sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

1

Capítulo 1

O MESTRE


“SÓ CAFÉ, POR FAVOR.”
A  garçonete  levantou  suas  sobrancelhas  desenhadas  a  lápis.  “Você
não  quer  nada  para  comer?”,  ela  perguntou.  Seu  sotaque  era  forte,  sua
atitude desapontada.
Simon  Lewis  não  podia  culpá-la,  ela  tinha  estado,  provavelmente,
esperando por uma gorjeta melhor, do que a de uma que ela ia receber por
uma  única  xícara  de  café.  Mas  não  era  sua  culpa  que  vampiros  não
comessem. Às vezes, em restaurantes, ele pedia comida, só para manter a
aparência  de  normalidade, mas  em  uma  noite  de  Terça,  quando  Veselka
estava quase vazio de outros clientes, não parecia valer a pena o incômodo.
“Só café.”
Com um encolher de ombros a garçonete tomou o menu plastificado
e foi ordenar seu pedido. Simon sentou-se contra a cadeira dura de plástico
e  olhou  ao  redor.  Veselka,  um  restaurante  na  esquina  da  Ninth  Street  e
Second  Avenue,  era  um  de  seus  lugares  favoritos  na  Lower  East  Side —
uma  antiga  vizinhança  coberta  por  murais  preto  e  branco,  onde  eles
deixavam  você  se  sentar  o  dia  todo  desde  que  você  pedisse  café  em
intervalos  de meia  hora.  Eles  também  serviam  o  que  tinha  sido  uma  vez
seus pierogi vegetariano e borscht favoritos, mas aqueles dias ficaram para
trás.
Era  o  meio  de  Outubro,  e  eles  tinham  acabado  de  montar  suas
decorações  de Halloween —  um  aviso  oscilante  que  dizia  Travessuras-ou-
Borscht! —  e  um  falso  vampiro  de  papelão  chamado  Conde  Blintzula.  Há
muito  tempo atrás Simon e Clary  tinham achado as decorações bregas do
feriado engraçadas, mas o Conde, com suas presas falsas e capa preta, não
mais divertiam Simon.
Simon  olhou  em  direção  a  janela.  Era  uma  noite  fria,  e  o  vento
estava  soprando  folhas  através  da  Second  Avenue  como  punhados  de
confetes jogados. Havia uma garota caminhando na rua, uma garota em um
casaco  justo,  com  longos  cabelos  pretos  que  esvoaçavam  ao  vento.  As
pessoas se viravam para observá-la enquanto ela caminhava.
Simon  tinha  olhado  para  garotas  como  aquela  antes  no  passado,
imaginando  onde  elas  estavam  indo,  quem  elas  estavam  se  encontrando.
Não caras como ele, ele sabia disso muito bem.
Exceto  que esta  estava. A  sineta  da  porta  da  frente  do  restaurante
tocou, enquanto a porta se abria, e  Isabelle Lightwood entrava. Ela sorriu
quando  ela  viu Simon,  e  veio  em  direção  a  ele,  retirando  seu  casaco  e o
dobrando nas  costas da  cadeira, antes que ela  se  sentasse. Sob o  casaco
ela vestia o que Clary chamava de “típico trajes Isabelle”: um vestido curto
justo de  veludo, meia-calça arrastão, e botas. Havia uma  faca enfiada na
beira  de  sua  bota  esquerda  que Simon  sabia  que  só  ele  podia  ver;  ainda
assim, todos no restaurante estavam observando enquanto ela se sentava,
jogando  seu  cabelo  para  trás.  O  que  quer  que  ela  estivesse  vestindo
chamava atenção como fogos de artifício.

Linda  Isabelle  Lightwood.  Quando  Simon  tinha  a  conhecido,  ele
presumiu  que  ela  não  tinha  tempo  para  um  cara  como ele.  Ele  descobriu
estar  na  maior  parte  certo.  Isabelle  gostava  de  garotos  que  seus  pais
desaprovavam,  e  no universo  dela  isso  significava Seres  do Submundo —
elfos,  lobisomens  e  vampiros.  Eles  estarem  se  encontrando  regularmente
nos  últimos  um  ou  dois  meses,  o  deixavam  atônito,  mesmo  que  o
relacionamento deles fosse limitado na maioria, a encontros não frequentes
como esse. E mesmo que ele não pudesse se  impedir de  imaginar, se ele
nunca  tivesse se  tornado um vampiro, se sua vida  inteira não  tivesse sido
alterada naquele momento, eles estariam namorando?
Ela  prendeu  um  cacho  de  cabelo  atrás  de  sua  orelha,  seu  sorriso
brilhante. “Você está bonito.”
Simon  lançou  um  olhar  para  si  mesmo  na  superfície  refletida  da
janela do restaurante. A influência de Isabelle era visível nas mudanças na
aparência  dele  desde  que  eles  tinham  começado  a  namorar.  Ela  o  tinha
forçado a jogar fora seus casacos de capuz em troca de jaquetas de couro,
e  seus  tênis  no  lugar  de  botas  da moda.  Que,  aliás,  custavam  trezentos
dólares um par.
Ele estava ainda usando suas características camisetas com logotipos
— esta dizia O EXISTENCIALISMO FAZ ISSO INÚTIL — mas seus jeans não
tinham mais buracos nos  joelhos e bolsos rasgados. Ele também tinha seu
cabelo maior, então ele caia em seus olhos agora, cobrindo sua testa, mas
isso era mais por necessidade do que por Isabelle.
Clary tinha gozado dele sobre seu novo look; mas, então, Clary tinha
descoberto  tudo  sobre  a  vida  amorosa  incerta  hilária.  Ela  não  podia
acreditar que ele estava namorando  Isabelle a  sério. É  claro,  ela  também
não  podia  acreditar  que  ele  estava  também  namorando Maia,  uma  amiga
deles que, por acaso, era uma lobisomem, de um modo igualmente sério. E
ela  realmente  não  podia  acreditar  que  Simon  não  tinha  dito  ainda  a
nenhuma delas sobre a outra.
Simon não tinha realmente a certeza de como  isso tinha acontecido.
Maia gostava de ir a casa dele e usar o seu Xbox — eles não tinham um na
delegacia abandonada onde o bando de lobisomens vivia — e não foi, até a
terceira  ou  quarta  vez,  que  ela  tinha  vindo  se  inclinado  e  o  beijado,  se
despedindo antes que ela saísse. Ele tinha gostado, e então ele tinha ligado
para Clary para perguntar a ela se ele precisava dizer a Isabelle.
“Descubra o que esta acontecendo entre você e  Isabelle”, ela disse.
“Então diga a ela.”
Isso se  tornou um péssimo  conselho.  Já havia um mês, e ele ainda
não tinha certeza do que estava acontecendo entre ele e Isabelle, então ele
não disse nada. E quanto mais o tempo passava, mais embaraçosa a  ideia
de dizer alguma coisa aumentava. Até agora ele fez isso funcionar. Isabelle
e Maia não eram amigas de verdade, então  raramente viam uma a outra.
Infelizmente para ele, isso estava prestes a mudar. A mãe de Clary e o seu
amigo de longa data, iam se casar em poucas semanas, e ambas, Isabelle e
Maia, foram convidadas para o casamento, um Simon ansioso descobriu-se
mais aterrorizado do que a ideia de ser perseguido pelas ruas de Nova York
por um grupo de caçadores de vampiros.
“Então”,  Isabelle  disse,  arrancando  ele  de  seu  devaneio.  “Por  que
aqui e não no Taki? Eles teriam servido sangue para você lá.”
Simon  vacilou  com  a  intensidade  dela,  Isabelle  não  era  nada  sutil.
Felizmente, ninguém parecia estar escutando, nem mesmo a garçonete que

retornou,  colocando  com  barulho  uma  xícara  de  café  em  frente  a  Simon,
olhou Lizzy, e saiu sem tomar o pedido dela.
“Eu  gosto  daqui”,  ele  disse.  “Clary  e  eu  costumávamos  vir  aqui
quando ela tinha aulas em Tisch. Eles têm ótimos borscht e blintzes — eles
são como tortas de queijo doce — além de que fica aberto a noite toda.”
Isabelle, entretanto, estava o ignorando. Ela estava olhando por cima
de seu ombro. “O que é aquilo?”
Simon seguiu seu olhar. “Aquele é o Conde Blintzula.”
“Conde Blintzula?”
Simon deu de ombros. “Ele é uma decoração do Halloween. O Conde
Blintzula  é  para  crianças.  É  como  o  Conde1  Chocula,  ou  o  Conde  da  Vila
Sésamo.“ Ele sorriu para a inexpressão dela. “Sabe. Ele ensina as crianças a
contar.”
Isabelle estava sacudindo sua cabeça. “Há um programa de TV onde
crianças são ensinadas a contar com um vampiro?”
“Faria sentido se você o visse”, Simon murmurou.
“Há  alguma  base  mitológica  para  tal  paralelo”,  Isabelle  disse,
recaindo em uma preleção do modo de ser Caçador de Sombras. “Algumas
lendas afirmam que vampiros são obcecados por contagem, e que se você
derramar grãos de arroz em frente a eles, eles terão que parar o que estão
fazendo  e  contar  um  a  um. Não  há  verdade  nisso,  é  claro,  não mais  que
aquele  negócio  sobre  o  alho.  E  vampiros  não  se  importam  em  ensinar
crianças. Vampiros são aterrorizantes.”
“Obrigado”, Simon disse.  “É uma piada,  Isabelle. Ele é o Conde. Ele
gosta de contar. Sabe.  ‘O que o Conde comeu hoje, crianças? Um biscoito
de chocolate, dois biscoitos de chocolate, três biscoitos de chocolate...’”
Houve um sopro de ar frio enquanto a porta do restaurante se abria,
entrando outro cliente. Isabelle estremeceu e alcançou sua echarpe de seda
preta. “Não é realístico.”
“O  que  você  preferiria?  ‘O  que  o  Conde  comeu  hoje,  crianças?  Um
aldeão  1 Count  –  é um  trocadinho. Count  significa  conde mais  é  também
um verbo to count – contar. Indefeso, dois aldeões indefesos, três aldeões
indefesos...”
“Shh.”  Isabelle  terminou  de  enrolar  sua  echarpe  ao  redor  de  sua
garganta e se  inclinou para  frente, colocando sua mão no pulso de Simon.
Seus  grandes  olhos  negros  estavam  de  repente  vivos,  o  modo  que  eles
apenas  ficavam  vivos  quando  ela  estava  caçando  demônios  ou  pensando
sobre caçar demônios. “Olhe ali.”
Simon seguiu seu olhar. Havia dois homens em pé perto da prateleira
de  vidro  que  continha  itens  de  padaria:  bolos  densamente  confeitados,
pratos de rugelach, e Danishes recheados de creme. Nenhum deles parecia
como  se  estivessem  interessados  em  comida.  Ambos  eram  baixos  e
terrivelmente  esqueléticos,  tanto  que  seus  ossos  do  rosto  projetavam  de
seus rostos como facas. Ambos tinham um fino cabelo grisalho e olhos cinza
pálidos, e usavam casacos acinturados que iam até o chão.
“Agora”, Isabelle disse. “O que você acha que eles são?”
Simon estreitou os olhos para eles. Ambos olhavam de volta para ele,
seus olhos sem cílios como buracos vazios. “Eles são como gnomos maus de
jardim.”
“Eles  são  humanos  subjugados”,  Isabelle  sibilou.  ”Eles  pertencem  a
um vampiro.”
“Pertencem a um...”

Ela  fez um  ruído  impaciente.  “Pelo Anjo,  você não  sabe nada  sobre
sua  espécie,  sabe?  Você  nem  mesmo  sabe  como  vampiros  são
feitos?”
“Bem, quando uma mamãe vampiro e um papai vampiro amam muito
um ao outro...”
Isabelle fez uma careta para ele. “Ótimo, você sabe que os vampiros
não  precisam  ter  sexo  para  se  reproduzirem,  mas  eu  aposto  que  você
realmente não sabe como isso funciona.”
“Eu também sei.” Simon disse. “Eu sou um vampiro por que eu bebi
um  pouco  de  sangue  de  vampiro  antes  que  eu morresse.  Beber  sangue
mais morte é igual a vampiro.”
“Não exatamente”, Isabelle disse. “Você é um vampiro por que você
bebeu  um  pouco  do  sangue  de  Raphael,  e  então  foi mordido  por  outros
vampiros, e então você morreu. Você precisa ser mordido em algum ponto
durante o processo.”
“Por quê?”
“A  saliva  do  vampiro  tem...  propriedades.  Propriedades
transformadoras.”
“Eco”, Simon disse.
“Não faça eco para mim. Você é quem tem o cuspe mágico. Vampiros
mantêm humanos ao redor e se alimenta deles quando tem falta de sangue
— como máquinas de  lanche que andam”,  Izzy  falou com desgosto.  “Você
acharia  que  eles  estariam  fracos  por  perder  sangue o  tempo  todo, mas a
saliva  vampira  na  verdade  tem  propriedades  curativas.  Ela  aumenta  sua
contagem  de  células  vermelhas  do  sangue,  faz  elas  mais  fortes  e  mais
saudáveis e os faz viver mais. É claro, de vez em quando o vampiro decidirá
que ele precisa mais do que um lanche, que precisa de um subjugado — e
então  começará  a  alimentar  seus  humanos  mordidos  com  pequenas
quantidades de sangue vampiro, só para mantê-lo dócil, manter conectado
a  seu mestre. Subjugados adoram  seus mestres, e ama  servi-los. Tudo o
que  eles  querem  é  estar  ao  lado  deles.  Como  você  estava  quando  você
voltou  ao Dumont.  Você  foi  atraído  de  volta  para  o  vampiro  cujo  sangue
você tinha consumido.”
“Raphael”,  Simon  disse,  sua  voz  fria.  “Eu  não  sinto  uma  urgência
para estar com ele ultimamente, deixe-me lhe dizer.”
“Não,  isso  se  foi  quando  você  se  tornou  um  vampiro  completo.
Apenas os  subjugados adoram  seus progenitores e não pode desobedecê-
los. Você não  vê? Quando  você  voltou ao Dumont o  clã de Rafael drenou
você,  e  você morreu,  e  então  se  tornou  um  vampiro. Mas  se  eles  não  o
tivessem  drenado,  se  ao  invés,  eles  tivessem  dado  a  você mais  sangue
vampiro, você eventualmente teria se tornado um subjugado.”
“Isso  tudo  é muito  interessante”,  Simon  disse.  “Mas  não  explica  o
porquê de eles estarem olhando para nós.”
Isabelle  olhou  de  volta  para  eles.  “Eles  estão  olhando  para  você.
Talvez o mestre deles morreu e estejam procurando por outro vampiro para
ser dono deles. Você poderia ter bichinhos de estimação.” Ela sorriu.
“Ou”, Simon disse. “Talvez eles estejam aqui pelos hash brown2.
“Humanos  subjugados  não  comem  comida.  Eles  vivem  de  uma
mistura  de  sangue  vampiro  e  sangue  animal.  Eles  os  mantêm  em  um
estado  de  animação2.  Uma  tortinha  de  batata  suspensa.  Eles  não  são
imortais, mas eles envelhecem muito lentamente.”

“Que pena”, Simon disse, os olhando. “Eles não parecem manter suas
aparências.”
Isabelle  se empertigou.  “E eles estão  vindo para  cá. Eu aposto que
descobriremos o que eles querem.”
Os  humanos  subjugados  se  moviam  como  se  eles  estivessem  sob
rodas.  Eles  pareciam  não  estar  dando  passos  tanto  quanto  deslizando  a
frente  sem  som.  Levou  a  eles  apenas  segundos  para  atravessarem  o
restaurante; no instante que eles aproximaram da mesa de Simon, Isabelle
tinha  sacado o afiado punhal parecido  com estilete para  fora  da ponta de
sua  bota.  Ele  repousava  na  mesa,  brilhando  nas  luzes  fluorescentes  do
restaurante.  Ele  era  sombrio,  prata  pesada,  com  cruzes  marcando  em
ambos  os  lados  de  seu  cabo.  A  maioria  das  armas  repelentes  vampiras
parecia  ostentar  cruzes,  por  suposição,  Simon  pensou  que  a maioria  dos
vampiros  eram  cristãos.  Quem  imaginaria  que  seguir  uma  religião
minoritária poderia ser tão vantajoso?
“Estão  perto  o  suficiente.”  Isabelle  disse,  enquanto  os  dois
subjugados  paravam  ao  lado  da  mesa,  os  dedos  dela  a  milímetros  do
punhal. “Vocês dois, digam o que querem.”
“Caçadora  de  Sombras.”  A  criatura  da  esquerda  falou  em  um
sussurro sibilado. “Nós não sabíamos de você nesta situação.”
Isabelle  levantou  uma  delicada  sobrancelha.  “E  qual  situação  seria
essa?”
O  segundo  subjugado  apontou  um  longo  dedo  cinza  para Simon. A
ponta  da  unha  era  amarelada  e  afiada.  “Nós  temos  negócios  com  o
Daylighter.”
“Não, vocês não tem”, Simon disse. “Eu não tenho ideia de quem são
vocês. Nunca os vi antes.”
“Eu sou o Sr. Walker”, disse a primeira criatura. “Ao meu lado está o
Sr.  Archer.  Nós  servimos  ao  mais  poderoso  vampiro  na  cidade  de  Nova
York. O chefe do grande clã de Manhattan.”
“Raphael  Santiago”,  Isabelle  disse.  “Nesse  caso  vocês  sabem  que
Simon não é parte de nenhum clã. Ele é um agente livre.”
Sr. Walker  sorriu um  sorriso  leve.  “Meu mestre esta esperando que
esta situação pudesse ser alterada.”
Simon  encontrou  os  olhos  de  Isabelle  do  outro  lado  da mesa.  Ela
encolheu
os ombros. “Raphael não disse a você que ele queria que você ficasse longe
do clã?”
“Talvez ele tenha mudado de ideia”, Simon sugeriu. “Você sabe como
ele é. Genioso, caprichoso.”
“Eu  não  saberia.  Eu  não  tenho  o  visto  desde  aquela  vez  que  você
ameaçou matá-lo com um candelabro. Embora ele tenha  levado isso numa
boa. Nem vacilou.”
“Fantástico”, Simon disse. Os dois subjugados estavam olhando para
ele.  Seus  olhos  eram  de  uma  cor  cinza  pálida  esbranquiçada,  como  neve
suja.  “Se Raphael me quer no  clã, é porque ele quer algo de mim. Vocês
podiam muito bem me dizer o que é.”
“Nós  não  estamos  a  par  dos  planos  de  nosso  mestre”,  Sr.  Archer
disse em um tom altivo.
“Então, sem chance”, Simon disse. “Eu não irei.”
“Se você não quiser vir conosco, nós estamos autorizados a usar de
força para levá-lo.”

O  punhal  pareceu  saltar  para  a mão  de  Isabelle;  ou pelo menos,  ela mal
pareceu  se  mover,  e  ainda  assim  ela  o  estava  segurando.  Ela  o  girou
levemente. “Eu não faria isso se fosse você.”
Sr. Archer mostrou seus dentes para ela. “Desde quando as crianças
do Anjo tornaram-se os guarda-costas para inferiores Seres do Submundo?
Eu acharia que você está além desse tipo de negócios, Isabelle Lightwood.”
“Eu  não  sou  a  guarda-costas  dele”,  Isabelle  disse.  “Eu  sou  a
namorada  dele.  O  que me  dá  o  direito  de  chutar  seu  traseiro  se  você  o
incomodar. É como funciona.”
Namorada?  Simon  ficou  perplexo  o  suficiente  para  olhar  para  ela
surpreso,  mas  ela  estava  olhando  para  os  dois  subjugados,  seus  olhos
escuros cintilando. Por um lado ele não achava que Isabelle sequer referiu a
si mesma como namorada dele antes. Por outro lado isso era característico
de quão estranha sua vida tinha se tornado, de que essa era a coisa que o
tinha mais surpreendido hoje à noite, além do fato de que ele tinha acabado
de  ter  sido  convocado  para  um  encontro  pelo mais  poderoso  vampiro  em
Nova York.
“Meu mestre”,  disse  Sr. Walker,  no  que  ele  provavelmente  pensou
que  fosse  um  tom  apaziguador,  “tem  uma  proposta  a  fazer  para  o
Daylighter”
“Seu nome é Simon. Simon Lewis.”
“Para propor ao Sr. Lewis. Eu posso prometer que o Sr. Lewis achará
mais  vantajoso  se  ele  estiver  disposto  a  nos  acompanhar  e  ouvir  meu
mestre. Eu juro pela honra de meu mestre que nenhum dano acontecerá a
você, Dayligher, e que  caso você deseje  recusar a oferta de meu mestre,
você terá a livre escolha de fazê-lo.”
Meu  mestre,  meu  mestre,  Sr.  Walker  disse  as  palavras  com  uma
mistura  de  adoração  e  reverência.  Simon  estremeceu  um  pouco
intimamente. Que horrível ser tão ligado a outro alguém, e não ter nenhum
desejo verdadeiro por si mesmo.
Isabelle  estava  balançando  sua  cabeça;  ela  balbuciou  “não”  para
Simon.  Ela  provavelmente  estava  certa,  ele  pensou,  Isabelle  era  uma
excelente  Caçadora  de  Sombras.  Ela  tinha  estado  caçando  demônios  e
Seres  do  Submundo  renegados —  vampiros  inferiores,  bruxos  praticantes
de  magia  negra,  lobisomens  que  tinham  se  tornado  selvagens  e  comido
alguém —  desde  que  ela  tinha  doze  anos  de  idade,  e  era  provavelmente
melhor no que ela fazia do que qualquer outro Caçador de Sombras em sua
idade, com exceção de seu  irmão Jace. E houve Sebastian, Simon pensou,
que tinha sido melhor do que ambos. Mas ele estava morto.
“Tudo bem”, ele disse. “Eu irei.”
Os olhos de Isabelle se arregalaram. ”Simon!”
Ambos  subjulgados  esfregaram  suas mãos  juntas,  como  vilões  em
histórias  em  quadrinhos.  O  gesto  por  si  mesmo  não  era  o  que  foi
assustador,  na  verdade;  foi  que  eles  fizeram  isso  exatamente  ao mesmo
tempo  e  do mesmo  jeito,  como  se  eles  fossem marionetes  cujas  cordas
estavam sendo puxadas em uníssono.
“Excelente”, disse Sr. Archer.
Isabelle bateu a faca na mesa com um ruído e se inclinou para frente,
seu  brilhante  cabelo  escuro  roçando em  cima  da mesa  “Simon”,  ela  disse
em um  sussurro urgente.  “Não  seja estúpido. Não há motivo para você  ir
com eles. E Raphael é um idiota.”

“Raphael é um mestre vampiro”, Simon disse. “O sangue dele me fez
um vampiro. Ele é o meu — seja o que eles chamam isso.”
“Patriarca, criador, progenitor — há um milhão de nomes para o que
ele fez”, Isabelle disse distraidamente. “E talvez o sangue dele fez de você
um vampiro. Mas isso não o fez um Daylighter.” Seus olhos encontraram os
dele do outro lado da mesa. Jace fez de você um Daylighter. Mas ela nunca
diria isso em voz alta, havia apenas poucos deles que conheciam a verdade,
a  história  inteira  por  trás  do  que  Jace  era,  e  o  que Simon  era  por  causa
disso. “Você não tem que fazer o que ele diz.”
“É  claro  que  não”,  Simon  disse  abaixando  sua  voz.  “Mas  se  eu me
recusar a ir, você acha que Raphael vai apenas deixar de lado? Ele não vai.
Eles  vão  continuar  atrás  de mim.”  Ele  deslizou  um  olhar  de  lado  para  os
subjulgados, eles pareciam como se concordassem, embora ele pudesse ter
imaginado isso. “Eles vão me incomodar em toda parte. Quando eu sair, na
escola, com a Clary—“  “E o que? Clary não pode  lidar com  isso?”  Isabelle
jogou  suas mãos.  “Ótimo.  Pelo menos me  deixe  ir  com  você.”  ”Claro  que
não”,  interrompeu  Sr.  Archer.  “Este  não  é  um  assunto  dos  Caçadores  de
Sombras. Este é um negócio das Crianças da Noite.”
“Eu não irei—“
“A  Lei  nos  dá  o  direito  de  conduzir  nossos  assuntos  em  particular.”
Sr. Walker falou firme. “Com nossa própria espécie.”
Simon olhou para eles. “Dê-nos um minuto, por favor”, ele disse. “Eu
preciso falar com Isabelle.”
Houve um momento de silêncio. Em torno deles a vida no restaurante
continuava. O  lugar estava em sua correria de  fim de noite com o entra e
sai  do  cinema,  as  garçonetes  se  apressavam,  carregando  pratos
fumegantes  de  comida  para  os  clientes;  casais  riam  e  conversavam  nas
mesas  próximas;  cozinheiros  gritavam  ordens  uns  aos  outros  atrás  do
balcão.  Ninguém  olhava  para  eles  ou  tomava  conhecimento  de  que  algo
estranho  estava  acontecendo.  Simon  estava  acostumado  com  o
encantamento  agora,  mas  ele  não  conseguia  algumas  vezes  impedir  o
sentimento de que quando ele estava com  Isabelle, ele estava preso atrás
de  uma  parede  invisível  de  vidro,  cortado  do  resto  da  humanidade  e  do
cotidiano e seus assuntos.
“Muito bem”, disse Sr. Walker,  se afastando.  “Mas meu mestre não
gosta de estar esperando.”
Eles recuaram em direção a porta, aparentemente não afetados pela
rajada
de  ar  frio  todas  as  vezes  que  alguém  entrava  ou  saia,  e  ficaram  lá  como
estátuas.  Simon  se  virou  para  Isabelle.  “Tudo  bem.”  Ele  disse.  “Eles  não
irão me  ferir.  Eles  não  podem me  ferir.  Raphael  sabe  tudo  sobre...”  Ele
gesticulou desconfortavelmente em direção a sua testa. “Isso.”
Isabelle estendeu a mão através de mesa e puxou o cabelo dele para trás,
seu toque foi mais clínico do que gentil. Ela fez uma careta.
Simon tinha olhado para a Marca vezes o suficiente por si mesmo, no
espelho, para saber bem como ela se parecia. Como se alguém tivesse dado
uma fina pincelada e desenhado um simples traço em sua testa, um pouco
acima  e  entre  seus  olhos.  A  forma  disso  parecia  mudar  algumas  vezes,
como as imagens se movendo encontradas em nuvens, mas ela era sempre
clara e sombria e, de algum modo, parecendo perigosa, como um sinal de
alerta rabiscado em outra língua.
“Isso realmente... funciona?”, ela sussurrou.

“Raphael  acha  que  ela  funciona”,  Simon  disse.  “E  eu  não  tenho  nenhum
motivo  para  pensar  que  isso  não  funcione.”  Ele  pegou  o  pulso  dela  e  o
afastou de seu rosto. “Eu estarei bem, Isabelle.”
Ela suspirou. “Cada pedacinho de meu treinamento diz que isso não é
uma boa ideia.”
Simon  apertou  os  dedos  dela.  “Vamos  lá.  Você  está  curiosa  sobre  o  que
Raphael quer, não está?”
Isabelle  afastou  sua  mão  e  se  endireitou.  “Diga-me  quando  você
voltar. Ligue-me primeiro.”
“Eu irei”, Simon ficou em pé, fechando sua jaqueta. “E você me faria
um favor? Dois favores, na verdade.“
Ela olhou para ele com diversão contida. ”O que?”
“Clary  disse  que  ela  estaria  treinando  no  Instituto  hoje  à  noite.  Se
você  topar  com  ela,  não  diga  aonde  eu  fui.  Ela  ficará  preocupada  sem
motivo.”
Isabelle rolou seus olhos. “Ok, tudo bem. Segundo favor?”
Simon  se  inclinou  e  a  beijou  na  bochecha.  “Experiente  o  borscht
antes de sair. É fantástico.”
Sr. Walker e Sr. Archer não eram companhias das mais falantes. Eles
levaram  Simon  silenciosamente  através  das  ruas  da  Lower  East  Side,
mantendo-
se  vários  passos  a  frente  dele  com  seus  estranhos  passos  deslizantes.
Estava ficando tarde, mas as calçadas da cidade estavam cheias de pessoas
— saindo do turno, se apressando para casa para o jantar, cabeças baixas,
golas levantadas contra o frio vento congelante. Na St. Mark’s Place haviam
mesas  dobráveis  postadas  ao  longo  da  calçada,  vendendo  de  tudo  desde
meias  baratas  e  desenhos  à  lápis  de  Nova  York,  a  incensos  de  sândalo.
Folhas  agitavam-se  no  chão  como  ossos  secos.  O  ar  cheirava  a
escapamento de carro misturado com sândalo, e por baixo disso, o cheiro
dos seres humanos — pele e sangue.
O  estômago  de  Simon  apertou.  Ele  tentava  manter  garrafas  de
sangue  animal  o  suficiente  em  seu  quarto  —  ele  tinha  uma  pequena
geladeira atrás de seu guarda-roupa agora, onde sua mãe não poderia vê-la
— para mantê-lo longe da fome.
O sangue era nojento. Ele tinha achado que se acostumaria a ele, até
mesmo  começou  a  esperar  por  isso, mas  pensar  nisso matava  sua  fome,
não havia nada sobre isso que ele gostasse do modo que ele uma vez tinha
gostado  de  chocolate  ou  burritos  vegetarianos  ou  sorvete  de  café.  Ele
continuava sangue.
Mas  estar  faminto  era  pior.  Estar  faminto  significava  que  ele  podia
sentir o cheiro de coisas que ele não queria cheirar — sal sobre a pele; o
maduro cheiro doce do sangue exalado dos poros de estranhos. Isso o fazia
sentir  fome,  incomodado  e  absolutamente  errado.  Se  encolhendo  para
frente, ele enfiou seus punhos nos bolsos de sua  jaqueta e tentou respirar
pela boca.
Eles  viraram  a  direita  na  Terceira Avenida,  e  pararam  na  frente  de
um  restaurante  cuja  placa  dizia CLOISTER CAFÉ,  JARDIM ABERTO O ANO
TODO. Simon piscou com a placa. “O que nós estamos fazendo aqui?”
“Este é o  lugar de encontro que nosso mestre escolheu.” O  tom do
Sr. Walker foi suave.
“Huh.”  Simon  estava  desconcertado.  “Eu  acharia  que  o  estilo  de
Raphael era mais, você sabe, arranjar encontros no  topo de uma catedral

não consagrada, ou embaixo, em alguma cripta cheia de ossos. Ele nunca
me pareceu do tipo restaurante da moda.”
Ambos  subjugados  olharam  para  ele.  “Há  algum  problema,  Daylighter?”
Perguntou o Sr. Archer, finalmente.
Simon se sentiu obscuramente repreendido. “Não. Sem problema.”
O interior do restaurante estava escuro, com um bar em mármore em
uma  parede.  Nenhum  empregado  ou  garçom  se  aproximaram  deles
enquanto  iam  através  do  salão  para  uma  porta  atrás,  e  através  da  porta
para o jardim.
Muitos  restaurantes de Nova  York  tinham  terraços,  poucos  estavam
abertos  até  tarde  durante  o  ano.  Este  estava  em  um  jardim  entre  vários
prédios.  As  paredes  tinham  sido  pintadas  em  trompe  l’oeil3  mostrando
jardins italianos cheios de flores.
As árvores,  suas  folhas  se  tornado douradas e avermelhadas  com o
outono,  eram  arranjadas  com  correntes  de  luzes  brancas,  e  lâmpadas
incandescentes espalhadas entre as mesas davam um brilho avermelhado.
Uma pequena fonte jorrava musicalmente no centro do jardim.
Apenas uma mesa estava ocupada, e não por Raphael. Uma mulher
esguia em um chapéu de abas  largas sentava-se em uma mesa próxima a
parede.  Enquanto  Simon  observava  espantado,  ela  levantou  uma  mão  e
acenou para ele. Ele  se  virou e olhou atrás dele; havia, é  claro, ninguém
atrás  dele.  Srs.  Walker  e  Archer  começaram  a  se  mover  novamente;
confuso, Simon  os  seguiu  enquanto  eles  cruzavam  o  jardim  e  paravam  a
pouca distância de onde a mulher se sentava.
Walker curvou-se. “Mestre”, ele disse.
A mulher sorriu. “Walker”, ela disse. “E Archer. Muito bem. Obrigada
por trazer Simon até mim.”
“Espere  um  segundo.”  Simon  olhou  da  mulher  para  os  dois
subjugados. “Você não é Raphael.”
“Claro  que  não.”  A  mulher  removeu  seu  chapéu.  Uma  enorme
quantidade  de  cabelo  loiro  prateado,  brilhante  nas  luzes  de  Natal,  se
derramou  sobre  seus  ombros.  Seu  rosto  era  suave,  branco  e  oval, muito
bonito, dominado por enormes olhos verdes claros. Ela usava  longas  luvas
pretas,  uma  blusa  preta  de  seda  e  saia  justa,  e  uma  echarpe  preta
amarrada  ao  redor  de  seu  pescoço.  Era  impossível  dizer  sua  idade —  ou
pelo menos que  idade ela poderia  ter tido quando ela  foi transformada em
um vampiro. “Eu sou Camille Belcourt. Encantada em conhecê-lo.”
Ela estendeu uma mão enluvada.
“Foi me  dito  que  eu  ia me  encontrar  com  Raphael  Santiago  aqui”,
Simon 3 Trompe l’oeil – é uma técnica de pintura realística que dá idéia de
3 dimensões em uma pintura.
disse, não chegando a tomá-la. “Você trabalha para ele?”
Camille Belcourt  riu como uma  fonte agitada.  “Certamente que não!
Embora uma vez ele tenha trabalhado para mim.”
E  Simon  se  lembrou.  Eu  pensei  que  o  chefe  era  outro  alguém,  ele
tinha dito a Raphael uma vez, em Idris, foi como há muito tempo atrás.
Camille  ainda  não  voltou  para  nós,  Raphael  tinha  respondido.  Eu
lidero em seu lugar.
“Você é a  líder dos vampiros”, Simon disse.  “Do clã de Manhattan.”
Ele se virou para os subjulgados. ”Vocês me enganaram. Disseram-me que
eu ia me encontrar com Raphael.”

“Eu  disse  que  você  ia  se  encontrar  com  nosso  mestre.”  Disse  Sr.
Walker.  Seus  olhos  eram  tão  amplos  e  vazios,  tão  vazios  que  Simon  se
perguntou  se  eles  tinham  desejado  realmente  enganá-lo,  ou  eles  eram
simplesmente programados como robôs para dizerem o que quer que seus
mestres dissessem para eles dizer, e inconscientes dos desvios do script. “E
aqui está ela.”
“De  fato.”  Camille  lançou  um  sorriso  brilhante  em  direção  a  seus
subjulgados.  “Por  favor,  nos  deixe, Walker,  Archer.  Eu  preciso  falar  com
Simon  sozinha.”  Houve  algo  no  modo  que  ela  disse  isso —  ambos  seus
nomes, e a palavra “sozinha” — que era como um segredo íntimo.
Os subjulgados se curvaram e se  retiraram. Enquanto Sr. Archer se
virava para se afastar, Simon captou a visão de uma marca no lado de sua
garganta,  um  profundo  hematoma,  tão  escuro  que  parecia  como  pintura,
com  dos  pontos  mais  escuros  dentro  dele.  Os  pontos  escuros  eram
perfurações,  cercadas  com  carne  seca  e  irregular.  Simon  sentiu  um
silencioso estremecer passar através dele.
“Por  favor”, Camille disse, e bateu no assento ao  lado dela.  “Sente-
se. Gostaria de um pouco de vinho?”
Simon se sentou, equilibrando-se desconfortavelmente na beirada da
cadeira dura de metal. “Eu não bebo, na verdade.”
“É claro”, ela disse, simpática. “Você é quase um novato, não é? Não
se preocupe demais. Com o tempo você se treinará a se acostumar a vinho
e outras bebidas. Alguns dos mais velhos de nossa espécie podem consumir
comida humana com poucos efeitos prejudiciais.”
Poucos efeitos prejudiciais? Simon não gostou do som daquilo.  “Isso
vai
levar muito  tempo?” Ele perguntou, olhando nitidamente para  seu  celular,
que dizia a ele que eram mais de dez e meia. “Eu tenho que ir para casa.”
Camille tomou um gole de seu vinho. ”Tem? E por que isso?”
Por que minha mãe está esperando por mim. Ok, não havia motivo
para  esta mulher  precisar  saber  disso.  “Você  interrompeu meu  encontro”,
ele disse. ”Eu estava me perguntando o que era tão importante.”
“Você  ainda mora  com  sua mãe,  não  é?”,  ela  disse,  colocando  seu
copo  abaixo.  “Bem  estranho,  não  é,  um  vampiro  poderoso  como  você  se
recusando a deixar o lar, para se juntar a um clã?”
“Então  você  interrompeu  meu  encontro  para  me  gozar  por  ainda
estar morando com meus pais. Você não podia fazer isso em uma noite que
eu não tivesse um encontro? Na maioria das noites, no caso de você estar
curiosa.”
“Eu não estou  te gozando, Simon.” Ela  correu  sua  língua  sobre  seu
lábio  inferior  como  se  experimentando  o  vinho  que  ela  tinha  acabado  de
beber.  “Eu  quero  saber  por  que  você  não  se  tornou  parte  do  clã  de
Raphael.”
“Que é o mesmo que o seu clã, não é? Eu tenho uma forte sensação
de que ele não me queria como parte dele.” Simon disse. “Ele praticamente
disse que ele me deixaria em paz se eu o deixasse em paz. Então eu tenho
o deixado em paz.”
“Tem”, seus olhos verdes cintilaram.
“Eu  nunca  quis  ser  um  vampiro”,  Simon  disse,  meio  que  se
perguntando  por  que  ele  estava  dizendo  essas  coisas  para  esta  mulher
estranha.  “Eu  quis  uma  vida  normal.  Quando  eu  descobri  que  era  um
Daylighter, eu pensei que eu podia  ter uma. Ou pelo menos um pouco de

uma. Eu posso ir para escola, eu posso morar em casa, eu posso ver minha
mãe e irmã—“
“Desde que você nunca coma na frente deles”, Camille disse. ”Desde
que você esconda sua necessidade de sangue. Você nunca se alimentou em
alguém  puramente  humano,  não  é?  Apenas  sangue  ensacado.  Insípido.
Animal.” Ela torceu seu nariz.
Simon  pensou  em  Jace,  e  afastou  o  pensamento  apressadamente.
Jace não era precisamente humano. “Não.”
“Você  irá. E quando  você o  fizer,  você não  irá  se esquecer.” Ela  se
inclinou para frente, e seu cabelo pálido roçou em sua mão. “Você não pode
esconder seu verdadeiro eu para sempre.”
“Que adolescentes não mentem para seus pais?” Simon disse. ”Aliás,
eu não sei por que você se importa. Na verdade, eu ainda não estou certo
do porque eu estou aqui.”
Camille se inclinou para frente. Quando ela o fez, a gola de sua blusa preta
de seda se abriu. Se Simon ainda fosse humano, ele teria corado. “Você me
deixará vê-la?”
Simon podia sentir seus olhos esbugalharem. ”Ver o que?”
Ela sorriu. ”A Marca, bobinho. A Marca do que Vagueia.”
Simon  abriu  sua  boca,  então  a  fechou  novamente. Como  ela  sabe?
Poucas  pessoas  sabiam  da marca  que Clary  tinha  colocado  nele  em  Idris.
Raphael tinha indicado que este era um assunto de segredo mortal, e Simon
tinha tratado como tal.
Mas os olhos de Camille estavam muito verdes e fixos, e por alguma
razão  ele  queria  fazer  o  que  ela  queria  que  ele  fizesse.  Era  alguma  coisa
sobre o  jeito que ela olhava para ele, alguma coisa na música de sua voz.
Ele  estendeu  e  puxou  seu  cabelo  de  lado,  revelando  sua  testa  para  a
inspeção dela.
Os olhos dela se alargaram, seus  lábios se partiram. Levemente ela
tocou seus dedos em sua garganta, como se checando o pulso  inexistente
lá.
“Oh”, ela disse. “Que sortudo você é, Simon. Quão afortunado.”
“É  uma  maldição”,  ele  disse.  “Não  uma  benção.  Você  sabe  disso,
certo?”
Os  olhos  dela  cintilaram.  “’E  Caim  disse  para  o  Senhor,  minha
punição é maior do que eu posso suportar’.  Isso é mais do que você pode
suportar, Simon?”
Simon se empertigou, deixando seu cabelo cair de volta no lugar. “Eu
posso suportar isso.”
“Mas você não quer.” Ela correu um dedo enluvado em torno da beira
de sua taça, seus olhos ainda fixos nele. “E se eu pudesse oferecer a você
um  modo  de  tornar  o  que  você  considera  como  uma  maldição  em  uma
vantagem?”
Eu diria que você está  finalmente dando a  razão que me  trouxe até
aqui, o que é um começo. “Estou escutando.”
“Você  reconheceu  meu  nome  quando  eu  o  disse  a  você”,  Camille
disse. “Raphael me mencionou antes, não é?” Ela tinha um sotaque, muito
leve, que Simon não podia ao certo reconhecer.
“Ele disse que você era a chefe do clã e ele era só estava  liderando
enquanto
você estava fora. Te substituindo como — como um vice-presidente ou algo
assim.”

“Ah!” Ela mordeu gentilmente seu lábio inferior. “Isso é, de fato, não
inteiramente a verdade. Eu gostaria de dizer a você a verdade, Simon. Eu
gostaria de te fazer uma oferta. Mas primeiro eu preciso ter sua palavra em
uma coisa.”
“E o que é?”
“Que  tudo que  se passar entre nós esta noite, aqui, permaneça um
segredo.  Ninguém  pode  saber.  Nem  sua  amiguinha  ruiva,  Clary.  Nem
igualmente suas jovens amigas. Nenhum dos Lightwoods. Ninguém.”
Simon se empertigou. “E se eu não quiser prometer?”
“Então você deve partir, se você quiser”, ela disse. “Mas você nunca
saberá o que eu desejo  falar a você. E essa será uma perda que você  irá
lamentar.”
“Eu  estou  curioso”,  Simon  disse.  ”Mas  eu  não  estou  certo  de  que
estou tão curioso.”
Os olhos dela capturaram um pequeno cintilar de surpresa e diversão
e  talvez, Simon pensou, até mesmo um pouco de  respeito.  “Nada que eu
tenho a dizer a você se refere a eles. Não afetará a segurança deles, ou de
seu bem-estar. O segredo é para a minha própria proteção.”
Simon olhou para ela com suspeita. O que ela quis dizer? Vampiros
não eram  como  fadas, que não podiam mentir. Mas ele  tinha que admitir
que ele estava curioso. ”Tudo bem. Eu guardarei seu segredo, a menos que
eu  ache  que  alguma  coisa  que  você  diga  está  pondo  meus  amigos  em
perigo. Os dados estão lançados.”
O sorriso dela  foi gelado; ele podia dizer que ela não gostou de ser
desacreditada.  “Muito  bem”,  ela  disse.  ”Eu  suponho  que  eu  tenho  pouca
escolha quando eu preciso tanto de sua ajuda.” Ela se inclinou para frente,
uma mão esguia brincando com a haste de sua taça. “Até bem recente eu
liderei o clã de Manhattan,  feliz. Nós  tínhamos belos quartos em um velho
prédio pré-guerra na Upper West Side, não aquele buraco de rato de hotel
que Santiago mantém meu povo agora. Santiago — Raphael, como você o
chama — era meu segundo em comando. Meu companheiro mais leal — ou
como  eu  pensava.  Uma  noite  eu  descobri  que  ele  estava  assassinando
humanos,  os  direcionando  a  aquele  velho  hotel  no  Harlem  Espanhol  e
bebendo  o  sangue  deles  para  sua  diversão.  Deixando  seus  ossos  na
Dumpster.  Tomando  estúpidos  riscos,  quebrando  a  Lei  dos  Acordos.”  Ela
tomou  um  gole  de  vinho.  “Quando  eu  fui  até  ele  para  confrontá-lo,  eu
percebi  que  ele  tinha  dito  ao  resto  do  clã  que  eu  era  a  assassina,  a  que
quebrou  a  lei.  Foi  tudo  um  arranjo.  Ele  quis me matar,  que  com  isso  ele
poderia  aumentar  o  poder.  Eu  fugi  com  apenas Walker  e Archer  para me
manterem segura.”
“Então  todo esse  tempo ele alega que ele está apenas  liderando até
que você retorne?”
Ela  fez uma  careta.  “Santiago é um mentiroso  talentoso. Ele deseja
que eu volte, isso é certo — então ele pode me matar e assumir o comando
do clã a sério.”
Simon  não  tinha  certeza  do  que  ela  queria  ouvir.  Ele  não  estava
acostumado  a  mulheres  adultas  olhando  para  ele  com  olhos  cheios  de
lágrimas, ou derramando suas histórias de vida para ele.
“Eu lamento”, ele disse finalmente.
Ela deu de ombros, um expressivo encolher de ombros que fez ele se
perguntar  se  talvez  o  sotaque  dela  fosse  francês.  “Isso  é  passado”,  ela
disse. “Eu tenho estado escondida em Londres todo esse tempo, procurando

por  aliados,  aguardando  a minha  hora.  Então  eu  ouvi  falar  de  você.”  Ela
levantou  uma  mão.  “Eu  não  posso  te  dizer  como;  eu  estou  ligada  por
segredo. Mas  no momento  que  eu  fiz  eu  percebi  que  você  era  o  que  eu
tinha estado esperando.”
“Eu era? Eu sou?”
Ela  se  inclinou a  frente e  tocou a mão dele,  ”Raphael  tem medo de
você,  Simon,  como  ele  deveria.  Você  é  um  da  própria  espécie  dele,  um
vampiro, mas você não pode ser ferido ou morto, ele não pode levantar um
dedo contra você sem trazer a ira de Deus sobre sua cabeça.”
Houve um  silêncio. Simon podia ouvir o  suave  zumbido elétrico das
luzes de Natal acima, a água chapinhando na  fonte de pedra no centro do
jardim, o  zumbido e  ruído da  cidade. Quando ele  falou  sua voz  foi  suave.
“Você disse.”
“O que foi, Simon?”
“A  palavra. A  ira  de—“ A  palavra mordeu  e  queimou  em  sua  boca,
como ela sempre fazia.
“Sim. Deus.” Ela retraiu sua mão, mas seus olhos eram cálidos. “Há
muitos  segredos de nossa espécie,  tantos que eu posso  contar a  você,  te
mostrar. Você aprenderá que você não é amaldiçoado.”
“Senhora —“
“Camille. Você deve me chamar de Camille.”
“Eu ainda não entendo o que você quer de mim.”
“Não?” Ela sacudiu a cabeça, e seu cabelo brilhante voou em torno de
seu  rosto.  “Eu  quero  que  você  se  junte  a mim,  Simon.  Junte-se  a mim
contra  Santiago.  Nós  iremos  juntos  a  seu  hotel  infestado  de  ratos,  no
momento que seus seguidores virem que você está comigo, eles o deixarão
e virão a mim. Eu acredito que eles são leais a mim sob o temor dele. Uma
vez que eles nos verem  juntos, este medo desaparecerá, e eles virão para
nosso lado. O homem não podem contender com o divino.”
“Eu não sei”, Simon disse. ”Na Bíblia, Jacó  lutou com um anjo e ele
venceu.  “Camille olhou para ele com suas sobrancelhas  levantadas, Simon
deu de ombros. “Escola hebraica.”
“E Jacó chamou o lugar de Peniel: pois eu vi Deus face a face.’ Veja,
você não é o único que conhece sua escritura.“ Seu olhar estreito se foi, e
ela estava sorrindo. “Você pode não notar, Daylighter, mas enquanto você
carregar  a  Marca,  você  é  o  braço  vingador  dos  céus.  Ninguém  pode  se
colocar perante você. Certamente não um vampiro.”
“Você tem medo de mim?” Simon perguntou.
Ele ficou quase instantaneamente arrependido que ele tivesse feito a
pergunta. Seus olhos verdes escureceram como nuvens tempestuosas. “Eu,
com medo  de  você?”  Então  ela  se  recuperou,  seu  rosto  suavizando,  sua
expressão  iluminando.  “É  claro  que  não“,  ela  disse.  “Você  é  um  homem
inteligente.  Eu  estou  convencida  que  você  verá  a  sensatez  de  minha
proposta e se juntará a mim.”
“E  o  que  exatamente  é  a  sua  proposta? Quero  dizer,  eu  entendo  a
parte  onde  nós  enfrentamos  Raphael, mas  depois  disso?  Eu  não  odeio  a
Raphael realmente, ou quero me  livrar dele apenas por  livrar dele. Ele me
deixou em paz. Isso é tudo que eu queria.”
Ela  dobrou  suas mãos  juntas  na  frente  dela.  Ela  usava  um  anel  de  prata
com uma pedra azul em seu dedo esquerdo do meio, sobre o material de
sua  luva.  “Você  acha  que  é  isso  o  que  eu  quero,  Simon.  Você  acha  que
Raphael está  fazendo a você um  favor em deixar você em paz, como você

colocou isso. Na realidade ele está exilando você. Agora mesmo você pensa
que  não  precisa  de  outros  de  sua  espécie.  Você  está  satisfeito  com  os
amigos  que  você  tem  —  humanos  e  Caçadores  de  Sombras.  Você  está
satisfeito  em  esconder  suas  garrafas  de  sangue  em  seu  quarto  e mentir
para sua mãe sobre o que você é.”
“Como você—“
Ela  continuou,  o  ignorando.  “Mas  e  quanto  à  daqui  a  dez  anos,
quando  você  irá  ter  vinte  e  seis?  Em  vinte  anos?  Trinta?  Você  acha  que
ninguém vai notar que enquanto eles envelhecem e mudam, você não?”
Simon  não  disse  nada.  Ele  não  queria  admitir  que  ele  não  tivesse
pensado em tão longe. Que ele não queria pensar a frente tão longe.
“Raphael  lhe  ensinou  que  os  outros  vampiros  são  perniciosos  para
você. Mas não precisa ser desse jeito. A eternidade é um tempo longo para
passar sozinho, sem outros de sua espécie. Outros que compreendam. Você
é  amigo  de  Caçadores  de  Sombras, mas  você  nunca  pode  ser  um  deles.
Você sempre será o de fora. Conosco você pode pertencer.“ Enquanto ela se
inclinava  a  frente,  luz  branca  cintilou  de  seu  anel,  picando  os  olhos  de
Simon.  “Nós  temos  centenas  de  anos  de  conhecimento  que  nós  podemos
compartilhar  com  você,  Simon.  Você  pode  aprender  a  como  guardar  seu
segredo;  como  comer  e  beber,  como  falar  o  nome  de Deus. Raphael  tem
cruelmente escondido esta informação de você, até mesmo levando você a
acreditar que ela não existe. Existe. Eu posso te ajudar.”
“Se eu primeiro te ajudar.” Simon disse.
Ela  sorriu,  e  seus  dentes  eram  brancos e  afiados.  “Nós  ajudaremos
um ao outro.”
Simon  se  inclinou  de  volta.  A  cadeira  de  ferro  era  dura  e
desconfortável,  e  ele  de  repente  se  sentiu  cansado.  Olhando  para  suas
mãos, ele podia ver que as veias tinham escurecido, rastejando através das
costas  de  suas  juntas.  Ele  precisava  de  sangue.  Ele  precisava  falar  com
Clary. Ele precisava de tempo para pensar.
“Eu te assustei”, ela disse. “Eu sei. Isso é muito a se lidar. Eu ficaria
feliz
em  dar  a  você  tanto  tempo  quanto  você  precisa  para  ajustar  suas  ideias
sobre isso, e sobre mim. Mas eu não tenho tanto tempo, Simon. Enquanto
eu permanecer nesta cidade, eu estou em perigo por Raphael e seu bando.”
“Bando?” Apesar de tudo, Simon sorriu levemente.
Camille pareceu perplexa. ”Sim?“
“Bem, é só que... ’bando’. É como dizer ‘malfeitores’ ou ‘lacaios’.” Ela
olhou  para  ele  inexpressivamente.  Simon  suspirou.  “Desculpe.
Provavelmente  você  não  tem  assistido  a  tantos  filmes  ruins  quanto  eu
tenho.”
Camille  franziu  a  testa  levemente,  uma  linha  fina  aparecendo  entre
suas  sobrancelhas.  “Eu  diria  que  você é  ligeiramente  peculiar.  Talvez  isso
seja  por  que  eu  não  conheço muitos  vampiros  de  sua  geração. Mas  será
bom para mim. Eu sinto ao estar com alguém tão... jovem.”
“Sangue novo”. Simon disse.
Com aquilo ela sorriu.  “Você está pronto, então? Para aceitar minha
oferta? Para começarmos a trabalhar juntos?”
Simon olhou para o céu. Os  fios das  luzes brancas pareciam apagar
as  estrelas.  “Olhe”,  ele  disse.  “Eu  aprecio  a  sua  oferta.  Eu  realmente
aprecio.” Merda, ele pensou. Tinha que haver algum jeito de dizer isso sem
ele  soasse  como  se ele estivesse  recusando um encontro para o baile. Eu

estou  realmente,  realmente  lisonjeado  de  você me  pedir, mas...  Camille,
como  Raphael,  sempre  falava  rigidamente,  formalmente,  como  se  ela
estivesse em um conto de fadas. Talvez ele pudesse tentar aquilo. Ele disse.
”Eu necessito de algum tempo para dar minha decisão. Eu estou certo que
você pode entender.”
Muito  delicadamente,  ela  sorriu,  mostrando  só  as  pontas  de  suas
presas.  “Cinco  dias”,  ela  disse.  ”E  não  mais.”  Ele  estendeu  sua  mão
enluvada para ele. Algo brilhou em sua palma. Era um pequeno  frasco de
vidro, do tamanho que podia manter uma amostra de perfume, só que ele
parecia estar cheio de pó amarronzado. “Terra de sepultura.” Ela explicou.
”Esmague isso, e eu saberei que você está me chamando. Se você não me
chamar em cinco dias, eu enviarei Walker para sua resposta.”
Simon tomou o frasco e o deslizou para dentro de seu bolso. ”E se a
resposta for não?”
“Então  eu  ficarei  desapontada.  Mas  nos  separaremos  amigos.”  Ela
afastou sua taça. “Adeus, Simon.”
Simon se levantou. A cadeira fez um esguicho metálico enquanto ela
se arrastava no chão, muito alto. Ele sentiu que devia dizer algo mais, mas
ele  não  tinha  ideia  do  que.  No  momento,  entretanto,  ele  pareceu  estar
dispensado.
Ele  decidiu  que  preferia  parecer  como  um  daqueles  estranhos
vampiros modernos  com péssimas maneiras do que arriscar  ser arrastado
de volta a conversa. Ele saiu sem dizer nada mais.
Em  seu  caminho  através  do  restaurante,  ele  passou  por Walker  e
Archer,  que  estavam  em  pé  no  grande  bar,  seus  ombros  encurvados
embaixo de  seus  longos  casacos  cinza. Ele  sentiu a  força de  seus olhares
sobre ele enquanto caminhava e acenou seus dedos para eles — um gesto
em algum lugar entre um aceno amistoso e um despachar. Archer mostrou
seus dentes — dentes humanos planos – e saiu a passos largos em direção
ao  jardim,  Walker  em  seus  calcanhares.  Simon  observou  enquanto  eles
tomavam seus lugares nas cadeiras do outro lado de Camille; ela não olhou
acima  enquanto  eles  se  sentavam,  mas  as  luzes  brancas  que  tinham
iluminado  o  jardim  se  apagaram  de  repente  —  não  uma  por  uma,  mas
todas  ao  mesmo  tempo  —  deixando  Simon  olhando  para  uma
desorientadora  área  de  escuridão,  como  se  alguém  tivesse  apagado  as
estrelas. No momento que os garçons notaram e se apressaram afora, para
corrigir  o  problema,  inundando  o  jardim  com  a  pálida  luz mais  uma  vez,
Camille e seus subjugados tinham desaparecido. ????
Simon destrancou a porta da frente de sua casa — uma de uma longa
fileira de  idênticas casas de tijolos que se alinhavam em seu quarteirão no
Brooklyn — e a empurrou levemente, ouvindo cuidadosamente.
Ele  tinha dito para sua mãe que ele estava  indo ensaiar com Erik e
seus  outros  colegas  de  banda  para  uma  apresentação  no  Sábado.  Havia
sido há muito tempo quando ela simplesmente teria acreditado nele, e que
teria sido assim; Elaine Lewis sempre tinha sido uma mãe tranquila, nunca
impondo um  toque de recolher nem a Simon ou em sua  irmã ou  insistisse
que  eles  estivessem  cedo  em  casa  em  dias  de  escola.  Simon  estava
acostumado a ficar fora até altas horas com Clary, se deixando ficar com a
chave, e caindo na cama às duas da manhã, comportamento que não tinha
levantado muitos comentários de sua mãe.
As coisas eram diferentes agora. Ele tinha estado em Idris, o lar dos
Caçadores de Sombras, por quase duas semanas. Ele tinha desaparecido de

casa, sem chance de oferecer uma desculpa ou explicação. O bruxo Magnus
Bane tinha entrado em cena e executado um feitiço de memória na mãe de
Simon,  que  com  isso  ela  não  teria  nenhuma  lembrança  de  que  ele  tinha
estado  faltando.  Ou  pelo  menos,  não  uma  lembrança  consciente.
Entretanto, o comportamento dela tinha mudado. Ela estava suspeita agora,
ao  redor,  sempre  o  observando,  insistindo  que  ele  estivesse  em  casa  em
certas horas. A última vez ele  tinha vindo para  casa de um encontro  com
Maia,  ele  tinha  encontrado  Elaine  no  saguão,  sentada  em  uma  cadeira
encarando a porta, seus braços cruzados sobre seu peito e um olhar de mau
disfarçando a raiva em seu rosto.
Aquela noite, ele tinha sido capaz de escutá-la respirando antes que
ele tivesse a visto. Agora ele podia ouvir o  leve som da televisão vindo da
sala de estar. Ela devia estar esperando por ele, provavelmente assistindo a
maratona  de  uma  daqueles  dramas  de  hospital  que  ela  amava.  Simon
fechou  a  porta  atrás  dele  e  se  inclinou  contra  ela,  tentando  encontrar
energia para mentir.
Era difícil o suficiente não comer ao redor de sua família. Felizmente
sua mãe ia trabalhar cedo e voltava tarde, e Rebecca que ia para faculdade
em  Nova  Jersey  e  só  vinha  para  casa  ocasionalmente  para  fazer  sua
lavagem de  roupas, não estava ao  redor  frequentemente o suficiente para
notar nada estranho. Sua mãe estava geralmente  fora de manhã na hora
que ele se levantava, o café e o almoço que ela adorava preparar para ele,
deixado  sobre  o  balcão  da  cozinha.  Ele  o  despejava  em  uma  lixeira  a
caminho da escola. O jantar era pior. Nas noites que ela estava lá, ele tinha
que  empurrar  a  comida  ao  redor  de  seu  prato,  fingir  que  ele  não  estava
com  fome ou que ele queria  levar  sua  comida para  seu quarto, então ele
podia comer enquanto estudava.
Uma ou duas  vezes ele  tinha  forçado a  comida  para baixo,  só para
fazê-la  feliz, e depois passava horas no banheiro, suando e vomitando até
que ela estivesse fora de seu sistema.
Ele odiava  ter que mentir para ela. Ele  sempre  tinha  se  sentido um
pouco triste por Clary, com seu relacionamento atormentado com Jocelyn, a
mais superprotetora mãe que ele  tinha conhecido. Agora, o sapato estava
calçado em outro pé. Desde a morte de Valentine, a contenção de Jocelyn
sobre Clary  tinha  relaxado  ao  ponto  onde  ela  era  praticamente  uma mãe
normal. Entretanto, sempre que Simon estava em casa, ele podia sentir o
peso do olhar de sua mãe sobre ele, como uma acusação onde quer que ele
fosse.
Endireitando seus ombros, ele  largou sua mochila na porta e seguiu
para  a  sala  de  estar  para  enfrentar  a  ladainha.  A  Tv  estava  ligada,  as
notícias  proclamando.  O  anunciante  local  estava  reportando  uma
interessante  história  humana —  um  bebê  descoberto  abandonado  em  um
beco  atrás  de  um  hospital.  Simon  estava  surpreso;  sua  mãe  odiava  o
noticiário.  Ela  o  achava  depressivo.  Ele  olhou  em  direção  ao  sofá,  e  sua
surpresa diminuiu. Sua mãe estava dormindo, seus óculos sobre a mesa ao
lado dela, um copo meio vazio no chão. Simon podia sentir o cheiro dali —
provavelmente whisky. Simon sentiu angústia. Sua mãe dificilmente bebia.
Simon  foi  para  o  quarto  de  sua mãe  e  voltou  com  um  cobertor  de
crochê. Sua mãe ainda estava dormindo,  sua  respiração  lenta e  contínua.
Elaine  Lewis  era  uma  mulher  pequena,  com  um  halo  de  cabelo  escuro
cacheado,  listrado  de  cinza  que  ela  se  recusava  a  tingir.  Ela  trabalhava
durante o dia para uma ONG ambiental, e a maioria de suas roupas tinham

motivos animal nelas. Agora mesmo ela estava vestindo um vestido tingido
com golfinhos e ondas, e um broche que havia sido uma vez um peixe vivo,
embebido  em  resina.  Seu  olho  envernizado  parecia  encarar  Simon
acusadoramente enquanto ele se  inclinava para enfiar o cobertor ao  redor
dos ombros dela.
Ela se moveu, em um espasmo, virando sua cabeça para longe dele.
“Simon”, ela sussurrou. “Simon, onde você está?”
Ferido,  Simon  soltou  o  cobertor  e  ficou  em  pé.  Talvez  ele  devesse
acordá-la, deixá-la saber que ele estava bem. Mas então haveria perguntas
que ele não queria responder e aquele olhar no rosto dela que ela não podia
suportar. Ele se virou e foi para seu quarto.
Ele tinha se jogado sobre as cobertas e agarrado o telefone em sua mesa ao
lado da cama, prestes a ligar o número de Clary, antes que ele até mesmo
pensasse  sobre  isso.  Ele  hesitou  por  um momento,  escutando  o  tom  de
discagem. Ele não podia  falar sobre Camille; ele tinha prometido manter a
oferta  da  vampira  em  segredo,  e  embora Simon  não  se  sentisse  que  não
devia muito  a  Camille,  se  houve  uma  coisa  que  ele  tinha  aprendido  dos
últimos meses, era que renegar promessas  feitas a criaturas sobrenaturais
era uma má  ideia. Ainda assim, ele queria ouvir a voz da Clary, do modo
que ele sempre fazia quando ele tinha um dia difícil. Bem, havia sempre as
queixas  dele  sobre  sua  vida  amorosa;  que  pareciam  diverti-la  no  final.
Rolando  na  cama,  ele  puxou  um  travesseiro  por  cima  de  sua  cabeça  e
discou o número da Clary.
  

Nenhum comentário:

Postar um comentário