17 – A flor da meia noite
Na meia-luz das grandes salas vazias, eles fizeram o seu caminho para o telhado que
parecia deserto como um cenário, os móveis guarnecidos de branco agigantavam-se
na escuridão como icebergs através do nevoeiro.
Quando Jace abriu a porta da estufa, o cheiro acertou Clary, suave como o afofado
golpear de uma pata de gato: o rico cheiro da terra escura e o mais forte, luxurioso
aroma da noite – flores se abrindo – flores da lua, trombetas brancas de anjo
(brugmasia), quatro horas e algumas que ela não reconheceu, como uma planta que
ostentava um formato de estrela amarela florindo, cujas pétalas estavam com
medalhões de pólen dourado. Através das paredes de vidro da área delimitada, ela
podia ver as luzes de Manhattan ardendo como jóias frias.
"Uau." Ela se virou lentamente, entrando "É tão bonito aqui à noite."
Jace sorriu. "E nós temos o lugar para nós. Alec e Isabelle odeiam aqui em cima. Eles
têm alergia."
Clary estremeceu, embora ela não estivesse com frio. "Que tipo de flores são essas?"
Jace encolheu os ombros e sentou, cuidadosamente, ao lado de um brilhoso arbusto
verde todo pontilhado por botões de flores fechadas. "Não faço idéia. Você acha que
eu presto atenção na aula de botânica? Eu não vou ser um arquivista. Eu não preciso
saber sobre essas coisas."
"Você só precisa saber como matar coisas?"
Ele olhou para ela e sorriu. Ele parecia um anjo louro de uma pintura de Rembrandt,
exceto pela boca diabólica. "Isso mesmo." Ele pegou um guardanapo embrulhado em
um pacote o pondo fora do saco e ofereceu a ela. "Além disso," ele acrescentou, "eu
faço sanduíche de queijo. Experimente um."
Clary sorriu relutantemente e sentou em frente a ele. O chão de pedra da casa da
estufa estava frio contra as pernas nuas dela, mas estava agradável depois de tantos
dias de calor implacável. Fora do saco de papel Jace pegou algumas maçãs, uma
barra de frutas, chocolate e nozes, e uma garrafa de água. "Nada mal a apreensão,"
ela disse admirando.
O sanduíche de queijo estava quente e um pouco mole, mas estava ótimo. Vindo de
um de seus inúmeros bolsos dentro de sua jaqueta, Jace apresentou uma faca com
cabo de osso que parecia capaz de estripar um urso-pardo. Ele começou a trabalhar
sobre as maçãs, talhando elas em meticulosos oitavos. "Bem, não é bolo de
aniversário," ele disse, entregando a ela uma fatia, "mas espero que seja melhor do
que nada."
"Nada é como eu esperava, então obrigada." Ela deu uma mordida. A maçã parecia
verde e fria.
"Ninguém deve ficar sem ganhar nada em seu aniversário." Ele estava descascando a
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segunda maçã, a pele vindo em longas tiras curvadas. "Aniversários devem ser
especiais. Meu aniversário era sempre o dia em que o meu pai me dizia que eu
poderia fazer ou ter qualquer coisa que eu quisesse."
"Qualquer coisa?" Ela riu. "Que tipo de coisa que você queria?"
"Bem, quando eu tinha cinco, eu queria tomar um banho de espaguete."
"Mas ele não deixou, certo?"
"Não, essa é a coisa. Ele fez. Ele disse que não era caro, e porque não, se era isso o
que eu queria? Ele mandou os servos encherem uma banheira com água fervendo e
macarrão, e quando ela esfriou..." Ele encolheu os ombros. "Tomei um banho nela."
Servos? Clary pensou. Em voz alta ela disse, "Como foi isso?"
"Escorregadio."
"Eu aposto que sim." Ela tentou pensar na imagem dele como um menino, rindo até
suas orelhas, na massa. A imagem não se formou. Certamente Jace nunca sorriria,
nem mesmo na idade de cinco. "O que mais você pediu?"
"Armas, na maioria," ele disse, "eu tenho certeza que isso não surpreende você.
Livros. Leio muito por minha conta."
"Vocês não vão para a escola?"
"Não," ele disse, e agora ele falou devagar, quase como se fossem aproximando de
um tópico que ele não queria discutir.
"Mas os seus amigos..."
"Eu não tenho amigos," ele disse. "Além de meu pai. Ele era tudo que eu precisava."
Ela olhou para ele. "Sem amigos de jeito nenhum?"
Ele encontrou seu olhar firmemente. "A primeira vez que eu vi Alec," ele disse,
"quando eu tinha dez anos, foi a primeira vez que eu conheci outra criança da minha
idade. A primeira vez que eu tinha um amigo."
Ela baixou o seu olhar. Agora uma imagem foi se formando, indesejável, em sua
cabeça: Ela pensou em Alec, o modo como ele tinha olhado para ela. Ele não diria
isso.
"Não sinta pena de mim," Jace disse, como se adivinhando os seus pensamentos,
embora não tivesse sido por ele que ela tinha sentido pena. "Ele me deu a melhor
educação, o melhor treinamento. Ele me levou por todo o mundo. Londres. São
Petersburgo. Egito. Nós adorávamos viajar." Seus olhos eram escuros. "Não tenho ido
a nenhum lugar desde que ele morreu. Em parte alguma, apenas Nova York."
"Você tem sorte," Clary disse. "Eu nunca fui para fora deste Estado na minha vida.
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Minha mãe não iria me deixar ir, mesmo em viagens de campo para capital. Eu acho
que sei o porquê agora," acrescentou com tristeza.
"Ela tinha medo que você surtasse? Começasse a ver demônios na Casa Branca?"
Ela mordiscou um pedaço de chocolate. "Há demônios na Casa Branca?"
"Eu estava brincando," Jace disse. "Eu acho." Ele duvidou filosoficamente. "Eu tenho
certeza que alguém teria mencionado isso."
"Eu acho que ela apenas não queria que eu ficasse muito longe dela. Minha mãe, eu
quero dizer. Depois que o meu pai morreu, ela se mudou muito." A voz de Luke
ecoou em sua mente. Você nunca mais foi a mesma desde o que aconteceu, mas
Clary, não é Jonathan.
Jace levantou uma sobrancelha para ela. "Você se lembra de seu pai?"
Ela balançou a cabeça dela. "Não. Ele morreu antes de eu nascer."
"Você tem sorte," disse ele. "Desse jeito, você não sente a falta dele."
Vindo de qualquer pessoa aquilo teria sido uma coisa terrível de se dizer, mas não
havia amargura em sua voz para variar, apenas uma dor da solidão pelo seu próprio
pai. "Será que isso vai passar?" ela perguntou. "Sentir a falta dele, eu quero dizer?"
Ele olhou para ela de soslaio, mas não respondeu. "Você está pensando em sua
mãe?"
Não. Ela não estava pensando na mãe daquele jeito. "Em Luke, na verdade."
"Não que esse seja realmente o seu nome." Ele deu uma mordida na maçã, pensativo
e disse, "Eu estive pensando sobre ele. Algo sobre seu comportamento, não se
juntando..."
"Ele foi um covarde." A voz de Clary estava amarga. "Você ouviu. Ele não vai contra
Valentine. Nem mesmo pela minha mãe."
"Mas isso exatamente..." Uma longa reverberação tinindo interrompeu ele. Em algum
lugar, um sino estava tocando. "Meia-noite," Jace disse, fixando a faca para baixo. Ele
ficou de pé, segurando sua mão para puxá-la ao lado dele. Seus dedos estavam
ligeiramente pegajosos com o sumo da maçã. "Agora, olhe."
Seu olhar estava fixo sobre o arbusto verde que eles tinham sentado ao lado, com
suas dezenas de brilhantes botões fechados. Ela começou a perguntar a ele o que era
que supostamente ela tinha que estar olhando, mas ele levantou uma mão para
interromper ela. Seus olhos estavam brilhando. "Espere," disse ele.
As folhas no arbusto ainda permaneciam sem movimento. De repente um dos botões
bem fechado começou a agitar e tremer. Ele cresceu duas vezes o seu tamanho e
brotou aberto. Era como ver em velocidade o filme de uma flor florescendo: o
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delicado verde das sépalas abrindo-se para fora, liberando um cacho de pétalas lá
dentro. Elas estavam empoeiradas com um pálido pólen dourado tão leve como talco.
"Oh!" Clary disse, e olhou para cima para encontrar Jace olhando para ela. "Eles
florescem toda noite?"
"Só à meia-noite," ele disse. "Feliz aniversário, Clarissa Fray".
Ela estava estranhamente tocada. "Obrigada."
"Eu tenho uma coisa para você," ele disse. Ele cavou em seu bolso e trouxe uma
coisa, que ele pressionava em sua mão. Era uma pedra cinza, ligeiramente irregular,
suavemente desgastada com manchas.
"Huh," Clary disse, girando ela em seus dedos. "Você sabe, quando a maioria das
garotas dizem que querem uma grande rocha, elas não querem dizer, você sabe,
literalmente, uma grande rocha."
"Muito divertido, minha sarcástica amiga. Não se trata de uma rocha, precisamente.
Todos os Caçadores de Sombras têm uma runa de luz de bruxa – uma pedra."
"Ah." Ela a olhou com um renovado interesse, fechando os dedos em torno dela como
ela tinha visto Jace fazer no porão. Ela não estava certa, mas ela pensou ter podido
ver um brilho de luz se espreitar através dos dedos dela.
"Ela vai lhe trazer luz," Jace disse, "mesmo entre as mais escuras sombras deste
mundo e nos outros."
Ela a escorregou em seu bolso. "Bem, obrigada. Foi legal da sua parte me dar alguma
coisa." A tensão entre eles parecia se pressionar sobre ela como ar úmido. "Melhor do
que qualquer dia de banho de espaguete."
Ele disse sombriamente, "Se você compartilhar essa pequena informação pessoal com
alguém, eu posso ter que te matar."
"Bem, quando eu tinha cinco, eu queria que a minha mãe me deixasse ir girando e
girando dentro do secador de roupas," Clary disse. "A diferença é que ela não me
deixou."
"Provavelmente porque sair girando e girando dentro de um secador pode ser fatal,"
Jace salientou, "enquanto que massa raramente é fatal. A não ser que seja Isabelle
que faça."
As flores da meia-noite já estava derramando pétalas. Elas se inclinaram em direção
ao chão, refletindo como fendas de luz das estrelas. "Quando eu tinha doze, eu queria
uma tatuagem," Clary disse. "Minha mãe não iria me deixar fazer, de qualquer jeito."
Jace não riu. "A maioria dos Caçadores de Sombras ganham suas primeiras marcas
aos doze. Deve ter estado no seu sangue."
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"Talvez. Embora eu duvide que os Caçadores de Sombras recebam uma tatuagem do
Donatello das Tartarugas Ninjas sobre seu ombro esquerdo."
Jace pareceu confuso. "Você queria uma tartaruga em seu ombro?"
"Eu queria cobrir minha cicatriz de catapora." Ela puxou levemente a alça do seu top
de lado, mostrando a marca branca em forma de estrela, na parte superior do seu
ombro. "Vê?"
Ele olhou para longe. "Está ficando tarde," ele disse. "Nós devemos voltar lá para
baixo."
Clary puxou sua alça de volta, sem jeito. Como se ele quisesse ver suas estúpidas
cicatrizes.
As próximas palavras tropeçaram para fora da sua boca, sem qualquer vontade de
sua parte. "Alguma vez você e Isabelle ficaram juntos?"
Agora ele olhou para ela. A luz do luar limpava a cor dos seus olhos. Eles agora eram
mais prateados do que dourados. "Isabelle?" ele disse inexpressivamente.
"Eu pensei..." Agora ela sentia ainda mais embaraçada. "Simon estava pensando..."
"Talvez ele devesse perguntar a ela.”
"Não tenho certeza se ele quer," Clary disse. "De qualquer forma, não importa. Não é
problema meu."
Ele sorriu inquietamente. "A resposta é não. Quero dizer, pode ter havido um
momento em que um ou o outro considerou isso, mas ela é quase uma irmã para
mim. Seria estranho."
"Quer dizer que Isabelle e você nunca..."
"Nunca," Jace disse.
"Ela me odeia," observou Clary.
"Não, não odeia," ele disse, para sua surpresa. "Você apenas deixa ela nervosa,
porque ela sempre foi a única garota em uma multidão de garotos admiradores, e
agora ela não é mais."
"Mas ela é tão linda."
"E você também é," Jace disse, "e muito diferente de como ela é, e não ajudou ela
perceber isso. Ela sempre quis ser baixa e delicada, você sabe. Ela odeia ser mais alta
do que a maioria dos caras."
Clary não disse nada sobre isso, porque ela não tinha nada a dizer. Linda. Ele falou
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que ela era linda. Ninguém nunca tinha chamado ela disso antes, exceto sua mãe,
que não conta. As mães são obrigadas a pensar que você é linda. Ela olhou para ele.
"Nós provavelmente devemos descer," ele disse de novo. Ela tinha certeza que ela
estava fazendo ele ficar desconfortável com seu olhar, mas ela não pareceu ser capaz
de parar.
"Tudo bem," ela disse finalmente. Para seu alívio, a voz dela soou normal. Foi um
alívio olhar para longe dele quando ela se virou.
A lua, estava diretamente acima de suas cabeças agora, iluminava cada coisa
próxima como a luz do dia. Entre um passo e outro ela viu uma brilho branco
atingindo alguma coisa no chão: Era a faca de Jace que ele tinha usado para cortar as
maçãs, deitada de lado. Ela se jogou às pressas para evitar pisar sobre ela, e seu
ombro bateu no dele – ele colocou uma mão para firmar ela, enquanto ela se virava
para pedir desculpas e, então, ela estava de alguma forma no círculo do seu braço e
ele estava beijando ela.
Foi de primeira, quase como se ele não quisesse beijar ela: Sua boca estava dura na
dela, firme e, depois, ele colocou ambos os braços em torno dela, e ela se puxou
contra ele. Seus lábios ficaram suaves. Ela podia sentir o rápido ritmo do seu coração,
saborear a doçura das maçãs ainda em sua boca. Ela enrolou suas mãos em seus
cabelos, como ela tinha desejado fazer desde a primeira vez que ela tinha visto ele.
Seus cabelos enrolados em torno dos dedos dela, sedosos e suaves. Seu coração
estava martelando, e havia um som correndo em seus ouvidos, como o bater de
asas...
Jace se afastou para longe dela com uma exclamação abafada, mas seus braços ainda
estavam ao seu redor. "Não entre em pânico, mas nós temos uma audiência."
Clary virou sua cabeça. Empoleirado no galho de uma árvore próxima estava Hugo,
os observando com seus brilhantes olhos negros. Então, o som que ela tinha ouvido
tinha sido asas ao invés de louca paixão. Isso foi decepcionante.
"Se ele está aqui, Hodge não está muito para trás," Jace disse sob a sua respiração.
"Devemos ir."
"Ele está espionando você?" Clary sibilou. "Hodge, eu quero dizer."
"Não. Ele só gosta de vir até aqui para pensar. Que pena – estávamos tendo essa
faíscante conversa." Ele riu silencioso.
Eles fizeram o seu caminho de volta para baixo do jeito que tinham chegado, mas
sentia como um caminho totalmente diferente para Clary. Jace manteve a sua mão
na dela, enviando pequenos choques elétricos viajando para cima e para baixo de
suas veias em cada ponto em que ele tocava ela: os dedos, o seu pulso, a palma da
sua mão. Sua mente estava zunindo com perguntas, mas ela estava com muito medo
de quebrar o momento para perguntar qualquer uma delas. Ele disse "que pena",
então ela adivinhou que sua noite tinha terminado, pelo menos a parte do beijo.
Eles atingiram a sua porta. Ela se inclinou contra a parede ao lado dele, olhando
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acima para ele. "Obrigada pelo piquenique de aniversário," ela disse, tentando
manter seu tom neutro.
Ele parecia relutante em soltar sua mão. "Você vai dormir?"
Ele está apenas sendo educado, ela disse para si mesma. Então, novamente, aquele
era Jace. Ele nunca foi educado. Ela decidiu responder à pergunta com uma pergunta.
"Você está cansado?"
Sua voz era baixa. "Eu nunca estive mais desperto."
Ele se curvou para beijá-la, trazendo seu rosto com sua mão livre. Seus lábios
tocaram levemente primeiro, e depois com uma pressão mais forte. Foi precisamente
neste momento em que Simon abriu a porta do quarto e caminhou para fora no
corredor.
Ele estava piscando, os cabelos eriçados e sem seus óculos, mas ele podia ver bem o
suficiente. "Que inferno?" Ele exigiu, tão alto que Clary se afastou de Jace como se
seu toque tivesse queimado ela.
"Simon! O que você... eu quero dizer, eu pensei que você estava...”
"Dormindo? Eu estava," ele disse. A parte de cima de suas bochechas estavam
coradas num vermelho escuro através do seu bronzeado, do jeito como elas sempre
ficavam quando ele estava envergonhado ou chateado. "Então me levantei, e você
não estava lá, então pensei..."
Clary não conseguia pensar em nada para dizer. Porque não ocorreu a ela que isso
poderia acontecer? Porque ela não disse que deveriam ir para o quarto de Jace? A
resposta era tão simples quanto era terrível: Ela tinha esquecido de Simon
completamente.
"Sinto muito," ela disse, não certa do que ela estava falando. Pelo canto do olho ela
pensou ter visto Jace lhe atirar um olhar branco de fúria, mas quando ela olhou para
ele, ele parecia como ele sempre fora: fácil, confiante, um pouco entediado.
"No futuro, Clarissa," ele disse, "é aconselhável mencionar que você já tem um
homem na sua cama, para evitar tais situações chatas."
"Você o convidou para cama?" Simon exigiu, parecendo tremer.
"Ridículo, não é?" Jace disse. "Nunca caberiamos nós todos."
"Eu não o convidei para cama," Clary rebateu. "Nós estávamos apenas nos beijando."
"Só beijando?" O tom de Jace escarnecia ela com sua falsa dor. "Quão rapidamente
você descarta o nosso amor."
"Jace..."
Ela viu o brilho nos olhos dele de malícia e diminuiu. Não havia nenhum ponto. Seu
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estômago pareceu subitamente pesado. "Simon, é tarde," ela disse de modo cansado.
"Eu lamento ter te acordado."
"Eu também." Ele andou de volta para o quarto, fechando a porta atrás dele.
O sorriso de Jace estava tão suave quanto manteiga derretida. "Vá em frente, vá
atrás dele. Afague a cabeça dele e lhe diga que ele é ainda o seu super especial
garotinho. Não é isso o que você quer fazer?"
"Pare com isso," ela disse. "Pare de ser assim."
Seu sorriso se alargou. "Como o quê?"
"Se você está zangado, apenas diga. Não haja como se nada tocasse você. É como se
você nunca sentisse absolutamente nada."
"Talvez você devesse ter pensado nisso antes de você me beijar," ele disse.
Ela olhou para ele incredulamente. "Eu beijei você?"
Ele olhou para ela com uma brilhante malícia. "Não se preocupe," ele disse, "aquilo
não foi memorável para mim, também."
Ela olhou ele se afastando, e sentiu uma mistura urgente do desejo de chorar e de
correr atrás dele com o único objetivo de chutar ele no tornozelo. Sabendo que
aquela ação o iria encher de satisfação, ela não o fez, mas foi cautelosamente de
volta para o quarto.
Simon estava em pé no meio do quarto, parecendo perdido. Ele tinha colocado os
seus óculos de volta. Ela ouvia a voz de Jace na cabeça dela, dizendo sujamente:
Afague a cabeça dele e lhe diga que ele é ainda o seu super especial garotinho.
Ela tomou um passo em direção a ele e, em seguida parou quando ela percebeu o
que ele estava segurando em sua mão. Seu bloco de desenhos, aberto no desenho
que estava fazendo, um Jace com asas de anjo. "Legal," ele disse. "Todas essas aulas
em Tisch26 devem ter sido bem remuneradas."
Normalmente, Clary teria dito a ele para parar de olhar seu caderno de esboços, mas
agora não era a hora. "Simon, olha..."
"Eu reconheço que sair daqui emburrado do seu quarto pode não ter sido o mais
suave dos movimentos," ele interrompeu duramente, arremessando o caderno de
esboço na cama. "Mas eu tinha que buscar as minhas coisas."
"Aonde você vai?" ela perguntou.
"Casa. Eu tenho estado aqui por muito tempo, eu acho. Mundanos como eu, não
pertencem a um lugar como este."
26
Tisch é uma escola de artes.
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Ela suspirou. "Olha, me desculpe, ok? Eu não tinha intenção de beijar ele, mas
apenas aconteceu. Eu sei que você não gosta dele."
"Não," Simon disse com mais rigor ainda. "Eu não gosto de refrigerante sem gás. Eu
não gosto de bandas pop de garotos, de má qualidade. Eu não gosto de estar preso
no trânsito. Eu não gosto de dever de casa de matemática. Eu odeio o Jace. Viu a
diferença?"
"Ele salvou sua vida," salientou Clary, se sentindo como uma fraude, afinal, Jace
tinha ido ao Dumort apenas porque ele ficou preocupado em ele se meter em
problemas se ela fosse morta.
"Detalhes," Simon disse desprezando. "Ele é um babaca. Eu pensei que você era
melhor que isso."
O temperamento de Clary inflamou. "Oh, e agora você está dando uma lição de
moral em mim?" ela rebateu. "Você que estava perguntando pela garota com o corpo
mais legal para o Fall Fling." Ela imitou o tom preguiçoso de Eric. A boca de Simon
apertava raivosamente. "Então, e se Jace é um babaca às vezes? Você não é meu
irmão, você não é o meu pai, você não tem que gostar dele. Eu nunca gostei de
nenhuma de suas namoradas, mas pelo menos eu tive a decência de manter isso
para mim."
"Isso," disse Simon, entre seus dentes, "é diferente".
"Como? Como é que é diferente?"
"Porque eu vejo o jeito como você olha para ele!" ele gritou. "E eu nunca olhei para
nenhuma daquelas garotas assim! Era só uma coisa para se fazer, uma forma de
praticar, até..."
"Até o quê?" Clary palidamente sabia que ela estava horrível, que a coisa toda era
horrível, pois eles nunca tinham sequer brigado antes, era mais grave do que uma
discussão sobre quem tinha comido o último Pop-Tart da caixa na casa da árvore,
mas ela não parecia ser capaz de parar. "Até Isabelle aparecer? Eu não posso
acreditar que você está me dando palestras sobre Jace quando você fez um completo
otário de si mesmo por dela!" Sua voz subiu para um grito.
"Eu estava tentando te fazer ficar com ciúme!" Simon gritou, direto de volta. Suas
mãos estavam em seus punhos dos lados. "Você é tão estúpida, Clary. Você é tão
idiota, você não consegue ver nada?"
Ela olhou para ele desnorteada. O que na terra que ele queria dizer? "Tentando me
fazer ciúmes? Por que você tentaria fazer isso?"
Ela viu imediatamente que esta era a pior coisa que ela poderia ter lhe perguntado.
"Porque," ele disse, tão amargamente que chocou ela, "eu tenho estado apaixonado
por você a dez anos, então eu pensei que parecia ser a hora de descobrir se você
sentia o mesmo sobre mim. Que, eu acho, você não sente."
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Teria sido melhor ele ter dado um chute no estômago dela. Ela não conseguia falar, o
ar tinha sido sugado para fora dos seus pulmões. Ela olhou para ele, tentando formar
uma resposta, qualquer resposta.
Ele cortou ela drasticamente. "Não. Não há nada que você possa dizer." Ela assistiu
ele andar até a porta como se paralisada, não podia se mover para abraçá-lo de
volta, tanto quanto ela queria. O que ela poderia dizer? 'Eu amo você também'? Mas
ela não podia... ela podia?
Ele parou na porta, a mão na maçaneta, e se virou para olhar para ela. Seus olhos,
por trás dos óculos, pareciam mais cansados do que com raiva agora. "Você
realmente quer saber o que mais a minha mãe disse sobre você?" ele perguntou.
Ela balançou a cabeça dela.
Ele não pareceu notar. "Ela disse que você iria quebrar o meu coração," ele disse a
ela, e saiu. A porta fechou atrás dele com um clique decidido, e Clary estava sozinha.
Depois que ele tinha ido embora, ela afundou sob sua cama e pegou seu caderno de
esboços. Ela embalou ele no peito, não querendo desenhar nele, apenas o desejo de
sentir o cheiro de coisas familiares: tinta, papel, giz.
Ela pensou em correr atrás de Simon, tentando alcançar ele. Mas o que ela poderia
disse? O que ela poderia possivelmente dizer? Você é tão estúpida, Clary, ele disse a
ela. Você não consegue ver nada?
Ela pensou em uma centena de coisas que ele disse ou fez, piadas do Eric e dos
outros que tinham feito sobre eles, conversas silenciadas quando ela caminhou para o
quarto. Jace sabia desde o início. Eu estava rindo de você porque declarações de
amor me divertem, especialmente quando não são correspondidas. Ela não parou
para se perguntar sobre o que ele estava falando, mas agora ela sabia.
Ela tinha dito anteriormente a Simon que ela sempre tinha amado apenas três
pessoas: sua mãe, Luke, e ele. Ela se perguntou se era realmente possível, no espaço
de uma semana, perder todos a quem você amava. Ela se perguntou se aquilo era o
tipo de coisa que você sobreviveria ou não. E ainda, por aqueles breves momentos,
no telhado com Jace, que ela tinha esquecido a mãe dela. Ela tinha esquecido de
Luke. Ela tinha esquecido de Simon. E ela tinha sido feliz. Essa foi a pior parte, que
ela tinha sido feliz.
Talvez isso, ela pensava, perdendo Simon, talvez este seja o meu castigo pelo
egoísmo de ser feliz, mesmo por apenas um momento, quando a minha mãe ainda
está faltando. Nenhum deles tinha sido real, de qualquer maneira. Jace pode ser um
excepcional beijador, mas ele não se importa comigo de forma nenhuma. Ele disse
tanta coisa.
Ela baixou seu bloco lentamente em seu colo. Simon estava certo, aquilo era uma boa
imagem de Jace. Ela pegou a linha dura de sua boca, os olhos vulneráveis não
harmônicos. As asas pareciam tão reais que ela imaginava que, se ela passasse os
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dedos entre elas, elas seriam suaves. Ela deixou a mão dela em toda a extensão da
página, sua mente vagando...
Ela retirou a mão dela de volta, encarando. Seus dedos tinham tocado não o papel
seco, mas o suave das penas. Seus olhos brilharam em cima das Runas que ela havia
rabiscado no canto da página. Elas estavam brilhando, do modo que ela tinha visto as
runas quando Jace desenhou com sua estela o brilho.
Seu coração tinha começado a bater com uma rápida e firme nitidez. Se uma runa
pode trazer uma pintura a vida, então talvez...
Não tirando os olhos dela fora do desenho, ela tateou a procura de seu lápis. Sem
fôlego, ela virou uma nova, e limpa página e apressadamente começou a desenhar a
primeira coisa que veio à mente. Foi a caneca de café assentada na mesa de
cabeceira ao lado de sua cama. Desenhando nas suas memórias da posição continua
da vida, ela a desenhou em cada detalhe: a borda manchada, a rachadura na alça.
Quando ela terminou, ela estava tão exata quanto ela poderia ter feito. Guiada por
algum instinto que ela não entendeu muito bem, ela alcançou a caneca e a colocou no
topo do papel. Então, muito cuidadosamente, ela começou a esboçar as runas ao lado
dela.
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