quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Série Instrumentos Mortais - Cidade dos Ossos 19

19 – Abbadon
Clary não tinha certeza do que ela esperava – exclamações de deleite, talvez um
pouco de aplausos. Ao contrário disso houve silêncio, quebrado apenas quando Jace
disse, “De algum modo, eu pensei que ela era maior.”
Clary olhou para a Taça em sua mão. Ela tinha o tamanho, talvez, de uma taça
comum de vinho, apenas mais pesada. Poder vibrava através dela, como o sangue
vivo através das veias. "É um tamanho perfeitamente legal," ela disse indignada.
"Oh, não é grande o suficiente," ele disse concedentemente, "mas eu estava
esperando alguma coisa... você sabe." Ele fez sinais com as mãos, indicando algo
aproximadamente do tamanho de um gato caseiro.
"É a Taça Mortal, Jace, e não o Vaso Sanitário Mortal," Isabelle disse. "Já terminamos
agora? Podemos ir?"
Dorothea tinha levantado a cabeça para um lado, os seus redondos olhos brilhantes e
interessados. "Mas está danificada!" ela exclamou. "Como isso aconteceu?"
"Danificada?" Clary olhou para a Taça em confusão. Parecia perfeita para ela.
"Aqui," disse a bruxa, "me deixe te mostrar," e ela deu um passo em direção a Clary,
mantendo suas mãos – com unhas pintadas de vermelho - estendidas para a Taça.
Clary, sem saber porquê, recuou. De repente Jace estava entre eles, a mão dele
flutuando perto da espada em sua cintura.
"Sem ofensa," ele disse calmamente, "mas ninguém toca na Taça Mortal, exceto nós."
Dorothea olhou para ele por um momento, e a mesma estranha monotonia regressou
aos olhos dela. "Agora," ela disse, "não vamos ser apressados. Valentine ficaria
irritado se algo acontecesse com a Taça."
Com um suave arranhar, a espada na cintura de Jace ficou livre. A ponta pairou logo
abaixo do queixo de Dorothea. O olhar de Jace estava fixo. "Eu não sei o que isso tem
a ver," ele disse. "Mas nós estamos indo."
Os olhos da velha mulher cintilaram. "Claro, Caçador de Sombras," ela disse, se
apoiando no cortinado da parede. "Gostaria de usar o Portal?"
A ponta da espada de Jace oscilou enquanto ele pareceu momentaneamente em
confusão. Em seguida, Clary viu a sua mandíbula apertar. "Não toque nisso..."
Dorothea deu uma risada, e rápida como um flash ela puxou as cortinas penduradas
ao longo da parede. Elas caíram com um som macio de queda. O Portal atrás deles
estava aberto.
Clary ouviu Alec, atrás dela, sugar sua respiração. "O que é isso?" Clary havia
capturado apenas um vislumbre do que era visível através da porta – turvas nuvens
vermelhas se atiravam através dela com relâmpagos negros, e numa terrível
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escuridão, uma forma correndo trôpega em direção a eles, quando Jace gritou para
que eles se abaixassem. Ele se jogou no chão, puxando Clary para baixo junto com
ele. Deitada com seu estômago no tapete, ela levantou a cabeça dela na hora de ver
a coisa veloz escura acertar Madame Dorothea, que gritava, empurrando seus braços
para cima. Ao invés de jogar ela no chão, a coisa escura envolveu ela como uma
mortalha, a sua negritude pareceu se infiltrar dentro dela como tinta em papel. Suas
costas dobravam-se monstruosamente, toda a sua forma alongando enquanto ela
crescia e crescia para o ar, o seu volume se esticando e reformando. Um acentuado
chacoalhar de objetos batendo no chão fez Clary olhar para baixo: Eram as pulseiras
de Dorothea, torcidas e quebradas. Dispersas entre as jóias que eram o que parecia
ser pequenas pedras brancas. Clary demorou um pouco para perceber que elas eram
os dentes.
A seu lado Jace sussurrou algo. Parecia uma exclamação de incredulidade. Próximo a
ele, Alec em uma voz chocada disse: "Mas você disse que não havia muita atividade
demoníaca – você disse que o nível estava baixo!"
"Elas estavam baixas," Jace grunhiu.
"Sua versão de baixa deve ser diferente da minha!" Alec gritou, enquanto a coisa que
tinha sido Dorothea uivava e girava. Ela parecia estar se dilatando, dobrando e
girando grotescamente deformada...
Os olhos de Clary lacrimejavam enquanto Jace se punha em pé, puxando ela depois
dele. Isabelle e Alec tropeçaram nos seus pés, apertando suas armas. A mão
segurando o chicote de Isabelle estava ligeiramente tremendo.
"Mexam-se!"
Jace empurrou Clary em direção a porta do apartamento. Quando ela tentou olhar
para trás sobre seu ombro, ela viu apenas um espesso redemoinho cinzento, como
nuvens, uma forma escura em seu centro...
Os quatro irromperam dentro do saguão, Isabelle na liderança. Ela correu em direção
à porta da frente, forçou, e se virou com um rosto chocado: "Está resistente. Deve
ser um feitiço..."
Jace xingou e tateou sua jaqueta. "Onde diabos está minha estela?"
"Está comigo," Clary disse, lembrando. Enquanto ela alcançava seu bolso, um ruído
como um trovão explodiu através do quarto. O piso tremeu sob seus pés. Ela
tropeçou e quase caiu, segurando o corrimão para se apoiar. Quando ela olhou para
cima, ela viu um escancarado novo buraco na parede que separava o saguão do
apartamento de Dorothea, todo ladeado por grosseiras bordas de madeira e
escombros de gesso, através da qual algo estava escalando – quase se revelando...
"Alec!" Era Jace, gritando: Alec estava em pé na frente do buraco, o rosto branco e
parecendo horrorizado. Xingando, Jace correu e o agarrou, arrastando ele de volta,
justo quando a coisa que se revelava, se pôs a si mesma livre da parede e dentro do
saguão.
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Clary ouviu sua respiração se prender. A carne da criatura era arroxeada e parecendo
em carne viva. Através da pele se infiltravam ossos projetados, não ossos brancos e
novos, mas os ossos que pareciam como se tivessem estado na terra por mil anos,
pretos, rachados e imundos. Seus dedos eram descarnados e esqueléticos, os finos e
descarnados braços marcados com purulentas feridas pretas através das quais mais
ossos amarelando eram visíveis. Seu rosto era um crânio, o nariz e os olhos
encovados nos buracos. As garras nos dedos arranhavam o chão. Emaranhadas em
torno de seus punhos e ombros estavam as brilhantes bandagens de pano: tudo o
que restou de Madame Dorothea eram os lenços de seda e o turbante. Eram, pelo
menos, a nove metros de altura.
Ele olhou abaixo para os quatro adolescentes com os vazios buracos nos olhos. "Me
dê." aquilo disse, em uma voz como o vento soprando lixo em todo pavimento vazio,
"a Taça Mortal. Me dê, e eu vou deixá-los viver."
Em pânico, Clary olhou para os outros. Isabelle parecia como se a visão da coisa
tivesse atingido ela com um murro no estômago. Alec estava imóvel. Foi Jace, como
sempre, quem falou. "O que você é?" Perguntou, a voz firme, mas ele parecia mais
agitado do que Clary tinha visto ele antes.
A coisa inclinou sua cabeça. "Eu sou Abbadon. Sou o demônio do abismo. Meus são
os lugares vazios entre os mundos. Meus são o vento e as trevas vociverantes. Sou
como o contrário daquelas coisas choramingantes que vocês chamam de demônios,
como uma águia é o contrário de uma mosca. Vocês não podem ter esperança em me
derrotar. Me dê a Taça ou morram."
O chicote de Isabelle tremeu. "É um Grande Demônio," ela disse. "Jace, se nós..."
"E sobre Dorothea?" A voz de Clary veio aguda para fora de sua boca, antes que ela
pudesse parar com isso. "O que aconteceu com ela?"
Os olhos vazios do demônio moveram-se para encontrar ela. "Ela era apenas um
veículo," ele disse. "Ela abriu o Portal e tomei posse dela. Sua morte foi rápida." O
seu olhar mudou-se para a Taça em sua mão. "A sua, não será."
Ele começou a se mover em direção a ela. Jace bloqueou o seu caminho, a brilhante
espada em uma mão, uma lâmina serafim aparecendo na outra. Alec estava
observando ele, a sua expressão doente com o horror.
"Pelo Anjo," Jace disse, olhando o demônio de cima abaixo. "Eu sabia que os
Grandes Demônios foram destinados a serem feios, mas ninguém nunca me alertou
sobre o cheiro."
Abbadon abriu sua boca e sibilou. Dentro de sua boca haviam duas fileiras
irregulares, em forma de dentes afiados.
"Não tenho tanta certeza sobre esse negócio de vento e vociferante escuridão," Jace
foi para cima, "cheira mais como depósito de lixo para mim. Você tem certeza que
não é do Distrito de Richmond?"
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O demônio saltou nele. Jace movimentou suas lâminas para cima e para fora com
uma velocidade quase assustadora; ambas afundaram na parte encarnada do
demônio, no seu abdômen. Aquilo rugiu e golpeou ele, acertando ele de lado o
afastando, da forma como um gato poderia bater em um gatinho. Jace rolou e ficou
de pé, mas Clary pode ver da maneira como ele estava segurando seu braço que ele
tinha sido machucado.
Isso foi o suficiente para Isabelle. Lançando-se a frente, ela enlaçou o demônio com
o seu chicote. Ele atingiu a pele cinza do demônio, e um vergão vermelho apareceu,
escavando sangue. Abbadon ignorou ela, se movendo em direção a Jace.
Com sua mão não ferida Jace puxou a segunda lâmina serafim. Ele sussurrou para ela
e ela saltou livre, brilhante e reluzente. Ele a levantou enquanto o demônio se
aproximava perante ele, ela pareceu possivelmente pequena na frente daquilo, uma
criança diante de um monstro. E ele estava sorrindo, mesmo quando o demônio o
alcançou. Isabelle, gritando, fustigando aquilo, enviando sangue em um espesso
salpicar através do chão...
O demônio o agarrou, a sua mão em garra acertando abaixo Jace. Jace oscilou para
trás, mas ele estava ileso. Algo tinha se atirado entre ele e o demônio, uma esguia
sombra preta com uma reluzente lâmina em sua mão. Alec. O demônio gritou – o
bastão de Alec tinha perfurado a sua pele. Com um rosnar ele golpeou novamente,
garras com ossos capturaram Alec, um violento golpe que levantaram ele de seus
pés e o arremessaram contra a parede. Ele a atingiu com um ruído doentio e deslizou
até o chão.
Isabelle gritou o nome do seu irmão. Ele não se moveu. Baixando o chicote, ela
começou a correr para ele. O demônio, girando, acertou ela com as costas de suas
mãos que a enviou girando pelo chão. Tossindo sangue, Isabelle começou a ficar de
pé; Abbadon jogou ela no chão novamente, e desta vez ela permaneceu deitada.
O demônio se moveu em direção a Clary.
Jace ficou congelado, olhando para o corpo amassado de Alec como alguém
capturado em um sonho. Clary gritou enquanto Abbadon se aproximava dela. Ela
começou a voltar pelas escadas, tropeçando nos degraus quebrados. A estela
queimava contra a sua pele. Se ela só tivesse uma arma, qualquer coisa...
Isabelle arrastou seu caminho em uma posição sentada. Empurrando seu cabelo
ensanguentado para trás, ela gritou para Jace. Clary ouviu seu próprio nome nos
gritos de Isabelle e viu Jace, piscando como se tivesse acordado, virando em direção
a ela. Ele começou a correr. O demônio estava perto o suficiente, agora Clary podia
ver as feridas pretas em sua pele, podia ver que haviam coisas espalhando-se dentro
delas. Ele alcançando ela...
Mas ali estava Jace, atirando a mão de Abbadon de lado. Ele arremessou a lâmina
serafim no demônio, que ficou presa no peito da criatura, próximo às duas lâminas
que já estavam ali. O demônio rosnou como se as lâminas não fossem mais do que
um aborrecimento. "Caçador de Sombras," ele rugiu. "Vou ter o prazer de te matar,
em ouvir os seus ossos esmagados como eu fiz com seu amigo..."
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Se impulsionando no corrimão, Jace lançou a si mesmo em Abbadon. A força do salto
jogou o demônio para trás; que cambaleou, Jace agarrou em suas costas. Ele
arrancou uma lâmina serafim para fora do seu peito, enviando um spray de fluído, e
trouxe a lâmina para baixo, repetidas vezes, nas costas do demônio, seus ombros
escorrendo com o fluido preto.
Rosnando, Abbadon de costas foi em direção à parede. Jace tinha que se soltar ou ser
esmagado. Ele caiu ao chão, aterrisando levemente, e levantou a lâmina novamente.
Mas Abbadon era muito rápido para ele, sua mãos o atacaram, jogando Jace na
escada. Jace caiu, um círculo de garras em sua garganta.
"Diga a eles que me dê a Taça," Abbadon rugiu, as garras pairando um pouco acima
da pele de Jace. "Diga a eles para a dar para mim e eu vou deixá-los vivos."
Jace engoliu. "Clary..."
Mas Clary nunca soube o que ele teria dito, porque nesse momento a porta da frente
voou aberta. Por um momento tudo que ela viu estava brilhando. Então, piscando e
afastando o esplendor da imagem refletida, ela viu Simon de pé na soleira da porta
aberta. Simon. Ela tinha se esquecido que ele estava lá fora, tinha quase esquecido
que ele existia.
Ele viu ela, encolhida nas escadas, e seu olhar se moveu passando ela para estar no
Abbadon e em Jace. Ele recuou para trás o seu ombro. Ele estava segurando o arco
de Alec, ela percebeu, a aljava estava presa em toda a sua volta. Ele puxou uma seta
vinda dela, ajustando ela na mira, e levantou o arco habilmente, como se ele
houvesse feito a mesma coisa uma centena de vezes antes.
A seta foi disparada. Fez um som quente vibrante, como uma enorme abelha,
enquanto ela acertava acima da cabeça do Abbadon, mergulhando em direção ao
teto...
E quebrando a clarabóia. O sujo vidro preto caiu como chuva, e através da vidraça
jorrou a luz do sol, uma quantidade de luz solar, grande barras douradas agudamente
em direção ao chão e inundando o saguão com a luz.
Abbadon gritou e cambaleou para trás, cobrindo a sua cabeça deformada com as
mãos. Jace colocou uma mão em sua garganta ilesa, olhando em descrença enquanto
o demônio amassava-se, uivando, para o chão. Clary meio que esperou que ele
explodisse em chamas, mas em vez disso, começou a se dobrar sobre si mesmo.
Suas pernas desabaram voltadas para seu tronco, seu crânio enrugando como papel
queimando, e dentro do espaço de um minuto, tinha desaparecido completamente,
deixando para trás apenas marcas chamuscadas.
Simon baixou o arco. Ele estava piscando atrás de seus óculos, sua boca ligeiramente
aberta. Ele parecia tão espantado quanto Clary se sentia.
Jace deitado sobre as escadas onde o demônio havia atirado ele. Ele estava lutando
para se sentar enquanto Clary deslizava descendo as escadas para se ajoelhar ao
lado dele. "Jace..."
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"Eu estou bem." Ele se sentou, limpando o sangue de sua boca. Ele tossiu e cuspiu
vermelho. "Alec..."
"Sua estela," ela interrompeu, alcançando o seu bolso. "Do que você precisa para se
curar?"
Ele olhou para ela. A luz do sol se derramando através da clarabóia iluminava o rosto
dele. Ele parecia como se ele estivesse se segurando a si mesmo para trás de algo,
com um terrível esforço. "Eu estou bem," ele disse, de novo, e a empurrou de lado,
não muito gentil. Ele ficou de pé, cambaleando, e quase caiu, a primeira coisa não
graciosa que ela o viu fazer. "Alec?"
Clary observou enquanto ele mancava através do saguão para o seu amigo
inconsciente. Então ela fechou a Taça Mortal no bolso do seu agasalho e ficou em
seus pés. Isabelle tinha se arrastado ao lado do seu irmão e estava deitando sua
cabeça em seu colo, acariciando seu cabelo. Seu peito subia e descia lentamente,
mas ele estava respirando. Simon, inclinado contra a parede estava olhando para
eles, parecia totalmente exaurido. Clary apertou a mão dele enquanto passava por
ele. "Obrigada," ela sussurrou. "Aquilo foi incrível."
"Não me agradeça," ele disse, "agradeça ao programa de arco e flecha do
acampamento B'nai B'rith."
"Simon, eu não..."
"Clary!" Era Jace, a chamando. "Traga a minha estela."
Simon soltou ela com relutância. Ela se ajoelhou ao lado do Caçador de sombras, a
Taça Mortal batendo fortemente contra seu lado. O rosto de Alec estava branco,
sardento com as gotas de sangue, os olhos dele de um azul não natural. Seu aperto
sobre o pulso esquerdo manchado de sangue de Jace. "Será que eu..." ele começou,
então pareceu ao ver de Clary, como se fosse pela primeira vez. Havia algo em seu
olhar que ela não tinha esperado. Triunfo. "Eu o matei?"
O rosto de Jace torceu dolorosamente. "Você..."
"Sim," disse Clary. "Ele está morto."
Alec olhou para ela e riu. Sangue borbulhou em sua boca. Jace puxou seu pulso livre,
tocando seus dedos em cada lado do rosto de Alec. "Não," ele disse. "Fique imóvel,
apenas fique imóvel."
Alec fechou os olhos. "Faça o que você precisa," ele sussurrou.
Isabelle segurou sua estela para Jace. "Pegue-a."
Ele acenou, e colocou a ponta da estela na frente da camisa de Alec. O tecido cortou
como se ele tivesse sido cortado com uma faca. Isabelle olhava ele através de olhos
frenéticos enquanto ele puxava a camisa aberta, deixando o peito de Alec nu. Sua
pele era muito branca, marcada aqui e ali com antigas cicatrizes transluzentes. Havia
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outras lesões ali também: umas marcas escurecendo de arranhar de garras, cada
buraco vermelho despontando. Jace traçou a estela na pele de Alec, movendo-a para
frente e para trás com a facilidade da longa prática. Mas havia algo de errado. Mesmo
quando ele desenhou as marcas de cura, elas pareciam desaparecer, como se ele
estivesse escrevendo sobre a água.
Jace jogou a estela de lado. "Maldição."
A voz de Isabelle era estridente. "O que houve?"
"Ele o arranhou com as sua garras," Jace disse. "Há veneno de demônio nele. As
marcas não podem trabalhar." Ele tocou o rosto de Alec outra vez, suavemente.
"Alec," ele disse. "Você pode me ouvir?"
Alec não se moveu. As sombras abaixo de seus olhos azuis pareciam tão escuras
quanto contusões. Se não fosse pela sua respiração, Clary pensaria que ele já estava
morto.
Isabelle inclinou sua cabeça, o cabelo dela cobrindo o rosto de Alec. Seus braços
estavam ao seu redor. "Talvez," ela sussurrou, "nós pudéssemos..."
"Levem-no para o hospital." Era Simon, de pé sobre eles, o arco pendendo na sua
mão. "Eu vou ajudá-lo a carregá-lo para a van. Há o Metodista abaixo na Sétima
Avenida"
"Sem hospitais," disse Isabelle. "Temos que levá-lo para o Instituto."
"Mas."
"Eles não saberiam como tratar ele em um hospital," Jace disse. "Ele foi cortado por
um Grande Demônio. Nenhum médico mundano saberia como curar essas feridas."
Simon concordou. "Tudo bem. Vamos levá-lo para o carro."
Em um golpe de sorte, a van não tinha sido rebocada. Isabelle cobriu um cobertor
sujo em todo o assento traseiro e eles deitaram Alec sobre ele, sua cabeça no colo de
Isabelle. Jace se encurvou no chão ao lado de seu amigo. Sua camisa estava com
manchas escuras em todo o peito e mangas, com sangue do demônio e de humanos.
Quando ele olhou para Simon, Clary viu que todo o dourado parecia ter sido lavado
para fora de seus olhos por algo que ela nunca tinha visto antes nos mesmos. Pânico.
"Dirija rápido, mundano," disse ele. "Dirija como se o inferno estivesse seguindo
você."
E Simon dirigiu.
Eles se direcionaram abaixo da avenida Flatbush e para a ponte, mantendo o ritmo
com o trem Q enquanto ele rugia sobre a água azul. O sol estava dolorosamente
brilhante nos olhos de Clary, lampejando quentes faíscas sobre o rio. Ela se agarrou
em seu assento enquanto Simon pegava a rampa elevada ao largo da ponte a oitenta
quilômetros por hora.
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Ela pensou sobre as coisas horríveis que tinha dito a Alec, a maneira como ele próprio
tinha se atirado em Abbadon, o olhar de triunfo sobre o seu rosto. Quando ela virou a
cabeça agora, ela viu Jace ajoelhado próximo ao seu amigo enquanto o sangue
infiltrava através do cobertor. Ela pensou no menino com o falcão morto. Amar é
destruir.
Clary girou de volta, um pedaço duro alojado na parte de trás de sua garganta.
Isabelle estava visível no espelho retrovisor mal angulado, envolvendo o cobertor em
torno da garganta de Alec. Ela olhou para cima e encontrou os olhos de Clary. "Quão
distantes estamos?"
"Talvez dez minutos. Simon está dirigindo o mais rápido que pode."
"Eu sei," Isabelle disse. "Simon, o que você fez, aquilo foi incrível. Você agiu tão
rápido. Eu não teria pensado que um mundano poderia ter pensado em algo como
aquilo."
Simon não pareceu intimidado por um inesperado elogio, os olhos dele estavam na
estrada. "Você quer dizer, o tiro na clarabóia? Aquilo me veio, depois que vocês foram
para dentro. Eu estava pensando sobre a clarabóia e como você disse que os
demônios não suportavam luz direta do sol. Então, na verdade, eu demorei um tempo
para agir sobre isso. Não se sinta mal," ele acrescentou, "você não pode ver mesmo a
clarabóia, a menos que você saiba que está ali."
Eu sabia que ela estava lá, Clary pensou. Eu deveria ter feito algo sobre isso. Mesmo
se eu não tivesse um arco e flecha como Simon, eu poderia ter jogado algo ou ter
dito a Jace sobre ela. Ela se sentiu estúpida, inútil e grosseira, como se a cabeça dela
estivesse cheia de algodão. A verdade era que ela tinha estado assustada.
Demasiadamente assustada para pensar direito. Ela sentiu uma brilhante onda de
vergonha que arrebentou atrás das pálpebras dela como um pequeno sol.
Jace falou então. "Foi bem feito," ele disse.
Os olhos de Simon rolaram. "Então, se você não se importa em me dizer – aquela
coisa, o demônio, – de onde ele veio?"
"Era Madame Dorothea," Clary disse. "Quero dizer, era tipo ela."
"Ela nunca foi exatamente atraente, mas não me lembro dela parecendo assim tão
mau."
"Eu acho que ela estava possuída," Clary disse lentamente, tentando colocar as peças
juntas em sua própria mente. "Ela queria que eu lhe desse a Taça. Então ela abriu o
Portal..."
"Aquilo foi inteligente," Jace disse. "O demônio possuía ela, então escondeu a maioria
da sua forma etéria fora do Portal, onde o sensor não podia registrá-lo. Então, nós
fomos esperando por luta com alguns Esquecidos... Em vez disso, nos encontramos
confrontados com um Grande Demônio. Abbadon – um dos antigos. O Senhor dos
Caídos."
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"Bem, parece que os Caídos terão apenas que aprender a se virar sem ele a partir de
agora," Simon disse, virando para a rua.
"Ele não está morto," Isabelle disse. "Dificilmente alguém mata um Grande Demônio.
Você tem que matar eles em seu físico e na forma etérea antes de eles morrerem.
Nós apenas assustamos ele."
"Ah." Simon pareceu desapontado. "E Madame Dorothea? Ela vai estar bem agora
que..."
Ele se interrompeu, porque Alec tinha começado a sufocar, sua respiração agitando
em seu peito. Jace xingou sob sua respiração com precisão violenta. "Por que não
estamos lá ainda?”
"Nós estamos aqui. Eu só não quero bater dentro de uma parede." Enquanto Simon
virava cuidadosamente a esquina, Clary viu que a porta do Instituto estava aberta,
Hodge em pé na moldura do arco. A van sacudiu até frear e Jace saltou para fora,
voltando-se para suspender Alec como se ele não pesasse mais que uma criança.
Isabelle o seguiu pela calçada, segurando o bastão ensangüentado do irmão. A porta
do Instituto se fechou atrás deles.
O cansaço percorreu ao longo dela, Clary olhou para Simon. "Sinto muito. Não sei
como você vai explicar todo esse sangue para Eric."
"Eric vai surtar," ele disse com convicção. "Você está bem?"
"Nem um arranhão. Todo mundo se machucou, menos eu."
"É o trabalho deles, Clary," ele disse suavemente. "Lutar contra demônios, é o que
eles fazem. Não é o que você faz."
"O que devo fazer, Simon?" ela perguntou, procurando em seu rosto por uma
resposta. "O que eu faço?"
"Bem, você tem a Taça," ele disse. "Não tem?"
Ela concordou, e tateou o seu bolso. "Sim."
Ele pareceu aliviado. "Eu quase não quis perguntar," ele disse. "Isso é bom, certo?"
"É," ela disse. Ela pensou em sua mãe, e a sua mão apertou sobre a Taça. "Eu sei
que é."
***
Church encontrou ela no topo da escadaria, miando como uma buzina, e a levou para
a enfermaria. As portas duplas estavam abertas, e através delas que ela pôde ver a
figura de Alec imóvel, sem se mexer em uma das camas brancas. Hodge estava
encurvado sobre ele; Isabelle, ao lado do homem mais velho, segurava uma bandeja
de prata em suas mãos.
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Jace não estava com eles. Ele não estava com eles, porque ele estava de pé do lado
de fora da enfermaria, inclinado contra a parede, suas vazias e ensangüentadas mãos
curvadas no seu lado. Quando Clary parou em frente a ele, suas pálpebras se
alargaram, e ela viu que as pupilas dos seus olhos estavam dilatadas, todo o ouro
tragado em preto.
"Como ele está?" ela perguntou, tão gentilmente quanto ela podia.
"Ele perdeu muito sangue. Venenos de demônio são comuns, mas uma vez que era
de um Grande Demônio, Hodge não está certo se os antídotos que ele geralmente
emprega serão viáveis."
Ela o alcançou para tocar o braço dele. "Jace..."
Ele se afastou. "Não."
Ela sugou sua respiração. "Eu nunca quis que
realmente sinto muito."
nada acontecesse com Alec. Eu
pela primeira vez. "Não é sua
Ele olhou para ela como se estivesse vendo ela lá
culpa," ele disse. "É minha."
"Sua? Jace, não, isso não é..."
"Ah, mas é," ele disse, sua voz tão frágil quanto uma lasca de gelo. "Mea culpa, mea
maxima culpa."
"O que significa isso?"
"Minha culpa," disse ele, "minha própria culpa, minha mais grave culpa. É latim." Ele
limpou distraidamente um cacho de seu cabelo que caia sobre sua testa, como se
inconsciente de que ele estava fazendo isso. "Parte da liturgia"
"Eu pensei que você não acreditasse em religião."
"Eu posso não acreditar em pecado," ele disse, "mas eu sinto culpa. Nós Caçadores
de sombras vivemos por um código, e este código não é flexível. Honra, culpa,
penitência, isso são reais para nós, e eles não têm nada a ver com religião, e tudo a
ver com quem nós somos. Esse é quem eu sou, Clary," ele disse desesperadamente.
"Eu sou um da Clave. Está no meu sangue e ossos. Então me diga, se você está tão
certa de que isso não foi minha culpa, porque é que o primeiro pensamento que
passou em minha mente quando vi Abbadon não era para meus companheiros
guerreiros, mas para você?" Sua outra mão surgiu, ele estava segurando seu rosto,
cativo entre as suas palmas. "Eu sei... eu sabia... que Alec não estava agindo como
ele mesmo. Eu sabia que algo estava errado. Mas tudo que eu podia pensar era em
você..."
Ele inclinou sua cabeça para frente, então suas testas se tocaram. Ela podia sentir a
respiração dele mover seus cílios. Ela fechou seus olhos, deixando a proximidade dele
mover sobre ela como uma maré. "Se ele morrer, será como se eu tivesse matado
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ele," disse ele. "Eu deixei o meu pai morrer, e agora eu matei o único irmão que eu
nunca tive."
"Isso não é verdade," ela sussurrou.
"Sim, é." Eles estavam perto o suficiente para se beijarem. E ainda ele segurava ela
fortemente, como se nada o pudesse assegurar a ele que ela era real. "Clary," ele
disse. "O que está acontecendo comigo?"
Ela procurou em sua mente por uma resposta clara até que ouviu alguém limpando
sua garganta. Ela abriu os olhos dela. Hodge estava na porta da enfermaria, o seu
elegante terno manchado com manchas de ferrugem. "Eu fiz tudo o que eu pude. Ele
está sedado, sem dor, mas..." Ele balançou a cabeça. "Devo entrar em contato com
os Irmãos do Silêncio. Isso está além das minhas habilidades."
Jace se afastou lentamente de Clary. "Quanto tempo vai demorar para eles chegarem
aqui?"
"Eu não sei." Hodge começou a descer pelo corredor, agitando sua cabeça. "Eu vou
enviar Hugo imediatamente, mas os Irmãos virão a seus próprios critérios."
"Mas sendo assim," mesmo Jace lutava para acompanhar os largos passos de Hodge;
Clary descia desesperadamente atrás dos dois, e ela teve que se esforçar para ouvir o
que ele estava dizendo. "Ele pode morrer de outra forma."
"Ele pode," foi tudo que Hodge disse em resposta.
A biblioteca estava escura e cheirava a chuva: Uma das janelas tinha sido deixada
aberta, e uma poça de água havia formado sob as cortinas. Hugo gorjeou e saltou em
seu poleiro enquanto Hodge caminhava em direção a ele, parando apenas para
acender a luz na sua mesa. "É uma pena," Hodge disse, alcançando o papel e uma
caneta, "que vocês não recuperaram a Taça. Poderia, eu acho, trazer algum conforto
para Alec e certamente para o seu..."
"Mas eu recuperei a Taça," disse Clary, espantada. "Você não disse a ele, Jace?"
Jace estava pestanejando, embora se era por causa da surpresa ou da súbita
lembrança, Clary não pode dizer. "Não houve tempo, eu estava trazendo Alec para
cima..."
Hodge ainda permanecia muito parado, a caneta sem movimento entre seus dedos.
"Você tem a Taça?"
"Sim." Clary trouxe a Taça para fora de seu bolso: Ela ainda estava fria, como se o
contato com o seu corpo não pudesse aquecer o metal. Os rubis piscaram como
olhos vermelhos. "Eu a tenho aqui."
A caneta de Hodge escorregou inteiramente de sua mão e atingiu o chão a seus pés.
A luz da lâmpada, lançada para cima, não era do tipo para devastar o rosto: ela
mostrou cada agravada linha de aspereza, preocupação e desespero. "Esta é a Taça
do Anjo?"
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"A própria," disse Jace. "Ela estava...”
"Não importa isso agora," disse Hodge. Ele largou o papel sobre a mesa e se moveu
em direção a Jace, segurando seu estudante pelos ombros. "Jace Wayland, sabe o
que você fez?"
Jace olhou para Hodge, surpreso. Clary notou o contraste: o rosto devastado do
homem mais velho e o sem rugas do menino, os pálidos cachos de cabelo caindo nos
olhos de Jace fazendo ele parecer ainda mais jovem. "Não tenho certeza do que quer
dizer," disse Jace.
Hodge respirou o ar sibilando através de seus dentes. "Você parece tanto com ele."
"Como quem?" Jace disse em espanto, ele claramente nunca tinha ouvido Hodge falar
daquela maneira antes.
"Tal como o seu pai," disse Hodge, e levantou os olhos para onde Hugo, asas pretas
agitando o ar úmido, pairava sobre a cabeça.
Hodge estreitou seus olhos. "Hugin," ele disse, e com um sublime crocitar o pássaro
mergulhou direto para o rosto de Clary, garras estendidas.
Clary ouviu Jace gritar, e então o mundo estava girando com penas e bico e garras.
Uma agonizante dor cresceu ao longo de sua bochecha e ela gritou, instintivamente
jogando suas mãos para cobrir seu rosto.
Ela sentiu a Taça Mortal ser arrancada de seu aperto. "Não!" Ela chorou, agarrando-
se a ela. Uma angustiante dor subiu pelo seu braço. Suas pernas pareceram sair
debaixo dela. Ela escorregou e caiu, atingindo seus joelhos dolorosamente contra o
chão duro. Garras atacavam sua testa.
"Isso é o suficiente, Hugo," disse Hodge em sua voz calma.
Obedientemente o pássaro virou e se afastou de Clary. Com esforço ela piscou
sangue para fora de seus olhos. Ela sentiu ele retalhado.
Hodge não tinha se movido; ele ficou onde estava, segurando a Taça Mortal. Hugo
estava circulando ele largamente, rondas agitadas, grasnando suavemente. E Jace –
Jace deitado no chão aos pés de Hodge, muito imóvel, como se ele tivesse caído, de
repente, dormindo.
Todos os outros pensamentos foram expulsos de sua mente. "Jace!" Falar machucou
– a dor em sua bochecha era surpreendente e ela pode sentir o gosto de sangue na
sua boca. Jace não se moveu.
"Ele não está machucado," disse Hodge. Clary começou a ficar em pé, significando se
lançar a si mesma para ele, então cambaleou de volta quando ela atingiu algo
invisível, mas tão duro e forte quanto vidro. Furiosa, ela golpeou contra o ar com o
seu punho.
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"Hodge!" ela gritou. Ela chutou, quase contundindo seus pés na mesma parede
invisível. "Não seja estúpido. Quando a Clave descobrir o que você fez..."
"Eu vou estar muito longe até então," ele disse, ajoelhando sobre Jace.
"Mas," um choque correu através dela, uma sacudida elétrica de percepção. "Você
nunca enviou uma mensagem para a Clave, não é? É por isso que você estava tão
estranho quando eu lhe perguntei sobre isso. Você queria a Taça para si mesmo."
"Não," disse Hodge, "por mim mesmo."
A garganta de Clary estava seca como poeira. "Você trabalha para Valentine," ela
sussurrou.
"Eu não trabalho para Valentine," Hodge disse. Ele levantou a mão de Jace e puxou
algo dela. Aquilo era o anel gravado que Jace sempre usava. Hodge escorregou ele
em seu próprio dedo. "Mas eu sou homem de Valentine, é verdade."
Com um rápido movimento ele torceu o anel em torno do seu dedo três vezes. Por
um momento nada aconteceu; em seguida Clary ouviu o som de uma porta se
abrindo e virou instintivamente para ver quem estava chegando na biblioteca.
Quando ela virou para trás, ela viu que o ar ao lado de Hodge estava tremulando,
como a superfície de um lago visto a distância. A parede de ar ondulante se dividiu
como uma cortina de prata e, em seguida, um homem alto estava em pé ao lado
Hodge, como se ele tivesse juntado fora do ar úmido.
"Starkweather," ele disse. "Você tem a Taça?"
Hodge levantou a Taça em suas mãos, mas não disse nada. Ele pareceu paralisado,
quer com medo ou espanto, era impossível se dizer. Ele tinha sempre parecido alto
para Clary, mas agora ele parecia arqueado e pequeno. "Meu senhor Valentine," ele
disse, finalmente. "Eu não esperava que você viesse tão rapidamente."
Valentine. Ele entediado pouco se assemelhava com o menino bonito na foto, porém
seus olhos ainda eram negros. Seu rosto não era nada o que ela tinha esperado: Ele
era um contido, fechado, interior rosto, o rosto de um sacerdote, com olhos tristes.
Deslizando fora por baixo do punho de seu terno preto estavam os sulcos de
cicatrizes brancas que falavam de anos de estela. "Eu te disse que eu viria até você
através de um portal," ele disse. Sua voz era ressonante, e estranhamente familiar.
"Você não acredita em mim?"
"Sim. Eu apenas – eu pensei que você enviaria Pangborn ou Blackwell, não vindo
você mesmo."
"Você acha que eu mandaria eles para recolher a Taça? Eu não sou um tolo. Eu
conheço esta atração." Valentine soltou a mão dele, e Clary viu, reluzindo no dedo
dele, um anel que era igual ao de Jace. "Me dê."
Mas Hodge segurou a Taça rápido. "Quero que você me prometa primeiro."
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"Em primeiro lugar? Você não confia em mim, Starkweather?" Valentine sorriu, um
sorriso não sem humor nele. "Vou fazer o que você pediu. Um acordo é um acordo.
Embora devo dizer que fiquei espantado ao receber sua mensagem. Eu não tinha
pensado que você se importava com uma vida oculta de contemplação, por assim
dizer. Você nunca foi muito para o campo de batalha."
"Você não sabe como é que isso é," disse Hodge, deixando a sua respiração sair com
um sibilante suspiro. "Estar com medo o tempo todo..."
"Isso é verdade. Eu não." A voz de Valentine era tão triste quanto os olhos, como se
ele tivesse pena de Hodge. Mas havia antipatia nos olhos dele também, um traço de
desprezo. "Se você não tinha a intenção de dar a Taça para mim," ele disse, "você
não deveria ter me chamado aqui."
O rosto de Hodge trabalhou. "Não é fácil trair o que você acredita – naqueles que
confiam em você."
"Você quer dizer os Lightwoods, ou seus filhos?"
"Ambos," Hodge disse.
"Ah, o Lightwoods." Valentine se afastou, e com uma mão acariciou o globo de bronze
que ficava sobre a mesa, os seus longos dedos traçando os contornos dos continentes
e mares. "Mas o que é que devemos a eles, realmente? Seu é o castigo que deveria
ter sido deles. Se eles não tivessem tão altas conexões na Clave, eles teriam sido
amaldiçoados junto com você. Sendo assim, eles estão livres para ir e vir, para andar
na luz do sol como homens normais. Eles estão livres para ir para casa." Sua voz
quando ele disse "casa" tremeu com todo o significado da palavra. Seu dedo tinha
parado de mover o globo; Clary tinha certeza que estava tocando no local onde seria
Idris.
Os olhos de Hodge afastaram-se para longe. "Eles fizeram o que qualquer um faria."
"Você não teria feito isso. Eu não teria feito isso. Deixar um amigo sofrer no meu
lugar? E certamente o que deve gerar alguma amargura em você, Starkweather, por
saber que eles tão facilmente deixaram esta sorte para você..."
Os ombros de Hodge tremeram. "Mas não é culpa das crianças. Elas não fizeram
nada..."
"Eu nunca soube que você era tão afeiçoado a crianças, Starkweather," Valentine
disse, como se a idéia divertisse ele.
A respiração difícil no peito de Hodge. "Jace..."
"Você não vai falar de Jace." Pela primeira vez Valentine soou irritado. Ele olhou para
a figura ainda no chão. "Ele está sangrando," ele observou. "Porquê?"
Hodge segurou a Taça contra o seu coração. Seus nós dos dedos estavam, brancos.
"Não é o sangue dele. Ele está inconsciente, mas não ferido."
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Valentine levantou a cabeça dele com um sorriso agradável. "Me pergunto," ele disse,
"o que ele vai pensar de você quando ele acordar. Traição nunca é bonito, mas trair
uma criança – é uma dupla traição, não acha?"
"Você não vai machucá-lo," sussurrou Hodge. "Você jurou que não iria machucá-lo."
"Eu nunca fiz isso," Valentine disse. "Vamos, agora." Ele se afastou da mesa, em
direção a Hodge, que vacilou para longe como um pequeno e preso animal. Clary
podia ver sua tristeza. "E o que você faria se eu dissesse que tinha planos para
machucar ele? Será que você lutaria comigo? Manteria a Taça longe de mim? Mesmo
se você pudesse me matar, a Clave jamais retiraria sua maldição. Você se esconderia
aqui até que você morresse, aterrorizado em fazer, tanto quanto abrir uma janela
muito largamente. O que você não trocaria, para não ter mais medo? O que você não
daria, para ir para casa outra vez?"
Clary rompeu seus olhos para longe. Ela já não podia suportar o olhar no rosto da
Hodge. Em uma sufocada voz ele disse. "Diga-me você não vai machucá-lo, e eu a
darei para você."
"Não," disse Valentine, ainda mais suavemente. "Você a dará
jeito." E ele aproximou-se de sua mão.
a mim de qualquer
Hodge fechou os olhos. Por um instante o seu rosto era o rosto de um dos anjos
mármore sob a mesa, triste e grave e esmagado sob um terrível peso. Então ele
xingou, pateticamente, sob a sua respiração, e segurou a Taça Mortal para Valentine
a tomar, apesar de sua mão tremer como uma folha em um forte vento.
"Obrigado," disse Valentine. Ele pegou a Taça, e a olhou pensativamente. "Creio que
você denteou a borda."
Hodge nada disse. Seu rosto estava cinza. Valentine se curvou para baixo e se reuniu
a Jace; enquanto levantava ele levemente, Clary viu o corte impecável do casaco
apertar sobre seus braços e costas, e ela percebeu que ele era um homem
enganosamente forte, com um tronco como o tronco de um carvalho. Jace, mole em
seus braços, parecia ser uma criança em comparação.
"Ele vai estar com seu pai em breve," Valentine disse, olhando abaixo para o rosto
branco de Jace. "Onde ele pertence."
Hodge vacilou. Valentine se afastou dele e caminhou para trás em direção da
ondulante cortina de ar que ele tinha vindo. Ele deve ter deixado a porta do Portal
aberta atrás dele, Clary percebeu. Olhando para ele era como olhar para a luz do sol
na superfície de um espelho.
Hodge chegou uma mão implorante. "Espere!" Ele chorou. "E a sua promessa a mim?
Você jurou acabar com a minha maldição."
"É verdade," Valentine disse. Ele pausou, e olhou duro para Hodge, que arfou e andou
para trás, a mão dele voando para o seu peito como se algo o tivesse atingido no
coração. Fluído preto infiltrou para fora em torno de seu dedos estendidos e escorria
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para o chão. Hodge levantou sua cicatriz facial para Valentine. "Foi feito?" ele
perguntou desordenadamente. "A maldição, acabou?"
"Sim," disse Valentine. "E pode sua liberdade comprada, trazer alegria." E com aquilo
ele andou através da cortina de ar incandescente. Por um momento ele pareceu
tremular, como se ele ficasse submerso. Então ele desapareceu, levando Jace com
ele.
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