rapidamente, mas ela já estava virando a maçaneta, ou tentando fazê-lo. Ela moveu
lentamente, quase pegajosa, como se o outro lado estivesse embebido em alguma
coisa viscosa e melosa.
A porta explodiu para fora, batendo em seus pés. Ela escorregou pelo chão do
corredor e bateu na parede, rolando em seu estômago. Houve um rugido morto em
suas orelhas enquanto ela empurrava a si mesma em seus joelhos.
Jace, ereto contra a parede, estava tateando seu bolso, seu rosto uma máscara de
surpresa. Iminente a ele, como um gigante de contos de fadas, estava um homem
enorme, grande como um carvalho, uma larga lâmina de um machado apertado em
uma gigantesca branca e morta mão. Esfarrapados e imundos trapos estavam
vestindo sua encardida pele, e seu cabelo era um único emaranhado confuso, com
sujeira grossa.
Ele fedia a suor venenoso e carne podre. Clary estava feliz por não poder ver seu
rosto, as costas dele eram suficientemente ruins.
Jace tinha a lâmina serafim em sua mão. Ele a levantou, chamando: “Sansanvi!”

A lâmina atirou do tubo. Clary pensou nos velhos filmes onde baionetas eram
escondidas dentro de bengalas, soltando um estalido de um interruptor. Mas ela
nunca tinha visto uma lâmina como aquela antes: clara como o vidro, com um cabo
brilhante, perigosamente afiada e quase tão longa quanto o antebraço de Jace. Ele o
golpeou, acertando o homem gigante, que cambaleou para trás com um urro.
Jace girou ao redor, correndo na direção dela. Ele pegou o seu braço, puxando ela
para os pés dela, empurrando ela à frente dele pelo corredor. Ela podia ouvir alguma
coisa atrás deles, seguindo; seus passos soavam como pesos de chumbo batendo no
chão, mas ele estava vindo rápido.
Eles se apressaram através da entrada e saíram para a escada, Jace virou-se para
bater a porta fechando-a. Ela ouviu o clique automático da fechadura e segurou sua
respiração. A porta balançou em suas dobradiças com um tremendo golpe contra
elas dentro do apartamento. Clary se apoiou a distância para as escadas. Jace olhou
para ela. Seus olhos estavam brilhando com uma excitação maníaca. “Vá para as
escadas! Saia do...”
Outro golpe veio e dessa vez as dobradiças saíram do caminho e a porta voou para
fora. Ela teria batido em Jace se ele não tivesse se movido tão rápido que mal Clary
viu; de repente ele estava no topo da escada, sua lâmina queimando em sua mão
como uma estrela cadente. Ele viu Jace olhar para ela e gritar algo, mas ela não pôde
ouvir ele acima do rugido da gigante criatura que arrebentava a porta quebrada, indo
direto para ele. Ela mesma achatada contra a parede enquanto passava uma onda de
calor e mau cheiro – e então o seu machado estava voando, chicoteando através do
ar, cortando em direção a cabeça de Jace. Ele se abaixou e aquilo acertou o corrimão,
cravando profundamente.
Jace riu. O riso pareceu irritar a criatura; abandonando o machado, ele se jogou para
Jace com seus enormes punhos levantados. Jace trouxe a lâmina serafim movendo-a
ao redor em um giro de arco, enterrando ela até o cabo no ombro do gigante. Por um
momento o gigante pareceu oscilar. Então ele se jogou para frente, suas mãos
estendidas e tentando agarrar. Jace andou para o lado apressadamente, mas a
pressa não foi suficiente: os enormes punhos seguraram abraçando ele enquanto o
gigante cambaleava e caia, arrastando Jace em sua queda. Jace gritou uma vez,
houve uma série de pesados baques quebrando, e então o silêncio.
Clary mexeu seus pés e correu escada abaixo. Jace estava esparramado aos pés dos
degraus, curvado sobre o seu braço em um ângulo estranho. Atravessando suas
pernas estava o gigante, o cabo da lâmina de Jace saliente vinda do ombro. Ele não
estava morto, mas fracamente mole, uma sangrenta espuma vazando de sua boca.
Clary pôde ver o seu rosto agora – ele tinha uma cor branca morta como papel,
intrincado com uma rede preta de horríveis cicatrizes que quase suprimia suas
feições. A cavidade de seus olhos estavam vermelhos, supurando nas covas. Lutando
contra o desejo de ofegar, Clary tropeçou nos últimos degraus, se aproximando acima
do contorcente gigante, e se ajoelhou próxima a Jace.
Ele ainda estava quieto. Ela pôs sua mão em seu ombro, sentiu sua camisa grudenta
com sangue – o sangue dele ou do gigante, ela não podia dizer. “Jace?”
Ele abriu os olhos. “Essa é a morte?”

“Quase,” Clary disse horrivelmente.
“Inferno.” Ele piscou. “Minhas pernas...”
“Fique quieto.” Rastejando ao redor da cabeça dele, Clary escorregou suas mãos
embaixo dos braços dele e o puxou. Ele grunhiu com a dor enquanto suas pernas
escorregaram debaixo da carcaça contraindo da criatura. Clary soltou e ele lutou com
os seus pés, seu braço esquerdo através de seu peito. Ela se levantou. “Seu braço
está bem?”
“Não. Quebrado,” ele disse. “Você pode alcançar o meu bolso?
Ela hesitou, concordando. “Qual deles?
“Dentro da jaqueta, do lado direito. Tire uma das lâminas serafim e dê ela para mim.”
Ele se manteve parado enquanto ela nervosamente escorregava seus dedos dentro de
seu bolso. Ela estava tão perto que ela podia sentir o perfume dele, suor, sabonete e
sangue. Sua respiração difícil em volta em seu pescoço. Seus dedos se fecharam em
um tubo e ela trouxe-o para fora, sem olhar para ele.
“Obrigado,” ele disse. Seus dedos traçaram aquilo brevemente antes de ele chamar:
“Sanvi.” Como sua antecessora, o tubo cresceu em um punhal, de aparência
perigosa, aquilo brilhou iluminando seu rosto. “Não olhe,” ele disse, mantendo acima
do corpo alarmado da coisa. Ele levantou a espada sobra a cabeça dele e a trouxe
para baixo. Sangue jorrou pela garganta do gigante, projetando-se nas botas de Jace.
Ela meio que esperava que o gigante sumisse, dobrando sobre si do mesmo modo
que fez o garoto no Pandemonium. Mas não. O ar estava cheio com o cheiro de
sangue: pesado e metálico. Jace fez um som baixo em sua garganta. Ele estava com
o rosto branco, se com dor ou nojo ela não sabia dizer. “Eu disse para você não
olhar,” ele disse.
“Eu pensei que ele ia desaparecer,” ela disse. ”De volta a sua própria dimensão –
você disse.”
“Eu disse que é o que acontece quando os demônios morrem.” Balançando, ele
retirou sua jaqueta de seus ombros, descobrindo a parte de cima de seu braço
esquerdo. “Isso não era um demônio.” Com a mão direita ele pegou alguma coisa de
seu cinto. Era um objeto em forma de vara lisa que ele tinha usado para esculpir os
círculos sobrepostos na pele de Clary. Olhando para aquilo, ela sentiu seu antebraço
começar a queimar.
Jace viu o seu olhar e abriu um fantasma de um sorriso. “Isto,” ele disse, “é minha
estela.” Ele tocou aquilo em uma das marcas pintadas abaixo de seu ombro, uma
curiosa forma quase como uma estrela. Os dois braços da estrela se projetaram do
resto da marca, desconectando. “E isso,” ele disse, “é o que acontece quando os
Caçadores de Sombras estão feridos.”
Com a ponta da estela, ele traçou uma linha ligando os dois braços da estrela.
Quando ele abaixou sua mão, a marca estava brilhando como se tivesse sido gravada

com tinta fosforescente. Enquanto Clary assistia, aquilo afundou dentro de sua pele,
como um objeto pesado afundando dentro água. Ela deixou para trás uma
fantasmagórica lembrança: uma pálida, fina cicatriz, quase invisível.
Uma imagem subiu a mente de Clary. Das costas de sua mãe, não completamente
coberta pela parte de cima de seu maio, as cicatrizes nos seus ombros e curvas de
sua coluna manchada com estreitas marcas brancas. Foi como algo que ela havia
visto em um sonho. As costas de sua mãe realmente não se pareciam com aquilo, ela
sabia. Mas a imagem importunou ela.
Jace deixou sair um suspiro, o olhar tenso de dor deixando o seu rosto. Ele moveu o
braço, primeiro lentamente, depois com mais facilidade, o levantando para cima e
para baixo, apertando seu punho. Claramente não estava mais quebrado.
“Isso é incrível,” Clary disse. “Como é que você...?”
“Isso foi uma iratze - uma runa curadora,” Jace disse. “Tocando a runa com minha
estela ela é ativada.” Ele meteu a fina varinha dentro de seu cinto e colocou de volta
sua jaqueta. Com a ponta de sua bota ele cutucou o corpo do gigante. “Nós teremos
que relatar isso a Hodge,” ele disse. “Ele vai surtar,” ele acrescentou, como se o
pensamento de alarmar Hodge desse a ele alguma satisfação. Jace, Clary pensou, era
o tipo de pessoa que gostava quando as coisas aconteciam, mesmo que as coisas
fossem ruins.
“Por que ele vai ficar maluco?” Clary disse. “E eu imagino que essa coisa não é um
demônio, e é por isso que o sensor não o registrou, certo?”
Jace concordou. ”Você vê as cicatrizes em todo o seu rosto?”
“Sim.”
“Aquelas foram feitas com uma estela. Tal como esta.” Ele deu um tapa na varinha
em seu cinto. “Você me perguntou o que acontece quando eu esculpo marcas em
alguém que não tem sangue de um Caçador de Sombras. Apenas uma marca irá
queimar você, mas um monte de marcas, mais poderosas? Esculpir na carne de um
ser humano totalmente comum com nenhum traço ancestral de Caçador de Sombras?
Você tem isso.” Ele apontou seu queixopara o cadáver. “As runas são
agonizantemente dolorosas. A marca é insana – a dor deixa eles fora de si. Eles se
tornam ferozes, estúpidos assassinos. Eles não dormem ou comem a menos que você
faça eles, e eles morrem, geralmente rapidamente. Runas tem um grande poder e
podem ser usadas para um grande bem – mas elas também podem ser usadas para o
mal. Os esquecidos são maus.
Clary olhou para ele em horror. “Mas porque alguém faria isso com si mesmo?”
“Ninguém faria. Isso é alguma coisa que foi feita com eles. Por um bruxo, talvez,
algum Downwolder que ficou mal. Os Esquecidos são leais para quem marca eles, e
eles são ferozes assassinos. Eles podem obedecer a simples ordens, também. É como
ter um – um escravo armado.” Ele andou por cima do Esquecido morto, e olhou sobre
seu ombro para ela. “Vou voltar lá em cima.”

“Mas não há nada lá.”
“Pode haver mais deles aqui.” Ele disse começando a subir os degraus.
“Eu não faria isso se fosse você,” disse uma estridente e familiar voz. “Há mais de um
deles de onde o primeiro veio.”
Jace, que estava quase no topo da escada, girou e olhou. Então Clary disse, embora
ela soubesse imediatamente quem havia falado. Seu sotaque endurecido era
inconfundível.
“Madame Dorothea?”
A anciã com sua cabeça inclinada regiamente. Ela estava na porta de seu
apartamento, vestida em algo que parecia uma tenda feita de seda crua roxa.
Correntes de ouro brilhavam sobre seus punhos e enfileirados em seu pescoço. Seu
longo cabelo separado por mechas vinham do topo de sua cabeça.
Jace estava ainda olhando. “Mas...”
“Mais o que?” Clary disse.
“Mais esquecidos,” Dorothea respondeu com uma alegria que, Clary sentiu, não se
encaixava as circunstâncias. Ele olhou ao redor da entrada. “Vocês fizeram uma
bagunça, não é mesmo? Tenho certeza que vocês não estavam planejando limpar tão
pouco. Típico.”
“Mas você é uma mundana,” Jace disse, finalmente terminando sua sentença.
“Tão observador,” Dorothea disse, seus olhos brilhando. “A Clave realmente quebrou
o molde com você.”
A perplexidade no rosto de Jace foi diminuindo, substituído por uma raiva crescente.
“Você sabe sobre a Clave?” Ele exigiu. “Você sabia sobre eles, e você sabia que havia
um Esquecido nesta casa, e você não relatou a eles? Só a existência de um Esquecido
é um crime contra o Pacto...”
“Nem a Clave ou o Pacto nunca fizeram nada por mim,” Madame Dorothea disse, seus
olhos faiscaram raivosamente... “Eu não devo a eles nada.” Por um momento seu
sotaque duro de Nova York desapareceu, sendo substituído por outra coisa, mais
pesada, um profundo sotaque que Clary não reconheceu.
“Jace, pare com isso,” Clary disse. Ela se virou para Madame Dorothea. “Se você sabe
sobre a Clave e o Esquecido,” ela disse, “então talvez você saiba o que aconteceu
com minha mãe?”
Dorothea balançou sua cabeça, seus brincos oscilando. Havia algo parecido com pena
em seu rosto. “Meu conselho a você,” ela disse, “é que esqueça sua mãe. Ela se foi...”
O chão sob Clary pareceu se inclinar. “Você quer dizer que ela está morta?”

“Não.” Dorothea falou a palavra quase relutantemente. “Eu tenho certeza que ela
ainda está viva. Por agora.”
“Então eu tenho que achar ela,” Clary disse. O mundo tinha parado de se inclinar.
Jace estava parado atrás dela, sua mão em seu cotovelo, como se fosse um apoio
dela, mas ela quase não notou. “Você entendeu? Eu tenho que encontrar ela antes...”
Madame Dorothea levantou sua mão. “Eu não quero me envolver nos negócios dos
Caçadores de Sombras.”
“Mas você sabia sobre minha mãe. Ela era sua vizinha...”
“Isso é uma investigação oficial da Clave.” Jace a cortou. “Eu sempre posso voltar
com os Irmãos do Silêncio.”
“Oh, para o...” Dorothea olhou para sua porta e, em seguida, para Jace e Clary. “Eu
suponho que vocês poderiam também entrar,” ela disse, finalmente. “Eu vou lhes
dizer o que eu posso.” Ela foi em direção a porta, então parou no limiar, com olhar
fixo. “Mas se você disser a alguém que eu ajudei vocês, Caçador de Sombras, você
vai acordar amanhã com cobras no lugar dos cabelos e um par extra de braços.”
“Isso poderia ser bom, um par extra de braços.” Jace disse. “Destreza em uma luta.”
“Não se elas crescerem no seu... Dorothea pausou e sorriu para ele, não sem malícia.
”Pescoço.”
“Caramba,” Jace disse suavemente.
“Caramba está certo, Jace Wayland.” Dorothea marchou para dentro de seu
apartamento; já com o cheiro pesado de incenso que estava flutuando pela entrada,
misturando desagradavelmente como o fedor de sangue.
“Ainda assim, Eu acho que nós poderiamos tentar falar com ela. O que nós temos a
perder?”
“Uma vez que você passar um pouco mais tempo em nosso mundo,” Jace disse,
“você não me pedirá isso novamente.”

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