sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

7

Capítulo 7
PRAETOR LUPUS
       A GARRAFA DESLIZOU DA MÃO DE SIMON E CAIU NO CHÃO,
espatifando-se e mandando cacos de vidro por todas as direções. “Kyle é
um lobisomem?”
       “Claro que é um lobisomem, seu idiota”, disse Jace. Ele olhou para
Kyle. “Não é?”
       Kyle não disse nada. O relaxado bom humor saíra de sua expressão.
Os olhos castanhos estavam severos e inflexíveis como vidro. “Quem está
perguntando?”
       Jace se afastou da janela. Não havia nada abertamente hostil em seu
comportamento, e mesmo assim tudo nele implicava uma clara ameaça. As
mãos estavam soltas nos lados, mas Simon se lembrou do jeito que viu
Jace, antes, entrar em ação com quase nada, ao que parecia, entre
pensamento e reação. “Jace Lightwood”, ele disse. “Do Instituto Lightwood.
Você é de qual bando?”
       “Jesus”, disse Kyle. “Você é um Caçador de Sombras?” Ele olhou para
Simon. “A garota ruiva bonita que estava com você na garagem — ela era
uma Caçadora de Sombras também, não era?”
       Pego de surpresa, Simon assentiu.
       “Sabe, algumas pessoas pensam que Caçadores de Sombras são só
mitos. Como múmias e gênios.” Kyle sorriu para Jace. “Você pode realizar
desejos?”
       O fato de Kyle ter chamado Clary de bonita não pareceu melhorar seu
conceito para Jace, cujo rosto se enrijecia de forma alarmante. “Isso
depende”, ele disse. “Você quer ser socado na cara?”
       “Céus”, disse Kyle. “E eu achava que todos vocês estavam tão
dedicados aos Acordos nesses dias —”
       “Os Acordos se aplicam a vampiros e licantropos com claras
alianças”, interrompeu Jace. “Diga-me em que bando você está, ou terei
que assumir que é um selvagem.”
       “Muito bem, já chega”, disse Simon. “Vocês dois, parem de agir como
se fossem se bater.” Olhou para Kyle. “Você devia ter me contado que era
um lobisomem.”
       “Não percebi que você me contou que era um vampiro. Talvez eu
tenha achado que não era da sua conta.”
       O corpo todo de Simon estremeceu em surpresa. “O quê?” Ele olhou
para o vidro quebrado e o sangue no chão. “Eu não... eu não...”
       “Não importa”, disse Jace calmamente. “Ele pode sentir que você é
um vampiro. Assim como você será capaz de sentir lobisomens e outros
Seres do Submundo quando tiver um pouco mais de prática. Ele sabe o que
você é desde que o conheceu. Não é verdade?” Encontrou os frios olhos
castanhos de Kyle com os próprios. Kyle não disse nada. “E aquela coisa

que ele está deixando crescer na sacada, a propósito? É wolfsbane20. Agora
você sabe.”
       Simon cruzou os braços sobre o peito e encarou Kyle. “Então, que
diabos é isso? Algum tipo de projeto? Por que você pediu para eu vir morar
com você? Lobisomens odeiam vampiros.”
       “Eu não”, disse Kyle. “Embora, eu não morro de amores pelos seus
tipos.” Apontou um dedo para Jace. “Eles acham que são melhores que todo
mundo.”
       “Não”, disse Jace. “Eu acho que sou melhor que todo mundo. Uma
opinião que tem sido apoiada com ampla evidência.”
       Kyle olhou para Simon. “Ele sempre fala assim?”
       “Fala.”
       “Alguma coisa o faz calar a boca? Outra além de dar uma surra nele,
é claro.”
       Jace se afastou da janela. “Adoraria ver você tentar.”
       Simon foi para o meio deles. “Eu não vou deixar vocês lutarem um
com o
       Wolfsbane – é uma planta conhecida também por Acônito, Capacete
do diabo, e outros nomes; extremamente venenosa, e causa a morte quase
que instantaneamente.
       “Outro.”
       “E o que você vai fazer se... Ah.” O olhar de Jace voou para a testa
de Simon, e ele sorriu relutante. “Então basicamente você está ameaçando
me transformar em algo que pode salpicar na pipoca se eu não fizer o que
você diz?”
       Kyle ficou confuso. “O que você está—”
       “Eu só acho que vocês dois deviam conversar”, interrompeu Simon.
“Então tá, Kyle é um lobisomem. Eu sou um vampiro. E você não é
exatamente o garoto da porta ao lado, também”, acrescentou para Jace.
“Digo que vamos descobrir o que está acontecendo e prosseguir daí.”
       “Essa sua confiança idiota não tem limites”, disse Jace, mas se
sentou no parapeito da janela. Depois de um momento Kyle também se
sentou, no sofá de futon. Ambos se encaravam. Perfeito, pensou Simon.
Progresso.
       “Certo”, disse Kyle. “Eu sou um lobisomem. Não faço parte de um
bando, mas tenho uma aliança. Você já ouviu falar no Praetor Lupus?”
       “Já ouvi falar de lúpus”, disse Simon. “Não é uma espécie de
doença?”
       Jace lhe lançou um olhar fulminante. “‘Lupus’ significa ‘lobo’”, ele
explicou. “E os pretorianos eram uma força militar da elite romana. Então
acho que a tradução é ‘Lobos Guardiões’.” Deu de ombros. “Já topei com
relatos casuais sobre eles, mas são uma organização muito secreta.”
       “E os Caçadores de Sombras não são?”, disse Kyle.
       “Temos bons motivos.”
       “Nós também.” Kyle se inclinou para frente. Os músculos em seus
braços se flexionaram quando apoiou os cotovelos nos joelhos. “Há dois
tipos de lobisomens”, ele explicou. “O tipo que nasce lobisomem, com pais
lobisomens, e o tipo que é infectado com licantropia através de uma
mordida.” Simon olhou para ele em surpresa. Nunca teria pensado que
Kyle, o preguiçoso mensageiro de bicicleta, teria conhecimento da palavra
“licantropia”, muito menos como pronunciá-la.

       Mas esse era um Kyle muito diferente — focado, atento, direto. “Para
aqueles de nós que são transformados por uma mordida, os primeiros anos
são fundamentais. A descendência demoníaca que causa licantropia causa
um montão de outras coisas — ondas de incontrolável agressão,
incapacidade de controlar a raiva, desespero e fúria suicida. O bando pode
ajudar com isso, mas muitos dos que foram infectados recentemente não
têm tanta sorte de associar-se a uma matilha. Eles ficam sozinhos,
tentando lidar com toda essa situação opressiva, e muitos se tornam
violentos — contra outros e contra si mesmos. Há um alto índice de suicídio
e um alto índice de violência doméstica.” Ele olhou para Simon. “O mesmo
serve para vampiros, exceto que pode ser ainda pior. Um órfão recém-
criado não tem literalmente ideia do que aconteceu com ele. Sem ajuda, ele
não sabe como se alimentar de forma segura, ou até não ficar na luz do sol.
É aonde entramos.”
       “E fazem o quê?” perguntou Simon.
       “Rastreamos Seres do Submundo ‘órfãos’ — vampiros e lobisomens
que acabaram de ser transformados e ainda não sabem o que são. Às vezes
até feiticeiros — alguns deles não percebem o que são por anos. Nós
intervimos, tentamos colocá-los em um bando ou clã, tentamos ajudá-los a
controlar seus poderes.”
       “Bons Samaritanos, vocês são.” Os olhos de Jace brilhavam.
       “Somos mesmo.” Kyle parecia tentar manter a voz neutra. “Nós
intervimos antes que o novo Habitante do Submundo possa ficar violento e
ferir a si ou a outras pessoas. Eu sei o que teria acontecido a mim se não
fosse pela Guarda. Fiz coisas ruins. Muito ruins.”
       “Ruins a que nível?” perguntou Jace. “Ilegalmente ruins?”
       “Cala a boca, Jace”, falou Simon. “Você está de folga. Pare de ser um
Caçador de Sombras por um segundo.” Ele virou para Kyle. “Então, como
você terminou fazendo um teste de audição para a minha porcaria de
banda?”
       “Não percebi que você sabia que era podre.”
       “Só responda a pergunta.”
       “Chegou uma informação de um novo vampiro — um Daylighter,
vivendo sozinho, sem clã. O seu segredo não é tão secreto quanto pensa.
Vampiros novatos sem um clã para ajudá-los podem ser muito perigosos.
Fui despachado para ficar de olho em você.”
       “Então, o que você está dizendo”, disse Simon, “não é só que você
não quer que eu me mude agora porque eu sei que você é um lobisomem,
mas que você não vai me deixar mudar?”
       “Exato”, disse Kyle. “Quero dizer, você pode se mudar, mas vou com
você.”
       “Isso não é necessário”, disse Jace. “Posso ficar perfeitamente de
olho em Simon, obrigado. Ele é o meu Ser do Submundo novato, para zoar
e mandar por aí, não o seu.”
       “Silêncio!” Gritou Simon. “Os dois. Nenhum dos dois estavam por
perto quando alguém tentou me matar hoje mais cedo—”
       “Eu estava”, falou Jace. “Você sabe, no fim.”
       Os olhos de Kyle brilhavam, como os olhos de um lobo na noite.
“Alguém tentou te matar? O que aconteceu?”
       O olhar de Simon encontrou o de Jace no outro lado da sala. Um
acordo em silêncio de não mencionar a Marca de Caim passou entre eles.

“Há dois dias e hoje, fui seguido e atacado por uns caras vestindo agasalhos
de moletom cinza.”
       “Humanos?”
       “Não sabemos ao certo.”
       “E você não tem ideia do que querem com você?”
       “Eles definitivamente me querem morto”, Simon disse. “Com exceção
disso, não sei mesmo, não.”
       “Temos algumas pistas”, falou Jace. “Estaremos investigando.”
       Kyle sacudiu a cabeça. “Tudo bem. O que quer que vocês não
estejam me contando, vou descobrir mais tarde mesmo.” Ele se levantou.
“E agora, estou morto de cansaço. Vou dormir. Vejo você pela manhã”,
disse para Simon. “Você”, ele disse para Jace. “Bem, acho que vejo você
por aí. Você é o primeiro Caçador de Sombras que já conheci.”
       “Isso é mau”, disse Jace, “já que todos os que você conhecer de hoje
em diante serão uma terrível decepção.”
       Kyle revirou os olhos e partiu, fechando com força a porta do quarto
quando passou.
       Simon olhou para Jace. “Você não vai voltar para o Instituto”, disse,
“vai?”
       Jace sacudiu a cabeça. “Você precisa de proteção. Quem sabe quando
alguém pode tentar te matar de novo?”
       “Essa sua paranoia de evitar Clary realmente se tornou uma virada
histórica”, disse Simon, se levantando. “Algum dia você vai voltar para
casa?”
       Jace olhou para ele. “Você vai?”
       Simon foi para a cozinha, pegou uma vassoura e varreu o vidro
quebrado da garrafa. Foi a sua última. Jogou os cacos no lixo e passou por
Jace indo em direção ao seu pequeno quarto, onde tirou a sua jaqueta e
sapatos e se lançou sobre o colchão.
       Um momento depois Jace entrou no quarto. Olhou em volta, suas
sobrancelhas claras erguidas, em sua expressão uma máscara de diversão.
“Você tem bastante espaço aqui. Minimalista. Gostei.”
       Simon rolou para o lado e fitou Jace em descrença. “Por favor, me
diga que você não está planejando ficar no meu quarto.”
       Jace se sentou no parapeito da janela e olhou para ele. “Você não
leva a sério esse negócio de guarda-costas, não é?”
       “Eu nem imaginava que você gostava tanto de mim assim”,
respondeu Simon. “Essa é uma daquelas coisas de mantenha-seus-amigos-
por-perto-e-inimigos-mais-perto-ainda?”
       “Eu achei que era para manter seus amigos por perto para ter
alguém para dirigir o carro quando esgueirar-se sobre a casa do seu inimigo
de noite e vomitar em sua caixa de correspondências.”
       “Tenho certeza que não é isso. E isso de me proteger é menos
tocante do que assustador, só para você saber. Eu estou ótimo. Você viu o
que acontece se alguém tentar me ferir.”
       “É, eu vi”, disse Jace. “Porém, mais cedo ou mais tarde a pessoa que
está tentando te matar vai descobrir sobre a Marca de Caim. E então eles
vão desistir ou encontrar outra maneira de vir até você.” Se inclinou no
caixilho da janela. “E é por isso que estou aqui.”
       Apesar da irritação, Simon não pôde encontrar lacunas no argumento
dele, ou pelo menos não uma grande suficiente para se incomodar. Deitou-

se de barriga para baixo e enterrou o rosto nos braços. Dentro de minutos,
adormeceu.
       Ele estava andando no deserto, sobre a areia quente, ossos velhos
embranquecendo ao sol. Nunca tivera tanta sede. Quando engoliu, sua boca
parecia estar coberta de areia, sua garganta coberta com facas.
       O zumbido agudo do seu celular acordou Simon. Ele rolou na cama e
agarrou exausto a sua jaqueta. Quando tirou o aparelho do bolso, já havia
parado de tocar.
       Ele o virou, para ver quem havia ligado. Era Luke.
       Droga. Aposto que minha mãe ligou para a casa de Clary me
procurando, ele pensou, sentando-se. Seu cérebro ainda estava vago de
sono, e demorou um momento para ele se lembrar que, quando
adormecera no quarto, não estava sozinho.
       Olhou rapidamente para a janela. Jace ainda estava ali, mas
claramente dormia — sentado, sua cabeça encostada no vidro da janela.
Uma luz azul clara do amanhecer infiltrava-se sobre ele. Ele parece
bastante jovem assim, Simon pensou. Sem escárnio na expressão, sem
defensiva ou sarcasmo. Era quase possível imaginar o que Clary viu nele.
       Estava claro que ele não levava seus deveres de guarda-costas tão
seriamente, mas aquilo era óbvio desde o começo. Simon se perguntou,
não pela primeira vez, que diabos estava acontecendo entre Clary e Jace.
       O telefone voltou a zumbir. Levantando-se com um impulso, Simon
se direcionou para a sala de estar, atendendo logo antes da ligação cair em
caixa postal de novo. “Luke?”
       “Desculpe por acordá-lo, Simon.” Luke estava, como sempre,
infalivelmente cortês.
       “Já estava acordado mesmo”, mentiu Simon.
       “Preciso que você me encontre no Washington Square Park em meia-
hora”, disse Luke. “Na fonte.”
       Agora Simon ficou seriamente alarmado. “Está tudo bem? Clary está
bem?”
       “Ela está ótima. Não se trata dela.” Houve um ruído retumbante no
fundo. Simon supôs que Luke estava dando a partida em seu caminhão. “Só
me encontre no parque. E não traga ninguém com você.”
       Ele desligou.
       ????
       O barulho do caminhão de Luke saindo da rua acordou Clary de seus
sonhos inquietos. Ela se sentou e estremeceu. A corrente no seu pescoço se
prendera em seu cabelo enquanto dormia, e ela a puxou sobre a cabeça,
cuidadosamente desfazendo o emaranhado.
       Ela baixou o anel na sua palma, a corrente caindo em volta. O
pequeno círculo de prata, marcado com seu conjunto de estrelas, parecia
piscar para ela zombeteiramente. Lembrou-se de quando Jace o havia dado
para ela, enrolado na nota que deixara para trás quando foi caçar Jonathan.
Apesar de tudo, não posso suportar o pensamento de esse anel ser perdido
para sempre, não mais do que posso suportar o pensamento de deixar você
para sempre.
       Aquilo havia sido a dois meses atrás. Ela tinha certeza que ele a
amava, tão certa que a Rainha da Corte Seelie não foi capaz de provocá-la.
Como poderia querer outra coisa, quando tinha Jace?

      Mas talvez você nunca teve alguém mesmo, pensou agora. Talvez,
independente de quanto você as amam, elas podem escorregar dos seus
dedos como água, e não há nada que possa fazer a respeito.
      Ela entendia por que as pessoas falavam sobre corações “partidos”;
sentia como se o dela fosse feito de vidro quebrado, e os cacos fossem
como minúsculas facas dentro de seu peito quando ela respirava. Imagine
sua vida sem ele, a Rainha de Seelie dissera—
       O telefone tocou, e por um momento Clary apenas, se sentiu aliviada
que alguma coisa, qualquer coisa, pudesse interromper sua miséria. O
segundo pensamento foi: Jace. Talvez ele não pudesse conseguir ligar para
o seu celular e estava ligando para a sua casa. Ela pousou o anel no criado-
mudo e estendeu a mão para pegar o fone do gancho. Estava prestes a
dizer “alô” quando percebeu que o telefone já havia sido atendido, por sua
mãe.
       “Alô?” Sua mãe parecia ansiosa, e surpreendentemente acordada,
apesar de ser tão cedo na manhã.
       A voz que respondeu não era familiar, com um sotaque fraco. “É
Catarina do hospital Beth Israel. Estou procurando Jocelyn.”
       Clary congelou. O hospital? Será que algo aconteceu, talvez com
Luke? Ele havia saído extremamente rápido —“
       “Eu sou Jocelyn.” Sua mãe não parecia assustada, mas era mais
como se esperasse a ligação. “Obrigada por ligar de volta tão rápido.”
       “É claro. Fiquei feliz em ouvir sobre você. Não é todo dia que vê
pessoas se recuperarem de uma maldição como a que você estava
sofrendo.” Certo, pensou Clary. Sua mãe estivera no Beth Israel, em coma,
devido os efeitos da poção que
       tomara para impedir que Valentine a interrogasse. “E um amigo de
Magnus Bane também é meu amigo.”
       Jocelyn pareceu cansada. “Minha mensagem fez sentido? Sabe do
que eu estava falando?”
       “Você queria saber sobre a criança”, disse a mulher no outro lado da
linha. Clary sabia que devia desligar, mas não podia. Que criança? O que
estava acontecendo? “A que foi abandonada.”
       A voz de Jocelyn gaguejou por um instante. “S-sim. Eu pensei—”
       “Sinto muito em dizer isso, mas ele faleceu. Morreu ontem à noite.”
       Por um momento Jocelyn ficou em silêncio. Clary podia sentir o
choque da mãe através da linha telefônica. “Morreu? Como?”
       “Não tenho certeza se eu mesma consigo entender. O padre veio na
noite passada para batizar a criança, e—“
       “Ah, meu Deus.” A voz de Jocelyn ficou abalada. “Eu posso — eu
poderia ir aí e olhar o corpo?”
       Houve um longo silêncio. Finalmente a enfermeira disse, “Não acho
que isso seja uma boa ideia. O corpo está no necrotério agora, esperando
transferência para o escritório do examinador médico.”
       “Catarina, acho que sei o que aconteceu com o garoto.” Jocelyn soou
ofegante. “E se eu puder confirmar isso, talvez possa impedir que isso
aconteça outra vez.”
       “Jocelyn—”
       “Estou indo”, a mãe de Clary disse, e desligou o telefone. Clary
encarou confusa o fone por um momento antes de desligar. Ela se levantou,
penteou rapidamente o cabelo, vestiu jeans e um suéter e saiu pela porta

do quarto bem a tempo de pegar a mãe na sala de estar, escrevendo às
pressas uma nota no bloco de papel ao lado do telefone. Ela ergueu o olhar
quando Clary entrou, e olhou para ela com um ar culpado.
       “Eu só estava dando uma saída”, ela disse. “Algumas coisas de última
hora do casamento surgiram, e—”
       “Nem se preocupe em mentir para mim”, disse Clary sem hesitação.
“Eu estava ouvindo no telefone, e sei exatamente para onde você vai.”
       Jocelyn empalideceu. Lentamente abaixou a caneta. “Clary—”
       “Você tem que parar de tentar me proteger”, disse Clary. “Eu aposto
que você não disse nada para Luke também sobre ligar para o hospital.”
       Jocelyn puxou o cabelo para trás, nervosa. “Não parece justo para
ele. Com o casamento chegando e tudo—”
       “Beleza. O casamento. Você vai ter um casamento. E por que isso?
Porque vai se casar. Você não acha que já é hora de confiar em Luke? E
confiar em mim?”
       “Eu confio em você”, disse Jocelyn suavemente.
       “Nesse caso, não se importaria de eu ir junto com você para o
hospital.”
       “Clary, eu não acho—”
       “Eu sei o que você acha. Você acha que isso é o mesmo que
aconteceu com Sebastian — quero dizer, Jonathan. Você acha que alguém
está lá fora fazendo com bebês o que Valentine fez com meu irmão.”
       A voz de Jocelyn se abalou levemente. “Valentine está morto. Mas
existem outros que estavam no Ciclo que nunca foram pegos.”
       E eles nunca encontraram o corpo de Jonathan. Não era um dos
assuntos favoritos de Clary. Além disso, Isabelle estivera lá e sempre fora
inflexível que Jace ceifara a espinha de Jonathan com a lâmina de uma
adaga e que Jonathan ficou bem, bem morto como resultado. Ela
mergulhou na água e checou, ela tinha dito. Não havia pulso, nem um
batimento cardíaco.
       “Mãe”, falou Clary. “Ele era meu irmão. Eu tenho o direito de ir com
você.”
       Bem lentamente Jocelyn assentiu. “Você tem razão. Acho que tem.”
Ela pegou a bolsa pendurada num pegador na porta. “Bem, vamos, então, e
pegue um casaco. A previsão do tempo diz que poderia chover.”
       ????
       Pela manhã, cedo, o Washington Square Park estava quase deserto.
O vento era refrescante e a manhã clara, as folhas já grossamente cobrindo
a calçada em linhas de vermelho, ouro e verde escuro. Simon as chutou
para o lado quando passou debaixo da arcada da pedra no fim do sul do
parque.
       Havia poucas pessoas em volta — alguns homens sem teto dormindo
em bancos, enrolados em sacos de dormir ou cobertores velhos, e alguns
garotos vestindo uniformes verde do saneamento esvaziando as latas de
lixo. Havia um homem que empurrava um carrinho pelo parque, vendendo
rosquinhas, cafés e bagels21 já cortados. E no centro do parque, perto da
grande fonte de pedra circular, estava Luke. Ele estava vestindo um blusão
verde com o zíper fechado e acenou quando viu Simon.
       Simon acenou em retorno, com um pouco de receio. Ele ainda não
tinha certeza se estava em algum tipo de problema. A expressão de Luke,
conforme Simon se aproximava, só intensificava o pressentimento dele.

Luke parecia cansado e mais do que um pouco estressado. Seu olhar,
quando caiu em Simon, era de total preocupação.
       “Simon”, ele disse. “Obrigado por vir.”
       “Sem problemas.” Simon não estava com frio, mas enfiou as mãos
nos bolsos de sua jaqueta mesmo assim, só para dar a elas algo do que
fazer. “Qual é o problema?”
       “Eu não disse nada sobre problemas.”
       “Você não me arrastaria para cá no início da manhã se não houvesse
nenhum problema”, ressaltou Simon. “Se não tem nada a ver com Clary,
então...?”
       “Ontem, na loja de noiva”, disse Luke. “Você me perguntou sobre
alguém. Camille.”
       Um bando de pássaros voou, gralhando, das árvores próximas.
Simon se lembrou de uma rima que a mãe costumava recitar para ele sobre
pegas, um tipo de corvo. Você devia contá-las e dizer: Um para sofrimento,
dois para alegria, três para casamento, quatro para o nascimento; cinco
para a prata, seis para ouro, sete para um mistério que nunca foi falado.22
       “Certo”, disse Simon. Ele já perdera a conta do número de pássaros
que havia ali. Sete, supôs. Um mistério que nunca foi falado. Seja lá o que
fosse.
       “Você sabe sobre os Caçadores de Sombras que foram encontrados
mortos
       Tipo de pão parecido com a rosquinha.
       Minha adaptação. Em inglês: One for sorrow, two for mirth, three for
a wedding, four for a birth; five for silver, six for gold, seven for a secret
that’s never been told.
       Na cidade na semana passada mais ou menos”, disse Luke. “Não
sabe?”
       Simon assentiu lentamente. Tinha um mau pressentimento sobre
onde aquilo ia chegar.
       “Parece que Camille é a responsável”, disse Luke. “Não pude deixar
de lembrar que você perguntou sobre ela. Ouvir o nome dela duas vezes,
num único dia, depois de anos de nunca o ouvir nem uma vez sequer —
pareceu como uma boa coincidência.”
       “Coincidências acontecem.”
       “Às vezes”, concordou Luke, “mas raramente são a resposta mais
provável. Hoje à noite Maryse vai convocar Raphael para interrogá-lo sobre
o papel de Camille nesses assassinatos. Se for descoberto que você sabe
algo sobre Camille — que teve contato com ela —, não quero que você seja
surpreendido, Simon.”
       “Isso faz dois de nós.” A cabeça de Simon começou a martelar.
Vampiros ao menos deviam ter dor de cabeça? Ele não conseguia se
lembrar da última vez que tivera uma, antes do que aconteceu nos dias que
se passaram. “Eu encontrei Camille”, disse. “Faz uns quatro dias atrás. Eu
achei que quem estava me chamando era Raphael, mas não, era ela. Ela
me ofereceu um acordo. Se eu trabalhasse para ela, ela me tornaria o
segundo vampiro mais importante na cidade.”
       “Por que queria que você trabalhasse para ela?” O tom de Luke
estava neutro.
       “Ela sabe sobre a minha Marca”, disse Simon. “Disse que Raphael a
traiu e ela poderia me usar para recuperar o controle do clã. Eu tive a
sensação de que ela não tinha grande afeição por Raphael.”

       “Bastante curioso”, disse Luke. “A história que ouvi é que Camille
ficou ausente por tempo indefinido da liderança do clã por
aproximadamente um ano e tornou Raphael seu sucessor temporário. Se
ela o escolheu para comandar no seu lugar, por que se moveria contra ele?”
       Simon deu de ombros. “Eu não sei. Estou só te contando o que ela
disse.”
       “Por que você não nos contou sobre ela, Simon?” Luke disse bem
calmamente.
       “Ela me disse para não fazer isso.” Simon percebeu como estava
soando estúpido. “Eu nunca encontrei uma vampira como ela antes”, ele
acrescentou.
       “Só Raphael e os outros no Dumont. É difícil explicar como ela era.
Tudo que dizia, você queria acreditar. Tudo que pedia pra você fazer, você
queria fazer. Queria satisfazê-la mesmo sabendo que só queria fazer hora
comigo.”
       O homem com o carrinho de café e rosquinhas passava novamente.
Luke comprou café e um bagel e se sentou na beira da fonte. Depois de um
momento, Simon se juntou a ele.
       “O homem que me deu o nome de Camille a chamou de ‘a anciã’“,
contou Luke. “Ela é, eu acho, uma dos vampiros muito, muito velhos desse
mundo. Imagino que iria fazer a maioria das pessoas se sentir pequenas
diante dela.”
       “Ela fez eu me sentir um inseto”, disse Simon. “Prometeu que, em
cinco dias, se eu não quisesse trabalhar para ela, nunca me incomodaria
novamente. Então eu falei que iria pensar a respeito.”
       “E fez isso? Pensou a respeito?”
       “Se ela está matando Caçadores de Sombras, não quero ter nenhuma
relação com ela”, disse Simon. “Só posso te dizer isso.”
       “Tenho certeza que Maryse ficará aliviada em ouvir isso.”
       “Agora você está só sendo sarcástico.”
       “Não estou”, disse Luke, parecendo bem sério. Era em momentos
como esse que Simon podia pôr de lado suas memórias de Luke — espécie
de padrasto de Clary, o cara que estava sempre por perto, que sempre
queria lhe dar uma carona para casa do colégio ou emprestar dez pratas
para você comprar um livro ou ingressos de cinema — e lembrar que ele
liderava o maior bando de lobisomens da cidade, que ele era alguém que,
em momentos cruciais, toda a Clave ouvia. “Você esquece do que é, Simon.
Você esquece do poder que tem.”
       “Eu queria poder esquecer”, Simon disse amargamente. “Queria que,
se não o usasse, ele simplesmente fosse embora.”
       Luke sacudiu a cabeça. “Poder é um ímã. Atrai aqueles que o
desejam. Camille é um deles, mas haverá outros. Temos tido sorte, de uma
maneira, de isso ter demorado tanto.” Ele olhou para Simon. “Você acha
que, se ela o convocar novamente, você poderia contar para mim, ou para a
Clave, avisando-nos onde encontrá-la?”
       “Claro”, Simon disse lentamente. “Ela me deu uma maneira de
contatá-la. Mas não é como se ela fosse aparecer se eu soprasse um apito
mágico. Da última vez que ela quis falar comigo, ela fez os subordinados
me surpreenderem e então me levar até ela. Então só ter pessoas andando
comigo enquanto tento contatá-la não vai funcionar. Se for assim, vamos
conseguir os seus subjugados, não ela.”

        “Hmm.” Luke pareceu considerar aquilo. “Teremos então que pensar
em algo inteligente.”
        “Melhor pensar rápido. Ela disse que me daria cinco dias, então isso
significa que amanhã irá esperar algum tipo de sinal meu.”
        “Imagino que sim”, disse Luke. “Na verdade, estou contando com
isso.”
        ????
        Simon abriu a porta da frente do apartamento de Kyle com cautela.
“Oi?” Ele chamou, entrando no ambiente e pendurando sua jaqueta. “Tem
alguém em casa?”
        Ninguém respondeu, mas da sala de estar Simon pôde ouvir os
familiares barulhos de zap-bang-crash de um vídeo game sendo jogado.
Entrou no quarto, com as mãos estendidas na frente como um pedido de
paz, oferecendo o saco branco de bagels que comprara da Bagel Zone na
Avenida A. “Trouxe o café da manhã...”
        Sua voz falhou. Ele não tinha certeza do que esperava quando os
seus guarda-costas autodesignados descobrissem que saíra do apartamento
sem ser visto. Definitivamente envolveria alguma frase como “Faça isso de
novo e eu te mato.” O que não envolvia era Kyle e Jace, sentados no sofá
futon lado a lado, parecendo melhores amigos recentemente inventados.
Kyle estava com um controle de vídeo game nas mãos e Jace estava
inclinado para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, assistindo
atentamente. Mal pareceram notar a entrada de Simon.
        “O cara ali no canto está olhando totalmente para o outro lado”,
observou Jace, apontando para a tela da TV. “Um chute na bunda dele pode
deixá-lo fora de serviço.”
        “Eu não posso chutar nas pessoas nesse jogo. Só posso atirar nelas.
Está vendo?” Kyle apertou alguns botões.
        “Isso é ridículo.” Jace levantou o olhar e pareceu ver Simon pela
primeira vez. “De volta do seu encontro de café-da-manhã, estou vendo”,
ele disse sem boas-vindas no tom. “Aposto que se achou muito inteligente,
saindo em silêncio daquele jeito.”
        “Meio inteligente”, Simon confessou. “Como um cruzamento entre
George Clooney daquele filme ‘Onze Homens e Um Segredo’ e aqueles
Caçadores de Mitos, mas, sabe, mais bonito.”
        “Fico tão feliz que não tenho ideia do que você está vagamente
falando”, disse Jace. “Me enche com uma sensação de paz e bem-estar.”
        Kyle abaixou o controle, deixando a tela congelada na imagem de
uma grande arma com ponta de agulha. “Quero um bagel.”
        Simon jogou-lhe um, e Kyle foi para a cozinha, que era separada da
sala de estar por um longo balcão, para torrar e passar manteiga no café-
da-manhã. Jace olhou para o saco branco e acenou uma mão em sinal de
recusa. “Não, obrigado.”
        Simon se se sentou à mesa de café. “Você devia comer alguma
coisa.”
        “Olha quem está falando.”
        “Estou sem sangue agora”, disse Simon. “A menos que você esteja
oferecendo.”
        “Não, obrigado. Já passamos por essa antes, e acho que é melhor
sermos só amigos.” O tom de Jace estava levemente sarcástico como
sempre, mas de perto, Simon pôde ver como ele estava pálido, e que os

olhos estavam cercados por sombras cinza. Os ossos do rosto pareciam
estar mais protuberantes do que já estiveram antes.
        “Cara”, disse Simon, empurrando o saco na mesa para Jace. “Você
devia comer alguma coisa. Falando sério.”
        Jace olhou para o saco de comida, e estremeceu. As pálpebras dos
olhos estavam azul-acinzentados de exaustão. “Para ser honesto, o
pensamento me dá enjoo.”
        “Você caiu no sono ontem à noite”, disse Simon. “Quando devia estar
me protegendo. Eu sei que isso de ser meu guarda-costas é mais como uma
brincadeira para você, mas mesmo assim. Faz quanto tempo desde que
você dormiu pela última vez?”
        “Você quer dizer, durante a noite?” Jace considerou. “Duas semanas.
Talvez três.”
        Simon ficou boquiaberto. “Por quê? Quero dizer, o que está
acontecendo?”
        Jace abriu o fantasma de um sorriso. “‘Eu poderia viver recluso numa
casca de noz e me considerar rei do espaço infinito, se não fosse meus
sonhos ruins.’”
        “Na verdade, sei essa. Hamlet. Então você está dizendo que não pode
dormir porque está tendo pesadelos?”
        “Vampiro”, Jace falou, com uma certeza cansada, “você não tem
ideia.”
        “Ei.”Kyle voltou, passando pelo balcão, e se jogou na poltrona áspera.
Ele deu uma mordida no bagel. “O que está acontecendo?”
        “Eu fui encontrar Luke”, disse Simon, explicando o aconteceu, não
vendo motivo para esconder isso. Deixou de fora a menção de Camille
querer ele não só porque é um Daylighter, mas também por causa da Marca
de Caim. Kyle assentiu quando terminou. “Luke Garroway. Ele é o líder do
bando do centro da cidade. Ouvi falar dele. O maior figurão.”
        “O nome verdadeiro não é Garroway”, disse Jace. “Antes ele era um
Caçador de Sombras.”
        “Claro. Ouvi isso também. E agora ele colabora com todo esse
negócio de Acordos.” Kyle olhou para Simon. “Você conhece algumas
pessoas importantes.”
        “Pessoas importantes são cheias de problemas”, disse Simon.
“Camille, por exemplo.”
        “Quando Luke contar a Maryse o que está acontecendo, a Clave vai
cuidar dela”, disse Jace. “Há protocolos para lidar com Seres do Submundo
selvagens.” Nesse ponto, Kyle olhou para ele de lado, mas Jace não pareceu
notar. “Já te disse que não acho que ela seja a pessoa que queira te matar.
Ela sabe —” Jace parou bruscamente. “Ela sabe ser mais esperta que isso.”
        “E, além disso, quer te usar”, disse Kyle.
        “Exatamente”, disse Jace. “Ninguém iria querer matar um recurso
valioso.”
        Simon olhou de um para o outro, e sacudiu a cabeça. “Quando vocês
dois ficaram tão íntimos? Na noite passada era tudo, ‘Eu sou o maior
guerreiro da elite!’ ‘Não, eu sou o maior guerreiro da elite!’ E hoje vocês
estão jogando Halo e trocando boas ideias.”
        “Percebemos que temos algo em comum”, disse Jace. “Você aborrece
a nós dois.”
        “Dessa mesma maneira, pensei em uma coisa”, falou Simon. “Mas
não acho que vocês vão gostar.”

         Kyle ergueu as sobrancelhas. “Vamos ouvir o que é.”
         “O problema de vocês me vigiando todo o tempo”, disse Simon, “é
que se fizerem isso, quem está tentando me matar não vai tentar de novo,
e se não tentarem de novo, então não descobriremos quem são, e mais,
vocês terão que me vigiar o tempo todo. E assumo que prefiram fazer
outras coisas. Bem”, disse na direção de Jace, “possivelmente você não.”
         “Então?” Disse Kyle. “Qual é a sua sugestão?”
         “Os atraímos. Fazemos eles atacar outra vez. Tentamos capturar um
deles e descobrir quem os está mandando.”
         “Se eu me lembro bem”, disse Jace, “tive essa mesma ideia outro
dia, e você não gostou muito.”
         “Eu estava cansado”, respondeu Simon. “Mas agora estou pensando.
E até agora, em minha experiência com malfeitores, eles não vão embora
só porque você os ignora. Eles continuam vindo de formas diferentes. Então
eu faço esses caras virem até mim, ou passo a eternidade esperando eles
me atacarem de novo.”
         “Estou dentro”, Jace disse, apesar de Kyle ainda estar em dúvida.
“Então você só quer sair e andar por aí até que eles apareçam de novo?”
         “Eu achei que seria melhor facilitar para eles. Aparecer onde todo
mundo sabe que é onde eu devia estar.”
         “E você se refere a...?” Disse Kyle.
         Simon apontou para o panfleto na geladeira. MILLENNIUM LINT, 16
de OUTUBRO, O ALTO BAR, BROOKLYN. 9h da NOITE. “Me refiro à
apresentação. Por que não?” Sua dor de cabeça ainda estava ali, forte; ele
a ignorou, tentando não pensar em como estava exausto, ou como reagiria
na apresentação. Tinha que conseguir mais sangue de alguma forma. Tinha.
         Os olhos de Jace brilhavam. “Sabe, essa é na verdade uma ideia
muito boa, vampiro.”
         “Você quer que eles te ataquem no palco?” Perguntou Kyle.
         “Vai deixar o show mais legal”, disse Simon, com mais fanfarrice do
que tinha. A ideia de ser atacado mais uma vez era quase mais do que
poderia aguentar, mesmo se não temesse sua segurança pessoal. Ele não
tinha certeza se podia suportar observar a Marca de Caim fazer seu trabalho
novamente.
         Jace sacudiu sua cabeça. “Eles não atacam em público. Irão esperar
até depois do show. E estaremos lá para cuidar deles.”
         Kyle balançou a cabeça. “Eu não sei...”
         A discussão demorou mais um pouco, Jace e Simon em um lado do
argumento e Kyle no outro. Simon sentiu um pouco de culpa. Se Kyle
soubesse sobre a Marca, ele seria muito mais fácil de persuadir. No fim,
este desistiu por causa da pressão e relutantemente concordou com o que
continuava a insistir que era um “plano estúpido”.
         “Mas”, disse finalmente, se levantando e tirando migalhas de bagel
da camisa, “eu só vou fazer isso porque sei que vocês dois vão fazer isso
independente de eu concordar. Então também preciso estar lá.” Ele olhou
para Simon. “Quem imaginaria que proteger você de si mesmo seria tão
difícil.”
         “Eu poderia ter dito para você isso”, disse Jace, quando Kyle vestiu
uma jaqueta e foi para a porta. Ele tinha que trabalhar, explicou para eles.
Parecia que ele era mesmo um mensageiro de bicicleta; o Praetor Lupus,
apesar de ter um nome durão, não pagava tão bem. A porta se fechou atrás

dele, e Jace virou para Simon. “Então, a apresentação é as nove, certo? O
que faremos até lá?”
       “Nós?” Simon olhou para ele em descrença. “Você não vai voltar para
casa?”
       “Que foi, já está cansado da minha companhia?”
       “Deixe-me perguntar uma coisa”, disse Simon. “Você me acha
fascinante de ter por perto?”
       “Que foi isso?” Disse Jace. “Desculpe, acho que cai no sono por um
instante. Continue com a coisa hipnotizante que estava dizendo.”
       “Para com isso”, disse Simon. “Para de ser sarcástico por um
segundo. Você não está comendo, não está dormindo. Sabe quem mais não
está? Clary. Eu não sei o que está acontecendo com você e ela, porque
francamente ela não tem dito nada a respeito. Eu acho que também não
quer falar sobre isso. Mas é bastante óbvio que vocês estão brigando. E se
for terminar com ela—”
       “Terminar com ela?” Jace o encarou. “Você está maluco?”
       “Se você continuar a evitando”, disse Simon, “ela vai terminar com
você.”
       Jace se levantou. Seu relaxamento fácil se foi; Ele agora estava todo
tenso, como um gato alerta. Ele foi para a janela e puxou a cortina agitado;
a luz da manhã passou pela brecha, clareando a cor dos seus olhos. “Eu
tenho motivos pelas coisas que faço”, ele disse finalmente.
       “Ótimo”, Simon disse. “Clary sabe quais são?”
       Jace não disse nada.
       “Tudo o que ela faz é amar você e confiar em você”, Simon disse.
“Você deve uma a ela—”
       “Há coisas mais importantes do que honestidade”, disse Jace. “Você
acha que eu gosto de machucá-la? Você acha que eu gosto de saber que
estou deixando-a zangada, talvez a fazendo me odiar? Por que você acha
que eu estou aqui?” Ele olhou para Simon com um tipo gélido de raiva. “Eu
não posso ficar com ela”, ele disse. “E se não posso ficar com ela, não
importa para mim onde estou. Eu poderia também ficar com você, porque
pelo menos se ela soubesse que eu estava tentando te proteger, isso
poderia deixá-la feliz.”
       “Então você está tentando deixá-la feliz apesar do fato que o motivo
de ela estar infeliz é você”, disse Simon, não muito gentil. “Isso parece
contraditório, não parece?”
       “O amor é uma contradição”, disse Jace, e virou de volta para a
janela.

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