Clary,
Apesar de tudo, não posso suportar a idéia de que este anel seja
perdido para sempre mais do que posso suportar a idéia de te deixar para
sempre. E embora eu não tenha nenhuma opção sobre isso, pelo menos
posso escolher sobre o outro. Deixo para você nosso anel de família, já que
você tem tanto direito a ele quanto eu.
Estou escrevendo isso vendo o sol nascer. Você está adormecida,
seus sonhos se movendo por trás de suas pálpebras inquietas. Eu gostaria
de saber o que você está pensando. Quem dera eu pudesse deslizar em sua
cabeça e ver o mundo como você o faz. Quem dera eu pudesse me ver da
forma que você vê. Mas talvez eu não queira ver isso. Talvez fizesse eu
sentir mais do que já sinto que estou perpetuando uma espécie de grande
mentira sobre você, e eu não poderia suportar isso.
Eu te pertenço. Você poderia fazer qualquer coisa que quisesse
comigo e eu deixaria você fazer. Você poderia pedir qualquer coisa de mim
e eu partiria a mim mesmo tentando te fazer feliz. Meu coração me diz que
este é o melhor e maior sentimento que já tive. Mas minha mente sabe a
diferença entre querer o que você não pode ter e querer o que você não
deveria querer. E eu não deveria querer você.
Eu te vi dormir a noite toda, vi a luz da lua vir e ir, projetando sua
sombra em seu rosto em branco e preto. Nunca vi nada mais belo. Penso na
vida que eu poderia ter tido se as coisas fossem diferentes, uma vida onde
esta noite não é um acontecimento singular separado de todo o resto que é
real, mas sim cada noite. Mas as coisas são diferentes e não posso olhar
para você sem sentir que te enganei para você me amar. A verdade que
ninguém está disposto a dizer em voz alta é que ninguém tem uma chance
contra Valentine mais do que eu. Posso estar perto dele como ninguém
mais pode. Posso fingir que desejo me unir a ele e ele vai acreditar em
mim, até aquele último momento em que eu acabar com tudo, de uma
forma ou de outra. Tenho algo de Sebastian, posso encontrá-lo no lugar
onde meu pai se esconde. E isso é o que vou fazer. Então eu menti para
você na noite passada. Eu te disse que só queria uma noite com você. Mas
quero todas as noites com você. E é por isso que tenho que sair pela janela
agora, como um covarde. Porque se eu tivesse dito isso a você cara a cara,
eu não poderia ir embora.
Eu não te culpo se você me odeia, eu gostaria que você odiasse. Enquanto
eu ainda puder sonhar, vou sonhar com você.
- Jace
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
19
Capítulo 19
O INFERNO ESTÁ SATISFEITO
O BRILHO INIMAGINÁVEL IMPRESSO NAS COSTAS DAS pálpebras da
Clary apagou na escuridão. Uma surpreendente longa escuridão que se
rendeu lentamente para uma intermitente luz acinzentada com sombras.
Havia algo duro e frio pressionado em suas costas, e seu corpo inteiro doeu.
Ela ouviu o murmúrio de vozes acima dela, que enviou uma punhalada de
dor em sua cabeça. Alguém a tocou gentilmente na garganta, e a mão foi
removida. Ela puxou um fôlego.
Seu corpo inteiro estava latejante. Ela semicerrou seus olhos, e olhou
ao redor dela, tentando não se mover demais. Ela estava deitada nos
azulejos duros do jardim na cobertura, uma das pedras da calçada
escavando suas costas. Ela tinha caído no chão quando Lilith desapareceu,
e estava coberta de cortes e contusões, seus sapatos desapareceram, seus
joelhos estavam sangrando, e seu vestido estava fendido onde Lilith a
cortou com seu chicote mágico, sangue brotando através das rendas em
seu vestido de seda.
Simon estava ajoelhado sobre ela, seu rosto ansioso. A Marca de Caim
ainda brilhando embranquecida em sua testa. “O pulso dela está firme”, ele
estava dizendo, ”mas vamos lá. Vocês tem todas aquelas runas de cura.
Deve
haver algo que você possa fazer por ela—“
“Não sem uma estela. Lilith me fez jogar fora a estela da Clary, então
ela não poderia pegá-la de mim quando ela acordasse.” A voz de Jace,
baixa e tensa com angústia suprimida. Ele se ajoelhava do outro lado de
Simon, no outro lado dela, seu rosto na sombra. “Você pode carregá-la para
baixo? Se nós pudermos levá-la ao Instituto—“
“Você quer que eu a carregue?” Simon soou surpreso, Clary não o
culpava.
“Eu duvido que ela queira que eu a toque.“ Jace se levantou, como se ele
não pudesse suportar permanecer em um lugar. “Se você pudesse—“
Sua voz falhou, e ele se virou, olhando para o lugar onde Lilith tinha
estado até um momento atrás, um trecho vazio de pedra agora prateada
com moléculas espalhadas de sal. Clary escutou Simon suspirar — um som
deliberado — e ele se inclinou sobre ela, suas mãos em seus braços.
Ela abriu o restante de seus olhos, e seus olhares se encontraram.
Embora ela soubesse que ele notara que ela estava consciente, nenhum
deles disse qualquer coisa. Era difícil para ela olhá-lo, para o rosto familiar
com a marca que ela tinha dado a ele ardendo como uma estrela branca
acima de seus olhos.
Ela sabia, dando a ele a Marca de Caim, que ela estava fazendo algo
enorme, algo terrível e colossal cujo resultado era quase totalmente
imprevisível. Ela a teria dado de novo, para salvar a vida dele. Mas ainda
assim, enquanto ele esteve lá, a marca ardera como relâmpago branco
enquanto Lilith — um Demônio Maior tão velho quanto a humanidade —
reduziu-se a sal, ela pensou. O que eu fiz?
“Eu estou bem”, ela disse. Ela se levantou em seus cotovelos; eles
doeram horrivelmente. Em algum ponto ela aterrissou sobre eles e
arranhou toda a pele. “Eu posso caminhar muito bem.”
Ao som da voz dela, Jace se virou. A visão dele a dilacerou. Ele
estava chocantemente machucado e ensanguentado, um longo arranhão
correndo no comprimento de sua bochecha, seu lábio inferior inchado, e
uma dúzia de brechas ensanguentadas em suas roupas. Ela não estava
acostumava a vê-lo tão machucado — mas é claro, se ele não tinha uma
estela para curá-la, ele não teria uma para curar a si mesmo também.
A expressão dele estava completamente vazia. Mesmo Clary,
acostumada a ler seu rosto como se ela estivesse lendo as páginas de um
livro, não podia ler nada nele. O olhar dele caiu para sua garganta, onde ela
podia sentir a dor picando, o sangue incrustado lá onde a faca dele tinha a
cortado. O nada da sua expressão cedeu, e ele olhou para longe antes que
ela pudesse ver seu rosto mudar.
Afastando a oferta de Simon com uma mão, ela tentou levantar-se.
Uma dor ardente atravessou seu tornozelo, e ela gritou, então mordeu seu
lábio. Caçadores de Sombras não gritavam de dor. Eles a suportavam
estoicamente, ela lembrou a si mesma. Nada de choramingar.
“É meu tornozelo”, ela disse. “Acho que ele deve estar torcido, ou
quebrado.”
Jace olhou para Simon. “Carregue ela”, ele disse. “Como eu disse a você.”
Dessa vez Simon não esperou pela resposta da Clary; ele deslizou um
braço debaixo de seus joelhos e o outro debaixo de seus ombros e a
levantou; ela envolveu seus braços em torno de seu pescoço e o segurou
forte. Jace foi à frente em direção a cúpula e as portas que davam para
dentro. Simon seguiu, carregando Clary tão cuidadosamente como se ele
fosse porcelana quebrável. Clary quase tinha se esquecido do quão forte ele
era, agora que era um vampiro. Ele não mais cheirava como ele mesmo, ela
pensou, um pouco saudosa — Simon cheirava a sabonete e loção após
barba barata (o que ele realmente não precisava) e sua bala favorita de
canela. Seu cabelo ainda cheirava como seu shampoo, mas por outro ele
parecia não cheirar a nada, e sua pele onde ela tocava era fria. Ela apertou
seus braços em torno do seu pescoço, desejando que ele tivesse um corpo
um pouco quente. As pontas de seus dedos pareceram azuladas, e seus
corpo parecia dormente.
Jace, a frente deles, empurrou as portas duplas de vidro. Então eles
estavam dentro, onde era misericordiosamente um pouco mais quente. Era
estranho, Clary pensou, sendo segurada por alguém cujo peito não
levantava e caia enquanto eles respiravam. Uma estranha eletricidade ainda
parecia se agarrar a Simon, um remanescente da luz brutalmente brilhosa
que tinha envolvido o teto quando Lilith foi destruída. Ela queria perguntar
como ele estava se sentindo, mas o silêncio de Jace era tão
devastadoramente completo que ela sentiu medo de quebrá-lo.
Ele alcançou o botão do elevador, mas antes de seu dedo tocá-lo, as
portas se abriram por sua própria conta, e Isabelle pareceu quase explodir
diante deles, seu chicote prata dourado vindo atrás dela como a cauda de
um cometa, Alec a seguia, bem atrás de seus calcanhares; vendo Jace,
Clary e Simon lá, Isabelle derrapou em uma parada, Alec quase tropeçando
nela por trás. Sob outras circunstâncias isso teria sido quase engraçado.
“Mas—“ Isabelle arfou. Ela estava cortada e ensanguentada, seu lindo
vestido vermelho rasgado em torno de seus joelhos, seu cabelo preto vindo
abaixo, fora de seu penteado, fios dele emaranhados com sangue. Alec
parecia como se ele tivesse se saído um pouco melhor; uma manga de sua
jaqueta estava fatiada do lado, embora não parecesse como se a pele por
baixo tivesse sido ferida. “O que vocês estão fazendo aqui?”
Jace, Clary e Simon todos olharam para ela sem expressão, muito
chocados para responder. Finalmente Jace disse secamente. “Nós
poderíamos fazer a vocês a mesma pergunta.”
“Eu não — Nós pensávamos que você e Clary estivessem na festa”,
Isabelle disse, Clary raramente tinha visto Isabelle não tão senhora de si.
“Nós estávamos procurando por Simon.”
Clary sentiu o peito de Simon descer, um tipo de arfar humano em reflexo
pela surpresa. “Você estava?”
Isabelle corou. “Eu...”
“Jace?” Era Alec, seu tom comandando. Ele tinha dado a Clary e a
Simon um olhar atônito, mas então a atenção dele se foi, como sempre
fazia, para Jace. Ele podia não estar mais apaixonado por Jace, se ele
realmente tivesse sido, mas eles ainda eram parabatai, e Jace era sempre o
primeiro em sua mente em qualquer luta. “O que você está fazendo aqui? E
pelo amor do Anjo, o que aconteceu a você?”
Jace olhou para Alec, quase como se ele não o conhecesse. Ele
parecia com alguém em um pesadelo, examinando uma nova paisagem,
não por causa que ela fosse surpreendente ou dramática, mas para se
preparar para qualquer horror que ela poderia revelar. “Estela”, ele disse
finalmente, em uma voz rouca. “Você tem sua estela?”
Alec alcançou seu cinto, parecendo perplexo. “É claro.” Ele estendeu
a
estela para Jace. “Se você precisa de uma iratze—“
“Não para mim”, Jace disse, ainda na mesma estranha voz áspera.
“Ela.” Ele apontou para Clary. “Ela precisa disso mais do que eu.” Os olhos
deles encontraram o de Alec, dourado e azul. “Por favor, Alec”, ele disse, a
aspereza se foi de sua voz tão subitamente quanto ela veio. “Ajude-a por
mim.”
Ele se virou e caminhou, na direção mais distante da sala, onde as
portas de vidro estavam. Ele ficou lá, olhando através delas — para o
jardim lá fora ou para seu próprio reflexo, Clary não podia dizer.
Alec olhou para Jace por um momento, então veio em direção a Clary
e Simon, estela na mão. Ele indicou que Simon deveria baixar Clary ao
chão, o que ele fez gentilmente, deixando ela se apoiar contra a parede. Ele
se afastou enquanto Alec se ajoelhava perto dela. Ela podia ver a confusão
no rosto de Alec, e seu olhar de surpresa quando ele viu quão ruins os
cortes em seu braço e abdômen eram. “Quem fez isso a você?”
“Eu—“ Clary olhou desamparada em direção a Jace, que ainda estava
de costas para eles. Ela podia ver o reflexo dele nas portas de vidro, seu
rosto uma mancha branca, escurecida aqui e ali com hematomas. A frente
de sua camisa estava escura com sangue. “É difícil de explicar.”
“Por que você não nos chamou?” Isabelle exigiu, sua voz aguda com
a traição. “Por que você não nos disse que estava vindo para cá? Por que
não mandou uma mensagem de fogo ou qualquer coisa? Você sabe que nós
teríamos vindo se você precisasse de nós.”
“Não havia tempo”, Simon disse. “E eu não sabia que Clary e Jace
estavam vindo para cá. Eu pensei que era o único. Não parecia certo
arrastar você para meus problemas.”
“Ar — arrastar-me para seus problemas?” Isabelle balbuciou. “Você—
,“ ela começou — e então para a surpresa de todos, claramente incluindo
ela mesma, ela se jogou em Simon, envolvendo seus braços ao redor de
seu pescoço. Ele tropeçou para trás, despreparado pelo ataque, mas ele
recobrou rapidamente o suficiente. Seus braços a rodearam, quase se
atrapalhando no chicote pendendo, e ele a abraçou fortemente, a cabeça
escura dela debaixo de seu queixo, ela não podia dizer bem — Isabelle
estava falando muito suavemente — mas parecia como se ela estivesse
xingando Simon sob sua respiração.
As sobrancelhas de Alec se levantaram, mas ele não fez nenhum
comentário enquanto se inclinava sobre Clary, bloqueando sua visão de
Isabelle e Simon. Ele tocou a estela em sua pele, e ela pulou com a dor
aguda. “Eu sei que isso dói”, ele disse em voz baixa. “Acho que você bateu
sua cabeça. Magnus deveria dar uma olhada em você. O que há com Jace?
O quanto ele está machucado?”
“Eu não sei.” Clary sacudiu sua cabeça. “Ele não me quer perto dele.”
Alec colocou sua mão embaixo do queixo dela, virando seu rosto de
um lado para o outro, e rabiscou uma segunda iratze leve no lado da
garganta dela, bem abaixo da linha da mandíbula. “O que ele fez que pensa
que foi tão terrível?”
Clary lançou seus olhos em direção a ele. “O que faz você pensar que
ele fez alguma coisa?”
Alec soltou seu queixo. “Por que eu o conheço. E o modo que ele se
pune. Não deixar você próxima a ele é punir a si mesmo, não punir você.”
“Ele não me quer perto dele.” Clary disse, ouvindo a rebelião em sua
própria voz e se odiando por estar sendo mesquinha.
“Você é tudo o que ele quer”, Alec disse em um tom
surpreendentemente gentil, e ele se sentou em seus calcanhares,
empurrando seu longo cabelo preto de seus olhos. Havia algo de diferente
acerca dele ultimamente, Clary pensou, uma segurança sobre si mesmo que
não tinha estado lá quando ela o tinha conhecido primeiro, algo que
permitia ele ser generoso com os outros, quando ele nunca tinha sido
generoso com ele mesmo antes. “Aliás. como vocês dois acabaram aqui?
Nós nem sequer notamos vocês saírem da festa com Simon—“
“Eles não saíram”, Simon disse. Ele e Isabelle afastados, mas ainda
perto um do outro, lado a lado. “Eu vim aqui sozinho. Bem, não exatamente
sozinho. Eu fui — convocado.”
Clary acenou. “É verdade. Nós não deixamos a festa com ele. Quando
Jace me trouxe para cá, eu não tinha ideia de que Simon ia estar aqui
também.”
“Jace trouxe você aqui?” Isabelle disse, atônita. “Jace, se você sabia
sobre Lilith e a Igreja de Talto, você deveria ter dito algo.”
Jace ainda estava olhando através das portas. “Acho que escapou da
minha mente.” Ele disse sem emoção.
Clary sacudiu sua cabeça enquanto Alec e Isabelle olhavam de seu
irmão adotivo para ela, como se para uma explicação pelo seu
comportamento. “Não era realmente Jace”, ela disse finalmente. “Ele
estava... sendo controlado. Por Lilith.”
“Possessão?” Os olhos de Isabelle se arregalaram em surpresa. Sua
mão apertou o cabo de seu chicote em reflexo.
Jace se virou das portas. Lentamente ele alcançou acima e puxou sua
camisa manchada para que eles pudessem ver a feia marca de possessão, e
o talho sangrento que corria dele. “Isso”, ele disse, ainda na mesma voz
sem emoção, “é a marca de Lilith. É como ela me controlava.”
Alec sacudiu sua cabeça; ele parecia profundamente perturbado.
“Jace, geralmente o único modo de romper uma conexão demoníaca como
essa é matar o demônio que esta fazendo o controle. Lilith é um dos mais
poderosos demônios que jamais—“
“Ela está morta”, Clary disse abruptamente. “Simon a matou. Ou
acho que você poderia dizer que a Marca de Caim matou ela.”
Todos eles olharam para Simon. “E quanto a vocês dois? Como vocês
acabaram aqui?” Ele perguntou, seu tom na defensiva.
“Procurando por você”, Isabelle disse. “Nós descobrimos o cartão que
Lilith deve ter dado a você. Em seu apartamento. Jordan nos deixou entrar.
Ele está com Maia, lá embaixo.“ Ela estremeceu. “As coisas que Lilith estava
fazendo — você não acreditaria — tão horríveis—“
Alec levantou suas mãos. “Devagar, todo mundo. Nós explicaremos o que
aconteceu com a gente, e então Simon, Clary, vocês explicam o que
aconteceu do seu lado.”
A explicação levou menos tempo que Clary pensou que iria, com
Isabelle fazendo a maior parte da conversa gestos extensos que
ameaçaram, de vez em quando, cortar os membros desprotegidos de seus
amigos com seu chicote. Alec aproveitou a oportunidade para sair ao
telhado para enviar uma mensagem de fogo para a Clave, dizendo a eles
onde eles estavam e pedindo por reforços. Jace se afastou sem palavras
para deixá-lo passar enquanto ele saia, e de novo, quando ele voltou para
dentro. Ele também não falou durante a explicação de Simon e Clary do que
tinha ocorrido no telhado, mesmo quando eles chegaram na parte onde
Raziel tinha trazido Jace de volta da morte em Idris. Foi Izzy quem
finalmente interrompeu, quando Clary começou a explicar sobre Lilith sendo
a ‘mãe’ de Sebastian e manter o seu corpo encerrado em vidro.
“Sebastian?” Isabelle bateu seu chicote contra o chão com força o
suficiente para abriu uma rachadura no mármore. “Sebastian está lá fora? E
ele não está morto?” Ela se virou para olhar para Jace, que estava se
inclinando contra as portas de vidro, braços cruzados, sem expressão. “Eu o
vi morto. Eu vi Jace cortar a espinha pelo meio, e eu vi ele cair no rio. E
agora você está me dizendo que ele está vivo lá fora?”
“Não”, Simon se apressou em reassegurá-la. “Seu corpo está lá, mas
ele não está vivo. Lilith não conseguiu completar a cerimônia.” Simon
colocou uma mão sobre o ombro dela, mas ela a afastou. Ela havia ficado
mortalmente da cor branca.
“Não realmente vivo, não é morto o suficiente para mim”, ela disse.
“Eu vou lá fora e vou cortá-lo em milhares de pedaços.” Ela se virou em
direção as portas.
“Iz!” Simon colocou a mão no ombro dela. “Izzy. Não.”
“Não?” Ela olhou para ele incrédula. “Me dê uma boa razão que eu
não deva picar ele em inúteis confetes em tema bastardo.”
Os olhar de Simon se lançaram em torno da sala, descansando por
um momento em Jace, como se esperasse que ele interrompesse ou
adicionasse um comentário. Ele não o fez, ele nem mesmo se moveu.
Finalmente Simon disse. “Olha, você entende o ritual, certo? Por que Jace
foi trazido de volta da morte, isso deu a Lilith o poder de ressuscitar
Sebastian. E para fazer isso, ela precisava de Jace lá e vivo, como — o que
ela chamou isso—“
“Um contrapeso.” Colocou Clary.
“A marca que Jace tem em seu peito. A marca de Lilith.” Em um
aparente gesto inconsciente, Simon tocou seu próprio peito, sobre o
coração. “Sebastian tem também. Eu vi os dois brilharem ao mesmo tempo
quando Jace entrou no círculo.”
Isabelle, seu chicote girando ao lado dele, seus dentes mordendo seu lábio
inferior vermelho, disse impacientemente, “E?”
“Eu acho que ela estava fazendo uma ligação entre eles”, Simon
disse. “Se
Jace morrer, Sebastian não poderia viver. Então se você cortar Sebastian
em pedaços—“
“Isso poderia ferir Jace”, Clary disse, as palavras vertendo enquanto
ela percebia. ”Ah, meu Deus. Ah, Izzy, você não pode.”
“Então nós vamos deixá-lo vivo?” Isabelle soou incrédula.
“Corte ele em pedaços se você quiser”, Jace disse. “Você tem a
minha permissão.”
“Cala a boca”, Alec disse. “Pare de agir como se sua vida não
importasse. Iz, você não estava escutando? Sebastian não está vivo.”
“Ele não está morto, também. Não morto o suficiente.”
“Nós precisamos da Clave”, Alec disse. “Nós precisamos dá-lo aos
Irmãos do Silêncio. Eles podem quebrar a conexão dele com Jace, e então
obtenha todo o sangue que você quiser, Iz. Ele é filho do Valentine. E ele é
um assassino. Todos perderam alguém na batalha em Alicante, ou conhece
alguém que perdeu. Você acha que eles serão gentis com ele? Eles irão
despedaçá-lo lentamente enquanto ele está vivo.”
Isabelle olhou para seu irmão. Muitas lentamente lágrimas brotavam
em seus olhos, se derramando em suas bochechas, listrando a sujeira e
sangue em sua pele. “Eu odeio isso”, ela disse. “Eu odeio quando você está
certo.”
Alec puxou sua irmã para mais perto e beijou o topo de sua cabeça.
“Eu sei que você odeia.”
Ela apertou a mão do seu irmão brevemente, então a puxou.
“Ótimo”, ela disse. ”Eu não tocarei em Sebastian, mas eu não posso
suportar estar a essa distância dele.” Ela olhou em direção as portas de
vidro, onde Jace ainda estava. ”Vamos lá para baixo. Nós podemos esperar
pela Clave na entrada. E precisamos encontrar Maia e Jordan; eles estão
provavelmente se perguntando onde nós fomos.”
Simon limpou sua garganta. “Alguém deveria ficar aqui para manter
um olho — nas coisas. Eu farei isso.”
“Não.” Era Jace. ”Você vai para baixo. Eu ficarei. Tudo isso é minha
culpa. Eu devia ter me assegurado que Sebastian estava morto quanto eu
tive a chance. E como pelo resto disso...”
A voz dele falhou. Mas Clary se lembrou dele tocando seu rosto na
entrada
escura no Instituto, lembrou-se dele sussurrando, Mea culpa, mea máxima
culpa.
Minha culpa, minha culpa, minha mais atroz culpa.
Ela se virou para olhar para os outros; Isabelle tinha empurrado o botão de
chamar, que estava ligado. Clary podia ouvir o distante zumbido do
elevador subindo. A sobrancelha de Isabelle levantou. “Alec, talvez você
devesse ficar aqui com Jace.”
“Eu não preciso de ajuda”, Jace disse. “Não há nada para se lidar. Eu
ficarei bem.”
Isabelle jogou suas mãos para o alto enquanto o elevador chegava com um
pulo. “Ótimo. Você venceu. Fique emburrado aqui sozinho se você quer.”
Ela entrou no elevador, Simon e Alec se apinhando atrás dela. Clary foi a
última a seguir, virando-se para olhar para Jace enquanto ela ia. Ele tinha
se voltado para olhar as portas, mas ela podia ver o reflexo dele nelas. Sua
boca estava comprimida em uma linha lívida, seus olhos escuros.
Jace, ela pensou enquanto as portas do elevador começavam a
fechar. Ela desejou que ele se virasse para olhar para ela. Ele não o fez,
mas ela sentiu fortes mãos, subitamente, em seus ombros, impelindo a
frente. Ela escutou Isabelle dizer, ”Alec, pelo amor de Deus o que você—“
enquanto ela tropeçava nas portas do elevador e se empertigava, se
virando para olhar. As portas estavam fechando atrás dela, embora através
delas ela pudesse ver Alec. Ele deu a ela um lastimável meio sorriso e um
dar de ombros, como se para dizer, o que mais eu posso fazer? Clary deu
um passo a frente, mas era tarde demais; as portas do elevador bateram
fechadas.
Ela estava sozinha na sala com Jace.
????
A sala estava bagunçada com os corpos mortos — todas figuras
caídas em agasalhos de capuz cinza, arremessadas ou emborcadas ou
inclinadas contra a parede. Maia estava na janela, arfando, olhando para a
cena em frente a ela incrédula. Ela tinha feito parte da batalha de Brocelind
em Idris, e pensou que era a pior coisa que ela veria. Mas de algum modo
isso era pior. O sangue que corria dos membros mortos do culto não era a
linfa de demônio, era sangue humano. E os bebês — silenciosos e mortos
em seus berços, suas pequenas mãos em garras dobradas uma sobre a
outra, como bonecas...
Ela afastou o olhar de suas próprias mãos. Suas garras ainda
estavam para fora, manchadas com sangue da raiz ao topo; ela as retraiu,
e o sangue correu de suas palmas, manchando seus pulsos. Seus pés
estavam descalços e ensanguentados, e havia um longo arranhão em um
ombro nu ainda gotejando em vermelho, embora ele já tivesse começado a
curar. Apesar da veloz cura licantropica providenciada, ela sabia que
acordaria amanhã coberta de hematomas. Quando você é um lobisomem,
contusões raramente duram mais que um dia. Ela se lembrou de quando ela
tinha sido humana, e seu irmão, Daniel, tinha tornado a si mesmo um
expert em beliscá-la em lugares onde os hematomas não apareceriam.
“Maia.” Jordan veio através de uma das infinitas portas, mergulhando
um bando de fios pendurados. Ele se empertigou e se moveu em direção a
ela, escolhendo seu caminho entre os corpos. “Você está bem?”
O olhar de preocupação em seu rosto deu um nó em seu estômago.
“Onde estão Isabelle e Alec?”
Ele sacudiu sua cabeça. Ele portava muito menos danos visíveis do
que ela tinha. Sua espessa jaqueta de couro o tinha protegido, como os
seus jeans e botas. Havia um longo arranhão em seu rosto, sangue seco em
seu cabelo castanho claro e manchando a lâmina da faca que ele segurava.
“Eu procurei no andar inteiro. Eu não os vi. Há mais alguns corpos em
outras salas. Eles devem ter—“
A noite foi iluminada como uma lâmina serafim. As janelas ficaram
brancas, a luz brilhante ardeu através da sala. Por um momento Maia
pensou que o mundo tinha ardido em incêndio, e Jordan, se movendo em
direção a ela através da luz, pareceu quase desaparecer, branco sobre
branco, em um campo cintilante de prata. Ela se escutou gritar, e se moveu
cegamente para trás, batendo sua cabeça na chapa de vidro da janela. Ela
colocou suas mãos para cobrir seus olhos—
E a luz se foi. Maia abaixou suas mãos, o mundo girando em torno
dela. Ela foi a frente às cegas, e Jordan estava lá. Ela colocou seus braços
ao redor dele — os jogou ao redor dele, do jeito que ela costumava quando
ele vinha pegá-la
em casa e a acalentaria em seus braços, enrolando os cachos de seus
cabelos em seus dedos.
Ele então tinha sido mais magro, ombros estreitos. Agora músculos
distribuíam em seus ossos, e abraçá-lo era como abraçar algo
completamente sólido, um pilar de granito no meio de uma tempestade
soprando no deserto. Ela se agarrou a ele, e ouviu a batida de seu coração
debaixo de sua orelha, enquanto as mãos dele alisavam seu cabelo, um
toque rude e tranquilizador, confortante e... familiar. ”Maia... está tudo
bem...”
Ela levantou sua cabeça e pressionou sua boca na dele. Ele tinha
mudado em tantas formas, mas a sensação de beijá-lo era a mesma, sua
boca tão suave como sempre. Ele ficou rígido por um segundo com
surpresa, e então a reuniu contra ele, suas mãos fazendo lentos círculos em
suas costas nuas. Ela se lembrou da primeira vez que eles tinham se
beijado. Ela tinha dado a ele seus brincos para pô-los no porta-luvas de seu
carro, e a mão dele tinha tremido tanto que os derrubou e então se
desculpou várias vezes até que ela o beijou para calá-lo. Ela achou que ele
era o garoto mais doce que ela tinha conhecido.
E então ele foi mordido, e tudo mudou.
Ela se afastou, tonta e sem fôlego. Ele a soltou instantaneamente; ele
estava olhando para ela, sua boca aberta, seus olhos atordoados. Atrás
dele, através das janelas, ela podia ver a cidade — ela meio que esperou
ela estar achatada, um destruído deserto branco lá fora da janela — mas
tudo estava exatamente o mesmo. Nada tinha mudado. Luzes piscavam
intermitentes nos prédios do outro lado da rua; ela podia escutar a fraca
precipitação do tráfego abaixo. “Nós devemos ir”, ela disse. ”Devemos
procurar pelos outros.”
“Maia”, ele disse. “Por que você acabou de me beijar?”
“Eu não sei”, ela disse. ”Você acha que nós devemos tentar os
elevadores?”
“Maia—“
“Eu não sei, Jordan”, ela disse. ”Eu não sei por que beijei você, e eu não sei
se eu vou fazer isso de novo, mas sei que estou enlouquecendo e
preocupada com meus amigos e quero sair daqui. Ok?”
Ele concordou. Ele parecia como se tivesse um milhão de coisas que
ele queria dizer, mas tinha determinado não dizê-las, pelo que ela ficou
grata. Ele correu uma mão em seu cabelo despenteado, coberto com pó de
gesso branco, e concordou. “Ok”
????
Silêncio. Jace ainda estava inclinado contra a porta, só agora ele
tinha sua testa pressionada contra ela, seus olhos fechados. Clary se
perguntou se ele sequer sabia que estava na sala com ele. Ela deu um
passo a frente, mas antes que ela pudesse dizer alguma coisa, ele
empurrou as portas abertas e caminhou de volta ao jardim.
Ela ficou imóvel por um momento, olhando após ele. Ela podia
chamar o elevador, é claro, descer nele, esperar pela Clave no saguão com
todos os outros. Se Jace não quis conversar, ele não quis conversar. Ela não
podia forçá-lo. Se Alec estivesse certo, ele estivesse se punindo, ela apenas
tinha que esperar até que ele se recuperasse.
Ela se virou em direção ao elevador — e parou. Uma pequena chama
de fúria veio através dela, fazendo seus olhos queimarem. Não. Ela não
tinha que deixá-lo se comportar desse jeito. Talvez ele pudesse ser desse
jeito com todos os outros, mas não com ela. Ele devia mais a ela do que
isso. Eles deviam um ao outro mais do que isso.
Ela girou e foi a caminho das portas. Seu tornozelo ainda doía, mas
as iratzes que Alec tinha posto nela estavam funcionando. A maior parte da
dor em seu corpo tinha diminuído para uma entorpecida dor latejante. Ela
alcançou as portas e as empurrou, indo para o terraço com uma encolhida
quando seus pés descalços tiveram contato com os azulejos congelando.
Ela viu Jace imediatamente; ele estava ajoelhado próximo aos
degraus, nos azulejos manchados com sangue e linfa e brilhando com sal.
Ele se levantou enquanto ela se aproximava, e se virou, algo cintilante
pendendo de sua mão.
O anel de Morgenstern, em sua corrente.
O vento tinha surgido; ele soprava seu cabelo dourado escuro sobre
seu rosto. Ele o empurrou impacientemente e disse. “Eu lembrei que nós
deixamos isso aqui.”
Sua voz soou surpreendentemente normal.
“Este é o porquê você quis ficar aqui em cima?” Clary disse. “Para
pegá-lo
de volta?”
Ele virou sua mão, então a corrente balançou para cima, seus dedos
fechando-se sobre o anel. “Eu estou ligado a ele. É estúpido, eu sei.”
“Você poderia ter dito, ou Alec poderia ter ficado—“
“Eu não pertenço ao resto de vocês”, ele disse abruptamente. ”Depois
do que eu fiz, eu não mereço iratzes e cura e abraços e ser consolado ou o
que quer que meus amigos vão pensar que eu preciso. Eu preferi ficar aqui
com ele.” Ele empurrou seu queixo em direção ao lugar onde o corpo imóvel
de Sebastian permanecia no caixão aberto, sobre seu pedestal de pedra.”E
certo como o inferno, eu não mereço você.”
Clary cruzou seus braços sobre seu peito. “Você alguma vez pensou
sobre o que eu mereço? Que talvez eu mereça a chance de falar com você
sobre o que aconteceu?”
Ele olhou para ela. Eles só estavam a alguns pés de distância, mas
parecia como se um inexprimível abismo colocava-se entre eles. “Eu não sei
o porquê você até mesmo olharia para mim, muito menos falar comigo.”
“Jace”, ela disse. “Aquelas coisas que você fez — não era você.”
Ele hesitou. O céu estava tão negro, as janelas iluminadas dos
arranha-céus próximos tão brilhantes, era como se eles estivessem no
centro de uma rede de jóias brilhantes. “Se não era eu”, ele disse, ”então
por que eu posso me lembrar de tudo o que fiz? Quando pessoas estão
possuídas, e voltam disso, elas não se lembram do que elas fizeram quando
o demônio as desabitou. Mas eu me lembro de tudo.” Ele se virou
abruptamente e se afastou, em direção a parede do jardim do telhado. Ela o
seguiu, feliz pela distância posta entre eles e o corpo de Sebastian, agora
escondido da visão pela fileira de cercas vivas.
“Jace!” ela chamou, e ele se virou, suas costas para a parede,
afundando contra ela. Atrás dele uma equivalente cidade iluminada a noite
como as torres demônio de Alicante. “Você se lembra do por que ela queria
que você se lembrasse”, Clary disse, o alcançando, um pouco sem fôlego.
“Ela fez isso para torturá-lo tanto quanto ela fez para Simon fazer o que ela
queria. Ela quis que você observasse a si mesmo machucar as pessoas que
você ama.”
“Eu estava observando”, ele disse em uma voz baixa. ”Era como se
parte de mim estivesse fora a distância, observando e gritando para eu
parar. Mas o resto
de mim sentia-se completamente em paz e como se o que eu estivesse
fazendo fosse certo. Como fosse a única coisa que eu poderia fazer. Eu me
pergunto se isso era como Valentine se sentia sobre tudo que ele fazia.
Como fosse tão fácil estar certo.” Ele olhou para longe dela. “Eu não posso
suportar”, ele disse.”Você não deveria estar aqui comigo. Você deveria ir.”
Ao invés de sair, Clary se moveu para ficar ao lado dele contra a
parede. Seus braços já estavam envolvidos ao redor de si mesma; ela
estava tremendo. Finalmente, relutantemente, ele virou sua cabeça para
olhar para ela de novo. ”Clary...”
“Você não tem que decidir”, ela disse, “aonde eu vou, e quando.”
“Eu sei.” A voz dele estava rouca. ”Eu sempre soube disso sobre
você. Eu não sei por que eu tinha que me apaixonar por alguém que é mais
teimosa do que eu.”
Clary ficou em silêncio por um momento. Seu coração tinha se
contraído com aquelas duas palavras — “me apaixonar.” “Todas aquelas
coisas que você disse para mim”, ela disse em um quase sussurro, ”no
terraço no Ironworks — você as quis dizê-las?”
Seus olhos dourados apagaram. ”Que coisas?”
Que você me amava, ela quase disse, mas pensou bem — ele não
tinha dito aquilo, disse? Não as palavras em si. A implicação tinha estado lá.
E a verdade do fato, que eles se amavam um ao outro, era algo que ela
sabia tão claramente quando ela sabia seu próprio nome.
“Você me perguntou se eu te amaria se você fosse como Sebastian,
como Valentine.”
“E você então disse que não seria eu. Olhe como errado isso acabou
por ser.” Ele disse, a amargura colorindo sua voz. “O que eu fiz hoje a
noite—“
Clary se moveu em direção a ele; ele ficou rígido, mas não se
afastou. Ela segurou a frente de sua camisa, inclinou-se para mais perto, e
disse, pronunciando claramente cada palavra. ”Aquele não era você.”
“Diga isso para sua mãe”, ele disse. ”Diga isso para Luke, quando
eles perguntarem de onde veio isso.” Ele tocou sua clavícula gentilmente; a
ferida estava curada agora, mas sua pele, e o tecido de seu vestido,
estavam ainda manchados escuros com sangue.
“Eu direi a eles”, ela disse, ”direi a eles que foi minha culpa.”
Ele olhou para ela, olhos dourados incrédulos. ”Você não pode mentir
para eles.”
“Eu não. Eu trouxe você de volta”, ela disse. ”Vocês estava morto, e
eu o trouxe de volta. Eu atrapalhei o equilíbrio, não você. Eu abri a porta
para Lilith e seu estúpido ritual. Eu poderia ter pedido por qualquer coisa, e
eu pedi você.” Ela firmou o aperto em sua camiseta, seus dedos brancos
com o frio e a pressão. “E eu faria isso de novo. Eu te amo, Jace Wayland —
Herondale — Lightwood — o que quer que você queira se chamar. Eu não
me importo. Eu te amo e sempre amarei você, e fingir que poderia ser de
algum outro modo é apenas perda de tempo.”
Um olhar de grande dor passou em seu rosto que Clary sentiu seu
coração apertar. Então ele tomou seu rosto entre suas mãos. Suas palmas
eram quentes contra suas bochechas.
“Lembra-se quando eu disse a você”, ele disse, sua voz tão suave
quanto ela havia escutado, “que eu não sabia se havia um Deus ou não,
mas de qualquer forma, nós estávamos completamente por nossa conta? Eu
ainda não sei a resposta, eu só sei que havia uma coisa como fé, e que eu
não merecia tê-la. E então havia você. Você mudou tudo o que eu
acreditava. Você sabe aquele verso de Dante que eu citei para você no
parque? L’amor Che move Il sole e l’altre stelle’?”
Seus lábios se curvaram um pouco nos lados enquanto ela o olhava.
”Eu ainda não sei falar italiano?”
“É um pedaço do último verso de Paradiso — o Paraíso de Dante.
‘Minha vontade e meu desejo mudaram pelo amor, o amor que move o sol e
as outras estrelas.’ Dante estava tentando explicar a fé, eu acho, como um
amor dominante, e talvez ele é blasfemo, mas isso é como eu acho que eu
te amo. Você entrou em minha vida e de repente eu tinha uma verdade
para me firmar — que eu te amava e você me amava.”
Embora ele parecesse olhar para ela, seu olhar estava distante, como
se fixo em algo distante.
“Então eu comecei a ter esses sonhos”, ele continuou. ”E eu achei
que talvez eu estivesse errado. Que não te merecia. Que eu não merecia
estar
perfeitamente feliz — quero dizer, Deus, quem merece isso? E depois desta
noite—“
“Pare”, ela tinha agarrado sua camisa; ela afrouxou seu aperto agora,
espalmando suas mãos contra seu peito. Seu coração estava acelerando
sob as pontas dos dedos dela, as bochechas dele coraram; e não apenas
pelo frio. “Jace. Embora tudo que aconteceu hoje à noite, eu sabia de uma
coisa. Que não era você me machucando. Não era você fazendo aquelas
coisas. Eu tenho uma absoluta certeza incontestável que você é bom. E isso
nunca mudará.”
Jace tomou um fôlego estremecido profundo. “Eu nem sei como
tentar merecer isso.”
“Você não tem. Eu tenho fé o suficiente em você”, ela disse. “Para
nós dois.”
As mãos deles deslizaram em seu cabelo. A névoa da respiração
exalada cresceu entre eles, uma nuvem branca. “Eu senti tanto sua falta”,
ele disse, e a beijou, sua boca gentil sobre a dela, não desesperada ou
faminta do modo que tinha sido das últimas vezes que ele a tinha beijado,
mas familiar e terna e suave.
Ela fechou seus olhos enquanto o mundo pareceu girar em torno
deles como um cata-vento. Deslizando suas mãos em seu peito, ela se
esticou acima o máximo que ela podia, envolvendo seus braços em torno de
seu pescoço, levantando-se nas pontas dos dedos para encontrar sua boca
com a dele. Os dedos dele correram em seu corpo, sobre sua pele e seda, e
ela estremeceu, inclinando-se nele, e ela tinha certeza que ambos tinham
gosto de sangue e cinzas e sal, mas isso não importava; o mundo, a cidade,
e todas as suas luzes e vida pareceram ter encolhido para isso, apenas ela e
Jace, o coração ardendo de um mundo congelado.
Ele se afastou primeiro, relutantemente. Ela percebeu o porquê um
momento depois. O som de buzinas de carro e pneus derrapando na rua
abaixo era audível, mesmo aqui em cima. “A Clave”, ele disse resignado —
embora ele tivesse limpado sua garganta para por as palavras para fora,
Clary ficou satisfeita em ouvir. Seu rosto ruborizado, como ela imaginou
que o dela estava. ”Eles estão aqui.”
Com suas mãos nas dele Clary viu, por sobre a beira da parede do
telhado, que uma quantidade de carros pretos tinha se encostado de frente
ao andaime.
Pessoas se juntando. Era difícil reconhecê-los a esta altura, mas Clary
pensou ter visto Maryse, e várias outras usando vestimentas de combate.
Um momento depois a caminhonete de Luke rugiu no meio fio e Jocelyn
saltou. Clary saberia que era ela, só pelo modo que ela se movia, a uma
maior distância do que desta.
Clary se virou para Jace. “Minha mãe”, ela disse, ”é melhor eu
descer. Eu não quero que ela venha aqui em cima e veja — e veja ele.” Ela
empurrou seu queixo em direção ao caixão de Sebastian.
Ele retirou seu cabelo para trás de seu rosto. “Eu não quero deixar
você longe das minhas vistas.”
“Então, venha comigo.”
“Não. Alguém deve ficar aqui em cima.” Ele tomou sua mão, a virou e
soltou o anel de Morgenstern nela, a corrente se unindo como metal líquido.
O fecho tinha se dobrado quando ela a arrancou, mas ele tinha conseguido
empurrá-lo de volta na forma. “Por favor, pegue-o.”
Seus olhos lançaram-se abaixo, e então, incertos, voltaram ao seu
rosto. “Eu queria entender o que ele significou para você.”
Ele deu de ombros levemente. ”Eu o usei por uma década”, ele disse.
“Uma parte de mim está nele. Isso quer dizer que eu confio em você com
meu passado e todos os segredos que o passado carrega. E além do mais—
“ ligeiramente ele tocou uma das estrelas esculpidas em torno do arco— “’o
amor que move o sol e todas as outras estrelas.’ Aparenta que este é o quê
as estrelas simbolizam, não Morgenstern.”
Em resposta ela soltou a corrente sobre sua cabeça, deixando o anel
se assentar no seu lugar de costume, sob sua clavícula. Ele pareceu como
uma peça de quebra-cabeças encaixando no lugar. Por um momento os
olhos deles se prenderam em comunicação muda, de algum modo, mais
intensa do que o contato físico que tinham tido; ela segurou a imagem dele
em sua mente nesse momento como se ela estivesse a memorizando — o
cabelo dourado emaranhado, as sombras lançadas pelos seus cílios, os
anéis de dourado mais escuros dentro da luz âmbar de seus olhos. ”Eu
voltarei logo”, ela disse. Ela apertou sua mão. “Cinco minutos.”
“Vá”, ele disse rouco, soltando sua mão, e ela se virou e foi de volta
no caminho. No momento que ela se afastou dele, ela estava fria de novo, e
no
momento que ela alcançou as portas do prédio, ela estava congelando. Ela
parou enquanto abria a porta, e olhou de volta para ele, mas ele era apenas
uma sombra, emoldurada pelo brilho do horizonte de Nova York. O amor
que move o sol e todas as estrelas, ela pensou, e então, como se em um
eco em resposta, ela ouviu as palavras de Lilith. O tipo de amor que arde o
mundo ou o eleva em glória. Um arrepio passou por ela, e não apenas vindo
do frio. Ela olhou para Jace, mas ele tinha desaparecido nas sombras; ela se
virou e foi para dentro, a porta deslizando fechada atrás dela.
????
Alec se foi escadas acima para procurar por Jordan e Maia, e Simon e
Isabelle estavam sozinhos, juntos; sentados lado a lado sobre a
espreguiçadeira verde do saguão. Isabelle segurava a pedra enfeitiçada de
Alec em sua mão, iluminando a sala com um brilho quase espectral, faíscas
dançando partículas de fogo do candelabro.
Ela tinha dito muito pouco desde que seu irmão os tinha deixado
juntos. Sua cabeça estava curvada, seu cabelo escuro caindo a frente, seu
olhar em suas mãos. Elas eram mãos delicadas, dedos longos, mas com
calos como os de seu irmão tinham. Simon nunca tinha notado antes, mas
ela usava um anel de prata em sua mão direita, com um padrão de chamas
em torno do arco dele, e um L esculpido no centro. Lembrou a ele o anel
que Clary usava ao redor de seu pescoço, com seus desenhos de estrelas.
“Ele é o anel da família Lightwood”, ela disse, percebendo onde seu
olhar estava preso. “Todas as famílias tem um emblema. O nosso é o
fogo.”
Combina com você, ele pensou. Izzy era como o fogo, em seu
flamejante vestido escarlate, com seu humor tão inconstante como faíscas.
No telhado ele quase pensou que ela o estrangularia, seus braços em torno
de seu pescoço enquanto ela o chamava de cada nome sob o sol, enquanto
o agarrava como se ela nunca o deixasse ir. Agora ela estava olhando a
distância, tão intocável quanto uma estrela. Era tudo muito desconcertante.
Então você os ama, Camille tinha dito, seus amigos Caçadores de
Sombras. Como o falcão ama o mestre que prende e os cega.
“O que você nos disse”, ele disse, um pouco hesitante, observando
Isabelle girar um fio de seu cabelo ao redor de seu indicador, “— lá em cima
no telhado — que você não sabia que Clary e Jace estavam faltando, que
você veio aqui por mim — era verdade?”
Isabelle olhou para cima enfiando seu fio de cabelo atrás de sua
orelha. “É claro que é verdade”, ela disse indignada. ”Quando nós vimos
que você se foi da festa — e você esteve em perigo por dias, Simon, e com
a fuga de Camille—“ ela se deteve um pouco. ”E a responsabilidade de
Jordan por você. Ele estava surtando.”
“Então foi ideia dele vir procurar por mim?”
Isabelle virou-se para olhar para ele por um longo momento. Seus
olhos eram insondáveis e escuros. “Fui eu quem notou que você se foi”, ela
disse. ”Fui eu que quis te encontrar.”
Simon limpou sua garganta. Ele se sentiu estranhamente tonto. ”Mas
por quê? Eu pensei que agora você me odiasse.”
Foi a coisa errada a se dizer. Isabelle sacudiu sua cabeça, seu cabelo
escuro voando, e se afastou um pouco dele na espreguiçadeira. “Ah, Simon.
Não seja obtuso.”
“Iz.” Ele se estendeu e tocou seu pulso, hesitantemente. Ela não se
afastou, apenas o observou. “Camille disse algo para mim no Santuário. Ela
disse que os Caçadores de Sombras não se importavam com Habitantes do
Submundo, apenas os usava. Ela disse que os Nephilim nunca fariam nada
por mim, que eu fizesse por eles. Mas você fez. Você veio por mim. Você
veio por mim.”
“É claro que eu vim“, ela disse, em uma voz um pouco abafada.
“Quando eu pensei que algo tinha acontecido a você—“
Ele se inclinou em direção a ela. Seus rostos estavam a centímetros
um do outro. Ele podia ver as faíscas refletidas do candelabro em seus
olhos negros. Seus lábios estavam repartidos, e Simon podia sentir o calor
de sua respiração. Pela primeira vez desde que ele tinha se tornado um
vampiro, ele podia sentir calor, como uma carga elétrica passando entre
eles. ”Isabelle”, ele disse. Não Iz, não Izzy. Isabelle. “Eu posso—“
O elevador sibilou, as portas se abriram, e Alec, Maia, e Jordan
saíram. Alec olhou com suspeita para Simon e Isabelle enquanto eles
recuavam, mas
antes que ele pudesse dizer alguma coisa, as portas duplas do saguão se
arremessaram, e Caçadores de Sombras se derramaram no salão. Simon
reconheceu Kadir e Maryse, que imediatamente atravessaram a sala até
Isabelle e a pegaram pelos ombros exigindo saber o que havia acontecido.
Simon ficou de pé e se afastou, sentindo-se desconfortável — e quase
colidiu com Magnus, se apressando pela sala até Alec. Ele não pareceu ver
Simon de modo algum. Depois disso, em cem, duzentos anos, será apenas
você e eu. Nós seremos tudo que resta, Magnus disse para ele no
Santuário. Sentindo-se indizivelmente sozinho entre a multidão de
Caçadores de Sombras, Simon se pressionou contra a parede na vã
esperança que ele não seria notado.
Alec olhou acima quando Magnus o alcançou, o segurou e o puxou
para perto. Seus dedos traçando o rosto de Alec como se checando por
contusões e danos; sob sua respiração, ele estava murmurando, ”Como
você pôde — sair desse jeito e nem mesmo me falar — eu poderia ter te
ajudado.”
“Pare.” Alec se afastou, sentindo-se rebelde.
Magnus se conteve, sua voz solene. “Me desculpe”, ele disse. “Eu não
deveria ter deixado a festa. Eu deveria ter ficado com você. Aliás, Camille
se foi. Ninguém tem a menor ideia de onde ela foi, e já que vocês não
podem rastrear vampiros...” Ele deu de ombros.
Alec afastou a imagem de Camille em sua mente, acorrentada à
tubulação, olhando para ele com aqueles olhos verdes impetuosos. “Não
importa”, ele disse. “Ela não importa. Eu sei que você estava tentando me
ajudar. Aliás, eu não estou zangado com você por ter deixado a festa.”
“Mas você estava zangado”, Magnus disse. “Eu sei que estava. Esse é
o porquê de eu estar tão preocupado. Saindo e se pondo em perigo só por
que você está zangado comigo—“
“Eu sou um Caçador de Sombras”, Alec disse. “Magnus, isso é o que
eu faço. Não é sobre você. Da próxima vez se apaixone por um avaliador de
seguros ou—“
“Alexander”, Magnus disse. “Não vai haver uma próxima vez.” Ele
inclinou sua testa contra a de Simon, olhos verdes dourados olhando para o
azul.
O coração de Alec acelerou. “Por que não?”, ele disse. “Você vive
para sempre. Nem todo mundo vive.”
“Eu sei que eu disse isso”, Magnus disse. “Mas, Alexander—“
“Pare de me chamar assim”, Alec disse. “Alexander é como meus pais
me chamam. E acho que é muito prematuro você ter aceitado minha
mortalidade tão fatalisticamente — todo mundo morre, blah, blah — mas
como você acha que me faz sentir? Casais comuns podem ter esperança —
esperança de envelhecerem juntos, esperança de viverem longas vidas e
morrerem ao mesmo tempo, mas não podemos esperar por isso. Eu nem
mesmo sei o que é que você quer.”
Alec não estava certo do que ele tinha esperado em resposta — raiva
ou defensiva ou até mesmo humor — mas a voz de Magnus apenas baixou,
falhando ligeiramente quanto ele disse, “Alex — Alec. Se eu dei a você a
impressão que eu tinha aceitado a ideia de sua morte, eu posso apenas me
desculpar. Eu tentei, eu pensei que eu tinha — e ainda imaginei ter você
por cinquenta, sessenta anos mais. Eu pensei que poderia estar pronto
então para deixá-lo ir. Mas é você, e eu percebi agora que eu não estarei
nem um pouco mais pronto para perder você do que eu estou agora.” Ele
pôs suas mãos gentilmente de cada lado do rosto de Alec. “Que é não de
forma alguma.”
“Então o que nós fazemos?” Alec sussurrou.
Magnus deu de ombros, e sorriu de repente, com seu cabelo preto
bagunçado, e o brilho em seus olhos verdes dourados, ele parecia como um
adolescente levado. “O que todo mundo faz”, ele respondeu. “Como você
disse. Esperança.”
Alec e Magnus tinham começado a se beijar no canto da sala, e
Simon não estava muito certo para onde olhar. Ele não queria que eles
pensassem que ele estava olhando para eles no que era, claramente, um
momento particular, mas para onde quer que ele olhasse, ele encontrava os
olhos encarando dos Caçadores de Sombras. Apesar do fato que ele tinha
lutado com eles no banco contra Camille, nenhum deles olhava para ele
com particular amabilidade. Uma coisa era Isabelle aceitá-lo e preocupar-se
com ele, mas Caçadores de Sombras era outra coisa inteiramente diferente.
Ele podia dizer o que eles estavam pensando. “Vampiro, Ser do Submundo,
inimigo” estava escrito em todos seus rostos. Foi como alívio quando as
portas se abriram e Jocelyn veio voando, ainda usando seu vestido azul da
festa. Luke estava a apenas poucos passos atrás dela.
“Simon!”, ela exclamou tão logo o avistou. Ela correu até ele, e para
sua surpresa o abraçou impetuosamente antes de soltá-lo. “Simon, onde
Clary está? Ela está—“
Simon abriu sua boca, mas nenhum som veio. Como ele poderia
explicar para Jocelyn, de todas as pessoas, o que aconteceu esta noite?
Jocelyn, que estaria horrorizada ao saber o tanto da maldade de Lilith, as
crianças que ela tinha assassinado, o sangue que ela tinha derramado, tudo
tinha sido no propósito de fazer mais criaturas como o próprio filho falecido
de Jocelyn, cujo corpo jazia agora no topo do telhado onde Clary estava
com Jace?
Não posso dizer nada disso, ele pensou. Não posso. Ele olhou atrás
dela, para Luke, cujos olhos azuis descansava nele com expectativa. Atrás
da família de Clary ele podia ver os Caçadores de Sombras se juntando em
torno de Isabelle enquanto ela, provavelmente, recontava os eventos da
noite.
“Eu—”, ele começou impotente, e então as portas do elevador se
abriram de novo, e Clary saiu. Seus sapatos se foram, seu adorável vestido
de seda em trapos ensangüentados, contusões já desaparecendo em seus
braços e pernas. Mas ela estava sorrindo — até mesmo radiante, mais feliz
do que Simon tinha a visto parecer a semanas.
“Mãe!”, ela exclamou, e então Jocelyn voou até ela e a estava
abraçando. Clary sorriu para Simon sobre o ombro de sua mãe. Simon
olhou em torno da sala. Alec e Magnus ainda estavam envolvidos um com o
outro, e Maia e Jordan tinham desaparecido. Isabelle ainda estava cercada
de Caçadores de Sombras, e Simon podia ouvir os arfares de horror e
surpresa aumentarem do grupo a cercando, enquanto ela recontava a
história. Ele suspeitou que alguma parte dela estava se divertindo com isso.
Isabelle adorava ser o centro das atenções, não importava qual a razão.
Ele sentiu uma mão descer sobre seu ombro. Era Luke. “Você está
bem, Simon?”
Simon olhou para ele. Luke parecia como ele sempre o era, sólido,
professoral, totalmente de confiança. Nem mesmo o mínimo apagava que
sua festa de noivado tivesse sido interrompida por uma dramática
emergência súbita.
O pai de Simon tinha morrido há tanto tempo atrás, que ele mal se
lembrava dele. Rebecca lembrava partes sobre ele — que ele tinha uma
barba, e a ajudava a construir elaboradas torres de blocos — mas Simon
não. Era uma das coisas que ele sempre pensou que tinha em comum com
Clary, que tinha os ligado; ambos com pais falecidos, ambos criados por
mães solteiras fortes.
Bem, pelo menos uma daquelas coisas tinha se tornado verdade,
Simon pensou. Embora sua mãe namorasse, ele nunca teve uma presença
paterna consistente em sua vida, além de Luke. Ele achava que de certo
modo, ele e Clary dividiam Luke. E o bando de lobisomens procuravam Luke
por orientação, também. Para um solteirão que nunca teve filhos, Simon
pensou, Luke tinha uma admirável quantidade de crianças para cuidar.
“Eu não sei”, Simon disse, dando a Luke a resposta honesta que ele
gostaria de ter dado a seu próprio pai. “Acho que não.”
Luke virou Simon para encará-lo. “Você está coberto de sangue”, ele
disse. ”E aposto que não é seu, por que...” Ele gesticulou em direção a
Marca na testa de Simon. “Mas ei“, sua voz era gentil. “Mesmo coberto de
sangue e com a Marca de Caim, você ainda é Simon. Pode me contar o que
aconteceu?”
“Não é meu sangue, você está certo”, Simon disse rouco. “Mas é
meio que também uma longa história.” Ele inclinou sua cabeça para trás
para olhar para Luke; ele sempre se perguntou se ele teria outra espichada
algum dia, crescer mais alguns centímetros além dos 1.75 metros que tinha
agora, ser capaz de olhar para Luke — sem mencionar Jace — direto nos
olhos. Mas agora isso nunca aconteceria. “Luke”, ele disse. “Você acha que
é possível fazer algo tão ruim, mesmo que você não quisesse fazê-lo, que
você nunca pode voltar atrás? Que ninguém pode te perdoar?”
Luke olhou para ele por um longo e silencioso momento. Então disse,
“Pense em alguém que você ame, Simon. Ame de verdade. Há alguma coisa
que eles poderiam fazer que significaria que você pararia de amá-los?”
Imagens saltaram através da mente de Simon, como páginas de uma
sequência animada de quadros cinematográficos. Clary, virando para sorrir
para ele, sua irmã o beliscando quando ele era só um bebê; sua mãe,
dormindo no sofá com a coberta puxada em seus ombros; Izzy— Simon
excluiu os pensamentos apressadamente. Clary não tinha feito nada de tão
terrível que ele precisasse dispensar perdão para ela; nenhuma das pessoas
que ele estava pensando tinha. Ele pensou em Clary, perdoando sua mãe
por ter roubado suas memórias. Ele pensou em Jace, o que ele tinha feito
no telhado, como ele parecera depois. Ele fez o que ele fez sem sua própria
escolha, mas Simon duvidava que Jace fosse capaz de perdoar a si mesmo,
levando em conta. E então ele pensou em Jordan — não perdoando a si
mesmo pelo o que tinha feito a Maia, mas, de qualquer modo, seguindo em
frente, se juntando ao Praetor Lupus, fazendo uma vida de ajudar aos
outros.
“Eu mordi alguém”, ele disse. As palavras saltaram de sua boca, e ele
desejou que pudesse as engolir de volta. Ele se preparou para o olhar de
horror de Luke, mas ele não veio.
“Sobreviveu?” Luke disse. “Essa pessoa que você mordeu. Ela
sobreviveu?”
“Eu—“ Como explicar sobre Maureen? Lilith tinha ordenado a ela algo,
mas Simon tinha certeza que eles não tinham visto o fim dela. ”Eu não a
matei.”
Luke concordou de pronto. “Você sabe como lobisomens se tornam
líderes de bando”, ele disse. ”Eles tem que matar o antigo líder do bando.
Eu o fiz duas vezes. Eu tenho cicatrizes para provar.” Ele puxou
ligeiramente a gola de sua blusa para o lado, e Simon viu a beirada de uma
grosseira cicatriz branca que parecia imperfeita, como se o peito dele
tivesse sido arranhado. “A segunda vez foi intencional. Matar a sangue-frio.
Eu quis me tornar o líder, e assim foi como eu fiz.” Ele deu de ombros.
“Você é um vampiro. Está em sua natureza querer beber sangue. Você se
segurou por um longo tempo sem o fazer. Eu sei que você pode andar sob o
sol, Simon, e seu orgulho em ser um garoto humano normal, mas você
ainda é o que é. Como eu sou. Quanto mais que você tenta subjugar sua
verdadeira natureza, mais ela te controlará. Seja o que você é. Ninguém
que realmente ama você irá impedi-lo.”
Simon disse rouco. “Minha mãe—“
“Clary me disse o que aconteceu com sua mãe, e que você tem ficado
com Jordan Kyle”, Luke disse. “Olha, sua mãe mudará de ideia, Simon.
Como Amatis, comigo. Você ainda é o filho dela. Eu falarei com ela, se você
quiser.”
Simon sacudiu sua cabeça silenciosamente. Sua mãe sempre gostara
de Luke. Lidar com o fato que Luke era um lobisomem provavelmente
tornaria as coisas piores, não melhores.
Luke assentiu como se ele compreendesse. “Se você não quiser voltar
para a casa do Jordan, você é mais do que bem vindo para ficar no meu
sofá hoje à
noite. Tenho certeza que Clary ficará feliz em ter você por perto, e nós
podemos conversar sobre o que você quer fazer sobre sua mãe amanhã.”
Simon endireitou os ombros. Ele olhou para Isabelle do outro lado da
sala, o lampejo de seu chicote, o brilho do pingente em sua garganta, o
menear de suas mãos enquanto ela falava. Isabelle, que não tinha medo de
nada. Ele pensou em sua mãe, o modo que ela tinha se afastado dele, o
medo em seus olhos. Ele tinha estado se escondendo dessa lembrança,
fugindo dela, desde então. Mas era a hora de parar de fugir. “Não”, ele
disse. ”Obrigado, mas eu acho que não preciso de um lugar para passar
hoje a noite. Acho... que vou voltar para casa.”
????
Jace ficou sozinho no telhado, olhando acima a cidade, o East River
uma cobra negra prateada serpenteando entre Brooklyn e Manhattan. Suas
mãos, seus lábios, ainda quentes do toque de Clary, mas o vento no rio era
gelado, e o calor estava apagando rápido. Sem uma jaqueta o ar cortava
através do material fino de sua camisa, como a lâmina de uma faca.
Ele puxou um profundo fôlego, sugando o ar frio para seus pulmões,
e o soltou lentamente. Seu corpo inteiro sentia-se tenso. Ele estava
esperando pelo som do elevador, as portas se abrindo, os Caçadores de
Sombras inundando o jardim. Eles seriam primeiro solidários, ele pensou,
preocupados sobre ele. Então, quando eles entendessem o que tinha
acontecido — então viria o modo desconfiado, os olhares significativos
trocados quando pensassem que ele não estava olhando. Ele tinha sido
possuído — não só por um demônio, mas um Demônio Maior — tinha agido
contra a Clave, tinha ameaçado e machucado outro Caçador de Sombras.
Ele pensou em como Jocelyn olharia para ele quando escutasse o que
ele tinha feito a Clary. Luke poderia entender, perdoar. Mas Jocelyn. Ele
nunca tinha sido capaz de falar para ela honestamente, dizer as palavras
que poderiam tranquilizá-la. Eu amo sua filha, mas do que eu mesmo
pensei que fosse possível amar qualquer coisa. Eu nunca iria machucá-la.
Ela apenas olharia para ele, ele pensou, com aqueles olhos verdes que eram
tão iguais ao de Clary. Ela iria querer mais do que isso. Ela iria querer ouvi-
lo dizer que ele não tinha certeza que falava a verdade.
Eu não sou como Valentine.
Não é? As palavras pareceram carregadas no ar frio, um sussurro
apenas para seus ouvidos. Você nunca conheceu sua mãe. Você nunca
conheceu seu pai. Você deu seu coração a Valentine quando era uma
criança, como as crianças fazem, e você fez a si mesmo uma parte dele.
Você não pode tirar isso de si mesmo com um corte limpo de uma lâmina.
Sua mão esquerda estava fria. Ele olhou abaixo e viu, para seu
choque, que de algum modo ele tinha pegado o punhal — o punhal de prata
gravada de seu verdadeiro pai — e o estava segurando em sua mão. A
lâmina, embora corroída pelo sangue de Lilith, estava sem danos agora, e
brilhava como uma promessa. Um frio, que não tinha nada haver com o
tempo, começou a se espalhar através do seu peito. Quantas vezes ele
tinha acordado daquela maneira, arfando e suando, o punhal em sua mão?
E Clary, sempre Clary, morta aos seus pés.
Mas Lilith estava morta. Acabou. Ele tentou deslizar o punhal em seu
cinto, mas sua mão não parecia querer obedecer ao comando que sua
mente estava dando. Ele sentiu uma sensação de ferroadas de calor em seu
peito, uma dor ardente. Olhando abaixo, ele viu que a fina linha de sangue
que tinha dividido a marca de Lilith ao meio, onde Clary tinha cortado com a
faca, tinha curado. A marca brilhava avermelhada contra seu peito.
Jace parou de tentar enfiar o punhal em seu cinto. Os nós de seus
dedos tornaram-se brancos enquanto sua contenção apertava-se sobre o
cabo, seu pulso girou, desesperadamente tentando virar a lâmina sobre si
mesmo. Seu coração estava martelando. Ele não tinha aceitado as iratzes.
Como a marca tinha curado tão rápido? Se ele pudesse cortá-la de novo,
desfigurá-la, mesmo temporariamente—
Mas sua mão não o obedeceria. Seu braço ficou imóvel em seu lado
como seu corpo se tornou, contra sua própria vontade, em direção ao
pedestal onde o corpo de Sebastian repousava.
O caixão tinha começado a brilhar, com uma nuvem de luz
esverdeada — quase o brilho de uma luz encantada, mas havia algo de
doloroso sobre esta luz, algo que parecia penetrar nos olhos. Jace tentou
dar um passo para trás, mas suas pernas não se moviam. Suor gelado
gotejou em suas costas. Uma voz sussurrou em sua mente.
Venha aqui.
Era a voz de Sebastian.
Você acha que está livre por que Lilith se foi? A mordida do vampiro
me acordou; agora o sangue dela em minhas veias o impele.
Venha aqui.
Jace tentou afundar seus calcanhares, mas seu corpo o traiu, o
carregando a frente, embora sua mente consciente esforçasse contra isso.
Mesmo quando ele tentou vacilar, seus pés moveram-se a frente no
caminho, em direção ao caixão. O círculo pintado brilhou verde enquanto
ele se movia através dele, e o caixão pareceu responder com um segundo
flash de luz esmeralda, E então ele está em pé a frente dele, olhando
abaixo.
Jace mordeu forte seu lábio, esperando que a dor pudesse tirá-lo do
estado de sonho que ele estava. Não funcionou. Ele sentiu o gosto de seu
próprio sangue enquanto ele olhava para Sebastian, que flutuava como um
corpo afogado na água. Aquelas são as pérolas que são seus olhos. Seus
cabelos eram algas incolores, seus cílios fechados azuis. Sua boca tinha um
conjunto frio e rígido da boca de seu pai. Era como olhar para um jovem
Valentine.
Sem sua vontade, absolutamente contra sua vontade, as mãos de
Jace começaram a levantar. Sua mão esquerda permaneceu na ponta de
seu punhal contra o lado de dentro de sua palma direita, onde as linhas de
vida e amor cruzavam uma na outra.
Palavras se derramaram de seus lábios. Ele as escutou como se
vindas de uma distância imersa. Elas não eram em uma língua que ele
conhecia ou entendia, mas ele sabia o que elas eram — ritual de invocação.
Sua mente estava gritando para seu corpo parar, mas isso pareceu não
fazer diferença. Sua mão esquerda veio abaixo, a faca apertada nela. A
lâmina fatiou um raso corte, limpo, certo através de sua palma direita.
Quase instantaneamente ela começou a sangrar. Ele tentou puxar de volta,
tentou empurrar seu braço para longe, mas era como se ele tivesse preso
em cimento. Enquanto ele observava com horror, as primeiras gotas de
sangue espalharam-se sobre o rosto de Sebastian.
Os olhos de Sebastian se abriram. Eles eram negros, mais negros do
que os de Valentine, tão negros quanto os da demônio que tinha chamado a
si mesma
de sua mãe. Eles se fixaram sobre Jace, como grandes espelhos negros,
dando a ele de volta sua própria face, retorcida e irreconhecível, sua boca
formando as palavras do ritual, derramando em seguida em um balbuciar
sem sentido como um rio de água negra.
O sangue estava fluindo mais livremente agora, tornando o nebuloso
líquido dentro do caixão um vermelho mais escuro. Sebastian se moveu. A
água ensanguentada deslocou e derramou enquanto ele se sentava, seus
olhos negros fixos em Jace.
A segunda parte do ritual. A voz dele falou dentro da cabeça de Jace.
Ele está quase completo.
Água escoou dele como lágrimas. Seu cabelo pálido, emplastrado em
sua testa, parecia não ter cor. Ele levantou uma mão e a estendeu, e Jace,
contra o grito dentro de sua mente, estendeu o punhal, lâmina a frente.
Sebastian deslizou sua mão ao longo do comprimento da fria e afiada
lâmina. Sangue brotou em uma linha através de sua palma. Ele atirou a
faca de lado e tomou a mão de Jace, a apertando com sua própria.
Ela era a última coisa que Jace tinha esperado. Ele não podia se
mover para puxá-la. Ele sentiu cada dedo frio de Sebastian enquanto eles
envolviam sua mão, pressionando seus cortes juntos. Era com ser apertado
pelo metal frio. Gelo começou a se espalhar nas veias de sua mão. Um
tremor passou sobre ele, e então outro, poderosos tremores físicos tão
dolorosos, parecia como se seu corpo estivesse sendo virado ao avesso. Ele
tentou gritar—
E o grito morreu em sua garganta. Ele olhou abaixo para as mãos
dele e de Sebastian, apertadas juntas. Sangue corria através de seus dedos
e abaixo em seus pulsos, tão elegantes quanto renda vermelha. Ele brilhou
na fria luz elétrica da cidade. Se movia não como líquido, mas como fios
vermelhos em movimento. Ele envolvia suas mãos juntas em uma ligação
escarlate.
Uma peculiar sensação de paz assaltou Jace. O mundo pareceu
dissolver-se, e ele estava em pé sobre o pico de uma montanha, o mundo
se esticando diante dele, tudo nele seu, para o tomar. As luzes da cidade
em torno dele não eram mais elétricas, mas era a luz de milhares de
diamantes — como estrelas. Elas pareciam brilhar sob ele com seu
benevolente brilho que dizia, Isso é bom. Isso é correto. Isso é o que seu
pai teria desejado.
Ele viu Clary em sua mente, seu rosto pálido, o caimento de seu
cabelo ruivo, sua boca enquanto se movia, formando as palavras: Eu
voltarei. Cinco minutos.
E então a voz desapareceu enquanto outro falar sobrepujava ele, o
afogando. A imagem dela em sua mente regrediu, varrida suplicantemente
na escuridão, como Euridice tinha desaparecido quando Orfeu tinha se
virado para olhar para ela pela última vez. Ela a viu, seus braços brancos
estendendo-se a ele, e então as sombras se fecharam sobre ela e ela se foi.
Uma nova voz falou na mente de Jace agora, uma voz familiar, uma
odiada, agora estranhamente bem-vinda. A voz de Sebastian. Ela pareceu
vir através do sangue, através do sangue que passava pela mão de
Sebastian na dele, como uma corrente impetuosa.
Nós somos um agora, irmãozinho, você e eu, Sebastian disse.
Nós somos um.
FIM.
A série Instrumentos Mortais continua em City Of Lost Souls, que será
publicado em maio de 2012.
(se o mundo não tiver acabado até lá)
O INFERNO ESTÁ SATISFEITO
O BRILHO INIMAGINÁVEL IMPRESSO NAS COSTAS DAS pálpebras da
Clary apagou na escuridão. Uma surpreendente longa escuridão que se
rendeu lentamente para uma intermitente luz acinzentada com sombras.
Havia algo duro e frio pressionado em suas costas, e seu corpo inteiro doeu.
Ela ouviu o murmúrio de vozes acima dela, que enviou uma punhalada de
dor em sua cabeça. Alguém a tocou gentilmente na garganta, e a mão foi
removida. Ela puxou um fôlego.
Seu corpo inteiro estava latejante. Ela semicerrou seus olhos, e olhou
ao redor dela, tentando não se mover demais. Ela estava deitada nos
azulejos duros do jardim na cobertura, uma das pedras da calçada
escavando suas costas. Ela tinha caído no chão quando Lilith desapareceu,
e estava coberta de cortes e contusões, seus sapatos desapareceram, seus
joelhos estavam sangrando, e seu vestido estava fendido onde Lilith a
cortou com seu chicote mágico, sangue brotando através das rendas em
seu vestido de seda.
Simon estava ajoelhado sobre ela, seu rosto ansioso. A Marca de Caim
ainda brilhando embranquecida em sua testa. “O pulso dela está firme”, ele
estava dizendo, ”mas vamos lá. Vocês tem todas aquelas runas de cura.
Deve
haver algo que você possa fazer por ela—“
“Não sem uma estela. Lilith me fez jogar fora a estela da Clary, então
ela não poderia pegá-la de mim quando ela acordasse.” A voz de Jace,
baixa e tensa com angústia suprimida. Ele se ajoelhava do outro lado de
Simon, no outro lado dela, seu rosto na sombra. “Você pode carregá-la para
baixo? Se nós pudermos levá-la ao Instituto—“
“Você quer que eu a carregue?” Simon soou surpreso, Clary não o
culpava.
“Eu duvido que ela queira que eu a toque.“ Jace se levantou, como se ele
não pudesse suportar permanecer em um lugar. “Se você pudesse—“
Sua voz falhou, e ele se virou, olhando para o lugar onde Lilith tinha
estado até um momento atrás, um trecho vazio de pedra agora prateada
com moléculas espalhadas de sal. Clary escutou Simon suspirar — um som
deliberado — e ele se inclinou sobre ela, suas mãos em seus braços.
Ela abriu o restante de seus olhos, e seus olhares se encontraram.
Embora ela soubesse que ele notara que ela estava consciente, nenhum
deles disse qualquer coisa. Era difícil para ela olhá-lo, para o rosto familiar
com a marca que ela tinha dado a ele ardendo como uma estrela branca
acima de seus olhos.
Ela sabia, dando a ele a Marca de Caim, que ela estava fazendo algo
enorme, algo terrível e colossal cujo resultado era quase totalmente
imprevisível. Ela a teria dado de novo, para salvar a vida dele. Mas ainda
assim, enquanto ele esteve lá, a marca ardera como relâmpago branco
enquanto Lilith — um Demônio Maior tão velho quanto a humanidade —
reduziu-se a sal, ela pensou. O que eu fiz?
“Eu estou bem”, ela disse. Ela se levantou em seus cotovelos; eles
doeram horrivelmente. Em algum ponto ela aterrissou sobre eles e
arranhou toda a pele. “Eu posso caminhar muito bem.”
Ao som da voz dela, Jace se virou. A visão dele a dilacerou. Ele
estava chocantemente machucado e ensanguentado, um longo arranhão
correndo no comprimento de sua bochecha, seu lábio inferior inchado, e
uma dúzia de brechas ensanguentadas em suas roupas. Ela não estava
acostumava a vê-lo tão machucado — mas é claro, se ele não tinha uma
estela para curá-la, ele não teria uma para curar a si mesmo também.
A expressão dele estava completamente vazia. Mesmo Clary,
acostumada a ler seu rosto como se ela estivesse lendo as páginas de um
livro, não podia ler nada nele. O olhar dele caiu para sua garganta, onde ela
podia sentir a dor picando, o sangue incrustado lá onde a faca dele tinha a
cortado. O nada da sua expressão cedeu, e ele olhou para longe antes que
ela pudesse ver seu rosto mudar.
Afastando a oferta de Simon com uma mão, ela tentou levantar-se.
Uma dor ardente atravessou seu tornozelo, e ela gritou, então mordeu seu
lábio. Caçadores de Sombras não gritavam de dor. Eles a suportavam
estoicamente, ela lembrou a si mesma. Nada de choramingar.
“É meu tornozelo”, ela disse. “Acho que ele deve estar torcido, ou
quebrado.”
Jace olhou para Simon. “Carregue ela”, ele disse. “Como eu disse a você.”
Dessa vez Simon não esperou pela resposta da Clary; ele deslizou um
braço debaixo de seus joelhos e o outro debaixo de seus ombros e a
levantou; ela envolveu seus braços em torno de seu pescoço e o segurou
forte. Jace foi à frente em direção a cúpula e as portas que davam para
dentro. Simon seguiu, carregando Clary tão cuidadosamente como se ele
fosse porcelana quebrável. Clary quase tinha se esquecido do quão forte ele
era, agora que era um vampiro. Ele não mais cheirava como ele mesmo, ela
pensou, um pouco saudosa — Simon cheirava a sabonete e loção após
barba barata (o que ele realmente não precisava) e sua bala favorita de
canela. Seu cabelo ainda cheirava como seu shampoo, mas por outro ele
parecia não cheirar a nada, e sua pele onde ela tocava era fria. Ela apertou
seus braços em torno do seu pescoço, desejando que ele tivesse um corpo
um pouco quente. As pontas de seus dedos pareceram azuladas, e seus
corpo parecia dormente.
Jace, a frente deles, empurrou as portas duplas de vidro. Então eles
estavam dentro, onde era misericordiosamente um pouco mais quente. Era
estranho, Clary pensou, sendo segurada por alguém cujo peito não
levantava e caia enquanto eles respiravam. Uma estranha eletricidade ainda
parecia se agarrar a Simon, um remanescente da luz brutalmente brilhosa
que tinha envolvido o teto quando Lilith foi destruída. Ela queria perguntar
como ele estava se sentindo, mas o silêncio de Jace era tão
devastadoramente completo que ela sentiu medo de quebrá-lo.
Ele alcançou o botão do elevador, mas antes de seu dedo tocá-lo, as
portas se abriram por sua própria conta, e Isabelle pareceu quase explodir
diante deles, seu chicote prata dourado vindo atrás dela como a cauda de
um cometa, Alec a seguia, bem atrás de seus calcanhares; vendo Jace,
Clary e Simon lá, Isabelle derrapou em uma parada, Alec quase tropeçando
nela por trás. Sob outras circunstâncias isso teria sido quase engraçado.
“Mas—“ Isabelle arfou. Ela estava cortada e ensanguentada, seu lindo
vestido vermelho rasgado em torno de seus joelhos, seu cabelo preto vindo
abaixo, fora de seu penteado, fios dele emaranhados com sangue. Alec
parecia como se ele tivesse se saído um pouco melhor; uma manga de sua
jaqueta estava fatiada do lado, embora não parecesse como se a pele por
baixo tivesse sido ferida. “O que vocês estão fazendo aqui?”
Jace, Clary e Simon todos olharam para ela sem expressão, muito
chocados para responder. Finalmente Jace disse secamente. “Nós
poderíamos fazer a vocês a mesma pergunta.”
“Eu não — Nós pensávamos que você e Clary estivessem na festa”,
Isabelle disse, Clary raramente tinha visto Isabelle não tão senhora de si.
“Nós estávamos procurando por Simon.”
Clary sentiu o peito de Simon descer, um tipo de arfar humano em reflexo
pela surpresa. “Você estava?”
Isabelle corou. “Eu...”
“Jace?” Era Alec, seu tom comandando. Ele tinha dado a Clary e a
Simon um olhar atônito, mas então a atenção dele se foi, como sempre
fazia, para Jace. Ele podia não estar mais apaixonado por Jace, se ele
realmente tivesse sido, mas eles ainda eram parabatai, e Jace era sempre o
primeiro em sua mente em qualquer luta. “O que você está fazendo aqui? E
pelo amor do Anjo, o que aconteceu a você?”
Jace olhou para Alec, quase como se ele não o conhecesse. Ele
parecia com alguém em um pesadelo, examinando uma nova paisagem,
não por causa que ela fosse surpreendente ou dramática, mas para se
preparar para qualquer horror que ela poderia revelar. “Estela”, ele disse
finalmente, em uma voz rouca. “Você tem sua estela?”
Alec alcançou seu cinto, parecendo perplexo. “É claro.” Ele estendeu
a
estela para Jace. “Se você precisa de uma iratze—“
“Não para mim”, Jace disse, ainda na mesma estranha voz áspera.
“Ela.” Ele apontou para Clary. “Ela precisa disso mais do que eu.” Os olhos
deles encontraram o de Alec, dourado e azul. “Por favor, Alec”, ele disse, a
aspereza se foi de sua voz tão subitamente quanto ela veio. “Ajude-a por
mim.”
Ele se virou e caminhou, na direção mais distante da sala, onde as
portas de vidro estavam. Ele ficou lá, olhando através delas — para o
jardim lá fora ou para seu próprio reflexo, Clary não podia dizer.
Alec olhou para Jace por um momento, então veio em direção a Clary
e Simon, estela na mão. Ele indicou que Simon deveria baixar Clary ao
chão, o que ele fez gentilmente, deixando ela se apoiar contra a parede. Ele
se afastou enquanto Alec se ajoelhava perto dela. Ela podia ver a confusão
no rosto de Alec, e seu olhar de surpresa quando ele viu quão ruins os
cortes em seu braço e abdômen eram. “Quem fez isso a você?”
“Eu—“ Clary olhou desamparada em direção a Jace, que ainda estava
de costas para eles. Ela podia ver o reflexo dele nas portas de vidro, seu
rosto uma mancha branca, escurecida aqui e ali com hematomas. A frente
de sua camisa estava escura com sangue. “É difícil de explicar.”
“Por que você não nos chamou?” Isabelle exigiu, sua voz aguda com
a traição. “Por que você não nos disse que estava vindo para cá? Por que
não mandou uma mensagem de fogo ou qualquer coisa? Você sabe que nós
teríamos vindo se você precisasse de nós.”
“Não havia tempo”, Simon disse. “E eu não sabia que Clary e Jace
estavam vindo para cá. Eu pensei que era o único. Não parecia certo
arrastar você para meus problemas.”
“Ar — arrastar-me para seus problemas?” Isabelle balbuciou. “Você—
,“ ela começou — e então para a surpresa de todos, claramente incluindo
ela mesma, ela se jogou em Simon, envolvendo seus braços ao redor de
seu pescoço. Ele tropeçou para trás, despreparado pelo ataque, mas ele
recobrou rapidamente o suficiente. Seus braços a rodearam, quase se
atrapalhando no chicote pendendo, e ele a abraçou fortemente, a cabeça
escura dela debaixo de seu queixo, ela não podia dizer bem — Isabelle
estava falando muito suavemente — mas parecia como se ela estivesse
xingando Simon sob sua respiração.
As sobrancelhas de Alec se levantaram, mas ele não fez nenhum
comentário enquanto se inclinava sobre Clary, bloqueando sua visão de
Isabelle e Simon. Ele tocou a estela em sua pele, e ela pulou com a dor
aguda. “Eu sei que isso dói”, ele disse em voz baixa. “Acho que você bateu
sua cabeça. Magnus deveria dar uma olhada em você. O que há com Jace?
O quanto ele está machucado?”
“Eu não sei.” Clary sacudiu sua cabeça. “Ele não me quer perto dele.”
Alec colocou sua mão embaixo do queixo dela, virando seu rosto de
um lado para o outro, e rabiscou uma segunda iratze leve no lado da
garganta dela, bem abaixo da linha da mandíbula. “O que ele fez que pensa
que foi tão terrível?”
Clary lançou seus olhos em direção a ele. “O que faz você pensar que
ele fez alguma coisa?”
Alec soltou seu queixo. “Por que eu o conheço. E o modo que ele se
pune. Não deixar você próxima a ele é punir a si mesmo, não punir você.”
“Ele não me quer perto dele.” Clary disse, ouvindo a rebelião em sua
própria voz e se odiando por estar sendo mesquinha.
“Você é tudo o que ele quer”, Alec disse em um tom
surpreendentemente gentil, e ele se sentou em seus calcanhares,
empurrando seu longo cabelo preto de seus olhos. Havia algo de diferente
acerca dele ultimamente, Clary pensou, uma segurança sobre si mesmo que
não tinha estado lá quando ela o tinha conhecido primeiro, algo que
permitia ele ser generoso com os outros, quando ele nunca tinha sido
generoso com ele mesmo antes. “Aliás. como vocês dois acabaram aqui?
Nós nem sequer notamos vocês saírem da festa com Simon—“
“Eles não saíram”, Simon disse. Ele e Isabelle afastados, mas ainda
perto um do outro, lado a lado. “Eu vim aqui sozinho. Bem, não exatamente
sozinho. Eu fui — convocado.”
Clary acenou. “É verdade. Nós não deixamos a festa com ele. Quando
Jace me trouxe para cá, eu não tinha ideia de que Simon ia estar aqui
também.”
“Jace trouxe você aqui?” Isabelle disse, atônita. “Jace, se você sabia
sobre Lilith e a Igreja de Talto, você deveria ter dito algo.”
Jace ainda estava olhando através das portas. “Acho que escapou da
minha mente.” Ele disse sem emoção.
Clary sacudiu sua cabeça enquanto Alec e Isabelle olhavam de seu
irmão adotivo para ela, como se para uma explicação pelo seu
comportamento. “Não era realmente Jace”, ela disse finalmente. “Ele
estava... sendo controlado. Por Lilith.”
“Possessão?” Os olhos de Isabelle se arregalaram em surpresa. Sua
mão apertou o cabo de seu chicote em reflexo.
Jace se virou das portas. Lentamente ele alcançou acima e puxou sua
camisa manchada para que eles pudessem ver a feia marca de possessão, e
o talho sangrento que corria dele. “Isso”, ele disse, ainda na mesma voz
sem emoção, “é a marca de Lilith. É como ela me controlava.”
Alec sacudiu sua cabeça; ele parecia profundamente perturbado.
“Jace, geralmente o único modo de romper uma conexão demoníaca como
essa é matar o demônio que esta fazendo o controle. Lilith é um dos mais
poderosos demônios que jamais—“
“Ela está morta”, Clary disse abruptamente. “Simon a matou. Ou
acho que você poderia dizer que a Marca de Caim matou ela.”
Todos eles olharam para Simon. “E quanto a vocês dois? Como vocês
acabaram aqui?” Ele perguntou, seu tom na defensiva.
“Procurando por você”, Isabelle disse. “Nós descobrimos o cartão que
Lilith deve ter dado a você. Em seu apartamento. Jordan nos deixou entrar.
Ele está com Maia, lá embaixo.“ Ela estremeceu. “As coisas que Lilith estava
fazendo — você não acreditaria — tão horríveis—“
Alec levantou suas mãos. “Devagar, todo mundo. Nós explicaremos o que
aconteceu com a gente, e então Simon, Clary, vocês explicam o que
aconteceu do seu lado.”
A explicação levou menos tempo que Clary pensou que iria, com
Isabelle fazendo a maior parte da conversa gestos extensos que
ameaçaram, de vez em quando, cortar os membros desprotegidos de seus
amigos com seu chicote. Alec aproveitou a oportunidade para sair ao
telhado para enviar uma mensagem de fogo para a Clave, dizendo a eles
onde eles estavam e pedindo por reforços. Jace se afastou sem palavras
para deixá-lo passar enquanto ele saia, e de novo, quando ele voltou para
dentro. Ele também não falou durante a explicação de Simon e Clary do que
tinha ocorrido no telhado, mesmo quando eles chegaram na parte onde
Raziel tinha trazido Jace de volta da morte em Idris. Foi Izzy quem
finalmente interrompeu, quando Clary começou a explicar sobre Lilith sendo
a ‘mãe’ de Sebastian e manter o seu corpo encerrado em vidro.
“Sebastian?” Isabelle bateu seu chicote contra o chão com força o
suficiente para abriu uma rachadura no mármore. “Sebastian está lá fora? E
ele não está morto?” Ela se virou para olhar para Jace, que estava se
inclinando contra as portas de vidro, braços cruzados, sem expressão. “Eu o
vi morto. Eu vi Jace cortar a espinha pelo meio, e eu vi ele cair no rio. E
agora você está me dizendo que ele está vivo lá fora?”
“Não”, Simon se apressou em reassegurá-la. “Seu corpo está lá, mas
ele não está vivo. Lilith não conseguiu completar a cerimônia.” Simon
colocou uma mão sobre o ombro dela, mas ela a afastou. Ela havia ficado
mortalmente da cor branca.
“Não realmente vivo, não é morto o suficiente para mim”, ela disse.
“Eu vou lá fora e vou cortá-lo em milhares de pedaços.” Ela se virou em
direção as portas.
“Iz!” Simon colocou a mão no ombro dela. “Izzy. Não.”
“Não?” Ela olhou para ele incrédula. “Me dê uma boa razão que eu
não deva picar ele em inúteis confetes em tema bastardo.”
Os olhar de Simon se lançaram em torno da sala, descansando por
um momento em Jace, como se esperasse que ele interrompesse ou
adicionasse um comentário. Ele não o fez, ele nem mesmo se moveu.
Finalmente Simon disse. “Olha, você entende o ritual, certo? Por que Jace
foi trazido de volta da morte, isso deu a Lilith o poder de ressuscitar
Sebastian. E para fazer isso, ela precisava de Jace lá e vivo, como — o que
ela chamou isso—“
“Um contrapeso.” Colocou Clary.
“A marca que Jace tem em seu peito. A marca de Lilith.” Em um
aparente gesto inconsciente, Simon tocou seu próprio peito, sobre o
coração. “Sebastian tem também. Eu vi os dois brilharem ao mesmo tempo
quando Jace entrou no círculo.”
Isabelle, seu chicote girando ao lado dele, seus dentes mordendo seu lábio
inferior vermelho, disse impacientemente, “E?”
“Eu acho que ela estava fazendo uma ligação entre eles”, Simon
disse. “Se
Jace morrer, Sebastian não poderia viver. Então se você cortar Sebastian
em pedaços—“
“Isso poderia ferir Jace”, Clary disse, as palavras vertendo enquanto
ela percebia. ”Ah, meu Deus. Ah, Izzy, você não pode.”
“Então nós vamos deixá-lo vivo?” Isabelle soou incrédula.
“Corte ele em pedaços se você quiser”, Jace disse. “Você tem a
minha permissão.”
“Cala a boca”, Alec disse. “Pare de agir como se sua vida não
importasse. Iz, você não estava escutando? Sebastian não está vivo.”
“Ele não está morto, também. Não morto o suficiente.”
“Nós precisamos da Clave”, Alec disse. “Nós precisamos dá-lo aos
Irmãos do Silêncio. Eles podem quebrar a conexão dele com Jace, e então
obtenha todo o sangue que você quiser, Iz. Ele é filho do Valentine. E ele é
um assassino. Todos perderam alguém na batalha em Alicante, ou conhece
alguém que perdeu. Você acha que eles serão gentis com ele? Eles irão
despedaçá-lo lentamente enquanto ele está vivo.”
Isabelle olhou para seu irmão. Muitas lentamente lágrimas brotavam
em seus olhos, se derramando em suas bochechas, listrando a sujeira e
sangue em sua pele. “Eu odeio isso”, ela disse. “Eu odeio quando você está
certo.”
Alec puxou sua irmã para mais perto e beijou o topo de sua cabeça.
“Eu sei que você odeia.”
Ela apertou a mão do seu irmão brevemente, então a puxou.
“Ótimo”, ela disse. ”Eu não tocarei em Sebastian, mas eu não posso
suportar estar a essa distância dele.” Ela olhou em direção as portas de
vidro, onde Jace ainda estava. ”Vamos lá para baixo. Nós podemos esperar
pela Clave na entrada. E precisamos encontrar Maia e Jordan; eles estão
provavelmente se perguntando onde nós fomos.”
Simon limpou sua garganta. “Alguém deveria ficar aqui para manter
um olho — nas coisas. Eu farei isso.”
“Não.” Era Jace. ”Você vai para baixo. Eu ficarei. Tudo isso é minha
culpa. Eu devia ter me assegurado que Sebastian estava morto quanto eu
tive a chance. E como pelo resto disso...”
A voz dele falhou. Mas Clary se lembrou dele tocando seu rosto na
entrada
escura no Instituto, lembrou-se dele sussurrando, Mea culpa, mea máxima
culpa.
Minha culpa, minha culpa, minha mais atroz culpa.
Ela se virou para olhar para os outros; Isabelle tinha empurrado o botão de
chamar, que estava ligado. Clary podia ouvir o distante zumbido do
elevador subindo. A sobrancelha de Isabelle levantou. “Alec, talvez você
devesse ficar aqui com Jace.”
“Eu não preciso de ajuda”, Jace disse. “Não há nada para se lidar. Eu
ficarei bem.”
Isabelle jogou suas mãos para o alto enquanto o elevador chegava com um
pulo. “Ótimo. Você venceu. Fique emburrado aqui sozinho se você quer.”
Ela entrou no elevador, Simon e Alec se apinhando atrás dela. Clary foi a
última a seguir, virando-se para olhar para Jace enquanto ela ia. Ele tinha
se voltado para olhar as portas, mas ela podia ver o reflexo dele nelas. Sua
boca estava comprimida em uma linha lívida, seus olhos escuros.
Jace, ela pensou enquanto as portas do elevador começavam a
fechar. Ela desejou que ele se virasse para olhar para ela. Ele não o fez,
mas ela sentiu fortes mãos, subitamente, em seus ombros, impelindo a
frente. Ela escutou Isabelle dizer, ”Alec, pelo amor de Deus o que você—“
enquanto ela tropeçava nas portas do elevador e se empertigava, se
virando para olhar. As portas estavam fechando atrás dela, embora através
delas ela pudesse ver Alec. Ele deu a ela um lastimável meio sorriso e um
dar de ombros, como se para dizer, o que mais eu posso fazer? Clary deu
um passo a frente, mas era tarde demais; as portas do elevador bateram
fechadas.
Ela estava sozinha na sala com Jace.
????
A sala estava bagunçada com os corpos mortos — todas figuras
caídas em agasalhos de capuz cinza, arremessadas ou emborcadas ou
inclinadas contra a parede. Maia estava na janela, arfando, olhando para a
cena em frente a ela incrédula. Ela tinha feito parte da batalha de Brocelind
em Idris, e pensou que era a pior coisa que ela veria. Mas de algum modo
isso era pior. O sangue que corria dos membros mortos do culto não era a
linfa de demônio, era sangue humano. E os bebês — silenciosos e mortos
em seus berços, suas pequenas mãos em garras dobradas uma sobre a
outra, como bonecas...
Ela afastou o olhar de suas próprias mãos. Suas garras ainda
estavam para fora, manchadas com sangue da raiz ao topo; ela as retraiu,
e o sangue correu de suas palmas, manchando seus pulsos. Seus pés
estavam descalços e ensanguentados, e havia um longo arranhão em um
ombro nu ainda gotejando em vermelho, embora ele já tivesse começado a
curar. Apesar da veloz cura licantropica providenciada, ela sabia que
acordaria amanhã coberta de hematomas. Quando você é um lobisomem,
contusões raramente duram mais que um dia. Ela se lembrou de quando ela
tinha sido humana, e seu irmão, Daniel, tinha tornado a si mesmo um
expert em beliscá-la em lugares onde os hematomas não apareceriam.
“Maia.” Jordan veio através de uma das infinitas portas, mergulhando
um bando de fios pendurados. Ele se empertigou e se moveu em direção a
ela, escolhendo seu caminho entre os corpos. “Você está bem?”
O olhar de preocupação em seu rosto deu um nó em seu estômago.
“Onde estão Isabelle e Alec?”
Ele sacudiu sua cabeça. Ele portava muito menos danos visíveis do
que ela tinha. Sua espessa jaqueta de couro o tinha protegido, como os
seus jeans e botas. Havia um longo arranhão em seu rosto, sangue seco em
seu cabelo castanho claro e manchando a lâmina da faca que ele segurava.
“Eu procurei no andar inteiro. Eu não os vi. Há mais alguns corpos em
outras salas. Eles devem ter—“
A noite foi iluminada como uma lâmina serafim. As janelas ficaram
brancas, a luz brilhante ardeu através da sala. Por um momento Maia
pensou que o mundo tinha ardido em incêndio, e Jordan, se movendo em
direção a ela através da luz, pareceu quase desaparecer, branco sobre
branco, em um campo cintilante de prata. Ela se escutou gritar, e se moveu
cegamente para trás, batendo sua cabeça na chapa de vidro da janela. Ela
colocou suas mãos para cobrir seus olhos—
E a luz se foi. Maia abaixou suas mãos, o mundo girando em torno
dela. Ela foi a frente às cegas, e Jordan estava lá. Ela colocou seus braços
ao redor dele — os jogou ao redor dele, do jeito que ela costumava quando
ele vinha pegá-la
em casa e a acalentaria em seus braços, enrolando os cachos de seus
cabelos em seus dedos.
Ele então tinha sido mais magro, ombros estreitos. Agora músculos
distribuíam em seus ossos, e abraçá-lo era como abraçar algo
completamente sólido, um pilar de granito no meio de uma tempestade
soprando no deserto. Ela se agarrou a ele, e ouviu a batida de seu coração
debaixo de sua orelha, enquanto as mãos dele alisavam seu cabelo, um
toque rude e tranquilizador, confortante e... familiar. ”Maia... está tudo
bem...”
Ela levantou sua cabeça e pressionou sua boca na dele. Ele tinha
mudado em tantas formas, mas a sensação de beijá-lo era a mesma, sua
boca tão suave como sempre. Ele ficou rígido por um segundo com
surpresa, e então a reuniu contra ele, suas mãos fazendo lentos círculos em
suas costas nuas. Ela se lembrou da primeira vez que eles tinham se
beijado. Ela tinha dado a ele seus brincos para pô-los no porta-luvas de seu
carro, e a mão dele tinha tremido tanto que os derrubou e então se
desculpou várias vezes até que ela o beijou para calá-lo. Ela achou que ele
era o garoto mais doce que ela tinha conhecido.
E então ele foi mordido, e tudo mudou.
Ela se afastou, tonta e sem fôlego. Ele a soltou instantaneamente; ele
estava olhando para ela, sua boca aberta, seus olhos atordoados. Atrás
dele, através das janelas, ela podia ver a cidade — ela meio que esperou
ela estar achatada, um destruído deserto branco lá fora da janela — mas
tudo estava exatamente o mesmo. Nada tinha mudado. Luzes piscavam
intermitentes nos prédios do outro lado da rua; ela podia escutar a fraca
precipitação do tráfego abaixo. “Nós devemos ir”, ela disse. ”Devemos
procurar pelos outros.”
“Maia”, ele disse. “Por que você acabou de me beijar?”
“Eu não sei”, ela disse. ”Você acha que nós devemos tentar os
elevadores?”
“Maia—“
“Eu não sei, Jordan”, ela disse. ”Eu não sei por que beijei você, e eu não sei
se eu vou fazer isso de novo, mas sei que estou enlouquecendo e
preocupada com meus amigos e quero sair daqui. Ok?”
Ele concordou. Ele parecia como se tivesse um milhão de coisas que
ele queria dizer, mas tinha determinado não dizê-las, pelo que ela ficou
grata. Ele correu uma mão em seu cabelo despenteado, coberto com pó de
gesso branco, e concordou. “Ok”
????
Silêncio. Jace ainda estava inclinado contra a porta, só agora ele
tinha sua testa pressionada contra ela, seus olhos fechados. Clary se
perguntou se ele sequer sabia que estava na sala com ele. Ela deu um
passo a frente, mas antes que ela pudesse dizer alguma coisa, ele
empurrou as portas abertas e caminhou de volta ao jardim.
Ela ficou imóvel por um momento, olhando após ele. Ela podia
chamar o elevador, é claro, descer nele, esperar pela Clave no saguão com
todos os outros. Se Jace não quis conversar, ele não quis conversar. Ela não
podia forçá-lo. Se Alec estivesse certo, ele estivesse se punindo, ela apenas
tinha que esperar até que ele se recuperasse.
Ela se virou em direção ao elevador — e parou. Uma pequena chama
de fúria veio através dela, fazendo seus olhos queimarem. Não. Ela não
tinha que deixá-lo se comportar desse jeito. Talvez ele pudesse ser desse
jeito com todos os outros, mas não com ela. Ele devia mais a ela do que
isso. Eles deviam um ao outro mais do que isso.
Ela girou e foi a caminho das portas. Seu tornozelo ainda doía, mas
as iratzes que Alec tinha posto nela estavam funcionando. A maior parte da
dor em seu corpo tinha diminuído para uma entorpecida dor latejante. Ela
alcançou as portas e as empurrou, indo para o terraço com uma encolhida
quando seus pés descalços tiveram contato com os azulejos congelando.
Ela viu Jace imediatamente; ele estava ajoelhado próximo aos
degraus, nos azulejos manchados com sangue e linfa e brilhando com sal.
Ele se levantou enquanto ela se aproximava, e se virou, algo cintilante
pendendo de sua mão.
O anel de Morgenstern, em sua corrente.
O vento tinha surgido; ele soprava seu cabelo dourado escuro sobre
seu rosto. Ele o empurrou impacientemente e disse. “Eu lembrei que nós
deixamos isso aqui.”
Sua voz soou surpreendentemente normal.
“Este é o porquê você quis ficar aqui em cima?” Clary disse. “Para
pegá-lo
de volta?”
Ele virou sua mão, então a corrente balançou para cima, seus dedos
fechando-se sobre o anel. “Eu estou ligado a ele. É estúpido, eu sei.”
“Você poderia ter dito, ou Alec poderia ter ficado—“
“Eu não pertenço ao resto de vocês”, ele disse abruptamente. ”Depois
do que eu fiz, eu não mereço iratzes e cura e abraços e ser consolado ou o
que quer que meus amigos vão pensar que eu preciso. Eu preferi ficar aqui
com ele.” Ele empurrou seu queixo em direção ao lugar onde o corpo imóvel
de Sebastian permanecia no caixão aberto, sobre seu pedestal de pedra.”E
certo como o inferno, eu não mereço você.”
Clary cruzou seus braços sobre seu peito. “Você alguma vez pensou
sobre o que eu mereço? Que talvez eu mereça a chance de falar com você
sobre o que aconteceu?”
Ele olhou para ela. Eles só estavam a alguns pés de distância, mas
parecia como se um inexprimível abismo colocava-se entre eles. “Eu não sei
o porquê você até mesmo olharia para mim, muito menos falar comigo.”
“Jace”, ela disse. “Aquelas coisas que você fez — não era você.”
Ele hesitou. O céu estava tão negro, as janelas iluminadas dos
arranha-céus próximos tão brilhantes, era como se eles estivessem no
centro de uma rede de jóias brilhantes. “Se não era eu”, ele disse, ”então
por que eu posso me lembrar de tudo o que fiz? Quando pessoas estão
possuídas, e voltam disso, elas não se lembram do que elas fizeram quando
o demônio as desabitou. Mas eu me lembro de tudo.” Ele se virou
abruptamente e se afastou, em direção a parede do jardim do telhado. Ela o
seguiu, feliz pela distância posta entre eles e o corpo de Sebastian, agora
escondido da visão pela fileira de cercas vivas.
“Jace!” ela chamou, e ele se virou, suas costas para a parede,
afundando contra ela. Atrás dele uma equivalente cidade iluminada a noite
como as torres demônio de Alicante. “Você se lembra do por que ela queria
que você se lembrasse”, Clary disse, o alcançando, um pouco sem fôlego.
“Ela fez isso para torturá-lo tanto quanto ela fez para Simon fazer o que ela
queria. Ela quis que você observasse a si mesmo machucar as pessoas que
você ama.”
“Eu estava observando”, ele disse em uma voz baixa. ”Era como se
parte de mim estivesse fora a distância, observando e gritando para eu
parar. Mas o resto
de mim sentia-se completamente em paz e como se o que eu estivesse
fazendo fosse certo. Como fosse a única coisa que eu poderia fazer. Eu me
pergunto se isso era como Valentine se sentia sobre tudo que ele fazia.
Como fosse tão fácil estar certo.” Ele olhou para longe dela. “Eu não posso
suportar”, ele disse.”Você não deveria estar aqui comigo. Você deveria ir.”
Ao invés de sair, Clary se moveu para ficar ao lado dele contra a
parede. Seus braços já estavam envolvidos ao redor de si mesma; ela
estava tremendo. Finalmente, relutantemente, ele virou sua cabeça para
olhar para ela de novo. ”Clary...”
“Você não tem que decidir”, ela disse, “aonde eu vou, e quando.”
“Eu sei.” A voz dele estava rouca. ”Eu sempre soube disso sobre
você. Eu não sei por que eu tinha que me apaixonar por alguém que é mais
teimosa do que eu.”
Clary ficou em silêncio por um momento. Seu coração tinha se
contraído com aquelas duas palavras — “me apaixonar.” “Todas aquelas
coisas que você disse para mim”, ela disse em um quase sussurro, ”no
terraço no Ironworks — você as quis dizê-las?”
Seus olhos dourados apagaram. ”Que coisas?”
Que você me amava, ela quase disse, mas pensou bem — ele não
tinha dito aquilo, disse? Não as palavras em si. A implicação tinha estado lá.
E a verdade do fato, que eles se amavam um ao outro, era algo que ela
sabia tão claramente quando ela sabia seu próprio nome.
“Você me perguntou se eu te amaria se você fosse como Sebastian,
como Valentine.”
“E você então disse que não seria eu. Olhe como errado isso acabou
por ser.” Ele disse, a amargura colorindo sua voz. “O que eu fiz hoje a
noite—“
Clary se moveu em direção a ele; ele ficou rígido, mas não se
afastou. Ela segurou a frente de sua camisa, inclinou-se para mais perto, e
disse, pronunciando claramente cada palavra. ”Aquele não era você.”
“Diga isso para sua mãe”, ele disse. ”Diga isso para Luke, quando
eles perguntarem de onde veio isso.” Ele tocou sua clavícula gentilmente; a
ferida estava curada agora, mas sua pele, e o tecido de seu vestido,
estavam ainda manchados escuros com sangue.
“Eu direi a eles”, ela disse, ”direi a eles que foi minha culpa.”
Ele olhou para ela, olhos dourados incrédulos. ”Você não pode mentir
para eles.”
“Eu não. Eu trouxe você de volta”, ela disse. ”Vocês estava morto, e
eu o trouxe de volta. Eu atrapalhei o equilíbrio, não você. Eu abri a porta
para Lilith e seu estúpido ritual. Eu poderia ter pedido por qualquer coisa, e
eu pedi você.” Ela firmou o aperto em sua camiseta, seus dedos brancos
com o frio e a pressão. “E eu faria isso de novo. Eu te amo, Jace Wayland —
Herondale — Lightwood — o que quer que você queira se chamar. Eu não
me importo. Eu te amo e sempre amarei você, e fingir que poderia ser de
algum outro modo é apenas perda de tempo.”
Um olhar de grande dor passou em seu rosto que Clary sentiu seu
coração apertar. Então ele tomou seu rosto entre suas mãos. Suas palmas
eram quentes contra suas bochechas.
“Lembra-se quando eu disse a você”, ele disse, sua voz tão suave
quanto ela havia escutado, “que eu não sabia se havia um Deus ou não,
mas de qualquer forma, nós estávamos completamente por nossa conta? Eu
ainda não sei a resposta, eu só sei que havia uma coisa como fé, e que eu
não merecia tê-la. E então havia você. Você mudou tudo o que eu
acreditava. Você sabe aquele verso de Dante que eu citei para você no
parque? L’amor Che move Il sole e l’altre stelle’?”
Seus lábios se curvaram um pouco nos lados enquanto ela o olhava.
”Eu ainda não sei falar italiano?”
“É um pedaço do último verso de Paradiso — o Paraíso de Dante.
‘Minha vontade e meu desejo mudaram pelo amor, o amor que move o sol e
as outras estrelas.’ Dante estava tentando explicar a fé, eu acho, como um
amor dominante, e talvez ele é blasfemo, mas isso é como eu acho que eu
te amo. Você entrou em minha vida e de repente eu tinha uma verdade
para me firmar — que eu te amava e você me amava.”
Embora ele parecesse olhar para ela, seu olhar estava distante, como
se fixo em algo distante.
“Então eu comecei a ter esses sonhos”, ele continuou. ”E eu achei
que talvez eu estivesse errado. Que não te merecia. Que eu não merecia
estar
perfeitamente feliz — quero dizer, Deus, quem merece isso? E depois desta
noite—“
“Pare”, ela tinha agarrado sua camisa; ela afrouxou seu aperto agora,
espalmando suas mãos contra seu peito. Seu coração estava acelerando
sob as pontas dos dedos dela, as bochechas dele coraram; e não apenas
pelo frio. “Jace. Embora tudo que aconteceu hoje à noite, eu sabia de uma
coisa. Que não era você me machucando. Não era você fazendo aquelas
coisas. Eu tenho uma absoluta certeza incontestável que você é bom. E isso
nunca mudará.”
Jace tomou um fôlego estremecido profundo. “Eu nem sei como
tentar merecer isso.”
“Você não tem. Eu tenho fé o suficiente em você”, ela disse. “Para
nós dois.”
As mãos deles deslizaram em seu cabelo. A névoa da respiração
exalada cresceu entre eles, uma nuvem branca. “Eu senti tanto sua falta”,
ele disse, e a beijou, sua boca gentil sobre a dela, não desesperada ou
faminta do modo que tinha sido das últimas vezes que ele a tinha beijado,
mas familiar e terna e suave.
Ela fechou seus olhos enquanto o mundo pareceu girar em torno
deles como um cata-vento. Deslizando suas mãos em seu peito, ela se
esticou acima o máximo que ela podia, envolvendo seus braços em torno de
seu pescoço, levantando-se nas pontas dos dedos para encontrar sua boca
com a dele. Os dedos dele correram em seu corpo, sobre sua pele e seda, e
ela estremeceu, inclinando-se nele, e ela tinha certeza que ambos tinham
gosto de sangue e cinzas e sal, mas isso não importava; o mundo, a cidade,
e todas as suas luzes e vida pareceram ter encolhido para isso, apenas ela e
Jace, o coração ardendo de um mundo congelado.
Ele se afastou primeiro, relutantemente. Ela percebeu o porquê um
momento depois. O som de buzinas de carro e pneus derrapando na rua
abaixo era audível, mesmo aqui em cima. “A Clave”, ele disse resignado —
embora ele tivesse limpado sua garganta para por as palavras para fora,
Clary ficou satisfeita em ouvir. Seu rosto ruborizado, como ela imaginou
que o dela estava. ”Eles estão aqui.”
Com suas mãos nas dele Clary viu, por sobre a beira da parede do
telhado, que uma quantidade de carros pretos tinha se encostado de frente
ao andaime.
Pessoas se juntando. Era difícil reconhecê-los a esta altura, mas Clary
pensou ter visto Maryse, e várias outras usando vestimentas de combate.
Um momento depois a caminhonete de Luke rugiu no meio fio e Jocelyn
saltou. Clary saberia que era ela, só pelo modo que ela se movia, a uma
maior distância do que desta.
Clary se virou para Jace. “Minha mãe”, ela disse, ”é melhor eu
descer. Eu não quero que ela venha aqui em cima e veja — e veja ele.” Ela
empurrou seu queixo em direção ao caixão de Sebastian.
Ele retirou seu cabelo para trás de seu rosto. “Eu não quero deixar
você longe das minhas vistas.”
“Então, venha comigo.”
“Não. Alguém deve ficar aqui em cima.” Ele tomou sua mão, a virou e
soltou o anel de Morgenstern nela, a corrente se unindo como metal líquido.
O fecho tinha se dobrado quando ela a arrancou, mas ele tinha conseguido
empurrá-lo de volta na forma. “Por favor, pegue-o.”
Seus olhos lançaram-se abaixo, e então, incertos, voltaram ao seu
rosto. “Eu queria entender o que ele significou para você.”
Ele deu de ombros levemente. ”Eu o usei por uma década”, ele disse.
“Uma parte de mim está nele. Isso quer dizer que eu confio em você com
meu passado e todos os segredos que o passado carrega. E além do mais—
“ ligeiramente ele tocou uma das estrelas esculpidas em torno do arco— “’o
amor que move o sol e todas as outras estrelas.’ Aparenta que este é o quê
as estrelas simbolizam, não Morgenstern.”
Em resposta ela soltou a corrente sobre sua cabeça, deixando o anel
se assentar no seu lugar de costume, sob sua clavícula. Ele pareceu como
uma peça de quebra-cabeças encaixando no lugar. Por um momento os
olhos deles se prenderam em comunicação muda, de algum modo, mais
intensa do que o contato físico que tinham tido; ela segurou a imagem dele
em sua mente nesse momento como se ela estivesse a memorizando — o
cabelo dourado emaranhado, as sombras lançadas pelos seus cílios, os
anéis de dourado mais escuros dentro da luz âmbar de seus olhos. ”Eu
voltarei logo”, ela disse. Ela apertou sua mão. “Cinco minutos.”
“Vá”, ele disse rouco, soltando sua mão, e ela se virou e foi de volta
no caminho. No momento que ela se afastou dele, ela estava fria de novo, e
no
momento que ela alcançou as portas do prédio, ela estava congelando. Ela
parou enquanto abria a porta, e olhou de volta para ele, mas ele era apenas
uma sombra, emoldurada pelo brilho do horizonte de Nova York. O amor
que move o sol e todas as estrelas, ela pensou, e então, como se em um
eco em resposta, ela ouviu as palavras de Lilith. O tipo de amor que arde o
mundo ou o eleva em glória. Um arrepio passou por ela, e não apenas vindo
do frio. Ela olhou para Jace, mas ele tinha desaparecido nas sombras; ela se
virou e foi para dentro, a porta deslizando fechada atrás dela.
????
Alec se foi escadas acima para procurar por Jordan e Maia, e Simon e
Isabelle estavam sozinhos, juntos; sentados lado a lado sobre a
espreguiçadeira verde do saguão. Isabelle segurava a pedra enfeitiçada de
Alec em sua mão, iluminando a sala com um brilho quase espectral, faíscas
dançando partículas de fogo do candelabro.
Ela tinha dito muito pouco desde que seu irmão os tinha deixado
juntos. Sua cabeça estava curvada, seu cabelo escuro caindo a frente, seu
olhar em suas mãos. Elas eram mãos delicadas, dedos longos, mas com
calos como os de seu irmão tinham. Simon nunca tinha notado antes, mas
ela usava um anel de prata em sua mão direita, com um padrão de chamas
em torno do arco dele, e um L esculpido no centro. Lembrou a ele o anel
que Clary usava ao redor de seu pescoço, com seus desenhos de estrelas.
“Ele é o anel da família Lightwood”, ela disse, percebendo onde seu
olhar estava preso. “Todas as famílias tem um emblema. O nosso é o
fogo.”
Combina com você, ele pensou. Izzy era como o fogo, em seu
flamejante vestido escarlate, com seu humor tão inconstante como faíscas.
No telhado ele quase pensou que ela o estrangularia, seus braços em torno
de seu pescoço enquanto ela o chamava de cada nome sob o sol, enquanto
o agarrava como se ela nunca o deixasse ir. Agora ela estava olhando a
distância, tão intocável quanto uma estrela. Era tudo muito desconcertante.
Então você os ama, Camille tinha dito, seus amigos Caçadores de
Sombras. Como o falcão ama o mestre que prende e os cega.
“O que você nos disse”, ele disse, um pouco hesitante, observando
Isabelle girar um fio de seu cabelo ao redor de seu indicador, “— lá em cima
no telhado — que você não sabia que Clary e Jace estavam faltando, que
você veio aqui por mim — era verdade?”
Isabelle olhou para cima enfiando seu fio de cabelo atrás de sua
orelha. “É claro que é verdade”, ela disse indignada. ”Quando nós vimos
que você se foi da festa — e você esteve em perigo por dias, Simon, e com
a fuga de Camille—“ ela se deteve um pouco. ”E a responsabilidade de
Jordan por você. Ele estava surtando.”
“Então foi ideia dele vir procurar por mim?”
Isabelle virou-se para olhar para ele por um longo momento. Seus
olhos eram insondáveis e escuros. “Fui eu quem notou que você se foi”, ela
disse. ”Fui eu que quis te encontrar.”
Simon limpou sua garganta. Ele se sentiu estranhamente tonto. ”Mas
por quê? Eu pensei que agora você me odiasse.”
Foi a coisa errada a se dizer. Isabelle sacudiu sua cabeça, seu cabelo
escuro voando, e se afastou um pouco dele na espreguiçadeira. “Ah, Simon.
Não seja obtuso.”
“Iz.” Ele se estendeu e tocou seu pulso, hesitantemente. Ela não se
afastou, apenas o observou. “Camille disse algo para mim no Santuário. Ela
disse que os Caçadores de Sombras não se importavam com Habitantes do
Submundo, apenas os usava. Ela disse que os Nephilim nunca fariam nada
por mim, que eu fizesse por eles. Mas você fez. Você veio por mim. Você
veio por mim.”
“É claro que eu vim“, ela disse, em uma voz um pouco abafada.
“Quando eu pensei que algo tinha acontecido a você—“
Ele se inclinou em direção a ela. Seus rostos estavam a centímetros
um do outro. Ele podia ver as faíscas refletidas do candelabro em seus
olhos negros. Seus lábios estavam repartidos, e Simon podia sentir o calor
de sua respiração. Pela primeira vez desde que ele tinha se tornado um
vampiro, ele podia sentir calor, como uma carga elétrica passando entre
eles. ”Isabelle”, ele disse. Não Iz, não Izzy. Isabelle. “Eu posso—“
O elevador sibilou, as portas se abriram, e Alec, Maia, e Jordan
saíram. Alec olhou com suspeita para Simon e Isabelle enquanto eles
recuavam, mas
antes que ele pudesse dizer alguma coisa, as portas duplas do saguão se
arremessaram, e Caçadores de Sombras se derramaram no salão. Simon
reconheceu Kadir e Maryse, que imediatamente atravessaram a sala até
Isabelle e a pegaram pelos ombros exigindo saber o que havia acontecido.
Simon ficou de pé e se afastou, sentindo-se desconfortável — e quase
colidiu com Magnus, se apressando pela sala até Alec. Ele não pareceu ver
Simon de modo algum. Depois disso, em cem, duzentos anos, será apenas
você e eu. Nós seremos tudo que resta, Magnus disse para ele no
Santuário. Sentindo-se indizivelmente sozinho entre a multidão de
Caçadores de Sombras, Simon se pressionou contra a parede na vã
esperança que ele não seria notado.
Alec olhou acima quando Magnus o alcançou, o segurou e o puxou
para perto. Seus dedos traçando o rosto de Alec como se checando por
contusões e danos; sob sua respiração, ele estava murmurando, ”Como
você pôde — sair desse jeito e nem mesmo me falar — eu poderia ter te
ajudado.”
“Pare.” Alec se afastou, sentindo-se rebelde.
Magnus se conteve, sua voz solene. “Me desculpe”, ele disse. “Eu não
deveria ter deixado a festa. Eu deveria ter ficado com você. Aliás, Camille
se foi. Ninguém tem a menor ideia de onde ela foi, e já que vocês não
podem rastrear vampiros...” Ele deu de ombros.
Alec afastou a imagem de Camille em sua mente, acorrentada à
tubulação, olhando para ele com aqueles olhos verdes impetuosos. “Não
importa”, ele disse. “Ela não importa. Eu sei que você estava tentando me
ajudar. Aliás, eu não estou zangado com você por ter deixado a festa.”
“Mas você estava zangado”, Magnus disse. “Eu sei que estava. Esse é
o porquê de eu estar tão preocupado. Saindo e se pondo em perigo só por
que você está zangado comigo—“
“Eu sou um Caçador de Sombras”, Alec disse. “Magnus, isso é o que
eu faço. Não é sobre você. Da próxima vez se apaixone por um avaliador de
seguros ou—“
“Alexander”, Magnus disse. “Não vai haver uma próxima vez.” Ele
inclinou sua testa contra a de Simon, olhos verdes dourados olhando para o
azul.
O coração de Alec acelerou. “Por que não?”, ele disse. “Você vive
para sempre. Nem todo mundo vive.”
“Eu sei que eu disse isso”, Magnus disse. “Mas, Alexander—“
“Pare de me chamar assim”, Alec disse. “Alexander é como meus pais
me chamam. E acho que é muito prematuro você ter aceitado minha
mortalidade tão fatalisticamente — todo mundo morre, blah, blah — mas
como você acha que me faz sentir? Casais comuns podem ter esperança —
esperança de envelhecerem juntos, esperança de viverem longas vidas e
morrerem ao mesmo tempo, mas não podemos esperar por isso. Eu nem
mesmo sei o que é que você quer.”
Alec não estava certo do que ele tinha esperado em resposta — raiva
ou defensiva ou até mesmo humor — mas a voz de Magnus apenas baixou,
falhando ligeiramente quanto ele disse, “Alex — Alec. Se eu dei a você a
impressão que eu tinha aceitado a ideia de sua morte, eu posso apenas me
desculpar. Eu tentei, eu pensei que eu tinha — e ainda imaginei ter você
por cinquenta, sessenta anos mais. Eu pensei que poderia estar pronto
então para deixá-lo ir. Mas é você, e eu percebi agora que eu não estarei
nem um pouco mais pronto para perder você do que eu estou agora.” Ele
pôs suas mãos gentilmente de cada lado do rosto de Alec. “Que é não de
forma alguma.”
“Então o que nós fazemos?” Alec sussurrou.
Magnus deu de ombros, e sorriu de repente, com seu cabelo preto
bagunçado, e o brilho em seus olhos verdes dourados, ele parecia como um
adolescente levado. “O que todo mundo faz”, ele respondeu. “Como você
disse. Esperança.”
Alec e Magnus tinham começado a se beijar no canto da sala, e
Simon não estava muito certo para onde olhar. Ele não queria que eles
pensassem que ele estava olhando para eles no que era, claramente, um
momento particular, mas para onde quer que ele olhasse, ele encontrava os
olhos encarando dos Caçadores de Sombras. Apesar do fato que ele tinha
lutado com eles no banco contra Camille, nenhum deles olhava para ele
com particular amabilidade. Uma coisa era Isabelle aceitá-lo e preocupar-se
com ele, mas Caçadores de Sombras era outra coisa inteiramente diferente.
Ele podia dizer o que eles estavam pensando. “Vampiro, Ser do Submundo,
inimigo” estava escrito em todos seus rostos. Foi como alívio quando as
portas se abriram e Jocelyn veio voando, ainda usando seu vestido azul da
festa. Luke estava a apenas poucos passos atrás dela.
“Simon!”, ela exclamou tão logo o avistou. Ela correu até ele, e para
sua surpresa o abraçou impetuosamente antes de soltá-lo. “Simon, onde
Clary está? Ela está—“
Simon abriu sua boca, mas nenhum som veio. Como ele poderia
explicar para Jocelyn, de todas as pessoas, o que aconteceu esta noite?
Jocelyn, que estaria horrorizada ao saber o tanto da maldade de Lilith, as
crianças que ela tinha assassinado, o sangue que ela tinha derramado, tudo
tinha sido no propósito de fazer mais criaturas como o próprio filho falecido
de Jocelyn, cujo corpo jazia agora no topo do telhado onde Clary estava
com Jace?
Não posso dizer nada disso, ele pensou. Não posso. Ele olhou atrás
dela, para Luke, cujos olhos azuis descansava nele com expectativa. Atrás
da família de Clary ele podia ver os Caçadores de Sombras se juntando em
torno de Isabelle enquanto ela, provavelmente, recontava os eventos da
noite.
“Eu—”, ele começou impotente, e então as portas do elevador se
abriram de novo, e Clary saiu. Seus sapatos se foram, seu adorável vestido
de seda em trapos ensangüentados, contusões já desaparecendo em seus
braços e pernas. Mas ela estava sorrindo — até mesmo radiante, mais feliz
do que Simon tinha a visto parecer a semanas.
“Mãe!”, ela exclamou, e então Jocelyn voou até ela e a estava
abraçando. Clary sorriu para Simon sobre o ombro de sua mãe. Simon
olhou em torno da sala. Alec e Magnus ainda estavam envolvidos um com o
outro, e Maia e Jordan tinham desaparecido. Isabelle ainda estava cercada
de Caçadores de Sombras, e Simon podia ouvir os arfares de horror e
surpresa aumentarem do grupo a cercando, enquanto ela recontava a
história. Ele suspeitou que alguma parte dela estava se divertindo com isso.
Isabelle adorava ser o centro das atenções, não importava qual a razão.
Ele sentiu uma mão descer sobre seu ombro. Era Luke. “Você está
bem, Simon?”
Simon olhou para ele. Luke parecia como ele sempre o era, sólido,
professoral, totalmente de confiança. Nem mesmo o mínimo apagava que
sua festa de noivado tivesse sido interrompida por uma dramática
emergência súbita.
O pai de Simon tinha morrido há tanto tempo atrás, que ele mal se
lembrava dele. Rebecca lembrava partes sobre ele — que ele tinha uma
barba, e a ajudava a construir elaboradas torres de blocos — mas Simon
não. Era uma das coisas que ele sempre pensou que tinha em comum com
Clary, que tinha os ligado; ambos com pais falecidos, ambos criados por
mães solteiras fortes.
Bem, pelo menos uma daquelas coisas tinha se tornado verdade,
Simon pensou. Embora sua mãe namorasse, ele nunca teve uma presença
paterna consistente em sua vida, além de Luke. Ele achava que de certo
modo, ele e Clary dividiam Luke. E o bando de lobisomens procuravam Luke
por orientação, também. Para um solteirão que nunca teve filhos, Simon
pensou, Luke tinha uma admirável quantidade de crianças para cuidar.
“Eu não sei”, Simon disse, dando a Luke a resposta honesta que ele
gostaria de ter dado a seu próprio pai. “Acho que não.”
Luke virou Simon para encará-lo. “Você está coberto de sangue”, ele
disse. ”E aposto que não é seu, por que...” Ele gesticulou em direção a
Marca na testa de Simon. “Mas ei“, sua voz era gentil. “Mesmo coberto de
sangue e com a Marca de Caim, você ainda é Simon. Pode me contar o que
aconteceu?”
“Não é meu sangue, você está certo”, Simon disse rouco. “Mas é
meio que também uma longa história.” Ele inclinou sua cabeça para trás
para olhar para Luke; ele sempre se perguntou se ele teria outra espichada
algum dia, crescer mais alguns centímetros além dos 1.75 metros que tinha
agora, ser capaz de olhar para Luke — sem mencionar Jace — direto nos
olhos. Mas agora isso nunca aconteceria. “Luke”, ele disse. “Você acha que
é possível fazer algo tão ruim, mesmo que você não quisesse fazê-lo, que
você nunca pode voltar atrás? Que ninguém pode te perdoar?”
Luke olhou para ele por um longo e silencioso momento. Então disse,
“Pense em alguém que você ame, Simon. Ame de verdade. Há alguma coisa
que eles poderiam fazer que significaria que você pararia de amá-los?”
Imagens saltaram através da mente de Simon, como páginas de uma
sequência animada de quadros cinematográficos. Clary, virando para sorrir
para ele, sua irmã o beliscando quando ele era só um bebê; sua mãe,
dormindo no sofá com a coberta puxada em seus ombros; Izzy— Simon
excluiu os pensamentos apressadamente. Clary não tinha feito nada de tão
terrível que ele precisasse dispensar perdão para ela; nenhuma das pessoas
que ele estava pensando tinha. Ele pensou em Clary, perdoando sua mãe
por ter roubado suas memórias. Ele pensou em Jace, o que ele tinha feito
no telhado, como ele parecera depois. Ele fez o que ele fez sem sua própria
escolha, mas Simon duvidava que Jace fosse capaz de perdoar a si mesmo,
levando em conta. E então ele pensou em Jordan — não perdoando a si
mesmo pelo o que tinha feito a Maia, mas, de qualquer modo, seguindo em
frente, se juntando ao Praetor Lupus, fazendo uma vida de ajudar aos
outros.
“Eu mordi alguém”, ele disse. As palavras saltaram de sua boca, e ele
desejou que pudesse as engolir de volta. Ele se preparou para o olhar de
horror de Luke, mas ele não veio.
“Sobreviveu?” Luke disse. “Essa pessoa que você mordeu. Ela
sobreviveu?”
“Eu—“ Como explicar sobre Maureen? Lilith tinha ordenado a ela algo,
mas Simon tinha certeza que eles não tinham visto o fim dela. ”Eu não a
matei.”
Luke concordou de pronto. “Você sabe como lobisomens se tornam
líderes de bando”, ele disse. ”Eles tem que matar o antigo líder do bando.
Eu o fiz duas vezes. Eu tenho cicatrizes para provar.” Ele puxou
ligeiramente a gola de sua blusa para o lado, e Simon viu a beirada de uma
grosseira cicatriz branca que parecia imperfeita, como se o peito dele
tivesse sido arranhado. “A segunda vez foi intencional. Matar a sangue-frio.
Eu quis me tornar o líder, e assim foi como eu fiz.” Ele deu de ombros.
“Você é um vampiro. Está em sua natureza querer beber sangue. Você se
segurou por um longo tempo sem o fazer. Eu sei que você pode andar sob o
sol, Simon, e seu orgulho em ser um garoto humano normal, mas você
ainda é o que é. Como eu sou. Quanto mais que você tenta subjugar sua
verdadeira natureza, mais ela te controlará. Seja o que você é. Ninguém
que realmente ama você irá impedi-lo.”
Simon disse rouco. “Minha mãe—“
“Clary me disse o que aconteceu com sua mãe, e que você tem ficado
com Jordan Kyle”, Luke disse. “Olha, sua mãe mudará de ideia, Simon.
Como Amatis, comigo. Você ainda é o filho dela. Eu falarei com ela, se você
quiser.”
Simon sacudiu sua cabeça silenciosamente. Sua mãe sempre gostara
de Luke. Lidar com o fato que Luke era um lobisomem provavelmente
tornaria as coisas piores, não melhores.
Luke assentiu como se ele compreendesse. “Se você não quiser voltar
para a casa do Jordan, você é mais do que bem vindo para ficar no meu
sofá hoje à
noite. Tenho certeza que Clary ficará feliz em ter você por perto, e nós
podemos conversar sobre o que você quer fazer sobre sua mãe amanhã.”
Simon endireitou os ombros. Ele olhou para Isabelle do outro lado da
sala, o lampejo de seu chicote, o brilho do pingente em sua garganta, o
menear de suas mãos enquanto ela falava. Isabelle, que não tinha medo de
nada. Ele pensou em sua mãe, o modo que ela tinha se afastado dele, o
medo em seus olhos. Ele tinha estado se escondendo dessa lembrança,
fugindo dela, desde então. Mas era a hora de parar de fugir. “Não”, ele
disse. ”Obrigado, mas eu acho que não preciso de um lugar para passar
hoje a noite. Acho... que vou voltar para casa.”
????
Jace ficou sozinho no telhado, olhando acima a cidade, o East River
uma cobra negra prateada serpenteando entre Brooklyn e Manhattan. Suas
mãos, seus lábios, ainda quentes do toque de Clary, mas o vento no rio era
gelado, e o calor estava apagando rápido. Sem uma jaqueta o ar cortava
através do material fino de sua camisa, como a lâmina de uma faca.
Ele puxou um profundo fôlego, sugando o ar frio para seus pulmões,
e o soltou lentamente. Seu corpo inteiro sentia-se tenso. Ele estava
esperando pelo som do elevador, as portas se abrindo, os Caçadores de
Sombras inundando o jardim. Eles seriam primeiro solidários, ele pensou,
preocupados sobre ele. Então, quando eles entendessem o que tinha
acontecido — então viria o modo desconfiado, os olhares significativos
trocados quando pensassem que ele não estava olhando. Ele tinha sido
possuído — não só por um demônio, mas um Demônio Maior — tinha agido
contra a Clave, tinha ameaçado e machucado outro Caçador de Sombras.
Ele pensou em como Jocelyn olharia para ele quando escutasse o que
ele tinha feito a Clary. Luke poderia entender, perdoar. Mas Jocelyn. Ele
nunca tinha sido capaz de falar para ela honestamente, dizer as palavras
que poderiam tranquilizá-la. Eu amo sua filha, mas do que eu mesmo
pensei que fosse possível amar qualquer coisa. Eu nunca iria machucá-la.
Ela apenas olharia para ele, ele pensou, com aqueles olhos verdes que eram
tão iguais ao de Clary. Ela iria querer mais do que isso. Ela iria querer ouvi-
lo dizer que ele não tinha certeza que falava a verdade.
Eu não sou como Valentine.
Não é? As palavras pareceram carregadas no ar frio, um sussurro
apenas para seus ouvidos. Você nunca conheceu sua mãe. Você nunca
conheceu seu pai. Você deu seu coração a Valentine quando era uma
criança, como as crianças fazem, e você fez a si mesmo uma parte dele.
Você não pode tirar isso de si mesmo com um corte limpo de uma lâmina.
Sua mão esquerda estava fria. Ele olhou abaixo e viu, para seu
choque, que de algum modo ele tinha pegado o punhal — o punhal de prata
gravada de seu verdadeiro pai — e o estava segurando em sua mão. A
lâmina, embora corroída pelo sangue de Lilith, estava sem danos agora, e
brilhava como uma promessa. Um frio, que não tinha nada haver com o
tempo, começou a se espalhar através do seu peito. Quantas vezes ele
tinha acordado daquela maneira, arfando e suando, o punhal em sua mão?
E Clary, sempre Clary, morta aos seus pés.
Mas Lilith estava morta. Acabou. Ele tentou deslizar o punhal em seu
cinto, mas sua mão não parecia querer obedecer ao comando que sua
mente estava dando. Ele sentiu uma sensação de ferroadas de calor em seu
peito, uma dor ardente. Olhando abaixo, ele viu que a fina linha de sangue
que tinha dividido a marca de Lilith ao meio, onde Clary tinha cortado com a
faca, tinha curado. A marca brilhava avermelhada contra seu peito.
Jace parou de tentar enfiar o punhal em seu cinto. Os nós de seus
dedos tornaram-se brancos enquanto sua contenção apertava-se sobre o
cabo, seu pulso girou, desesperadamente tentando virar a lâmina sobre si
mesmo. Seu coração estava martelando. Ele não tinha aceitado as iratzes.
Como a marca tinha curado tão rápido? Se ele pudesse cortá-la de novo,
desfigurá-la, mesmo temporariamente—
Mas sua mão não o obedeceria. Seu braço ficou imóvel em seu lado
como seu corpo se tornou, contra sua própria vontade, em direção ao
pedestal onde o corpo de Sebastian repousava.
O caixão tinha começado a brilhar, com uma nuvem de luz
esverdeada — quase o brilho de uma luz encantada, mas havia algo de
doloroso sobre esta luz, algo que parecia penetrar nos olhos. Jace tentou
dar um passo para trás, mas suas pernas não se moviam. Suor gelado
gotejou em suas costas. Uma voz sussurrou em sua mente.
Venha aqui.
Era a voz de Sebastian.
Você acha que está livre por que Lilith se foi? A mordida do vampiro
me acordou; agora o sangue dela em minhas veias o impele.
Venha aqui.
Jace tentou afundar seus calcanhares, mas seu corpo o traiu, o
carregando a frente, embora sua mente consciente esforçasse contra isso.
Mesmo quando ele tentou vacilar, seus pés moveram-se a frente no
caminho, em direção ao caixão. O círculo pintado brilhou verde enquanto
ele se movia através dele, e o caixão pareceu responder com um segundo
flash de luz esmeralda, E então ele está em pé a frente dele, olhando
abaixo.
Jace mordeu forte seu lábio, esperando que a dor pudesse tirá-lo do
estado de sonho que ele estava. Não funcionou. Ele sentiu o gosto de seu
próprio sangue enquanto ele olhava para Sebastian, que flutuava como um
corpo afogado na água. Aquelas são as pérolas que são seus olhos. Seus
cabelos eram algas incolores, seus cílios fechados azuis. Sua boca tinha um
conjunto frio e rígido da boca de seu pai. Era como olhar para um jovem
Valentine.
Sem sua vontade, absolutamente contra sua vontade, as mãos de
Jace começaram a levantar. Sua mão esquerda permaneceu na ponta de
seu punhal contra o lado de dentro de sua palma direita, onde as linhas de
vida e amor cruzavam uma na outra.
Palavras se derramaram de seus lábios. Ele as escutou como se
vindas de uma distância imersa. Elas não eram em uma língua que ele
conhecia ou entendia, mas ele sabia o que elas eram — ritual de invocação.
Sua mente estava gritando para seu corpo parar, mas isso pareceu não
fazer diferença. Sua mão esquerda veio abaixo, a faca apertada nela. A
lâmina fatiou um raso corte, limpo, certo através de sua palma direita.
Quase instantaneamente ela começou a sangrar. Ele tentou puxar de volta,
tentou empurrar seu braço para longe, mas era como se ele tivesse preso
em cimento. Enquanto ele observava com horror, as primeiras gotas de
sangue espalharam-se sobre o rosto de Sebastian.
Os olhos de Sebastian se abriram. Eles eram negros, mais negros do
que os de Valentine, tão negros quanto os da demônio que tinha chamado a
si mesma
de sua mãe. Eles se fixaram sobre Jace, como grandes espelhos negros,
dando a ele de volta sua própria face, retorcida e irreconhecível, sua boca
formando as palavras do ritual, derramando em seguida em um balbuciar
sem sentido como um rio de água negra.
O sangue estava fluindo mais livremente agora, tornando o nebuloso
líquido dentro do caixão um vermelho mais escuro. Sebastian se moveu. A
água ensanguentada deslocou e derramou enquanto ele se sentava, seus
olhos negros fixos em Jace.
A segunda parte do ritual. A voz dele falou dentro da cabeça de Jace.
Ele está quase completo.
Água escoou dele como lágrimas. Seu cabelo pálido, emplastrado em
sua testa, parecia não ter cor. Ele levantou uma mão e a estendeu, e Jace,
contra o grito dentro de sua mente, estendeu o punhal, lâmina a frente.
Sebastian deslizou sua mão ao longo do comprimento da fria e afiada
lâmina. Sangue brotou em uma linha através de sua palma. Ele atirou a
faca de lado e tomou a mão de Jace, a apertando com sua própria.
Ela era a última coisa que Jace tinha esperado. Ele não podia se
mover para puxá-la. Ele sentiu cada dedo frio de Sebastian enquanto eles
envolviam sua mão, pressionando seus cortes juntos. Era com ser apertado
pelo metal frio. Gelo começou a se espalhar nas veias de sua mão. Um
tremor passou sobre ele, e então outro, poderosos tremores físicos tão
dolorosos, parecia como se seu corpo estivesse sendo virado ao avesso. Ele
tentou gritar—
E o grito morreu em sua garganta. Ele olhou abaixo para as mãos
dele e de Sebastian, apertadas juntas. Sangue corria através de seus dedos
e abaixo em seus pulsos, tão elegantes quanto renda vermelha. Ele brilhou
na fria luz elétrica da cidade. Se movia não como líquido, mas como fios
vermelhos em movimento. Ele envolvia suas mãos juntas em uma ligação
escarlate.
Uma peculiar sensação de paz assaltou Jace. O mundo pareceu
dissolver-se, e ele estava em pé sobre o pico de uma montanha, o mundo
se esticando diante dele, tudo nele seu, para o tomar. As luzes da cidade
em torno dele não eram mais elétricas, mas era a luz de milhares de
diamantes — como estrelas. Elas pareciam brilhar sob ele com seu
benevolente brilho que dizia, Isso é bom. Isso é correto. Isso é o que seu
pai teria desejado.
Ele viu Clary em sua mente, seu rosto pálido, o caimento de seu
cabelo ruivo, sua boca enquanto se movia, formando as palavras: Eu
voltarei. Cinco minutos.
E então a voz desapareceu enquanto outro falar sobrepujava ele, o
afogando. A imagem dela em sua mente regrediu, varrida suplicantemente
na escuridão, como Euridice tinha desaparecido quando Orfeu tinha se
virado para olhar para ela pela última vez. Ela a viu, seus braços brancos
estendendo-se a ele, e então as sombras se fecharam sobre ela e ela se foi.
Uma nova voz falou na mente de Jace agora, uma voz familiar, uma
odiada, agora estranhamente bem-vinda. A voz de Sebastian. Ela pareceu
vir através do sangue, através do sangue que passava pela mão de
Sebastian na dele, como uma corrente impetuosa.
Nós somos um agora, irmãozinho, você e eu, Sebastian disse.
Nós somos um.
FIM.
A série Instrumentos Mortais continua em City Of Lost Souls, que será
publicado em maio de 2012.
(se o mundo não tiver acabado até lá)
18
Capítulo 18
CICATRIZES DE FOGO
NUVENS HAVIAM ROLADO SOBRE O RIO, DO MODO QUE ELAS faziam
às vezes a noite, trazendo uma névoa espessa com elas. Não escondeu o
que estava acontecendo no telhado, apenas deitava uma espécie de
nevoeiro obscuro sobre tudo o mais. Os prédios se elevando em torno deles
eram sombrios pilares de luz, e a lua mal cintilava, uma lâmpada abafada,
através das nuvens baixas passageiras. Os pedaços de vidro quebrados do
caixão, espalhados no piso de azulejos, brilhavam como cacos de gelo, e
Lilith, também, brilhava, pálida sob a lua, observando Simon enquanto ele
se inclinava sobre o corpo imóvel de Sebastian, bebendo seu sangue.
Clary mal podia suportar olhar. Ela sabia que Simon odiava o que ele
estava fazendo; ela sabia que ele estava fazendo isso por ela. Por ela, e até
mesmo um pouquinho por Jace. E ela sabia qual seria o próximo passo no
ritual. Simon daria seu sangue, de boa vontade, a Sebastian, e Simon
morreria. Vampiros podiam morrer quando seu sangue era drenado. Ele
morreria, e ela o perderia para sempre — e isso — tudo isso — seria sua
própria culpa.
Ela podia sentir Jace atrás dela, seus braços ainda apertados em
torno dela, o suave e regular palpitar de seu coração contra suas
omoplatas. Ela se lembrou do modo que ele a tinha abraçado nos degraus
do Salão dos Acordos em Idris. O som do vento nas folhas enquanto ele a
beijava, suas mãos quentes em cada lado de seu rosto. O modo que ela
tinha sentido o coração dele bater e embora o batimento do coração de
ninguém mais fosse como o dele, como cada pulsação de seu sangue
combinasse com o dela própria.
Ele tinha que estar lá em algum lugar. Como Sebastian dentro de sua
prisão de vidro. Tinha que haver algum modo de alcançá-lo.
Lilith estava observando Simon enquanto ele se inclinava sobre
Sebastian, seus olhos escuros grandes e fixos. Clary e Jace poderiam muito
bem não ter estado lá.
“Jace”, Clary sussurrou. “Jace, eu não quero ver isso.”
Ela se pressionou contra ele, como se ela estivesse tentando se
aconchegar nos braços dele, então fingiu um retrair quando a faca roçou no
lado de sua garganta.
“Por favor, Jace”, ela sussurrou. ”Você não precisa da faca. Você sabe
que eu não posso te ferir.”
“Mas por que—“
“Eu apenas quero olhar para você. Quero ver seu rosto.”
Ela sentiu o peito dele subir e cair uma vez, rápido. Um tremor veio
através dele, como se ele estivesse lutando com algo, se afastando contra
isso. Então ele se moveu, do modo que só ele podia se mover, tão
rapidamente que era como um flash de luz. Ele manteve seu braço direito
apertado ao redor dela, sua mão esquerda deslizou a faca em seu cinto.
Seu coração pulou selvagemente. Eu podia correr, ela pensou, mas
ele simplesmente a alcançaria, e isso era apenas num instante. Segundos
depois ambos os braços vieram ao redor dela, as mãos dele em seus
braços, a virando. Ela sentiu os dedos deles traçarem suas costas, seus
braços nus arrepiando, enquanto ele a virava para encará-lo.
Ela estava olhando para longe de Simon agora, longe da mulher
demônio, embora ela pudesse sentir a presença deles em suas costas,
arrepiando sua espinha. Ela olhou para Jace. Seu rosto era tão familiar. As
linhas nele, o modo de seu cabelo cair em sua testa, a cicatriz apagada em
sua bochecha, outra em sua têmpora. Os cílios, uma matiz mais escura que
seu cabelo. Seus olhos eram da cor de um vidro amarelo pálido. Era onde
ele estava diferente, ela pensou. Ele ainda parecia como Jace, mas seus
olhos eram claros e inexpressivos, como se ela estivesse olhando através de
uma janela para um quarto vazio.
“Eu estou com medo”, ela disse.
Ele afagou seu ombro, enviando fagulhas através de seus nervos;
com uma sensação doentia, ela percebeu que seu corpo ainda respondia ao
toque dele. “Eu não deixarei nada acontecer a você.”
Ela olhou para ele. Você realmente acha isso, não é? De algum modo
você não pode ver a falta de conexão entre suas ações e suas intenções. De
algum modo ela afastou isso de você.
“Você não será capaz de impedi-la”, ela disse. “Ela vai me matar,
Jace.”
Ele sacudiu sua cabeça. “Não. Ela não faria isso.”
Clary queria gritar, mas ela manteve sua voz deliberada, cautelosa,
calma. ”Eu sei que você está ai, Jace. O verdadeiro você.” Ela pressionou
mais perto dele. A fivela do cinto dele cavando em sua cintura. “Você
poderia lutar...”
Isso foi a coisa errada a se dizer. Ele se enrijeceu, e ela viu um flash
de angústia nos olhos dele, o olhar de um animal em uma gaiola. No
instante seguinte se tornou inflexível. “Não posso.”
Ela estremeceu. O olhar no rosto dele era terrível, tão terrível. Com
seu tremor os olhos dele se suavizaram. “Você está com frio?” Ele disse e
por um momento ele soou como Jace de novo, preocupado com seu bem
estar. Isso fez sua garganta doer.
Ela acenou, embora o frio físico fosse a última coisa em sua mente.
“Posso por minhas mãos dentro de sua jaqueta?”
Ele concordou. Sua jaqueta estava desabotoada; ela deslizou seus
braços dentro, suas mãos tocando as costas dele levemente. Tudo estava
estranhamente silencioso. A cidade parecia congelada dentro de um prisma
gelado. Mesmo a luz irradiada dos prédios ao redor deles parecia imóvel e
fria.
Ele respirou lentamente, regular. Ela podia ver a runa sobre seu peito
através do tecido rasgado da blusa dele. Parecia pulsar quando ele
respirava. Era doentia, ela pensou, anexada a ele desse jeito, como uma
sanguessuga, sugando o que era bom, o que era Jace.
Ela se lembrou do que Luke tinha dito a ela sobre destruir uma runa.
Se você desfigurá-la o suficiente, você pode minimizar ou destruir seu
poder.
Algumas vezes na batalha o inimigo tentará queimar ou remover a
pele do Caçador de Sombras, só para privá-lo do poder de suas runas.
Ela manteve seus olhos fixos no rosto de Jace. Esqueça o que está
acontecendo, ela pensou. Esqueça sobre Simon, sobre a faca em sua
garganta. O que você diz agora importa mais do que qualquer outra coisa
que você tenha dito antes.
“Lembra-se do que você me disse no parque?” Ela sussurrou.
Ele olhou abaixo para ela, surpreso. “O que?”
“Quando eu disse que não falava italiano. Eu me lembro do que você
me disse, do que aquela citação significava. Você disse que ela significava
que o amor é a força mais poderosa na Terra. Mais poderosa do que
qualquer outra coisa.”
Uma linha minúscula apareceu entre as sobrancelhas dele. “Eu não...”
“Sim, você lembra.” Continue cuidadosamente, ela disse para si
mesma, mas ela não podia se impedir, não podia conter aquela tensão que
veio à tona em sua voz. ”Você se lembra. A mais poderosa força que há,
você disse. Mais forte que o céu ou o inferno. Ela é mais poderosa que Lilith
também.”
Nada. Ele a encarava como se não pudesse ouvi-la. Era como gritar
em um escuro túnel vazio. Jace, Jace, Jace. Eu sei que você está ai.
“Há um modo que você poderia me proteger e ainda fazer o que ela
quer”, ela disse. “Não seria esta a melhor coisa?” Ela pressionou seu corpo
mais perto contra ele, sentindo seu estômago contorcer. Era como abraçar
Jace e não como isso, tudo ao mesmo tempo, alegria e horror misturados
juntos. E ela podia sentir o corpo dele reagir ao dela, a batida do coração
dele em seus ouvidos, suas veias; ele não tinha parado de querê-la,
qualquer que fossem as camadas de controle que Lilith exercia sobre sua
mente.
“Eu a sussurrarei para você”, ela disse, roçando seus lábios contra o
pescoço dele. Ela respirou o cheiro dele, tão familiar quanto o cheiro de sua
própria pele. “Escute.”
Ela inclinou seu rosto acima, e ele se inclinou para ouvi-la — e sua
mão se moveu da cintura dele para segurar o cabo da faca no cinto dele.
Ela a lançou acima, do modo que ele tinha mostrado a ela quando eles
treinaram, balançando seu peso em sua palma, e golpeou a lâmina através
do lado esquerdo do peito dele em um enorme e raso arco. Jace gritou —
mais em surpresa do que dor, ela adivinhou — o sangue irrompeu do corte,
vertendo em sua pele, obscurecendo a runa. Ele colocou a mão em seu
peito; quando ela se tornou vermelha, ele olhou para ela, seus olhos
imensos, como se de algum modo ele estivesse genuinamente ferido,
genuinamente incapaz de acreditar na traição dela.
Clary girou para longe dele enquanto Lilith gritava, Simon não estava
mais curvado sobre Sebastian; ele tinha se empertigado e estava olhando
para Clary, as costas da mão dele comprimidas contra sua boca. Sangue
negro de demônio pingava de seu queixo em sua camisa branca. Seus olhos
estavam arregalados.
“Jace”, A voz de Lilith soou em espanto. ”Jace, pegue-a — eu ordeno
—“
Jace não se moveu. Ele estava olhando para Clary, para Lilith, sua
mão ensangüentada, e de volta de novo. Simon tinha começado a se
afastar de Lilith; de repente ele parou com uma sacudida e se dobrou,
caindo de joelhos. Lilith rodopiou distanciando-se de Jace e avançou para
Simon, sua face rígida contorcida. “Levante-se”, ela gritou. “Fique de pé!
Você bebeu o sangue dele. Agora ele precisa do seu!”
Simon lutou para se sentar, então deslizou flácido para o chão. Ele
teve ânsia de vômito, tossindo sangue preto. Clary se lembrou dele em
Idris, dizendo que o sangue de Sebastian era como veneno. Lilith recuou
seu pé para chutá-lo — então cambaleou como se uma mão invisível tivesse
empurrado ela, forte. Lilith guinchou — sem palavras, apenas um grito
como o choro de uma coruja. Era o som do autêntico ódio e fúria.
Não era um som que um ser humano podia ter feito; parecia como
cacos de vidros afiados sendo dirigidos aos ouvidos de Clary. Ela gritou,
”Deixe Simon em paz! Ele está doente.Você não vê que ele está doente?”
Ela imediatamente lamentou de ter falado. Lilith se virou lentamente,
seu olhar deslizando para Jace, frio e imperioso. “Eu te disse, Jace
Herondale.” Sua voz soou. “Não deixe a garota sair do círculo. Tire a arma
dela.”
Clary mal tinha percebido que ela ainda estava segurando a faca. Ela
se sentia tão fria que estava quase dormente, mas por baixo disso uma
corrente de incontrolável fúria por Lilith — por tudo — libertou o movimento
de seu braço. Ela jogou a faca no chão. Ela derrapou nos azulejos,
alcançando os pés de Jace. Ele olhou abaixo cegamente, como se ele nunca
tivesse visto uma arma antes.
A boca de Lilith era um fino talho vermelho. Os brancos de seus olhos
tinham desaparecido, eles estavam todo negro. Ela não parecia humana.
“Jace”, ela sibilou. ”Jace Herondale, você me ouviu. E irá me obedecer.”
“Pegue-a”, Clary disse, olhando para Jace. “Pegue-a e mate ela ou a
mim. É sua escolha.”
Lentamente Jace se curvou e pegou a faca.
????
Alec tinha Sandalphon em uma mão, uma hachiwara — boa para se
esquivar de múltiplos ataques — na outra. Pelo menos seis discípulos
estendidos a seus pés, mortos ou inconscientes.
Alec tinha lutado com muito poucos demônios em seu tempo, mas
havia algo de especialmente estranho sobre lutar com os discípulos da
Igreja de Talto. Eles se moviam em conjunto, menos como pessoas e mais
como uma sombria onda estranha — estranha por que eles eram tão
silenciosos e tão bizarramente fortes e rápidos. Eles pareciam também
totalmente sem medo da morte. Embora Alec e Isabelle gritassem para eles
manterem-se para trás, eles se mantinham movimentando a frente em uma
horda muda, arremessando a si mesmos nos Caçadores de Sombras com a
autodestrutiva insensatez de roedores se jogando de um precipício. Eles
tinham acuado Alec e Isabelle no saguão e para o grande salão aberto de
pedestais de pedra, quando o ruído da luta trouxeram Jordan e Maia
correndo; Jordan na forma de lobo, Maia ainda humana, mas com as garras
inteiramente para fora.
Os discípulos mal pareceram registrar a presença deles. Eles lutaram,
caindo um após o outro enquanto Alec, Maia, e Jordan atacavam a esmo
com facas, garras, e lâminas. Os padrões cintilantes do chicote de Isabelle
no ar enquanto ele recortava através de corpos, enviando finas rajadas de
sangue no ar. Maia especialmente estava se saindo bem. Pelo menos uma
dúzia de discípulos jaziam caídos em torno dela, e ela estava sobre outro
com uma fúria ardente, suas mãos em garras, vermelhas até os pulsos.
Um discípulo atravessou o caminho de Alec e se jogou nele, mãos
esticadas. Seu capuz estava levantado; ele não podia ver seu rosto, ou
adivinhar o sexo ou idade. Ele enviou a lâmina de Sandalphon no lado
esquerdo de seu peito. Aquilo gritou — um grito masculino, alto e rouco. O
homem caiu, agarrado a seu peito, onde chamas estavam lambendo as
margens do buraco em seu casaco. Alec se afastou, esgotado. Ele odiava
observar o que acontecia a humanos quando uma lâmina serafim perfurava
suas peles.
Subitamente ele sentiu um calor atravessar suas costas, e se virou
para ver um segundo discípulo empunhando um pedaço irregular de
vergalhão. Este estava sem capuz — um homem, seus rosto tão magro que
suas bochechas pareciam que estavam enterradas em sua pele. Ele sibilou e
se jogou de novo contra Alec, que saltou de lado, a arma assoviando
inofensivamente por ele. Ele girou e chutou ela da mão do discípulo. Ela
chacoalhou no chão, e ele retrocedeu, quase tropeçando em um corpo — e
fugiu.
Alec hesitou por um momento. O discípulo que o tinha atacado tinha
o feito próximo à porta. Alec sabia que deveria segui-lo — pelo que sabia, o
homem poderia estar fugindo para alertar alguém ou conseguir reforços —
mas ele se sentia muito cansado, nauseado e um pouco indisposto. Essas
pessoas podiam estar possuídas; elas mal podiam ser pessoas, mas ainda
parecia demais matar seres humanos.
Ele se perguntou o que Magnus diria, mas para dizer a verdade, ele
já sabia. Alec tinha combatido criaturas como aquela antes, os servos de
demônios. Quase tudo que era humano neles havia sido consumido pelos
demônios por energia, deixando nada além de assassinos ansiosos por
matar e um corpo humano morrendo lentamente em agonia. Eles estavam
além do socorro: incuráveis, irreparáveis. Ele ouviu a voz de Magnus como
se o bruxo estivesse diante dele. Matá-los é a coisa mais misericordiosa que
você pode fazer.
Enfiando sua hachiwara em seu cinto, Alec começou a perseguição,
atravessando a porta e no corredor atrás do discípulo fugitivo. O corredor
estava vazio, as portas dos elevadores distantes abertas, um estranho
alarme alto soou no corredor. Várias entradas se bifurcaram do saguão.
Indiferente, Alec escolheu uma aleatoriamente e se lançou através dela.
Ele se achou em um labirinto de pequenas salas que eram mal
acabadas — chapas de parede tinham sido precipitadamente levantadas, e
buquês de fios multicoloridos brotavam de buracos nas paredes. A lâmina
serafim jogou uma colcha de retalhos de luz através das paredes enquanto
ele se movia cautelosamente entre as salas, seus nervos a flor da pele. Um
ponto de luz captou movimento, e ele saltou. Abaixando a lâmina, ele viu
um par de olhos e um pequeno corpo cinza deslizando em um buraco na
parede, a boca de Alec retorceu. Esta era a Nova York para você. Mesmo
em um prédio tão novo quanto esse, haviam ratos.
Finalmente as salas se abriram em um largo espaço — não tão largo
quanto a sala com os pedestais, mas mais considerável que as outras.
Havia uma parede de vidro aqui, com papelão com fita de um lado a outro
nas divisões nela.
Uma forma escura estava agachada em um canto da sala, perto de
uma seção de tubulação exposta. Alec se aproximou cuidadosamente. Era
um truque de luz? Não, a forma era reconhecidamente humana, uma
curvada figura agachada em roupas escuras. A runa de visão noturna de
Alec fisgou enquanto ele estreitava seus olhos, movendo-se a frente. A
forma era uma mulher esbelta, pés descalços, mãos acorrentadas em frente
a ela numa extensão de cabo. Ela levantou sua cabeça enquanto Alec se
aproximava, e a luz fraca que se derramava pela janela, iluminou seu pálido
cabelo loiro.
“Alexander?” Ela disse, sua voz cheia de descrença. “Alexander
Lightwood?”
Era Camille.
????
“Jace.” A voz de Lilith veio como um chicote através da carne;
mesmo Clary encolheu-se ao som dela. “Eu te ordeno—“
O braço de Jace se jogou para trás — Clary tensa, se retesou — e ele
jogou a faca em Lilith. Ela chicoteou no ar, girando, e se enterrou em seu
peito; ela tropeçou para trás, fora de equilíbrio. Os saltos de Lilith
derraparam na pedra suave; a demônio se endireitou com um rosnado,
alcançando-a para arrancar a faca de suas costelas. Cuspindo algo em uma
linguagem que Clary não podia entender, ela a deixou cair. Ela caiu
retinindo ao chão, sua lâmina meio comida, como se por um poderoso
ácido.
Ela girou para Clary. “O que você fez a ele? O que você fez?” Seus
olhos tinham sido todo negros a um momento atrás. Agora, eles pareciam
protuberados e sobressaídos. Pequenas serpentes negras deslizaram dos
buracos dos olhos, Clary gritou e se afastou, quase tropeçando em uma
cerca viva baixa. Esta era a Lilith que tinha visto na visão de Ithuriel com
seus olhos deslizantes e voz áspera ecoante. Ela avançou para Clary—
E, de repente, Jace estava entre elas, bloqueando o caminho de
Lilith, Clary viu. Era ele mesmo de novo. Ele parecia arder com um fogo
justiceiro, como Raziel tinha no Lago Lyn naquela horrível noite. Ele puxou a
lâmina serafim de seu cinto; o branco prateado dela refletia em seus olhos;
sangue pingava da fenda em sua camisa e alisava sua pele. O modo que ele
olhava para ela, para Lilith — se os anjos pudessem ascender do inferno,
Clary pensou, eles pareceriam assim. “Michael,” ele disse, e Clary não tinha
certeza se era a força do nome, ou a fúria em sua voz, mas a lâmina que
ele segurava ardeu mais brilhante do que qualquer outra lâmina que ela
tenha visto. Ela, por um momento, olhou de lado, cega, e viu Simon deitado
em uma pilha amontoada sombria ao lado do caixão de vidro de Sebastian.
Seu coração contorceu em seu peito. O sangue demoníaco de
Sebastian o tinha envenenado? A marca de Caim não o ajudaria. Era algo
que ele tinha desejado. Por ela. Simon.
“Ah, Michael”, A voz de Lilith estava cheia de riso enquanto ela se
movia em direção a Jace. “O capitão das hostes do Senhor. Eu o conheci.”
Jace levantou a lâmina serafim; ela queimou como uma estrela, tão
brilhante que Clary se perguntou se toda a cidade poderia vê-la, como um
holofote riscando o céu. “Não chegue mais perto.”
Lilith, para a surpresa de Clary, parou. “Michael matou o demônio
Sammael, a quem eu amava.” Ela disse. “Por que isso, Caçadorzinho de
Sombras, que seus anjos são tão frios e sem misericórdia? Por que eles
destroem o que não obedecerá a eles?“
“Eu não tinha ideia que você era defensora de tal livre arbítrio”, Jace
disse, e o modo que disse isso, sua voz pesada com o sarcasmo,
reassegurou mais a Clary que ele era si mesmo de novo, do que qualquer
outra coisa seria. ”Então, que tal nos deixar sair desse telhado agora? Eu,
Simon e Clary? O que você diz, demônio? Acabou. Você não me controla
mais. Eu não machucarei Clary, e Simon não lhe obedecerá. E esse pedaço
de porcaria que você está tentando ressuscitar — eu sugiro que você se
livre dele antes que ele comece a apodrecer. Por que ele não vai voltar, e
ele está a caminho de passar da validade.”
O rosto de Lilith se contorceu. Ela cuspiu em Jace, e seu cuspe era
uma chama negra que acertou o chão e se tornou uma cobra que se
contorceu em direção a ele, sua mandíbula boquiaberta. Ele a esmagou com
a bota e a arremeteu para o demônio, lâmina estendida, mas Lilith se fora
como uma sombra quando a luz brilhou nela, sumindo e reaparecendo bem
atrás dele. Enquanto ele girava, ela levantou o braço quase
preguiçosamente e bateu sua palma aberta contra o seu peito.
Jace saiu voando, Michael golpeada de sua mão, deslizando nos
azulejos de pedra. Jace voou no ar e atingiu a parede baixa do teto com tal
força que linhas de estilhaço apareceram na pedra. Ele bateu forte no chão,
visivelmente atônito.
Arfando, Clary correu para a lâmina serafim caída, mas nunca a
alcançou. Lilith apanhou Clary com duas magras mãos geladas, e a atirou
com uma força incrível. Clary colidiu em uma cerca baixa, os galhos
cortando brutalmente sua pele, abrindo longos cortes. Ela lutou para se
libertar, seu vestido emaranhado na folhagem. Ela escutou a seda rasgar
enquanto se libertava e virava para ver Lilith arrastar Jace em pé, sua mão
apressou-se na frente ensanguentada da camisa dele.
Ela sorriu para ele, e seus dentes eram pretos também, e brilharam
como metal. “Estou feliz que você esteja de pé, pequeno Nephilim. Eu quero
ver seu rosto quando eu te matar, não apunhalando você nas costas como
você fez com meu filho.”
Jace enxugou seu rosto com sua manga; ele estava sangrando do
longo corte em sua bochecha, e o tecido ficou vermelho. “Ele não é seu
filho. Você deu um pouco de sangue a ele. Isso não faz dele seu. Mãe dos
bruxos—” ele virou sua cabeça e cuspiu, sangue. “Você não é mãe de
ninguém.”
Os olhos de cobra de Lilith se lançaram para frente e para trás
furiosamente. Clary, desemaranhando-se dolorosamente da cerca, viu que
cada cabeça de cobra tinha dois olhos em si, brilhantes e vermelhos. O
estômago de Clary revirou enquanto as cobras se moviam, seus olhares
parecendo deslizar acima e abaixo no corpo de Jace. “Cortou a minha runa.
Que rude.” Ela cuspiu.
“Mas eficaz”, Jace disse.
“Você não pode me vencer, Jace Herondale.” Ela disse. ”Você podia
ser o maior Caçador de Sombras do mundo conhecido, mais eu sou mais do
que um Demônio Maior.”
“Então, lute comigo”, disse Jace. “Eu te darei uma arma. Eu terei
minha lâmina serafim. Lute comigo, um contra um, e veremos quem
vence.”
Lilith olhou para ele, sacudindo sua cabeça lentamente, o cabelo
escuro girando em torno dela como fumaça. “Eu sou o mais velho dos
demônios”, ela disse. “Eu não sou um homem. Eu não tenho orgulho
masculino para você me enganar com isso, e eu não estou interessada em
um luta individual. Esta é a fraqueza de seu sexo, não meu. Eu sou uma
mulher. Eu usarei qualquer arma e todas as armas para conseguir o que eu
quero.” Ela então o soltou, com um empurrão desdenhoso. Jace tropeçou
por um momento, se empertigando rapidamente e alcançando o chão em
direção a lâmina brilhante de Michael.
Ele a levantou enquanto Lilith ria e levantava suas mãos. Sombras
meio opacas explodiram de suas palmas abertas. Mesmo Jace pareceu
chocado enquanto as sombras solidificavam em formas, as formas gêmeas
de demônios ensombrecidas com cintilantes olhos vermelhos. Elas atingiram
o chão e rosnaram. Eram cães. Clary pensou estupefata, dois delgados
cachorros pretos parecendo cruéis que vagamente lembravam dobermanns.
“Guardiões do inferno36,” Jace respirou. “Clary—“
Ele se interrompeu quando um dos cachorros saltou na direção dele,
sua boca aberta tão imensa quanto a de um tubarão, um alto uivo latido
irrompendo de sua garganta. Um momento depois o segundo saltou no ar,
lançando-se em direção a Clary.
????
“Camille”, a cabeça de Alec estava girando. “O que você está fazendo
aqui?”
Hellhound – Cérbero. Guardiões das portas dos inferno.
Ele imediatamente percebeu que soou como um idiota. Ele lutou com
o desejo de dar uma pancada em sua própria testa. A última coisa que ele
queria era parecer como um tolo na frente da ex-namorada de Magnus.
“Foi Lilith”, disse a vampira em uma voz baixa e trêmula. “Ela fez
seus discípulos entrarem no Santuário. Ele não é guardado contra humanos,
e eles são humanos — o bastante. Eles quebraram minhas correntes e me
trouxeram aqui, para ela.“ Ela levantou suas mãos, as correntes ligando
seus pulsos ao cano rangeram. “Eles me brutalizaram.”
Alec se agachou, trazendo seus olhos ao mesmo nível dos da Camille.
Vampiros não tinham hematomas - eles se curavam muito rapidamente
para isso — mas seu cabelo estava emaranhado com sangue no lado
esquerdo, que fez ele pensar que ela estava falando a verdade. “Vamos
dizer que eu acredito em você”, ele disse. “O que ela queria com você?
Nada que eu saiba sobre Lilith diz que ela tem um particular interesse em
vampiros.”
“Você sabe por que a Clave estava me prendendo,” ela disse. “Você
deve ter ouvido.”
“Você matou três Caçadores de Sombras. Magnus disse que você
alegava estar fazendo isso por que alguém tinha ordenado—“ ele se
interrompeu. “Lilith?”
“Se eu te disser, você me ajudará?” O lábio inferior de Camille
tremia. Seus olhos estavam imensos, verdes, suplicantes. Ela era muito
bonita. Alec se perguntou se ela tinha alguma vez olhado para Magnus
daquele jeito. Isso o fez querer sacudi-la.
“Eu poderia”, ele disse, atônito com a frieza em sua própria voz.
“Você não tem muito poder de barganha aqui. Eu poderia sair e deixar você
para Lilith ter, isso não faria muita diferença para mim.”
“Sim, faria.” Ela disse. Sua voz era baixa, “Magnus te ama. Ele não te
amaria se você fosse o tipo de pessoa que abandona alguém indefeso.”
“Ele amava você”, Alec disse.
Ela deu um sorriso melancólico. “Ele parece ter escolhido melhor
desde então.”
Alec balançou para trás em seus calcanhares levemente. “Olhe”, ele
disse, “me diga a verdade. Se você o fizer, eu te liberto e a levo para a
Clave. Eles a tratarão melhor do que Lilith trataria.”
Ela olhou para seus pulsos, acorrentados ao cano. “A Clave me
acorrentou”, ela disse. “Lilith me acorrentou. Vejo pouca diferença no
tratamento entre os dois.”
“Então, eu acho que é sua escolha. Confiar em mim, ou confiar nela.”
Alec disse. Era uma aposta, ele sabia.
Ele esperou por alguns instantes tensos antes que ela dissesse,
”Muito bem, se Magnus confia em você, eu confiarei.” Ela levantou sua
cabeça, dando seu melhor olhar digno, apesar da roupa rasgada e cabelo
ensanguentado. “Lilith veio a mim, não eu a ela. Ela tinha ouvido falar que
eu estava procurando recobrar minha posição como líder do clã de
Manhattan de Raphael Santiago. Ela disse que me ajudaria, se eu a
ajudasse.”
“Ajudá-la a assassinar Caçadores de Sombras?”
“Ela queria o sangue deles”, Camille disse. ”Era para aqueles bebês.
Ela estava injetando sangue de Caçadores de Sombras e sangue demoníaco
em suas mães, tentando copiar o que Valentine fez a seu filho. Embora, não
funcionasse. Os bebês tornaram-se coisas deformadas — e então eles
morreram.” Apanhando o olhar revoltado dele, ela disse. “Primeiro eu não
sabia o que ela queria com o sangue. Você pode não pensar muito de mim,
mas eu não tenho inclinação para assassinar inocentes.”
“Você não tinha que fazer isso”, Alec disse. ”Só por que ela ofereceu.”
Camille sorriu cansada. “Quando você é tão velho como eu sou”, ela
disse, ”é por que você aprendeu a jogar corretamente — fazer as alianças
certas nos momentos certos. Aliar-se não só com o mais poderoso, mas
com aqueles que você acredita que farão você poderoso. Eu sabia que se eu
não concordasse em auxiliar Lilith, ela me mataria. Demônios não são de
natureza confiável, e ela pensaria que eu iria a Clave com o que eu sabia
sobre os planos dela de matar Caçadores de Sombras, mesmo se eu
prometesse a ela que ficaria em silêncio. Eu apostei que Lilith era um perigo
maior para mim do que sua espécie era.“
“E você não se importou em matar Caçadores de Sombras.”
“Eles eram membros do Ciclo”, Camille disse. “Eles tinham matado
minha espécie. E a sua.”
“E Simon Lewis? Qual era seu interesse nele?”
“Todos querem o Daylighter do seu lado.” Camille deu de ombros. ”E
eu sabia que ele tinha a Marca de Caim. Um dos vampiros subalternos de
Raphael ainda é leal a mim. Ele passou a informação. Poucos seres do
submundo sabem disso. Isso faz dele um aliado de valor incalculável.”
“É isso que Lilith quer dele?”
Os olhos de Camille se alargaram. Sua pele ficou muito pálida, e por
baixo disso, Alec pode ver que suas veias tinham escurecido, o padrão delas
começando a se espalhar na brancura de seu rosto como alargadas
rachaduras em porcelana. Finalmente, vampiros famintos tornavam-se
selvagens, então perdiam a consciência, uma vez que eles estivessem sem
sangue por muito tempo. Quanto mais velhos eles fosse, mais eles podiam
protelar, mas Alec não se impediu de imaginar quanto tempo havia sido
desde que ela tinha se alimentado. “O que você quer dizer?“
“Aparentemente ela intimou Simon para encontrar com ela.” Alec
disse. “Eles estão em algum lugar neste prédio.”
Camille encarou por um longo momento, então riu. “Uma verdadeira
ironia”, ela disse. “Ela nunca o mencionou para mim, e eu nunca o
mencionei para ela, e ainda assim ambas estávamos atrás dele para nossos
próprios fins. Se ela o quer, é pelo seu sangue”, ela adicionou. ”O ritual que
ela está fazendo é mais seguramente de sangue mágico. O sangue dele —
mistura de sangue do ser do submundo e do Caçador de Sombras — seria
de grande uso para ela.”
Alec sentiu um leve desconforto. “Mas ela não pode machucá-lo. A
Marca de Caim—“
“Ela descobrirá um meio de burlar isso”, Camille disse. “Ela é Lilith, a
mãe dos bruxos. Ela tem estado viva há muito tempo, Alexander.”
Alec ficou de pé. “Então é melhor eu descobrir o que ela está
fazendo.”
As correntes de Camille chacoalharam enquanto ela tentava ficar de
joelhos. “Espere — você disse que me libertaria.”
Alec se virou e olhou ela abaixo. “Eu não disse. Eu disse que deixaria
a Clave ficar com você.”
“Mas se você me deixar aqui, nada impede que Lilith me encontre
primeiro.” Ela jogou seu cabelo emaranhado para trás, linhas de tensão
mostraram-se em sua face. “Alexander, por favor. Eu te imploro—“
“Quem é Will?” Alec disse. As palavras saíram abruptamente,
inesperadas, e para seu horror.
“Will?” Por um momento o rosto dela ficou vazio; então se dobrou em
um olhar de realização, e próximo a diversão. “Você escutou minha
conversa com Magnus.”
“Um pouco dela”, Alec exalou cuidadosamente. “Will está morto, não
está? Quero dizer, Magnus disse que foi há muito tempo atrás que ele o
conheceu...”
“Eu sei o que está te incomodando, pequeno Caçador de Sombras.” A
voz de Camille tornou-se musical e suave. Atrás dela, através das janelas,
Alec podia ver o distante piscar de luzes de um avião que voava sobre a
cidade. ”Primeiro você estava feliz. Você pensou no momento, não no
futuro. Agora você percebeu. Você envelhecerá, e morrerá um dia. E
Magnus não. Ele continuará. Vocês não envelhecerão juntos. Ao invés disso,
vocês se separarão.”
Alec pensou nas pessoas no avião, acima, no ar frio e gelado,
olhando abaixo a cidade como um campo de diamantes cintilando, bem
abaixo. É claro, ele nunca tinha estado em um avião. Ele só estava
adivinhando como isso pareceria, solitário, distante, desconectado do
mundo. “Você não pode saber disso”, ele disse. “Que nós nos
separaremos.”
Ela sorriu com pena. “Você é bonito agora,” ela disse. “Mas você será
em vinte anos? Em quarenta? Cinquenta? Ele amará seus olhos azuis
quando eles se apagarem, sua pele suave quando a idade cortar profundos
vincos nela? Suas mãos quando elas tremerem e ficarem fracas, seu cabelo
quando ficar branco—“
“Cale a boca”, Alec ouviu o estrondo em sua própria voz, e era
envergonhante. “Apenas cale a boca. Eu não quero ouvir isso.”
“Não tem que ser desse modo.“ Camille se inclinou em direção a ele,
seus olhos verdes luminosos. “E se eu te dissesse que você não tem que
envelhecer? Não tem que morrer?”
Alec sentiu uma onda de fúria. “Eu não estou interessado em me
tornar um vampiro. Nem mesmo se incomode em fazer a oferta. Nem se a
única outra alternativa fosse a morte.”
Pelo mais breve dos instantes o rosto dela se contorceu. Isso se foi
em um flash enquanto ela se controlava, ela sorriu um tênue sorriso e
disse, “Esta não era a minha sugestão. Se eu te dissesse que há outro
modo? Outro modo para vocês dois estarem juntos para sempre?”
Alec engoliu em seco. Sua boca estava tão seca quanto papel. “Diga-
me.“ Ele disse.
Camille levantou suas mãos. Suas cadeias agitando. “Corte-as”
“Não. Me diga primeiro.”
Ela sacudiu sua cabeça. “Eu não farei isso.” Sua expressão era tão
rígida quanto mármore, como era sua voz. “Você disse que eu não tinha
nada para barganhar. Mas eu tenho. E eu não a revelarei.”
Alec hesitou. Em sua cabeça ele tinha ouvido a voz suave de Magnus.
Ela é uma mestre em dedução e manipulação. Ela sempre foi.
Mas, Magnus, ele pensou. Você nunca me disse. Nunca me alertou
que seria desse jeito, que eu acordaria um dia e perceberia que iria para
algum lugar que você não poderia me acompanhar. Que nós somos
essencialmente não o mesmo. Não há “até que a morte nos separe” para
aqueles que nunca morrem.
Ele deu um passo em direção a Camille, e então outro. Levantando
seu braço direito, ele trouxe a lâmina serafim abaixo, tão forte quanto ele
podia. Ela tosquiou o metal de suas cadeias; seus pulsos se separaram,
ainda em suas algemas, mas livres. Ela trouxe suas mãos acima, sua
expressão exultante, triunfante.
“Alec”, Isabelle falou da entrada; Alec se virou e a viu em pé lá, seu
chicote do seu lado. Estava manchado de sangue; como estavam as mãos
dela e seu vestido de seda. “O que você está fazendo aqui?”
“Nada. Eu—“ Alec sentiu uma onda de vergonha e horror, quase sem
pensar, ele moveu um passo em frente a Camille, como se ele pudesse
obscurecê-la da visão de sua irmã.
“Eles estão todos mortos.” Isabelle soava sombria. “Os discípulos.
Nós matamos cada um deles. Agora vamos lá. Nós temos que começar a
procurar por Simon.” Ela apertou os olhos para Alec. “Você está bem? Você
parece realmente pálido.”
“Eu a libertei”, Alec botou para fora. “Eu não devia. É só—“
“Libertou quem?” Isabelle deu um passo dentro da sala. A luz
ambiente da cidade cintilou em seu vestido, fazendo ela brilhar como um
fantasma. “Alec, de que besteira você está falando?”
A expressão dela era vazia, confusa. Alec se virou, seguindo seu
olhar, e viu — nada. O cano ainda estava lá, um pedaço da corrente
jazendo ao lado dele, a poeira no chão apenas ligeiramente agitada. Mas
Camille se fora.
????
Clary mal teve tempo de colocar seus braços acima antes que o
guardião do inferno colidisse com ela, uma bala de canhão de músculos e
ossos e respiração quente e fedorenta. Seus pés saíram debaixo, ela se
lembrou de Jace dizendo que o melhor modo de cair, como proteger a si
mesmo, mas o conselho fugiu de sua mente e ela acertou o chão com os
cotovelos, agonia se atirando através dela enquanto a pele se rasgava. Um
momento depois o guardião estava sobre ela, suas patas, esmagando seu
peito, seu rabo distorcido girando de um lado para o outro em uma grotesca
imitação de um abanar. A ponta de sua cauda era pontuda com unhas com
saliências iguais a uma clava medieval, e um rosnar rouco veio de seu
tronco, tão alto e forte que ela pôde sentir seus ossos vibrarem.
“A segure aí! Rasgue sua garganta se ela tentar fugir!” Lilith deu
instruções enquanto o segundo guardião do inferno saltava em Jace; ele
estava lutando com aquilo, rolando repetidamente, um redemoinho de
dentes e braços e pernas e o chicotear perverso da cauda. Com dor Clary
virou sua cabeça para o outro lado, e viu Lilith indo em direção ao caixão de
vidro e Simon, ainda deitado em uma pilha. Dentro do caixão Sebastian
flutuava, tão imóvel quanto um corpo afogado, a cor leitosa da água tinha
se tornado escura, provavelmente com seu sangue.
O guardião a prendendo no chão rosnou perto de sua orelha. O som
enviou um golpe de medo através dela — e junto com o medo, fúria. Fúria
por Lilith, e por si mesma. Ela era uma caçadora de Sombras. Uma coisa
era ser derrubada por um demônio Ravener quando ela nunca tinha ouvido
falar de Nephilim. Ela tinha um pouco de treinamento agora. Ela devia ser
capaz de fazer melhor.
Qualquer coisa pode ser uma arma, Jace tinha dito para ela no
parque. O peso do guardião era esmagador; ela fez um ruído sufocado e
alcançou sua garganta, como se lutasse por ar. Ele latiu e rosnou,
mostrando seus dentes, seus dedos se fecharam na corrente contendo o
anel Morgenster ao redor de seu pescoço. Ela a arrancou, forte, e a corrente
arrebentou, ela a chicoteou em direção a face do cachorro, açoitando o
guardião brutamente nos olhos. O guardião levantou nas patas traseiras,
uivando com dor, e Clary rolou para o lado, rastejando de joelhos. Com
olhos ensanguentados, o cachorro se agachou, pronto para saltar. O colar
tinha caído da mão de Clary, o anel rolou, ela se arrastou atrás da corrente
enquanto o cachorro saltava—
Uma lâmina brilhante varou a noite, golpeando a milímetros do rosto
de Clary, separando a cabeça do cachorro de seu corpo. Ele deu um único
urro e desapareceu, deixando para trás uma marca preta chamuscada na
pedra, e o fedor de demônio no ar.
Mãos vieram abaixo, levantando gentilmente Clary em pé. Era Jace.
Ele tinha enfiado a ardente lâmina serafim em seu cinto, e a segurava com
ambas as mãos, olhando para ela com uma expressão peculiar. Ela não
podia descrevê-la, ou mesmo traçá-la — esperança, choque, amor, anseio,
e raiva todos misturados juntos em sua expressão. Sua camisa estava
rasgada em vários lugares, ensopada com sangue; sua jaqueta se foi, seu
cabelo loiro manchado com suor e sangue. Por um momento eles
simplesmente olharam um para o outro, o aperto sobre suas mãos
dolorosamente fortes. Então ambos falaram ao mesmo tempo:
“Você está—,” ela começou.
“Clary”, Ainda apertando suas mãos, ele a puxou com ele, para longe
do círculo, em direção a passarela que levava aos elevadores. “Vá”, ele
disse asperamente. “Saia daqui, Clary.”
“Jace—“
Ele tomou um fôlego estremecido. “Por favor”, ele disse, e então a
soltou, puxando a lâmina serafim de seu cinto enquanto ele voltava para o
círculo.
“Levante-se”, Lilith rosnou, “levante-se.”
Uma mão sacudiu o ombro de Simon, enviando uma onda de agonia
através de sua cabeça. Ele tinha flutuado na escuridão; ele abriu seus olhos
agora e viu o céu noturno, estrelas, e o rosto branco de Lilith pairando
sobre ele. Os olhos dela se foram, substituídos por cobras negras
rastejantes. O choque da visão foi o suficiente para empurrar Simon em pé.
No instante que ele estava ereto, ele teve ânsia e quase caiu de
joelhos novamente. Fechando seus olhos de novo contra a náusea, ele
escutou Lilith rosnar seu nome, e então a mão dela estava em seu braço, o
guiando à frente. Ele a deixou fazê-lo. Sua boca estava cheia do sabor
nauseante e amargo do sangue do Sebastian; ele estava se espalhando
através de suas veias, também, o fazendo doente, fraco, e febril até seus
ossos. Sua cabeça caiu como ela pesasse mil quilos, e a tontura estava
avançando e retrocedendo em ondas.
Abruptamente o aperto gelado de Lilith em seu braço se foi. Simon
abriu seus olhos e descobriu que ele estava em pé diante do caixão de vidro
como tinha estado antes. Sebastian flutuava em um líquido leitoso escuro,
seu rosto suave, sem pulso em seu pescoço. Dois buracos escuros eram
visíveis ao lado de sua garganta onde Simon o tinha mordido.
Dê a ele o seu sangue, a voz de Lilith ecoou, não alta mas dentro de
sua cabeça. Faça-o, agora.
Simon olhou acima tonto. Sua visão estava nebulosa. Ele se esforçou
para ver Clary e Jace através da escuridão invadindo.
Use suas presas, Lilith disse. Corte seu pulso. Dê a Jonathan seu
sangue. O cure.
Simon levantou seu pulso até sua boca. Curar ele. Ressuscitar
alguém da morte era muito mais do que curá-los, ele pensou. Talvez a mão
de Sebastian crescesse de volta. Talvez fosse isso que ela queria dizer. Ele
esperou para suas presas virem, mas elas não vieram. Ele estava esgotado
demais para estar com fome, ele pensou, e lutou contra o impulso insano
de rir.
“Não posso”, ele disse, meio arfando. ”Eu não posso—“
“Lilith!” A voz de Jace irrompeu através da noite; Lilith se virou com
um sibilar incrédulo. Simon abaixou seu pulso lentamente, lutando para
focar seus olhos. Ele focalizou no brilho em frente a ele, e veio o salto da
chama de uma lâmina serafim, segura na mão esquerda de Jace. Simon
podia vê-lo claramente agora, uma imagem distinta pintada na escuridão.
Sua jaqueta se fora, ele esta imundo, sua camiseta rasgada e preta com
sangue, mas seus olhos eram claros e seguros e atentos. Ele não parecia
mais como um zumbi ou alguém preso sonâmbulo em um sonho terrível.
“Onde ela está?” Lilith disse, seus olhos de cobra deslizando a frente
em seus pêndulos. “Onde está a garota?”
Clary. O olhar anuviado de Simon procurou na escuridão ao redor de
Jace, mas ela não estava em lugar algum. Sua visão estava começando a
clarear. Ele podia ver o sangue lambuzando o chão de azulejos, e pontos de
desfiada seda rasgada presas nos galhos afiados de uma cerca viva. O que
pareceram como pegadas de patas manchadas do sangue. Simon sentiu seu
peito se apertar. Ele olhou rapidamente de volta para Jace. Jace parecia
zangado — muito zangado de fato — mas não perturbado do modo que
Simon teria esperado que ele parecesse se algo tivesse acontecido a Clary.
Então onde ela estava?
“Ela não tem nada haver com isso”, Jace disse. “Você diz que eu não
posso matá-la, demônio. Eu digo que posso. Vamos ver quem de nós está
certo.”
Lilith se moveu tão rápido, ela era um borrão. Um momento ela
estava ao lado de Simon, no outro ela estava a um passo acima de Jace. Ela
o golpeou com sua mão, ele mergulhou, girando abaixo dela, lançando a
lâmina serafim em seu ombro. Ela gritou, rodopiando sobre ele, sangue
jorrando deu seu ferimento. Era uma cintilante cor negra, como ônix. Ela
trouxe suas mãos juntas como se quisesse esmagar a lâmina entre elas.
Elas bateram uma na outra com um som como de um trovão, mas Jace já
tinha partiido, a vários metros de distância, a luz da lâmina serafim
dançando no ar diante dele como o piscar de um olho escarnecedor.
Se tivesse sido qualquer outro Caçador de Sombras e não Jace,
Simon pensou, ele já teria morrido. Ele se lembrou de Camille dizendo,
‘Homens não podem contender com o divino’. Caçadores de Sombras eram
humanos, apesar de seu sangue de anjo, e Lilith era mais do que um
demônio.
Dor atravessou Simon. Com surpresa ele percebeu que suas presas
tinham, finalmente, saído, e estavam cortando seu lábio inferior. A dor e ao
gosto de sangue o impeliram a frente. Ele começou a se levantar,
lentamente, seus olhos em Lilith. Ela certamente não parecia notá-lo ou o
que ele estava fazendo. Seus olhos estavam fixos em Jace. Com outro
súbito rosnar ela saltou nele. Era como observar mariposas para lá e para
cá, observar os dois enquanto eles lutavam para frente e para trás no teto.
Mesmo com a sua visão vampira, Simon teve problemas em se firmar
enquanto eles se moviam, saltando por cima das cercas, se lançando entre
as passarelas. Lilith recuou Jace contra o muro baixo que cercava um
relógio solar, os números em sua face distinguiam-se em um dourado
brilhante. Jace estava se movendo tão rápido que ele era quase um borrão,
a luz de Michael chicoteando em torno de Lilith, como se ela estivesse
sendo envolvida em uma rede de brilhantes filamentos. Qualquer um teria
sido cortado em tiras em segundos. Mas Lilith se movia como água escura,
como fumaça. Ela parecia desaparecer e reaparecer à vontade, e embora
Jace não estivesse claramente cansado, Simon podia sentir sua frustração.
Finalmente aconteceu, Jace lançou a lâmina serafim violentamente
em direção a Lilith — e ela a pegou no ar, sua mão se envolvendo em torno
de sua lâmina. Sua mão estava pingando sangue negro enquanto ela
empurrava a lâmina em direção a ela. As gotas, quando elas acertavam o
chão, tornavam-se minúsculas cobras obsidianas que se contorciam na
vegetação rasteira.
Tomando a lâmina em ambas as mãos, ela a levantou. Sangue corria
de seus pulsos e antebraços pálidos como faixas de alcatrão. Com um
sorriso rosnado ela partiu a lâmina ao meio, uma metade fragmentou em
um pó brilhante em suas mãos, enquanto a outra — o cabo e um caco
irregular da lâmina — crepitou sombriamente, uma chama meio sufocada
pela cinza.
Lilith sorriu. “ Pobre pequeno Michael”, ela disse. “Ele sempre foi
fraco.”
Jace estava arfando, suas mãos apertadas em seus lados, seu cabelo
pregado em sua testa com o suor. “Você e sua conversa fiada”, ele disse.
“’Eu conheci Michael’, ‘eu conheci Sammael’. ‘O anjo Gabriel fez meu
cabelo. É como ‘eu estou com o conjunto de personagens bíblicos.’”
Este era Jace sendo valente, Simon pensou, valente e irritante por
que ele pensava que Lilith ia matá-lo, e esse era o modo que ele queria ir,
sem medo e de pé. Como um guerreiro. O modo que os Caçadores de
Sombras faziam. Sua canção de morte sempre seria isso — piadas e
superioridade e aparente arrogância, e aquele olhar em seus olhos que
dizia, Eu sou melhor do que você. Simon não o tinha percebido antes.
“Lilith”, Jace continuou, conseguindo fazer que a palavra soasse como
uma maldição. “Eu estudei sobre você. Na escola. Os céus amaldiçoaram
você com a esterilidade. Mill bebês, e todos eles morreram. Não é este o
caso?”
Lilith segurou sua sombria lâmina cintilando, seu rosto impassivo.
“Cuidado, pequeno Caçador de Sombras.”
“Ou o que? Ou você me matará?” Sangue pingava do rosto de Jace
de um corte em sua bochecha, ele não fez nenhum movimento para limpá-
lo. “Vá em frente.”
Não. Simon tentou dar um passo; seus joelhos se curvaram, e ele
caiu, batendo com força suas mãos no chão. Ele tomou fôlego. Ele não
precisava de oxigênio, mas ajudava de algum modo, a firmá-lo. Ele se
estendeu e segurou a beirada de um pedestal de pedra, usando isso para se
levantar. A parte de trás de sua cabeça estava martelando. Não havia jeito
de que seria tempo suficiente. Tudo que Lilith tinha que fazer era dirigir a
frente à lâmina denteada que ela segurava—
Mas ela não o fez. Olhando para Jace, ela não se moveu, e de
repente os olhos dele cintilaram, sua boca relaxou. “Você não pode me
matar”, ele disse, sua voz se elevando. “O que você disse antes — eu sou o
contrapeso. Eu sou a única coisa o prendendo” — ele arremessou um braço,
indicando o caixão de vidro de Sebastian — “neste mundo. Se eu morrer,
ele morre. Não é verdade?” Ele deu um passo para trás. “Eu poderia pular
desse teto agora mesmo.” Ele disse. “Me matar. Acabar com isso.”
Pela primeira vez Lilith pareceu realmente agitada. Sua cabeça
chicoteou de um lado para o outro, seus olhos de serpente estremecendo,
como se eles estivessem procurando o vento. “Onde ela está? Onde está a
garota?”
Jace limpou o sangue e o suor de seu rosto e sorriu para ela, seu
lábio já estava dividido, e sangue corria em seu queixo. “Esqueça. Eu a
mandei escadas abaixo enquanto você não estava prestando atenção. Ela se
foi — a salvo de você.”
Lilith rosnou. “Você mente.”
Jace deu um outro passo para trás. Mais alguns poucos passos o
trariam para o muro baixo, na margem do prédio. Jace podia sobreviver
muito, mais uma queda de um prédio de quarenta andares poderia ser
demais até mesmo para ele.
“Você se esquece”, disse Lilith, “Eu estava lá, Caçador de Sombras.
Eu observei você cair e morrer. Observei Valentine chorar sobre seu corpo.
E então vi o Anjo perguntar a Clarissa o que ela queria dele, o que no
mundo ela mais queria, e ela disse você. Pensando que você poderia ser a
única pessoa no mundo que poderia ter seus amados mortos de volta, e que
não haveria nenhuma consequência. Isso é o que vocês pensaram, não é,
vocês dois? Tolos.” Lilith cuspiu. “Vocês amam um ao outro — qualquer um
pode ver isso, olhem para vocês — que tipo de amor que pode arder o
mundo ou elevá-lo em glória. Não, ela nunca deixaria seu lado. Não
enquanto ela pensasse que você esta em perigo.” Sua cabeça foi para trás,
sua mão atirando, dedos curvados em garras. “Lá.”
Houve um grito, e uma das cercas pareceu rasgar, revelando Clary,
que tinha estado agachada se escondendo, no meio dela. Chutando e
lutando, ela foi arrastada a frente, suas unhas arranhando o chão, lutando
em vão por um ponto de apoio ou algo que ela pudesse agarrar. Suas mãos
deixaram trilhas de sangue nos azulejos.
“Não!” Jace foi a frente, então congelou quando Clary foi chicoteada
para o ar, onde ela pairava, pendendo em frente a Lilith. Ela estava
descalça, seu vestido de cetim — agora tão rasgado e imundo, parecia
vermelho e preto ao invés de dourado — girando em torno dela, uma das
alças de seu ombro rasgada e pendendo. Seu cabelo tinha saído
completamente de suas presilhas faiscantes e se derramava sobre seus
ombros. Seus olhos verdes fixos em Lilith com ódio.
“Sua vadia”, ela disse.
O rosto de Jace era uma máscara de horror. Ele realmente tinha
acreditado quando disse que Clary tinha partido, Simon percebeu. Ele
pensou que ela estava a salvo. Mas Lilith estava certa. E ela estava
exultando agora, seus olhos de cobra dançando enquanto ela movia suas
mãos como um títere1, e Clary girou e arfou no ar. Lilith estalou seus dedos,
e o que pareceu como um estalar de um chicote prata, veio através do
corpo de Clary, rasgando seu vestido e a pele sob ele. Ela gritou e apertou o
ferimento, e seu sangue tamborilou sob os azulejos como chuva escarlate.
“Clary”, Jace girou para Lilith. “Tudo bem.” Ele disse. Ele estava
pálido agora, seu desafio se fora; suas mãos, apertadas em punhos,
estavam brancas nas
juntas. “Tudo bem. Solte-a, e eu farei o que você quer — como
Simon — Nós deixaremos você—“
“Me deixar?” De algum modo as feições no rosto de Lilith se
reorganizaram. Cobras giravam nos buracos de seus olhos, sua pele branca
estava muito esticada e brilhante, sua boca muito grande. Seu nariz quase
tinha desaparecido. “Você não tem escolha. E mais do que isso, você me
aborreceu. Todos vocês. Talvez se você tivesse simplesmente feito como eu
ordenei, eu o deixaria ir. Você nunca saberá agora, não é?”
Simon soltou o pedestal de pedra, oscilou, e se firmou. Então
começou a andar. Colocando seus pés, um após o outro, parecendo como
imensos sacos pesados de areia molhada ao lado de um precipício. Toda vez
que seu pé tocava o chão, ele enviava uma apunhalada de dor através de
seu corpo. Ele se concentrou em se mover para frente, um passo de cada
vez.
“Talvez eu não possa te matar”, Lilith disse a Jace. “Mas eu posso
torturá-la até além da resistência dela — torturá-la até a loucura — e fazer
você assistir. Há coisas piores do que a morte, Caçador de Sombras.”
Ela estalou seus dedos de novo, e o chicote prata desceu sobre o
ombro de Clary dessa vez, abrindo um extenso corte. Clary se dobrou mais
não gritou, apertando suas mãos em sua boca, se curvando como se ela
pudesse se proteger de Lilith.
Jace foi a frente para se jogar a si mesmo em Lilith — e viu Simon.
Seus olhares se encontraram. Por um momento o mundo pareceu estar em
suspenso, todo ele, não apenas Clary. Simon viu Lillith, toda a atenção dela
focada em Clary, sua mão vindo para trás, pronta para atirar um golpe
ainda mais perverso. O rosto de Jace estava branco com a angústia, seus
olhos escurecendo enquanto eles encontravam os do Simon — e ele notou
— e entendeu.
1
Puppetter: Artista que manipula fantoches.
Jace se afastou.
O mundo borrou em torno de Simon. Enquanto ele saltava a frente,
ele percebeu duas coisas. Uma, que era impossível, ele nunca alcançaria
Lilith a tempo, a mão dela já estava pronta chicoteando a frente, o ar em
frente a ela vivo com o turbilhão prata. E dois, que ele nunca tinha
entendido bem antes o quão rápido um vampiro poderia se mover. Ele
sentiu os músculos em suas pernas, suas costas, romperem, os ossos em
seus pés e tornozelos fender—
E lá estava ele, deslizando entre Lilith e Clary enquanto a mão da
demônio vinha abaixo. O longo e afiado fio prata o atingiu sobre o rosto e o
peito — houve um momento de intensa dor — e então o ar pareceu queimar
em torno dele como confetes cintilantes, e Simon ouviu Clary gritar, um
som claro de choque e estupefação que cortou através da escuridão.
“Simon!”
Lilith congelou. Ela olhou de Simon para Clary, ainda suspensa no ar,
e então abaixo para sua própria mão, agora vazia. Ela puxou um longo e
irregular suspiro.
“Sete vezes”, ela sussurrou — e foi abruptamente cortada enquanto
uma luz cegante iluminava a noite. Deslumbrado, tudo o que Simon pode
pensar foi em formigas queimando sob o feixe concentrado de uma lente de
aumento, enquanto um grande raio de fogo mergulhava do céu, lançando-
se através de Lilith. Por um longo momento ela ardeu em branco contra a
escuridão, presa dentro de uma chama alucinante, sua boca aberta como
um túnel em um grito silencioso. Seu cabelo elevado, uma massa de
filamentos ardentes contra a escuridão — e então ela era ouro branco,
atingida dispersa contra o ar— e então era sal, mil grânulos cristalinos de
sal que choveram aos pés de Simon com um tipo de beleza medonha.
E então ela se foi.
CICATRIZES DE FOGO
NUVENS HAVIAM ROLADO SOBRE O RIO, DO MODO QUE ELAS faziam
às vezes a noite, trazendo uma névoa espessa com elas. Não escondeu o
que estava acontecendo no telhado, apenas deitava uma espécie de
nevoeiro obscuro sobre tudo o mais. Os prédios se elevando em torno deles
eram sombrios pilares de luz, e a lua mal cintilava, uma lâmpada abafada,
através das nuvens baixas passageiras. Os pedaços de vidro quebrados do
caixão, espalhados no piso de azulejos, brilhavam como cacos de gelo, e
Lilith, também, brilhava, pálida sob a lua, observando Simon enquanto ele
se inclinava sobre o corpo imóvel de Sebastian, bebendo seu sangue.
Clary mal podia suportar olhar. Ela sabia que Simon odiava o que ele
estava fazendo; ela sabia que ele estava fazendo isso por ela. Por ela, e até
mesmo um pouquinho por Jace. E ela sabia qual seria o próximo passo no
ritual. Simon daria seu sangue, de boa vontade, a Sebastian, e Simon
morreria. Vampiros podiam morrer quando seu sangue era drenado. Ele
morreria, e ela o perderia para sempre — e isso — tudo isso — seria sua
própria culpa.
Ela podia sentir Jace atrás dela, seus braços ainda apertados em
torno dela, o suave e regular palpitar de seu coração contra suas
omoplatas. Ela se lembrou do modo que ele a tinha abraçado nos degraus
do Salão dos Acordos em Idris. O som do vento nas folhas enquanto ele a
beijava, suas mãos quentes em cada lado de seu rosto. O modo que ela
tinha sentido o coração dele bater e embora o batimento do coração de
ninguém mais fosse como o dele, como cada pulsação de seu sangue
combinasse com o dela própria.
Ele tinha que estar lá em algum lugar. Como Sebastian dentro de sua
prisão de vidro. Tinha que haver algum modo de alcançá-lo.
Lilith estava observando Simon enquanto ele se inclinava sobre
Sebastian, seus olhos escuros grandes e fixos. Clary e Jace poderiam muito
bem não ter estado lá.
“Jace”, Clary sussurrou. “Jace, eu não quero ver isso.”
Ela se pressionou contra ele, como se ela estivesse tentando se
aconchegar nos braços dele, então fingiu um retrair quando a faca roçou no
lado de sua garganta.
“Por favor, Jace”, ela sussurrou. ”Você não precisa da faca. Você sabe
que eu não posso te ferir.”
“Mas por que—“
“Eu apenas quero olhar para você. Quero ver seu rosto.”
Ela sentiu o peito dele subir e cair uma vez, rápido. Um tremor veio
através dele, como se ele estivesse lutando com algo, se afastando contra
isso. Então ele se moveu, do modo que só ele podia se mover, tão
rapidamente que era como um flash de luz. Ele manteve seu braço direito
apertado ao redor dela, sua mão esquerda deslizou a faca em seu cinto.
Seu coração pulou selvagemente. Eu podia correr, ela pensou, mas
ele simplesmente a alcançaria, e isso era apenas num instante. Segundos
depois ambos os braços vieram ao redor dela, as mãos dele em seus
braços, a virando. Ela sentiu os dedos deles traçarem suas costas, seus
braços nus arrepiando, enquanto ele a virava para encará-lo.
Ela estava olhando para longe de Simon agora, longe da mulher
demônio, embora ela pudesse sentir a presença deles em suas costas,
arrepiando sua espinha. Ela olhou para Jace. Seu rosto era tão familiar. As
linhas nele, o modo de seu cabelo cair em sua testa, a cicatriz apagada em
sua bochecha, outra em sua têmpora. Os cílios, uma matiz mais escura que
seu cabelo. Seus olhos eram da cor de um vidro amarelo pálido. Era onde
ele estava diferente, ela pensou. Ele ainda parecia como Jace, mas seus
olhos eram claros e inexpressivos, como se ela estivesse olhando através de
uma janela para um quarto vazio.
“Eu estou com medo”, ela disse.
Ele afagou seu ombro, enviando fagulhas através de seus nervos;
com uma sensação doentia, ela percebeu que seu corpo ainda respondia ao
toque dele. “Eu não deixarei nada acontecer a você.”
Ela olhou para ele. Você realmente acha isso, não é? De algum modo
você não pode ver a falta de conexão entre suas ações e suas intenções. De
algum modo ela afastou isso de você.
“Você não será capaz de impedi-la”, ela disse. “Ela vai me matar,
Jace.”
Ele sacudiu sua cabeça. “Não. Ela não faria isso.”
Clary queria gritar, mas ela manteve sua voz deliberada, cautelosa,
calma. ”Eu sei que você está ai, Jace. O verdadeiro você.” Ela pressionou
mais perto dele. A fivela do cinto dele cavando em sua cintura. “Você
poderia lutar...”
Isso foi a coisa errada a se dizer. Ele se enrijeceu, e ela viu um flash
de angústia nos olhos dele, o olhar de um animal em uma gaiola. No
instante seguinte se tornou inflexível. “Não posso.”
Ela estremeceu. O olhar no rosto dele era terrível, tão terrível. Com
seu tremor os olhos dele se suavizaram. “Você está com frio?” Ele disse e
por um momento ele soou como Jace de novo, preocupado com seu bem
estar. Isso fez sua garganta doer.
Ela acenou, embora o frio físico fosse a última coisa em sua mente.
“Posso por minhas mãos dentro de sua jaqueta?”
Ele concordou. Sua jaqueta estava desabotoada; ela deslizou seus
braços dentro, suas mãos tocando as costas dele levemente. Tudo estava
estranhamente silencioso. A cidade parecia congelada dentro de um prisma
gelado. Mesmo a luz irradiada dos prédios ao redor deles parecia imóvel e
fria.
Ele respirou lentamente, regular. Ela podia ver a runa sobre seu peito
através do tecido rasgado da blusa dele. Parecia pulsar quando ele
respirava. Era doentia, ela pensou, anexada a ele desse jeito, como uma
sanguessuga, sugando o que era bom, o que era Jace.
Ela se lembrou do que Luke tinha dito a ela sobre destruir uma runa.
Se você desfigurá-la o suficiente, você pode minimizar ou destruir seu
poder.
Algumas vezes na batalha o inimigo tentará queimar ou remover a
pele do Caçador de Sombras, só para privá-lo do poder de suas runas.
Ela manteve seus olhos fixos no rosto de Jace. Esqueça o que está
acontecendo, ela pensou. Esqueça sobre Simon, sobre a faca em sua
garganta. O que você diz agora importa mais do que qualquer outra coisa
que você tenha dito antes.
“Lembra-se do que você me disse no parque?” Ela sussurrou.
Ele olhou abaixo para ela, surpreso. “O que?”
“Quando eu disse que não falava italiano. Eu me lembro do que você
me disse, do que aquela citação significava. Você disse que ela significava
que o amor é a força mais poderosa na Terra. Mais poderosa do que
qualquer outra coisa.”
Uma linha minúscula apareceu entre as sobrancelhas dele. “Eu não...”
“Sim, você lembra.” Continue cuidadosamente, ela disse para si
mesma, mas ela não podia se impedir, não podia conter aquela tensão que
veio à tona em sua voz. ”Você se lembra. A mais poderosa força que há,
você disse. Mais forte que o céu ou o inferno. Ela é mais poderosa que Lilith
também.”
Nada. Ele a encarava como se não pudesse ouvi-la. Era como gritar
em um escuro túnel vazio. Jace, Jace, Jace. Eu sei que você está ai.
“Há um modo que você poderia me proteger e ainda fazer o que ela
quer”, ela disse. “Não seria esta a melhor coisa?” Ela pressionou seu corpo
mais perto contra ele, sentindo seu estômago contorcer. Era como abraçar
Jace e não como isso, tudo ao mesmo tempo, alegria e horror misturados
juntos. E ela podia sentir o corpo dele reagir ao dela, a batida do coração
dele em seus ouvidos, suas veias; ele não tinha parado de querê-la,
qualquer que fossem as camadas de controle que Lilith exercia sobre sua
mente.
“Eu a sussurrarei para você”, ela disse, roçando seus lábios contra o
pescoço dele. Ela respirou o cheiro dele, tão familiar quanto o cheiro de sua
própria pele. “Escute.”
Ela inclinou seu rosto acima, e ele se inclinou para ouvi-la — e sua
mão se moveu da cintura dele para segurar o cabo da faca no cinto dele.
Ela a lançou acima, do modo que ele tinha mostrado a ela quando eles
treinaram, balançando seu peso em sua palma, e golpeou a lâmina através
do lado esquerdo do peito dele em um enorme e raso arco. Jace gritou —
mais em surpresa do que dor, ela adivinhou — o sangue irrompeu do corte,
vertendo em sua pele, obscurecendo a runa. Ele colocou a mão em seu
peito; quando ela se tornou vermelha, ele olhou para ela, seus olhos
imensos, como se de algum modo ele estivesse genuinamente ferido,
genuinamente incapaz de acreditar na traição dela.
Clary girou para longe dele enquanto Lilith gritava, Simon não estava
mais curvado sobre Sebastian; ele tinha se empertigado e estava olhando
para Clary, as costas da mão dele comprimidas contra sua boca. Sangue
negro de demônio pingava de seu queixo em sua camisa branca. Seus olhos
estavam arregalados.
“Jace”, A voz de Lilith soou em espanto. ”Jace, pegue-a — eu ordeno
—“
Jace não se moveu. Ele estava olhando para Clary, para Lilith, sua
mão ensangüentada, e de volta de novo. Simon tinha começado a se
afastar de Lilith; de repente ele parou com uma sacudida e se dobrou,
caindo de joelhos. Lilith rodopiou distanciando-se de Jace e avançou para
Simon, sua face rígida contorcida. “Levante-se”, ela gritou. “Fique de pé!
Você bebeu o sangue dele. Agora ele precisa do seu!”
Simon lutou para se sentar, então deslizou flácido para o chão. Ele
teve ânsia de vômito, tossindo sangue preto. Clary se lembrou dele em
Idris, dizendo que o sangue de Sebastian era como veneno. Lilith recuou
seu pé para chutá-lo — então cambaleou como se uma mão invisível tivesse
empurrado ela, forte. Lilith guinchou — sem palavras, apenas um grito
como o choro de uma coruja. Era o som do autêntico ódio e fúria.
Não era um som que um ser humano podia ter feito; parecia como
cacos de vidros afiados sendo dirigidos aos ouvidos de Clary. Ela gritou,
”Deixe Simon em paz! Ele está doente.Você não vê que ele está doente?”
Ela imediatamente lamentou de ter falado. Lilith se virou lentamente,
seu olhar deslizando para Jace, frio e imperioso. “Eu te disse, Jace
Herondale.” Sua voz soou. “Não deixe a garota sair do círculo. Tire a arma
dela.”
Clary mal tinha percebido que ela ainda estava segurando a faca. Ela
se sentia tão fria que estava quase dormente, mas por baixo disso uma
corrente de incontrolável fúria por Lilith — por tudo — libertou o movimento
de seu braço. Ela jogou a faca no chão. Ela derrapou nos azulejos,
alcançando os pés de Jace. Ele olhou abaixo cegamente, como se ele nunca
tivesse visto uma arma antes.
A boca de Lilith era um fino talho vermelho. Os brancos de seus olhos
tinham desaparecido, eles estavam todo negro. Ela não parecia humana.
“Jace”, ela sibilou. ”Jace Herondale, você me ouviu. E irá me obedecer.”
“Pegue-a”, Clary disse, olhando para Jace. “Pegue-a e mate ela ou a
mim. É sua escolha.”
Lentamente Jace se curvou e pegou a faca.
????
Alec tinha Sandalphon em uma mão, uma hachiwara — boa para se
esquivar de múltiplos ataques — na outra. Pelo menos seis discípulos
estendidos a seus pés, mortos ou inconscientes.
Alec tinha lutado com muito poucos demônios em seu tempo, mas
havia algo de especialmente estranho sobre lutar com os discípulos da
Igreja de Talto. Eles se moviam em conjunto, menos como pessoas e mais
como uma sombria onda estranha — estranha por que eles eram tão
silenciosos e tão bizarramente fortes e rápidos. Eles pareciam também
totalmente sem medo da morte. Embora Alec e Isabelle gritassem para eles
manterem-se para trás, eles se mantinham movimentando a frente em uma
horda muda, arremessando a si mesmos nos Caçadores de Sombras com a
autodestrutiva insensatez de roedores se jogando de um precipício. Eles
tinham acuado Alec e Isabelle no saguão e para o grande salão aberto de
pedestais de pedra, quando o ruído da luta trouxeram Jordan e Maia
correndo; Jordan na forma de lobo, Maia ainda humana, mas com as garras
inteiramente para fora.
Os discípulos mal pareceram registrar a presença deles. Eles lutaram,
caindo um após o outro enquanto Alec, Maia, e Jordan atacavam a esmo
com facas, garras, e lâminas. Os padrões cintilantes do chicote de Isabelle
no ar enquanto ele recortava através de corpos, enviando finas rajadas de
sangue no ar. Maia especialmente estava se saindo bem. Pelo menos uma
dúzia de discípulos jaziam caídos em torno dela, e ela estava sobre outro
com uma fúria ardente, suas mãos em garras, vermelhas até os pulsos.
Um discípulo atravessou o caminho de Alec e se jogou nele, mãos
esticadas. Seu capuz estava levantado; ele não podia ver seu rosto, ou
adivinhar o sexo ou idade. Ele enviou a lâmina de Sandalphon no lado
esquerdo de seu peito. Aquilo gritou — um grito masculino, alto e rouco. O
homem caiu, agarrado a seu peito, onde chamas estavam lambendo as
margens do buraco em seu casaco. Alec se afastou, esgotado. Ele odiava
observar o que acontecia a humanos quando uma lâmina serafim perfurava
suas peles.
Subitamente ele sentiu um calor atravessar suas costas, e se virou
para ver um segundo discípulo empunhando um pedaço irregular de
vergalhão. Este estava sem capuz — um homem, seus rosto tão magro que
suas bochechas pareciam que estavam enterradas em sua pele. Ele sibilou e
se jogou de novo contra Alec, que saltou de lado, a arma assoviando
inofensivamente por ele. Ele girou e chutou ela da mão do discípulo. Ela
chacoalhou no chão, e ele retrocedeu, quase tropeçando em um corpo — e
fugiu.
Alec hesitou por um momento. O discípulo que o tinha atacado tinha
o feito próximo à porta. Alec sabia que deveria segui-lo — pelo que sabia, o
homem poderia estar fugindo para alertar alguém ou conseguir reforços —
mas ele se sentia muito cansado, nauseado e um pouco indisposto. Essas
pessoas podiam estar possuídas; elas mal podiam ser pessoas, mas ainda
parecia demais matar seres humanos.
Ele se perguntou o que Magnus diria, mas para dizer a verdade, ele
já sabia. Alec tinha combatido criaturas como aquela antes, os servos de
demônios. Quase tudo que era humano neles havia sido consumido pelos
demônios por energia, deixando nada além de assassinos ansiosos por
matar e um corpo humano morrendo lentamente em agonia. Eles estavam
além do socorro: incuráveis, irreparáveis. Ele ouviu a voz de Magnus como
se o bruxo estivesse diante dele. Matá-los é a coisa mais misericordiosa que
você pode fazer.
Enfiando sua hachiwara em seu cinto, Alec começou a perseguição,
atravessando a porta e no corredor atrás do discípulo fugitivo. O corredor
estava vazio, as portas dos elevadores distantes abertas, um estranho
alarme alto soou no corredor. Várias entradas se bifurcaram do saguão.
Indiferente, Alec escolheu uma aleatoriamente e se lançou através dela.
Ele se achou em um labirinto de pequenas salas que eram mal
acabadas — chapas de parede tinham sido precipitadamente levantadas, e
buquês de fios multicoloridos brotavam de buracos nas paredes. A lâmina
serafim jogou uma colcha de retalhos de luz através das paredes enquanto
ele se movia cautelosamente entre as salas, seus nervos a flor da pele. Um
ponto de luz captou movimento, e ele saltou. Abaixando a lâmina, ele viu
um par de olhos e um pequeno corpo cinza deslizando em um buraco na
parede, a boca de Alec retorceu. Esta era a Nova York para você. Mesmo
em um prédio tão novo quanto esse, haviam ratos.
Finalmente as salas se abriram em um largo espaço — não tão largo
quanto a sala com os pedestais, mas mais considerável que as outras.
Havia uma parede de vidro aqui, com papelão com fita de um lado a outro
nas divisões nela.
Uma forma escura estava agachada em um canto da sala, perto de
uma seção de tubulação exposta. Alec se aproximou cuidadosamente. Era
um truque de luz? Não, a forma era reconhecidamente humana, uma
curvada figura agachada em roupas escuras. A runa de visão noturna de
Alec fisgou enquanto ele estreitava seus olhos, movendo-se a frente. A
forma era uma mulher esbelta, pés descalços, mãos acorrentadas em frente
a ela numa extensão de cabo. Ela levantou sua cabeça enquanto Alec se
aproximava, e a luz fraca que se derramava pela janela, iluminou seu pálido
cabelo loiro.
“Alexander?” Ela disse, sua voz cheia de descrença. “Alexander
Lightwood?”
Era Camille.
????
“Jace.” A voz de Lilith veio como um chicote através da carne;
mesmo Clary encolheu-se ao som dela. “Eu te ordeno—“
O braço de Jace se jogou para trás — Clary tensa, se retesou — e ele
jogou a faca em Lilith. Ela chicoteou no ar, girando, e se enterrou em seu
peito; ela tropeçou para trás, fora de equilíbrio. Os saltos de Lilith
derraparam na pedra suave; a demônio se endireitou com um rosnado,
alcançando-a para arrancar a faca de suas costelas. Cuspindo algo em uma
linguagem que Clary não podia entender, ela a deixou cair. Ela caiu
retinindo ao chão, sua lâmina meio comida, como se por um poderoso
ácido.
Ela girou para Clary. “O que você fez a ele? O que você fez?” Seus
olhos tinham sido todo negros a um momento atrás. Agora, eles pareciam
protuberados e sobressaídos. Pequenas serpentes negras deslizaram dos
buracos dos olhos, Clary gritou e se afastou, quase tropeçando em uma
cerca viva baixa. Esta era a Lilith que tinha visto na visão de Ithuriel com
seus olhos deslizantes e voz áspera ecoante. Ela avançou para Clary—
E, de repente, Jace estava entre elas, bloqueando o caminho de
Lilith, Clary viu. Era ele mesmo de novo. Ele parecia arder com um fogo
justiceiro, como Raziel tinha no Lago Lyn naquela horrível noite. Ele puxou a
lâmina serafim de seu cinto; o branco prateado dela refletia em seus olhos;
sangue pingava da fenda em sua camisa e alisava sua pele. O modo que ele
olhava para ela, para Lilith — se os anjos pudessem ascender do inferno,
Clary pensou, eles pareceriam assim. “Michael,” ele disse, e Clary não tinha
certeza se era a força do nome, ou a fúria em sua voz, mas a lâmina que
ele segurava ardeu mais brilhante do que qualquer outra lâmina que ela
tenha visto. Ela, por um momento, olhou de lado, cega, e viu Simon deitado
em uma pilha amontoada sombria ao lado do caixão de vidro de Sebastian.
Seu coração contorceu em seu peito. O sangue demoníaco de
Sebastian o tinha envenenado? A marca de Caim não o ajudaria. Era algo
que ele tinha desejado. Por ela. Simon.
“Ah, Michael”, A voz de Lilith estava cheia de riso enquanto ela se
movia em direção a Jace. “O capitão das hostes do Senhor. Eu o conheci.”
Jace levantou a lâmina serafim; ela queimou como uma estrela, tão
brilhante que Clary se perguntou se toda a cidade poderia vê-la, como um
holofote riscando o céu. “Não chegue mais perto.”
Lilith, para a surpresa de Clary, parou. “Michael matou o demônio
Sammael, a quem eu amava.” Ela disse. “Por que isso, Caçadorzinho de
Sombras, que seus anjos são tão frios e sem misericórdia? Por que eles
destroem o que não obedecerá a eles?“
“Eu não tinha ideia que você era defensora de tal livre arbítrio”, Jace
disse, e o modo que disse isso, sua voz pesada com o sarcasmo,
reassegurou mais a Clary que ele era si mesmo de novo, do que qualquer
outra coisa seria. ”Então, que tal nos deixar sair desse telhado agora? Eu,
Simon e Clary? O que você diz, demônio? Acabou. Você não me controla
mais. Eu não machucarei Clary, e Simon não lhe obedecerá. E esse pedaço
de porcaria que você está tentando ressuscitar — eu sugiro que você se
livre dele antes que ele comece a apodrecer. Por que ele não vai voltar, e
ele está a caminho de passar da validade.”
O rosto de Lilith se contorceu. Ela cuspiu em Jace, e seu cuspe era
uma chama negra que acertou o chão e se tornou uma cobra que se
contorceu em direção a ele, sua mandíbula boquiaberta. Ele a esmagou com
a bota e a arremeteu para o demônio, lâmina estendida, mas Lilith se fora
como uma sombra quando a luz brilhou nela, sumindo e reaparecendo bem
atrás dele. Enquanto ele girava, ela levantou o braço quase
preguiçosamente e bateu sua palma aberta contra o seu peito.
Jace saiu voando, Michael golpeada de sua mão, deslizando nos
azulejos de pedra. Jace voou no ar e atingiu a parede baixa do teto com tal
força que linhas de estilhaço apareceram na pedra. Ele bateu forte no chão,
visivelmente atônito.
Arfando, Clary correu para a lâmina serafim caída, mas nunca a
alcançou. Lilith apanhou Clary com duas magras mãos geladas, e a atirou
com uma força incrível. Clary colidiu em uma cerca baixa, os galhos
cortando brutalmente sua pele, abrindo longos cortes. Ela lutou para se
libertar, seu vestido emaranhado na folhagem. Ela escutou a seda rasgar
enquanto se libertava e virava para ver Lilith arrastar Jace em pé, sua mão
apressou-se na frente ensanguentada da camisa dele.
Ela sorriu para ele, e seus dentes eram pretos também, e brilharam
como metal. “Estou feliz que você esteja de pé, pequeno Nephilim. Eu quero
ver seu rosto quando eu te matar, não apunhalando você nas costas como
você fez com meu filho.”
Jace enxugou seu rosto com sua manga; ele estava sangrando do
longo corte em sua bochecha, e o tecido ficou vermelho. “Ele não é seu
filho. Você deu um pouco de sangue a ele. Isso não faz dele seu. Mãe dos
bruxos—” ele virou sua cabeça e cuspiu, sangue. “Você não é mãe de
ninguém.”
Os olhos de cobra de Lilith se lançaram para frente e para trás
furiosamente. Clary, desemaranhando-se dolorosamente da cerca, viu que
cada cabeça de cobra tinha dois olhos em si, brilhantes e vermelhos. O
estômago de Clary revirou enquanto as cobras se moviam, seus olhares
parecendo deslizar acima e abaixo no corpo de Jace. “Cortou a minha runa.
Que rude.” Ela cuspiu.
“Mas eficaz”, Jace disse.
“Você não pode me vencer, Jace Herondale.” Ela disse. ”Você podia
ser o maior Caçador de Sombras do mundo conhecido, mais eu sou mais do
que um Demônio Maior.”
“Então, lute comigo”, disse Jace. “Eu te darei uma arma. Eu terei
minha lâmina serafim. Lute comigo, um contra um, e veremos quem
vence.”
Lilith olhou para ele, sacudindo sua cabeça lentamente, o cabelo
escuro girando em torno dela como fumaça. “Eu sou o mais velho dos
demônios”, ela disse. “Eu não sou um homem. Eu não tenho orgulho
masculino para você me enganar com isso, e eu não estou interessada em
um luta individual. Esta é a fraqueza de seu sexo, não meu. Eu sou uma
mulher. Eu usarei qualquer arma e todas as armas para conseguir o que eu
quero.” Ela então o soltou, com um empurrão desdenhoso. Jace tropeçou
por um momento, se empertigando rapidamente e alcançando o chão em
direção a lâmina brilhante de Michael.
Ele a levantou enquanto Lilith ria e levantava suas mãos. Sombras
meio opacas explodiram de suas palmas abertas. Mesmo Jace pareceu
chocado enquanto as sombras solidificavam em formas, as formas gêmeas
de demônios ensombrecidas com cintilantes olhos vermelhos. Elas atingiram
o chão e rosnaram. Eram cães. Clary pensou estupefata, dois delgados
cachorros pretos parecendo cruéis que vagamente lembravam dobermanns.
“Guardiões do inferno36,” Jace respirou. “Clary—“
Ele se interrompeu quando um dos cachorros saltou na direção dele,
sua boca aberta tão imensa quanto a de um tubarão, um alto uivo latido
irrompendo de sua garganta. Um momento depois o segundo saltou no ar,
lançando-se em direção a Clary.
????
“Camille”, a cabeça de Alec estava girando. “O que você está fazendo
aqui?”
Hellhound – Cérbero. Guardiões das portas dos inferno.
Ele imediatamente percebeu que soou como um idiota. Ele lutou com
o desejo de dar uma pancada em sua própria testa. A última coisa que ele
queria era parecer como um tolo na frente da ex-namorada de Magnus.
“Foi Lilith”, disse a vampira em uma voz baixa e trêmula. “Ela fez
seus discípulos entrarem no Santuário. Ele não é guardado contra humanos,
e eles são humanos — o bastante. Eles quebraram minhas correntes e me
trouxeram aqui, para ela.“ Ela levantou suas mãos, as correntes ligando
seus pulsos ao cano rangeram. “Eles me brutalizaram.”
Alec se agachou, trazendo seus olhos ao mesmo nível dos da Camille.
Vampiros não tinham hematomas - eles se curavam muito rapidamente
para isso — mas seu cabelo estava emaranhado com sangue no lado
esquerdo, que fez ele pensar que ela estava falando a verdade. “Vamos
dizer que eu acredito em você”, ele disse. “O que ela queria com você?
Nada que eu saiba sobre Lilith diz que ela tem um particular interesse em
vampiros.”
“Você sabe por que a Clave estava me prendendo,” ela disse. “Você
deve ter ouvido.”
“Você matou três Caçadores de Sombras. Magnus disse que você
alegava estar fazendo isso por que alguém tinha ordenado—“ ele se
interrompeu. “Lilith?”
“Se eu te disser, você me ajudará?” O lábio inferior de Camille
tremia. Seus olhos estavam imensos, verdes, suplicantes. Ela era muito
bonita. Alec se perguntou se ela tinha alguma vez olhado para Magnus
daquele jeito. Isso o fez querer sacudi-la.
“Eu poderia”, ele disse, atônito com a frieza em sua própria voz.
“Você não tem muito poder de barganha aqui. Eu poderia sair e deixar você
para Lilith ter, isso não faria muita diferença para mim.”
“Sim, faria.” Ela disse. Sua voz era baixa, “Magnus te ama. Ele não te
amaria se você fosse o tipo de pessoa que abandona alguém indefeso.”
“Ele amava você”, Alec disse.
Ela deu um sorriso melancólico. “Ele parece ter escolhido melhor
desde então.”
Alec balançou para trás em seus calcanhares levemente. “Olhe”, ele
disse, “me diga a verdade. Se você o fizer, eu te liberto e a levo para a
Clave. Eles a tratarão melhor do que Lilith trataria.”
Ela olhou para seus pulsos, acorrentados ao cano. “A Clave me
acorrentou”, ela disse. “Lilith me acorrentou. Vejo pouca diferença no
tratamento entre os dois.”
“Então, eu acho que é sua escolha. Confiar em mim, ou confiar nela.”
Alec disse. Era uma aposta, ele sabia.
Ele esperou por alguns instantes tensos antes que ela dissesse,
”Muito bem, se Magnus confia em você, eu confiarei.” Ela levantou sua
cabeça, dando seu melhor olhar digno, apesar da roupa rasgada e cabelo
ensanguentado. “Lilith veio a mim, não eu a ela. Ela tinha ouvido falar que
eu estava procurando recobrar minha posição como líder do clã de
Manhattan de Raphael Santiago. Ela disse que me ajudaria, se eu a
ajudasse.”
“Ajudá-la a assassinar Caçadores de Sombras?”
“Ela queria o sangue deles”, Camille disse. ”Era para aqueles bebês.
Ela estava injetando sangue de Caçadores de Sombras e sangue demoníaco
em suas mães, tentando copiar o que Valentine fez a seu filho. Embora, não
funcionasse. Os bebês tornaram-se coisas deformadas — e então eles
morreram.” Apanhando o olhar revoltado dele, ela disse. “Primeiro eu não
sabia o que ela queria com o sangue. Você pode não pensar muito de mim,
mas eu não tenho inclinação para assassinar inocentes.”
“Você não tinha que fazer isso”, Alec disse. ”Só por que ela ofereceu.”
Camille sorriu cansada. “Quando você é tão velho como eu sou”, ela
disse, ”é por que você aprendeu a jogar corretamente — fazer as alianças
certas nos momentos certos. Aliar-se não só com o mais poderoso, mas
com aqueles que você acredita que farão você poderoso. Eu sabia que se eu
não concordasse em auxiliar Lilith, ela me mataria. Demônios não são de
natureza confiável, e ela pensaria que eu iria a Clave com o que eu sabia
sobre os planos dela de matar Caçadores de Sombras, mesmo se eu
prometesse a ela que ficaria em silêncio. Eu apostei que Lilith era um perigo
maior para mim do que sua espécie era.“
“E você não se importou em matar Caçadores de Sombras.”
“Eles eram membros do Ciclo”, Camille disse. “Eles tinham matado
minha espécie. E a sua.”
“E Simon Lewis? Qual era seu interesse nele?”
“Todos querem o Daylighter do seu lado.” Camille deu de ombros. ”E
eu sabia que ele tinha a Marca de Caim. Um dos vampiros subalternos de
Raphael ainda é leal a mim. Ele passou a informação. Poucos seres do
submundo sabem disso. Isso faz dele um aliado de valor incalculável.”
“É isso que Lilith quer dele?”
Os olhos de Camille se alargaram. Sua pele ficou muito pálida, e por
baixo disso, Alec pode ver que suas veias tinham escurecido, o padrão delas
começando a se espalhar na brancura de seu rosto como alargadas
rachaduras em porcelana. Finalmente, vampiros famintos tornavam-se
selvagens, então perdiam a consciência, uma vez que eles estivessem sem
sangue por muito tempo. Quanto mais velhos eles fosse, mais eles podiam
protelar, mas Alec não se impediu de imaginar quanto tempo havia sido
desde que ela tinha se alimentado. “O que você quer dizer?“
“Aparentemente ela intimou Simon para encontrar com ela.” Alec
disse. “Eles estão em algum lugar neste prédio.”
Camille encarou por um longo momento, então riu. “Uma verdadeira
ironia”, ela disse. “Ela nunca o mencionou para mim, e eu nunca o
mencionei para ela, e ainda assim ambas estávamos atrás dele para nossos
próprios fins. Se ela o quer, é pelo seu sangue”, ela adicionou. ”O ritual que
ela está fazendo é mais seguramente de sangue mágico. O sangue dele —
mistura de sangue do ser do submundo e do Caçador de Sombras — seria
de grande uso para ela.”
Alec sentiu um leve desconforto. “Mas ela não pode machucá-lo. A
Marca de Caim—“
“Ela descobrirá um meio de burlar isso”, Camille disse. “Ela é Lilith, a
mãe dos bruxos. Ela tem estado viva há muito tempo, Alexander.”
Alec ficou de pé. “Então é melhor eu descobrir o que ela está
fazendo.”
As correntes de Camille chacoalharam enquanto ela tentava ficar de
joelhos. “Espere — você disse que me libertaria.”
Alec se virou e olhou ela abaixo. “Eu não disse. Eu disse que deixaria
a Clave ficar com você.”
“Mas se você me deixar aqui, nada impede que Lilith me encontre
primeiro.” Ela jogou seu cabelo emaranhado para trás, linhas de tensão
mostraram-se em sua face. “Alexander, por favor. Eu te imploro—“
“Quem é Will?” Alec disse. As palavras saíram abruptamente,
inesperadas, e para seu horror.
“Will?” Por um momento o rosto dela ficou vazio; então se dobrou em
um olhar de realização, e próximo a diversão. “Você escutou minha
conversa com Magnus.”
“Um pouco dela”, Alec exalou cuidadosamente. “Will está morto, não
está? Quero dizer, Magnus disse que foi há muito tempo atrás que ele o
conheceu...”
“Eu sei o que está te incomodando, pequeno Caçador de Sombras.” A
voz de Camille tornou-se musical e suave. Atrás dela, através das janelas,
Alec podia ver o distante piscar de luzes de um avião que voava sobre a
cidade. ”Primeiro você estava feliz. Você pensou no momento, não no
futuro. Agora você percebeu. Você envelhecerá, e morrerá um dia. E
Magnus não. Ele continuará. Vocês não envelhecerão juntos. Ao invés disso,
vocês se separarão.”
Alec pensou nas pessoas no avião, acima, no ar frio e gelado,
olhando abaixo a cidade como um campo de diamantes cintilando, bem
abaixo. É claro, ele nunca tinha estado em um avião. Ele só estava
adivinhando como isso pareceria, solitário, distante, desconectado do
mundo. “Você não pode saber disso”, ele disse. “Que nós nos
separaremos.”
Ela sorriu com pena. “Você é bonito agora,” ela disse. “Mas você será
em vinte anos? Em quarenta? Cinquenta? Ele amará seus olhos azuis
quando eles se apagarem, sua pele suave quando a idade cortar profundos
vincos nela? Suas mãos quando elas tremerem e ficarem fracas, seu cabelo
quando ficar branco—“
“Cale a boca”, Alec ouviu o estrondo em sua própria voz, e era
envergonhante. “Apenas cale a boca. Eu não quero ouvir isso.”
“Não tem que ser desse modo.“ Camille se inclinou em direção a ele,
seus olhos verdes luminosos. “E se eu te dissesse que você não tem que
envelhecer? Não tem que morrer?”
Alec sentiu uma onda de fúria. “Eu não estou interessado em me
tornar um vampiro. Nem mesmo se incomode em fazer a oferta. Nem se a
única outra alternativa fosse a morte.”
Pelo mais breve dos instantes o rosto dela se contorceu. Isso se foi
em um flash enquanto ela se controlava, ela sorriu um tênue sorriso e
disse, “Esta não era a minha sugestão. Se eu te dissesse que há outro
modo? Outro modo para vocês dois estarem juntos para sempre?”
Alec engoliu em seco. Sua boca estava tão seca quanto papel. “Diga-
me.“ Ele disse.
Camille levantou suas mãos. Suas cadeias agitando. “Corte-as”
“Não. Me diga primeiro.”
Ela sacudiu sua cabeça. “Eu não farei isso.” Sua expressão era tão
rígida quanto mármore, como era sua voz. “Você disse que eu não tinha
nada para barganhar. Mas eu tenho. E eu não a revelarei.”
Alec hesitou. Em sua cabeça ele tinha ouvido a voz suave de Magnus.
Ela é uma mestre em dedução e manipulação. Ela sempre foi.
Mas, Magnus, ele pensou. Você nunca me disse. Nunca me alertou
que seria desse jeito, que eu acordaria um dia e perceberia que iria para
algum lugar que você não poderia me acompanhar. Que nós somos
essencialmente não o mesmo. Não há “até que a morte nos separe” para
aqueles que nunca morrem.
Ele deu um passo em direção a Camille, e então outro. Levantando
seu braço direito, ele trouxe a lâmina serafim abaixo, tão forte quanto ele
podia. Ela tosquiou o metal de suas cadeias; seus pulsos se separaram,
ainda em suas algemas, mas livres. Ela trouxe suas mãos acima, sua
expressão exultante, triunfante.
“Alec”, Isabelle falou da entrada; Alec se virou e a viu em pé lá, seu
chicote do seu lado. Estava manchado de sangue; como estavam as mãos
dela e seu vestido de seda. “O que você está fazendo aqui?”
“Nada. Eu—“ Alec sentiu uma onda de vergonha e horror, quase sem
pensar, ele moveu um passo em frente a Camille, como se ele pudesse
obscurecê-la da visão de sua irmã.
“Eles estão todos mortos.” Isabelle soava sombria. “Os discípulos.
Nós matamos cada um deles. Agora vamos lá. Nós temos que começar a
procurar por Simon.” Ela apertou os olhos para Alec. “Você está bem? Você
parece realmente pálido.”
“Eu a libertei”, Alec botou para fora. “Eu não devia. É só—“
“Libertou quem?” Isabelle deu um passo dentro da sala. A luz
ambiente da cidade cintilou em seu vestido, fazendo ela brilhar como um
fantasma. “Alec, de que besteira você está falando?”
A expressão dela era vazia, confusa. Alec se virou, seguindo seu
olhar, e viu — nada. O cano ainda estava lá, um pedaço da corrente
jazendo ao lado dele, a poeira no chão apenas ligeiramente agitada. Mas
Camille se fora.
????
Clary mal teve tempo de colocar seus braços acima antes que o
guardião do inferno colidisse com ela, uma bala de canhão de músculos e
ossos e respiração quente e fedorenta. Seus pés saíram debaixo, ela se
lembrou de Jace dizendo que o melhor modo de cair, como proteger a si
mesmo, mas o conselho fugiu de sua mente e ela acertou o chão com os
cotovelos, agonia se atirando através dela enquanto a pele se rasgava. Um
momento depois o guardião estava sobre ela, suas patas, esmagando seu
peito, seu rabo distorcido girando de um lado para o outro em uma grotesca
imitação de um abanar. A ponta de sua cauda era pontuda com unhas com
saliências iguais a uma clava medieval, e um rosnar rouco veio de seu
tronco, tão alto e forte que ela pôde sentir seus ossos vibrarem.
“A segure aí! Rasgue sua garganta se ela tentar fugir!” Lilith deu
instruções enquanto o segundo guardião do inferno saltava em Jace; ele
estava lutando com aquilo, rolando repetidamente, um redemoinho de
dentes e braços e pernas e o chicotear perverso da cauda. Com dor Clary
virou sua cabeça para o outro lado, e viu Lilith indo em direção ao caixão de
vidro e Simon, ainda deitado em uma pilha. Dentro do caixão Sebastian
flutuava, tão imóvel quanto um corpo afogado, a cor leitosa da água tinha
se tornado escura, provavelmente com seu sangue.
O guardião a prendendo no chão rosnou perto de sua orelha. O som
enviou um golpe de medo através dela — e junto com o medo, fúria. Fúria
por Lilith, e por si mesma. Ela era uma caçadora de Sombras. Uma coisa
era ser derrubada por um demônio Ravener quando ela nunca tinha ouvido
falar de Nephilim. Ela tinha um pouco de treinamento agora. Ela devia ser
capaz de fazer melhor.
Qualquer coisa pode ser uma arma, Jace tinha dito para ela no
parque. O peso do guardião era esmagador; ela fez um ruído sufocado e
alcançou sua garganta, como se lutasse por ar. Ele latiu e rosnou,
mostrando seus dentes, seus dedos se fecharam na corrente contendo o
anel Morgenster ao redor de seu pescoço. Ela a arrancou, forte, e a corrente
arrebentou, ela a chicoteou em direção a face do cachorro, açoitando o
guardião brutamente nos olhos. O guardião levantou nas patas traseiras,
uivando com dor, e Clary rolou para o lado, rastejando de joelhos. Com
olhos ensanguentados, o cachorro se agachou, pronto para saltar. O colar
tinha caído da mão de Clary, o anel rolou, ela se arrastou atrás da corrente
enquanto o cachorro saltava—
Uma lâmina brilhante varou a noite, golpeando a milímetros do rosto
de Clary, separando a cabeça do cachorro de seu corpo. Ele deu um único
urro e desapareceu, deixando para trás uma marca preta chamuscada na
pedra, e o fedor de demônio no ar.
Mãos vieram abaixo, levantando gentilmente Clary em pé. Era Jace.
Ele tinha enfiado a ardente lâmina serafim em seu cinto, e a segurava com
ambas as mãos, olhando para ela com uma expressão peculiar. Ela não
podia descrevê-la, ou mesmo traçá-la — esperança, choque, amor, anseio,
e raiva todos misturados juntos em sua expressão. Sua camisa estava
rasgada em vários lugares, ensopada com sangue; sua jaqueta se foi, seu
cabelo loiro manchado com suor e sangue. Por um momento eles
simplesmente olharam um para o outro, o aperto sobre suas mãos
dolorosamente fortes. Então ambos falaram ao mesmo tempo:
“Você está—,” ela começou.
“Clary”, Ainda apertando suas mãos, ele a puxou com ele, para longe
do círculo, em direção a passarela que levava aos elevadores. “Vá”, ele
disse asperamente. “Saia daqui, Clary.”
“Jace—“
Ele tomou um fôlego estremecido. “Por favor”, ele disse, e então a
soltou, puxando a lâmina serafim de seu cinto enquanto ele voltava para o
círculo.
“Levante-se”, Lilith rosnou, “levante-se.”
Uma mão sacudiu o ombro de Simon, enviando uma onda de agonia
através de sua cabeça. Ele tinha flutuado na escuridão; ele abriu seus olhos
agora e viu o céu noturno, estrelas, e o rosto branco de Lilith pairando
sobre ele. Os olhos dela se foram, substituídos por cobras negras
rastejantes. O choque da visão foi o suficiente para empurrar Simon em pé.
No instante que ele estava ereto, ele teve ânsia e quase caiu de
joelhos novamente. Fechando seus olhos de novo contra a náusea, ele
escutou Lilith rosnar seu nome, e então a mão dela estava em seu braço, o
guiando à frente. Ele a deixou fazê-lo. Sua boca estava cheia do sabor
nauseante e amargo do sangue do Sebastian; ele estava se espalhando
através de suas veias, também, o fazendo doente, fraco, e febril até seus
ossos. Sua cabeça caiu como ela pesasse mil quilos, e a tontura estava
avançando e retrocedendo em ondas.
Abruptamente o aperto gelado de Lilith em seu braço se foi. Simon
abriu seus olhos e descobriu que ele estava em pé diante do caixão de vidro
como tinha estado antes. Sebastian flutuava em um líquido leitoso escuro,
seu rosto suave, sem pulso em seu pescoço. Dois buracos escuros eram
visíveis ao lado de sua garganta onde Simon o tinha mordido.
Dê a ele o seu sangue, a voz de Lilith ecoou, não alta mas dentro de
sua cabeça. Faça-o, agora.
Simon olhou acima tonto. Sua visão estava nebulosa. Ele se esforçou
para ver Clary e Jace através da escuridão invadindo.
Use suas presas, Lilith disse. Corte seu pulso. Dê a Jonathan seu
sangue. O cure.
Simon levantou seu pulso até sua boca. Curar ele. Ressuscitar
alguém da morte era muito mais do que curá-los, ele pensou. Talvez a mão
de Sebastian crescesse de volta. Talvez fosse isso que ela queria dizer. Ele
esperou para suas presas virem, mas elas não vieram. Ele estava esgotado
demais para estar com fome, ele pensou, e lutou contra o impulso insano
de rir.
“Não posso”, ele disse, meio arfando. ”Eu não posso—“
“Lilith!” A voz de Jace irrompeu através da noite; Lilith se virou com
um sibilar incrédulo. Simon abaixou seu pulso lentamente, lutando para
focar seus olhos. Ele focalizou no brilho em frente a ele, e veio o salto da
chama de uma lâmina serafim, segura na mão esquerda de Jace. Simon
podia vê-lo claramente agora, uma imagem distinta pintada na escuridão.
Sua jaqueta se fora, ele esta imundo, sua camiseta rasgada e preta com
sangue, mas seus olhos eram claros e seguros e atentos. Ele não parecia
mais como um zumbi ou alguém preso sonâmbulo em um sonho terrível.
“Onde ela está?” Lilith disse, seus olhos de cobra deslizando a frente
em seus pêndulos. “Onde está a garota?”
Clary. O olhar anuviado de Simon procurou na escuridão ao redor de
Jace, mas ela não estava em lugar algum. Sua visão estava começando a
clarear. Ele podia ver o sangue lambuzando o chão de azulejos, e pontos de
desfiada seda rasgada presas nos galhos afiados de uma cerca viva. O que
pareceram como pegadas de patas manchadas do sangue. Simon sentiu seu
peito se apertar. Ele olhou rapidamente de volta para Jace. Jace parecia
zangado — muito zangado de fato — mas não perturbado do modo que
Simon teria esperado que ele parecesse se algo tivesse acontecido a Clary.
Então onde ela estava?
“Ela não tem nada haver com isso”, Jace disse. “Você diz que eu não
posso matá-la, demônio. Eu digo que posso. Vamos ver quem de nós está
certo.”
Lilith se moveu tão rápido, ela era um borrão. Um momento ela
estava ao lado de Simon, no outro ela estava a um passo acima de Jace. Ela
o golpeou com sua mão, ele mergulhou, girando abaixo dela, lançando a
lâmina serafim em seu ombro. Ela gritou, rodopiando sobre ele, sangue
jorrando deu seu ferimento. Era uma cintilante cor negra, como ônix. Ela
trouxe suas mãos juntas como se quisesse esmagar a lâmina entre elas.
Elas bateram uma na outra com um som como de um trovão, mas Jace já
tinha partiido, a vários metros de distância, a luz da lâmina serafim
dançando no ar diante dele como o piscar de um olho escarnecedor.
Se tivesse sido qualquer outro Caçador de Sombras e não Jace,
Simon pensou, ele já teria morrido. Ele se lembrou de Camille dizendo,
‘Homens não podem contender com o divino’. Caçadores de Sombras eram
humanos, apesar de seu sangue de anjo, e Lilith era mais do que um
demônio.
Dor atravessou Simon. Com surpresa ele percebeu que suas presas
tinham, finalmente, saído, e estavam cortando seu lábio inferior. A dor e ao
gosto de sangue o impeliram a frente. Ele começou a se levantar,
lentamente, seus olhos em Lilith. Ela certamente não parecia notá-lo ou o
que ele estava fazendo. Seus olhos estavam fixos em Jace. Com outro
súbito rosnar ela saltou nele. Era como observar mariposas para lá e para
cá, observar os dois enquanto eles lutavam para frente e para trás no teto.
Mesmo com a sua visão vampira, Simon teve problemas em se firmar
enquanto eles se moviam, saltando por cima das cercas, se lançando entre
as passarelas. Lilith recuou Jace contra o muro baixo que cercava um
relógio solar, os números em sua face distinguiam-se em um dourado
brilhante. Jace estava se movendo tão rápido que ele era quase um borrão,
a luz de Michael chicoteando em torno de Lilith, como se ela estivesse
sendo envolvida em uma rede de brilhantes filamentos. Qualquer um teria
sido cortado em tiras em segundos. Mas Lilith se movia como água escura,
como fumaça. Ela parecia desaparecer e reaparecer à vontade, e embora
Jace não estivesse claramente cansado, Simon podia sentir sua frustração.
Finalmente aconteceu, Jace lançou a lâmina serafim violentamente
em direção a Lilith — e ela a pegou no ar, sua mão se envolvendo em torno
de sua lâmina. Sua mão estava pingando sangue negro enquanto ela
empurrava a lâmina em direção a ela. As gotas, quando elas acertavam o
chão, tornavam-se minúsculas cobras obsidianas que se contorciam na
vegetação rasteira.
Tomando a lâmina em ambas as mãos, ela a levantou. Sangue corria
de seus pulsos e antebraços pálidos como faixas de alcatrão. Com um
sorriso rosnado ela partiu a lâmina ao meio, uma metade fragmentou em
um pó brilhante em suas mãos, enquanto a outra — o cabo e um caco
irregular da lâmina — crepitou sombriamente, uma chama meio sufocada
pela cinza.
Lilith sorriu. “ Pobre pequeno Michael”, ela disse. “Ele sempre foi
fraco.”
Jace estava arfando, suas mãos apertadas em seus lados, seu cabelo
pregado em sua testa com o suor. “Você e sua conversa fiada”, ele disse.
“’Eu conheci Michael’, ‘eu conheci Sammael’. ‘O anjo Gabriel fez meu
cabelo. É como ‘eu estou com o conjunto de personagens bíblicos.’”
Este era Jace sendo valente, Simon pensou, valente e irritante por
que ele pensava que Lilith ia matá-lo, e esse era o modo que ele queria ir,
sem medo e de pé. Como um guerreiro. O modo que os Caçadores de
Sombras faziam. Sua canção de morte sempre seria isso — piadas e
superioridade e aparente arrogância, e aquele olhar em seus olhos que
dizia, Eu sou melhor do que você. Simon não o tinha percebido antes.
“Lilith”, Jace continuou, conseguindo fazer que a palavra soasse como
uma maldição. “Eu estudei sobre você. Na escola. Os céus amaldiçoaram
você com a esterilidade. Mill bebês, e todos eles morreram. Não é este o
caso?”
Lilith segurou sua sombria lâmina cintilando, seu rosto impassivo.
“Cuidado, pequeno Caçador de Sombras.”
“Ou o que? Ou você me matará?” Sangue pingava do rosto de Jace
de um corte em sua bochecha, ele não fez nenhum movimento para limpá-
lo. “Vá em frente.”
Não. Simon tentou dar um passo; seus joelhos se curvaram, e ele
caiu, batendo com força suas mãos no chão. Ele tomou fôlego. Ele não
precisava de oxigênio, mas ajudava de algum modo, a firmá-lo. Ele se
estendeu e segurou a beirada de um pedestal de pedra, usando isso para se
levantar. A parte de trás de sua cabeça estava martelando. Não havia jeito
de que seria tempo suficiente. Tudo que Lilith tinha que fazer era dirigir a
frente à lâmina denteada que ela segurava—
Mas ela não o fez. Olhando para Jace, ela não se moveu, e de
repente os olhos dele cintilaram, sua boca relaxou. “Você não pode me
matar”, ele disse, sua voz se elevando. “O que você disse antes — eu sou o
contrapeso. Eu sou a única coisa o prendendo” — ele arremessou um braço,
indicando o caixão de vidro de Sebastian — “neste mundo. Se eu morrer,
ele morre. Não é verdade?” Ele deu um passo para trás. “Eu poderia pular
desse teto agora mesmo.” Ele disse. “Me matar. Acabar com isso.”
Pela primeira vez Lilith pareceu realmente agitada. Sua cabeça
chicoteou de um lado para o outro, seus olhos de serpente estremecendo,
como se eles estivessem procurando o vento. “Onde ela está? Onde está a
garota?”
Jace limpou o sangue e o suor de seu rosto e sorriu para ela, seu
lábio já estava dividido, e sangue corria em seu queixo. “Esqueça. Eu a
mandei escadas abaixo enquanto você não estava prestando atenção. Ela se
foi — a salvo de você.”
Lilith rosnou. “Você mente.”
Jace deu um outro passo para trás. Mais alguns poucos passos o
trariam para o muro baixo, na margem do prédio. Jace podia sobreviver
muito, mais uma queda de um prédio de quarenta andares poderia ser
demais até mesmo para ele.
“Você se esquece”, disse Lilith, “Eu estava lá, Caçador de Sombras.
Eu observei você cair e morrer. Observei Valentine chorar sobre seu corpo.
E então vi o Anjo perguntar a Clarissa o que ela queria dele, o que no
mundo ela mais queria, e ela disse você. Pensando que você poderia ser a
única pessoa no mundo que poderia ter seus amados mortos de volta, e que
não haveria nenhuma consequência. Isso é o que vocês pensaram, não é,
vocês dois? Tolos.” Lilith cuspiu. “Vocês amam um ao outro — qualquer um
pode ver isso, olhem para vocês — que tipo de amor que pode arder o
mundo ou elevá-lo em glória. Não, ela nunca deixaria seu lado. Não
enquanto ela pensasse que você esta em perigo.” Sua cabeça foi para trás,
sua mão atirando, dedos curvados em garras. “Lá.”
Houve um grito, e uma das cercas pareceu rasgar, revelando Clary,
que tinha estado agachada se escondendo, no meio dela. Chutando e
lutando, ela foi arrastada a frente, suas unhas arranhando o chão, lutando
em vão por um ponto de apoio ou algo que ela pudesse agarrar. Suas mãos
deixaram trilhas de sangue nos azulejos.
“Não!” Jace foi a frente, então congelou quando Clary foi chicoteada
para o ar, onde ela pairava, pendendo em frente a Lilith. Ela estava
descalça, seu vestido de cetim — agora tão rasgado e imundo, parecia
vermelho e preto ao invés de dourado — girando em torno dela, uma das
alças de seu ombro rasgada e pendendo. Seu cabelo tinha saído
completamente de suas presilhas faiscantes e se derramava sobre seus
ombros. Seus olhos verdes fixos em Lilith com ódio.
“Sua vadia”, ela disse.
O rosto de Jace era uma máscara de horror. Ele realmente tinha
acreditado quando disse que Clary tinha partido, Simon percebeu. Ele
pensou que ela estava a salvo. Mas Lilith estava certa. E ela estava
exultando agora, seus olhos de cobra dançando enquanto ela movia suas
mãos como um títere1, e Clary girou e arfou no ar. Lilith estalou seus dedos,
e o que pareceu como um estalar de um chicote prata, veio através do
corpo de Clary, rasgando seu vestido e a pele sob ele. Ela gritou e apertou o
ferimento, e seu sangue tamborilou sob os azulejos como chuva escarlate.
“Clary”, Jace girou para Lilith. “Tudo bem.” Ele disse. Ele estava
pálido agora, seu desafio se fora; suas mãos, apertadas em punhos,
estavam brancas nas
juntas. “Tudo bem. Solte-a, e eu farei o que você quer — como
Simon — Nós deixaremos você—“
“Me deixar?” De algum modo as feições no rosto de Lilith se
reorganizaram. Cobras giravam nos buracos de seus olhos, sua pele branca
estava muito esticada e brilhante, sua boca muito grande. Seu nariz quase
tinha desaparecido. “Você não tem escolha. E mais do que isso, você me
aborreceu. Todos vocês. Talvez se você tivesse simplesmente feito como eu
ordenei, eu o deixaria ir. Você nunca saberá agora, não é?”
Simon soltou o pedestal de pedra, oscilou, e se firmou. Então
começou a andar. Colocando seus pés, um após o outro, parecendo como
imensos sacos pesados de areia molhada ao lado de um precipício. Toda vez
que seu pé tocava o chão, ele enviava uma apunhalada de dor através de
seu corpo. Ele se concentrou em se mover para frente, um passo de cada
vez.
“Talvez eu não possa te matar”, Lilith disse a Jace. “Mas eu posso
torturá-la até além da resistência dela — torturá-la até a loucura — e fazer
você assistir. Há coisas piores do que a morte, Caçador de Sombras.”
Ela estalou seus dedos de novo, e o chicote prata desceu sobre o
ombro de Clary dessa vez, abrindo um extenso corte. Clary se dobrou mais
não gritou, apertando suas mãos em sua boca, se curvando como se ela
pudesse se proteger de Lilith.
Jace foi a frente para se jogar a si mesmo em Lilith — e viu Simon.
Seus olhares se encontraram. Por um momento o mundo pareceu estar em
suspenso, todo ele, não apenas Clary. Simon viu Lillith, toda a atenção dela
focada em Clary, sua mão vindo para trás, pronta para atirar um golpe
ainda mais perverso. O rosto de Jace estava branco com a angústia, seus
olhos escurecendo enquanto eles encontravam os do Simon — e ele notou
— e entendeu.
1
Puppetter: Artista que manipula fantoches.
Jace se afastou.
O mundo borrou em torno de Simon. Enquanto ele saltava a frente,
ele percebeu duas coisas. Uma, que era impossível, ele nunca alcançaria
Lilith a tempo, a mão dela já estava pronta chicoteando a frente, o ar em
frente a ela vivo com o turbilhão prata. E dois, que ele nunca tinha
entendido bem antes o quão rápido um vampiro poderia se mover. Ele
sentiu os músculos em suas pernas, suas costas, romperem, os ossos em
seus pés e tornozelos fender—
E lá estava ele, deslizando entre Lilith e Clary enquanto a mão da
demônio vinha abaixo. O longo e afiado fio prata o atingiu sobre o rosto e o
peito — houve um momento de intensa dor — e então o ar pareceu queimar
em torno dele como confetes cintilantes, e Simon ouviu Clary gritar, um
som claro de choque e estupefação que cortou através da escuridão.
“Simon!”
Lilith congelou. Ela olhou de Simon para Clary, ainda suspensa no ar,
e então abaixo para sua própria mão, agora vazia. Ela puxou um longo e
irregular suspiro.
“Sete vezes”, ela sussurrou — e foi abruptamente cortada enquanto
uma luz cegante iluminava a noite. Deslumbrado, tudo o que Simon pode
pensar foi em formigas queimando sob o feixe concentrado de uma lente de
aumento, enquanto um grande raio de fogo mergulhava do céu, lançando-
se através de Lilith. Por um longo momento ela ardeu em branco contra a
escuridão, presa dentro de uma chama alucinante, sua boca aberta como
um túnel em um grito silencioso. Seu cabelo elevado, uma massa de
filamentos ardentes contra a escuridão — e então ela era ouro branco,
atingida dispersa contra o ar— e então era sal, mil grânulos cristalinos de
sal que choveram aos pés de Simon com um tipo de beleza medonha.
E então ela se foi.
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