PARTE DOIS
PARA TODA A VIDA
Capítulo 10
RIVERSIDE DRIVE
SIMON SE SENTOU NO SOFÁ DA SALA DE ESTAR DE KYLE E olhou
para a imagem congelada na tela da TV no canto da sala. Ela estava parada
no jogo que Kyle tinha brincado com Jace, e a imagem era uma de um túnel
subterrâneo escuro com uma pilha de corpos caídos no chão e algumas
piscinas de sangue bem realistas. Era perturbador, mas Simon não tinha
energia ou inclinação para desligá-la. As imagens que tinha corrido por sua
cabeça toda a noite eram piores.
A luz fluindo na sala através das janelas tinha se fortalecido da
aurora para a pálida iluminação de cedo de manhã, mas Simon mal notou.
Ele se mantinha vendo o corpo de Maureen no chão, seu cabelo loiro
manchado de sangue. Seu próprio progresso surpreendente durante a
noite, seu sangue cantando em suas veias. E então Maia partindo para cima
de Kyle, o rasgando com suas garras. Kyle ficou lá, sem levantar uma mão
para se defender. Ele provavelmente teria deixado ela o matar, se Isabelle
não tivesse interferido, afastando Maia dele e rolando com ela na calçada, a
prendendo lá até que sua fúria se dissolvessem em lágrimas. Simon tentou
ir até ela, mas Isabelle o manteve afastado com um olhar furioso, seu braço
em torno da outra garota, sua mão levantada para repeli-lo.
“Saia daqui”, ela disse. “E o leve com você. Eu não sei o que ele fez a
ela, mas deve ter sido algo bem ruim.”
E foi. Simon conhecia aquele nome. Jordan. Foi de antes, quando ele
perguntou como ela tinha se transformado em um lobisomem. Seu
ex-namorado tinha feito isso, ela disse. Ele o fez com um ataque selvagem
e violento, e fugido depois, a deixando para lidar com a consequência
sozinha.
Seu nome era Jordan.
Esse era o porquê do Kyle ter apenas um nome na campainha da
porta. Por que era seu último nome. Seu nome completo era Jordan Kyle,
Simon constatou. Ele tinha sido estúpido, inacreditavelmente estúpido, por
não ter percebido isso antes. Não que ele precisasse de outro motivo para
se odiar agora.
Kyle — ou melhor, Jordan — era um lobisomem; ele se curava rápido.
No instante que Simon o levantou, não muito gentil, para colocá-lo e o
levado para o seu carro, os profundos talhos em sua garganta e embaixo
dos trapos rasgados de sua camisa tinham se curado para cicatrizes com
cascas. Simon tinha tirado as chaves dele e os levado de volta a Manhattan,
a maior parte em silêncio, Jordan quase imóvel no banco do passageiro,
olhando para suas mãos ensanguentadas.
“Maureen está bem”, ele finalmente disse enquanto eles dirigiam na
Williamburg Bridge. “Parecia pior do que era. Você ainda não é bom se
alimentando de humanos, ela não perdeu muito sangue. Eu a coloquei em
um táxi. Ela não se lembra de nada. Ela pensa que desmaiou na sua frente,
e está muito envergonhada.”
Simon sabia que devia agradecer a Jordan, mas ele não conseguia
trazê-lo a fazer isso. “Você é o Jordan”, ele disse. “O antigo namorado de
Maia. O que a transformou em um lobisomem.”
Eles estavam na Kenmare agora; Simon virou para o norte, indo para
a Bowery com suas floriculturas e lojas de elétricas. “Sim”, Jordan disse
finalmente. “Kyle é meu último nome. Eu comecei a usá-lo quando me
juntei ao Praetor.”
“Ela o teria matado se Isabelle tivesse deixado.”
“Ela tem todo direito em me matar se ela quiser”, Jordan disse, e caiu
em silêncio. Ele não disse nada mais enquanto Simon estacionava e eles
caminhavam lentamente das escadas para o apartamento. Ele foi para o
seu quarto sem nem mesmo tirar sua jaqueta ensanguentada, e bateu a
porta.
Simon colocou as coisas em sua mochila e estava prestes a sair do
apartamento quando hesitou. Ele não tinha certeza da razão, mesmo agora,
mas ao invés de sair ele largou sua mochila no chão e voltou para se sentar
nesta cadeira, onde ele ficou toda a noite.
Ele desejou poder ligar para Clary, mas era cedo demais da manhã, e
além do mais, Isabelle tinha dito que ela e Jace tinham saído juntos, e a
ideia de interromper algum momento especial deles não era atraente. Ele se
perguntou onde sua mãe estava. Se ela pudesse tê-lo visto noite passada,
com Maureen, ela pensaria que ele era cada pedacinho do monstro que ela
o tinha acusado de ser.
Talvez ele fosse.
Ele olhou enquanto a porta de Jordan se abria e ele emergia. Ele
estava descalço, ainda nos mesmos jeans e camiseta que ele estava usando
ontem. As cicatrizes em sua garganta tinham esmaecido para linhas
vermelhas. Ele olhou para Simon. Seus olhos cor de avelã, normalmente
muito brilhantes e alegres, estavam sombreados. “Eu achei que você
partiria”, ele disse.
“Eu ia”, Simon disse. “Mas então eu achei que devia dar a você a
chance de se explicar.”
“Não há nada a se explicar”, Jordan se arrastou até a cozinha e
vasculhou em uma gaveta até que ele conseguiu um filtro de café. “Seja lá
o que Maia disse sobre mim, eu tenho certeza que era verdade.”
“Ela disse que você bateu nela”, Simon disse.
Jordan, na cozinha, ficou imóvel. Ele olhou para o filtro como se ele
não estivesse certo do para quê era.
“Ela disse que vocês saíram por meses e tudo era ótimo.” Simon
continuou. “Então você se tornou violento e ciumento. Quando ela falou
com você sobre isso, você bateu nela. Ela terminou com você, e quando ela
estava indo para casa uma noite, algo a atacou e quase a matou. E você —
você saiu da cidade. Sem desculpas, sem explicação.”
Jordan colocou o filtro na bancada. “Como ela chegou aqui? Como ela
encontrou o bando de Luke Garroway.”
Simon sacudiu a cabeça. “Ela saltou em um trem para Nova York e os
rastreou. Ela é uma sobrevivente, Maia. Ela não deixou o que você fez a
arruinar. Um monte de pessoas teria.”
“Este é o porquê de você ficar?” Jordan perguntou. “Para me dizer
que sou um bastardo? Por que eu já sei disso.”
“Eu fiquei”, Simon disse, “por causa do que eu fiz noite passada. Se
eu tivesse descoberto sobre você ontem, eu teria partido. Mas depois do
que eu fiz a Maureen...” Ele mastigou seu lábio. “Eu achava que tinha o
controle do que aconteceu comigo e não tinha, e eu machuquei alguém que
não merecia. Então esse é o porquê de eu estar ficando.”
“Por que se eu não sou um monstro, então você não é um monstro.”
“Por que eu quero saber como superar agora, e talvez você possa me
dizer.” Simon se inclinou a frente. “Por que você tem sido um cara bom
para mim desde que eu te conheci. Eu nunca vi você ser ruim ou ficar
bravo. E então eu pensei sobre a Guarda Lobo, e como você disse que se
juntou a isso por que você fez coisas ruins. E eu pensei que Maia fosse
talvez a coisa ruim que você fez, que você estava tentando compensar.”
“Eu estava”, disse Jordan. “Ela é.”
????
Clary se sentou a mesa no pequeno quarto de hóspedes de Luke, o
pedaço de tecido que ela tinha tomado no necrotério de Beth Israel,
esticado em frente a ela. Ela o ponderou em ambos os lados com o lápis e
estava pairando sobre ele, estela na mão, tentando se lembrar da runa que
veio a ela no hospital.
Era difícil se concentrar. Ela continuava pensando em Jace, sobre a
noite passada. Onde ele podia ter ido. Por que ele estava tão infeliz. Ela não
percebeu até que o viu, que ele estava tão triste quanto ela estava, e isso
partia seu coração. Ela queria ligar para ele, mas se segurou de fazê-lo
várias vezes, desde que tinha ido para casa. Se ele ia dizer a ela qual era o
problema, ele o faria sem precisar perguntar. Ela o conhecia bem o
suficiente para saber disso.
Ela fechou seus olhos, e tentou se forçar a imaginar a runa. Não era
uma que ela inventou, ela estava bastante certa. Era uma que já existia,
embora ela não tivesse certeza de que a tinha visto no Livro Branco. Sua
forma falava menos de interpretação do que de revelação, de mostrar a
forma de algo escondido por baixo, afastando a poeira disso lentamente
para ler a inscrição por baixo...
A estela girou em seus dedos, e ela abriu seus olhos para descobrir,
para sua surpresa, que ela tinha conseguido traçar um pequeno padrão no
canto do tecido.
Ele parecia mais como um borrão, com estranhos pontos em toda
parte, e ela fez uma careta, se perguntando se ela estava perdendo sua
habilidade. Mas o tecido começou a cintilar, como calor emanando do
asfalto. Ela observou enquanto as palavras se desdobravam no tecido, como
se uma mão invisível às estivessem escrevendo.
Propriedade da Igreja de Talto. 232 Riverside Drive.
Uma onda de entusiasmo a atravessou. Era uma pista, uma pista de
verdade. E ela descobriu isso por si mesma, sem nenhuma ajuda de
ninguém mais.
232 Riverside Drive. Era na Upper West Side, ela pensou, pela
Riverside Park, do outro lado do canal de New Jersey. De modo algum
distante. A Igreja de Talto. Clary colocou abaixo a estela, com uma careta.
O que quer que aquilo fosse, soava ruim. Ela puxou sua cadeira para o
velho computador de Luke e conectou-se a internet. Ela não podia dizer que
ficou surpresa que ao digitar a Igreja de Talto terminou em nenhum
resultado satisfatório. O que quer que tinha estado escrito no canto do
tecido tinha sido em Purgatic, ou Cthonian, ou alguma outra linguagem
demoníaca.
Uma coisa ela tinha certeza. O que quer que a Igreja de Talto fosse,
ela era secreta, e provavelmente má. Se ela estava transformando bebês
humanos em coisas com garras, ao invés de mãos, não era nenhuma
espécie de religião verdadeira. Clary se perguntou se a mãe que tinha
jogado seu bebê próximo ao hospital era um membro da igreja, e se ela
sabia o que tinha feito a si, antes que seu bebê tivesse nascido.
Ela se sentiu gelada enquanto pegava seu telefone — e se
interrompeu com ele na mão. Ela estava prestes a ligar para sua mãe, mas
ela não podia ligar para Jocelyn sobre isso. Jocelyn tinha acabado de se
recuperar e concordado em sair com Luke, para procurar anéis. E enquanto
Clary pensou que sua mãe era forte o suficiente para lidar com qual fosse a
verdade que viesse a tona, ela entraria com certeza em problemas com a
Clave, por levar sua investigação tão longe sem informá-los.
Luke.
Mas Luke estava com sua mãe. Ela não podia ligar para ele.
Maryse, talvez. A mera ideia de ligar para ela parecia estranha e
intimidadora. Além do mais, Clary sabia — sem querer admitir para si
mesma, que isto era um divisor — que se ela deixasse que a Clave
assumisse, ela estaria no banco de reserva. Empurrada para fora de um
mistério que parecia fortemente pessoal. Sem mencionar que parecia como
trair sua mãe para a Clave.
Mas ir por contra própria, sem saber o que ela descobriria... bem, ela
teve treinamento, mas não tanto assim. E ela sabia que tinha uma
tendência de agir primeiro. Relutantemente puxou o telefone, hesitou um
instante — e mandou uma rápida mensagem: 232 RIVERSIDE DRIVE. VOCÊ
PRECISA ME ENCONTRAR LÁ IMEDIATAMENTE. É IMPORTANTE. Ela teclou o
botão de enviar e sentou-se por um momento, até que a tela se iluminasse
com um zumbido de resposta. OK.
Com um suspiro Clary guardou o telefone, e foi buscar suas armas.
????
“Eu amava Maia.” Jordan disse. Ele estava sentado no futon agora,
tendo finalmente conseguido fazer o café, embora ele não tivesse bebido
nada dele. Ele só estava segurando a caneca em suas mãos, virando e
virando enquanto ele falava. “Você deve saber disso, antes que eu te diga
qualquer outra coisa. Nós dois viemos desse triste buraco de uma cidade
em New Jersey, ela foi para essa merda de buraco porque o pai dela era
negro e sua mãe era branca. Ela tinha um irmão também, que era um
completo psicopata. Eu não sei se ela te disse sobre ele. Daniel.”
“Não muito”, Simon disse.
“Com tudo isso, sua vida era bastante infernal, mas ela não deixava
isso colocá-la para baixo. Eu a conheci em uma loja de música, comprando
discos velhos. Vinil, certo. Nós começamos a conversar e eu percebi que ela
era basicamente a garota mais legal a milhas de distância. Linda também. E
doce.” Os olhos de Jordan estavam distantes. “Nós saímos, e foi fantástico.
Nós ficamos completamente apaixonados. Do jeito que você fica quanto tem
dezesseis anos. Então eu fui mordido. Foi em uma briga numa noite, em um
clube. Eu costumava entrar em um monte de brigas. Eu era acostumado a
ser chutado e esmurrado, mas mordido? Eu achei que o cara que tinha feito
isso era louco, mas tanto faz, eu fui para o hospital, ganhei pontos, e
esqueci sobre isso.”
“Cerca de três semanas depois começou a estourar. Ondas de fúria
incontroláveis e raiva. Minha visão simplesmente escurecia e não sabia o
que estava acontecendo. Eu soquei a janela da minha cozinha por que uma
gaveta estava fechada. Eu estava louco de ciúme de Maia, convencido que
ela estava olhando para outros caras, convencido... eu nem mesmo sei o
que pensava. Eu só sei que eu surtei. Eu bati nela. Eu queria dizer que eu
não me lembro de fazer isso, mas eu lembro. E ai ela terminou comigo...” A
voz dele sumiu. Ele tomou um gole de café; parecia cansado, Simon
pensou. Ele não deve ter contado muito essa história antes. Ou nunca.
“Algumas noites depois eu fui a uma festa e ela estava lá. Dançando com
outro cara. O beijando como se ela quisesse provar para mim que acabou.
Foi uma péssima noite para ela escolher, não que ela pudesse ter sabido
disso. Foi a primeira lua cheia desde que eu fui mordido.” Seus nós dos
dedos estavam brancos onde ele agarrava a caneca. “A primeira vez que eu
me Transformei. A transformação rompeu através de meu corpo e rasgou
meus ossos e minha pele. Eu estava em agonia, e não só por causa disso.
Eu a queria, queria que ela voltasse, queria explicar, mas tudo o que pude
fazer foi uivar. Eu corri através das ruas, e foi quando eu a vi, cruzando o
parque próximo a sua casa. Ela estava indo para casa...”
“E você a atacou”, Simon disse. “Você a mordeu.”
“Sim.” Jordan olhava cegamente para o passado. “Quando eu acordei
na manhã seguinte, eu sabia o que tinha feito. Eu tentei ir a casa dela, para
explicar, eu estava a meio caminho quando um cara grande apareceu em
meu caminho e me encarou. Ele sabia o que eu era, sabia tudo sobre mim.
Ele explicou que era um membro do Praetor Lupus e que tinha sido
designado para mim. Ele não estava muito feliz de ter chegado tarde
demais, que eu já tivesse mordido alguém. Ele não me deixaria ir a lugar
nenhum perto dela. Ele disse que apenas faria isso pior. Ele prometeu que a
Guarda Lobo a observaria. Ele me disse que já que eu tinha mordido um
humano, que era estritamente proibido, o único modo de eu evitar a
punição era me juntar a Guarda e ser treinado a me controlar.”
“Eu não teria feito isso. Eu cuspiria nele e tomaria qualquer que fosse
a punição que eles queriam dar. Eu me odiava. Mas quando ele explicou
que eu seria capaz de ajudar outras pessoas como eu, talvez impedir o que
tinha acontecido a mim e a Maia de acontecer novamente, foi como se eu
visse uma luz na escuridão, a longa distância no futuro. Como talvez uma
chance para consertar o que eu tinha feito.”
“Ok”, Simon disse lentamente. “Mas não há uma espécie de estranha
coincidência que você foi designado para mim? Um cara que estava
namorando a garota que você mordeu e a transformou em lobisomem?”
“Sem coincidência”, Jordan disse. “Seu arquivo era um de um
punhado que eu peguei. Eu o escolhi porque Maia era mencionada nos
apontamentos. Um lobisomem e um vampiro namorando. Sabe, é uma
espécie de coisa importante. Foi a primeira vez que eu percebi que ela tinha
se tornado um lobisomem depois que eu — depois do que eu fiz.”
“Você nunca tentou descobrir? O que parece um pouco—“
“Eu tentei. O Praetor não me deixou, mas eu fiz o que pude para
descobrir o que aconteceu a ela. Eu sabia que ela fugiu de casa, mas ela
tinha uma droga de vida familiar de qualquer modo, então isso não me
disse nada. E não é como se houvesse algum arquivo nacional de
lobisomens onde eu pudesse procurar por ela. Eu só... esperava que ela não
tivesse se Transformado.”
“Então você pegou minha missão por causa de Maia?”
Jordan enrubesceu. “Eu pensei que talvez se eu te encontrasse, eu
pudesse descobrir o que aconteceu a ela. Se ela estava bem.”
“Esta foi a razão que você me disse para parar com os encontros
duplos com ela”, Simon disse, pensando. “Você estava sendo protetor.”
Jordan olhou para ele por cima da borda da caneca de café. “Sim,
bem, foi um movimento idiota.”
“E você foi quem jogou o folheto da apresentação da banda debaixo
da porta dela. Não foi?” Simon sacudiu sua cabeça. “Então, parte da missão
era para bagunçar com minha vida amorosa, ou é apenas seu toque
extrapessoal?”
“Eu a ferrei”, Jordan disse. “Eu não queria vê-la sacaneada por outra
pessoa.”
“E não te ocorreu que se ela aparecesse em nossa apresentação, ela
tentaria
rasgar seu rosto? Se ela não se atrasasse, talvez ela até mesmo
tivesse feito isso enquanto você estivesse no palco. O que teria sido uma
animação extra para a plateia.”
“Eu não sabia.” Jordan disse. “Eu não percebi que ela me odiava
tanto, eu não odeio o cara que me transformou; eu meio que entendo que
ele devia não estar sob controle.”
“Sim”, Simon disse. “Mas você nunca amou aquele cara. Você nunca
teve um relacionamento com ele. Maia te amava. Ela achou que você a
mordeu e então a descartou e nunca pensou nela de novo. Ela vai te odiar
tanto quanto ela te amou uma vez.”
Antes que Jordan pudesse responder, a campainha tocou — não o
zumbido que teria feito se alguém tivesse no andar de baixo, interfonando,
mas aquele que poderia ser ressoado só se o visitante estivesse em pé na
entrada do outro lado da porta deles. Os garotos trocaram olhares
perplexos. “Você está esperando alguém?” Simon perguntou.
Jordan sacudiu a cabeça e colocou abaixo a caneca de café. Juntos,
eles foram para pequena entrada. Jordan gesticulou para Simon ir para trás
dele antes que ele abrisse a porta.
Não havia ninguém lá. Ao invés, havia um pedaço de papel dobrado
no tapete de boas vindas, preso por um pedaço de pedra. Jordan se curvou
para libertar o papel e se empertigou com uma careta.
“É para você”, ele disse, o estendendo para Simon.
Confuso, Simon desdobrou o papel. Impresso no centro, em letras
maiúsculas infantis, estava a mensagem:
SIMON LEWIS, NÓS TEMOS SUA NAMORADA. VOCÊ DEVE IR A 232
RIVERSIDE HOJE. ESTEJA LÁ ANTES DE ESCURECER OU NÓS CORTAREMOS
A GARGANTA DELA.
“É uma piada”, Simon disse, olhando entorpecido para o papel. “Tem
que ser.”
Sem uma palavra, Jordan agarrou o braço de Simon e o arrastou
para a sala de estar, ele procurou pelo telefone sem fio até que o
encontrou. “Ligue para ela”, ele disse, empurrando o telefone contra ao
peito de Simon. “Ligue para Maia e certifique-se que ela está bem.”
“Mas não deve ser ela”, Simon olhou para o telefone enquanto o total
horror da situação zumbia em seu cérebro, como um espírito do lado de
fora de uma casa, implorando para entrar. Concentre-se, ele disse para si
mesmo. Não entre em pânico. “Pode ser Isabelle.”
“Ah, Jesus.” Jordan o encarou. “Você tem outras namoradas a mais?
Nós temos que fazer uma lista de nomes para ligar?”
Simon puxou o telefone para ele e se virou, discando o número.
Maia respondeu no segundo toque. “Alô?”
“Maia — é o Simon.”
A amabilidade se foi de sua voz. “Ah. O que você quer?”
“Eu só queria saber se você estava bem”, ele disse.
“Eu estou bem.” Ela falou formalmente. “Não é como se o que estava
acontecendo com a gente fosse tão sério. Eu não estou feliz, mas eu vou
sobreviver. Embora você seja ainda um imbecil.”
“Não”, Simon disse. “Quero dizer que queria saber se você estava
bem.”
“Isso é sobre, Jordan?” Ele pôde ouvir a raiva quando ela disse o
nome dele. “Certo. Vocês saíram juntos, não é? Vocês são amigos ou algo
assim, certo? Bem, você pode dizer a ele para ficar longe de mim. Na
verdade, isso serve para vocês dois.”
Ela desligou. O tom de discagem zumbindo no telefone como uma
abelha zangada.
Simon olhou para Jordan. “Ela está bem. Ela nos odeia, mas não soou
realmente como se alguma coisa estivesse errada.”
“Ótimo”, Jordan disse firme. “Ligue para Isabelle.”
Levou duas tentativas antes que Izzy atendesse; Simon estava quase
em pânico no momento em que a voz dela veio na linha, soando distraída e
chateada. “Seja quem for, é melhor que seja bom.”
Alívio se derramou em suas veias. “Isabelle. É o Simon.”
“Ah, pelo amor de Deus. O que você quer?”
“Eu só liguei para ter certeza que você está bem—“
“Ah, o que, eu acho que estou devastada por que você é um
malandro, mentiroso, traidor filho de uma—“
“Não”, Isso estava realmente começando a dar nos nervos de Simon.
“Quero dizer, você está bem? Você não foi sequestrada ou algo assim?”
Houve um longo silêncio. “Simon”, Isabelle disse finalmente. “Isso é
realmente, sério, a desculpa mais estúpida para uma ligação chorona que
eu jamais escutei. O que há de errado com você?”
“Eu não tenho certeza”, Simon disse, e desligou antes que ela
desligasse na cara dele. Ele estendeu o telefone para Jordan. “Ela também
está bem.”
“Eu não entendo”, Jordan parecia desconcertado. “Quem faz uma
ameaça como essa se é totalmente vazia? Quero dizer, é tão fácil checar e
descobrir que é uma mentira.”
“Eles devem pensar que eu sou burro”, Simon começou, e então
parou. Um horrível pensamento surgindo nele. Ele tomou o telefone de
volta de Jordan e começou a ligar com dedos dormentes.
“Quem é?” Jordan disse. “Para quem você está ligando?”
O telefone da Clary tocou enquanto ela virava a esquina da Ninety-
sixth Street com a Riverside Drive. A chuva pareceu ter lavado a cidade da
sua sujeira costumeira; o sol brilhava em um céu brilhante e na faixa verde
brilhante do parque ao longo do rio, cuja água parecia quase azul hoje.
Ela escavou sua bolsa atrás de seu telefone, e o encontrou, e o abriu.
“Alô?”
A voz de Simon veio na linha. “Ah, graças—“ Ele se interrompeu.
“Você está bem? Você não foi sequestrada ou algo assim?”
“Sequestrada?” Clary vasculhou os números dos prédios enquanto ela
caminhava para a parte residencial. 220, 240. Ela não estava inteiramente
certa do que estava procurando. Pareceria como uma igreja? Outra coisa,
enfeitiçada para parecer como um lote abandonado? “Você bebeu ou o
que?”
“É um pouco cedo para isso”, O alívio na voz dele era claro. “Não, eu
só – eu recebi um bilhete estranho. Alguém ameaçando ir atrás da minha
namorada.”
“Qual delas?”
“Há, há.” Simon não soou divertido. “Eu já liguei para Maia e Isabelle,
e ambas estão bem. Então eu pensei em você — quero dizer, nós passamos
um tempão juntos. Alguém podia ter pego a ideia errada; Mas agora eu não
sei o que pensar.”
“Eu duvido”, 232 Riverside Drive se assomou diante de Clary de
repente, como um grande prédio quadrado de pedra com um telhado
pontiagudo. Podia ter sido uma igreja em algum momento, ela pensou,
ainda que não parecesse com uma agora.
“A propósito, Maia e Isabelle descobriram uma sobre a outra noite
passada. Não foi muito bonito”, Simon adicionou. “Você estava certa sobre
o ponto de brincar com fogo.”
Clary examinou a fachada do número 232. A maioria dos edifícios
alinhados na estrada eram prédios de apartamentos caros com porteiros em
uniformes, esperando do lado de fora. Embora, neste, tinha apenas um
conjunto de portas altas de madeira com cumeeira curvada, e alças de
metal antiquadas ao invés de maçanetas. “Ooh, ai. Desculpe-me, Simon.
Alguma delas está falando com você?”
“Não de verdade.”
Ela tomou uma das alças, e empurrou. A porta deslizou aberta com
um suave som sibilado. Clary abaixou sua voz. “Talvez uma delas deixou o
bilhete?“
“Não parece o estilo delas”, Simon disse, soando genuinamente
confuso. “Você acha que Jace teria feito isso?”
O som do nome dele foi como um murro em seu estômago. Clary
segurou a respiração e disse. “Eu não acho que ele faria isso, nem mesmo
se estivesse zangado.” Ela afastou o telefone de sua orelha. Espreitando em
torno da porta semiaberta; ela podia ver que parecia seguramente como o
interior normal de uma igreja — um longo corredor, luzes tremulantes como
velas. Com certeza não podia machucar dar uma olhadinha por dentro. “Eu
tenho que ir, Simon”, ela disse. “Eu te ligo mais tarde.”
Ela fechou o telefone e entrou.
“Você acha realmente que foi uma piada?” Jordan estava andando
para cima e para baixo no apartamento como um tigre em uma jaula no
zoológico. “Eu duvido. Parece na verdade como algum tipo de piada doentia
para mim.”
“Eu não diria que ela foi doentia”, Simon olhou para o bilhete; posto
na mesa de café, as letras em forma claramente visíveis mesmo à distância.
Só de olhá-las, deu a ele uma sensação ruim no estômago, mesmo que ele
soubesse que era sem sentido. “Eu só estou tentando pensar quem poderia
tê-la enviado. E por quê?”
“Talvez eu devesse tirar um dia de folga de você e manter um olho
nela”, Jordan disse. “Sabe, só no caso.”
“Eu presumo que você esteja falando de Maia”, Simon disse. “Eu sei o
que você quer dizer, bem, mas eu realmente não acho que ela precise de
você ao redor. De qualquer modo.”
A mandíbula de Jordan enrijeceu. “Eu ficaria fora do caminho, então
ela não me veria.”
“Wow. Você ainda está muito na dela, não é?”
“Eu tenho uma responsabilidade pessoal”, Jordan soou tenso. “Seja lá
o que sinto, não importa.”
“Você pode fazer o que quiser,” Simon disse. “Mas eu acho—“
A campainha da porta tocou de novo. Os dois garotos trocaram um
único olhar antes de ambos precipitarem no corredor estreito para a porta.
Jordan chegou lá primeiro. Ele agarrou o cabideiro que ficava na porta,
arrancou os casacos dele, e jogou a porta aberta, o cabideiro sob sua
cabeça como um dardo.
No outro lado da porta estava Jace. Ele piscou. “Isso é um cabideiro?”
Jordan jogou o cabideiro no chão e suspirou. “Se você fosse um
vampiro, isso teria sido bem mais útil.”
“Sim”, Jace disse. “Ou, você sabe, apenas alguém com um monte de
casacos.”
Simon enfiou sua cabeça em torno de Jordan e disse. “Desculpe-nos.
Nós tivemos uma manhã tensa.“
“Sim, bem”, Jace disse. “Ela vai ficar mais tensa. Eu vim para levá-lo
ao Instituto, Simon. A Clave quer vê-lo, e eles não gostam de ter que
esperar.”
????
No momento em que a porta da Igreja de Talto se fechou atrás de
Clary, ela sabia que estava em outro mundo, o barulho e alvoroço de Nova
York inteiramente silenciados. O espaço por dentro do prédio era grande e
elevado, com tetos altos acima. Havia um corredor estreito cercado por
fileiras de bancos, e grossas velas marrons queimavam em candeeiros
separados ao longo das paredes. O interior parecia mal iluminado para
Clary, mas talvez fosse só por que ela estava acostumada ao esplendor da
pedra enfeitiçada.
Ela se moveu no corredor, o pisar de seus tênis, suave contra o chão
empoeirado. Era antiga, ela pensou, uma igreja sem janelas. No fim do
corredor ela alcançou o abside29, onde um conjunto de degraus de pedra
levavam a um pódio em que estava a mostra um altar.
Ela piscou, percebendo o que era estranho. Não havia cruzes nesta
igreja. Ao invés, havia uma alta tabuleta de pedra no altar, coroada por
figuras entalhadas de uma coruja. As palavras na tabuleta liam-se:
POIS SUA CASA SE INCLINA PARA A MORTE,
E SEUS CAMINHOS PARA OS MORTOS.
NENHUM DOS QUE VÃO A ELA, TORNAM A SAIR,
NEM ATENTAM ELES PARA OS CAMINHOS DA VIDA.30
Clary piscou. Ela não estava muito familiarizada com a Bíblia — ela
com certeza não tinha nada como a lembrança quase perfeita de Jace das
grandes passagens dela — mas embora isso soasse religioso, era também
uma parte estranha do texto para se reportar em uma igreja. Ela
estremeceu, e se aproximou mais do altar, onde um grande livro fechado
tinha sido deixado. Uma das páginas parecia estar marcada, quando Clary
abriu o livro, ela percebeu que o que tinha pensado que era um marcador,
era uma adaga de cabo negro incrustada com símbolos misteriosos. Ela
tinha visto aquelas imagens antes nos seus livros. Era um punhal,
frequentemente usado em rituais de invocação demoníaca.
Seu estômago ficou gelado, mas ela se inclinou para olhar a página
marcada de qualquer modo, determinada a ficar sabendo de algo — só para
descobrir que ele tinha sido escrito em uma espasmódica letra estilizada
que teria sido difícil de decifrar se o livro fosse em Inglês. Ele não era,
estava em um pronunciado alfabeto com letras pontudas que ela estava
certa de que nunca tinha visto antes. As palavras estavam abaixo de uma
ilustração que Clary reconheceu como um círculo de invocação — tipo de
padrão que feiticeiros traçavam no chão antes que eles ordenassem feitiços.
Os círculos eram para atrair
Abside – a cúpula da igreja ou abóboda da igreja, após o altar na
área do coro.
Provérbios 2:18-19 e concentrar poder mágico. Este, espalhado na
página em tinta verde, parecia como dois círculos concêntricos, com um
quadrado no meio deles. No espaço entre os círculos, runas estavam
rabiscadas. Clary não as reconheceu, mas ela podia sentir a linguagem das
runas em seus ossos, e estas a faziam estremecer. Morte e sangue.
Ela virou a página precipitadamente, e apareceu um grupo de
ilustrações que a fizeram sugar a respiração.
Era uma progressão de imagens que começavam com a imagem de
uma mulher com um pássaro pousado sobre seu ombro esquerdo. O
pássaro, possivelmente um corvo, parecia sinistro e astuto. Na segunda
imagem, o pássaro se fora, e a mulher estava obviamente grávida. Na
terceira imagem, a mulher estava deitada sobre o altar não diferente do
qual Clary estava em pé agora. Uma figura em um robe estava de pé em
frente a ela, uma volumosa seringa em sua mão. A seringa estava cheia de
líquido vermelho escuro. A mulher claramente sabia o que estava prestes a
ser injetado com ela, por que ela estava gritando.
Na última figura a mulher estava sentada com um bebê em seu colo.
O bebê parecia quase normal, exceto que seus olhos eram inteiramente
negros, sem os brancos. A mulher estava olhando abaixo para a criança
com um olhar de terror.
Clary sentiu os cabelos por trás de seu pescoço se arrepiarem. Sua
mãe estava certa. Alguém estava tentando fazer mais bebês como
Jonathan. Na verdade, eles já tinham.
Ela se afastou do altar. Cada nervo em seu corpo estava gritando que
havia algo de muito errado com este lugar. Ela não achou que podia passar
outro segundo ali; melhor ir lá para fora e esperar para que cavalaria
chegasse. Ela podia ter descoberto esta pista por conta própria, mas o
resultado era mais do que ela podia lidar por si mesma.
Foi isso até que ela ouviu o som.
Um som sussurrante, como uma corrente lentamente puxada para
trás, que parecia vir de cima dela. Ela olhou acima, o punhal agarrado
firmemente em sua mão. E olhou em torno das galerias acima, onde havia
colunas de figuras silenciosas. Elas usavam o que pareciam agasalhos
cinzas — tênis, moletons cinza apagados, e de zíper com capuzes puxados
sobre seus rostos. Eles pareciam absolutamente imóveis, suas mãos sobre a
balaustrada da galeria, olhando abaixo, para ela. Pelo menos, ela achou que
eles estavam olhando. Seus rostos estavam escondidos inteiramente na
sombra; ela nem mesmo podia dizer se eles eram homens ou mulheres.
“Eu — eu lamento”, ela disse. Sua voz ecoou alto no salão de pedra.
“Eu não quis me intrometer, ou...”
Não houve resposta além do silêncio. Silêncio como um peso. O
coração de Clary começou a bater mais rápido.
“Eu já vou então”, ela disse, engolindo em seco. Ela foi à frente,
colocando o punhal sob o altar, e se virou para sair. Então ela pegou o
cheiro no ar, uma fração de segundo antes que ela se virasse — o fedor
familiar de lixo apodrecendo. Entre ela e a porta, elevando-se como uma
parede, uma aterrorizante confusão de pele escamosa, dentes como lâmina,
e garras estendidas.
Pelas últimas sete semanas Clary tinha treinado para enfrentar um
demônio em batalha, mesmo um imenso. Mas agora que estava
acontecendo pra valer, tudo o que ela podia fazer era gritar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário