sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

6

Capítulo 6
ACORDE O MORTO
       O QUARTO DO JACE ESTAVA TÃO ARRUMADO COMO SEMPRE —
cama perfeitamente feita, os livros alinhados em ordem alfabética nas
prateleiras, livros e notas empilhados cuidadosamente na mesa. Mesmo
suas armas estavam alinhadas ao longo da parede em ordem de tamanho,
a partir de um facão enorme até um conjunto de pequenas adagas.
       Clary, parada na porta, conteve um suspiro. A limpeza foi toda muito
bem. Ela era acostumada fazer isso. Era, ela sempre pensava, o jeito de
Jace de externar o controle sobre os elementos de uma vida que, caso
contrário, pode parecer caótica. Ele tinha vivido tanto tempo não sabendo
quem — ou até o que — ele realmente era, ela mal podia invejar a
cuidadosa sincronia alfabética da sua coleção de poesia.
       Ela poderia, entretanto — e fazia — invejar o fato de que ele não
estava lá. Se ele não voltou para casa depois de sair da loja de noivas, para
onde teria ido? Quando ela olhou ao redor da sala, uma sensação de ilusão
tomou conta dela. Não era possível que qualquer uma dessas coisas
estivesse acontecendo, era? Ela sabia como rompimentos eram de ouvir
outras meninas se queixando deles. Primeiro o afastamento, a recusa
gradual de retornar telefonemas e mensagens. As mensagens vagas falando
que nada estava errado, que a outra pessoa somente queria um pouco de
espaço. Então o discurso de como “não é você, sou eu”. Em seguida, a
parte do choro.
       Ela nunca pensou que alguma dessas coisas se aplicaria a ela e Jace.
O que eles tinham não era comum, ou sujeito as regras normais de
relacionamentos e rompimentos. Eles pertenciam um ao outro totalmente, e
sempre seriam e sempre foram.
       Mas todos se sentiam assim, talvez? Até o momento em que eles
percebiam que eram como todos os outros, e tudo o que eles pensavam
que era real, fosse destruído em pedaços.
       Ela se viu atraída para a caixa agora, contudo. Ela se lembrou dele
sentado nos degraus da frente do Salão dos Acordos em Idris, segurando a
caixa no colo. “Como se eu pudesse parar de amar você”, ele havia dito. Ela
tocou a tampa da caixa, e seus dedos encontraram o fecho, que se abriu
facilmente. Dentro estavam espalhados papéis, fotografias velhas. Ela
puxou uma, e olhou para ela, fascinada. Havia duas pessoas jovens na
fotografia, uma mulher e um homem. Ela reconheceu a mulher
imediatamente como a Irma de Luke, Amatis. Ela estava olhando para o
jovem com todo o brilho do primeiro amor. Ele era maravilhoso, alto e loiro,
mas seus olhos eram azuis, não dourados, e seus traços menos angulares
que os de Jace... e ainda seriam, sabendo quem ele era — o pai de Jace —
foi o suficiente para fazer seu estômago apertar.
       Ela guardou a foto de Stephen Herondale às pressas, e quase cortou
o dedo na lâmina de uma pequena adaga de caça que estava na caixa
transversalmente. Pássaros foram esculpidos ao longo do cabo. A lâmina

estava coberta de ferrugem, ou algo que parecia ferrugem. Não deve ter
sido devidamente limpa. Ela fechou a caixa rapidamente, e afastou-se, a
culpa como um peso em seus ombros.
       Ela pensou em deixar uma nota, mas, decidindo que seria melhor
esperar até ela poder falar com Jace pessoalmente, ela saiu e seguiu pelo
corredor para o elevador. Ela havia batido na porta de Isabelle mais cedo,
mas não parecia que ela estava em casa também. Mesmo as tochas com
pedra enfeitiçada nos corredores pareciam estar brilhando mais fracas do
que o habitual. Sentindo-se totalmente depressiva, Clary apertou o botão
para chamar o elevador — somente para ver que já estava aceso. Alguém
estava subindo do térreo do Instituto.
       Jace, ela pensou imediatamente, sua pulsação sobressaltando.
       Mas claro que não deve ser ele, ela disse para si mesma. Poderia ser
Izzy, ou Maryse, ou— “Luke?” Ela disse surpresa quando a porta do
elevador se abriu “O que você está fazendo aqui?”
       “Eu poderia lhe perguntar a mesma coisa.” Ele andou para fora do
elevador, puxando fechada, a grade atrás dele. Ele estava vestindo um
casaco de flanela xadrez que Jocelyn estava tentando fazer com que ele
jogasse fora desde que eles começaram a namorar. Era muito legal, Clary
pensou, que nada parecia poder mudar Luke, não importa o que aconteceu
em sua vida. Ele gostava do que gostava, e era isso. Mesmo quando isso
era um casaco velho de aspecto maltrapilho. “Exceto que eu posso
adivinhar. Então, ele está aqui?”
       “Jace? Não.” Clary encolheu os ombros, tentando parecer
despreocupada. “Está tudo bem. Eu o verei amanhã.”
       Luke hesitou. “Clary—“
       “Lucian” A voz fria que veio de trás dela era da Maryse. “Obrigada por
ter vindo tão rapidamente.”
       Ele se virou para acenar para ela. “Maryse.”
       Maryse Lightwood estava na porta, sua mão pousada na moldura. Ela
estava usando luvas, luvas cinza clara que combinavam com seu terno
cinza sob medida. Clary imaginou se Maryse alguma vez vestiu jeans. Ela
nunca havia visto a mãe de Isabelle e Alec em nada se não ternos formais
ou trajes de combate. “Clary”, ela disse. “Eu não sabia que você estava
aqui.”
       Clary se sentiu corando. Maryse não pareceu se importar com ela
vindo e indo, mas também, Maryse nunca realmente havia reconhecido a
relação de Clary com Jace de qualquer modo. Era difícil culpá-la. Maryse
ainda estava lidando com a morte de Max, que havia sido apenas seis
semanas atrás, e ela estava fazendo isso sozinha, com Robert Lightwood
ainda em Idris. Ela tinha coisas mais importantes em sua mente do que a
vida amorosa de Jace.
       “Eu estava saindo.” Clary disse.
       “Eu vou lhe dar uma carona de volta para casa quando eu terminar
aqui.” Luke disse, colocando a mão no seu ombro. “Maryse, é um problema
se Clary permanecer aqui enquanto nós conversamos? Porque eu prefiro
que ela fique.”
       Maryse abanou a cabeça. ”Não tem problema, eu suponho.” Ela
suspirou, passando as mãos pelo cabelo. “Acredite em mim, eu gostaria que
não tivesse que incomodar você de qualquer forma. Eu sei que você vai se
casar em uma semana — parabéns, a propósito. Eu não sei se já lhe disse
isso antes.”

      “Não”, Disse Luke, “mas isso é compreensível. Obrigado.”
      “Somente seis semanas.” Maryse sorriu levemente. “Um namoro
muito curto e turbulento.”
      A mão de Luke apertou o ombro de Clary, o único sinal de seu
incômodo.
      “Eu não suponho que você me chamou aqui para me felicitar pelo
meu noivado, não é?”
      Maryse abanou a cabeça. Ela parecia muito cansada, Clary pensou, e
havia fios cinza, em seu cabelo escovado preto, que não havia antes. “Não.
Eu presumo que você ouviu sobre os corpos que temos encontrado desde
semana passada mais ou menos?”
      “Os Caçadores de Sombras mortos, sim.”
      “Encontramos mais um esta noite. Enfiado em uma lixeira perto do
Columbus Park. O território do seu bando.”
      As sobrancelhas de Luke subiram. “Sim, mas os outros—“
      “O primeiro corpo foi achado em Greenpoint. Território dos Bruxos. O
segundo, flutuando em um lago no Central Park. O domínio das fadas.
Agora temos o território dos Lobisomens.” Ela fixou seu olhar em Luke. ”O
que isso faz você pensar?”
      “Que alguém que não está muito satisfeito com os novos Acordos
está tentando colocar os Seres do Submundo contra o outro.” Luke disse.
“Eu posso assegurar que meu bando não tem nada a ver com isso. Eu não
sei quem está por trás disso, mas é uma tentativa desastrada, se me
perguntar. Eu espero que a Clave possa ver através disso.”
      “Tem mais”, Maryse disse. “Nós identificamos os dois primeiros
corpos. Isso levou um tempo, desde que o primeiro estava queimado,
quase irreconhecível, e o segundo estava em um estágio avançado de
decomposição. Você pode adivinhar quem poderia ser?”
      “Maryse—“
      “Anson Pangborn,” ela disse, “e Charles Freeman. Nenhum dos dois,
eu posso perceber, foram interrogados desde a morte de Valentine—“
      “Mas isso não é possível”, Clary interrompeu. “Luke matou Pangborn,
em agosto — no Renwick.”
      “Ele matou Emil Pangborn”, disse Maryse. “Anson era o irmão mais
novo de Emil. Eles estavam no Ciclo juntos.”
      “Assim como Freeman”, disse Luke. “Então alguém está matando não
somente Caçadores de Sombras, mas os ex-membros do Ciclo? E deixando
seus corpos em Território do Submundo?” Ele balançou a cabeça. “Isso soa
como alguém tentando abalar alguns dos mais... obstinados membros da
Clave. Fazendo-os repensar nos Novos Acordos, talvez. Nós deveríamos ter
esperado por isso.”
      “Eu suponho”, Maryse disse. “Já me encontrei com a Rainha Seelie, e
tenho uma mensagem para Magnus. Onde quer que ele esteja.” Ela revirou
os olhos; Maryse e Robert pareciam ter aceitado a relação de Alec com
Magnus com uma surpreendente boa graça, mas Clary podia falar que
Maryse, pelo menos, não levou isso a sério. “Eu somente pensei, talvez—“
Ela suspirou. “Estou tão cansada ultimamente. Sinto-me como se mal
pudesse pensar coerentemente. Espero que você tenha alguma ideia sobre
quem está fazendo isso, alguma ideia que não tenha me ocorrido.”
      Luke sacudiu sua cabeça. “Alguém com um ressentimento contra o
novo sistema. Mas isso pode ser qualquer um. Eu suponho que não há
evidências nos corpos?”

       Maryse suspirou. “Nada conclusivo. Se apenas os mortos pudessem
falar, hein, Lucian?”
       Era como se Maryse houvesse levantado uma mão e puxado uma
cortina através da visão de Clary; tudo ficou preto, exceto por um símbolo,
pendurado como um brilhante sinal incandescente contra um inexpressivo
céu noturno.
       Parecia que seu poder não desapareceu, apesar de tudo.
       “E se...”, ela disse devagar, levantando os olhos para olhar Maryse.
“E se eles pudessem?”
       ????
       Olhando para si mesmo no espelho do banheiro no pequeno
apartamento de Kyle, Simon não pôde se impedir em perguntar de onde
surgiu todo esse negócio sobre vampiros não serem capazes de se ver no
espelho. Ele era capaz de
       se ver perfeitamente na superfície denteada — o cabelo castanho
desgrenhado, grandes olhos castanhos, branco, sem marcas na pele. Ele
tinha limpado o sangue de seu corte no lábio, apesar de sua pele já ter
cicatrizado.
       Ele sabia, objetivamente falando, que ter se tornado um vampiro o
havia tornado mais atraente. Isabelle havia explicado para ele que seus
movimentos se tornaram graciosos e que, considerando que antes parecia
desgrenhado, de alguma forma agora ele parecia atraentemente
amarrotado, como se ele tivesse acabado de sair da cama. “Da cama de
outra pessoa”, ela observou, que, ele disse a ela, já havia descoberto o que
ela queria dizer, obrigado.
       Quando ele se olhou, porém, não viu nada disso. A brancura de sua
pele sem poros, como sempre, o perturbou, assim como as escuras
ramificações de veias que se mostravam em suas têmporas, evidências do
fato que ele não havia se alimentado hoje. Ele parecia um alien e não como
ele mesmo. Talvez todo o negócio de não se capaz de se ver no espelho
quando você se tornasse um vampiro era um desejo. Talvez fosse apenas
que você não reconheceria o reflexo olhando para você.
       Limpo, ele voltou para sala, onde Jace estava jogado no futton, lendo
a cópia surrada de Kyle de “O Senhor dos Anéis.” Ele largou o livro sobre a
mesa de café assim que Simon entrou. Seu cabelo parecia recém molhado,
como se ele tivesse jogado água em seu rosto na pia da cozinha.
       “Eu posso ver o porquê você gosta daqui.” Ele disse, fazendo um
gesto amplo que englobava a coleção de pôsteres de filmes e os livros de
ficção científica de Kyle. “Há uma fina camada de nerd em tudo.”
       “Obrigado. Eu aprecio isso.” Simon deu um olhar duro para Jace. De
perto, sob a luz forte da lâmpada suspensa sem sombra, Jace parecia —
doente. As olheiras que Simon notou sob seus olhos antes estavam mais
pronunciadas que nunca, e sua pele parecia repuxada sobre os ossos do
rosto. Sua mão tremeu um pouco quando ele empurrou seu cabelo para
longe da testa, em um gesto característico.
       Simon balançou a cabeça como se para limpá-la. Desde quando ele
conhecia Jace bem o suficiente para ser capaz de identificar quais gestos
dele eram característicos? Não era como se eles fossem amigos. “Você
parece ruim.” Ele disse.
       Jace piscou. “Parece um momento estranho para começar uma
competição de insultos, mas se você insiste, eu provavelmente poderia
pensar em algo bom.”

       “Não, eu quero dizer isso mesmo. Você não parece bem.”
       “Isso de um cara que tem todo o sex appeal de um pinguim.” Olha,
eu percebo que você deve estar com ciúmes que o bom Deus não deu para
você a mesma cinzelada que ele deu a mim, mas isso não é motivo para—“
       “Eu não estou tentando insultá-lo”, Simon retrucou. “Eu quero dizer
que você parece doente. Quando foi a última vez que você comeu alguma
coisa?”
       Jace pareceu pensativo. “Ontem?”
       “Você comeu algo ontem. Você tem certeza?”
       Jace encolheu os ombros. “Bom, eu não poderia jurar sobre uma
pilha de Bíblias. Eu acho que foi ontem, talvez.”
       Simon havia investigado o conteúdo da geladeira de Kyle antes,
quando ele estava procurando o lugar, e não tinha muito o que achar. Um
limão murcho e velho, algumas latas de refrigerante, um quilo de carne
moída e, inexplicavelmente, um único Pop-Tart no congelador. Ele pegou
suas chaves do balcão da cozinha. “Vamos”, ele disse. “Há um
supermercado na esquina. Vamos pegar comida pra você.”
       Jace pareceu como se ele estivesse com vontade de contestar, então
encolheu os ombros. “Tudo bem”, disse ele, em tom de quem não se
importava muito aonde eles iriam ou o que eles fariam lá; “Vamos.”
       Lá fora nos degraus da frente, Simon trancou a porta atrás deles com
as chaves que ele ainda estava se acostumando, enquanto Jace examinava
a lista de nomes do lado da campainha do apartamento. “Aquele é o seu,
huh?”, ele perguntou, apontando para o 3A. “Como é que só diz ‘Kyle’? Ele
não tem um sobrenome?”
       “Kyle quer ser uma estrela do rock”, Simon disse, enquanto descia as
escadas. “Eu acho que ele está trabalhando nesse negócio de um nome.
Como Rihanna.”
       Jace o seguiu, curvando os ombros levemente contra o vento, mas
ele não fez nenhum movimento para fechar a jaqueta de camurça que havia
recuperado de Clary mais cedo naquele dia. “Eu não tenho ideia do que
você está falando.”
       “Eu tenho certeza que não.”
       Assim que eles dobraram a esquina para a Avenida B, Simon olhou
para Jace de lado. “Então”, ele disse. “Você estava me seguindo? Ou é
apenas uma incrível coincidência que aconteceu de você estar no telhado de
um prédio em que eu estava perambulando quando eu fui atacado?”
       Jace parou na esquina, esperando o sinal mudar de cor.
Aparentemente até os Caçadores de Sombras tinham que obedecer às leis
de trânsito. “Eu estava seguindo você.”
       “É essa a parte onde você me conta que é secretamente apaixonado
por mim? O sex appeal vampiro ataca novamente.”
       “Não há tal coisa como um sex appeal vampiro.” Disse Jace, um
pouco estranhamente ecoando o comentário anterior de Clary. “E eu estava
seguindo Clary, mas então ela entrou em um táxi, e eu não posso seguir
um táxi. Então eu voltei e segui você ao invés dela. Principalmente para ter
algo para fazer.”
       “Você estava seguindo Clary?” Simon ecoou. “Aqui vai uma dica
quente: a maior parte das garotas não gostam de serem perseguidas.”
       “Ela deixou o celular no bolso da minha jaqueta”, Jace disse, batendo
no seu lado direito, onde, presumivelmente, o telefone estava guardado.

“Eu pensei que, se eu pudesse descobrir para onde ela estava indo, eu
poderia deixá-lo onde ela o encontraria.”
       “Ou”, Simon disse, “você poderia ligar para ela em casa e dizer a ela
que você está com seu celular, e ela poderia vir e pegá-lo.”
       Jace não disse nada. A luz mudou, e eles atravessaram a rua em
direção ao Supermercado C-Town. Ele ainda estava aberto. Supermercados
em Manhattan nunca fecham, Simon pensou, o que é uma mudança
agradável do Brooklyn. Manhattan era um bom lugar para ser vampiro.
Você poderia fazer todas as suas compras a meia-noite e ninguém iria
pensar que é estranho.
       “Você está evitando Clary”, Simon observou. “Eu não suponho que
você queira me dizer por quê?”
       “Não, eu não vou”, Jace disse. “Somente se considere sortudo por eu
estar seguindo você, ou---“
       “Ou o que? Outro atacante estaria morto?” Simon podia ouvir a
amargura em sua própria voz. ”Você viu o que aconteceu.”
       “Sim. E eu vi a expressão em seu rosto quando ocorreu.” O tom de
Jace era neutro. “Não foi a primeira vez que você viu isso acontecer, foi?”
       Simon se achou contando a Jace sobre a figura vestida de agasalho
de moletom que havia atacado ele em Williamsburg, e como ele havia
assumido que era apenas um assaltante. “Depois que ele morreu, ele se
transformou em sal,” ele concluiu. “Assim como o segundo cara. Eu acho
que é uma coisa bíblica. Pilares de sal. Como a mulher de Lot.”
       Eles chegaram ao supermercado; Jace empurrou e abriu a porta, e
Simon o seguiu para dentro, agarrando um carrinho pequeno prata da linha
perto da porta da frente. Ele começou a empurrá-lo em um dos corredores,
e Jace o seguiu, claramente perdido em pensamentos. “Então eu acho que a
pergunta é”, Jace disse, “você tem alguma ideia de quem poderia querer
matar você?”
       Simon encolheu os ombros. A visão de toda aquela comida ao seu
redor estava fazendo seu estômago revirar, lembrando-o com quanta fome
ele estava, não por algo que fosse vendido aqui. “Talvez Raphael. Ele
parece me odiar. E ele me queria morto antes---“
       “Não é Raphael”, disse Jace.
       “Como você pode estar tão certo?”
       “Porque Raphael sabe sobre sua Marca e não iria ser idiota o
suficiente para atacar diretamente assim. Ele sabe exatamente o que
aconteceria. Quem quer que seja que está atrás de você, é alguém que
sabe o suficiente sobre você para saber onde você provavelmente estaria,
mas eles não sabem sobre sua Marca.”
       “Mas isso poderia ser qualquer um.”
       “Exatamente”, disse Jace, e sorriu. Por um momento ele quase
pareceu ele mesmo de novo.
       Simon sacudiu sua cabeça. “Olhe, você sabe o que quer comer, ou
você só quer que eu continue empurrando este carrinho para cima e para
baixo nos corredores porque isso te diverte?”
       “Isso”, disse Jace, “e eu não estou realmente familiarizado com o que
vendem em supermercados mundanos. Maryse normalmente cozinha ou
nós pedimos comida.” Ele deu de ombros, e pegou uma fruta
aleatoriamente. “O que é isso?”
       “Isso é uma manga.” Simon olhou para Jace. Às vezes era como se
realmente os Caçadores de Sombras fossem de um planeta alienígena.

       “Eu não acho que eu já tenha visto uma dessas que não estivessem
já picadas”, Jace meditou. “Eu gosto de manga.”
       Simon agarrou a manga e a jogou dentro do carrinho. “Ótimo. O que
mais você gosta?”
       Jace ponderou por um momento. “Sopa de Tomate”, ele disse
finalmente.
       “Sopa de tomate? Você quer sopa de tomate e manga para o jantar?”
       Jace encolheu os ombros. “Eu realmente não me importo com
comida.”
       “Ótimo. Que seja. Fique aqui. Eu já volto.” Caçadores de Sombras.
Simon fervilhava silenciosamente para ele mesmo quando ele virou a
esquina de um corredor cheio de latas de sopa; Eram uma espécie de
variações bizarras de milionários — pessoas que nunca tiveram que refletir
sobre as partes triviais da vida, como comprar comidas, ou usar as
máquinas de Cartões de Metrô nos metrôs – e soldados, com suas próprias
disciplinas rígidas e treinamentos constantes. Talvez fosse mais fácil para
eles, passar pela vida com suas viseiras, pensou ele enquanto pegava uma
lata de sopa da prateleira. Talvez tenha ajudado a manter seu foco na
grande pintura — que, quando o trabalho era basicamente manter o mundo
a salvo do mal, era uma grande e bonita imagem, de fato.
       Ele estava quase sentindo uma simpatia por Jace à medida que se
aproximava do corredor onde ele havia sido deixado — então parou. Jace
estava encostado no carrinho, mudando algo em suas mãos. Da distancia
em que Simon se encontrava ele não podia ver o que era, e ele não podia
se aproximar, tampouco, por causa de duas adolescentes que estavam
bloqueando a passagem, paradas no meio do corredor e rindo e se juntando
uma na outra para sussurrar do jeito que garotas fazem. Elas estavam
obviamente vestidas para se passar por vinte e um, de salto-alto e saias
curtas, sutiãs de bojo e nenhuma jaqueta para se protegerem do frio.
       Elas cheiravam como brilho labial. Brilho labial e pó de bebê e
sangue.
       Ele podia escutá-las, claro, apesar dos sussurros. Elas estavam
falando sobre Jace, quão quente ele era, cada uma desafiando a outra a
andar e ir falar com ele. Houve uma grande discussão sobre seu cabelo e
também sobre seus músculos, embora como elas realmente podiam ver
seus músculos através da camiseta, Simon não estava certo. Blech, ele
pensou. Isso é ridículo. Ele estava prestes a dizer “Com licença” quando
uma delas, a mais alta e com o cabelo mais escuro das duas, saiu e andou
em direção ao Jace, se desequilibrando um pouco sobre seus saltos
plataformas. Jace levantou o olhar quando ela se aproximou, seus olhos
cuidadosos, e Simon teve um súbito de pensamento de pânico que talvez
Jace a confundiria por um vampiro ou algum tipo de Súcubo e a atacaria
com uma das lâminas de Serafim, e então os dois seriam presos.
       Ele não precisava ter se preocupado. Jace apenar arqueou uma
sobrancelha. A garota falou algo para ele, ofegante; ele encolheu os
ombros; ela pressionou algo na sua mão, e depois correu de volta para a
amiga. Elas saíram da loja, rindo juntas.
       Simon passou por Jace e deixou cair a lata de sopa no carrinho.
“Então, o que foi tudo isso?”
       “Eu acho”, Jace disse, “que ela perguntou se ela podia tocar minha
manga.”
       “Ela disse isso?”

       Jace encolheu os ombros. “Sim, depois ela me deu o seu número.”
Ele mostrou a Simon um pedaço de papel com uma expressão de branda
indiferença, em seguida, lançou-o no carrinho. “Podemos ir agora?”
       “Você não vai ligar para ela, vai?”
       Jace olhou para ele como se ele fosse insano.
       “Esqueça o que eu disse”, disse Simon. “Esse tipo de coisa acontece
com você o tempo todo, não é? Garotas somente vindo até você?”
       “Somente quando eu não estou com o encantamento.”
       “Sim, porque quando você está, as garotas não podem te ver, porque
você está invisível.” Simon balançou a cabeça; “Você é uma ameaça
pública. Você não pode sair sozinho.”
       “O ciúme é uma emoção tão feia, Lewis.” Jace deu um sorriso torto
que, normalmente, teria feito Simon querer bater nele. Não desta vez, no
entanto. Ele havia acabado de perceber com o que Jace estava brincando,
girando mais e mais em seus dedos como se isso fosse algo precioso ou
perigoso, ou os dois. Era o celular da Clary.
       ????
       “Continuo não achando que isso seja uma boa ideia.” Disse Luke
       Clary, com os braços cruzados sobre seu peito para afastar o frio da
Cidade do Silêncio, olhou de soslaio para ele. “Talvez você devesse ter dito
antes de chegarmos aqui.”
       “Estou bastante certo que fiz. Várias vezes.” A voz de Luke ecoou
pelas colunas de pedra que se erguiam sobre a cabeça, listradas com faixas
de pedras semipreciosas — onyx petra, jade verde, rosa cornalina, lápis-
lazúli. Pedras enfeitiçadas prateada queimavam em tochas anexadas aos
pilares, iluminando os mausoléus que fazia cada parede parecer forrada de
um branco brilhante que era quase doloroso de olhar.
       Pouco havia mudado na Cidade do Silêncio desde a última vez que
Clary esteve lá. Ela ainda continuava estranha e alheia, mas agora as
vastas runas que se estendiam pelo chão em espirais esculpidas e padrões
gravados provocou em sua mente o começo dos significados, ao invés de
ser totalmente incompreensível. Maryse havia deixado ela e Luke aqui na
entrada da câmara no momento em que eles chegaram, preferindo ir
conferir com os Irmãos do Silêncio ela mesma. Não havia garantias de que
deixariam os três deles entrar para ver os corpos, ela advertiu Clary.
Nephilins mortos eram domínio dos guardiões da Cidade dos Ossos, e
ninguém mais tinha jurisdição sobre eles.
       Não que houvesse muitos guardiões sobrando. Valentine havia
matado quase todos eles enquanto procurava pela Espada Mortal, deixando
vivo apenas os poucos que não estavam na Cidade do Silêncio no dia.
Novos membros foram aderidos à ordem desde então, mas Clary duvidou
que houvesse mais de dez ou quinze Irmãos do Silêncio sobrando no
mundo.
       O áspero ruído seco dos saltos de Maryse no chão de pedra os
alertaram de seu retorno antes que ela realmente aparecesse, um coberto
Irmão do Silêncio seguindo-a. “Aqui estão vocês”, ela disse, como se Clary
e Luke não estivessem exatamente onde ela os deixou. “Esse é o Irmão
Zachariah. Irmão Zachariah, essa é a garota de quem eu estava lhe
falando.”
       O Irmão do Silêncio empurrou seu capuz um pouco para longe de seu
rosto. Clary escondeu sua surpresa. Ele não parecia com o Irmão Jeremiah,
com uma cavidade nos olhos e sua boca costurada. Os olhos de Irmão

Zachariah estavam fechados, suas maçãs do rosto estavam marcadas com
a cicatriz de uma única runa negra. Mas sua boca não foi costurada, e ela
não achava que sua cabeça fora raspada, tampouco. Era difícil dizer, com o
capuz levantado, se ela estava vendo sombras ou cabelos escuros.
       Ela sentiu a voz dele tocando sua mente. Você realmente acredita
que pode fazer essa coisa, Filha do Valentine?
       Ela sentiu suas bochechas enrubescerem. Ela odiava ser lembrada de
quem ela era filha.
       “Certamente você já ouviu falar de outras coisas que ela fez”, disse
Luke. “Sua runa de ligação nos ajudou a acabar com a Guerra Mortal.”
       Irmão Zachariah abaixou seu capuz para esconder seu rosto. Venha
comigo ao Ossuarium.
       Clary olhou para Luke, esperando por um aceno de apoio, mas ele
estava olhando para a frente e mexendo nos seus óculos da forma que ele
fazia quando ele está ansioso. Com um suspiro ela seguiu Maryse e Irmão
Zachariah. Ele se moveu silenciosamente como uma neblina, enquanto os
saltos de Maryse faziam barulhos como tiros no chão de mármore. Clary se
perguntou se a propensão da Isabelle para calçados inadequados era
genética.
       Eles seguiram um caminho tortuoso através de pilares, passando pela
grande Praça das Estrelas Falantes, onde os Irmãos do Silêncio falaram pela
primeira vez para Clary sobre Magnus Bane. Além da praça havia uma porta
em arco, colocado com um par de portas de ferro enormes. Nas superfícies
haviam runas desenhadas que Clary reconheceu como runas de morte e
paz. Sobre as portas foram escritas inscrições em Latim que a fez desejar
que ela tivesse suas anotações com ela. Ela estava lamentavelmente atrás
em Latim do que a maioria dos Caçadores de Sombras; a maioria deles
falava como uma segunda língua.
       Taceant Colloquia. Effugiat risus. Hic locus est ubi mors gaudet
succurrere vitae.
       “Deixe a conversação parar. Deixe o riso cessar.” Luke leu em voz
alta. “Aqui é o lugar onde a morte se delicia de ensinar a viver.”
       Irmão Zachariah colocou a mão na porta. O Mais recente dos mortos
assassinados foi preparado para você. Você está preparada?
       Clary engoliu duramente, pensando exatamente no que ela estava se
metendo. “Estou pronta.”
       As portas se abriram, e eles passaram por elas. Dentro havia uma
sala grande, sem janelas com as paredes de mármore brancas e lisas. Elas
estavam cheias de ganchos que prendiam instrumentos prateados de
dissecação: bisturis brilhantes, coisas que pareciam martelos, serras para
ossos e afastadores de costelas. E ao lado deles nas prateleiras havia mais
instrumentos peculiares: maciças ferramentas parecidas com saca-rolhas,
folhas de lixa, e jarros com líquidos multicoloridos, incluindo um esverdeado
rotulado com “Ácido” que realmente parecia estar fervendo.
       O centro da sala apresentava uma fila de mesas de mármore altas. A
maioria estava vazia. Três estavam ocupadas, e sobre duas das três, tudo o
que Clary podia ver eram formas humanas cobertas por um lençol branco.
Na terceira mesa havia um corpo, o lençol puxado até as costelas. Nu da
cintura para cima, o corpo era claramente masculino, e também tão
claramente um Caçador de Sombras. A pele pálida do cadáver estava
completamente coberta de Marcas. Os olhos do homem foram amarrados
com uma seda branca, um costume de Caçadores de Sombras.

       Clary engoliu a náusea crescente e se moveu para ficar ao lado do
cadáver. Luke veio com ela, sua mão protetoramente em seu ombro,
Maryse parou de frente a eles, vendo tudo com seus curiosos olhos azuis, a
mesma cor dos de Alec.
       Clary puxou sua estela do bolso. Ela podia sentir o frio do mármore
através de sua blusa quando ela inclinou sobre o corpo do homem morto.
Perto assim ela podia ver detalhes — que seu cabelo havia sido marrom
avermelhado, e que sua garganta tinha sido rasgada em tiras limpas, como
se por uma garra enorme.
       Irmão Zachariah estendeu a mão e tirou a amarração de seda dos
olhos do homem morto. Embaixo dela, eles estavam fechados. Você pode
começar.
       Clary respirou fundo e colocou a ponta da estela no braço do Caçador
de Sombras morto. A runa que ela visualizou antes, no corredor de entrada
do Instituto, veio para ela tão claramente como as letras de seu próprio
nome. Ela começou a desenhar.
       As linhas pretas da marca saiu de forma espiral da ponta da estela,
tal como sempre acontecia — mas sentiu sua mão pesada, a estela se
arrastando um pouco, como se estivesse escrevendo na lama, em vez de
pele. Era como se o instrumento estivesse confuso, deslizando na superfície
da pele de um morto, buscando o espírito vivo de um Caçador de Sombras
que não estava mais lá. O estômago de Clary se agitou enquanto ela
desenhava, e quando ela terminou e recolheu sua estela, ela estava suando
e nauseada.
       Por um longo momento nada aconteceu. Então, com uma terrível
rapidez, os olhos do Caçador de Sombras se abriram. Eles eram azuis, o
branco salpicado de vermelho com sangue.
       Maryse soltou uma longa arfada. Estava claro que ela não havia
realmente acreditado que a runa funcionaria. “Pelo Anjo.”
       Uma respirada ruidosa veio do homem morto, o som de alguém
tentando respirar através de uma garganta cortada. A pele áspera de seu
pescoço tremulava como as guelras de um peixe. Seu peito ficou rosa, e as
palavras saíram de sua boca.
       “Isso dói.”
       Luke praguejou, e olhou para Zachariah, mas o Irmão do Silêncio
estava impassível.
       Maryse se moveu para perto da mesa, seus olhos afiados de repente,
quase predatórios. “Caçador de Sombras”, ela disse. “Quem é você? Eu
exijo o seu nome.”
       O homem virava a cabeça de um lado para outro. Suas mãos subiam
e desciam convulsivamente. “A dor... Faça a dor parar.”
       A estela de Clary quase caiu. Isso era muito mais medonho do que
ela havia imaginado. Ela olhou para Luke, que estava se afastando da
mesa, seus olhos arregalados de horror.
       “Caçador de Sombras.” O tom de Maryse era autoritário. “Quem fez
isso com você?”
       “Por favor...”
       Luke se virou de costas para Clary. Ele parecia estar mexendo nas
ferramentas dos Irmãos do Silêncio. Clary ficou congelada quando a mão
com luva cinza de Maryse disparou e segurou o ombro do cadáver, seus
dedos apertando-o.
       “Em nome do Anjo, eu ordeno que você me responda!”

       O Caçador de Sombras fez um som abafado. “Ser do submundo…
vampiro…”
       “Qual vampiro?” Maryse exigiu.
       “Camille. Uma das anciãs—“ As palavras foram sufocadas quando
uma gota de sangue preto coagulado fluiu da boca morta.
       Maryse arfou e afastou sua mão. Quando ela fez isso, Luke
reapareceu, carregando o jarro com ácido verde que Clary tinha notado
antes. Com um simples gesto, ele arrancou a tampa e derramou o ácido
sobre a marca no braço do cadáver, apagando-a. O cadáver soltou um
único grito enquanto a carne chiava — e então ele caiu de costas contra a
mesa, olhos em branco e um olhar fixo, o que quer que o tenha reanimado
por esse breve período se foi.
       Luke colocou o jarro de ácido vazio em cima da mesa. “Maryse.” Sua
voz era de censura. “Isso não é como tratamos nossos mortos.”
       “Eu decidirei como nós tratamos nossos mortos, Habitante do
Submundo.” Maryse estava pálida, suas bochechas avermelhadas. “Nós
temos um nome agora. Camille. Talvez possamos evitar mais mortes.”
       “Há coisas piores que a morte.” Luke estendeu a mão para Clary, não
olhando para ela. “Vamos, Clary. Eu acho que é hora de irmos.”
       ????
       “Então, você realmente não pode pensar em ninguém mais que possa
querer te matar?” Jace perguntou, não pela primeira vez. Haviam repassado
a lista de suspeitos várias vezes, e Simon estava ficando cansado de ser
questionado pela mesma coisa, repetidamente. Não mencionando que ele
suspeitava que Jace estivesse parcialmente prestando atenção. Depois de já
ter comido a sopa que Simon havia comprado — fria, fora da lata, com uma
colher, o que Simon não podia deixar de pensar que era nojento — ele
estava inclinado contra a janela, a cortina um pouco afastada para que ele
pudesse ver o tráfego na Avenida B, e as janelas iluminadas dos
apartamentos do outro lado da rua. Através delas Simon podia ver as
pessoas jantando, vendo televisão, e sentadas na mesa conversando.
Coisas normais que pessoas comuns faziam. Isso o fez sentir
estranhamente vazio.
       “Ao contrário do seu caso”, disse Simon, “não há realmente muitas
pessoas que não gostam de mim.”
       Jace ignorou isso. “Tem algo que você não está me dizendo.”
       Simon suspirou. Ele não queria falar qualquer coisa sobre a proposta
de Camille, mas diante de alguém tentando matá-lo, ainda que ineficaz,
talvez o segredo não fosse uma prioridade. Ele explicou o que aconteceu no
seu encontro com a vampira, enquanto Jace prestava atenção.
       Quando ele acabou, Jace disse, “Interessante, mas ela não parece ser
quem está tentando te matar também. Ela sabe sobre sua Marca,
primeiramente. E eu não tenho certeza se ela estaria interessada em ser
pega quebrando os Acordos dessa forma. Quando os habitantes do
submundo são tão velhos assim, eles normalmente sabem como ficar longe
de problemas.” Ele abaixou sua lata de sopa. “Nós podemos sair de novo”,
ele sugeriu. “Ver se eles tentam atacar uma terceira vez. Se nós
pudéssemos somente capturar um deles, talvez nós—“
       “Não”, disse Simon. “Por que você está sempre tentando ser morto?”
       “É o meu trabalho.”
       “É um risco do seu trabalho. Pelo menos para a maioria dos
Caçadores de Sombras. Para você isso parece como o objetivo.”

       Jace suspirou. “Meu pai sempre disse—“ ele se calou, sua expressão
endurecendo. “Desculpe. Eu quis dizer Valentine. Pelo Anjo. Toda vez que
eu o chamo assim, parece que eu traio meu pai verdadeiro.”
       Simon sentiu simpatia por Jace apesar de si mesmo. “Olhe, você
pensou que ele era seu pai por o quê, dezesseis anos? Isso não acaba em
um dia. E você nunca conheceu o outro cara que era realmente o seu pai. E
ele está morto. Então você não pode realmente o trair. Somente pense um
pouco em você como alguém que teve dois pais por um tempo.”
       “Você não pode ter dois pais.”
       “Claro que pode”, Simon disse. “Quem disse que não? Nós podemos
comprar pra você um desses livros que eles têm para crianças. Timmy Tem
Dois Pais. Exceto que eu não acho que eles têm um chamado Timmy Tem
Dois Pais E Um Deles Era Mal. Essa parte você só vai ter que imaginar.”
       Jace revirou os olhos. “É fascinante.” Ele disse. “Você sabe todas as
palavras, e todas são em inglês, mas quando você as reúne em frases, elas
simplesmente não fazem qualquer sentido.” Ele puxou levemente a cortina.
“Eu não esperava que você entendesse.”
       “Meu pai está morto”, disse Simon.
       Jace virou para olhar para ele. “O que?”
       “Imaginei que você não soubesse”, disse Simon. “Quero dizer, não é
como se você fosse perguntar, ou estivesse particularmente interessado em
qualquer coisa sobre mim. Então, sim. Meu pai está morto. Então nós temos
isso em comum.” Exausto de repente, ele se inclinou contra o futon. Ele se
sentia mal e tonto e cansado — um cansaço profundo que parecia ter se
afundado em seus ossos. Jace, por outro lado, parecia possuído de uma
energia inesgotável que Simon achou um pouco perturbador. Não havia sido
muito fácil o ver tomando a sopa de tomate, tampouco. Ela parecia muito
com sangue para seu conforto.
       Jace olhou para ele. “Quanto tempo faz desde que você... comeu?
Você parece muito ruim.”
       Simon suspirou. Ele supôs que ele não podia falar nada, depois de
atormentar Jace para comer algo. “Espera ai”, disse ele. “Eu já volto.”
       Levantando do futon, ele entrou no seu quarto e pegou sua última
garrafa de sangue debaixo da cama.
       Ele tentou não olhar para ela — separar o sangue era uma visão
nauseante. Ele balançou a garrafa duramente enquanto se dirigia para a
sala de estar, onde Jace ainda estava olhando pela janela.
       Encostado contra o balcão da cozinha, Simon abriu o frasco de
sangue e tomou um gole. Normalmente ele não gostava de beber na frente
de outras pessoas, mas era o Jace, e ele não se importava com o que Jace
pensava. Além disso, não era como se Jace nunca tivesse o visto bebendo
sangue antes. Pelo menos Kyle não estava em casa. Seria difícil explicar
para seu novo companheiro de quarto. Ninguém gostava de um cara que
mantinha sangue na geladeira.
       Dois Jaces olharam para ele — um sendo o real Jace, o outro seu
reflexo na vidraça. “Você não pode simplesmente não se alimentar, você
sabe.”
       Simon suspirou. “Eu estou comendo agora.”
       “Sim”, Jace disse, “mas você é um vampiro. Sangue não é como
comida para você. Sangue é... sangue.”
       “Isso é muito esclarecedor.” Simon se jogou na poltrona em frente à
TV; que provavelmente tinha um veludo dourado pálido, mas agora era

usado e parecia um amontoado cinzento. “Você tem um monte de outros
pensamentos profundos como esse? Sangue é sangue? Uma torradeira é
uma torradeira? Um Cubo Gelatinoso é um Cubo Gelatinoso?”
        Jace suspirou. “Ótimo. Ignore meu conselho. Você vai se arrepender
mais tarde.”
        Antes que Simon pudesse responder, ele ouviu o som da porta da
frente se abrindo. Ele olhou afiadamente para Jace. “É o meu companheiro
de quarto. Seja agradável.”
        Jace sorriu encantadoramente. “Eu sempre sou agradável.”
        Simon não teve chance de responder da maneira que gostaria, pouco
tempo depois Kyle saltou para sala, parecendo energético e os olhos
brilhando. “Cara, eu fui por toda parte na cidade hoje”, ele disse. “Eu quase
me perdi, mas você sabe o que dizem. Próximo ao Bronx19, Bateria acaba—
“ Ele olhou para Jace, registrando tardiamente que havia outra pessoa na
sala. “Oh, hey. Eu não sabia que você trouxera amigos.” Ele estendeu a
mão. “Eu sou Kyle.”
        Jace não respondeu. Para a surpresa de Simon, Jace havia ficado
rígido, seus pálidos olhos amarelos se estreitaram, exibindo em todo o seu
corpo a vigilância de um Caçador de Sombras que parecia transformá-lo de
um garoto adolescente comum em algo muito mais sério que isso.
        “Interessante”, ele disse. “Você sabe, Simon nunca mencionou que
seu novo companheiro de quarto era um lobisomem.”
        ????
        Clary e Luke foram em silêncio, na maior parte do tempo, de volta
para o Brooklyn. Clary estava olhando pela janela enquanto iam, vendo
Chinatown passando gradualmente, e então a Williamnburg Bridge, brilhou
como um colar de diamantes contra o céu noturno. Ao longe, por cima da
água preta do rio, ela podia ver Renwick, iluminado como sempre foi.
Parecia como uma ruína de novo, janelas pretas vazias escancaradas como
o buraco do olho de um crânio.
        A voz do Caçador de Sombras morto sussurrou em sua mente:
        A dor… faça a dor parar.
        Um distrito de NY.
        Ela estremeceu e puxou a jaqueta mais firmemente em torno dos
ombros. Luke olhou brevemente para ela, mas não disse nada. Não
aconteceu até que ele parou na frente de sua casa e desligou o motor da
caminhonete, que ele virou para ela e falou:
        “Clary”, ele disse; “O que você fez—“
        “Foi um erro”, ela disse. “Eu sei que foi um erro. Eu estava lá
também.” Ela esfregava o rosto com as pontas da manga da jaqueta. “Vá
em frente e grite comigo.”
        Luke olhou através do para-brisa. “Eu não vou gritar com você. Você
não sabia o que ia acontecer. Inferno, eu pensei que poderia funcionar
também. Eu não teria ido com você se eu não achasse.”
        Clary sabia que deveria ter feito ela se sentir melhor, mas não. “Se
você não tivesse jogado ácido na runa—“
        “Mas eu joguei.”
        “Eu não sabia que você poderia fazer isso. Destruir uma runa daquele
jeito.”
        “Se você desfigurá-la o suficiente, você pode minimizar ou acabar
com seu poder. Algumas vezes na batalha, o inimigo irá tentar queimar ou

cortar a pele dos Caçadores de Sombras, somente para privá-los do poder
de suas runas.” Luke parecia distraído.
        Clary sentiu seus lábios tremerem, e os pressionou juntos,
fortemente, para parar o tremor. Às vezes ela se esquecia dos aspectos
ruins de ser um Caçador de Sombras — A vida de cicatrizes e matanças,
como Hodge disse a ela uma vez.
        “Bem”, ela disse, “eu não farei isso novamente.”
        “Não fará o que de novo? Fazer essa runa em particular? Eu não
tenho dúvidas de que você não vai, mas eu não tenho certeza que isso
resolve o problema.” Luke tamborilou os dedos no volante. “Você tem uma
habilidade, Clary. Uma grande habilidade. Mas você não tem absolutamente
nenhuma ideia do que isso significa. Você é totalmente inexperiente. Você
sabe quase nada sobre a história das runas, ou o que elas significaram para
os Nephilim através dos séculos. Você não pode dizer se uma runa foi
projetada para o bem ou projetada para o mau.”
        “Você estava feliz o suficiente para me deixar usar meu poder quando
era a runa de ligação”, ela disse com raiva. “Você não me disse para não
criar runas lá.”
        “Eu não estou dizendo para você não usar seu poder agora. De fato,
eu penso que o problema é que você raramente o usa. Não é como se você
estivesse usando seu poder para mudar a cor do esmalte ou fazer o metrô
chegar quando você quiser. Você só usa nessas ocasiões de vida ou morte.”
        “As runas só vem para mim nesses momentos.”
        “Talvez seja porque você não foi treinada em como funciona o seu
poder. Pense no Magnus; seu poder é parte dele. Você parece pensar no
seu separado de você. Algo que acontece. Isso não é. É uma ferramenta
que você precisa aprender como usar.”
        “Jace disse que Maryse quer contratar um especialista em runas para
trabalhar comigo, mas isso não aconteceu ainda.”
        “Sim”, disse Luke. ”Eu imagino que Maryse tenha outras coisas em
mente.” Ele tirou a chave da ignição e ficou um momento em silêncio.
”Perder um filho da forma como ela perdeu Max”, ele disse. “Eu não posso
imaginar isso. Eu devia ser mais tolerante pelo seu comportamento. Se algo
acontecesse com você, eu…”
        Sua voz sumiu.
        “Eu gostaria que Robert voltasse de Idris”, disse Clary. “Eu não vejo o
porquê de ela ter que lidar com tudo isso sozinha. Deve ser horrível.”
        “Muitos casamentos acabam quando um filho morre. O casal não
pode parar de culparem a si mesmos ou o outro. Eu imagino que Robert
está lá porque ele precisa de espaço, ou Maryse que precisa.”
        “Mas eles se amam”, Clary disse, horrorizada. “Não é isso que
significa o amor? Que você deveria estar lá para a outra pessoa ter a quem
recorrer, não importa o que seja?”
        Luke olhou para o rio, a água escura se movendo lentamente sob a
luz da lua do Outono. “Às vezes, Clary”, ele disse, “somente amor não é o
suficiente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário