quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Série Instrumentos Mortais - Cidade dos Ossos 5

5 – A Clave e o Pacto

“Você acha que ela vai acordar? Já se passaram três dias.”
“Você tem que dar a ela tempo. O veneno do demônio é uma coisa forte, e ela é uma
mundana. Ela não tem as runas para mantê-la forte como nós podemos ser.”
“Mundanos morrem tremendamente fácil, não é?”
“Isabelle, você sabe que dá má sorte falar sobre isso na enfermaria.”
Três dias, Clary pensou lentamente. Todos os seus pensamentos corriam tão
espessos e lentos como sangue e mel.
Eu tenho que acordar
Mas ela não conseguia.
Ela tinha sonhos, um após o outro, um rio de imagens que abriam um caminho ao
longo dela como uma folha jogada em uma correnteza. Ela viu sua mãe deitada em
uma cama de hospital, seus olhos com contusões em seu rosto branco. Ela viu Luke,
em pé em cima de uma pilha de ossos. Jace com asas de penas brancas brotando em
suas costas, Isabelle sentada nua com seu chicote enrolado como uma rede de anéis
de ouro, Simon com cruzes queimadas nas palmas de suas mãos. Anjos, caindo e
queimando, caindo do céu.
“Eu disse a você que era a mesma garota.”
“Eu sei, uma coisinha, ela não é? Jace disse que ela matou um Ravener.”
“Yeah. Eu pensei que ela era uma fada na primeira vez que eu vi ela. Ela não é bonita
o suficiente para ser uma fada, eu acho.”
“Bom, ninguém parece o seu melhor com veneno de demônio em suas veias. E Hodge
vai chamar os Irmãos?”
“Eu espero que não. Eles me dão arrepios. Ninguém que se mutila a si mesmo como
aquilo...”
“Nós mutilamos a nós mesmos.”
“Eu sei Alec, mas quando nós fazemos isso, não é permanente. E isso nem sempre
machuca...”
“Se você for velho o suficiente. Falando nisso, onde está Jace? Ele salvou ela, não foi?
Eu pensei que ele iria mostrar algum interesse em sua recuperação.”
“Hodge disse que ele não veio vê-la desde que ele a trouxe aqui. Acho que ele não se
importa.”
“Algumas vezes eu me pergunto se ele... Olhe! Ela se moveu!”
“Eu acho que ela está viva depois de tudo.” Um suspiro. “Eu vou dizer ao Hodge.”

Clary sentiu seus cílios como se estivessem sidos costurados. Ela imaginou se ela
podia sentir rasgando a pele enquanto eles se levantavam lentamente e piscava pela
primeira vez em três dias.
Ela viu acima dela um céu azul claro, fofas nuvens brancas e anjos gordinhos com
fitas douradas arrastando-se pelos seus punhos. Eu estou morta? Ela imaginou. O céu
realmente poderia parecer como isso? Ela apertou os olhos, fechou e abriu eles de
novo. Dessa vez ela percebeu que aquilo que ela estava olhando era um teto abobado
de madeira, pintado com motivos em rococó de nuvens e querubins.
Dolorosamente ela se rebocou em uma posição sentada. Cada parte de sua cabeça,
especialmente a parte detrás de seu pescoço. Ela olhou ao redor. Ela estava em uma
cama pregueada em linho, uma de uma longa fila de semelhantes camas com
cabeceira de metal. Sua cama tinha uma pequena cômoda ao lado com um jarro
branco e um copo sobre ela. Cortinas de rendas estavam puxadas sobre as janelas,
bloqueando a luz, entretanto ela podia ouvir um distante, e sempre presente som do
tráfego de Nova York vindo do lado de fora.
“Então, você finalmente acordou.” Disse uma voz seca. “Hodge vai ficar satisfeito.
Nós todos pensamos que provavelmente você morreria em seu sono.”
Clary se virou. Isabelle estava empoleirada na próxima cama, o seu longo cabelo
preto enrolado em duas grossas tranças que caiam passando pela cintura dela. Seu
vestido branco tinha sido substituído por jeans azul apertado e um top sem mangas
azul, embora o pingente vermelho ainda estivesse piscando em sua garganta. Suas
espiraladas tatuagens se foram; sua pele era tão limpa quanto uma tigela de creme.
“Desculpe por desapontá-la.” A voz de Clary raspava como lixa. “É esse o Instituto?”
Isabelle rolou seus olhos. “Existe alguma coisa que Jace não lhe disse?”
Clary tossiu. “Este é o Instituto, certo?”
“Sim. Você está na enfermaria, não que você já não tenha percebido isso.”
Uma súbita punhalada de dor fez Clary apertar seu estômago. Ela ofegou.
Isabelle olhou para ela em alarme. “Você está bem?”
A dor estava sumindo, mas Clary estava consciente da sensação de ácido por trás de
sua garganta e uma estranha sensação de cabeça vazia. “Meu estômago.”
“Ah, certo. Eu quase me esqueci. Hodge disse para dar isso quando você acordasse.”
Isabelle agarrou o jarro de cerâmica e derramou parte do seu conteúdo em seu
correspondente copo, que ela entregou para Clary. Ele estava cheio de um liquido
turvo que ligeiramente vaporizava. Aquilo cheirava como ervas e algo mais rico e
escuro. “Você não comeu nada em três dias,” Isabelle salientou. “Isso é
provavelmente porque você estava doente.”
Clary delicadamente tomou um gole. Era delicioso, rico e saciante com um sabor
amanteigado. “O que é isso?”
Isabelle balançou os ombros. “Um dos chás medicinais de Hodge. Eles sempre
funcionam.” Ela deslizou fora da cama, descendo ao chão como um felino arqueando
em suas costas. “Eu sou Isabelle Lightwood, à propósito. Eu moro aqui.”

“Eu sei seu nome. Eu sou Clary. Clary Fray. Jace me trouxe para cá?”
Isabelle concordou. “Hodge ficou furioso. Você largou serosidade e sangue em todo o
carpete da entrada. Se ele tivesse feito isso enquanto meus pais estivessem aqui, ele
teria sido enterrado com certeza.” Ela olhou Clary mais minunciosamente. “Jace disse
que você matou aquele demônio Ravener sozinha.“
Uma imagem da coisa escorpião com suas garras, a face malvada relampejou
atravessando a mente de Clary, ela estremeceu e ela agarrou o copo mais apertado.
“Acho que sim.”
“Mas você é uma mundana.”
“Incrível, não é?” Clary disse, saboreando o olhar superficialmente dissimulado de
espanto sobre o rosto de Isabelle. “Onde está Jace? Ele está por aqui?”
Isabelle deu de ombros. ”Em algum lugar,” ela disse. “Eu deveria dizer a todos que
você se levantou. Hodge quer falar com você.”
“Hodge é o tutor de Jace, certo?”
“Hodge é o tutor de todos nós.” Ela assinalou. “O banheiro é por ali, e eu pendurei
algumas das minhas roupas velhas e uma toalha no caso de você querer se trocar.”
Clary passou a tomar outro gole do copo e constatou que ele estava vazio. Ela já não
sentia fome ou a cabeça oca, o que era um alívio. Ela colocou o copo para baixo e
amarrou o lençol em torno de si mesma. “O que aconteceu com minhas roupas?”
“Elas estavam cobertas de sangue e veneno. Jace queimou elas.”
“Ele queimou?” Clary perguntou? “Diga-me ele é sempre realmente grosso, ou ele
guarda isso para os mundanos?”
“Ah, ele é mal educado com todo mundo,” Isabelle disse alegremente. “É o que faz
dele tão sexy. Isso, e que ele matou mais demônios do que alguém de sua idade.”
Clary olhou para ela, perplexa. “Ele não é seu irmão?”
Aquilo pegou a atenção de Isabelle. Ela riu alto. “Jace? Meu irmão? Não. De onde
você tirou essa idéia?”
“Bom, ele mora aqui com você,” Clary apontou “Não mora?
Isabelle concordou. “Bem, sim, mas...”
“Por que ele não mora com seus próprios pais?”
Por um fugaz momento Isabelle pareceu desconfortável. “Porque eles estão mortos.”
A boca de Clary abriu em surpresa. “Eles morreram em um acidente?”
“Não.” Isabelle inquietou-se, empurrando uma mecha escura atrás de sua orelha
esquerda. “Sua mãe morreu quando ele nasceu. Seu pai foi assassinado quando ele
tinha dez. Jace viu a coisa toda.”
“Ah,” Clary disse, sua voz pequena. ”Foi um... demônio?”

Isabelle ficou em seus pés. ”Olha, eu vou deixar todo mundo saber que você acordou.
Eles estão esperando por você abrir seus olhos por três dias. Ah, e há sabonete no
banheiro,” ela adicionou. “Você precisa se limpar um pouco. Você fede.”
Clary olhou para ela. ”Muito obrigada.”
“A qualquer hora.”
As roupas de Isabelle pareciam ridículas. Clary teve que enrolar as pernas dos jeans
para cima várias vezes antes de para de tropeçar nelas, e o decote profundo do top
vermelho só enfatizava sua falta do que Eric poderia chamar de “suporte”.
Ela se limpou no pequeno banheiro, usando uma barra dura de sabonete lavanda.
Secando a si mesma com um branca toalha de mão, deixando seu úmido cabelo
disperso em torno de seu rosto em um flagrante emaranhado. Ela espiou seu reflexo
no espelho. Ela tinha uma contusão arroxeada em sua bochecha esquerda, e seus
lábios estavam secos e inchados.
Eu tenho que ligar para Luke, ela pensou. Seguramente teria um telefone em algum
lugar por aqui. Talvez eles deixassem ela usá-lo depois que ela falasse com Hodge.
Ela encontrou seus tênis colocados proximamente aos pés da cama da enfermaria,
suas chaves presas em um laço. Deslizando seus pés para eles, ela tomou uma
respiração profunda e os deixou para encontrar Isabelle.
O corredor do lado de fora da enfermaria estava vazio. Clary olhou para baixo,
perplexa. Aquilo parecia algum tipo de hall de entrada que ela, as vezes, se achava
correndo em seus pesadelos, sombrios e infinitos. Lâmpadas de vidro sopravam em
suas formas de rosas penduradas em intervalos nas paredes, e o ar cheirava a poeira
e cera de vela.
A distância ela podia ouvir um ruído fraco e delicado, como o repicar do vento
balançando em uma tempestade. Ela se moveu pelo corredor lentamente, alisando
com a mão ao longo da parede. O papel de parede parecia Vitoriano, parecendo
desbotado com a idade, cor de vinho e cinza pálido. Cada lado do corredor estava
alinhado com portas fechadas.
O som que ela estava seguindo aumentou mais. Agora ela podia identificá-lo como o
som de um piano sendo tocado com uma volúvel, mas inegável habilidade, embora
ela não pudesse identificar a melodia.
Virando a esquina, ela chegou a uma porta, a porta deslizou totalmente aberta.
Espiando lá dentro ela viu que era claramente uma sala de música. Um piano de
cauda ficava no canto, e fileiras de cadeiras estavam arranjadas contra a parede
distante. Uma harpa coberta ocupava o centro da sala.
Jace estava sentado no piano de cauda, suas delgadas mãos movendo-se
rapidamente sobre as teclas. Ele estava descalço, vestindo um jeans e uma camiseta
cinza, seu cabelo dourado bagunçado ao redor de sua cabeça como se ele tivesse
acabado de acordar. Olhando a rapidez evidente dos movimentos de suas mãos
através das teclas, Clary se lembrou de aquilo que ela sentiu quando foi levantada
por aquelas mãos, os braços segurando ela e as estrelas movendo-se ao redor de sua
cabeça como uma chuva de lantejoulas prata.
Ela deve ter feito algum barulho, porque ele se voltou em torno do banquinho,
piscando para as sombras. “Alec?” ele disse. “ É você?”

“Não é Alec. Sou eu.” Ela entrou mais dentro da sala. “Clary.”
As teclas do piano dissonaram enquanto ele ficava em seus pés. “Nossa própria Bela
Adormecida. Quem finalmente beijou você te acordando?”
“Ninguém. Eu acordei por conta própria.”
“Não tinha ninguém com você?”
“Isabelle, mas ela foi atrás de alguém – Hodge, eu acho. Ela me disse para esperar,
mas...”
“Eu deveria ter alertado ela sobre seus hábitos de nunca fazer o que lhe dizem.” Ele
olhou ela de soslaio. ”Essas roupas são de Isabelle? Elas estão ridículas em você.”
“Eu poderia apontar que você queimou as minhas roupas.”
“Foi por pura precaução.” Ele deslizou a reluzente cobertura do piano preto fechando-
o. “Vamos, eu vou te levar até Hodge.”
O Instituto era enorme, um vasto e cavernoso espaço que parecia menos com que
tinha sido concebido de acordo com o piso plano e mais como se fosse naturalmente
engolido fora da parede, como uma passagem de águas por anos. Através das portas
semi-abertas Clary pode vislumbrar inúmeras pequenas salas idênticas, cada uma
com uma cama despojada, uma mesa de cabeceira e um grande guarda-roupa de
madeira mantido aberto. Pálidos arcos de pedra seguros no tetos alto, muitos dos
arcos intrincadamente esculpidos com pequenas imagens. Ela notou que os motivos
eram repetitivos: anjos e espadas, sóis e rosas.
“Por que este lugar tem tantos quartos?” Clary perguntou, “Eu pensei que você disse
que era um instituto de investigação.”
“Esta é a ala residencial. Estamos prontos para oferecer segurança e hospedagem
para qualquer Caçador de Sombras que precisar disso. Nós podemos acomodar até
duzentas pessoas aqui.”
“Mas a maioria desses quartos estão vazios.”
“As pessoas vem e vão. Ninguém fica por muito tempo. Normalmente só nós – Alec,
Isabelle, Max e seus pais – e eu e Hodge,”
“Max?”
“Você se encontrou com o belo de Isabelle? Alec é seu irmão mais velho. Max é o
mais novo, mas ele está no exterior com seus pais.”
“De férias?”
“Não exatamente.” Jace hesitou. “Você pode pensar neles como eles são – diplomatas
estrangeiros, e de que se trata em uma embaixada, desse tipo. Agora eles estão no
país dos Caçadores de Sombras, trabalhando em uma delicada negociação de paz.
Eles levaram Max com eles por que ele é muito jovem.
“País dos Caçadores de Sombras?” A cabeça de Clary estava transbordando. “Como
se chama?
“Idris.”

“Eu nunca ouvi falar disso.”
“Você não deveria.” A irritante superioridade estava de volta em sua voz. “Mundanos
não sabem sobre isso. Existem vigilância – feitiços por cima de toda fronteira. Se
você tentar atravessar Idris, você pode simplesmente se encontrar imediatamente
transportado para a fronteira próxima. Você nunca saberá o que aconteceu.”
“Então ela não está em nenhum mapa?”
“Não no dos mundanos. Para nossos propósitos você pode considerá-lo um pequeno
país entre a Alemanha e a França.”
“Mas não há nada entre a Alemanha e a França. Exceto a Suiça.”
“Precisamente,” Jace disse.
“Eu acho que você esteve por lá. Em Idris, eu quero dizer.”
“Eu cresci lá.” A voz de Jace estava neutra, mas algo em seu tom deixou ela saber
que mais perguntas naquele sentido não eram bem vindas. “A maioria de nós. Existe,
é claro, Caçadores de Sombras por todo o mundo. Nós estamos em toda parte, por
que há atividade demoníaca em toda parte. Mas para os Caçadores de Sombras, Idris
será sempre um lar.
“Como Meca ou Jerusalém,” Clary disse, pensativamente. “Então a maioria de vocês é
levada para lá, e então quando vocês crescem...”
“Nós somos mandados onde somos necessários,” Jace disse curtamente. “E há
alguns, como Isabelle e Alec que crescem fora do pais de origem porque é onde
estão seus pais. Com todos os recursos do Instituto aqui, com o treinamento de
Hodge...” Ele parou. “Essa é a biblioteca.”
Eles haviam chegado a um arco em forma de um conjunto de portas de madeira. Um
gato persa com olhos amarelos enrolado em frente a elas. Ele levantou sua cabeça e
se aproximou ronronando. “Ei, Church,” Jace disse, acariciando o gato de volta com o
pé descalço. O gato fechou seus olhos com prazer.
“Espere,” Clary disse. “Alec, Isabelle e Max – eles são os únicos Caçadores de
Sombras com sua idade que você conhece, e como você passa o tempo?”
Jace parou de acariciar o gato. “Sim.”
“Isso parece um tipo de solidão”
“Eu tenho tudo o que preciso.” Ele empurrou a porta aberta. Depois de um momento
de hesitação, ela o seguiu para dentro.
A biblioteca era circular, com um teto que afilava para um ponto, como se tivesse
sido construído no interior de uma torre. As paredes estavam alinhadas com livros,
as prateleiras eram tão altas que escadas com rodinhas estavam colocadas em
intervalos. Aqueles livros não eram comuns – estes livros eram encadernados em
couro e veludo, fechados com segurança - com fechaduras e dobradiças feitas de
bronze e prata. Suas espinhas12 estavam cravados com jóias brilhantes e manuscritos
12
Espinha ou o chamado cabeçote, onde é a parte lateral do livro onde se tem escrito o título, o logotipo, etc.

em ouro. Eles pareciam gastos de um jeito que deixava claro que aqueles livros não
eram apenas velhos, mas estiveram sendo bem utilizados, e também bem cuidados.
O piso era de madeira polida, incrustada com pastilhas de vidro e pedaços de
mármore e pedra semipreciosas. A incrustação formava um padrão que Clary não
conseguia decifrar – aquilo podia ser constelações, ou mesmo um mapa do mundo,
ela suspeitou que teria que subir no alto da torre a fim de ver corretamente.
No centro da sala estava uma magnífica mesa. Era esculpida em uma única placa de
madeira, uma grande, peça pesada de carvalho que brilhava com o embotamento dos
anos. A tábua repousava sobre as costas de dois anjos, esculpidos a partir da mesma
madeira, suas asas douradas e suas faces gravadas com um olhar de sofrimento,
como se o peso da tábua estivesse quebrando suas costas. Atrás da mesa havia um
homem magro com cabelo riscado de cinza –
“Uma amante de livros, eu vejo,” ele disse, sorrindo para Clary. “Você não me disse
isso, Jace.”
Jace deu uma risada. Clary podia dizer que ele tinha ido atrás dela e estava parado
com as mãos nos seus bolsos. “Nós não estivemos falando muito durante nosso curto
conhecimento,” ele disse. “Eu temo que nossos hábitos de leitura não se parecem.”
Clary se virou e lhe atirou um encarada.
“Como você sabe?” Ela perguntou ao homem atrás da mesa. “Quero dizer, meu gosto
por livros.”
“O olhar em seu rosto quando você entrava,“ ele disse, ficando de pé e vindo por trás
da mesa ao redor dela. “De algum modo, eu duvido que você tenha se impressionado
comigo.”
Clary abafou um suspiro enquanto ele se levantava. Por um momento ele lhe pareceu
estranhamente disforme, seu ombro esquerdo era encorcovado e alto. Enquanto ele
se aproximava, ela viu o que a seu palpite era realmente um pássaro, empoleirado
em seu ombro – uma criatura de penas brilhantes com brilhosos olhos negros.
“Este é Hugo,“ o homem disse, tocando a ave em seu ombo. “Hugo é um corvo e,
como tal, ele sabe muitas coisas. Eu, entretanto, sou Stakweather, um professor de
história, e, como tal, eu não sei quase o suficiente.”
Clary riu um pouco, apesar dela mesma, e apertou sua mão. “Clary Fray.”
“Honrado em conhecê-la,” ele disse. “Eu ficaria honrado em conhecer alguém que
pode matar um Ravener com suas mãos desarmadas.”
“Não foi com minhas mãos desarmadas.” Ela se sentiu estranha em ser felicitada por
matar alguma coisa. “Era de Jace, bem eu não me lembro do que ele chamou, mas...”
“Ela quer dizer o meu sensor,” Jace disse, “Ela o enviou dentro da garganta da coisa.
As runas devem ter bloqueado ele. Eu aposto que vou precisar de outro,” ele
acrescentou, quase como uma reflexão.
“Existem várias amas extras na sala de armas,” Hodge disse. Quando ele sorriu para
Clary, mil pequenas linhas irradiaram ao redor de seus olhos, como fissuras em uma
pintura antiga. “Isso foi pensar rápido. O que te deu a idéia de usar o sensor como
uma arma?”

Antes que ela pudesse responder, uma forte gargalhada soou através da sala. Clary
tinha ficado tão extasiada com os livros e distraída por Hodge que ela não tinha visto
Alec esparramado em uma poltrona vermelha confortável ao lado de uma lareira
vazia. “Eu não acredito que você comprou essa história, Hodge,” ele disse
Pela primeira vez Clary não tinha registrado suas palavras. Ela estava tão ocupada
encarando ele. Como muitos filhos únicos, ela estava fascinada com a semelhança
entre irmãos, e agora, em plena luz do dia, ela podia ver exatamente o quanto Alec
parecia com sua irmã. Eles tinham o mesmo cabelo preto azeviche, as mesmas
delicadas sobrancelhas apontando acima nos cantos, a mesma palidez, da cor da
pele. Mas onde Isabelle era toda arrogância, Alec saia de sua cadeira como se ele
esperasse que ninguém notasse ele. Seus cílios eram longos e escuros como os de
Isabelle, mas onde os olhos dela eram negros, os olhos dele eram de um azul escuro
de garrafa de vidro. Ele olhou para Clary com uma hostilidade tão pura e concentrada
quanto ácido.
“Eu não tenho certeza do que você quer dizer, Alec.” A sobrancelha de Hodge se
levantou. Clary se perguntou quão velho ele era; era um tipo de sem idade, apesar
de seu cabelo cinza. Ele usava um elegante terno cinza de tweed, perfeitamente
passado. Ele parecia como um gentil professor universitário se não fosse pela espessa
cicatriz desenhada no lado direito de seu rosto. Ela se perguntou como ele tinha
ganhado aquilo. “Você está sugerindo que ela não matou aquele demônio afinal?”
“É claro que ela não matou. Olhe para ela – ela é uma mundana, Hodge, é uma
criancinha, é isso. Não tem como ela ter pego um Ravener.”
“Eu não sou uma criancinha,” Clary interrompeu. “Eu tenho dezesseis anos – bom, eu
vou fazer no Domingo.”
“A mesma idade de Isabelle,” Hodge disse. “Você pode chamar ela de criança?”
“Isabelle vem de uma das maiores dinastias de Caçadores de Sombras na história,”
Alec disse secamente. “Esta garota, por outro lado, vem de Nova Jersey.”
“Eu sou do Brooklyn!” Clary ficou indignada. “E o quê é que tem? Eu apenas matei
um demônio em minha própria casa, e você fica sendo um babaca sobre isso porque
eu não sou uma pirralha podre de rica como você e sua irmã?”
Alec olhou atônito. ”Do que você me chamou?”
Jace riu. “Ela tem um ponto, Alec.” Jace disse. “Isso é aqueles demônios de ponte-e-
túnel que você realmente tem que ficar alerta para...”
“Não é engraçado, Jace,” Alec interrompeu, ficando de pé. “Você vai apenas deixar
ela aí me pondo nomes?”
“Sim,” Jace disse gentilmente. “Vai fazer bem a você – tente pensar nela como um
treinamento de paciência.”
“Nós podemos ser guerreiros13,” Alec disse firmemente. “Mas a sua petulância está
cansando minha paciência.”
13
  Parabatai(original) que significa transgressor, infrator, aqueles que se rebeliam contra Deus.
 Na trilogia o significa é: Um par de guerreiros que combatem em conjunto.
 A sua ligação é mais estreita do que a de dois irmãos.

“E sua obstinação está abusando da minha. Quando eu achei ela, ela estava deitada
no chão em uma piscina de sangue com um demônio morrendo praticamente em
cima dela. Eu vi quando aquilo desapareceu. Se ela não matou ele, quem matou?”
“Raveners são estúpidos. Talvez aquilo acertou a si mesmo no pescoço com o ferrão.
Isso já aconteceu antes...”
“Agora você está sugerindo que eu estava cometendo suicídio?”
A boca de Alec se apertou. “Não é certo para ela estar aqui. Mundanos não são
permitidos no Instituto, e há boas razões para isso. Se alguém souber sobre isso, nós
podemos ser reportados para a Clave14.”
“Isso não é inteiramente a verdade,” Hodge disse. “A Lei nos permite oferecer um
santuário para os mundanos em determinadas circunstâncias. O Ravener já atacou a
mãe de Clary – ela poderia ser a próxima.”
Atacou.
Clary se perguntou se isso era um eufemismo para “assassinou”. O corvo sobre o
ombro de Hodge crocitou suavemente.
“Raveners são máquinas que procuram e destroem,” Alec disse. “Eles agem sob as
ordens de bruxos e poderosos senhores de demônios. Agora, o que interessaria a um
bruxo ou a um senhor de demônios um lar mundano comum?” Os olhos deles quando
olharam para Clary estavam brilhantes com antipatia. “Alguma idéia?”
Clary disse, ”Deve ter sido um engano.”
“Demônios não cometem esse tipo de engano. Se eles foram atrás de sua mãe, deve
ter sido por um motivo. Se ela era inocente...”
“O que você quer dizer com „inocente‟?” Clary disse com a voz baixa.
Alec pareceu surpreendido. “Eu...”
“O que ele quis dizer,” disse Hodge, “é que é extremamente raro para um poderoso
demônio, o tipo que comanda um grupo de demônios inferiores, ter interesses em
assuntos dos seres humanos. Nenhum mundano pode invocar um demônio – eles não
tem esse poder – mas, se houver algum em desespero ou insensatez, ele pode
encontrar uma bruxa ou um bruxo que possa fazer isso por eles.”
“Minha mãe não conhece nenhum bruxo. Ela não acredita em mágica.” Um
pensamento ocorreu a Clary. “Madame Dorothea – ela vive no andar de baixo – ela é
uma bruxa. Talvez os demônios vieram atrás dela e pegaram a minha mãe por
engano?”
As sobrancelhas de Hodge subiu até o seus cabelos. “Uma bruxa vive no seu andar de
baixo?”
“Ela é uma bruxa picareta – uma farsa,” disse Jace. “Eu já olhei ali. Não há razão
para qualquer bruxo estar interessado nela a menos que ele esteja no mercado para
bolas de cristal disfuncionais.”
14
Clave: órgão que faz decisões e dá as regras dos Caçadores de Sombras e os Downworlders (vampiros, lobisomens...)

“E estamos de volta onde nós começamos.” Hodge alcançou o pássaro para afagá-lo
em seu ombro. “Parece que chegou o momento de notificarmos a Clave.”
“Não!” Jace disse. “Nós não podemos...”
“Fazia sentido nós mantermos a presença de Clary aqui em segredo enquanto nós
não tínhamos certeza se ela iria se recuperar,” Hodge disse. ”Mas agora ela está, e
ela é a primeira mundana a passar pelas portas do Instituto, em mais de cem anos.
Você conhece as regras sobre um mundano ter o conhecimento dos Caçadores de
Sombras, Jace. A Clave precisa ser informada.”
“Absolutamente,” Alec concordou. “Eu posso enviar uma mensagem para o meu
pai...”
“Ela não é uma mundana,” Jace disse quietamente.
As sobrancelhas de Hodge se jogaram para trás até sua linha do cabelo e
permaneceram lá. Alec, apanhado no meio da frase, chocado com a surpresa. Em
meio ao silêncio Clary podia ouvir o som das asas de Hugo agitando.
“Mas eu sou,” ela disse.
“Não,” Jace disse. “Você não é.” Ele se virou para Hodge e Clary viu o ligeiro
movimento de sua garganta quando ele engoliu. Ela achou um vislumbre de
nervosismo, estranhamente tranqüilizador. “Naquela noite – havia demônios Dusien,
vestidos como policiais. Nós tivemos que passar por eles. Clary estava muito fraca
para correr e não havia tempo para se esconder – ela poderia ter morrido. Então eu
usei minha estela – coloquei uma runa mendelin dentro do seu braço. Eu pensei...”
“Você perdeu a cabeça?” Hodge bateu sua mão sobre a mesa tão duramente que
Clary pensou que a madeira iria rachar. “Você sabe o que a Lei diz sobre colocar
marcas em mundanos! Você, você de todas as pessoas que deve saber melhor que
isso!”
“Mas funcionou,” Jace disse. “Clary mostre para eles o seu braço.”
Com um olhar confuso na direção de Jace, ela segurou seu braço. Ela lembrou
olhando para ele que naquela noite no beco, pensando no quanto ele parecia. Agora,
logo abaixo do vinco do seu pulso, ela podia ver três círculos sobrepostos
desaparecendo, as linhas como fracas memórias de uma cicatriz que tinha desbotado
com o passar dos anos. “Vê, está quase desaparecendo.” Jace disse. “Não machucou
ela de forma alguma.”
“Esse não é o ponto.” Hodge mal conseguia controlar sua raiva. “Você poderia ter
tornado ela em um Esquecido.”
Duas manchas brilhantes de cor queimaram as bochechas de Alec. “Eu não posso
acreditar em você, Jace. Apenas Caçadores de Sombras podem receber a Marca do
Pacto – elas matam os mundanos...”
“Ela não é uma mundana. Você está escutando? Isso explica o porque de ela poder
nos ver. Ela deve ter o sangue da Clave.”
Clary baixou seu braço, sentindo-se subitamente gelada. “Mas eu não. Eu não
poderia.”

“Você deve,” Jace disse, sem olhar para ela. “Se não, essa marca que fiz em seu
braço...”
“Já chega, Jace,” Hodge disse, o descontentamento evidente em sua voz. “Não há
necessidade de assustá-la ainda mais.”
“Mas eu estava certo, não estava? Isso explica o porque aconteceu com sua mãe,
também. Se ela era uma Caçadora de Sombras no exílio, ela poderia muito bem ter
inimigos no Downworld.”
“Minha mãe não era uma Caçadora de Sombras!”
“Seu pai, então,” Jace disse. “E sobre ele?”
Clary retornou seu olhar com um olhar plano. “Ele morreu. Antes que eu nascesse.”
Jace vacilou, quase que imperceptivelmente. Foi Alec que falou. “Isso é possível,” ele
disse com incerteza. ”Se seu pai era um Caçador de Sombras, e sua mãe uma
mundana, bem, nós todos sabemos que é contra a Lei se casar com um mundano.
Talvez eles estivessem se escondendo.”
“Minha mãe teria me dito,” Clary disse, embora ela pensava na falta de mais do que
uma foto de seu pai, o jeito como ela nunca falava sobre ele, e sabia que aquilo não
era verdade.
“Não necessariamente,” Jace disse. “Todos nós temos segredos.”
“Luke,” Clary disse. “Nosso amigo. Ele deve saber.” Com a lembrança de Luke veio
um flash de culpa e terror. “Já se foram três dias – ele deve estar em pânico. Eu
posso ligar para ele? Onde tem um telefone?” Ela virou-se para Jace. “Por favor.”
Jace hesitou, olhando para Hodge, que concordou e se moveu para o lado da mesa.
Atrás dele havia um globo, feito de latão batido, aquilo não parecia muito com outros
globos que ela já tinha visto, havia algo sutilmente estranho na forma dos países e
continentes. Próximo ao globo estava um arcaico telefone preto com números
rotativos prata. Clary o levantou a sua orelha, o familiar sinal do tom de discagem
lavando ela como uma água calmante.
Luke atendeu ao terceiro toque. “Alô?”
“Luke!” Ela vergou sobre a mesa. “Sou eu. Clary.”
“Clary.” Ela podia ouvir o som de alívio em sua voz, juntamente com outra coisa que
ela não conseguia identificar. “Você está bem?”
“Eu estou bem,” ela disse. “Me desculpe por não ter te ligado antes. Luke, minha
mãe...”
“Eu sei. A policia esteve aqui.”
“Então você não ouviu falar dela.” Qualquer vestígio de esperança que ela tivesse de
sua mãe ter fugido de casa e se escondido em algum lugar, desapareceu. Não tinha
como ela não ter contactado com Luke.
“O que a polícia disse?”

“Só que ela está desaparecida.” Clary pensou na policial com sua mão esquelética, e
tremeu. “Onde você está?”
“Eu estou na cidade,” Clary disse. “Eu não sei onde exatamente. Com alguns amigos.
Minha carteira sumiu, acho. Se você tiver algum dinheiro, eu poderia pegar um taxi
até a sua casa...”
“Não,” Ele disse breve.
O telefone escorregou em sua mão suada. Ela pegou ele. “O que?”
“Não,” ele disse. “É muito perigoso. Você não pode vir até aqui.”
“Nós poderíamos chamar...”
“Olhe.” Sua voz estava dura. “Seja lá em que problema sua mãe se meteu, isso não
tem nada haver comigo. É melhor você ficar onde você está.”
“Mas eu não quero ficar aqui.” Ela ouviu a queixa em sua voz, como uma criança. “Eu
não conheço essas pessoas. Você...”
“Eu não sou o seu pai, Clary. Eu já te disse isso antes.”
Lágrimas queimaram dentro de seus olhos. “Me desculpe. É só que...”
“Não me ligue por favores novamente,” ele disse, “Eu tenho meus próprios
problemas, eu não preciso ser incomodado com os seus,” ele adicionou, e desligou o
telefone.
Ela parou e olhou para o aparelho, o toque de discagem soando em seu ouvido como
uma grande e feia vespa. Ela ligou para o número de Luke de novo, esperando. Desta
vez caiu no correio de voz.
Ela bateu o telefone, suas mãos tremendo.
Jace estava inclinado contra o braço da cadeira de Alec, olhando ela. “Acho que ele
não ficou feliz ao ouvir você?”
O coração de Clary sentiu como se ele tivesse encolhido para o tamanho de uma noz:
uma pequena, dura pedra em seu peito. Eu não vou chorar, ela pensou. Não na
frente dessas pessoas.
“Eu acho que gostaria de ter uma conversa com Clary,” Hodge disse, “Sozinho,”
acrescentou firmemente, vendo a expressão de Jace.
Alec se levantou. “Tudo bem, nós vamos deixar isso com você.”
“Isso é dificilmente justo,” Jace opôs. “Eu sou o único que encontrei ela. Sou o único
que salvou sua vida! Você me quer aqui, não quer?” Ele apelou, virando-se para
Clary.
Clary olhava para longe, sabendo que, se ela abrisse a boca, ela ia começar a chorar.
Enquanto a uma certa distância, ela pode ouvir Alec rir.
“Nem todo mundo quer você o tempo todo Jace,” ele disse.
“Não seja ridículo,” ela ouviu Jace dizer, mas ele soou desapontado. “Tudo bem
então. Nós estaremos na sala de armas.”

A porta se fechou atrás deles com um clique definitivo. Os olhos de Clary estavam
ardendo enquanto ela tentava segurar as lágrimas para dentro por tanto tempo.
Hodge estava indistinto em frente a ela, um irrequieto borrão cinza. “Sente-se,” ele
disse. “Aqui, no sofá.”
Ela sentou cheia de gratidão nas almofadas macias. Suas bochechas estavam
molhadas. Ela chegou a limpar algumas lágrimas do caminho, piscando. “Eu não
choro muito, geralmente,” ela se encontrou dizendo. “Isso não significa nada. Eu vou
ficar bem em um minuto.”
“A maioria das pessoas não choram quando estão chateadas ou amedrontadas, mas
sim quando estão frustradas. Sua frustração é compreensível. Você esteve tentando
por muito tempo.”
“Tentando?” Clary limpou os olhos na gola da camisa de Isabelle. “Você pode dizer
isso.”
Hodge puxou sua cadeira para trás da mesa, arrastando ela para que pudesse sentar
em frente a ela. Seus olhos, ela viu, eram cinza, como seu cabelo e o casaco de
tweed, mas ele tinha bondade neles. ”Há alguma coisa que eu possa fazer por você?”
ele perguntou. “Algo para beber? Chá?”
“Eu não quero chá,” Clary disse, com uma abafada força. “Quero encontrar minha
mãe. E então eu quero saber quem a levou em primeiro lugar, e eu quero matar
eles.”
“Infelizmente,” Hodge disse, “nós todos estamos fora da amarga vingança neste
momento, por isso é chá ou nada.”
Clary deixou cair a gola da camisa, agora toda molhada com manchas, e disse, “o que
eu devo fazer, então?”
“Você poderia começar me contando um pouco sobre o que aconteceu,” Hodge disse,
inspecionando o seu bolso. Ele conseguiu um lenço de mão – metodicamente dobrado
– e entregou a ela. Ela o pegou em um silêncio atônito. Ela nunca conheceu antes
alguém que carregasse um lenço de mão. “O demônio que você viu em seu
apartamento – era a primeira criatura que você já tinha visto? Você antes não tinha
idéia que tais criaturas existiam?”
Clary balançou sua cabeça, depois pausou. “Uma antes, mas eu não percebi o que
era. A primeira vez que eu vi Jace...”
“Certo, é claro, que tolo eu sou de esquecer.” Hodge concordou. “No Pandemonium.
Aquela foi a primeira vez?”
“Sim.”
“E sua mãe nunca mencionou eles para você – nada sobre outro mundo, talvez aquilo
que a maioria das pessoas não vê? Ela parecia ter particularmente interesse em
mitos, contos de fadas, lendas do fantástico...”
“Não. Ela odiava todas essas coisas. Ele odiava até os filmes da Disney. Ela não
gostava quando eu lia mangá. Ela dizia que aquilo era infantil.”
Hodge coçou sua cabeça. Seu cabelo não se moveu. “Muito peculiar,” ele murmurou.

“Não realmente,” Clary disse. “Minha mãe não era peculiar. Ela era a pessoa mais
normal do mundo.”
“Pessoas normais geralmente não acham suas casas saqueadas por demônios,”
Hodge disse, não sem ser gentil.
“Isso não pode ter sido um engano?”
“Se tivesse sido um erro,” disse Hodge, “e você fosse um garota normal, você não
teria visto o demônio que te atacou, ou se tivesse, sua mente teria processado outro
tipo de coisa: como um cão raivoso, até mesmo outro ser humano. Você pode ver
ele, e ele falou com você...”
“Como você sabe que ele falou comigo?”
“Jace relatou que você disse „ele falou‟.”
“Aquilo sibilou.” Clary tremeu lembrando. “Aquilo falava sobre querer me comer, mas
eu acho que não podia.”
“Raveners estão geralmente sob o controle de um forte demônio. Eles não são muito
inteligentes ou capazes por conta própria,” Hodge explicou. “Aquilo disse o que o seu
mestre estava procurando?”
Clary pensou. “Ele disse algo sobre Valentine, mas...”
Hodge se moveu ereto, tão abruptamente que Hugo, que estava descansando
confortavelmente em seu ombro, lançou-se no ar com um crocitar irritado.
“Valentine?”
“Sim,” Clary disse. “Eu ouvi o mesmo nome no Pandemonium pelo garoto – quer
dizer, do demônio...”
“É o nome todos nós conhecemos,” Hodge disse curtamente. Sua voz era firme, mas
ela pode ver um ligeiro tremor nas mãos dele. Hugo, de volta ao ombro, esticando
suas penas inquietamente.
“Um demônio?”
“Não. Valentine é – era um Caçador de Sombras.”
“Um Caçador de Sombras? Por que você disse que era?”
“Porque ele está morto,” Hodge disse amortecido. ”Ele foi morto há quinze anos.”
Clary afundou contra as almofadas do sofá. Sua cabeça estava latejando. Talvez ela
devesse ter o chá depois de tudo. “Poderia ser outra pessoa? Alguém com o mesmo
nome?”
Hodge riu sem uma ponta de humor. “Não. Mas pode ter sido alguém usando seu
nome para enviar uma mensagem.” Ele se levantou e andou ao redor de sua mesa,
suas mãos fechadas atrás de suas costas. “E esse seria o momento para fazê-lo.”
“Por que agora?”
“Por causa do Acordo.”
“As negociações de paz? Jace mencionou eles. Paz com quem?

“Com os Downwolders,” Hodge murmurou. Ele olhou abaixo para Clary. Sua boca era
uma linha apertada. “Desculpe-me,” ele disse. “Isso deve ser confuso para você.”
“Você acha?”
Ele inclinou contra a mesa, acariciando distraidamente as penas de Hugo.
“Downworlders são aqueles que partilham conosco o Mundo das Sombras. Temos
sempre vivido em uma desconfortável paz com eles.”
“Como vampiros, lobisomens, e...”
“E reino das fadas,” Hodge disse. “Fadas. Os filhos de Lilith, sendo semi-demônios,
são bruxas.”
“Então o que são vocês Caçadores das Sombras?”
“Nós às vezes somos chamados de Nephilim,” Hodge disse. “Na Bíblia eram os
descendentes dos seres humanos e dos anjos. A lenda da origem dos Caçadores de
Sombras é que eles foram criados há mais de mil anos atrás, quando os seres
humanos estavam sendo superados pelas invasões dos demônios e de outros
mundos. Um bruxo convocou o Anjo Raziel, que misturou seu próprio sangue com o
sangue dos homens, em uma taça, e deu aos homens para beber. Aqueles que
bebessem do sangue do anjo tornariam-se um Caçador de Sombras, como fizeram a
seus filhos e aos filhos de seus filhos. A taça ficou posteriormente conhecida como a
Taça Mortal. Apesar da lenda pode não ser verdade, a verdade é que, através dos
anos, quando as fileiras dos Caçadores de Sombras são diminuídas, sempre é possível
criar mais Caçadores de Sombras utilizando a taça.”
“Sempre foi possível?”
“A taça se foi,” Hodge disse. “Destruída por Valentine, pouco antes de morrer. Ele
lançou ela ao incêndio e queimou a si mesmo até a morte com toda a sua família, sua
esposa, e seu filho. Chamuscando a terra negra. Ninguém vai construir nada lá. Eles
dizem que a terra está amaldiçoada.”
“E está?”
“Possivelmente. Ficou nas mãos da Clave as maldições na ocasião como o punição
pela quebra da lei. Valentine quebrou a maior das leis de todas – ele usou as armas
contras seus próprios companheiros Caçadores de Sombras e os matou. Ele e seu
grupo, o Círculo, mataram dezenas de seus irmãos, juntamente com centenas de
Downworlders durante o últimos Acordos. Eles foram apenas abertamente
derrotados.”
“Por que ele iria querer criar outros Caçadores de Sombras.”
“Ele não aprovava os Acordos. Ele desprezava os Downworlders e achava que eles
deveriam ser abatidos, indiscriminadamente, para manter este mundo puro para os
seres humanos. Embora os Downworlders não sejam demônios, nem invasores, ele
achava que eles tinham a natureza demoníaca, e isso foi o suficiente. A Clave não
concordou – eles achavam que a ajuda dos Downwolders era necessária se
tivéssemos queexpulsar um tipo de demônio para o bem. E quem poderia
argumentar, realmente, que o reino folclórico não pertencia a este mundo, quando
eles tem estado aqui a mais tempo do que nós?”

“Os acordos chegaram a ser assinados?
“Sim, eles foram assinados. Os Downworlders viram que a Clave tornou Valentine e
seu Circulo, em sua defesa, eles perceberam que os Caçadores das Sombras não
eram seus inimigos. Ironicamente, com a insurreição de Valentine o Acordo foi
possível.” Hodge sentou em sua cadeira novamente. “Me desculpe, isso deve ser uma
lição aborrecida de história para você. Esse era Valentine. Um agitador, um
visionário, um homem com grande charme pessoal e convicção. E um assassino.
Agora alguém está invocando o seu nome...”
“Mas quem?” Clary perguntou. “E o que é que a minha mãe ter a ver com isso?”
Hodge se levantou novamente. “Eu não sei. Mas farei o possível para descobrir. Vou
enviar mensagens para a Clave e também para os Irmãos do Silêncio. Eles podem
querer falar com você.”
Clary não perguntou quem eram os Irmãos do Silêncio. Ela estava cansada demais
para fazer perguntas cujas respostas apenas a deixavam mais confusa. Ele se
levantou.
“Existe alguma chance de eu poder ir para casa?”
Hodge pareceu preocupado. “Não, eu, eu não acho que seria sábio.”
“Tem coisas que eu preciso, mesmo que eu vá ficar por aqui. Roupas...”
“Nós podemos lhe dar dinheiro para comprar roupas novas.”
“Por favor,” Clary disse. “Eu tenho que ver se... eu tenho que ver o que restou.”
Hodge hesitou, então lhe ofereceu um curto e invertido concordar. “Se Jace concordar
com isso, ambos podem ir.” Ele virou para sua mesa, inspecionando entre os papéis.
Ele olhou por cima dos seus ombros como se notasse que ela ainda estava lá. “Ele
está na sala de armas.”
“Eu não sei onde é.”
Hodge sorriu torto. “Church irá levar você.”
Ela olhou em direção a porta onde um gordo azul Persa estava enrolado como um
pequeno otomano. Ele se levantou quando ela vinha em direção, o pêlo ondulando
como líquido. Com um imperioso meow ele levou ela para o saguão. Quando ela
olhou por cima de seu ombro, ela viu Hodge já rabiscando em um pedaço de papel.
Enviando uma mensagem para a misteriosa Clave, ela apostou. Eles não soavam
como pessoas muito legais. Ela se perguntou qual seria sua resposta.
***
A tinta vermelha parecia sangue contra o papel branco. Franzindo, Hodge
Starkweather enrolou a carta, cuidadosamente e meticulosamente, em uma forma de
tubo assobiou para Hugo. O pássaro, crocitou suavemente, assentando em seu
punho. Hodge piscou. Anos atrás, na insurreição, ele tinha sofrido um ferimento no
ombro, e mesmo com o suave peso de Hugo – ou em uma determinada época do
ano, uma mudança de temperatura ou umidade, com um súbito movimento de seu
braço, despertava dores agudas antigas e memórias dolorosas que eram melhor
serem esquecidas.

Havia algumas memórias porém que nunca eram apagadas. Imagens repentinas
como flashes atrás de suas pálpebras quando ele fechava seus olhos. Sangue e
corpos, terra esmagada, um pódio branco manchado de vermelho. O choro da morte.
O verde e os campos ondulantes de Idris e o céu azul infinito, perfurados pelas torre
da Cidade de Vidro. A dor da perda subiu dento dele como uma onda; e ele apertou
seu punho, Hugo, tremulando as asas picou raivosamente sem dedos, tirando
sangue. Abrindo sua mão, Hodge libertou a ave, que circulou acima de sua cabeça até
a clarabóia e então desapareceu.
Retirando seu senso de presságio, Hodgepegou outro pedaço de papel, não
percebendo as gotas escarlates manchando o papel enquanto ele escrevia.


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