sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

15

Capítulo 15
BEATI BELLICOSI
       O INTERIOR DA IRONWORKS ESTAVA PUNGENTE COM FEIXES
cintilantes de luzes multicoloridas. Vários convidados já estavam sentados,
mas muitos estavam andando por lá, carregando taças de champagne
cheias de um pálido líquido efervescente. Garçons — os quais, também
eram lobisomens, Simon notou; o evento todo parecia estar provido com
membros do bando de Luke — movendo-se por entre os convidados,
servindo taças de champgne. Simon recusou uma. Desde sua experiência
na festa de Magnus, ele não se sentia seguro bebendo qualquer coisa que
não tenha sido feita por ele mesmo, e, além disso, ele nunca sabia quais
líquidos, sem ser sangue, iriam cair bem e quais o fariam doente.
       Maia estava encostada a um dos pilares de tijolos, conversando e
rindo com outros dois lobisomens. Ela usava um cintilante vestido justo de
cetim laranja que destacava sua pele escura, e seu cabelo era um halo
selvagem de cachos castanho-dourado ao redor do seu rosto. Ela viu Simon
e Jordan, e deliberadamente se virou. A parte de trás do seu vestido era em
decote em V, que mostrava muita pele nua, inclusive a tatuagem de
borboleta de um lado ao outro na parte inferior de suas costas.
       “Eu acho que ela não tinha isso quando eu a conheci”, Jordan disse.
“Aquela tatuagem, eu quero dizer.”
       Simon olhou para Jordan. Ele estava arregalando os olhos para sua
ex-
namorada com o tipo de cobiça óbvia, Simon suspeitou, que ia levá-lo a
tomar um soco de Isabelle na cara se ele não tivesse cuidado.
       “Vamos”, ele disse, colocando sua mão contra as costas de Jordan e
empurrando levemente. “Vamos ver onde estamos sentados.”
Isabelle, que estava os observando por cima de seu ombro, sorriu um
sorriso felino. “Boa ideia.”
       Eles fizeram seu caminho pela multidão para a área onde estavam as
mesas, apenas para descobrir que a mesa deles já estava meio ocupada.
Clary sentada em um dos assentos, olhos baixos em uma taça de
champagne cheia de algo que mais parecia cerveja de gengibre. Perto dela
estavam Alec e Magnus, ambos com terno preto que vestiam quando
chegaram de Viena. Magnus parecia estar brincando com a borda franjada
do seu longa cachecol branco. Alec, com seus braços cruzados em cima do
peito, estava encarando furiosamente o nada.
       Clary, vendo Simon e Jordan, pulou para seus pés, alívio evidente em
seu rosto. Ela contornou a mesa para cumprimentar Simon, e ele viu que
ela estava vestindo um vestido muito simples de seda dourada e sandálias
douradas baixas. Sem saltos para lhe dar altura, ela parecia muito pequena.
O anel Morgenstern estava em seu pescoço, sua prata reluzindo contra a

corrente que o segurava. Ela ergueu-se para abraçá-lo e murmurou, “Eu
acho que o Alec e o Magnus estão brigados.”
       “Parece mesmo,” ele murmurou de volta. “Onde está o seu
namorado?”
       Com isso ela desatou os braços do pescoço dele. “Ele ficou preso no
Instituto.” Ela virou-se. “Hey, Kyle.”
       Ele sorriu um pouco embaraçado. “É Jordan, na verdade.”
       “É, eu andei ouvindo.” Clary gesticulou em direção as mesas. “Bem,
nós devíamos nos sentar. Eu acho que logo vai haver o brinde e outras
coisas. E então, esperançosamente, comida.”
       Eles todos sentaram. Houve um longo, estranho silêncio.
       “Então”, finalmente disse Magnus, correndo um longo dedo branco
em volta do aro de sua taça de champanhe. “Jordan, eu ouvi dizer que você
está na Praetor Lupus. Vejo que você está usando um dos medalhões deles.
O que diz nele?”
       Jordan assentiu. Ele estava corado, seus olhos cor de avelã
cintilando, sua
atenção apenas parcialmente na conversa. Ele estava seguindo Maia pelo
salão com seus olhos, seus dedos cerrando e abrindo na borda da toalha de
mesa. Simon duvidou que ele estivesse ciente disso. “Beati Bellicosi:
Abençoados são os guerreiros.”
       “Boa organização”, disse Magnus. “Eu conheci o homem que a
fundou, por volta de 1800. Woolsey Scott. Respeitável família antiga de
lobisomens.”
       Alec fez um barulho feio no fundo de sua garganta. “Você dormiu com
ele também?”
       Os olhos de gato de Magnus se arregalaram. “Alexander!”
       “Bem, eu não sei nada sobre o seu passado, eu sei?” Alec demandou.
“Você não me conta nada; você apenas diz que isso não importa.”
       A face de Magnus estava sem expressão, mas havia um sombrio
matiz de raiva em sua voz. “Isso significa que toda vez que eu mencionar
alguém que eu tenha conhecido você vai me perguntar se eu tive um caso
com ele?”
       A expressão de Alec era inflexível, mas Simon não pode evitar ter um
lapso de simpatia; a dor detrás de seus olhos azuis era clara. “Talvez.”
       “Eu conheci Napoleão uma vez.” Disse Magnus. “Nós não tivemos um
caso, entretanto. Ele era chocantemente pudico para um cara francês.”
       “Você conheceu Napoleão?” Jordan, quem parecera ter perdido a
maior parte da conversa, olhou impressionado. “Então é verdade o que eles
dizem sobre os bruxos?”
       Alec deu a ele um olhar muito desgostoso. “O que é verdade?”
       “Alexander”, disse Magnus friamente, e Clary encontrou os olhos de
Simon por sobre a mesa. Os dela estavam arregalados, verdes e cheios de
uma expressão que diz uh-oh. “Você não pode ser rude com todo mundo
que fala comigo.”
       Alec fez um gesto amplo e taxativo. “E porque não? Eu estou te
constrangendo? Eu quero dizer, talvez você estivesse esperando flertar com
o garoto lobisomem aqui. Ele é bem atraente, se você gosta do tipo cabelo-
bagunçado, ombros-largos, escultural.”
       “Ei, agora”, disse Jordan rapidamente.
       Magnus pôs suas mãos na cabeça.

       “Ou há um monte de garotas aqui, desde que aparentemente seu
gosto vai
em ambas as vias. Existe alguma coisa a qual você não tope?”
       “Sereias”, disse Magnus entre seus dedos. “Elas sempre cheiram a
algas marinhas.”
       “Isso não é engraçado”, Alec disse selvagemente, e chutando para
trás sua cadeira, levantou-se da mesa e retirou-se para dentro da multidão.
       Magnus ainda tinha sua cabeça em suas mãos, as pontas pretas de
seus cabelos saindo por entre seus dedos. “Eu apenas não vejo”, ele disse
para ninguém em particular, “porque o passado tem que importar.”
       Para a surpresa de Simon foi Jordan quem respondeu. “O passado
sempre importa”, ele disse. “É o que eles te dizem quando você se junta ao
Praetor. Você não pode esquecer as coisas que você fez no passado, ou
você nunca vai aprender com elas.”
       Magnus olhou para cima, seus olhos verde-dourados reluzindo
       através de seus dedos. “Quantos anos você tem?” Ele demandou.
       “Dezesseis?”
       “Dezoito”, disse Jordan, parecendo ligeiramente assustado.
       A idade do Alec, pensou Simon, suprimindo um sorriso interior. Ele na
verdade não achava o drama de Alec e Magnus divertido, mas era difícil não
sentir um certo divertimento amargo com a expressão do Jordan. Jordan
era duas vezes o tamanho de Magnus — apesar de ser alto, Magnus era
esbelto pelo ponto da magreza — mas Jordan estava claramente com medo
dele. Simon se virou para compartilhar um olhar com Clary, mas ela estava
olhando para fora em direção a porta da frente, seu rosto ficara
repentinamente branco osso. Largando seu guardanapo sobre a mesa, ela
murmurou, “Com licença”, e se levantou, praticamente fugindo da mesa.
       Magnus jogou suas mãos para cima. “Bem, se vai ser um êxodo em
massa...,” ele disse, e levantou graciosamente, jogando seu cachecol em
volta do seu pescoço. Ele desapareceu no meio da multidão, provavelmente
procurando pelo Alec.
       Simon olhou para Jordan, que estava olhando para Maia de novo. Ela
tinha suas costas para eles e estava conversando com Luke e Jocelyn,
rindo, jogando seu cabelo cacheado para trás. “Nem mesmo pense nisso”,
Simon disse, e se levantou. Ele apontou para Jordan. “Você fique aqui.”
       “E faço o quê?” Jordan demandou.
       “O que quer que seja que um Praetor Lupus faz nessas situações.
Medita. Contempla seus poderes Jedi. Seja o que for. Eu volto em cinco
minutos, e é melhor você estar aqui.”
       Jordan recostou-se cruzando os braços sobre o peito em um claro
jeito rebelde, mas Simon já havia parado de prestar atenção. Ele se virou e
moveu-se para dentro da multidão seguindo Clary. Ela era uma partícula de
vermelho e dourado no meio dos corpos em movimento, coroada com seu
retorcer de cabelos brilhantes.
       Ele a alcançou em um dos pilares envoltos em luz, e colocou uma
mão em seu ombro. Ela se virou com uma assustada exclamação, olhos
arregalados, mãos levantadas como que para afastá-lo. Ela relaxou quando
ela viu quem era. “Você me assustou!”
       “Obviamente”, Simon disse. “O que está acontecendo? Com o que
você está tão apavorada?”

       “Eu...” Ela abaixou sua mão com um encolher de ombros; apesar de
ter forçado uma aparência de casual desdenho, o pulso em sua garganta
estava como um beija-flor. “Eu pensei que vi o Jace.”
       “Eu notei”, Simon disse. “Mas...”
       “Mas?”
       “Você parece realmente assustada.” Ele não tinha certeza do por que
tinha dito isso exatamente, ou o que ele estava esperando que ela
respondesse. Ela mordeu seu lábio, do modo como ela sempre fazia quando
estava nervosa. Seu olhar por um momento estava longe dali; essa era
uma expressão familiar para Simon. Uma das coisas que ele sempre amou
em Clary era como ela facilmente era apanhada por sua imaginação, como
ela podia facilmente enclausurar-se em mundos ilusórios de maldições e
príncipes e destino e mágica. Um dia ele tinha sido capaz de fazer o
mesmo, tinha sido capaz de habitar mundos imaginários ainda mais
emocionantes por serem seguros — por serem fictícios. Agora que o mundo
real e o imaginário se colidiam, ele se perguntava se ela, como ele, ansiava
pelo passado, pelo normal. Ele se perguntava se normalidade era algo como
a visão ou o silêncio, que você não percebia que era precioso até perder
isso.
       “Ele está passando por um momento difícil”, ela disse em uma voz
baixa.
       “Eu estou assustada por ele.”
       “Eu sei,” disse Simon. “Olha, não para bisbilhotar, mas — ele
descobriu o que tem de errado com ele? Alguém descobriu?”
       “Ele—“ Ela interrompeu. “Ele está bem. Ele está apenas passando por
um momento difícil que vem do período de algumas coisas do Valentine.
Você sabe.” Simon sabia. Ele também sabia que ela estava mentindo. Clary,
quem dificilmente escondia alguma coisa dele. Ele deu a ela um olhar duro.
       “Ele está tendo sonhos ruins”, ela disse. “Ele estava preocupado que
houvesse algum envolvimento demoníaco—“
       “Envolvimento demoníaco?” Simon ecoou em descrença. Ele tinha
conhecimento de que Jace estava tendo sonhos ruins — ele havia dito isso
— mas Jace nunca mencionou demônios.
       “Bem, aparentemente há tipos de demônios que tentam te alcançar
através de seus sonhos”, Clary disse, soando como se estivesse arrependida
de ter trazido isso à tona de qualquer modo, “mas, eu tenho certeza de que
não é nada. Todo mundo tem sonhos ruins de vez em quando, não tem?”
Ela colocou uma mão no braço do Simon. “Eu estou apenas indo ver como
ele está. Eu vou voltar.” O olhar dela já estava deslizando por ele, em
direção as portas levavam ao terraço; ele ficou para trás com um aceno de
cabeça e deixou-a ir, observando-a se afastar em meio à multidão.
       Ela parecia tão pequena — pequena do modo como era na primeira
série quando ele tinha caminhado para a porta da frente da casa dela e a
observado subir as escadas, minúscula e determinada, sua lancheira
batendo contra seu joelho enquanto ela ia. Ele sentiu seu coração, o qual já
não batia mais, contrair, e ele se questionou se havia algo mais doloroso no
mundo do que não ser capaz de proteger as pessoas que você amava.
       “Você parece doente”, disse uma voz em seu cotovelo. Rouca,
familiar. “Pensando sobre que pessoa horrível você é?”
       Simon se virou e viu Maia inclinada contra o pilar atrás dele. Ela tinha
uma linha de pequenas luzes brilhantes branca envolvida em torno do seu
pescoço, e seu rosto estava corado com champagne e calor do salão.

        “Ou talvez eu devesse dizer”, ela continuou, “que vampiro horrível
você é. Exceto que faz isso soar que você é ruim em ser um vampiro.”
        “Eu sou ruim em ser um vampiro”, disse Simon. “Mas isso não
significa que eu não tenha sido ruim em ser um namorado, também.”
        Ela sorriu torto. “Bat disse que eu não deveria ser tão dura com
você”, ela disse. “Ele diz que garotos fazem coisas estúpidas quando
garotas estão envolvidas. Especialmente os geeks33 que anteriormente não
tiveram muita sorte com mulheres.”
        “É como se ele pudesse ver dentro da minha alma.”
        Maia balançou a cabeça. “É difícil ficar furiosa com você”, ela disse.
“Mas eu estou trabalhando nisso.” Ela se virou.
        “Maia”, Simon disse. Sua cabeça tinha começado a doer, ele se sentiu
um pouco tonto. Se ele não falasse com ela agora, contudo, nunca falaria.
“Por favor. Espere.”
        Ela voltou e olhou para ele, ambas as sobrancelhas erguidas
questionadoramente.
        “Desculpe-me pelo o que eu fiz”, ele disse. “Eu sei que eu disse isso
antes, mas eu realmente quis dizer isso.”
        Ela encolheu os ombros, sem expressão, dando nada a ele.
        Ele engoliu a dor em sua cabeça. “Talvez Bat esteja certo”, ele disse.
“Mas eu acho que há mais do que isso. Eu quis ficar com você porque — e
isso vai soar bem egoísta — você me faz sentir normal. Como a pessoa que
eu era antes.”
        “Eu sou um lobisomem, Simon. Não exatamente normal.”
        “Mas você — você é”, ele disse, tropeçando um pouco nas palavras.
“Você é genuína e real — uma das pessoas mais reais que eu já conheci.
Você queria aparecer e jogar Halo. Você queria falar sobre quadrinhos e ir
para shows e sair para dançar e apenas fazer coisas normais. E você me
tratou como se eu fosse normal. Você nunca me chamou de “Daylighter” ou
“vampiro” ou nada mais além de Simon.”
        “Essas são todas coisas de amigos”, Maia disse. Ela estava recostada
contra o pilar de novo, seus olhos brilhando suavemente enquanto ela
falava. “Não coisas de namorada.”
Simon apenas olhou para ela. Sua dor de cabeça pulsava como um
batimento cardíaco.
        “E então você anda por ai”, ela adicionou, “trazendo Jordan com
você. O que você estava pensando?”
        “Isso não é justo”, Simon protestou. “Eu não tinha ideia de que ele
era seu ex—“
        “Eu sei. Isabelle me contou”, Maia interrompeu. “Mas, de qualquer
maneira, me sinto apenas mandando você para o inferno a respeito disso.”
        “Ah é?” Simon levantou o olhar para Jordan, o qual estava sentado
sozinho na mesa redonda revestida de drapeados, como um garoto cujo o
par do baile de formatura não tinha aparecido. Simon de repente se sentiu
cansado — cansado de se sentir preocupado com todo mundo, cansado de
se sentir culpado pelas coisas que ele havia feito e que provavelmente faria
no futuro. “Bem, Izzy te contou que Jordan se designou para mim, pois
assim ele poderia ficar perto de você? Você deveria ouvir o jeito como ele
pergunta sobre você. Até mesmo o modo como ele diz seu nome. Cara, o
jeito como ele me atacou quando ele pensou que eu estava traindo você—“
        “Você não estava me traindo. Nós não estávamos exclusivos. Trair é
diferente— “Simon sorriu conforme Maia interrompia corando”. “Eu acho

ótimo que você o odeie tanto que você vai me defender contra ele, não
importa o quê”, ele disse.
       “Se passaram anos”, ela disse. “Ele nunca tentou entrar em contato
comigo. Nem uma vez.”
       “Ele tentou”, Simon disse. “Você sabia que na noite em que ele te
mordeu fora a primeira vez que ele se transformou?”
       Ela balançou a cabeça, seus cachos chacoalhando, seus amplos olhos
âmbar muito sérios. “Não. Eu pensei que ele sabia—“
       “Que ele era um lobisomem? Não. Ele sabia que ele estava perdendo
o controle de alguma forma, mas quem adivinha que está se tornando um
lobisomem? Após o dia em que ele te mordeu, ele foi te procurar, mas o
Praetor o barrou. Eles o mantiveram longe de você. E mesmo assim ele não
parou de procurar. Eu não acredito que tenha se passado um dia nesses
últimos dois anos em que ele não tenha se perguntado onde você estava—“
       “Porque você está defendendo ele?” Ela sussurrou.
       “Porque você deveria saber”, disse Simon. “Eu fui um idiota sendo
um namorado, e estou em dívida com você. Você deveria saber que ele não
pretendia te abandonar. Ele apenas me pegou como designado porque o
seu nome estava mencionado nas anotações do meu caso.”
       Os lábios dela se abriram. Enquanto ela balançava sua cabeça, as
brilhantes luzes em seu colar piscaram como estrelas. “Eu apenas não sei o
que eu devo fazer com isso, Simon. O que eu deveria fazer?”
       “Eu não sei”, Simon disse. Sua cabeça estava sentindo como se
tivessem unhas sendo esmagadas nela. “Mas eu posso te dizer uma coisa.
Eu sou o último cara no mundo para o qual você deveria estar pedindo
conselhos sobre relacionamentos.” Ele pressionou uma mão em sua testa.
“Estou indo lá fora. Pegar um ar. Jordan está naquela mesa se você quiser
falar com ele.”
       Ele gesticulou em direção às mesas e então, se distanciou, distanciou
dos seus olhos questionadores, dos olhos de todos no salão, do som de
vozes e risos elevados, e tropeçou em direção as portas.
       ????
       Clary empurrou abrindo as portas que conduziam para o terraço e foi
saudada por uma corrente de ar frio. Ela estremeceu, desejando que tivesse
seu casaco, mas pouco disposta a voltar, se quer por um momento, para
voltar à mesa para buscá-lo. Ela saiu para o terraço e fechou a porta atrás
dela.
       O terraço era uma ampla extensão de lajes, rodeado por grades de
metal. Tochas34 queimavam em grandes apoios de estanho, mas elas
faziam muito pouco para aquecer o ar— o que provavelmente explicava
porque ninguém estava aqui além de Jace. Ele estava de pé junto a grade,
olhando para o rio.
       Ela quis correr para cima dele, mas ela não pode evitar o hesitar. Ele
estava usando um terno escuro, o paletó aberto sobre uma camisa branca,
e sua cabeça estava virada para o lado, longe dela. Ela nunca tinha visto ele
vestido daquela forma antes, e isso o fazia parecer mais velho e um pouco
distante. O vento do rio levantou seu cabelo louro, e ela viu a pequena
cicatriz atravessando o lado de sua garganta onde Simon o tinha mordido
uma vez, e ela lembrou que Jace tinha se deixado morder, tinha arriscado
sua vida, por ela.
       “Jace”, ela disse.

       Ele se virou e olhou para ela e sorriu. O sorriso era familiar e pareceu
destrancar algo dentro dela, a libertando para correr através da laje para
ele e jogar seus braços em volta dele. Ele a pegou e segurou fora do chão
por um longo tempo, seu rosto enterrado no pescoço dela.
       “Você está bem”, ela disse finalmente, quando ele a abaixou. Ela
esfregou ferozmente as lágrimas que tinham se derramado para fora de
seus olhos. “Eu quero dizer — os Irmãos do Silêncio não teriam deixado
você ir se não estivesse tudo bem — mas eu pensei que eles tinham dito
que o ritual ia levar um longo tempo? Até mesmo dias?”
       “Não levou.” Ele colocou suas mãos em ambos os lados do seu rosto
e sorriu para ela. Por trás dele a ponte Queensboro se arqueava por cima
da água. “Você conhece os Irmãos do Silêncio. Eles gostam de tornar uma
grande coisa em tudo que eles fazem. Mas na verdade é uma cerimônia
muito simples.” Ele sorriu. “Eu me senti meio estúpido. É uma cerimônia
destinada a crianças, mas eu apenas me mantive pensando que se eu
terminasse isso rápido, eu ia conseguir vê-la no seu vestido de festa sexy.
Isso me levou até o fim.” Os olhos dele observaram-na de cima a baixo. “E
deixe-me te dizer, eu não estou desapontado. Você está maravilhosa.”
       “Você também está muito bonito.” Ela riu um pouco através das
lágrimas. “Eu nem mesmo imaginava que você tinha um terno.”
       “Eu não tinha. Eu tive que comprar um.” Ele deslizou seus polegares
sobre suas bochechas onde as lágrimas as tinham feito úmidas. “Clary—“
       “Porque você veio aqui pra fora?” Ela perguntou. “Está congelando.
Você não quer voltar pra dentro?”
       Ele balançou sua cabeça. “Eu queria conversar com você a sós.”
       “Então fala”, Clary disse em um meio sussurro. Ela tirou as mãos dele
do seu rosto e as colocou em sua cintura. A necessidade dela de ser
segurada contra ele era quase esmagadora. “Tem algo mais errado? Você
vai ficar bem? Por favor, não esconda nada de mim. Depois de tudo que
aconteceu, você deve saber que eu posso lidar com quaisquer más
notícias.” Ela sabia que estava tagarelando nervosamente, mas ela não
conseguia evitar. Ela sentia como se seu coração estivesse batendo a mil
quilômetros por hora. “Eu apenas quero que você fique bem”, ela disse o
mais calmamente que pode.
       Os olhos dourados dele escureceram. ”Eu fico revisando aquela caixa.
Aquela que pertenceu ao meu pai. Eu não sinto nada sobre ela. As cartas,
as fotos. Eu não sei quem eram aquelas pessoas. Elas não parecem reais
para mim. Valentine era real.”
Clary piscou; não era isso que ela esperava que ele dissesse. “Lembre-se,
eu disse que isso poderia levar tempo—“Ele não parecia ao menos a estar
ouvindo. “Se eu realmente fosse Jace Morgenstern, você ainda me amaria?
Se eu fosse Sebastian, você me amaria?”
       Ela apertou as mãos dele. “Você nunca poderia ser aquilo.”
       “Se Valentim fizesse em mim o que ele fez com o Sebastian, você me
amaria?”
       Havia uma urgência para a questão que ela não entendeu. Clary
disse, “Mas então não seria você.”
       Ele prendeu a respiração, quase como se o que ela tinha dito o
machucasse — mas como poderia? Isso era a verdade. Ele não era como
Sebastian. Ele era como ele mesmo. “Eu não sei quem eu sou”, ele disse.
“Eu me olho no espelho e eu vejo Stephen Herondale, mas eu ajo como um
Lightwood e falo como meu pai — como Valentine. Então, vejo quem eu sou

em seus olhos, e tento ser esta pessoa, porque você tem fé nesta pessoa, e
penso que a fé pode ser o suficiente para me fazer o que você quer.”
       “Você já é o que eu quero. Você sempre foi”, disse Clary, mas ela não
pode evitar sentir como se estivesse chamando dentro de um quarto vazio.
Era como se Jace não pudesse ouvi-la, não importando quantas vezes ela
tinha dito que ela o amava. “Eu sei que você se sente como se não
soubesse quem você é, mas eu sei. Eu sei. E algum dia você irá também. E
enquanto isso você não pode ficar se preocupando em sobre me perder,
porque isso nunca vai acontecer.”
       “Há um modo...” Jace ergueu seus olhos para ela. “Me dê sua mão.”
       Surpresa, Clary levantou sua mão, lembrando-se da primeira vez em
que ele pegara sua mão daquela forma. Ela tinha a runa agora, a runa olho-
aberto, nas costas de sua mão, aquela que ele tinha procurado na época e
não tinha encontrado. Sua primeira runa permanente. Ele virou a mão dela,
ostentando seu pulso, a pele vulnerável de seu antebraço.
       Ela tremeu. O vento vindo do rio parecia como se estivesse entrando
       em seus ossos. “Jace, o que você está fazendo?”
       “Você se lembra do que eu falei sobre casamentos de Caçadores de
Sombras? Como ao invés de trocar alianças, nós nos marcamos uns aos
outros com runas de amor e compromisso?” Ele olhou para ela, seus olhos
largos e vulneráveis sob seus espessos cílios dourados. “Eu quero marcar
você de forma que ligue nós dois, Clary. É apenas uma pequena marca,
mas é permanente. Você está disposta?”
       Ela hesitou. Uma runa permanente, quando eles eram tão jovens —
sua mãe ficaria furiosa. Mas nada mais parecia estar funcionando; nada que
ela dissera o convenceu. Talvez isso pudesse. Silenciosamente, ela puxou
sua estela e a deu para ele. Ele a pegou, roçando nos dedos dela quando o
fez. Ela estava tremendo mais forte agora, frio em todos os lugares exceto
onde ele a tocava. Ele segurou com delicadeza o braço dela contra ele e
abaixou a estela, tocando-a suavemente em sua pele, movendo-a
gentilmente para cima e para baixo, e então, quando ela não protestou,
com mais força. Tão fria como ela estava, a queimação da estela era quase
bem vinda. Ela observou enquanto as linhas escuras espiralavam para fora
da ponta da estela, formando um padrão de duras linhas angulares.
       Seus nervos formigaram em um súbito alarme. O padrão não falava
de amor e compromisso por ela; havia algo mais lá, algo mais sombrio, algo
que falava de controle e submissão, de perda e escuridão. Ele estava
desenhando a runa errada? Mas este era o Jace; certamente ele sabia
melhor que isso. E ainda assim um entorpecimento estava começando a
espalhar-se pelo seu braço do lugar onde a estela tocara — um doloroso
formigamento, como nervos acordando — e ela se sentiu tonta, como se o
chão estivesse se movendo embaixo dela— “Jace.” A voz dela aumentou,
tinindo com ansiedade. “Jace, eu não acho que isso está certo— “Ele soltou
o seu braço. Ele segurou a estela balançando levemente em sua mão, com
a mesma graça com que seguraria qualquer arma. “Eu sinto muito, Clary”,
ele disse. “Eu quero estar ligado a você. Eu nunca mentiria sobre isso.”
       Ela abriu sua boca para perguntar a ele sobre o que ele estava
falando, mas as palavras não vieram. A escuridão estava avançando muito
rápido. A última coisa que ela sentiu foram os braços do Jace em volta dela
enquanto ela caia.
       ????

       Após o que pareceu uma eternidade perambulando entorno do que
ele considerava uma festa extremamente chata, Magnus finalmente
encontrou Alec, sentado sozinho em uma mesa num canto atrás de um
jorro de rosas brancas artificiais. Havia um número de taças de champagne
na mesa, a maioria meio-cheia, como se os foliões passantes as tivesse
abandonado lá. Alec parecia meio abandonado a si mesmo. Ele tinha seu
queixo em suas mãos e estava encarando mal-humorado o nada. Ele não
olhou para cima, nem mesmo quando Magnus engatou um pé na cadeira
oposta à dele, girando-a em sua direção, e se sentou, descansando seus
braços no encosto da cadeira.
       “Você quer voltar para Viena?” Ele disse.
       Alec não respondeu, apenas encarou o nada.
       “Ou nós podemos ir a qualquer outro lugar”, disse Magnus. “Qualquer
lugar que você queira. Tailândia, Carolina do Sul, Brasil, Peru — Oh, espere,
não, eu fui banido do Peru. Eu tinha me esquecido. É uma longa história,
mas divertida se você a quiser ouvir.”
       A expressão de Alec dizia que ele não queria muito ouvir a história.
Incisivamente ele se virou e olhou por cima da sala, como se o quarteto de
cordas composto por lobisomens o fascinassem.
       Desde que Alec o estava ignorando, Magnus decidiu se distrair
mudando a cor do champagne das taças na mesa. Ele fez uma azul, a
próxima rosa e estava trabalhando em uma verde quando Alec o alcançou
através da mesa e o golpeou no seu pulso.
       “Pare com isso”, ele disse. “As pessoas estão olhando.”
       Magnus olhou para seus dedos, os quais estavam soltando faíscas
azuis. Talvez isso fosse um pouco óbvio. Ele dobrou seus dedos para baixo.
“Bem”, ele disse. “Eu tenho que fazer alguma coisa para me impedir de
morrer de tédio, desde que você não está falando comigo.”
       “Eu não estou”, disse Alec. “Não estou falando com você, eu quero
dizer.”
       “Oh?” disse Magnus. “Eu apenas perguntei se você queria ir para
Viena, ou Tailândia, ou a lua, e não me recordo de você dizendo algo em
resposta.”
       “Eu não sei o que eu quero.” Alec, sua cabeça inclinada, estava
brincando com um garfo de plástico abandonado. Embora seus olhos
estivessem desafiadoramente abatidos, sua cor azul clara era visível até
mesmo através das suas pálpebras abaixadas, as quais eram pálidas e finas
como pergaminhos. Magnus sempre achou os humanos mais bonitos do que
quaisquer outras criaturas vivas na Terra, e tinha frequentemente se
perguntado o porquê. Apenas alguns poucos anos antes da decomposição,
Camille tinha dito. Mas era a mortalidade que fazia deles o que eles eram, a
chama que resplandecia mais brilhante devido a seu oscilar. A morte é a
mãe da beleza, como o poeta disse. Ele se perguntou se o Anjo já havia
considerado fazer seus servos humanos, os Nephilins, imortais. Mas não,
por toda sua força, eles caíam como os humanos, sempre tinham caído em
batalha no decorrer de todas as eras do mundo.
       “Você tem aquele olhar de novo”, Alec disse irritadiço, olhando para
cima através de seus cílios. “Como se você estivesse visualizando algo que
eu não consigo ver. Você está pensando na Camille?”
       “Não realmente”, Magnus disse. “Quanto da conversa que eu tive
com ela você ouviu ocasionalmente?”

       “A maior parte dela.” Alec cutucou a toalha de mesa com seu garfo.
“Eu esta ouvindo na porta. O suficiente.”
       “De modo nenhum o suficiente, eu penso.” Magnus olhou para o
garfo, e ele deslizou para fora do alcance de Alec e sobre a mesa em
direção a ele. Ele bateu com sua mão sobre ele e disse, “Chega de
inquietação. O que foi que eu disse para Camille que te incomodou tanto?”
       Alec ergueu seus olhos azuis. “Quem é Will?”
       Magnus exalou um tipo de risada. “Will. Santo Deus. Aquilo foi a
muito tempo atrás. Will era um Caçador de Sombras, como você. E sim, ele
parecia com você, mas você não é nada como ele. Jace é muito mais como
Will era, na personalidade pelo menos — e meu relacionamento com você
não é nada como o que eu tive com o Will. É isso o que está incomodando
você?”
       “Eu não gosto de pensar que você apenas está comigo porque eu
pareço
com algum cara morto de quem você gostou.”
       “Eu nunca disse isso. Camille deixou subentendido isso. Ela é uma
mestra da implicação e manipulação. Ela sempre foi.”
       “Você não disse para ela que ela estava errada.”
       “Se você deixar Camille, ela atacará você por todos os lados. Defenda
um lado, e ela vai atacar outro. O único modo de lidar com ela é fingir que
ela não atingiu você.”
       “Ela disse que garotos bonitos eram sua ruína”, Alec disse. “O que faz
isso soar como se eu fosse apenas mais um em uma longa linha de
brinquedos para você. Um morre ou vai embora, você pega outro. Eu não
sou nada. Eu sou — trivial.”
       “Alexander—“
       “O que”, Alec continuou, encarando a mesa novamente, “é
especialmente injusto, porque você é qualquer coisa, exceto trivial para
mim. Eu mudei minha vida inteira por você. Mas nada nunca muda para
você, muda? Eu acho que é isso o que significa viver para sempre. Nada
nunca tem que importar tanto assim.”
       “Eu estou te dizendo que você importa—“
       “O Livro Branco”, Alec disse, de repente. “Porque você o queria
tanto?”
       Magnus olhou para ele intrigado. “Você sabe o porquê. É um livro de
feitiços muito poderoso.”
       “Mas você queria ele para algo especifico, não queria? Um feitiço que
estava nele?” Alec tomou uma respiração irregular. “Você não tem que
responder; eu posso dizer pela cara que você fez. Era — era um feitiço para
me fazer imortal?”
       Magnus sentiu-se abalado em seu âmago. “Alec”, ele sussurrou.
“Não. Não, eu — eu não faria isso.”
       Alec o encarou com seu penetrante olhar azul. “Porque não? Porque,
por todos esses anos, de todos os relacionamentos que você teve, você
nunca tentou fazer nenhum deles imortal como você? Se você pudesse me
ter com você para sempre, você não gostaria de ter?”
       “É claro que eu gostaria!” Magnus, percebendo que ele estava quase
gritando, abaixou sua voz com um esforço. “Mas você não entende. Não se
ganha nada de graça. O preço de se viver para sempre—“
       “Magnus.” Era Isabelle, se apressando na direção deles, seu telefone
       em sua mão. “Magnus, eu preciso falar com você.”

       “Isabelle.” Normalmente Magnus gostava da irmã do Alec. Não tanto
no momento. “Adorável, maravilhosa Isabelle. Você poderia, por favor, ir
embora. Agora é realmente uma péssima hora.”
       Isabelle olhou de Magnus para seu irmão, e de volta para Magnus.
“Então, você não quer que eu te diga que Camille fugiu do Santuário e
minha mãe está pedindo para você voltar para o Instituto agora para ajudá-
los a encontrá-la?”
       “Não”, Magnus disse. “Eu não quero que você me diga isso.”
       “Bem, isso é muito ruim”, Isabelle disse. “Porque é verdade. Quer
dizer, eu acho que você não tem que ir, mas—“
       O resto da frase pairou no ar, mas Magnus sabia o que ela não estava
dizendo. Se ele não fosse, a Clave poderia suspeitar que ele tivesse algo
haver com a fuga da Camille, e isso era a última coisa que ele precisava.
       Maryse ficaria furiosa, complicando seu relacionamento com Alec
ainda mais. E ainda—
       “Ela escapou?” Alec disse. “Nunca ninguém escapou do Santuário.”
       “Bem”, Isabelle disse, “agora, alguém conseguiu.”
       Alec esgueirou-se mais para baixo em seu assento. “Vai”, ele disse.
“É uma emergência. Apenas vá. Nós podemos conversar mais tarde.”
       “Magnus...” Isabelle soou meio apologética, mas não havia confusão
na urgência de sua voz.
       “Ótimo.” Magnus se levantou. “Mas”, ele adicionou, parando próximo
a cadeira do Alec e se inclinado para perto dele, “você não é trivial.”
       Alec corou. “Se você diz”, ele disse.
       “Eu digo”, disse Magnus, e se virou para seguir Isabelle para fora do
salão.
       Do lado de fora na rua deserta, Simon inclinou-se contra o muro do
Ironworks, contra o tijolo coberto de hera, e olhou para o céu. As luzes da
ponte desbotavam as estrelas então não havia nada para se ver exceto uma
camada de escuridão aveludada. Ele desejou com uma ferocidade súbita
que ele pudesse respirar no ar gelado para limpar sua cabeça, que ele
pudesse senti-lo em seu rosto, em sua pele. Tudo que ele estava usando
era uma fina camisa, e isso não fazia diferença. Ele não podia tremer, e
mesmo a lembrança de como isso parecia estava indo embora dele, pouco a
pouco, todo dia, deslizando para fora como lembranças de outra vida.
       “Simon?”
       Ele congelou onde estava. Aquela voz, baixa e familiar, vagando
como uma linha no ar frio. Sorria. Essa foi a última coisa que ela tinha dito
para ele.
       Mas não podia ser. Ela estava morta.
       “Não vai olhar para mim, Simon?” Sua voz estava baixa como
sempre, apenas um sopro. “Eu estou bem aqui.”
       Pavor arranhou seu caminho em sua espinha. Ele abriu seus olhos e
virou sua cabeça lentamente.
       Maurren estava de pé no círculo de luz moldado por uma lâmpada da
rua na esquina da Vernon Boulevard. Ela vestia um longo vestido branco
virginal. Seu cabelo estava penteado reto por sobre seus ombros, brilhando
amarelo na luz da lâmpada. Ainda havia um pouco de sujeira de túmulo
preso nele. Havia pequenos chinelos brancos em seus pés. Seu rosto estava
branco morto, círculos de ruge pintados em suas bochechas, e sua boca
colorida com um rosa escuro como se tivesse sido desenhado com um
marcador de texto.

       Os joelhos de Simon cederam. Ele deslizou pela parede em que tinha
encostado até estar sentado no chão, seus joelhos dobraram. Sua cabeça
parecia que ia explodir.
       Maureen deu uma pequena risada de menina e saiu de debaixo da luz
da lâmpada. Ela se moveu em direção a ele e olhou para baixo; seu rosto
tinha um olhar de satisfação divertida.
       “Eu imaginei que você ficaria surpreso”, ela disse.
       “Você é um vampiro”, Simon disse. “Mas — como? Eu não fiz isso
com você. Eu sei que eu não fiz.”
       Maureen balançou sua cabeça. “Não foi você. Mas foi por sua causa.
Eles pensaram que eu era sua namorada, você sabe. Eles me tiraram do
meu quarto de noite, e me mantiveram em uma jaula por todo o dia
seguinte. Eles me disseram para não me preocupar porque você viria por
mim. Mas você não foi. Você nunca veio.”
       “Eu não sabia.” A voz de Simon rachou. “Eu teria ido se eu
soubesse.”
Maurren arremessou seu cabelo loiro para trás de seus ombros em um
gesto que, de repente e dolorosamente, lembrou Simon de Camille. “Isso
não importa,” ela disse em uma pequena voz de menina. “Quando o sol se
pôs, eles me disseram que eu poderia morrer ou poderia viver desse jeito.
Como vampiro.”
       “Então você escolheu isso?”
       “Eu não queria morrer”, ela ofegou. “E agora eu vou ser bonita e
jovem para sempre. Eu posso ficar fora a noite toda, e eu nunca preciso ir
para casa. E ela toma conta de mim.”
       “De quem você está falando? Quem é ela? Você quer dizer Camille?
Olha, Maurren, ela é louca. Você não deveria ouvi-la.” Simon cambaleou
para seus pés. “Eu posso te ajudar. Achar um lugar para você ficar. Te
ensinar como ser um vampiro—“
       “Oh, Simon.” Ela sorriu, e seus pequenos dentes brancos apareceram
em uma pequena linha precisa. “Eu não acho que você saiba como ser um
vampiro tampouco. Você não queria me morder, mas você o fez. Eu lembro.
Seus olhos ficaram totalmente negros como olhos de tubarão, e você me
mordeu.”
       “Eu sinto muito. Se você me deixar ajudá-la—“
       “Você poderia vir comigo,” ela disse. “Isso poderia me ajudar.”
       “Ir com você aonde?”
       Maurren olhou a rua vazia de cima a baixo. Ela se parecia com um
fantasma em seu fino vestido branco. O vento o soprou ao redor de seu
corpo, mas ela claramente não sentiu o frio. “Você foi escolhido”, ela disse.
“Porque você é um Daylighter. Aqueles que fizeram isso comigo querem
você. Mas eles sabem que você carrega a Marca agora. Eles não podem
chegar a você, a menos que você decida ir até eles. Então eles me
mandaram como uma mensageira.” Ela inclinou sua cabeça para o lado
como a de um pássaro. “Eu posso ser alguém que não importa para você”,
ela disse, “mas da próxima vez será. Eles vão continuar indo atrás das
pessoas que você ama até que não reste nenhuma, portanto, você poderia
vir comigo e descobrir o que eles querem.”
       “Você sabe?” Simon perguntou. “Você sabe o que eles querem?”
       Ela balançou sua cabeça. Ela estava tão pálida embaixo da difusa luz
da lâmpada que ela parecia quase transparente, como se Simon pudesse ter

olhado direto através dela. Do modo, ele supôs, como ele sempre tinha
feito.
       “Isso importa?” Ela disse, e estendeu sua mão.
       “Não”, ele disse. “Não, eu acho que não importa.” E ele pegou sua
mão.

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