4 – Um cuco no ninho
“Suco de laranja, melado, ovos, fora da validade – pela data - porém tem alguma coisa que parece com
alface.”
“Alface?” Clary espreitou por cima do ombro de Simon dentro da geladeira. “Ah, tem mussarela.”
Simon estremeceu e chutou a porta da geladeira de Luke a fechando. “Peço uma pizza?”
“Eu já pedi,” Luke disse, vindo para a cozinha com o telefone sem fio na mão. “ Uma grande pizza
vegetariana e três cocas. E eu liguei para o Hospital, “ ele acrescentou, pendurado o telefone acima. “Não há
nenhuma mudança com Jocelyn.”
“Ah,” Clary disse. Ela se sentou na mesa de madeira da cozinha de Luke. Normalmente, Luke era muito
organizado, mas no momento a mesa estava coberta com correspondência fechada e pilhas de pratos sujos.
O pano de prato verde de Luke estava pendurado na parte de trás da cadeia. Ela sabia, que ela deveria estar
ajudando na limpeza, mas ultimamente ela só não tinha energia. A cozinha de Luke era pequena e um pouco
desbotada – nos melhores dias, ele não era muito cozinheiro, tal fato era evidenciado pelo fato de que o
armário de temperos que pendia sobre o antiguado fogão a gás estava vazio de especiarias. Em vez disso,
ele o usava para pendurar as caixas de café e chá.
Simon se sentou ao lado dela enquanto Luke retirava os pratos sujos da mesa e colocava eles dentro da pia.
“Você está bem?” ele perguntou em voz baixa.
“Estou bem,” Clary manobrou um sorriso. “eu não esperava que minha mãe acordasse hoje, Simon. Eu
tenho a sensação de que ela está esperando alguma coisa.”
“Você sabe o quê?”
“Não, Só que alguma coisa está faltando,” Ela olhou acima para Luke, mas ele estava envolvido em uma
vigorosa limpeza de pratos na pia. “Ou alguém.”
Simon olhou para ela incredulamente,e então deu de ombros. “Isso soa como se o que aconteceu no
Instituto foi muito intenso.”
Clary balançou seus ombros. “A mãe de Alec e Isabelle é assustadora.
“Qual é mesmo o nome dela?”
“May-ris,” Clary disse, copiando a pronúncia de Luke.
“É um antigo nome de Caçador de Sombras. “Luke secou suas mãos em um pano de prato.
“E Jace decidiu ficar lá e lidar com esta Inquiridora? Ele não quis sair? Simon disse.
“É o que ele tem que fazer se ele quer uma vida como um Caçador de Sombras,” Luke disse. “ E, sendo
assim, um dos Nephilim – isso significa tudo para ele. Eu conheci outros Caçadores de Sombras como ele,
de volta à Idris. Se eu tirasse isso para longe dele...”
A costumeira estridente campainha soou. Luke jogou o pano de prato no balcão. “Eu já volto.”
Tão logo ele se foi da cozinha, Simon disse, “ É realmente estranho pensar em Luke como alguém que uma
vez foi um Caçador de Sombras. Mais estranho do que pensar nele como uma lobisomem.
“Sério? Porque?”
Simon encolheu os ombros. “Eu já tinha ouvido falar de lobisomens antes. Eles são uma espécie de
elemento conhecido. Então, ele se transforma em lobo, uma vez por mês, e pronto. Mas essa coisa de
Caçador de Sombras ... eles são como um culto.”
“Eles não são como um culto.”
“É claro que são. Ser Caçador de Sombras é sua vida inteira. E eles menosprezam todos os outros. Nos
chamam de mundanos. Como se eles não fossem humanos. Eles não tem amizade com pessoas comuns,
eles não vão aos mesmos lugares, eles não sabem nem mesmo as mesmas piadas, eles pensam que estão
acima de nós.” Simon arrastou uma perna para cima e torceu a desgastada borda do buraco no joelho de seu
jeans. 'Eu conheci outro lobisomem hoje.”
“Não me diga que você saiu com Freaky Pete no Caçador da Lua.” Havia uma sensação desconfortável no
buraco do seu estômago, mas ela não podia dizer exatamente o que estava causando isso. Provavelmente um
estresse flutuando livremente.
“Não. Era uma garota,” Simon disse. “Da nossa idade. Se chama Maia.”
“Maia?” Luke estava de volta a cozinha carregando uma caixa quadrada de pizza. Ele a largou sobre a mesa
e Clary se aproximou para botar ela aberta. O cheiro quente da massa, molho de tomate e queijo a lembrou
que ela estava faminta. Ela arrancou um pedaço, não esperando que Luke escorregasse o prato através da
mesa para ela. Ele se sentou com um sorriso, balançando sua cabeça.
“Maia é uma do bando, certo?” Simon perguntou, pegando um pedaço para si mesmo.
“Luke concordou. “Claro. Ela é uma boa garota. Eu tive ela por aqui algumas vezes, olhando a livraria
enquanto eu ia ao Hospital. Ela me deixa lhe pagar com livros.
Simon olhou para Luke por cima da sua pizza. “Você está com pouco dinheiro?”
Luke encolheu os ombros. “Dinheiro nunca foi importante para mim, e o bando procura ter o seu próprio.
Clary disse, “ Minha mãe sempre disse que quando nós estávamos com pouco dinheiro ela vendia alguma
das ações de meu pai. Mas desde que o cara que eu pensava que era meu pai, não era meu pai, eu duvido que
Valentine tinha alguma ação...”
“Sua mãe estava vendendo suas jóias, pouco a pouco,” Luke disse. “Valentine tinha dado a ela algumas das
peças de sua família, jóias que haviam estado com os Morgenstens por gerações. Mesmo uma pequena peça
alcançava um preço elevado em leilão.” Ele suspirou. “ Elas se foram agora – Valentine pode ter recuperado
elas dos destroços do seu antigo apartamento.”
“Bem, eu espero que tenha dado a ela alguma satisfação,” Simon disse. “Vendendo as coisas dele desse
jeito.” Ele pegou um terceiro pedaço de pizza. Era realmente incrível, Clary pensou, o quanto os garotos
adolescentes eram capazes de comer sem ganhar peso ou ficarem doentes.
“Deve ser estranho para você, “ ela disse para Luke. “Ver Maryse Lightwood daquele jeito, depois de tanto
tempo.”
“Não precisamente estranho. Maryse não está diferente agora do que ela era, então, na verdade, ela está mais
do que nunca como ela mesma, se isso faz sentido.”
Clary pensou que sim. O modo como Maryse tinha a olhado, relembrou a ela a menina esguia na foto que
Hodge tinha dado a ela, a com o altivo queixo inclinado. “Como você acha que ela se sentiu sobre você? Ela
perguntou. “Você realmente acha que eles esperavam que você estivesse morto?”
Luke sorriu. “ Talvez não por ódio, não, mas teria sido mais conveniente e menos confuso para eles, se eu
tivesse morrido, certamente. Que eu não apenas esteja vivo, mas um líder de um bando do centro da cidade,
não pode ser algo que eles esperavam. É o trabalho deles, afinal, manter a paz entre os Downworlders – e
aqui estou eu, com uma história com eles e muitas razões para querer uma vingança. Eles vão estar
preocupados. Eu sou um curinga.”
“Você é? Simon perguntou. Eles estavam empanturrados de pizza, então ele se aproximou, sem olhar, e
mordiscou as crostas. Ele sabia que ela odiava a crosta. “ Um curinga, eu quero dizer.”
“Não há nada de selvagem em mim. Estou impassível. Meia idade.”
“Exceto que uma vez pro mês você se transformar em lobisomem e sai em disparada massacrando coisas,”
Clary disse.
“Poderia ser pior,” Luke disse. “Homens da minha idade são conhecidos por comprar carros esportivos caros
e dormir com supermodelos.”
“Você está apenas com trinta e oito,” Simon apontou. “ isso não é meia-idade.”
“Obrigado, Simon, eu aprecio isso.” Luke abriu a caixa de pizza, a encontrando vazia, a fechando com um
suspiro. “Apesar de você ter comido toda a pizza.”
“Eu só peguei cinco pedaços,” Simon protestou, inclinando sua cadeia para trás, tanto que ela equilibrou ele
precariamente sobre suas duas pernas.
“Quantas fatias você pensa que há em uma pizza, idiota?” Clary quis saber.
“Menos de cinco fatias não é uma refeição. É um lanche.” Simon olhou apreensivamente para Luke. “ Isso
significa que você vai virar um lobo e vai me comer?”
“Certamente que não” Luke se levantou e arremessou a caixa de pizza na lixeira. “ Você seria pegajoso e
difícil de engolir.”
“Mas kosher*”, Simon apontou agradavelmente.
*N/T: Kosher – tipo de comida judaica, muito cara, carne macia.
“Eu vou me assegurar de apontar qualquer licantropo judeu do seu caminho.” Luke inclinou suas costas
contra a pia. “ Mas para responder a sua pergunta anterior, Clary, foi estranho ver Maryse Lightwood, mas
não por causa dela. Foi o ambiente. O Instituto me lembrou muito do Salão dos Acordos em Idris – eu pude
sentir a força das runas do Livro Cinza ao meu redor, após quinze anos tentando esquecer sobre elas.”
“Você tenta?” Clary perguntou. “Consegue esquecer elas?”
“Há coisas que você nunca se esquece. As runas do Livro são mais do que ilustrações. Elas se tornam parte
de você. Parte de sua pele. Ser uma Caçador de Sombras nunca deixa você. É um dom que é transportado
em seu sangue, e você não pode mais alterá-lo, do que você pode mudar seu tipo sanguíneo.”
“Eu estava pensando,” Clary disse, “ se talvez eu devesse ter algumas Marcas em mim mesma.”
Simon deixou cair a crosta de pizza que ele estava mordiscando. “Você está brincando.”
“Não, eu não estou. Por que eu iria brincar com algo assim? E por que eu não posso ter algumas Marcas? Eu
sou uma Caçadora de Sombras. Eu tenho que ter tanta proteção que eu puder.”
“Proteção de que?” Simon protestou, inclinando a frente, então as pernas da frente da cadeira bateram no
chão com um estrondo. “ Eu pensei que tudo isso de caçar sombras estivesse acabado. Eu pensei que você
estava tentando ter uma vida normal.”
O tom de Luke era leve. “ Eu não tenho certeza se tal coisa é como uma vida normal.”
Clary olhou para baixo em seu braço, onde Jace tinha desenhado uma única marca que ela recebeu. Ela
ainda podia a ver como um rendilhado branco traçado, que foi deixado para trás, mais uma memória do que
uma cicatriz. “Claro que eu quero ficar longe do sobrenatural. Mas e se o sobrenatural vier atrás de mim? E
se eu não tiver escolha?”
“Ou talvez você não queira ficar longe do que é sobrenatural” Simon murmurou. “Não enquanto Jace
continuar envolvido com isso, de qualquer maneira.”
Luke limpou sua garganta. “ A maioria dos Nephilim passam por níveis de treinamento antes de receber suas
marcas. Eu não recomendaria ter nenhuma até que você tivesse concluído alguma instrução. E se você
ainda quiser fazer isso é com você, naturalmente. Contudo, há algo que você dever ter. Algo que todo
Caçador de Sombras deve ter.
“Um obnóxio, com atitude arrogante?” Simon disse.
“Uma estela,” Luke disse. “Todo Caçador de Sombras deve ter uma estela.”
“Você tem uma?” Clary perguntou, surpresa.
Sem responder, Luke saiu da cozinha. Ele estava de volta em poucos minutos, segurando um objeto envolto
em um tecido preto. Colocando o objeto sobre a mesa, ele desenrolou o pano, revelando um reluzente
instrumento como uma varinha, feito de um pálido e opaco cristal. Uma estela.
“Linda.” Clary disse.
“Eu estou feliz que você ache isso.” Luke disse. “porque eu quero que você a tenha.”
“ Minha?” Ela olhou para ele com espanto. “ Mas é sua, não é?”
Ele balançou sua cabeça. “ Esta era de sua mãe. Ela não queria mantê-la no apartamento, caso você cruzasse
com ela, então ela me pediu para guardar isso para ela. ”
Clary pegou a estela. Ela parecia fria ao toque, embora ela sabia que aquilo tinha um brilho quente quando
utilizada. Era um objeto estranho, não muito curto o suficiente para ser facilmente manipulado como uma
ferramenta. Ela supôs que o estranho tamanho era só algo que você se acostumava com o tempo.
“Eu posso ficar com ela?”
“Claro. É um velho modelo, é claro, de quase vinte anos atrás. Eles podem ter refinado desde então os
desenhos. Mesmo assim, ela é confiável o suficiente.”
Simon olhou enquanto ela segurava a estela como um regente, traçando invisíveis e suaves desenhos no ar
entre eles. “ Este tipo me faz lembrar o tempo em que meu avô meu deu um velho taco de golfe.”
Clary riu e baixou a sua mão. “Sim, exceto que você nunca o usou.”
“E eu espero que você nunca tenha que usar isso.” Simon disse, e olhou rapidamente para longe antes que
ela pudesse responder.
A fumaça subiu vindas das Marcas em espiral e ele sentiu o cheiro de sua própria pele queimando. Seu pai
estava sobre ele com a estela, a sua ponta reluzindo vermelha como a ponta de um atiçador que ficou muito
tempo deixada no fogo.
“Feche seus olhos, Jonathan,” ele disse. “A dor é apenas o que você permitir que ela seja.” Mas a mão de
Jace curvou em si mesma, com relutância, enquanto sua pele estava sofrendo, retorcendo para se afastar da
estela. Ele ouviu um estalo como se um osso quebrasse em sua mão, e depois outro...
Jace abriu os olhos e piscou na escuridão, a voz de seu pai sumindo como fumaça subindo ao vento. Ele
provou a dor, metálica em sua língua. Ele tinha mordido o interior do seu lábio. Ele se sentou, piscando.
O estalo veio novamente, e involuntariamente ele olhou para sua mão. Ela estava sem marca. Ele percebeu
que o som vinha do lado de fora do quarto. Alguem batendo, embora hesitantemente, na porta.
Ele rolou da cama, estremecendo quando seus pés descalços encontraram o chão frio. Ele tinha adormecido
com suas roupas e então olhou abaixo com desgosto para sua camisa amarrotada. Ele provavelmente ainda
cheirava como um lobo. E ainda estava todo dolorido.
A batida veio novamente. Jace caminhou pelo quarto e colocou ela aberta. Ele piscou em surpresa. “Alec?”
As mãos de Alec estavam nos bolsos de seus jeans, conscientemente, os ombros encolhidos. “Desculpe, é
muito cedo. Mamãe me mandou te chamar. Ela quer vê-lo na biblioteca.”
“Que horas são?”
“Cinco da manhã.”
“E o que você está fazendo acordado?”
“Eu não fui para a cama”. Parecia que ele estava dizendo a verdade. Seus olhos azuis estavam rodeados por
sombras escuras.
Jace correu um mão pelo seu cabelo desarrumado. “Tudo bem. Espere um segundo, enquanto eu mudo
minha camisa.” Indo para o guarda-roupa, ele inspecionou através das ordenadas pilhas dobradas até
encontrar uma camisa de mangas longas azul escura. Ele retirou a camisa que ele estava vestindo
cuidadosamente- em alguns lugares ela estava presa a pele com o sangue seco.
Alec olhou para longe. “O que aconteceu com você? Sua voz estava estranhamente contraída.
“Puxei uma briga com um bando de lobisomens. Jace deslizou a camisa azul pela sua cabeça. Vestido, ele
caminhou após Alec pelo corredor. “Você tem alguma coisa em seu pescoço,” ele observou.
“A mão de Alec voou para sua garganta. “O que?”
“Parece como uma marca de uma mordida,” Jace disse. “ O que você estava fazendo à noite toda, afinal?”
“Nada.” Como uma beterraba vermelha, sua mão ainda apertava seu pescoço, Alec caminhou pelo corredor.
Jace seguiu ele. “ Eu fui caminhar no parque. Tentei limpar minha cabeça.”
“E correu para um vampiro?”
“O que? Não! Eu cai.”
“Em seu pescoço?” Alec fez um barulho, e Jace decidiu que era claramente melhor o assunto ser
abandonado. “Tudo bem, tanto faz. O que fez você precisar limpar a cabeça?”
“Você. Meus pais,”Alec disse. “ Eles vieram e explicaram o porquê de eles estarem muito bravos quando
você saiu. E eles falaram sobre Hodge. À propósito, obrigado por não me dizer isso.
“Desculpe,” Foi a vez de Jace enrubescer. “De alguma forma, eu não consegui trazer isso à tona.”
“Bem, isso não parece ser bom. Alec finalmente soltou sua mão de seu pescoço e se virou para olhar
acusadoramente para Jace. “ Parece que você estava escondendo coisas. Coisas sobre Valentine.”
Jace parou em seu caminho. “ Você acha que eu estava mentindo? Que eu não sabia que Valentine era meu
pai?”
“Não!” Alec começou, quer pela pergunta ou pela veemência em Jace perguntar isso. “ E eu não me importo
quem quer que seja seu pai. Isso não importa para mim. Você é ainda a mesma pessoa.”
“Quem quer que seja.” As palavras saíram frias, antes que ele pudesse parar elas.
'Estou apenas dizendo.” O tom de Alec era apaziguador. “ Você pode ser um pouco...difícil às vezes. Basta
pensar antes de falar, isso é tudo o que estou pedindo. Ninguém aqui é seu inimigo, Jace.”
“Bem, obrigado pelo conselho,” Jace disse. “Eu posso andar sozinho pelo resto do caminho até a biblioteca.”
“Jace...”
Mas Jace já tinha desaparecido, deixando Alec para trás, aflito. Jace odiava quando outras pessoas ficavam
preocupadas consigo. Fazia ele se sentir que talvez houvesse realmente algo para se preocupar.
A porta da biblioteca estava meio aberta. Sem se importar em bater, Jace entrou. Ele sempre tinha sido um
de seus lugares favoritos no Instituto – havia algo confortável sobre sua antiquada mistura de madeira e
acessórios de metal, o couro – e livros encadernados em veludo correndo ao longo das paredes como velhos
amigos esperando o retorno dele. Agora, uma sopro de ar frio acertou ele no momento que a porta ficou
aberta. O fogo que geralmente ardia na enorme lareira durante todo o outono e inverno era uma amontoado
de cinzas. As lâmpadas tinham sido desligadas. A única luz vinha através da estreitas aberturas laterais da
janelas e da clarabóia acima.
Sem querer, Jace pensou em Hodge. Se ele estivesse aqui, o fogo estaria aceso, as lâmpadas à gás ligadas,,
lançando sombras de piscinas de luz dourada nos tacos do piso. O próprio Hodge estaria relaxado em uma
poltrona por causa do fogo, Hugo sobre um ombro, um livro apoiado a seu lado...
Mas havia alguém na velha poltrona de Hodge. Um alguém magro e cinza, que se levantou da poltrona,
fluidamente desenrolando como uma cobra com seu encantador, e se virou em direção a ele com um sorriso
frio.
Era uma mulher. Ela usava um longo e antiquado manto cinza escuro que caia até ao topo de seus sapatos.
Abaixo estava um ajustado terno azul cinzento com um colarinho de mandarim, a firmeza dos pontos
pressionavam dentro de seu pescoço. Seu cabelo era uma tipo de pálido loiro, bem puxados para trás com
pentes,e seus olhos eram incrustados cinza impiedosos. Jace podia sentir eles, como o toque de uma água
congelada, enquanto seu olhar percorria o seu jeans sujo, salpicado de lama, e seus olhos permaneceram lá.
Por um segundo algo quente tremeluziu em seu olhar, como o brilho de uma chama presa embaixo do gelo.
Em seguida, ele desapareceu. “Você é o menino?”
Antes que Jace respondesse, outra voz respondeu: Era Maryse, entrando na biblioteca atrás dele. Ele se
perguntou porque ele não escutou sua aproximação e percebeu que ela tinha abandonado seus salto-altos por
chinelos. Ela usava um roupão longo de seda padronizado e a expressão dos lábios era fina. “Sim,
Inquiridora,” ela disse. “Este é Jonathan Morgenstern.”
A inquiridora se moveu em direção a Jace como uma fumaça cinza levada pela corrente. Ela parou em
frente a ele e segurou uma mão longa com dedos brancos, ela lembrava a ele uma aranha albina. “Olhe para
mim, rapaz.” ela disse, e de repente os longos dedos dela estavam sob seu queixo, forçando sua cabeça para
cima. Ela era incrivelmente forte. “Você pode me chamar de Inquiridora. Você não vai me chamar de outra
coisa.” A pele ao redor de seus olhos era uma confusão de linhas finas como rachaduras de tinta. Duas
ranhuras estreitas corriam pelos cantos de sua boca para o seu queixo. “Você entendeu?”
Pela maior parte de sua vida o Inquiridor tinha sido uma distante figura meio mítica para Jace. Sua
identidade, e mesmo muito de suas funções, eram envoltas em um segredo da Clave. Ele sempre tinha
imaginado que ela seria como os Irmãos do Silêncio, com seu poder velado e mistérios ocultos. Ele não
teria imaginado alguém tão direto, ou tão hostil. Seus olhos pareciam cortar ele, fatiando à distância a sua
armadura de confiança e divertimento, desnudando ele por baixo até os ossos.
“Meu nome é Jace,” ele disse. “Não menino. Jace Wayland.”
“Você não tem direito ao nome de Wayland,” ela disse. “ Você é Jonathan Morgenstern. Reivindicar o nome
de Wayland faz de você um mentiroso. Assim como seu pai.”
“ Na verdade,” Jace disse, “ eu prefiro pensar que sou um mentiroso, de uma forma que é unicamente
minha.”
“Estou vendo. “ Um pequeno sorriso curvou em sua boca pálida. E não era uma sorriso simpático. “Você é
intolerante com a autoridade, tal como seu pai era. “ Tal como o anjo cujo nome ambos carregam.” Seus
dedos agarraram seu queixo com uma súbita ferocidade, suas unhas escavando dolorosamente. “ Lúcifer foi
recompensado por sua rebelião quando Deus o arremessou no poço do inferno.” Sua respiração era amarga
como vinagre. “Se você desafiar minha autoridade, eu posso te prometer que você vai lhe invejar o seu
destino.”
Ela soltou Jace e caminhou para trás. Ele pode sentir o lento escorrer de sangue onde suas unhas tinham
cortado o seu rosto. Suas mãos tremiam com a raiva, mas ele se recusou a limpar uma gota de sangue.
“Imogen...” Maryse começou, então corrigiu a si mesma. “Inquiridora Herondale. Ele concorda em ser
julgado pela Espada. Você pode descobrir que ele está dizendo a verdade.”
“Sobre seu pai? Sim. Eu sei que eu posso.” Inquiridora Herondale escavou seu colarinho encravado em sua
garganta enquanto ela olhava para Maryse. “Você sabe, Maryse, a Clave não está satisfeita com vocês. Você
e Robert são os guardiões do Instituto. Vocês tem apenas sorte com seus registros que por anos tem sido
relativamente limpos. Poucas perturbações demoníacas até recentemente, e tudo tem sido calmo nos últimos
dias. Sem relatórios, até mesmo em Idris, de modo que a Clave é clemente. Temos realmente nos
perguntado se vocês realmente rescindiram sua lealdade para com Valentine. Como ele é, ele colocou uma
armadilha para você e você caiu nela. Se poderia pensar que você saberia melhor.
“Não houve uma armadilha,” Jace cortou. “Meu pai sabia que os Lightwoods me educariam se eles
pensassem que eu era o filho de Wayland. Isso é tudo.”
A Inquiridora olhou para ele como se ele estivesse passando uma conversa fiada. “ Você conhece o pássaro
cuco, Jonathan Morgenstern?”
Jace se perguntou se talvez sendo uma Inquiridora – ela não pudesse ter um trabalho agradável – e tinha
deixado Imogen Herondale um pouco enlouquecida. “O que?”
“O pássaro cuco,” ela disse. “Veja, os cucos são parasitas. Ele põem seus ovos nos ninhos de outras aves.
Quando os ovos chocam, o filhote cuco empurra as outras aves filhotes para fora do ninho. Os pobres pais
das aves trabalham até a morte tentando encontrar comida suficiente para alimentar o enorme cuco que
assassinou seus filhotes e tomou seus lugares.
“Enorme?” Jace disse. “Você me chamou de gordo?”
“Isso foi uma analogia.”
“Eu não sou gordo.”
“E eu,” Maryse disse, “não quero sua pena, Imogen. Eu me recuso a acreditar que a Clave irá punir a mim
ou ao meu marido por escolher trazer o filho de um amigo morto.” Ela endireitou seus ombros. “ Isso não é
como se nós não disséssemos a eles o que nós estávamos fazendo.”
“E eu nunca prejudiquei nenhum dos Lightwoods de modo algum.” Jace disse. “ Eu trabalhei duro, e fui
treinado duramente – diga o que você quiser sobre meu pai, mas ele fez de mim um Caçador de Sombras. Eu
mereci o meu lugar aqui.”
“Não defenda seu pai para mim,” a Inquiridora disse, “ Eu conheci ele. “Ele era – é – o mais vil dos
homens.”
“Vil? Quem disse 'vil'? O que isso quer dizer mesmo?
Os cílios sem cor da Inquiridora chicotearam arranhando as bochechas dela, enquanto ela estreitava seus
olhos, seu olhar especulativo. “Você é arrogante,” ela disse, finalmente “bem como intolerante. Seu pai
ensinou você a agir desse jeito?”
“Não com ele,” Jace disse brevemente.
“Então você está imitando ele. Valentine era uma dos mais arrogantes e desrespeitosos homem que eu já
conheci. Eu suponho que ele trouxe você, para ser como ele.”
“Sim,” Jace disse, incapaz de se controlar, “ Eu fui treinado para ser um mestre intelectual maligno desde a
tenra idade. Puxando as asas das moscas, envenenando o suprimento de água da terra – eu estava
acobertando isso desde o jardim de infância. Eu acho que nós todos temos apenas sorte de meu pai ter
falsificado sua própria morte antes de ter violado e saqueado parte da minha educação, ou ninguém estaria
seguro.”
Maryse deixou sair um som como um gemido de horror. “Jace...”
Mas a Inquiridora tinha interrompido ela. “ E, assim como seu pai, você não consegue manter ser
temperamento, “ ela disse. “Os Lightwoods mimaram você e deixaram as piores qualidades correrem
livremente. Você pode parecer como um anjo, Jonathan Mogenstern, mas eu sei exatamente quem você é.”
“Ele é apenas um garoto,” Maryse disse. Ela estava defendendo ele? Jace olhou para ela rapidamente, mas
seus olhos estavam desviados.
“Valentine foi uma garoto uma vez. Agora, antes de nós fazermos qualquer pesquisa ao redor de sua cabeça
loira para descobrir a verdade, eu sugiro que você esfrie seu temperamento. E eu sei onde você pode fazer
isso melhor.”
Jace piscou. “Você está me mandando para meu quarto?”
“Eu estou mandando você para as prisões da Cidade do Silêncio. Depois de uma noite lá eu suspeito que
você será muito mais cooperativo.”
Maryse arfou. “Imogen...você não pode!”
“Certamente que eu posso.” Seus olhos brilhavam como navalhas. “ Você tem alguma coisa a dizer a mim,
Jonathan?”
Jace apenas a encarou. Havia andares e mais andares na Cidade do Silêncio, e ele só conhecia os dois
primeiros, onde os arquivos eram mantidos e onde os Irmãos sentavam em conselho. A celas das prisões
eram no nível mais baixo da cidade, abaixo do nível do cemitério onde milhares de Caçadores de Sombras
mortos descansavam em silêncio. As celas eram reservadas para os piores criminosos: vampiros perigosos,
bruxos que quebraram a Lei do Pacto, Caçadores de Sombras que derramaram o sangue uns dos outros. Jace
não era nenhuma dessas coisas. Como ela sequer poderia sugerir que ele fosse enviado para lá?
“Muito sábio, Jonathan. Eu vejo que você já aprendeu a melhor lição que a Cidade do Silêncio ensinará para
você.” O sorriso da Inquiridora era como um crânio sorrindo. “Como manter sua boca fechada.”
Clary estava no meio de uma ajuda a Luke para limpar os restos do jantar quando a campainha tocou
novamente. Ela se endireitou, seu olhar flutuando para Luke. “Esperando alguém?”
Ele fechou a cara, secando as mãos na toalha de pratos. “Não. Espere aqui.” Ela viu ele pegar alguma coisa
das prateleiras enquanto ele deixava a cozinha. Alguma coisa que brilhava.
“Você viu essa faca?” Simon assobiou, levantando-se da mesa. “Ele está esperando por problemas?”
“Eu acho que ele sempre está esperando por problemas,” Clary disse, “ estes dias.” Ela espreitou ao redor do
canto da porta da cozinha, e viu Luke abrir a porta da frente. Ela pode ouvir a sua voz, mas não o que ele
estava dizendo. Ele não parecia chateado, apesar de tudo.
A mão de Simon em seu ombro a puxou de volta. “Fique longe da porta. Você está maluca? E se houver
algum demônio lá fora?”
“Então Luke poderia provavelmente utilizar nossa ajuda.” Ela olhou para baixo, a mão dele em seu ombro e
sorriu. “Agora você está todo protetor? Que gracinha.”
“Clary!” Luke chamou ela da porta da frente. “Venha aqui. Eu quero que você conheça alguém.”
Clary afastou a mão de Simon e a colocou de lado. “Volto já.”
Luke estava inclinado contra a moldura da porta, os braços cruzados. A faca em sua mão tinha magicamente
desaparecido. Uma garota permanecia em frente aos degraus da casa, uma garota com um cabelo cacheado
castanho em múltiplas traças e em uma jaqueta de veludo. “Está é Maia.”, Luke disse. “ De que eu estava
falando.”
A garota olhou para Clary. Seus olhos brilhantes sob a varanda tinham uma estranha luz de âmbar verde.
“Você deve ser Clary.”
Clary admitiu que este era o caso.
“Então aquele menino – o garoto com o cabelo loiro que agitou o Caçador de Lua - ele é seu irmão?”
“Jace,” Clary disse curtamente, não gostando da curiosidade importuna da garota.
“Maia?” Era Simon, vindo por trás de Clary, suas mãos empurradas dentro dos bolsos de sua jaqueta.
“Yeah. Você é o Simon, certo? Eu sou um droga com nomes, mas eu me lembro de você.” A garota sorriu
por cima de Clary para ele.
“Ótimo,” Clary disse. “Agora somos todos amigos.”
Luke tossiu e se endireitou. “Eu queria que vocês se conhecessem um aos outros porque Maia vai estar
trabalhando na livraria nas próximas semanas.” Ele disse. “Se você vê-la entrando e saindo, não se preocupe
com isso. Ela tem uma chave.”
“E eu vou manter um olho em qualquer coisa estranha,” Maia prometeu. “Demônios, vampiros, tanto faz.”
“Obrigada,” Clary disse. “ Eu me sinto mais segura agora.”
Maia piscou. “Você está sendo sarcástica?”
“Estamos todos um pouco tensos.” Simon disse. “Eu sou um que fico feliz em conhecer alguém que vai ficar
por aqui mantendo um olho em minha namorada quando ninguém mais estiver em casa.”
Luke levantou sua sobrancelha, mas não disse nada. Clary disse. “Simon está certo. Desculpe por ter sido
ríspida com você.”
“Tá tudo bem.” Maia pareceu simpática. “Eu ouvi sobre sua mãe. Eu lamento.”
“Eu também.” Clary disse, virando-se e indo de volta para cozinha. Ela se sentou à mesa e pôs seu rosto em
suas mãos. Um instante depois Luke seguiu ela.
“Desculpe,” ele disse. “ Eu achei que vocês estaria com disposição para conhecer alguém.”
Clary olhou para ele através dos dedos estendidos. “Onde está Simon?”
“Falando com Maia,” Luke disse, e mesmo Clary pode ouvir suas vozes, suaves como murmúrios, vindo do
outro lado da casa. “Eu só achei que seria bom para você ter uma amiga agora.”
“Eu tenho Simon.”
Luke empurrou seus óculos para trás em seu nariz. “Eu ouvi ele chamar você de sua namorada?”
Ela quase riu de sua expressão . “Eu acho que sim.”
“Isso é algo novo ou alguma coisa que eu já supunha saber, mas eu esqueci?
“Eu não tinha escutado essa antes.” Ela levou suas mãos para longe do rosto e olhou para ele. Ela pensou na
runa, o olho aberto, que decorava a parte de trás da mão direita de cada Caçador de Sombras. “A namorada
de alguém,” ela disse. “ A irmã de alguém, a filha de alguém. Todas essas coisas que eu nunca soube que era
antes, eu eu ainda não sei o que eu realmente sou.”
“Não é sempre uma questão,” Luke disse, e Clary ouviu a porta se fechar, no outro lado da casa, as passadas
de Simon se aproximando da cozinha. O cheiro do ar frio da noite veio com ele.”
“Está tudo bem eu ficar aqui hoje a noite?” ele perguntou. “Está um pouco tarde para ir para casa.”
“Você sabe que é sempre bem-vindo.” Luke olhou para seu relógio. “Eu vou dormir um pouco. Tenho que
acordar as cinco horas para chegar ao hospital às seis.”
“Porque as seis?” Simon perguntou, depois que Luke deixou a cozinha.
'É quando as visitas no hospital começam.” Clary disse. “Você não tem que dormir no sofá. Não, se você
não quiser.”
“Eu não me importo em ficar te fazendo companhia até amanhã,” ele disse, balançando seu cabelo escuro
para fora de seus olhos impacientemente. “De forma alguma.”
“Eu sei. Eu quero dizer que você não precisa dormir no sofá se você não quiser.”
“Então onde...” Sua voz sumiu, os olhos bem abertos atrás de seus óculos. “Ah.”
“Tem uma cama de casal,” ela disse. “No quarto de hóspedes.”
Simon tirou suas mão para fora do bolso. Havia uma cor brilhante em suas bochechas. Jace tentaria parecer
legal; Simon não tentou. “Você tem certeza?”
“Tenho certeza.”
Ele atravessou a cozinha vindo até ela, curvou-se abaixo, e a beijou levemente e desajeitadamente em sua
boca. Sorrindo ela ficou em seus pés. “Chega de cozinhas,” ela disse. “Sem mais cozinhas.” E segurando ele
firmemente em seus pulsos, ela o puxou atrás dela, para fora da cozinha, em direção ao quarto onde ela
dormia.
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