10 – Cidade dos Ossos
Houve um momento de atônito silêncio antes de ambos, Clary e Jace, começarem a
falar de uma só vez. "Valentine tinha uma esposa? Ele era casado? Eu pensei..."
"Isso é impossível! Minha mãe nunca, ela sempre foi casada somente com o meu pai!
Ela não tinha um ex-marido!"
Hodge levantou as mãos exaustivamente. "Crianças..."
"Eu não sou uma criança." Clary girou para longe da mesa. "E eu não quero ouvir
mais nada."
"Clary," Hodge disse. A bondade em sua voz machucava; ela se virou lentamente, e
olhou para ela através da sala. Ela pensou em como era estranho que, com seu
cabelo cinza e o rosto amargurado, ele parecia muito mais velho que a mãe dela. E
ainda que tivessem sido "jovens" juntos, eles tinham aderido ao Círculo juntos,
tinham conhecido Valentine juntos. "Minha mãe não faria...," ela começou, e diminuiu
sua voz. Ela já não estava certa do quanto ela conhecia bem Jocelyn. Sua mãe tinha
se tornado uma estranha para ela, uma mentirosa, uma guardadora de segredos. O
que ela não teria feito?
"Sua mãe deixou o círculo," Hodge disse. Ele não se moveu na direção dela, mas
assistia ela através da sala com o olhar brilhante de um pássaro calmo. "Depois que
percebeu o que as visões extremas de Valentine tinham se tornado – uma vez que
nós sabíamos o que ele estava preparado para fazer – umitos de nós saíram. Lucian
foi o primeiro a sair. Esse foi um duro golpe para Valentine. Eles tinham sido muito
próximos." Hodge balançou a cabeça. "Então, Michael Wayland. Seu pai, Jace."
Jace levantou suas sobrancelhas, mas não disse nada.
"Houve aqueles que permaneceram fiéis. Pangborn. Blackwell. Os Lightwoods..."
"Os Lightwoods? Você quer dizer, Robert e Maryse?" Jace pareceu fulminado. "O que
me diz de você? Quando você saiu?"
"Eu não sai," Hodge disse suavemente. "Nem eles... Nós estávamos com medo, muito
medo do que ele poderia fazer. Após a Revolta, os leais como Blackwell e Pangborn
fugiram. Nós ficamos e cooperamos com a Clave. Demos a eles nomes. Ajudamos
eles a perseguir os que tinham fugido. Por isso, nós recebemos clemência".
"Clemência?" O olhar de Jace foi rápido, mas Hodge viu.
Ele disse: "Você está pensando na maldição que me segura aqui, não é mesmo? Você
sempre supôs que era uma vingança mágica expressa por um furioso demônio ou
bruxo. Eu deixei você achar isso. Mas não é a verdade. A maldição que me obriga foi
lançada pela Clave."
"Por ter sido do Círculo?" Jace perguntou, seu rosto uma máscara de espanto.
"Para não ter saído antes da Revolta."
"Mas o Lightwoods não foram punidos," Clary disse. "Porque não? Eles haviam feito a
mesma coisa que você fez."
"Houve circunstâncias atenuantes em seu caso, eles eram casados, tinham um filho.
Embora isso não é como se eles residissem neste posto, longe de casa, pela sua
própria escolha. Fomos banidos para cá, nós três, os quatro de nós, devo dizer, Alec
era um bebê chorão quando saímos da Cidade de Vidro. Eles podem regressar à Idris
apenas em caráter oficial, e apenas por curto período. Eu nunca poderei voltar. Nunca
vou ver a Cidade de Vidro novamente."
Jace o olhou. Era como se estivesse olhando para o seu tutor com novos olhos, Clary
pensou, porém, não era Jace que tinha mudado. Ele disse, "A lei é dura, mas é a lei."
"Eu lhe ensinei isso," Hodge disse, secura na diversão em sua voz. "E agora você
torna minhas lições de volta para mim. Corretamente também." Ele pareceu como se
ele quisesse se afundar na cadeira mais próxima, mas, no entanto, continuou de pé.
Na sua postura rígida, havia alguma coisa do soldado que ele tinha sido, Clary
pensou.
“Por que você não me disse antes?” ela disse. ”Que minha mãe era casada com
Valentine. Você sabia o nome dela...”
“Eu conheci ela como Jocelyn Fairchild, não Jocelyn Fray,” Hodge disse. “E você era
tão insistente em sua ignorância sobre o Mundo das Sombras, que me convenceu que
ela não poderia ser a Jocelyn que eu conhecia – e talvez eu não quisesse acreditar
nisso. Ninguém deseja o retorno de Valentine.” Ele balançou sua cabeça de novo.
“Quando eu enviei para os irmãos da Cidade do Osso esta manhã, eu não tinha idéia
que teríamos notícia deles,” ele disse. “Quando a Clave souber que Valentine pode ter
retornado, que ele está procurando pela Taça, haverá um alvoroço. Só espero que
não perturbe os Acordos.”
“Eu aposto que Valentine gostaria disso,” Jace disse. “Mas por que ele querer a Taça
é tão ruim?”
O rosto de Hodge ficou cinza. “Isso não é óbvio?” ele disse. “Então ele pode construir
para si um exército.”
Jace pareceu assustado. “Mas isso nunca...”
“Hora do jantar!” Era Isabelle, parada na moldura da porta da biblioteca. Ela ainda
estava com a colher em sua mão, embora o cabelo tenha escapado do coque e
estivesse espalhado em seu pescoço. “Desculpe se eu estou interrompendo,” ela
adicionou, enquanto refletia.
“Querido Deus,” Jace disse, “a hora tenebrosa está perto.”
Hodge pareceu alarmado, “Eu, eu, eu tive um café da manhã muito reforçado,” ele
gaguejou. “Eu quero dizer almoço. Um almoço reforçado. Eu possivelmente não
poderia comer...”
"Eu joguei fora a sopa," Isabelle disse. "E fiz um pedido ao Chinês daquele lugar no
centro da cidade."
Jace soltou-se da mesa e se esticou. "Ótimo. Estou faminto."
"Eu poderia ser capaz de comer um pedaço," Hodge admitiu brandamente.
"Vocês dois são terríveis mentirosos," disse Isabelle sombriamente. "Olha, eu sei que
vocês não gostam de eu cozinhando..."
"Então, pare de fazer isso," Jace avisou a ela razoavelmente. "Você pediu porco mu
shu? Você sabe que eu amo porco mu shu."
Isabelle lançou os olhos em direção ao céu. "Sim. Está na cozinha."
"Fantástico." Jace deslizou até ela com uma afetuosa agitação no seu cabelo. Hodge
foi atrás dele, parando apenas perto de Isabelle dando um tapinha no seu ombro,
então, ele foi embora, com um engraçado inclinar de desculpas em sua cabeça. Clary
tinha realmente, a apenas alguns minutos atrás, ter sido capaz de ver nele o
fantasma do seu antigo eu guerreiro?
Isabelle estava olhando após Jace e Hodge, rodando a colher em seus cicatrizados
dedos pálidos. Clary disse, "Ele é realmente?"
Isabelle, não olhou para ela. "E quem é realmente o quê?"
"Jace. Ele é realmente um péssimo mentiroso?"
Agora Isabelle se virou para olhar nos olhos de Clary, e eles eram grandes e escuros
e inesperadamente pensativos. "Ele não é um mentiroso em tudo. Não sobre coisas
importantes. Ele vai lhe dizer verdades horríveis, mas ele não vai mentir." Ela
pausou, antes acrescentou calmamente: "É por isso que é melhor geralmente não lhe
perguntar nada, a menos que você saiba que possa ficar para ouvir a resposta."
***
A cozinha estava quente e cheia de luz e do agridoce cheiro de comida chinesa
comprada. O cheiro recordou Clary de casa; sentada e olhando para o seu brilhante
prato de macarrão, brincando com seu garfo, e tentando não olhar para Simon, que
estava olhando para Isabelle com uma expressão mais vidrada do que o público do
Mergulhante Tso.
"Bem, eu acho que isso é tipo romântico," Isabelle disse, sugando os grãos da tapioca
através de uma enorme palha rosa.
"O que é?" perguntou Simon, instantaneamente alerta.
"Todo esse negócio sobre a mãe de Clary sendo casada com Valentine," disse
Isabelle. Jace e Hodge tinham a informado, embora Clary notou que ambos tinham
deixado de fora a parte sobre os Lightwoods terem sido do Círculo, e as maldições
que a Clave tinha pronunciado. "Portanto, agora ele está de volta dos mortos e ele
veio procurando por ela. Talvez ele queira que eles fiquem juntos."
"Eu tipo duvido que ele enviou um demônio Ravener para a casa dela, porque ele
quer que „eles voltem juntos‟,” Alec disse, que tinha se virado quando a comida era
servida. Ninguém perguntou a ele onde ele tinha estado, e ele não ofereceu a
informação. Ele estava sentado ao lado de Jace, em frente a Clary, e estava evitando
olhar para ela.
“Este não seria meu modo,” Jace concordou. “Primeiro doces e flores, então uma
carta com desculpas, então um demônio devorador de hordas. Nesta ordem.”
“Ele poderia ter enviado a ela doces e flores,” Isabelle disse. “Nós não sabemos.”
"Isabelle," disse Hodge pacientemente, "este é o homem que espalhou destruição em
Idris, como eu nunca tinha visto, que colocou Caçadores de Sombras contra
Downworlder e fez as ruas da Cidade de Vidro escoarem com sangue."
"Isso é tipo sexy," Isabelle argumentou, "de um jeito ruim."
Simon tentou olhar ameaçador, mas desistiu quando viu Clary olhando para ele.
"Então, por que Valentine querer esta Taça é tão ruim, e por que ele acha que a mãe
Clary tem isso?" ele perguntou.
"Você disse que era assim que ele poderia fazer um exército," Clary disse, se virando
para Hodge. "Você quis dizer, porque vocês podem usar a Taça para fazer Caçadores
de Sombras?"
"Sim."
"Então Valentine apenas caminha até qualquer cara na rua e faz uma Caçador de
Sombras dele? Só com a Taça?" Simon inclinou para a frente. "Será que isso
funcionaria em mim?"
Hodge deu a ele um longo e mensurado olhar. "Possivelmente," ele disse. "Mas o
mais provavel é que, você esteja muito velho. A Taça funciona em crianças. Um
adulto seria ou não, afetado pelo processo totalmente, ou o mataria em definitivo."
"Um exército de crianças," Isabelle disse suavemente.
"Apenas por alguns anos," disse Jace. "Crianças crescem rápido. Não seria tão longo
antes que elas fossem uma força para se combater."
"Não sei," disse Simon. "Transformar um bando de meninos em guerreiros, tenho
ouvido falar de coisas piores acontecendo. Eu não vejo grande coisa manter a Taça
longe dele."
"Deixar que ele inevitavelmente utilize este exército para lançar um ataque à Clave,"
Hodge disse secamente, "a razão por que só alguns seres humanos são selecionados
para ser convertidos em Nephilim é que a maioria pode nunca sobreviver à transição.
Isso necessita de uma especial força e resistência. Antes deles poderem ser
convertidos, eles devem ser testados exaustivamente – mas Valentine nunca se
incomodaria com isso. Ele iria usar a Taça em qualquer criança que ele capturasse, e
utilizando os vinte por cento que sobrevivessem para ser o seu exército."
Alec estava olhando Hodge com o mesmo horror que Clary sentia. "Como você sabe
que ele iria fazer isso?"
"Porque," disse Hodge, "quando ele estava no Círculo, esse era o seu plano. Ele disse
que era a única forma de construir o tipo de força que era necessária para defender o
nosso mundo."
"Mas isso é assassinato," disse Isabelle, que parecia um pouco verde. "Ele estava
falando de matar crianças."
"Ele disse que tinha feito o mundo seguro para os seres humanos por mil anos," disse
Hodge, "e agora era a vez de nos reembolsar com o seu próprio sacrifício."
"Seus filhos?" Jace protestou, suas bochechas coradas. "Isso vai contra tudo o que
nós supomos ser. Proteger os indefesos, salvar, guardar a humanidade"
Hodge empurrou seu prato para longe. "Valentine estava louco," ele disse. "Brilhante,
mas louco. Ele se preocupava com nada além de matar demônios e Downworlders.
Nada além de tornar o mundo puro. Ele teria sacrificado seu próprio filho para a
causa e não podia entender como alguém não o faria".
"Ele tinha um filho?" Alec disse.
"Eu estava falando figurativamente," Hodge disse, alcançando o seu lenço. Ele o usou
para esfregar na sua testa antes de retorná-lo para o seu bolso. Sua mão, Clary viu,
estava tremendo ligeiramente. "Quando sua terra foi queimada, quando sua casa foi
destruída, se presumiu que ele tinha se incendiado e a Taça feita em cinzas, melhor
do que renunciar um ao outro a Clave. Seus ossos foram encontrados nas cinzas,
juntamente com os ossos de sua esposa."
"Mas a minha mãe sobreviveu," disse Clary. "Ela não morreu naquele incêndio."
"E nem, ao que parece agora, Valentine," Hodge disse. "A Clave não ficará satisfeita
de ter sido enganada. Porém, mais importante, eles vão querer possuir a Taça. E
mais importante do que isso, eles vão querer ter certeza que Valentine não."
"Me parece que a primeira coisa que nós devemos fazer é achar a mãe de Clary,"
disse Jace. "Encontrando ela, se encontrará a Taça, temos que conseguir isso antes
que Valentine o faça."
Isto soou ótimo para Clary, mas Hodge olhou para Jace como se ele tivesse proposto
fazer malabarismos com nitroglicerina em uma solução. "Absolutamente não."
"Então o que vamos fazer?"
"Nada," disse Hodge. "É melhor deixar tudo isso para os qualificados e experientes
Caçadores de Sombras."
"Eu estou qualificado," Jace protestou. "Eu sou experiente."
O tom de Hodge era firme, quase paternal. "Eu sei que você é, mas você ainda é
uma criança, ou quase uma."
Jace olhou para Hodge através dos olhos semicerrados. Seus cílios eram longos,
lançando sombras sobre os seus angulares ossos do rosto. Em outro alguém teria
sido um olhar tímido, até mesmo um de pesar, mas em Jace parecia restrito e
ameaçador. "Eu não sou uma criança."
“Hodge está certo," Alec disse. Ele estava olhando para Jace, e Clary pensou que ele
deveria ser uma das poucas pessoas no mundo que não olhava para Jace como se
estivesse com medo dele, mas como se ele estivesse com medo por ele. “Valentine é
perigoso. Sei que você é um bom Caçador de Sombras. Você é provavelmente o
melhor da nossa idade. Mas Valentine é o melhor que alguma vez já existiu. Precisou
de uma enorme batalha para abatê-lo."
"E ele não ficou exatamente derrotado," Isabelle disse, examinando os dentes de seu
garfo. "Aparentemente."
"Mas nós estamos aqui," disse Jace. "Nós estamos aqui, e em virtude do Acordo,
ninguém mais está. Se não fizermos algo..."
"Nós vamos fazer alguma coisa," disse Hodge. "Eu vou enviar uma mensagem a
Clave esta noite. Eles podem ter uma força de Nephilim por aqui amanhã, se eles
precisarem. Eles vão cuidar disso. Você já fez mais do que o suficiente."
Jace acalmou-se, mas seus olhos estavam ainda brilhantes. "Eu não gosto disso."
"Você não tem que gostar disso," disse Alec. "Você só tem que calar a boca e não
fazer nada estúpido."
“Mas e sobre a minha mãe?” Clary exigiu. "Ela não pode esperar por algum
representante da Clave aparecer. Valentine tem ela agora mesmo, e Pangborn e
Blackwell disseram então... e ele poderia..." Ela não conseguia se fazer dizer a
palavra tortura, mas Clary sabia que ela não era a única a pensar aquilo. De repente,
ninguém na mesa conseguia encontrar os olhos dela.
Exceto Simon. "Machucar ela," ele disse, terminando a sua frase. "Exceto Clary, eles
também disseram que ela estava inconsciente e que Valentine não estava feliz com
isso. Ele parece estar esperando que ela acorde."
"Eu ficaria inconsciente se eu fosse ela," Isabelle murmurou.
"Mas isso pode ser a qualquer momento," Clary disse, ignorando Isabelle. "Eu pensei
que a Clave tinha prometido proteger as pessoas. Eles não poderiam já ter mandado
Caçadores de Sombras aqui agora? Eles não poderiam já estar procurando por ela?"
"Isso seria mais fácil," rebateu Alec, "se tivéssemos a menor idéia onde procurar."
"Mas nós temos," disse Jace.
"Nós temos?" Clary olhou para ele, assustada e ansiosa. "Onde?"
"Aqui." Jace se inclinou para frente e tocou seus dedos ao lado de sua têmpora, tão
suavemente que um rubor penetrou até o rosto dela. "Tudo que precisamos saber
está trancado na sua cabeça, debaixo desses lindos cachos vermelhos."
Clary chegou até a tocar o cabelo dela protetivamente. "Eu não acho que..."
“Então o que você vai fazer?" Simon perguntou rispidamente. "Cortar a cabeça dela,
abrir para chegar a isso?"
Os olhos de Jace faíscaram, mas ele disse calmamente, "De modo nenhum. Os
Irmãos do Silêncio podem ajudá-la a recuperar a sua memória."
"Você odeia os Irmãos do Silêncio," protestou Isabelle.
"Eu não odeio eles," Jace disse candidamente. "Eu tenho medo deles. Não é a mesma
coisa."
"Eu pensei que você tinha dito que eles eram bibliotecários," Clary disse.
"Eles são bibliotecários."
Simon silvou. "Aqueles que devem ser assassinos com remuneração atrasada."
"O Irmãos do Silêncio são arquivistas, mas isso não é tudo o que eles são,"
interrompeu Hodge, soando como se ele estivesse esgotando a paciência. "A fim de
reforçar as suas mentes, eles optaram por tomar sobre si algumas das mais
poderosas Runas jamais criadas. O poder dessas Runas é tão grande que a utilização
delas por eles...," Ele se interrompeu e Clary ouviu a voz de Alec em sua cabeça,
dizendo: Eles se mutilam a si mesmo. "Bem, eles deformam e alteram suas formas
físicas. Eles não são guerreiros, no sentido que outros Caçadores de Sombras são
guerreiros. Seus poderes são da mente, e não do corpo."
"Eles podem ler mentes?" Clary disse em uma pequena voz.
"Entre outras coisas. Eles estão entre os mais temidos de todos os caçadores de
demônios."
"Não sei," Simon disse, "isso não parece tão ruim para mim. Eu prefiro ter alguém
bagunçando dentro da minha cabeça do que cortando ela em pedaços."
"Então você é um idiota maior do que você parece," disse Jace, cumprimentando ele
com desprezo.
"Jace está certo," disse Isabelle, ignorando Simon. "Os Irmãos do Silêncio são
realmente assustadores."
As mãos de Hodge apertaram-se em cima da mesa. "Eles são muito poderosos," ele
disse, “Eles andam na escuridão e não falam, mas eles podem abrir uma fenda na
mente de um homem, da mesma forma que você pode abrir uma fenda em uma noz
e deixar ele gritando sozinho no escuro, se for isso que eles desejam."
Clary olhou para Jace, horrorizada. "Você quer me dar a eles?"
"E quero que eles ajudem você." Jace se inclinou em toda a mesa, tão perto que ela
podia ver o âmbar escuro salpicando luz nos seus olhos. "Talvez nós não precisemos
procurar pela Taça," ele disse suavemente. "Talvez a Clave faça isso. Mas o que está
em sua mente pertence a você. Alguém escondeu segredos aí, segredos que você não
pode ver. Você não quer saber a verdade sobre sua própria vida?"
"Eu não quero alguém dentro da minha cabeça," ela disse fracamente. Ela sabia que
ele estava certo, mas a idéia de levar a si mesma a seres que até os Caçadores de
Sombras achavam assustadores enviava um resfriamento através de seu sangue.
"Eu vou com você," Jace disse. "Eu vou ficar com você enquanto eles fazem isso."
"Já chega." Simon tinha se levantado da mesa, vermelho com raiva. "Deixe-a em
paz."
Alec olhou acima para Simon, como se só agora ele tivesse reparado nele, limpando o
cabelo preto bagunçado para fora de seus olhos e piscando. "O que você ainda está
fazendo aqui, mundano?"
Simon ignorou ele. "Eu disse, deixe ela em paz."
Jace olhou acima para ele, um lento, olhar docemente venenoso. "Alec está certo,"
disse ele. "O Instituto está ligado por juramento a abrigar Caçadores de Sombras,
não seus amigos mundanos. Especialmente quando eles exaurem sua recepção."
Isabelle se levantou e tomou o braço de Simon. "Eu vou mostrar a ele a saída.”
Por um momento parecia que ele iria resistir, mas ele apanhou o olhar de Clary
através da mesa, enquanto ela balançava a cabeça ligeiramente. Ele se acalmou.
Cabeça levantada, ele deixou Isabelle levá-lo do salão.
Clary se levantou. "Estou cansada," ela disse. "Eu quero ir dormir."
"Você não comeu quase nada...," Jace protestou.
Ela colocou para o lado a mão dele que a alcançava. "Não estou com fome." Estava
mais frio no corredor do que tinha estado na cozinha. Clary se inclinou contra a
parede, puxando a sua camisa, que foi aderindo ao suor frio em seu peito. Longe do
salão, ela podia ver as figuras de Isabelle e Simon se afastando, tragados pelas
sombras. Ela olhou eles irem silenciosamente, um estranho tiritante sentimento
crescendo no fundo do seu estômago. Quando Simon se tornou responsabilidade de
Isabelle, em vez dela? Se havia uma coisa que ela estava aprendendo com tudo isso,
era como era fácil perder tudo o que sempre tinha pensado que teria para sempre.
A sala toda dourada e branco, com paredes altas que cintilavam como esmalte, e um
telhado, acima, claro e brilhante como diamantes. Clary usava um vestido verde de
veludo e carregava um leque dourado na mão. Seus cabelos, torcidos em um laço que
derramavam em cachos, fazia a cabeça dela sentir estranhamente pesada cada vez
que ela se virava para olhar para trás dela.
"Você vê alguém mais interessante do que eu?" Simon perguntou. No sonho ele era
misteriosamente um expert dançarino. Ele dirigia ela, através da multidão, como se
ela fosse uma folha capturada em um correnteza do rio. Ele estava vestido todo de
preto, como um Caçador de Sombras, e aquilo demonstrava sua cor com uma boa
vantagem: cabelo escuro, pele ligeiramente dourada, dentes brancos. Ele é lindo,
Clary pensou, com um choque de surpresa.
"Não há ninguém mais interessante do que você," Clary disse. "É só esse lugar. Eu
nunca tinha visto nada assim.” Ela se virou novamente, enquanto eles passavam por
uma fonte de taças de champanhe: uma enorme recipiente de prata, o centro da peça
era uma sereia com um jarro de vinho espumante derramando abaixo das costas
nuas dela. As pessoas estavam enchendo seus copos na fonte, rindo e conversando.
A sereia virou a cabeça dela enquanto Clary passava, e sorriu. O sorriso de dentes
brancos mostraram tão afiados quanto os de um vampiro.
"Bem-vinda à Cidade de Vidro," disse uma voz que não era a de Simon. Clary
descobriu que Simon tinha desaparecido, e ela já estava dançando com Jace, que
estava vestido de branco, o material de sua camisa um fino algodão; ela podia ver as
marcas pretas através dela. Havia uma corrente de bronze em torno de sua garganta,
e os seus cabelos e olhos pareciam mais dourados do que nunca, ela pensou em
como ela gostaria de pintar o seu retrato com o embotado ouro das pinturas que as
vezes ela via nos ícones Russos.
“Onde está o Simon?" Ela perguntou enquanto eles giravam novamente em torno da
fonte de champanhe. Clary viu Isabelle ali, com Alec, ambos em azul real. Eles
estavam segurando suas mãos como Hansel e Gretel na floresta escura.
"Este lugar é para a vida," Jace disse. Suas mãos estavam frias sobre as delas, e ela
estava consciente delas de uma maneira que ela não tinha estado com as de Simon.
Ela apertou seus olhos para ele. "O que você quer dizer?"
Ele se inclinou para perto. Ela podia sentir seus lábios contra a sua orelha. Eles não
estavam frios. "Acorde, Clary," ele sussurrou. "Acorde. Acorde."
Ela ficou ereta na cama, ofegando, o cabelo pregado no pescoço com o suor frio. Seus
punhos estavam seguros em um forte aperto; ela tentava se distanciar, então
percebeu quem estava retendo ela. "Jace?"
"Sim." Ele estava sentado à beira da cama, como ela tinha chegado a uma cama?
Parecendo desgrenhada e meio acordada, de manhã cedo com cabelos e olhos
sonolentos.
"Me larga.”
"Desculpe." Seus dedos escorregaram dos pulsos dela. "Você tentou me bater no
segundo que eu disse o seu nome."
"Estou um pouco nervosa, eu acho." Ela olhou ao redor. Ela estava em um quarto
pequeno decorado em madeira escura. Pela qualidade da luz desmaiada proveniente
da janela semi-aberta, ela adivinhou que era madrugada, ou logo depois. Sua mochila
estava encostada contra uma parede. "Como eu vim parar aqui? Não me lembro..."
"Eu achei você dormindo no chão do corredor." Jace soou divertido. "Hodge me
ajudou a colocar você na cama. Pensei que seria mais confortável em um quarto do
que na enfermaria."
"Uau. Não me lembro de nada." Ela correu as mãos através de seus cabelos,
empurrando os bagunçados cachos fora de seus olhos. "Que horas são, afinal?"
"Cerca de cinco".
"Da manhã?" Ela olhou para ele. "É melhor você ter um bom motivo para me
acordar."
"Porque, você estava tendo um bom sonho?"
Ela podia ainda ouvir música em suas orelhas, sentir as pesadas jóias tocando suas
bochechas. "Não me lembro."
Ele se levantou. "Um dos Irmãos do Silêncio está aqui para ver você. Hodge me
enviou para te acordar. Na verdade, ele se ofereceu para te acordar sozinho, mas,
uma vez que é cinco horas, pensei que você ia querer alguém menos esquisito, se
você quisesse algo bonito para olhar."
"Quer dizer você?"
"Quem mais?"
"Eu não concordo com isso, você sabe," ela rebateu. "Essa coisa de Irmão do
Silêncio."
"Você quer encontrar a sua mãe," ele disse, "ou não?"
Ela olhou para ele.
"Você apenas tem que encontrar com o Irmão Jeremiah. Só isso. Você pode até
gostar dele. Ele tem um grande senso de humor para um cara que nunca disse nada."
Ela colocou sua cabeça em suas mãos. "Sai daqui. Saia para que eu possa me trocar."
Ela colocou suas pernas para fora da cama no momento em que a porta fechou atrás
dele. Apesar de ser apenas madrugada, o calor úmido já estava começando a se
reunir no quarto. Ela empurrou a janela fechada e foi para o banheiro para lavar o
rosto e lavar a sua boca, a qual tinha gosto de papel velho.
Cinco minutos mais tarde ela estava deslizando os pés dela em seu tênis verde. Ela
se trocou pondo shorts cortados e uma camiseta preta comum. Se apenas suas
magras e sardentas pernas parecessem mais como as malhadas e esguias pernas de
Isabelle. Mas isso não poderia ajudar. Ela puxou o cabelo para trás em um rabo de
cavalo e foi se encontrar com Jace no corredor.
Church estava lá com ele, resmungando e circulando inquietamente.
"O que é que há com o gato?" Clary perguntou.
"Os Irmãos do Silêncio deixam ele nervoso."
"Parece que eles deixam todos nervosos."
Jace sorriu fracamente. Church miou enquanto ele ia para o fundo do corredor, mas
não seguiu eles. Pelo menos as pedras grossas das paredes da catedral ainda
detinham algumas horas do frio da noite: Os corredores eram escuros e frios.
Quando eles chegaram a biblioteca, Clary ficou surpresa por ver que as lâmpadas
estavam apagadas. A biblioteca era apenas iluminada pelo brilho leitoso que era
filtrado através das janelas elevadas que ficavam no telhado abobado. Hodge
sentado atrás da enorme mesa em um terno, seus cabelo listrado de cinza, prateado
pela luz da madrugada. Por um momento ela pensou que ele estava sozinho no salão:
que Jace tinha ido fazer uma brincadeira em cima dela. Depois, ela viu uma figura
sair da obscuridade, e ela percebeu que tinha pensado que era uma mancha escura
da sombra, era um homem. Um homem alto, em um manto pesado que caia do
pescoço ao pé, cobrindo-o completamente. A capa do manto estava levantada,
escondendo seu rosto. O roupão em si era da cor de pergaminho, e os intricados
desenhos rúnicos ao longo da orla e das mangas pareciam como se tivessem sido
tingidas em sangue seco. O cabelo se levantou ao longo dos braços de Clary e na
parte de trás do pescoço dela, formigando quase dolorosamente.
"Este," disse Hodge, "é Irmão Jeremiah da Cidade do Silêncio."
O homem veio em direção a eles, o pesado manto agitando enquanto ele se movia, e
Clary notou que aquilo era algo sobre ele que era estranho: Ele não fez qualquer som
enquanto ele andou, nem a mais leve pegada. Mesmo o seu manto, que deveria ter
ruído, era silencioso. Ela quase se perguntou se ele era um fantasma, mas não, ela
pensou enquanto ele parou em frente a eles, havia um estranho, doce cheiro sobre
ele, como incenso e sangue, o cheiro de algo vivo.
"E esta, Jeremiah," Hodge disse, levantando-se de sua mesa, "é a garota sobre a qual
eu escrevi para você. Clarissa Fray."
O rosto encapuzado virou lentamente na direção dela. Clary sentiu frio na ponta de
seus dedos. "Oi," ela disse.
Não houve resposta.
"Eu decidi que você estava certo, Jace," disse Hodge.
"Eu estava certo," Jace disse. "Eu normalmente estou."
Hodge ignorou isso. "Eu enviei uma carta a Clave sobre tudo na noite passada, mas
as memórias de Clary são dela mesma. Só ela pode decidir como ela pretende lidar
com o conteúdo de sua própria cabeça. Se ela quer a ajuda dos Irmãos do Silêncio, é
ela que deve ter essa escolha."
Clary não disse nada. Dorothea havia dito que havia um bloqueio em sua mente,
escondendo alguma coisa. É claro que ela precisava saber o que era. Mas a figura tão
sombria do Irmão do Silêncio era tão... bem, silenciosa. Silêncio por si mesmo
parecia flutuar vindo dele como uma escura maré, preta e grossa como tinta. Aquilo
gelava seus ossos.
O rosto do irmão Jeremiah ainda estava voltado para ela, nada mas que a escuridão
visível debaixo de seu capuz. Esta é a filha de Jocelyn?
Clary deu um pequeno suspiro, dando um passo para atrás. As palavras tiveram um
eco dentro da cabeça, como se ela própria tivesse pensado nelas, mas ela não tinha.
"Sim," Hodge disse, e acrescentou rapidamente, "mas o pai dela era um mundano."
Isso não importa, Jeremiah disse. O sangue da Clave é dominante.
"Porque você chama a minha mãe de Jocelyn?" Clary disse, procurando em vão por
algum sinal de um rosto debaixo do capuz. "Você a conhece?"
"Os Irmãos mantêm registros sobre todos os membros da Clave," Hodge explicou.
"Registros completos."
"Não tão completos," disse Jace, "se eles nem sequer sabiam que ela ainda estava
viva."
É provável porque ela tinha o apoio de um bruxo em seu desaparecimento. A maioria
dos Caçadores de Sombras não podem escapar tão facilmente da Clave.
Não havia nenhuma emoção na voz do Jeremiah, ele pareceu que nem aprovava,
nem desaprovava as ações da Jocelyn.
"Há algo que eu não entendo," disse Clary. "Porque Valentine acha que minha mãe
tem a Taça Mortal? Se ela passou por tantos problemas para desaparecer, como você
disse, então porque é que ela iria levá-la?"
"Para manter ele longe tomando-a em suas mãos,” disse Hodge. "Ela acima de todas
as pessoas teria sabido o que aconteceria se Valentine tivesse a Taça. E eu imagino
que ela não confiava na Clave para guardá-la. Não depois de Valentine tê-los
afastado em primeiro lugar."
"Acho que sim." Clary não podia manter a dúvida de sua voz. A coisa toda parecia tão
improvável. Ela tentou imaginar a mãe dela fugindo coberta pela escuridão, com uma
grande taça de ouro escondida no bolso de seu macacão, e falhou.
"Jocelyn se voltou contra o seu marido, quando ela descobriu o que ele pretendia
fazer com a Taça," Hodge disse. "Não é razoável assumir que ela iria fazer tudo o que
estivesse em seu poder para manter a Taça não saindo de suas mãos. A Clave por si
mesma teria procurado primeiro por ela se eles pensassem que ela ainda estivesse
viva."
"O que me parece," Clary disse com uma ponta da sua voz," que ninguém que a
Clave pensa que está morto, nunca está realmente morto. Talvez eles devessem
investir em registros odontológicos."
"Meu pai morreu," disse Jace, a mesma ponta em sua voz. "Eu não preciso de
registros odontológicos para me dizer isso."
Clary virou para ele com alguma exasperação. "Olha, eu não quis dizer..."
Isso é o suficiente, interrompeu Irmão Jeremiah. Há verdade suficiente para ser
aprendida aqui, se você tiver paciência suficiente para escutá-la.
Com um gesto rápido ele levantou as mãos e retirou o capuz para trás do seu rosto.
Esquecendo Jace, Clary lutou com o desejo de gritar. A cabeça do arquivista era
careca, lisa e branca como um ovo, sombriamente indentados onde os seus olhos
haviam sido. Eles já tinham desaparecido. Seus lábios foram costurados cruzados
com um padrão de linhas escuras semelhante a suturas cirúrgicas. Ela então
compreendeu o que Isabelle quis dizer com mutilação.
Os Irmãos da Cidade do Silêncio não mentem, Jeremiah disse. Se você quiser a
verdade de mim, você a terá, mas vou lhe pedir o mesmo em troca.
Clary levantou seu queixo. "Eu também não sou uma mentirosa."
A mente não pode mentir.
Jeremiah moveu-se em direção a ela. É as suas memórias que eu quero.
O cheiro de sangue e tinta era sufocante. Clary sentiu uma onda de pânico.
"Espera..."
"Clary." Era Hodge, o seu tom suave. "É inteiramente possível que haja memórias
enterradas ou reprimidas, memórias formadas quando você era jovem demais para
ter uma recordação consciente delas, Irmão Jeremiah pode alcançá-las. Isso pode nos
ajudar em um grande plano."
Ela não disse nada, mordendo o interior de seu lábio. Ela odiava a idéia de alguém
vasculhando dentro da cabeça, tocando memórias tão privadas e escondidas que
mesmo ela não poderia alcançá-las.
"Ela não tem que fazer nada que ela não queira fazer," Jace disse repentinamente.
"Não é?"
Clary interrompeu Hodge antes que ele pudesse responder. "Está tudo bem. Vou
fazer isso."
Irmão Jeremiah concordou brevemente, e se moveu em direção a ela com a falta de
som que enviou arrepios até a sua coluna vertebral. "Vai doer?" ela sussurrou.
Ele não respondeu, mas suas estreitas mãos brancas vieram para tocar seu rosto. A
pele dos dedos era fina como papel de pergaminho, toda ela pintada com runas. Ela
podia sentir o poder nelas, saltando como eletricidade estática para picar sua pele.
Ela fechou os olhos dela, mas não antes que ela visse a ansiosa expressão que
atravessou o rosto de Hodge.
Cores giravam contra a escuridão atrás das pálpebras dela. Ela sentiu uma pressão,
uma tração puxar em sua cabeça, mãos e pés. Ela prendeu suas mãos, contra o
esforço excessivo do peso, da escuridão. Ela sentia como se ela fosse pressionada
contra algo duro e inflexível, sendo lentamente esmagada. Ela ouviu a si mesma
suspirar e estava de repente tudo frio, frio como no inverno. Em um flash ela viu ruas
geladas, edifícios cinzentos assomando sobre a cabeça, uma explosão de brancura
acertando seu rosto em partículas congelando...
"Já chega." A voz de Jace cortou o inverno frio, e a neve caindo desapareceu, uma
ducha de branco. Os olhos de Clary saltaram abertos.
Lentamente, a biblioteca voltou ao foco, os livros alinhados nas paredes, os rostos
ansiosos de Hodge e Jace. Irmão Jeremiah ficou imóvel, um ídolo de marfim esculpido
em tinta vermelha. Clary tomou conhecimento da acentuada dor nas mãos, e olhou
para baixo para ver as linhas vermelhas pontuadas em toda a sua pele onde suas
unhas tinham cravado.
"Jace," Hodge disse em reprovação.
"Olhe para as mãos dela." Jace gesticulou sinais em direção a Clary, que curvou seus
dedos para cobrir as feridas em suas palmas.
Hodge pôs uma mão larga sobre seu ombro. "Você está bem?"
Lentamente, ela moveu a cabeça em um aceno. O peso esmagador tinha ido, mas ela
podia sentir que o suor encharcou o cabelo dela, colando sua camisa nas suas costas
como fita adesiva.
Há um bloqueio na sua mente, Irmão Jeremiah disse. Sua memória não pôde ser
alcançada.
"Um bloqueio?" Jace perguntou. "Você quer dizer, ela reprimiu as suas memórias?"
Não. Eu quero dizer que foram bloqueadas de sua mente consciente por um feitiço.
Eu não posso quebrá-lo aqui. Ela terá de vir para a Cidade do Osso e ficar diante da
Irmandade.
"Um feitiço?" disse Clary incredulamente. "Quem teria posto um feitiço em mim?"
Ninguém respondeu ela. Jace olhava para seu tutor. Ele estava surpreendentemente
pálido, Clary pensou, considerando que esta tinha sido a idéia dele. "Hodge, ela não
deveria ter de ir se ela não quiser..."
"Está tudo bem." Clary deu um profundo suspiro. Sua palmas doeram onde suas
unhas tinham cortado, e ela precisava terrivelmente deitar em algum lugar escuro e
tranquilo. "Eu vou. Eu quero saber a verdade. Quero saber o que está na minha
cabeça."
Jace acenou uma vez. "Muito bem. Então eu vou com você."
Deixar o Instituto era como estar subindo em um molhado, saco de lona quente. O ar
úmido pressionava sobre a cidade, transformando o ar em sopa encardida. "Não vejo
por que razão temos de ir separadamente do Irmão Jeremiah," Clary rosnou. Eles
estavam de pé na esquina fora do Instituto. As ruas estavam desertas, à exceção de
um caminhão de lixo movendo-se lentamente para baixo da quadra. "O quê, ele está
envergonhado de ser visto com Caçadores de Sombras ou algo assim?"
"A Irmandade são Caçadores de Sombras," Jace salientou. De alguma maneira ele
conseguia aparentar refrescado, apesar do calor. Isso fez Clary querer acertá-lo.21
"Eu suponho que ele foi em seu carro?" Ela perguntou sarcasticamente.
Jace sorriu. "Algo como isso."
Ela balançou a cabeça dela. "Você sabe, eu me sentiria muito melhor sobre isso se
Hodge tivesse vindo com a gente."
"O quê, eu não sou proteção suficiente para você?"
"Não se trata de proteção que eu preciso agora, é de alguém que pode me ajudar a
pensar." De repente, lembrou, ela bateu com uma mão sobre a sua boca. "Oh,
Simon!"
"Não, eu sou Jace," Jace disse pacientemente. "Simon é doninhamente pequeno com
um corte de cabelo ruim e um horrendo senso de moda."
"Ah, cala a boca," ela respondeu, mas foi mais automático do que sincero. "Eu quis
dizer ligar, antes que eu fosse dormir. Ver se ele chegou em casa bem."
Balançando sua cabeça, Jace contemplava os céus como se eles estivessem prestes a
abrir-se e revelar os segredos do universo. "Com tudo o que está acontecendo, você
está preocupado com o cara de doninha?"
"Não chame ele disso. Ele não se parece com uma doninha."
"Você pode estar certa," Jace disse. "Eu conheci uma doninha atraente ou duas,
quando era novo. Ele se parece mais com um rato."
21
To smack pode significar: dar um beijo, beijoca, provar, acertar... e, onde está escrito refrescado a tradução ao pé da letra
seria fresco, mas...
"Ele não é..."
"Ele está provavelmente em casa descansando em uma poça de sua própria saliva.
Apenas espere até que Isabelle fique entediada com ele e você tenha que juntar as
peças."
"É provável que Isabelle fique entediada com ele?" Clary perguntou.
Jace pensou nisso. "Sim," disse ele.
Clary se perguntou se talvez Isabelle era mais esperta do que Jace lhe dava crédito.
Talvez ela iria perceber que maravilhoso cara era Simon: quão engraçado, quão
inteligente, quão legal. Talvez eles tenham iniciado o namoro. A idéia encheu ela com
um horror inominável.
Perdida em pensamentos, o que levou alguns instantes para perceber que Jace estava
dizendo alguma coisa para ela. Quando ela piscou para ele, ela viu um sorriso torcido
espalhado no seu rosto. "O quê?" ela perguntou, brutalmente.
"Eu gostaria que você parasse desesperadamente de tentar conseguir a minha
atenção com isso," disse ele. "Está ficando embaraçoso."
"Sarcasmo é o último refúgio da falência imaginativa" ela disse a ele.
"Eu não posso ajudar nisso. Eu uso minha aguçada capacidade mental para esconder
a minha dor interior."
"Sua dor será exterior em breve, se você não sair de circulação. Está tentando ser
atropelado por um táxi?"
"Não seja ridícula," ele disse. "Nós nunca poderiamos conseguir um táxi facilmente
neste bairro."
Como se em uma sugestão, um estreito carro preto com vidros coloridos veio
roncando até frear e parar na frente de Jace, o motor rosnando. Era longo e lustroso
e baixo até o solo como uma limusine, os vidros curvados para fora.
Jace olhou para ela de soslaio; havia diversão no seu olhar, mas também uma certa
urgência. Ela olhou para o carro novamente, deixando o seu olhar relaxar, deixar a
força de que era real furar o véu de glamour.
Agora, o carro parecia com a carruagem da Cinderela, exceto que em vez de ser rosa
e azul e ouro como um ovo da páscoa, ele era negro como veludo, suas janelas
sombriamente pintadas. As rodas eram negras, o couro adornando tudo de preto.
Sobre o metalizado banco preto do motorista sentava-se o Irmão Jeremiah, que
segurava um conjunto de rédeas em suas mãos enluvadas. Seu rosto estava
escondido sob o capuz de seu manto cor de pergaminho. Na outra extremidade das
rédeas haviam dois cavalos, negros como fumaça, rosnando e batendo as patas para
o céu.
“Entre,” Jace disse. Quando ela continuava lá em pé boquiaberta, ele pegou o seu
braço e a empurrou através da porta semi-aberta do carro, impulsionando-se a si
mesmo depois dela. A carruagem começou a se mover antes que ele tivesse fechado
a porta atrás deles. Ele caiu de volta no seu assento estofado lustroso, e olhou para
ela. "A escolta pessoal para a Cidade do Osso não é nada para se torcer o seu nariz."
"Eu não estou torcendo o meu nariz. Eu só estava surpresa. Eu não esperava... Quer
dizer, eu pensei que era um carro."
"Relaxa," Jace disse. "Aproveite esse cheiro de carruagem nova."
Clary rolou seus olhos e virou para olhar para fora das janelas. Ela teria pensado que
aqueles cavalos e a carruagem não teriam chance no tráfego de Manhattan, mas eles
estavam se movendo facilmente, a sua silenciosa progressão despercebida pelo
barulho de táxis, ônibus e SUVs que sufocavam na avenida. Na frente deles um táxi
amarelo com faixas, cortava a direção do seu progresso. Clary ficou tensa,
preocupada com os cavalos, então a carruagem se levantou como se os cavalos
tivessem ligeiramente ido para o topo da cabine. Ela segurou um suspiro. A
carruagem, em vez de se arrastar ao longo do chão, levada por detrás dos cavalos,
rolou suavemente e sem som sobre os tetos dos táxis para baixo do outro lado. Clary
olhou para trás enquanto o carro batia no chão novamente com um movimento
brusco, o taxista estava fumando e olhando em frente, absolutamente absorto. "Eu
sempre achei que os motoristas de taxi não prestavam atenção ao tráfego, mas isso é
ridículo," ela disse fracamente.
"Só porque você pode ver através do glamour agora..." Jace deixou o final da frase
pendurar delicadamente no ar entre eles.
"Só posso ver através dele quando me concentro," ela disse. "E a minha cabeça dói
um pouco."
"Aposto que é por causa do bloqueio em sua mente. Os Irmãos vão cuidar disso."
"Então o quê?"
"Então, você verá o mundo como ele é, infinito," disse Jace com um sorriso seco.
"Não cite Blake para mim."
O sorriso ficou menos seco. "Eu não achei que você poderia reconhecê-lo. Você não
me parece como alguém que lê um monte de poesia."
"Todo mundo sabe da citação por causa do The Doors.”
Jace olhou para ela inexpressivamente.
"The Doors. Era uma banda."
"Se você está dizendo," disse ele.
"Eu suponho que você não tem muito tempo para desfrutar de música," disse Clary,
pensando em Simon, para quem a música era toda a sua vida, “em sua linha de
trabalho."
Ele deu de ombros. "Talvez o ocasional lamento do coro dos malditos."
Clary olhou para ele rapidamente, para ver se ele estava brincando, mas ele estava
inexpressivo.
"Mas você estava tocando piano, ontem," ela começou, "no Instituto. Então você
deve..."
A carruagem balançou bruscamente para cima de novo. Clary se agarrou na borda do
seu banco e eles rolaram para um ônibus M1 para o centro da cidade. Desse ponto de
vantagem ela podia ver os andares superiores dos prédios antigos alinhados na
avenida, esculpidos com elaboradas gárgulas e cornijas ornamentais.
"Eu estava só brincando," Jace disse, sem olhar para ela. "Meu pai insistiu que eu
aprendesse a tocar um instrumento."
"Ele parecia rigoroso, o seu pai."
O tom de Jace era cortante. "De forma alguma. Ele era indulgente comigo. Ele me
ensinou tudo sobre armas de treinamento, demonologia, erudição arcanas, línguas
antigas. Ele me dava qualquer coisa que eu queria. Cavalos, armas, livros, e até
mesmo um falcão de caça."
Mas armas e livros não são exatamente o que a maioria dos meninos querem no
Natal, Clary pensou enquanto a carruagem se alinhava atrás para a calçada. "Por que
você não mencionou a Hodge que você sabia quem eram os homens com quem Luke
estava falando? Que foram eles os que mataram o seu pai?"
Jace olhou para baixo em suas mãos. Eles eram finas e mãos bem cuidadas, as mãos
de um artista, não de um guerreiro. O anel que ela havia notado anteriormente
brilhou em seu dedo. Ela teria pensado, que poderia haver alguma coisa feminina
sobre um rapaz usando um anel, mas não havia. O anel em si era sólido e parecia
pesado, feito em um cinza-queimado parecendo prata com um padrão de estrelas em
torno do anel. A letra W estava esculpida. "Porque, se eu dissesse," ele disse, "ele irá
saber que eu iria querer matar Valentine sozinho. E ele nunca me deixaria tentar."
"Quer dizer que você quer matar ele por vingança?"
"Por justiça," Jace disse. "Eu nunca soube quem matou o meu pai. Agora eu sei. Essa
é minha chance de fazer isso certo."
Jace não estava olhando para ela, então Clary deixou a voz dela sumir. Eles estavam
passando através do Astor Place agora, estreitamente evitando um bonde elétrico
roxo da Universidade de Nova York, uma vez que atravessavam o tráfego. Pedestres
transitando esmagados pela atmosfera pesada, como insetos depositados debaixo de
um copo. Alguns grupos de crianças desabrigadas estavam reunidas na base de uma
grande estátua de metal, caixinhas de papelão dobradas assinalava o pedido de
dinheiro apoiadas em frente delas. Clary viu uma garota com cerca de sua própria
idade, com uma polida cabeça raspada careca, inclinada contra um rapaz de pele
castanha com Dreadlocks, seu rosto adornado com uma dúzia de piercings. Ele virou
a cabeça enquanto a carruagem passava por ele como se ele pudesse vê-la, e ela
pegou o brilho dos seus olhos. Um deles estava encoberto, como se não tivesse
nenhuma pupila.
“Eu tinha dez,” Jace disse. Ela se virou para olhar para ele. Ele estava sem expressão.
E sempre parecia que a cor era drenada dele quando ele falava sobre seu pai. “Nós
morávamos em um sobrado, fora do país. Meu pai sempre dizia que era mais seguro
se manter longe das pessoas. Eu ouvi eles chegando pela estrada e irem falar com
ele. Ele me disse para me esconder, então eu me escondi. Debaixo das escadas. Eu vi
aqueles homens chegarem. Eles tinham outros com eles. Não homens. Esquecidos.
Eles dominaram meu pai e cortaram sua garganta. O sangue correu através do chão.
E ensopou meus sapatos. Eu não me movi.”
Levou um momento para Clary perceber que ele tinha acabado de falar, e outro para
encontrar a sua voz. "Eu sinto muito, Jace."
Seus olhos cintilaram na escuridão. "Eu não entendo porque mundanos sempre se
desculpam por coisas que não são culpa deles."
"Não estou me desculpando. É uma maneira de enfatizar. De dizer que eu estou
pesarosa por você estar infeliz."
"Eu não estou infeliz," ele disse. "Somente as pessoas com nenhum propósito são
infelizes. Eu tenho um propósito."
"Você quer dizer matar demônios, ou ter a vingança pela morte do seu pai?"
"Ambos."
"Você acha que seu pai iria realmente querer que você matasse aqueles homens? Só
por vingança?"
"Um Caçador de Sombras que mata outro de seus irmãos é pior do que um demônio
e deve ser colocado abaixo como um," Jace disse, soando como se estivesse
recitando as palavras de um livro.
"Mas se todos os demônios são maus?" disse ela. "Quero dizer, se todos os vampiros
não são maus, e todos os lobisomens não são maus, talvez..."
Jace se virou para ela, parecendo exasperado. "Não é a mesma coisa. Vampiros,
lobisomens, mesmo bruxos, eles são parte humanos. Parte deste mundo, nascidos
nele. Pertencem aqui. Mas demônios vêm de outros mundos. Eles são parasitas
interdimensionais. Eles chegam a um mundo e o utilizam. Eles não podem construir,
apenas destruir, eles não podem fazer, apenas usar. Eles drenam um lugar até as
cinzas e quando ele está morto, eles se deslocam para o próximo. É a vida que eles
querem, e não apenas a sua vida ou a minha, mas toda a vida deste mundo, seus
rios e cidades, os seus oceanos, o seu tudo. E a única coisa que está entre eles e a
destruição de tudo isto...," ele apontou para fora da janela da carruagem, acenando a
mão dele como se ele pretendesse indicar tudo na cidade, dos arranha-céus nas
torres ao tráfego obstruído em Houston Street – "é o Nephilim."
"Ah," Clary disse. Não parecia que se havia muito mais a se dizer. "Quantos outros
mundos existem?"
"Ninguém sabe. Centenas? Milhões, talvez."
"E todos eles matam mundos? Os usando?" Clary sentiu seu estômago cair, ainda que
possa ter sido apenas um abalo, pois mudaram para um mini roxo. "Isso parece tão
triste."
"Eu não diria isso." A luz alaranjada escura da névoa da cidade se derramava através
da janela, delineando o seu perfil afilado. "Há provavelmente vida em outros mundos
como o nosso. Mas só demônios podem viajar entre eles. Porque eles são
principalmente não-corpóreos, em parte, mas ninguém sabe exatamente porquê.
Muitos bruxos tentaram isso, e nunca funcionou. Nada vindo da Terra pode passar
através da proteção entre os mundos. Se nós conseguíssemos," ele disse
acrescentando, "poderiamos ser capazes de bloqueá-los de vir aqui, mas ninguém foi
capaz de descobrir como fazer isso. Na verdade, mais e mais deles estão vindo.
Costumava ser apenas pequenas invasões de demônio neste mundo, facilmente
contidas. Mas, mesmo em minha época, mais e mais deles têm se espalhado através
da vigilância. A Clave está sempre tendo que despachar Caçadores de Sombras, e
muitas vezes eles não voltam."
“Mas se vocês tivessem a Taça Mortal, vocês poderiam fazer mais, certo? Mais
caçadores de demônios?“ Clary perguntou tentadoramente.
“Claro,” Jace disse, “mas não temos a Taça há anos, e muitos de nós morrem jovens.
Então nossos números lentamente abaixaram.”
“Vocês não, uhhh...” Clary procurou pela palavra certa. “Reproduzem?”
Jace caiu na gargalhada, de tal maneira que a carruagem deu uma repentina
tombada acentuada para a direita. Ele se manteve no seu lugar, mas Clary foi atirada
contra ele. Ele a apanhou, suas mãos abraçando ela suavemente mas firmemente
longe dele. Ela sentiu o frio da impressão do anel dele como uma lasca de gelo contra
sua pele suada. “Claro,” ele disse. “Nós amamos nos reproduzir. Essa é uma das
nossas coisas favoritas.”
Clary se empurrou para longe dele, seu rosto queimando na escuridão, e se virou
para olhar a janela. Eles estavam indo na direção de um pesado portão de ferro
forjado, treliçado com trepadeiras escuras.
“Aqui estamos nós.” Anunciou Jace enquanto as rodas rolavam suaves sobre o
pavimento e virava para se sacudir nas pedras pavimentadas. Clary vislumbrou as
palavra no arco enquanto eles passavam por debaixo delas: Cemitério de Mármore de
Nova York.
“Mas eles pararam de enterrar as pessoas de Manhattan a séculos atrás, porque não
cabia mais no espaço – não é?” Ela disse. Eles estavam se movendo em um estreito
beco com paredes altas de ambos os lados.
"A Cidade do Osso tem estado aqui há mais tempo do que isso." O carro chegou em
uma parada estremecida. Clary levantou enquanto Jace esticava seu braço para fora,
mas ele estava apenas passando para alcançar e abrir a porta do lado dela. O braço
dele ligeiramente musculoso e coberto por finos pêlos dourados, como pólen.
"Você não teve escolha, não é?" ela perguntou. "Sobre ser um Caçador de Sombras.
Você não podia simplesmente optar por sair."
“Não,” disse ele. A porta bateu aberta, trazendo um sopro de ar quente e úmido. A
carruagem tinha parado em um vasta praça verde cercada por musguentos muros de
mármore. "Mas se eu tivesse uma escolha, isso é ainda o que eu iria escolher."
"Porquê?" ela perguntou.
Ele levantou uma sobrancelha, o que fez Clary instantaneamente ter ciúmes. Ela
sempre quis ser capaz de fazer isso. "Porque," ele disse. "É aquilo em que eu sou
bom."
Ele saltou para fora da carruagem. Clary deslizou para a borda de seu assento,
balançando suas pernas. Era uma longa queda até o pavimento. Ela pulou. O impacto
fez doer os pés dela, mas ela não caiu. Ela oscilou ao redor em triunfo para encontrar
Jace observando ela. "Eu deveria ter te ajudado a descer," ele disse.
Ela piscou. “Tudo bem. Não precisava.” Ele olhou para trás dela. Irmão Jeremiah
estava descendo do seu poleiro atrás dos cavalos, em um silencioso cair de manto.
Ele não projetava sua sombra abaixo do sol – na grama endurecida.
Venham, ele disse. Ele deslizou para longe da carruagem e das confortantes luzes da
Segunda Avenida, se movendo em direção ao centro escuro do jardim. Estava claro
que ele esperava que eles o seguissem.
A grama estava seca e estalante sob os pés, as paredes de mármore eram, de ambos
os lados, lisas e peroladas. Havia nomes esculpidos nas paredes de pedra, os nomes
e datas. Clary demorou um pouco para perceber que aquelas eram marcas dos
sepulcros. Um arrepio raspou até sua coluna vertebral. Onde estavam os corpos? Nas
paredes, enterrados na posição vertical, como se eles tivessem sido emparedados em
vida...?
Ela tinha esquecido de olhar para onde ela estava indo. Quando ela colidiu com algo
inequivocadamente vivo, ela gritou em voz alta.
Era Jace. "Não grite desse jeito. Você vai acordar os mortos."
Ela fez uma careta para ele. "Por que estamos parando?"
Ele apontou para Irmão Jeremiah, que tinha chegado a um ponto na frente de uma
estátua apenas ligeiramente mais alta do que ele era, sua base coberta com musgo.
A estátua era de um anjo. O mármore da estátua era tão bom que era quase
translúcido. O rosto do anjo era impetuoso, bonito e triste. Ao longo das mãos
brancas, o anjo segurava uma taça, sua borda ornamentada com jóias no mármore.
Algo sobre a estátua coçou as memórias de Clary com uma familiaridade
desconfortável. Havia uma data inscrita na base, 1234, e as palavras inscritas em
torno dela: Nephilim: facilis descensus averni.
"Isso significa a Taça Mortal?" ela perguntou.
Jace concordou. "E esse é o lema dos Nephilim – dos Caçadores de Sombras – na sua
base.”
“E o que significa?”
O sorriso branco de Jace era um flash na escuridão. “Isso significa „Caçadores das
Sombras: Ficam Melhor em Preto Do Que Viúvos dos seus Inimigos Desde 1234..."
"Jace..."
Significa, disse Jeremiah, A descida ao inferno é fácil.
"Bonito e jovial," Clary disse, mas um arrepio passou por sua pele, apesar do calor.
“Essa é uma piadinha dos Irmãos, que eles tem aqui.” Jace disse. “Você vai ver.”
Ela olhou para o Irmão Jeremiah. Ele tinha puxado uma estela, ligeiramente
brilhante, de algum bolso interno do seu manto, e com a ponta ele traçou o padrão
de uma runa na base da estátua. A boca do anjo da pedra de repente fez uma
abertura ampla em um grito silencioso, e abriu um enorme buraco negro no gramado
aos pés de Jeremiah. Parecia uma sepultura aberta.
Lentamente Clary se aproximou da borda daquilo e perscrutou lá dentro. Um conjunto
de degraus de granito levavam para dentro do buraco, suas macias bordas
desgastadas por anos de uso. Tochas estavam ao longo dos degraus em intervalos,
ofuscando um verde quente e um azul gelado. A parte inferior da escada estava
perdida na escuridão.
Jace tomou as escadas com a facilidade de alguém que encontra uma situação
familiar, se não, exatamente confortável. Na metade da primeira tocha, ele parou e
olhou para ela. "Vamos," disse impacientemente.
Clary tinha apenas colocado o seu pé no primeiro degrau, quando ela sentiu o braço
apanhado num frio aperto. Ela olhou para cima com espanto. Irmão Jeremiah estava
segurando seu punho, seus gelados dedos brancos cavando na pele. Ela podia ver o
brilho ósseo de seu cicatrizado rosto abaixo da ponta do seu capuz.
Não tema, disse sua voz dentro da cabeça. Isso levaria mais do que um simples
chorar humano para despertar esses mortos.
Quando ele soltou seu braço, ela deslizou pelas escadas após Jace, o coração dela
batendo contra suas costelas. Ele estava esperando por ela no sopé dos degraus. Ele
tinha tomado uma das tochas queimando esverdeado fora do seu suporte e a segurou
no nível dos olhos. Ela emprestou um verde pálido expresso na sua pele. "Você está
bem?"
Ela concordou, não confiando em si mesma para falar. As escadas terminavam em
um raso desembarcadouro, à frente deles se esticava um túnel, longo e escuro,
sulcado com encurvadas raízes de árvores. Uma tênue luz azulada era visível no final
do túnel. “É tão... escuro,” ela disse balbuciando.
“Você quer que eu segure sua mão.”
Clary colocou ambas as mãos atrás de suas costas como uma criança pequena. "Não
fale com superioridade comigo."
“Bem, eu dificilmente poderia falar acima com você. Você é muito pequena.” Jace
olhou passando por ela, a tocha chuviscando faíscas enquanto ele se movia. “Não há
necessidade de ficar com cerimônia, Irmão Jeremiah,” Jace arrastou as palavras. “Vá
em frente. Nós estaremos bem atrás de você.”
Clary pulou. Ela ainda não estava acostumada com o ir e vir silencioso do arquivista.
Ele se moveu silenciosamente de onde ele tinha estado de pé atrás dela e liderou
adentro da entrada do túnel. Após um momento, ela seguiu batendo na mão esticada
de Jace enquanto ela ia.
À primeira vista de Clary da Cidade do Silêncio foi de linha após a linha de altos arcos
em mármore que subiam acima, desaparecendo à distância como ordenadas fileiras
de árvores em um pomar. O mármore em si era um puro, pálido marfim, duro e
parecendo polido, inseridos em locais com estreitas faixas de ônix, jaspe, e jade.
Enquanto eles se moviam no túnel em direção a floresta de arcos, Clary viu que o
chão estava inscrito com o mesmas runas que, às vezes, decoravam a pele de Jace
com linhas, espirais e padrões trançados.
Quando os três deles atravessaram o primeiro arco, alguma coisa grande e branca
assomou acima e no lado esquerdo dela, como um iceberg ao largo da proa do
Titanic. Era um bloco de pedra branca, macia e quadrada, com uma espécie de porta
inserida na frente. Aquilo lembrava a ela uma casa de brinquedo do tamanho de uma
criança, quase, mas não muito grande o suficiente para que ela ficasse de pé lá
dentro.
"É um mausoléu," disse Jace, dirigindo um flash de tocha naquilo. Clary podia ver que
aquela runa foi esculpida na porta, que foi selada com parafusos de ferro. "Um
túmulo. Nós enterramos os nossos mortos aqui."
“Todos seus mortos?” ela disse, meio que esperando perguntar a ele se seu pai
estava enterrado lá, mas ele moveu a cabeça, fora do alcance da voz. Ela se apressou
atrás dele, não desejando ficar sozinha com o Irmão Jeremiah em seu lugar
assustador. “Eu pensei que você havia dito que isso era uma biblioteca.”
Há muitos níveis na Cidade do Silêncio, inseriu Jeremiah. Aqueles que morrem em
batalhas são cremados, suas cinzas usadas para fazer esses arcos de mármore que
você vê aqui. O sangue e ossos dos caçadores de demônios são por si mesmos uma
proteção poderosa contra o mal. Mesmo na morte, a Clave serve a causa.
Que exaustivo, Clary pensou, lutar toda sua vida e então a expectativa de continuar
aquela luta quando sua vida tiver acabado. Nos cantos de sua visão ela podia ver o
quadrado branco das catacumbas aumentando em ambos os lados em ordenada filas
de túmulos, todas as portas trancadas pelo lado de fora. Ela compreendeu agora por
que aquilo era chamado de Cidade do Silêncio: Seus únicos habitantes eram os
Irmãos mudos e os mortos que eram tão zelosamente guardados.
Eles haviam chegado a uma outra escada elevando-se em mais uma luz fraca; Jace
impulsionou a tocha em frente a ele, estriando as paredes com sombras. "Estamos
indo para o segundo nível, onde os arquivos e a salas do conselho estão," ele disse,
como se para tranquilizá-la.
"Onde estão os alojamentos?" Clary perguntou, em parte para ser educada, em parte,
por uma verdadeira curiosidade. "Onde é que os Irmãos dormem?"
Dormir.
O silêncio da palavra perdurou na escuridão entre eles. Jace riu, e a chama da tocha
que segurava se agitaram. "Você tinha de perguntar."
Ao pé da escada havia outro túnel, que ampliava no final em um pavilhão quadrado,
cada canto do qual era marcado por um pináculo de osso entalhado. Lanternas
queimavam em longos suportes de ônix dos lados do quadrado, e o ar cheirava a
cinzas e fumaça. No centro do pavilhão havia uma longa mesa de basalto preto com
nervuras brancas. Por trás da mesa, contra a parede escura, havia pendurada uma
enorme espada de prata, na ponta, seu cabo esculpido em forma de asas estendidas.
Sentados à mesa havia uma fila de Irmãos do Silêncio, cada um envolvido e
encapuzado com as mesmas vestes de pergaminho colorido como Jeremiah.
Jeremiah não perdeu tempo. “Nós chegamos. Clarissa, fique perante o Conselho.”
Clary olhou para Jace, mas ele estava piscando, claramente confuso. Irmão Jeremiah
deve ter falado apenas na cabeça dela. Ela olhou para cima da mesa, para a longa fila
de figuras silenciosas, agasalhados em seus pesados robes. Quadrados alternando
compunham o piso do pavilhão: bronze dourado e um vermelho mais escuro. Só na
frente da mesa havia um grande quadrado, feito de mármore preto e estampados
com um parabólico desenho de estrelas prateadas.
Clary andou até o centro do quadrado preto, como se ela estivesse na frente de um
esquadrão de fuzilamento. Ela levantou sua cabeça. "Tudo bem," disse ela. "Agora o
quê?"
Os Irmãos fizeram então um som, um som que levantou todos os pêlos do pescoço
de Clary e ao longo das costas dos braços dela. Era um som como um suspiro ou um
gemido. Em uníssono eles levantaram suas mãos e empurraram seus capuzes para
trás, descobrindo seus rostos com cicatrizes e as covas de seus olhos vazios.
Embora ela já tivesse visto o rosto descoberto do Irmão Jeremiah, o estômago de
Clary deu um nó. Foi como olhar para uma fila de esqueletos, como uma daquelas
xilografuras medievais onde os mortos caminhavam, dançavam e conversavam sobre
uma pilha de corpos dos vivos. Suas bocas costuradas pareciam sorrir para ela.
O Conselho saúda você, Clarissa Fray.
Ela escutou, e não foi apenas uma voz silenciosa dentro de sua cabeça, mas uma
dúzia, algumas baixas e ásperas, algumas suaves e monótonas, mas todos eram
exigentes, insistentes, empurrando a frágil barreira em torno de sua mente.
"Pare," ela disse, e para espanto dela a voz dela saiu firme e forte. O barulho dentro
de sua mente cessou subitamente como uma gravação que tinha parado de rodar.
"Vocês podem entrar dentro da minha cabeça," ela disse, "mas só quando eu estiver
pronta."
Se você não quiser a nossa ajuda, não há necessidade para isso. Você são os que
pediram por nossa assistência, depois de tudo.
"Vocês querem saber o que está em minha mente, assim como eu quero," ela disse.
"Isso não significa que vocês não precisam ser cuidadosos com isso."
O Irmão que estava sentado na cadeira central colocou seus finos dedos brancos
debaixo de seu queixo, isso é reconhecidamente um interessante quebra-cabeça, ele
disse, e dentro de sua mente a voz era seca e neutra. Mas não há nenhuma
necessidade para o uso da força, se você não resistir.
Ela rangeu os dentes. Ela queria resistir a eles, esperando extrair aquelas vozes
intrusivas fora de sua cabeça. Para estarem tão perto e permitir tal violação do seu
mais íntimo e pessoal eu...
Mas lá estava toda a chance que isso já tinha acontecido, ela se lembrou. Isso não
era nada mais do que a escavação de um crime passado, o roubo de sua memória. Se
isso funcionasse, o que tinha sido retirado dela seria restaurado. Ela fechou seus
olhos.
"Vá em frente," ela disse.
O primeiro contato veio em um sussurro dentro de sua mente, delicado quanto um
roçar de uma folha caindo. Declare seu nome para o Conselho.
Clarissa Fray.
A primeira voz se reuniu a outras. Quem é você?
Eu sou Clary. Minha mãe é Jocelyn Fray. Eu moro na Berkeley Place, 807 no Brooklin.
Eu tenho 15 anos. Meu pai se chamava..
Sua mente parecia acertar ela mesma, como um elástico, e ela cambaleou em um
silencioso turbilhão de imagens expressas contra o interior de suas pálpebras
fechadas. Sua mãe se apressando em uma noite – a rua escura entre pilhas
amontoadas de neve suja. Em seguida, uma descida do céu, cinzento e pesado,
fileiras de árvores negras desfolhadas. Um quadrado vazio cortado na terra, um
caixão simples baixou nele. Cinzas a cinzas. Jocelyn envolta em sua colcha de
patchwork, lágrimas derramando por suas bochechas, rapidamente fechando uma
caixa e colocando-a sob uma almofada enquanto Clary entrava na sala. Ela viu as
iniciais na caixa novamente: J.C.
As imagens vinham mais rápidas agora, como páginas de um daqueles livros com
figuras que parecem se mover quando você passa elas.
Clary estava no topo de uma escada elevada, olhando para baixo para um corredor
estreito, e lá estava novamente Luke, sua mala verde aos seus pés. Jocelyn ficava na
frente dele, agitando a cabeça dela. "Por que agora, Lucian? Pensei que você
estivesse morto..." Clary piscou; Luke parecia diferente, quase um estranho,
barbudo, seu cabelo longo e emaranhado – ramificações desciam para bloquear a sua
visão, ela estava no parque novamente, e fadas verdes, minúsculas como palitos,
zumbiam entre as flores vermelhas. Ela pegou uma delas em deleite, e sua a mãe
colocou em seus braços com um grito de terror. Depois estava inverno na rua escura
novamente, e elas estava correndo, encolhidas sob um guarda-chuva, Jocelyn meio
empurrando e meio arrastando Clary entre os eventuais bancos de neve. Um portal
de granito surgiu para compensar a queda da brancura; haviam palavras esculpidas
acima da porta, era magnífico. Então ela estava em pé dentro de uma entrada que
cheirava a ferro e neve derretida. Seus dedos ficaram dormentes com frio. Uma mão
sob seu queixo dirigiu seu olhar para cima, e ela viu uma fileira de palavras
rabiscadas ao longo da parede. Duas palavras saltaram para ela, queimando em seus
olhos: "MAGNUS BANE".
Uma súbita dor a acertou através de seu braço direito. Ela gritou enquanto as
imagens caiam e ela girava acima, rompendo a superfície da consciência como um
mergulhador rompia através de uma onda. Havia algo frio pressionado contra a sua
bochecha. Ela ergueu seus olhos abrindo e viu estrelas prateadas. Ela piscou duas
vezes antes que ela percebesse que ela estava deitada no chão em mármore, seus
joelhos curvados até o seu peito. Quando ela se moveu, uma dor quente subiu pelo
seu braço.
Ela delicadamente se sentou. A pele ao longo do seu cotovelo esquerdo estava
machucada e sangrando. Ela deve ter batido nele quando ela caiu. Havia sangue em
sua camisa. Ela olhou ao redor, desorientada, e viu Jace olhando para ela, imóvel,
mas muito tenso ao redor da boca.
Magnus Bane.
A palavra significava alguma coisa, mas o quê? Antes que ela pudesse fazer a
pergunta em voz alta, Irmão Jeremiah interrompeu ela.
O bloqueio dentro de sua mente é mais forte do que tínhamos previsto, ele disse. Ele
só pode ser seguramente desfeito apenas por quem o colocou lá. Para nós
removermos, isso poderia matar você.
Ela se levantou sob seus pés, embalando seu braço ferido. "Mas eu não sei quem o
colocou lá. Se eu soubesse, eu não teria vindo aqui."
A resposta para isso está tecida no filamento de seus pensamentos, Irmão Jeremiah
disse. Em seu sonho acordado você viu escrito.
"Magnus Bane? Mas... isso nem sequer é um nome!"
Isso é suficiente. Irmão Jeremiah chegou a seus pés. Como se isso fosse um sinal, o
resto dos Irmãos se levantaram ao lado dele. Eles inclinaram a cabeça em direção a
Jace, um gesto de silencioso reconhecimento, depois eles se enfileirarem entre os
pilares e desapareceram. Apenas Irmão Jeremiah permaneceu. Ele assistiu
impassivamente enquanto Jace se apressou sobre Clary.
“Seu braço está bem? Me deixe ver,” ele exigiu, agarrando seu pulso.
“Ouch! Tudo bem. Não faça isso, você está deixando ele pior,” Clary disse tentando
puxar de volta.
“Você sangrou sobre as Estrelas Falantes," ele disse. Clary olhou e viu que ele estava
certo: Havia uma mancha do sangue dela sobre o mármore branco e prata. "Aposto
que há uma lei sobre isso em algum lugar." Ele virou o braço dela para cima, mais
gentilmente do que ela teria pensado que ele era capaz. Ele botou seu lábio inferior
entre seus dentes e assobiou; ela olhou para baixo e viu o sangue que a cobria como
uma luva seu braço, abaixo do cotovelo até o punho. O braço estava latejante, rígido,
e doloroso.
"Isso é quando você começa a cortar em tiras sua camiseta para amarrar em meu
machucado?" ela brincou. Ela odiava a visão de sangue, especialmente o seu próprio.
"Se você queria que eu rasgasse minhas roupas, você só precisava ter me pedido."
Ele cavou em seu bolso e trouxe a sua estela. "Teria sido muito menos doloroso."
Lembrando da sensação de ardor quando a estela tinha tocado seu punho, ela se
retesou, mas tudo o que ela sentiu enquanto o brilhante instrumento deslizava
levemente sobre seu ferimento era um vago calor. "Aí está," ele disse, endireitando-
se. Clary flexionou seu braço se admirando – o sangue ainda estava lá, a ferida tinha
sumido, assim como a dor e a rigidez. "E da próxima vez que você estiver planejando
se ferir para chamar a minha atenção, basta lembrar que um pouco de palavras
gentis fazem maravilhas."
Clary sentiu sua boca torcer em um sorriso. "Vou manter isso em mente," ela disse, e
enquanto ele se afastava, ela acrescentou, "obrigada."
Ele mergulhou a estela em seu bolso, sem virar as costas para olhar para ela, mas ela
pensou ter visto uma certa gratificação acertar seus ombros. "Irmão Jeremiah," ele
disse, esfregando as mãos juntas, "você esteve muito quieto todo este tempo.
Certamente você tem alguns pensamentos que você gostaria de compartilhar?"
Estou encarregado de os conduzir pela Cidade do Silêncio, e isso é tudo, disse o
arquivista. Clary se perguntou se ela estava imaginando isso, ou se houve realmente
um tom ligeiramente insultado em sua "voz".
“Nós podemos sempre achar a saída por nós mesmos,”
esperançosamente. “Eu tenho certeza que me lembro do caminho...”
Jace
sugeriu
As maravilhas da Cidade do Silêncio não são para os olhos dos não experientes,
Jeremiah disse, e virou suas costas para eles com um farfalhar de vestes sem som.
Por aqui.
Quando eles emergiram na abertura, Clary tomou profundas respirações do ar
espesso da manhã, a cidade rescendia ao cheiro de fumaça, sujeira e humanidade.
Jace olhou ao redor cuidadosamente. "Vai chover," ele disse.
Ele estava certo, Clary pensou, acima o céu cinza-ferro. “Nós vamos tomar a
carruagem de volta para o Instituto?”
Jace olhou para o Irmão Jeremiah, ainda como uma estátua, para a carruagem,
parecendo uma sombra negra na passagem de arco que dava para a rua. Então ele se
quebrou em um sorriso.
“De jeito nenhum,” ele disse. “Eu odeio essas coisas. Vamos chamar um táxi.”
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