sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

3

Capítulo 3
SETE VEZES
       “SABE O QUE É IMPRESSIONANTE?” ERIC DISSE, BAIXANDO suas
baquetas. “Ter um vampiro na nossa banda. Isso é a coisa que realmente
vai nos levar para o topo.”
       Kirk, abaixando o microfone, rolou seus olhos. Eric sempre estava
falando sobre colocar a banda no topo, e até então nada tinha acontecido. O
melhor que eles tinham feito foi uma apresentação na Knitting Factory, e
apenas quatro pessoas tinham ido. E uma delas tinha sido a mãe de Simon.
“Eu não vejo como isso pode nos levar para o topo se não somos permitidos
dizer a alguém que ele é um vampiro.”
       “Que pena”, Simon disse. Ele estava sentado em uma das caixas de
som, próximo a Clary, que estava absorvida enviando um texto para
alguém, provavelmente Jace. “Ninguém iria acreditar de qualquer forma,
por que veja — aqui estou eu. Daylight.” Ele levantou seus braços para
indicar o sol se derramando através dos buracos no teto da garagem de
Eric, que era o atual local de ensaio deles.
       “Isso dá algum impacto em nossa credibilidade.” Matt disse, puxando
seu brilhante cabelo ruivo para fora de seus olhos e olhando de esguelha
para Simon. “Talvez nós pudéssemos usar presas falsas.”
       “Ele não precisa de presas falsas”, Clary disse irritada, baixando seu
celular. “Ele tem presas de verdade. Vocês as viram.”
       Era verdade. Simon tinha posto para fora suas presas, quando
revelou as novidades para a banda. Primeiro eles tinham pensado que ele
tinha tido um ferimento na cabeça, ou um colapso mental. Depois que ele
tinha mostrado as presas para eles, eles mudaram de ideia. Eric tinha até
mesmo admitido que ele não estava particularmente surpreso. “Eu sempre
soube que havia vampiros, cara”, ele tinha dito. “Porque, você sabe como
há pessoas que você conhece, como sempre parecem as mesmas, mesmo
quando elas estão, tipo, uma centena de anos de idade? Como David
Bowie? Isso é por que elas são vampiros.“
       Ele tinha deixado de lado de lhes dizer que Clary e Isabelle eram
Caçadoras de Sombras. Esse não era um segredo dele para se contar. Nem
eles sabiam que Maia era uma lobisomem. Eles sabiam apenas que Maia e
Isabelle eram as duas garotas gatas que tinham, inexplicavelmente,
concordado em namorar Simon. Eles tomaram isso no que Kirk chamava de
seu magnetismo sexy de vampiro. Simon realmente não se importava do
que eles chamavam isso, desde que eles nunca escorregassem e dissessem
a Maia e a Isabelle de uma sobre a outra. Até agora ele tinha conseguido,
com sucesso, convidá-las em apresentações alternadas, então elas nunca
apareceram nas mesmas e ao mesmo tempo.
       “Talvez você pudesse mostrar as presas no palco?” Eric sugeriu. “Só,
tipo, uma vez, cara. Um vislumbre para a multidão.”
       “Se ele fizesse isso, o líder dos vampiros da cidade de Nova York
mataria todos vocês”, Clary disse. “Vocês sabem disso, certo?” Ela sacudiu
sua cabeça na direção de Simon. “Eu não acredito que você disse a eles que

é um vampiro”, ela adicionou, abaixando sua voz para que apenas Simon
pudesse ouvir. “Eles são idiotas, no caso de você não ter notado.”
       “Eles são meus amigos”, Simon murmurou.
       “Eles são seus amigos, e eles são idiotas.”
       “Eu quero que as pessoas que eu gosto saibam a verdade sobre
mim.”
       “Oh?” Clary disse, não muito gentil. ”Então quando você vai contar
para sua mãe?”
       Antes que Simon pudesse responder, houve uma pancada alta na
porta da garagem, e um momento depois ela deslizou, deixando que mais
luz do outono se derramasse lá dentro. Simon olhou de esguelha, piscando.
Era um reflexo, realmente, deixado de quando ele tinha sido humano. Não
levava mais do que um segundo para seus olhos se ajustarem a escuridão
ou a luz.
       Havia um garoto em pé na entrada da garagem, as costas iluminadas
pelo sol brilhante. Ele segurava um pedaço de papel em sua mão. Ele o
olhou incerto, e então se voltou para a banda. “Ei”, ele disse. “Aqui é onde
eu posso encontrar a banda Dangerous Stain8?”
       “Nós agora somos o Dichotomous Lemur9,” Eric disse, vindo a frente.
“Quem quer saber?”
       “Eu sou Kyle”, disse o garoto, mergulhando sob a porta da garagem.
Se endireitando, ele jogou para trás o cabelo castanho que caia sobre seus
olhos e estendeu seu pedaço de papel para Eric. ”Eu vi que vocês estão
procurando um cantor.”
       “Whoa”, Matt disse. “Nós colocamos esses folhetos, tipo, um ano
atrás, eu me esqueci totalmente deles.”
       “Sim”, Eric disse. “Nós estávamos fazendo algumas coisas diferentes
naquela época. Agora, na maior parte, desligamos os vocais. Você tem
experiência?”
       Kyle — que era muito alto, Simon viu, embora de forma alguma
desengonçado — deu de ombros. “Não de verdade. Mas digo que posso
cantar.” Ele tinha uma dicção lenta, leve e pausada, mas a oeste do que ao
sul.
       Os membros da banda olharam incertos um para o outro. Erik coçou
atrás de sua orelha. “Você pode nos dar um segundo, cara?”
       “Claro”, Kyle mergulhou para fora da garagem, deslizando a porta
fechada atrás dele. Simon podia ouvi-lo assobiando levemente do lado de
fora. Soava como “She’ll Be Comin’ Round the Mountain.10” Também não
estava bem afinado.
       “Eu não sei”, Eric disse. “Eu não tenho certeza de que podemos usar
alguém novo agora. Porque, quero dizer, nós não podemos dizer a ele sobre
essa coisa de vampiro, podemos?”
       “Não”, Simon disse. “Vocês não podem.”
       “Bem, pronto.” Matt deu de ombros. “É uma pena. Nós precisamos de
um cantor. Kirk é uma droga. Sem ofensas, Kirk.”
       Mancha perigosa.
       Lêmure dicotômico.
       Música do meio oeste do final século 19. Literalmente do velho oeste
       “Dane-se”, Kirk disse. “Eu não sou uma droga.”
       “Sim, é.” Matt disse. “Você é uma grande droga, cabeluda —“
       “Eu acho”, Clary interrompeu, levantando sua voz, ”que vocês
deveriam deixá-lo tentar.”

       Simon olhou para ela. “Por quê?”
       “Por que ele é supergato”, Clary disse, para a surpresa de Simon. Ele
não tinha estado enormemente ciente da aparência de Kyle, mas, talvez ele
não fosse o melhor juiz para beleza masculina. ”E sua banda precisa de
alguém com sex appeal.”
       “Obrigado”, Simon disse, “em nome de todos nós, muitíssimo
obrigado.”
       Clary fez um barulho impaciente. “Sim, sim, todos vocês são caras
encantadores. Especialmente você, Simon.” Ela deu um tapinha na mão
dele. “Mas Kyle é gostoso como ‘whoa.’ Só estou dizendo. Minha opinião
objetiva como uma mulher é que se vocês adicionarem Kyle em sua banda,
vocês dobrarão sua base de fãs femininas.”
       “O que significa que nós teremos duas fãs femininas ao invés de
uma.” Kirk disse.
       “Qual uma?” Matt pareceu genuinamente curioso.
       “A amiga da priminha do Eric. Qual o seu nome? Aquela que tem uma
queda por Simon. Ela vem a todos os nossos shows e diz para todo mundo
que ela é a namorada dele.”
       Simon piscou. “Ela tem treze anos.”
       “É o seu magnetismo sexy de vampiro em funcionamento, cara”, Matt
disse. “As garotas não podem resistir a você.”
       “Ah, pelo amor de Deus”, Clary disse. “Não existe essa coisa de
magnetismo sexy de vampiro.” Ela apontou um dedo para Eric. “E nem
mesmo diga que Vampiro Sexy Mojo11 soa como um nome de banda ou
eu—“
       A porta da garagem se abriu. “Uh, caras?” Era Kyle de novo. “Olha,
se vocês não querem me dar uma chance, tudo bem. Talvez vocês
mudaram seu estilo, sei lá. Só me digam, e vou embora.”
       Eric ergueu sua cabeça de lado. “Entre e deixe a gente dar uma
olhada em você.”
       Mojo pode ser amuleto, feitiço, charme ou magnetismo. Traduzido
como magnetismo sexy de vampiro.
       Kyle entrou na garagem. Simon olhou para ele, tentando avaliar o
que era que tinha feito Clary dizer que ele era gostoso. Ele era alto de
ombros largos e magros, com maçãs do rosto altas, cabelo preto longo que
caia sobre sua testa e abaixo em seu pescoço em cachos, e pele morena
que não tinha perdido o bronzeado de verão ainda. Seus cílios longos e
espessos sobre surpreendentes olhos verdes acinzentados o faziam parecer
como uma bonita estrela do rock. Ele usava uma camiseta justa verde e
jeans, e ambos os braços eram tatuados — sem marcas, apenas tatuagens
comuns. Elas pareciam como um texto sinuoso ao redor de sua pele,
desaparecendo nas mangas de sua camisa.
       Ok, Simon teve que admitir. Ele não era horrível.
       “Sabe”, Kirk disse finalmente, quebrando o silêncio. “Estou vendo. Ele
é bem bonito.”
       Kyle piscou e se virou para Eric. “Então, vocês querem que eu cante
ou não?”
       Eric pegou o microfone de seu suporte e o deu para ele. “Vá em
frente”, ele disse. “Experimente.”
       ????

       “Sabe, ele era realmente muito bom”, Clary disse. ”Eu estava meio
que brincando sobre incluir Kyle na banda, mas ele realmente consegue
cantar.”
       Eles estavam caminhando na Kent Avenue, em direção a casa de
Luke. O céu tinha escurecido do azul para o cinza em antecipação ao
crepúsculo, e nuvens pendiam baixas sobre o East River. Clary estava
puxando uma de suas mãos com luva ao longo dos elos de uma cerca que
os separava do aterro de concreto rachado, fazendo o metal chocalhar.
       “Você só está dizendo isso por que acha que ele é gato”, Simon disse.
       Ela fez um muxoxo. “Não tão gostoso. Não, como, o cara mais
gostoso que eu já tenha visto.” O que, Simon imaginou, seria Jace, embora
ela fosse legal o suficiente para não dizer. “Mas, honestamente, eu pensei
que seria uma boa ideia tê-lo na banda. Se Eric e o resto deles não podem
contar para ele que você é um vampiro, eles não podem contar para mais
ninguém também. Finalmente isso colocaria um fim nessa ideia estúpida.”
Eles estavam próximos à casa de Luke; Simon podia ver do outro lado da
rua, a janela iluminada contra o céu escuro. Clary parou em um buraco na
cerca. “Se lembra quando nós matamos um bando de demônios Raum
aqui?”
       “Você e Jace mataram alguns demônios Raum. Eu quase vomitei.”
Simon se lembrou, mas sua mente não estava nisso, ele estava pensando
em Camille, sentada em frente a ele no jardim, dizendo, ‘Você é amigo dos
Caçadores de Sombras, mas você nunca pode ser um deles. Você sempre
será o outro e o de fora’. Ele olhou de esguelha para Clary, se perguntando
o que ela diria se dissesse a ela sobre seu encontro com a vampira, e sua
oferta. Ele imaginou que ela provavelmente ficaria aterrorizada. O fato de
que ele não podia ser ferido, não a tinha feito parar ainda de se preocupar
sobre sua segurança.
       “Você não estaria assustado agora”, ela disse suavemente, como se
lendo a mente dele. “Agora você tem a Marca.” Ela se virou para olhá-lo,
ainda apoiada contra a cerca. “Alguém já notou ou perguntou sobre ela?”
       Ele sacudiu sua cabeça. “Meu cabelo a cobre, a maior parte, e de
qualquer modo, ela apagou bastante. Vê?” Ele puxou seu cabelo de lado.
       Clary estendeu a mão e tocou sua testa e a escrita sinuosa da Marca
lá. Seus olhos estavam tristes, como eles tinham estado naquele dia no
Salão dos Acordos em Alicante, quando ela tinha entalhado a mais antiga
das maldições do mundo na pele dele. “Ela dói?”
       “Não. Ela não dói.” ‘E Caim disse para o Senhor, Minha punição é
maior do que posso suportar.’ “Sabe, eu não te culpo, sabia? Você salvou
minha vida.”
       “Eu sei.” Seus olhos estavam brilhando. Ela baixou sua mão de sua
testa e esfregou as costas de sua luva em seu rosto. ”Merda. Eu odeio
chorar.”
       “Bem, é melhor você se acostumar.” Ele disse, e quando os olhos
dela se arregalaram, ele adicionou precipitadamente. “Quero dizer, o
casamento. É o que, próximo sábado? Todo mundo chora em casamentos.”
       Ela bufou.
       “A propósito, como está sua mãe e Luke?”
       “Insuportavelmente apaixonados. É horrível. Aliás—“ ela deu um
tapinha no ombro dele. “Eu devo entrar. Te vejo amanhã?”
       Ele concordou. “Claro. Amanhã.”

       Ele a observou enquanto ela corria para o outro lado da rua e acima
nas escadas em frente à porta de Luke. Amanhã. Ele se perguntou há
quanto tempo tinha sido desde que ele tinha ficado, mais do que uns
poucos dias, sem ver Clary. Ele se perguntou sobre ser um fugitivo ou um
errante sobre a Terra, como Camille tinha dito. Raphael tinha dito. ‘O
sangue de teu irmão clama a mim da terra’. Ele não era Caim, o que tinha
matado seu irmão, mas a maldição julgava que ele era. Era estranho, ele
pensou, esperar por perder tudo, sem saber se isso aconteceria ou não.
       A porta se fechou atrás da Clary. Simon virou para ir a Kent, em
direção a parada da linha G na Lorimer Street. Estava quase totalmente
escuro agora, o céu acima, um espiral de cinza e preto. Simon escutou
pneus frearem na estrada atrás dele, mas ele não se virou. Carros dirigiam
muito rápido nesta rua o tempo todo, apesar das rachaduras e buracos. Não
foi até que a van azul encostou ao lado dele e guinchou parando, que ele se
virou para olhar.
       O motorista da van arrancou as chaves da ignição, desligando o
motor, e jogou a porta aberta. Era um homem — um homem alto, vestido
em um agasalho de capuz cinza e tênis, o capuz puxado tão baixo que ele
escondia a maior parte de seu rosto. Ele saltou do assento do motorista, e
Simon viu que havia uma faca longa e brilhante em sua mão.
       Antes Simon pensaria que ele deveria correr. Ele era um vampiro,
mais rápido do que qualquer humano. Ele podia ultrapassar qualquer um.
Ele devia ter corrido, mas ele estava também surpreso; ele ficou parado
enquanto o homem, com a faca brilhando na mão, veio em direção a ele. O
homem disse algo em uma voz baixa e gutural, alguma coisa em uma
linguagem que Simon não entendeu.
       Simon deu um passo para trás. “Olha”, ele disse, alcançando seu
bolso. “Você pode ficar com minha carteira—“
       O homem investiu sobre Simon, mergulhando a faca em direção ao
seu peito. Simon olhou para baixo em descrença. Tudo pareceu estar
acontecendo muito lentamente, como se o tempo estivesse se esticando.
Ele viu a ponta da faca próxima ao seu peito, a ponta amassando a ponta
do couro de sua jaqueta — e então ela foi rente para o lado, como se
alguém tivesse agarrado o braço de seu atacante e o puxado. O homem
gritou enquanto ele era lançado acima no ar como um fantoche sendo
puxado por suas cordas. Simon olhou ao redor selvagemente — certo de
que alguém deve ter escutado ou notado o alvoroço, mas ninguém surgiu.
O homem se manteve gritando, se sacudindo violentamente, enquanto sua
camisa se rasgava em frente, como se cortada por uma mão invisível.
       Simon olhou horrorizado. Imensas feridas estavam aparecendo no
dorso do homem. A cabeça dele voou para trás e sangue jorrou de sua
boca. Ele parou de gritar abruptamente — e caiu como se a mão invisível
tivesse se aberto, o soltando. Ele bateu no chão e se quebrou como vidro
estilhaçado em milhares de pedaços brilhantes que se esparramaram de um
lado a outro da calçada.
       Simon caiu sobre seus joelhos. A faca que pretendia matá-lo, ao
alcance do braço. Foi tudo o que foi deixado de seu atacante, salvo uma
pilha de cristais cintilantes que já estavam começando a ser soprados no
vento forte. Ele tocou um, cautelosamente.
       Era sal. Ele olhou para suas mãos. Elas estavam tremendo. Ele sabia
o que tinha acontecido, e por que.

       ‘E o Senhor, porém, lhe disse, Portanto qualquer um que matar a
Caim, vingança será colocada sobre ele sete vezes.’
       Então isso era o que sete vezes parecia.
       Ele mal se levantou da sarjeta antes que se dobrasse e vomitasse
sangue na rua.
       No momento em que ele abriu a porta, ele sabia que tinha calculado
mal. Ele pensava que sua mãe estaria dormindo por agora, mas ela não
estava. Ela estava acordada, sentada em um sofá de frente para a porta,
seu telefone sobre a mesa ao lado dela, e ela viu o sangue sobre sua
jaqueta imediatamente.
       Para sua surpresa ela não gritou, mas sua mão voou para sua boca.
“Simon.”
       “Não é meu sangue”, ele disse rapidamente. ”Eu estava no Eric, e
Matt teve um sangramento nasal—“
       “Eu não quero ouvir isso.” O tom mordaz era um que ela raramente
usava; isso o lembrou do modo que ela tinha falado durante aqueles
últimos meses quando seu pai tinha estado doente, ansiedade como uma
faca em sua voz. “Eu não quero ouvir mais nenhuma mentira.”
       Simon largou suas chaves sobre a mesa ao lado da porta. “Mãe—“
       “Tudo o que você faz é contar mentiras. Eu estou cansada disso.”
       “Isso não é verdade.” Ele disse, mas se sentiu enjoado, sabendo que
era. “Eu só tenho muita coisa acontecendo na minha vida agora mesmo.”
       “Eu sei que tem.” Sua mãe ficou de pé; ela sempre tinha sido uma
mulher magra, e ela parecia esquelética agora, seu cabelo preto da mesma
cor como o dele, listrado com mais cinza do que ele tinha se lembrado,
onde ele caia em torno de seu rosto. “Venha comigo, jovenzinho. Agora.”
       Confuso, Simon a seguiu para a pequena cozinha brilhante amarela.
Sua mãe parou e apontou em direção ao balcão. “Importa-se de me
explicar aquilo?”
       A boca de Simon ficou seca. Alinhadas ao longo da bancada como
uma fileira de soldados de brinquedo, estavam as garrafas de sangue que
tinham estado na minigeladeira dentro de seu armário. Uma estava meio
cheia, as outras inteiramente cheias, o líquido vermelho nelas brilhando
como uma acusação. Ela também tinha descoberto as sacolas vazias de
sangue que ele tinha removido e cuidadosamente empurrado dentro de
uma sacola do shopping antes de descarregá-las em sua lixeira. Elas
também estavam espalhadas sobre a bancada, como uma decoração
grotesca.
       “Primeiro eu pensei que as garrafas eram vinho”, Elaine Lewis disse
em uma voz trêmula. “Então eu descobri as sacolas. Então eu abri uma das
garrafas. É sangue, não é?”
       Simon não disse nada. A voz dele pareceu ter fugido.
       “Você tem estado agindo tão estranho ultimamente”, sua mãe
continuou. “Fora toda hora, você nunca come, você mal dorme, você tem
amigos que eu nunca conheci, nunca ouvi. Você acha que eu não posso
dizer quando você está mentindo para mim? Posso dizer, Simon. Eu pensei
que talvez você estava nas drogas.”
       Simon encontrou sua voz. “Então você revistou o meu quarto?”
       Sua mãe corou. “Eu tive! Eu pensei — eu pensei que se eu
encontrasse drogas lá, eu poderia ajudá-lo, colocar você em um programa
de reabilitação, mas isso?” Ela gesticulou nervosamente para as garrafas.

“Eu nem mesmo sei o que pensar sobre isso. O que está acontecendo,
Simon? Você entrou em algum tipo de culto?”
       Ele sacudiu sua cabeça.
       “Então me diga”, sua mãe disse, seus lábios tremendo. “Por que as
únicas explicações que eu posso pensar são horríveis e doentias. Simon, por
favor —“
       “Eu sou um vampiro”, Simon disse. Ele não tinha ideia de como ele
tinha dito isso, ou mesmo o porquê. Mas lá estava. As palavras perduraram
no ar entre eles como gás envenenado.
       Os joelhos de sua mãe pareceram ceder, e ela afundou na cadeira da
cozinha. “O que você disse?”, ela respirou.
       “Eu sou um vampiro”, Simon disse. “Eu tenho sido um por cerca de
dois meses agora. Eu lamento não ter dito a você antes. Eu não sabia
como.”
       O rosto de Elaine Lewis era um branco giz. “Vampiros não existem,
Simon.”
       “Sim”, ele disse. “Eles existem. Olhe, eu não pedi para ser um
vampiro. Eu fui atacado. Eu não tive uma escolha. Eu mudaria isso se eu
pudesse.” Ele pensou freneticamente no panfleto que Clary tinha dado a ele
há tanto tempo atrás, um sobre sair do armário para seus pais. Tinha sido
como uma analogia engraçada então, agora, isso não era.
       “Você pensa que é um vampiro”, a mãe de Simon disse entorpecida.
“Você acha que bebe sangue.”
       “Eu bebo sangue”, Simon disse. “Eu bebo sangue animal.”
       “Mas você é vegetariano.” Sua mãe pareceu estar à beira das
lágrimas.
       “Eu era. Não sou agora. Não posso ser. Sangue é do que eu vivo“, a
garganta de Simon pareceu apertar. “Eu nunca machuquei ninguém. Nunca
bebi sangue de ninguém. Eu ainda sou a mesma pessoa. Eu ainda sou eu.”
       Sua mãe pareceu lutar para se controlar. “Seus novos amigos — eles
são vampiros, também?”
       Simon pensou em Isabelle, Maia, Jace. Ele não poderia explicar os
Caçadores de Sombras e lobisomens, também. Era demais. “Não, Mas —
eles sabem que eu sou um.”
       “Eles — eles te deram drogas? Fizeram você tomar alguma coisa?
Algo que faria você ter alucinações?” Ela pareceu mal ter escutado sua
resposta.
       “Não, mãe, isso é a verdade."
       “Isso não é verdade”, ela sussurrou. “Você acha que é verdade. Oh,
Deus,
       Simon. Eu lamento tanto. Eu deveria ter percebido. Nós vamos
conseguir ajuda. Nós encontraremos alguém. Um médico. O que quer que
custe—"
       “Eu não posso ir a um médico.”
       “Sim, você pode. Você precisa estar em algum lugar. Um hospital,
talvez—“
       Ele estendeu seu pulso para ela. “Sinta meu pulso.” Ele disse.
       Ela olhou para ele, confusa. “O que?”
       “Meu pulso”, ele disse. “Pegue ele. Se eu tenho um, tudo bem. Eu irei
ao hospital com você. Se não, você tem que acreditar em mim.”
       Ela limpou as lágrimas de seus olhos e lentamente se aproximou para
tomar seu pulso. Depois de tanto tempo tomando conta do pai de Simon

quanto ele tinha estado doente, ela sabia como tomar um pulso tão bem
quanto uma enfermeira. Ela pressionou seu dedo indicador dentro de seu
pulso, e esperou.
       Simon se sentiu doente. “Eu te disse mãe. Eu sou um vampiro.”
       “Você não é meu filho. Você não é Simon.” Ela estava estremecendo.
“Que tipo de coisa viva não tem um pulso? Que tipo de monstro você é? O
que você fez com meu menino?”
       “Eu sou Simon—“ Ele deu um passo em direção a sua mãe.
       Ela gritou. Ele nunca tinha a ouvido gritar daquele jeito, e ele nunca
gostaria de novo. Foi um barulho horrível.
       “Fique longe de mim.” A voz dela partiu. “Não chegue mais perto.”
Ela começou a sussurrar. “Baruk ata Adonai sho’me a t’fila...”
       Ela estava orando, Simon percebeu com um choque. Ela estava tão
aterrorizada dele que ela estava orando para que ele partisse, fosse banido.
E o que era pior era que ele podia sentir isso. O nome de Deus apertou seu
estômago e fez a garganta dele doer.
       Ela estava certa em orar, ele pensou, doente para sua alma. Ele
estava amaldiçoado. Ele não pertencia ao mundo. Que tipo de coisa viva
não tinha um pulso?
       “Mãe”, ele sussurrou. “Mãe, pare.”
       Ela olhou para ele, olhos arregalados, seus lábios ainda se movendo.
       “Mãe, você não precisa estar tão chateada.” Ele ouviu sua própria voz
como uma distante, suave e calmante, voz de um estranho. Ele manteve
seus olhos fixos em sua mãe enquanto ele falava, capturando o olhar dela
com os seus, como um gato pode capturar um rato. “Nada aconteceu. Você
caiu no sono no sofá na sala de estar. Você teve um pesadelo, no qual, eu
cheguei em casa e te disse que era um vampiro. Mas isso é loucura. Isso
nunca aconteceria.”
       Ela começou a parar de orar. Ela piscou. “Eu estou sonhando.” Ela
repetiu.
       “Isso é um pesadelo.” Simon disse. Ele se moveu em direção a ela e
colocou uma mão sobre seu ombro. Ela não se afastou. Sua cabeça estava
curvando como uma criança cansada. “Só um sonho. Você nunca descobriu
nada em meu quarto. Nada aconteceu. Você apenas esteve dormindo, só
isso.”
       Ele tomou sua mão. Ela o deixou guiá-la para a sala de estar, onde
ele a assentou na poltrona. Ela sorriu quando ele puxou um cobertor sobre
ela, e fechou seus olhos.
       Ele voltou para a cozinha e rapidamente, metodicamente, varreu as
garrafas e contêineres de sangue para dentro do saco de lixo. Ele o
amarrou e o trouxe para seu quarto, onde ele trocou sua jaqueta
ensanguentada por uma nova, e jogou algumas coisas rapidamente em uma
mochila. Ele desligou a luz e saiu, fechando a porta atrás dele.
       Sua mãe já estava dormindo enquanto ele passou pela sala de estar.
Ele se aproximou e levemente tocou a mão dela.
       “Eu estarei fora por alguns dias”, ele sussurrou. “Mas você não se
preocupará. Você não esperará que eu volte. Você acha que eu estou em
uma excursão escolar. Não há necessidade de ligar. Tudo está bem.”
       Ele puxou sua mão de volta. Na luz fraca sua mãe pareceu tanto mais
velha e mais jovem do que ele estava acostumado. Ela era tão pequena
quanto uma criança, encolhida sob o cobertor, mas havia novas linhas sobre
seu rosto que ele não se lembrava de estarem ali antes.

       “Mãe”, ele sussurrou.
       Ele tocou a mão dela, e ela se mexeu. Sem querer acordá-la, ele
puxou seus dedos de volta e se moveu sem som para a porta, agarrando
suas chaves da mesa enquanto ele ia.
       ????
       O Instituto estava em silêncio. Ele sempre estava em silêncio
ultimamente. Jace tinha deixado sua janela aberta a noite, então ele podia
ouvir os barulhos do tráfego passando, a ocasional sirene de ambulância e o
buzinar na York Avenue. Ele podia ouvir coisas que os mundanos não
podiam, também, e estes sons filtrados através da noite e em seus sonhos
— a corrente de ar de uma moto em voo de um vampiro, o flutuar de fada
alada, o distante uivo de lobos nas noites quando a lua estava cheia.
       Era apenas lua crescente agora, lançando só a luz suficiente para ele
ler enquanto ele se estendia sobre a cama. Ele tinha sua caixa de prata de
seu pai aberta em frente a ele, e estava vasculhando através do que estava
dentro dela. Uma das estelas do seu pai estava nela, e uma adaga de prata
de caça com as iniciais SWH no punho, e — o de mais interesse para Jace —
uma pilha de cartas.
       Nas últimas seis semanas ele tinha estado lendo uma carta ou mais,
todas as noites, tentando ter uma noção do homem que era seu pai
biológico. Uma imagem tinha começado a surgir lentamente, de um homem
jovem sério com pais difíceis que tinham sido arrastados para Valentine e o
Ciclo, por que eles tinham parecido oferecer a ele uma oportunidade para se
distinguir a si mesmo no mundo. Ele se manteve escrevendo para Amatis
mesmo depois de seu divórcio, algo que ela não tinha mencionado antes.
Naquelas cartas, seu desencantamento com Valentine e indisposição para
as atividades do Ciclo estavam claras, embora ele raramente, até mesmo
alguma vez, mencionou a mãe de Jace, Céline. Fazia sentido — Amatis não
desejaria escutar sobre sua substituta — e ainda Jace não podia se impedir
de odiar seu pai um pouco por isso. Se ele não tivesse se importado acerca
da mãe de Jace, por que ele se casou com ela? Se ele tinha odiado tanto
assim o Ciclo, por que ele não o tinha deixado? Valentine tinha sido um
louco, mas pelo menos ele se manteve por seus princípios.
       E então, é claro, Jace apenas se sentia pior por preferir Valentine a
seu pai de verdade. Que tipo de pessoa isso o fazia?
       Uma batida na porta o tirou de suas autorrecriminações; ele se
levantou e foi para respondê-la, esperando que Isabelle estivesse lá,
esperando por qualquer empréstimo de algo ou reclamação sobre alguma
coisa.
       Mas não era Isabelle. Era Clary.
       Ela não estava vestida do modo que ela geralmente estava. Ela tinha
um top preto decotado, uma blusa branca amarrada frouxa e aberta sobre
ele, e uma saia curta, curta o suficiente para mostrar as curvas de suas
pernas, na altura da coxa. Ela usava seu brilhante cabelo ruivo em tranças,
cachos frouxos dele agarrados contra as concavidades de suas têmporas,
como se tivesse chovendo levemente lá fora. Ela sorriu quando ele a viu,
arqueando suas sobrancelhas. Elas eram acobreadas, como os cílios finos
que emolduravam seus olhos verdes. “Você vai me deixar entrar?”
       Ele olhou acima e abaixo no corredor. Ninguém mais estava lá,
graças a Deus. Tomando Clary pelo braço, ele a puxou para dentro e fechou
a porta. Se inclinando contra ela, ele disse. “O que você está fazendo aqui?
Está tudo bem?”

       “Tudo bem.” Ela chutou seus sapatos e sentou na ponta da cama.
Sua saia subiu enquanto ela se apoiava atrás em suas mãos, mostrando
ainda mais a coxa. Não estava fazendo maravilhas para a concentração de
Jace. “Eu senti a sua falta. E mamãe e Luke estão dormindo. Eles não
notaram que eu sai.”
       “Você não devia estar aqui.” As palavras saíram como um tipo de
gemido. Ele odiava dizê-las, mas sabia que elas precisavam ser ditas, por
razões que ela nem mesmo sabia. E ele esperou que ela nunca soubesse.
       “Bem, se você quer que eu vá, eu irei.” Ela provocou. Seus olhos
estavam cintilantemente verdes. Ela deu um passo para mais perto dele.
“Mas eu vim até aqui. Você podia pelo menos me dar um beijo de
despedida.”
       Ele se aproximou e a puxou, e a beijou. Havia algumas coisas que
você tinha que fazer, mesmo se elas fossem uma má ideia. Ela se envolveu
em seus braços como uma seda delicada. Ele colocou suas mãos nos
cabelos dela e correu seus dedos através dele, desenroscando suas tranças
até que seu cabelo caísse ao redor de seus ombros do jeito que gostava
dele. Ele se lembrou de desejar fazer isso na primeira vez que ele tinha
visto ela, e descartou a ideia como loucura. Ela era uma mundana, ela era
uma estranha, não havia sentido em querê-la. E então ele a tinha beijado
pela primeira vez, e isso quase o deixou louco. Eles tinham descido e sido
interrompidos por Simon, e ele nunca tinha desejado matar alguém tanto
quanto ele quis matar Simon naquele momento, embora ele soubesse,
racionalmente, que Simon não tinha feito nada de errado. Mas o que ele
sentiu não tinha nada haver com a razão, e quando ele tinha imaginado, ela
o deixando por Simon, o pensamento tinha feito ele enjoado e assustado,
do modo que nenhum demônio sequer tinha.
       E então Valentine tinha dito a eles que eram irmão e irmã, e Jace
tinha percebido que isso era a pior das coisas, infinitamente a pior das
coisas, do que Clary o deixando por outro alguém — era saber que o modo,
pelo qual, ele a amava, era de algum modo cosmicamente errado; que o
que tinha parecido a mais pura e a mais improvável coisa em sua vida,
tinha sido agora corrompida além da redenção. Ele se lembrou de seu pai
dizendo que quando os anjos caiam, eles caiam em angústia, por que uma
vez eles tinham visto a face de Deus, e agora, eles nunca a veriam
novamente. E ele tinha pensado que sabia como eles se sentiam.
       Isso não o fez a querer menos; isso tinha apenas se tornado o
desejar ela uma tortura. Algumas vezes, a sombra daquela tortura caia em
suas memórias, mesmo quando ele a estava beijando, como ele estava
agora, e o fazia a atrair mais firmemente. Ela fez um ruído surpreso, mas
não protestou, mesmo quando ele a levantou e a transportou para a cama.
       Eles se estenderam nela juntos, amassando algumas das cartas, Jace
jogou a caixa de lado para dar espaço para eles. Seu coração estava
martelando dentro de suas costelas. Eles nunca tinham estado na cama
juntos desse jeito antes, não realmente. Eles tinham estado naquela noite
no quarto dela em Idris, mas eles mal tinham se tocado. Jocelyn era muito
cuidadosa em nunca deixar nem um, nem o outro, passar a noite onde o
outro morava. Ela não se importava muito com ele, Jace suspeitava, e ele
mal podia culpá-la. Ele duvidava se ele gostaria muito de si mesmo, se ele
estivesse no lugar dela.
       “Eu te amo”, Clary sussurrou. Ela tinha tirado sua blusa, e as pontas
de seus dedos estavam traçando as cicatrizes em suas costas, e a cicatriz

em forma de estrela em seu ombro que era o par da dela mesma, uma
lembrança do anjo, cujo sangue eles compartilhavam. “Eu jamais quero
perder você.”
        Ele deslizou sua mão para desamarrar sua blusa. Sua outra mão,
apoiada contra o colchão, tocou o metal frio da adaga; ela deve ter
deslizado na cama com o resto do conteúdo da caixa. ”Isso nunca
acontecerá.”
        Ela olhou para ele com olhos luminosos. “Como você pode estar tão
certo?”
        Sua mão apertou o cabo da faca. O luar que se derramava através da
janela moveu-se na lâmina enquanto ele a levantava. “Eu tenho certeza”,
ele disse, e trouxe a adaga abaixo. A lâmina tosquiou através da carne dela,
como se ela fosse papel, e sua boca se abriu em um espantado O e sangue
ensopou a frente de sua camisa branca, ele pensou, Querido Deus, de novo,
não.
        Acordar do pesadelo era como bater em uma janela de vidro. Os
afiados fragmentos disso pareceram fatiar Jace, mesmo enquanto ele se
libertava e se sentava, arfando. Ele rolou para fora da cama,
instintivamente querendo fugir, e bater no chão de pedra com suas mãos e
joelhos. O ar frio se derramou através da janela aberta, o fazendo
estremecer, mas limpando os últimos tentáculos apegados do sonho.
        Ele olhou para suas mãos. Elas estavam limpas do sangue. A cama
estava uma bagunça, os lençóis e cobertores enroscados em uma bola
emaranhada do seu retorcer e girar, mas a caixa, contendo as coisas de seu
pai, estava imóvel no criado mudo, onde ele a tinha deixado antes que ele
fosse dormir.
        As primeiras vezes que ele tinha tido o sonho, ele tinha acordado e
vomitado. Agora ele estava cuidadoso em não comer por horas antes que
ele fosse dormir, então, ao invés, seu corpo teve sua vingança sobre ele o
atormentando com espasmos de náusea e febre. Um espasmo o atingiu
agora, e ele se curvou em uma bola, arfando e o enjoando, até que isso
passou.
        Quando acabou, ele pressionou sua testa contra o chão de pedra fria.
Suor estava resfriando seu corpo, sua camiseta grudando nele, e ele
imaginou, não inutilmente, se eventualmente os sonhos o matariam. Ele
tinha tentado tudo para pará-los — dormir com remédios e porções, runas
de sono e runas de paz e cura. Nada funcionou. Os sonhos roubados como
veneno em sua mente, e não havia nada que ele pudesse fazer para trancá-
los.
        Mesmo durante suas horas acordadas, ele achava difícil olhar para
Clary. Ela sempre tinha sido capaz de ver através dele, do modo que
ninguém mais tinha, e ele só podia imaginar o que ela pensaria se ela
soubesse o que ele sonhava. Ele rolou de lado e olhou para a caixa sobre o
criado mudo, o luar cintilando nela. E ele pensou em Valentine. Valentine,
que tinha torturado e aprisionado a única mulher que ele tinha amado, que
tinha educado seu filho — ambos os filhos — que amar algo era a destruir
para sempre.
        Sua mente girou freneticamente enquanto ele dizia as palavras para
si mesmo, mais e mais. Isso se tornou como uma espécie de cântico para
ele, e como qualquer cântico, as palavras tinham começado a perder seus
significados individuais.

        Eu não sou como Valentine. Eu não quero ser como ele. Eu não serei
como ele. Eu não serei.
        Ele viu Sebastian — Jonathan, na verdade — meio que seu irmão,
sorrindo para ele através de um emaranhado de cabelo prata acidentado,
seus olhos pretos cintilando com brilho sem misericórdia. E ele viu sua
própria faca ir a Jonathan e se libertar, e o corpo de Jonathan tombar em
direção rio abaixo, seu sangue se misturando com as algas e mato na beira
da margem.
        Eu não sou como Valentine.
        Ele não tinha lamentado a morte de Jonathan. Dada a chance, ele
faria isso de novo.
        Eu não quero ser como ele.
        Com certeza não era normal matar alguém — matar seu próprio
irmão adotivo — e não sentir nada sobre isso.
        Eu não quero ser como ele.
        Mas seu pai o tinha educado que para matar sem misericórdia era
uma virtude, e talvez você nunca pudesse esquecer o que seus pais te
ensinaram. Não importa o tão quanto você quisesse.
        Eu não serei como ele.
        Talvez as pessoas nunca pudessem realmente mudar.
        Eu não.

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