quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Série Instrumentos Mortais - Cidade dos Ossos 4

4 – O Ravener10

A noite tinha se tornado mais quente e ela correndo para casa se sentiu como se
estivesse nadando tão rápido, como se ela atravessasse uma sopa fervendo. Na
esquina do seu bloco ela ficou presa em um sinal de pare. Ela agitou-se para cima e
para baixo impacientemente nos calcanhares de seus pés enquanto o tráfego zumbia
por um borrão de faróis. Ela tentou ligar para casa de novo. Mas Jace não estava
mentindo; seu telefone não era um telefone. Pelo menos ele não se parecia com
qualquer telefone que Clary tinha visto antes. Os botões do sensor não tinham
números neles, apenas mais daqueles bizarros símbolos, e ali não havia nenhuma
tela.
Correndo pela rua em direção a casa dela, ela viu que as janelas do segundo andar
estavam acesas, o sinal de sempre que sua mãe estava em casa. Ok ela disse para si
mesma. Tá tudo bem. Mas seu estômago apertou no momento em que ela passou
pela entrada. As luzes acima estavam queimadas, e o saguão estava na escuridão. As
sombras pareciam cheias de movimentos secretos. Tremendo ela subiu as escadas.
“E aonde você pensa que está indo?” disse uma voz.
Clary girou. “O que...”
Ela se afastou. Seus olhos estavam se ajustando à obscuridade, e ela podia ver uma
forma em uma grande poltrona, desenhada em frente a porta fechada de Madame
Dorothea. A velha estava encravada nela como uma almofada estufada. No escuro
Clary podia ver apenas ao redor de seu poroso rosto, um leque de rendas em sua
mão, no escuro, abrindo um buraco em sua boca quando ela começou a falar. “Sua
mãe,” Dorothea disse, “estava fazendo um terrível barulho lá em cima. O que ela está
fazendo? Movendo a mobília?”
“Eu não acho que...”
“E as luzes da escadaria queimaram, você não notou?” Dorothea bateu seu leque
contra o braço da cadeira. “Sua mãe não pode chamar seu namorado para trocar
isso?”
“Luke não é...”
“A clarabóia precisa ser lavada também. Está imunda. Não me surpreende que está
quase um breu aqui.”
Luke NÃO é um senhorio Clary queria dizer, mas não disse. Aquilo era típico de sua
vizinha mais velha. Uma vez ela pegou Luke para entrar e mudar uma lâmpada, ela
pedia a ele para fazer uma centena de outras coisas – pegar suas compras, rebocar
seu chuveiro. Uma vez ela fez ele cortar em pedaços um velho sofá com um
machado, para que ela pudesse colocá-lo fora do apartamento, sem ter que tirar a
porta das dobradiças.
10
  Ravener possui o significado de rapinante, espoliador ou glutão. Muitas das imagens que peguei disso demonstra um monstro
nojentinho e iguais a esse: http://www.tmcgames.com/files/games/eq/1/FamishedRavener.jpg ou
http://hem.spray.se/kendoka/arachnoids/images/ravener.gif

Clary suspirou. ”Eu vou pedir.”
“Seria melhor você ir." Dorothea bateu seu leque fechado em seu pulso.
O sentimento de Clary que algo estava errado só aumentou quando ela chegou a
porta do apartamento. Estava destrancada, pendurada ligeiramente aberta,
derramando um feixe de luz vertical para a entrada. Com um crescente sentimento
de pânico ela empurrou a porta aberta.
Dentro do apartamento as luzes estavam ligadas, todas as lâmpadas, tudo tornou-se
pleno de luminosidade. O brilho golpeava seus olhos.
As chaves de sua mãe e a bolsa de mão rosa estavam na pequena prateleira de ferro
forjado ao lado da porta, onde ela sempre deixava elas. “Mãe? Clary chamou. “Mãe,
eu estou em casa.”
Não houve nenhuma resposta. Ela foi para a sala de estar. Ambas as janelas estavam
abertas, a área das cortinas de gaze branca sopravam como irrequietos fantasmas.
Só quando o vento parou, as cortinas se assentaram fazendo Clary ver que as
almofadas foram arrancadas do sofá e espalhadas ao redor da sala. Algumas foram
arrancadas longitudinalmente, as entranhas de algodão se espalhando no chão. A
estante de livros havia sido derrubada, seu conteúdo disperso. A banqueta do piano
posicionada no seu lado, aberta escancarada como uma ferida, os adorados livros de
música de Jocelyn botados para fora.
O mais apavorante eram as pinturas. Cada uma tinha sido cortada de sua moldura e
rasgada em tiras, que estavam espalhadas pelo chão. Isso deveria ter sido feito com
uma faca – tela era quase impossível de se rasgar com as mãos. As molduras vazias
pareciam ossos secos. Clary sentiu um grito se elevando em seu peito: “Mãe!” ela
gritou. “Onde você está? Mamãe!”
Ela não chamava Jocelyn de “Mamãe” desde que ela tinha oito.
Coração pulando, ela correu para a cozinha. Ela estava vazia, as portas das
prateleiras abertas, uma garrafa esmagada de Tabasco derramando o molho
vermelho picante sobre o linóleo. Ela sentiu seus joelhos ficarem como sacos de água.
Ela sabia que tinha que fugir do apartamento, chegar a um telefone, chamar a polícia.
Mas todas as coisas pareciam distantes – ela precisava achar sua mãe primeiro,
precisava ver que ela estava bem. Se os ladrões tinham vindo, o que sua mãe tinha
utilizado em uma luta...?
Que tipo de ladrões não levam uma carteira com eles, ou uma Tv, o aparelho de DVD,
ou o caro notebook?
Ela foi até a porta do quarto de sua mãe agora. Por um momento ali pareceu como se
aquele quarto, tivesse sido deixado intocado. A colcha florida feita à mão estava
dobrada cuidadosamente sobre o edredon. O próprio rosto de Clary sorrindo de volta
para ela acima da mesa de cabeceira, cinco anos de idade, a lacuna dos dentes
sorrindo emoldurado por um cabelo ruivo. Um súbito soluço no peito de Clary. Mãe,
ela chorou por dentro, o que aconteceu com você?

Um silêncio respondeu a ela. Não, não um silêncio – um ruído soou através do
apartamento, arrepiando os cabelos da nuca de seu pescoço. Como alguma coisa
sendo batida forte – um objeto pesado encontrando o chão com uma batida
vagarosa. O baque era seguido por um arrastar, um barulho deslizante – e ele estava
vindo em direção ao quarto. O estômago se contraindo em terror, Clary mexeu seus
pés e virou lentamente.
Por um momento ela pensou que a entrada estava vazia, e ela sentiu uma onda de
alívio. Então ela olhou para baixo.
Aquilo estava curvado contra o chão, uma longa, e extensa criatura com um
aglomerado de olhos pretos planos fixados no final do centro em frente a parte
superior do seu crânio. Alguma coisa como o cruzamento entre um jacaré e uma
centopéia, tinha um espesso e plano focinho e uma cauda farpada que balançava
ameaçadoramente de um lado para o outro. Múltiplas pernas agrupadas debaixo dele
como se aquilo fosse arranjado para saltar.
Um guincho se soltou da garganta de Clary. Ela cambaleou para trás, tropeçou e caiu,
enquanto a criatura se aproximou até ela. Ela rolou para o lado e aquilo não acertou
ela por alguns centimetros, deslizando ao longo do assoalho de madeira, as suas
garras cinzelaram profundos sulcos. Um baixo rosnar borbulhou de sua garganta.
Ela mexeu os seus pés e correu em direção ao corredor, mas a coisa era muito mais
rápida do que ela. Ela saltou de novo, logo acima da porta, onde se agarrou como
uma gigantesca aranha maligna, olhando abaixo para ela com seu nicho de olhos.
Sua boca abriu lentamente, mostrando uma fileira de dentes pontudos derramando
uma baba esverdeada. Sua longa língua preta chicoteou entre sua mandíbula
enquanto aquilo gorgolejava e sibilava. Para seu horror Clary notou que aqueles
barulhos estava formando palavras.
“Garota” aquilo sibilou. “Carne. Sangue. Para comer, ah, para comer.”
Aquilo começou a se arrastar lentamente para baixo da parede. Algumas partes de
Clary tinha passado para além do terror para um tipo de silêncio gelado. A coisa já
estava a seus pés, rastejando em direção a ela. Se afastando para trás. Ela
aproveitou uma pesada foto emoldurada da mesa ao lado dela, ela, sua mãe e Luke
em Coney Island, nos carrinhos de bate-bate, e arremessou aquilo no monstro.
A fotografia acertou o seu meio e rebateu fora, atingindo o chão com o som de vidro
estilhaçando. A criatura não pareceu perceber. Aquilo vinha em direção a ela, os
vidros quebrados fragmentando debaixo de seus pés. “Ossos para mastigar, medula
para sugar, veias para beber...”
Clary bateu as costas na parede. Ela não podia ir se afastar mais. Ela sentiu um
movimento contra seu quadril e quase pulou fora de sua pele. Seu bolso.
Mergulhando a mão dentro, ela retirou a coisa de plástico que tinha pego de Jace. O
sensor estava tremendo, como um celular ajustado para vibrar. O material duro era
quase dolorosamente quente contra sua palma. Ela fechou sua mão sobre o sensor
justo quando a criatura saltou.

A criatura colidiu com ela, golpeando ela ao chão, a sua cabeça e seus ombros
bateram contra o chão. Ela retorceu para o lado, mas ele era muito pesado também.
Ele estava em cima dela, opressor, o viscoso peso daquilo fez ela querer fechar a
boca. “Para comer, para comer,” aquilo gemia. “Mas não é permitido, para engolir,
para saborear.”
A respiração quente em seu rosto exalava sangue. Ela não conseguia respirar. Suas
costelas pareciam que iam se quebrar. Seus braço colocado entre seu corpo e o do
monstro, o sensor enbutido em sua palma. Ela retorceu, tentando mover sua mão
livre. “Valentine nunca saberá. Ele não disse nada sobre uma garota. Valentine não
vai ficará zangado.” Sua boca sem lábios contraia-se quando sua goela se abriu,
lentamente, um onda de ar quente pútrido em seu rosto.
A mão de Clary se libertou. Com um grito ela acertou a coisa, esperando esmagá-la,
cegá-la. Ela quase tinha se esquecido do sensor. Quando a criatura deu o bote em
seu rosto, a mandíbula larga, ela socou o sensor entre os seus dentes e sentiu o
calor, o babar ácido cobriu seu punho que derramou, queimando em sua pele do seu
rosto e pescoço. Como se estivesse a distância ela pode ouvir a si mesma gritando.
Parecendo quase surpresa, a criatura pulou para trás, o sensor entre dois dentes.
Aquilo rosnou, um forte zumbido zangado, e jogou sua cabeça para trás. Clary viu
aquilo engolir, viu o movimento de sua garganta. Eu sou a próxima, ela pensou, em
pânico. Eu estou...
De repente a coisa começou a se contorcer. Espasmando incontrolavelmente, aquilo
rolou para fora de Clary e ficou sobre suas costas, as múltiplas pernas agitando no ar.
Um fluido negro derramando-se de sua boca.
Sugando por ar, Clary rolou e começou a se arrastar para longe da coisa. Ela chegou
perto da porta quando ela ouviu algo assobiando através do ar perto de sua cabeça.
Ela tentou levantar, mas era tarde demais. Um objeto bateu fortemente na parte de
trás do seu crânio, e ela desabou em direção a escuridão.
Luz apunhalava através de suas pálpebras, azul, branca e vermelha. Havia um ruído
alto de sirene, aumentando como um grito de uma criança assustada. Clary engasgou
e abriu os olhos.
Ela estava deitada na grama fria e úmida. O céu noturno agitando-se sobre sua
cabeça. As centelhas prateadas das estrelas removidas pelas luzes da cidade. Jace
ajoelhado ao seu lado, seus braceletes de prata em seus pulsos jogando centelhas de
luz enquanto ele rasgava um pedaço de roupa que ele segurava em tiras. “Não se
mova.”
Um gemido ameaçador dividiu suas orelhas ao meio. Clary virou sua cabeça para o
lado, desobedientemente, e foi recompensada com uma aguçada punhalada de dor
que acertou suas costas. Ela estava deitada sobre um pedaço de grama atrás do
cuidadosamente delicado arbusto de rosas de Jocelyn. A folhagem parcialmente
escondia sua visão da rua, onde um carro da polícia, com sua barra de luzes azuis e
brancas piscando, estava empurrando uma restrição, a sirene soando. Já um pequeno
grupo de vizinhos se reuniram, olhando enquanto a porta do carro se abria e dois
oficiais em uniformes azuis emergiam.

A polícia. Ela tentou se sentar, e falar de novo, contraindo seus dedos na terra úmida.
“Eu disse para você não se mover,” Jace sibilou. “Aquele demônio rapinante pegou
você atrás de seu pescoço. Está meio morto então isso não é muito mais do que uma
picada, mas nós temos que levar você para o Instituto. Fique quieta.”
“Aquela coisa, o monstro, aquilo falava.” Clary estava tremendo incontrolavelmente.
“Você tinha ouvido um demônio falar antes.” As mãos de Jace eram gentis enquanto
ele escorregava uma tira de pano debaixo de seu pescoço, e amarrava. Aquilo estava
manchado com alguma coisa encerada, como a pomada de jardineiro que sua mãe
utilizava para manter suas suaves mãos do excesso de tinta – e terebintina.
“O demônio no Pandemonium – ele parecia com uma pessoa.”
“Aquilo era um demônio Eidolon. Um transmorfo. Rapinantes parecem como eles
são. Não muito atrativo, mas eles são muito estúpidos para ligar.”
“Ele dizia que iria me comer.”
“Mas ele não comeu. Você matou ele.” Jace terminou o laço e sentou.
Para alivio de Clary a dor em volta de seu pescoço estava sumindo. Ela se arrastou a
si mesma em uma posição sentada. “A polícia está aqui.” Sua voz saiu como um
coaxo de um sapo. “Nós deveríamos...”
“Lá não há nada que eles possam fazer. Alguém provavelmente ouviu você gritando e
reportou a eles. Dez a um que eles não são policiais de verdade. Demônios tem um
jeito de esconder seus rastros.
“Minha mãe,” Clary disse, forçando as palavras através de sua garganta inchada.
“Tem veneno do Ravener correndo por suas veias agora mesmo. Você morrerá em
uma hora se você não vier comigo.” Ele a levantou em seus pés e segurou uma mão
nela. Ela levantou e ele a puxou para cima. “Vamos.”
O mundo girou. Jace deslizou uma mão através de suas costas, mantendo ela estável.
Ele cheirava a sujeira, sangue e metal. “Você pode caminhar?”
“Eu acho que sim.” Ela olhou através da densa massa de arbustos. Ela podia ver o
policial vindo em direção. Um deles, uma esguia mulher loira, que segurava uma
lanterna em uma mão. Quando ela a levantou, Clary pode ver sua mão descarnada,
uma mão esquelética afiada com pontos de ossos nas pontas dos dedos. “Sua mão...”
“Eu disse que eles poderiam ser demônios.” Jace olhou para a parte de trás da casa.
”Nós temos que sair daqui. Nós podemos ir através do beco?”
Clary balançou sua cabeça. “Está pavimentada. Não tem saída...” Suas palavras se
dissolveram em uma forma de tosse. Ela levantou sua mão para cobrir sua boca. Ela
ficou vermelha. Ela choramingou.

Ele agarrou seu pulso, virando-o para cima assim que a branca, a carne vulnerável
do interior de seu braço nu sob o luar. As veias tracejadas de azul mapeavam o
interior de sua pele, transportando o sangue envenenado para o coração dela, o seu
cérebro. Clary sentiu seus joelhos lutarem. Havia alguma coisa na mão de Jace, algo
afiado e prata. Ela tentou puxar a mão dela de volta, mas o seu aperto era muito
forte: Ela sentiu uma ferroada beijar contra sua pele. Quando ele soltou, ela viu um
símbolo pintado de preto como uns que cobriam sua pele, logo abaixo da dobra do
seu pulso. Este parecia como um conjunto de círculos sobrepostos.
“O que é que vai se fazer?”
“Eu vou esconder você,” ele disse. “Temporariamente.” Ele guardou a coisa que Clary
pensou que era uma faca de volta no seu cinto. Era um longo e luminoso cilindro, da
espessura de um dedo indicador e afinando até sua ponta. “Minha estela11,ele disse.”
Clary não perguntou o que era. Ela estava muito ocupada tentando não cair. O chão
estava subindo e descendo sob os seus pés. “Jace,” ela disse, e ela caiu em cima
dele. Ele segurou ela como se ele estivesse pegando garotas desmaiadas, como se ele
fizesse isso todos os dias. Talvez ele fizesse.
Ele a colocou em seus braços, dizendo alguma coisa em seus ouvidos que soava como
uma promessa. Clary virou sua cabeça para trás para olhar para ele mas viu apenas
as estrelas girando através do céu escuro sob sua cabeça. Então a resistência caiu
em tudo, e mesmo os braços de Jace em torno dela não foram o suficiente para seu
desmaio.
11
Também chamado monólito(placa de pedra com inscrição).


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