sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

14

Capítulo 14
QUE SONHOS PODEM VIR
       JACE SE JOGOU INQUIETO NA ESTREITA CAMA NA CIDADE DO
Silêncio. Ele não sabia onde os Irmãos dormiam, e eles não pareciam muito
animados a revelá-lo. O único lugar ali que parecia ser para ele dormir era
em uma das celas abaixo da Cidade onde normalmente mantinham
prisioneiros. Eles deixaram a porta aberta para ele, para que assim, ele não
se sentisse que estava na cadeia, mas o lugar não podia nem pelo máximo
esforço de imaginação ser chamado de agradável.
       O ar era denso e grosso; ele tirara a camisa e se deitou nas cobertas
usando apenas seus jeans, mas ainda estava muito quente.
       As paredes eram um cinza maçante. Alguém escrevera as letras JG
na pedra logo acima da armação da cama, deixando-o a imaginar o que
aquilo significava — e não havia mais nada no quarto a não ser a cama, um
espelho rachado que lhe dava o seu próprio reflexo em pedaços torcidos e a
pia. Sem mencionar as mais que desagradáveis recordações que o quarto
trazia à tona.
       Os Irmãos entraram e saíram de sua mente a noite toda, até que ele
se sentiu um trapo torcido. Já que eles eram tão sigilosos sobre tudo, ele
não tinha ideia se haviam feito algum progresso. Eles não pareciam
satisfeitos, mas, por outro lado, eles nunca pareciam.
       O verdadeiro teste, ele sabia, era dormir. O que ele sonharia?
Dormir: possivelmente para sonhar. Ele virou depressa, escondeu o rosto
nos braços. Ele não achava que podia aguentar algum outro sonho sobre
ferir Clary. Ele achou que podia realmente perder a cabeça, e a ideia o
assustou. O prospecto de morrer nunca lhe assustara muito, mas o
pensamento de ir à loucura era quase a pior coisa que podia imaginar. Mas
dormir era o único jeito de saber. Ele fechou os seus olhos e decidiu dormir.
       Ele dormiu, e sonhou.
       Ele estava de volta no vale — o vale em Idris onde lutara com
Sebastian e quase morrera. Era outono no vale, não verão como havia sido
da última vez que estivera ali. As folhas explodiam em ouro, rubro, laranja
e vermelho. Ele estava de pé na margem do pequeno rio — um riacho, na
verdade — que cortava o vale ao meio. À distância, vindo até ele, estava
alguém, alguém que ainda não conseguia ver claramente, mas as passadas
dessa pessoa eram diretas e determinadas.
       Ele tinha tanta certeza que era Sebastian que não foi até a figura
chegar perto suficiente para ver claramente, que ele percebeu que não
podia ser. Sebastian era alto, mais alto que Jace, mas essa pessoa era
pequena — o rosto na sombra, mas uma cabeça ou duas mais baixo que

Jace — e magra, com os ombros finos da infância, e pulsos esqueléticos
saindo das mangas muito curtas de sua camisa.
      Max.
      A visão do irmão menor atingiu Jace como um soco, e ele caiu de
joelhos na grama verde. A queda não doeu. Tudo tinha as margens
acolchoadas do sonho que era. Max tinha a mesma aparência de sempre.
Um garoto de joelhos arredondados bem na beirada do crescimento e
saindo daquele estágio de criancinha. Agora nunca sairia.
      “Max”, disse Jace. “Max, sinto muito.”
      “Jace.” Max ficou onde estava. Um pouco de vento veio e levantou o
cabelo castanho do seu rosto. Seus olhos, atrás dos óculos, estavam sérios.
“Não estou aqui por minha causa”, disse ele. “Não estou aqui para te
assombrar ou fazer você se sentir culpado.”
       Claro que não está, disse uma voz na cabeça do Jace. Max sempre
adorou você, venerou você, achou que você era maravilhoso.
       “Os sonhos que você está tendo”, disse Max. “Eles são mensagens.”
       “Os sonhos são influência de um demônio, Max. Os Irmãos do
Silêncio disseram—”
       “Eles estão errados”, Max exclamou rapidamente. “Há só alguns
poucos deles agora, e seus poderes estão mais fraco do que costumava ser.
Esses sonhos querem te dizer alguma coisa. Você não está os entendendo
direito. Não estão te dizendo para ferir Clary. Estão te alertando do que
você já é.”
       Jace sacudiu a cabeça lentamente. “Não entendo.”
       “Os anjos me mandaram para falar com você porque te conheço”,
disse Max, na sua clara voz de criança. “Eu sei como você está com as
pessoas que ama, e nunca iria feri-los deliberadamente. Mas você não
destruiu toda a influência do Valentine dentro de si ainda. A voz dele ainda
sussurra para você, e você não acha que a ouve, mas ouve. Os sonhos
estão dizendo que até matar essa parte de você, você não pode ficar com
Clary.”
       “Então eu a matarei”, disse Jace. “Farei o que tenho que fazer. Só me
diga como.”
       Max abriu um alegre sorriso e estendeu algo na sua mão. Era uma
adaga com o cabo prateado — a adaga com o cabo prateado de Stephen
Herondale, a da caixa. Jace a reconheceu imediatamente. “Pegue isso”,
instruiu Max. “E vire-a contra si. A parte de você que está aqui no sonho
comigo deve morrer. O que acordará depois será o purificado.”
       Jace pegou a faca.
       Max sorriu. “Bom. Há vários de nós aqui no outro lado que estão
preocupados com você. Seu pai está aqui.”
       “Não Valentine—”
       “Seu pai real. Ele me disse para falar para você usar isso. Ceifará
tudo o que está corrompido em sua alma.”
       Max sorriu como um anjo quando Jace virou a faca para si, a lâmina
para dentro. Então, no último momento, Jace hesitou. Era muito perto do
que Valentine fizera com ele, perfurando-o no coração. Ele pegou a lâmina
e cortou uma longa incisão no seu antebraço direito, do cotovelo até o
pulso. Não houve dor. Trocou a faca para a mão direita e fez o mesmo no
outro braço. Sangue verteu nos longos cortes dos braços, um vermelho

mais claro do que o sangue da cor de rubis na vida real. Ele derramou de
sua pele e caiu na grama.
       Ele ouviu Max soltar o fôlego suavemente. O garoto se curvou e tocou
o sangue com os dedos da mão direita. Quando os levantou, brilhavam em
escarlate. Ele deu um passo em direção ao Jace, depois outro. De tão perto,
Jace podia ver claramente o rosto de Max — sua pele perfeita de criança, a
translucidez das pálpebras, os seus olhos — Jace não se lembrava dele
tendo olhos tão negros. Max pôs as mãos na pele do peito do Jace, logo
acima do coração, e com o sangue começou a traçar um desenho ali, uma
runa. Não uma que Jace já tenha visto antes, com cantos sobrepostos e
estranhos ângulos à sua forma.
       Terminado, Max abaixou a mão e recuou, a cabeça inclinada para o
lado, um artista examinando seu mais recente trabalho. Uma súbita onda
de agonia passou por Jace. Sentiu como se a sua pele no peito queimasse.
Max o observava parado, sorrindo, flexionando a mão ensanguentada. “Isso
machuca você, Jace Lightwood?” disse, e sua voz não era mais a de Max,
mas de outro alguém, alta, áspera e familiar.
       “Max —”, sussurrou Jace.
       “Como você lidou com a dor, agora a dor lidará com você”, disse
Max, cujo rosto começara a brilhar e mudar. “Como causou mágoa, sentirá
mágoa. Você é meu agora, Jace Lightwood. Você é meu.”
       A agonia o cegava. Jace caiu para frente, as mãos arranhando o
peito, e ele tombou para a escuridão.
       ????
       Simon se sentou no sofá, seu rosto nas mãos. Sua mente zunia. “A
culpa é minha”, ele disse. “Eu poderia também ter matado Maureen quando
bebi o sangue dela. Está morta por minha causa.”
       Jordan se esparramou na poltrona oposta a ele. Ele estava vestindo
jeans e uma camiseta verde sobre uma camisa térmica de mangas longas
com buracos nos punhos dessas mangas; ele estava com os dedos nesses
buracos, preocupado com o assunto. A medalha dourada do Praetor Lupus
no seu pescoço brilhava. “Qual é”, disse. “Não tinha como você saber. Ela
estava bem quando a pus no táxi. Aqueles caras devem ter pegado e
matado-a depois.”
       Simon sentiu a cabeça leve. “Mas eu a mordi. Não vai voltar, não é?
Não vai se tornar uma vampira?”
       “Não. Qual é, você sabe dessas coisas melhor do que eu. Você teria
que ter dado a ela um pouco do seu sangue para ela se tornar uma
vampira. Se ela tivesse bebido seu sangue e depois morrido, é, nós
estaríamos lá no cemitério em vigilância. Mas ela não bebeu. Quero dizer,
acho que você lembraria de ter feito algo assim.”
       Simon sentiu o gosto de sangue azedo no fundo da garganta.
“Acharam que ela era minha namorada”, disse ele. “Alertaram-me que a
matariam se eu não aparecesse, e quando não fui, eles cortaram a garganta
dela. Ela deve ter esperado lá o dia inteiro, imaginando se eu iria.
Esperando que eu aparecesse—” Seu estômago revirou, e ele se inclinou,
respirando com dificuldade, tentando afastar os engasgos.
       “Sim”, disse Jordan, “mas a questão é: quem são eles?” Deu um
olhar severo a Simon. “Eu acho que agora é a hora de você ligar para o
Instituto. Não amo os Caçadores de Sombras, mas sempre ouvi que os
arquivos deles são incrivelmente completos. Talvez eles tenham alguma
informação sobre o endereço na nota.”

       Simon hesitou.
       “Qual é”, disse Jordan. “Você já fez muita bosta para eles. Deixe-os
fazerem algo por você.”
       Dando de ombros, Simon foi pegar o telefone. Voltando à sala de
estar, discou o número do Jace. Isabelle atendeu ao telefone no segundo
toque. “Você de novo?”
       “Desculpe-me”, disse Simon, desajeitado. Aparentemente aquele
pequeno intervalo no Santuário não suavizara a situação de Simon tanto
quanto esperava. “Eu estava procurando Jace, mas acho que posso falar
com você—”
       “Encantador como sempre”, disse Isabelle. “Eu achei que Jace estava
com você.”
       “Não.” Simon sentiu uma agitação de preocupação. “Quem te disse
isso?”
       “Clary”, respondeu Isabelle. “Talvez eles só estejam andando juntos
por um tempinho.” Ela não parecia preocupada, o que fazia sentido; a
última pessoa que mentiria sobre o paradeiro de Jace se ele estivesse em
apuros era Clary. “Bom,
       Jace deixou o telefone no quarto. Se você o ver, lembre-o que tem
que estar na festa na Ironworks hoje à noite. Se ele não aparecer, Clary vai
matá-lo.”
       Simon quase esqueceu que ele devia estar naquela festa de noite.
       “Certo”, disse. “Olhe, Isabelle. Estou com problemas aqui.”
       “Despeje. Adoro problemas.”
       “Eu não sei se você vai gostar muito desse aqui”, disse ele duvidoso,
e contou a situação para ela rapidamente. Isabelle ofegou de leve quando
ele chegou à parte em que mordera Maureen, e ele sentiu a garganta se
contrair.
       “Simon”, ela sussurrou.
       “Eu sei, eu sei”, disse ele miseravelmente. “Você acha que eu não
sinto muito? Eu estou muito além disso.”
       “Se você tivesse matado ela, você teria quebrado a Lei. Você seria
um fora da lei. Teria que te matar.”
       “Mas não matei”, ele disse, a voz abalada um pouquinho. “Não fiz
isso. Jordan jura que ela estava bem quando a pôs no táxi. E o jornal diz
que a garganta dela foi cortada. Eu não fiz isso. Alguém fez isso para
chegar até mim. Eu apenas não sei o porquê.”
       “Ainda não terminamos com esse assunto.” A voz dela era grave.
“Mas primeiro vá pegar a nota que deixaram. Leia para mim.”
       Simon fez como foi pedido, e foi recompensado por um nítido influxo
de respiração por parte de Isabelle.
       “Eu achei que esse endereço era familiar”, ela disse. “Foi onde Clary
me disse para encontrar ela ontem. É uma igreja. O quartel-general de
algum tipo de culto de adoradores de demônios.”
       “O que um culto de adoradores de demônios iria querer comigo?”
Simon perguntou, e recebeu um olhar curioso de Jordan, que estava apenas
ouvindo metade da conversa.
       “Não sei. Você é um Daylighter. Tem poderes malucos. É um alvo
para lunáticos e magos sombrios. É assim que as coisas são.” Isabelle,
sentiu Simon, poderia ter sido um pouco mais simpática. “Olhe, você vai
para a festa na Ironworks, não vai? Nos encontraremos lá e conversaremos
sobre os próximos passos. E eu vou falar para a minha mãe o que está

acontecendo com você. Eles já estão investigando a Igreja de Talto, então
podem acrescentar isso ao banco de informações.”
       “Eu acho”, disse Simon. A última coisa que queria fazer era ir à festa.
       “E leve Jordan com você”, instruiu Isabelle. “Você pode aproveitar um
guarda-costas.”
       “Não posso fazer isso. Maia vai estar lá.”
       “Eu vou falar com ela”, disse Isabelle. Ela parecia muito mais
confiante do que Simon se sentiria se estivesse em seu lugar. “Vejo você
lá.”
       Ela desligou. Simon virou para Jordan, que estava deitado no futon, a
cabeça apoiada em um dos travesseiros costurados. “Quanto disso você
ouviu?”
       “O bastante para reunir que vamos para uma festa de noite”, disse
Jordan. “Eu ouvi sobre o evento na Ironworks. Eu não estou no bando de
Garroway, então não fui convidado.”
       “Acho que agora você vem como o meu par.” Simon guardou o
telefone de volta no bolso.
       “Tenho certeza suficiente sobre minha masculinidade para aceitar
isso”, disse Jordan. “É melhor arranjarmos algo bom para você vestir,
contudo”, ele gritou enquanto Simon voltava ao quarto. “Quero que você
fique lindo.”
       ????
       Anos antes, quando a cidade de Long Island era um centro de
indústrias ao invés de um bairro moderno cheio de galerias de arte e lojas
de cafés, a Ironworks era uma fábrica têxtil. Agora era uma enorme
estrutura de tijolos cujo interior se transformara num pequeno, porém,
bonito espaço. O chão era feito de quadrados sobrepostos de aço escovado;
vigas finas de aço arqueavam para cima, enroladas em cabos de minúsculas
luzes brancas. Escadarias adornadas de ferro forjado espiralavam para cima
até as passarelas decoradas com plantas penduradas. Um cantilever de
vidro no ápice abria-se para uma vista do céu noturno. Havia até um
terraço do lado de fora, construído sobre o rio East, com uma visão
espetacular da Fifty-Ninth Street Bridge, que se erguia à frente,
estendendo-se desde o Queens até Manhattan como uma lança de gelo
vistosa. O bando de Luke trabalhara duro para fazer o lugar parecer
elegante. Havia grandes vasos de estanho habilmente localizados contendo
flores marfim com longos talos e mesas cobertas com linho branco
arranjadas num círculo em volta de um palco erguido, aonde um quarteto
de lobisomens de cordas fornecia música clássica. Clary não pôde deixar de
querer que Simon estivesse ali; ela estava certa que ele acharia que
Quarteto de Lobisomens de Cordas fosse um bom nome para a banda.
       Clary vagou de mesa em mesa, arrumando coisas que não
precisavam de arrumação, remexendo em flores e endireitando objetos de
prata que não estavam bagunçados. Só alguns dos convidados chegaram
até agora, e nenhum deles eram pessoas que ela conhecia. Sua mãe e Luke
estavam perto da porta, saudando pessoas e sorrindo, Luke inconfortável
num terno, e Jocelyn radiante num vestido azul sob medida. Depois do que
aconteceu nos dias anteriores, era bom ver a sua mãe parecer feliz, apesar
de Clary imaginar o quanto disso era sincero e o quanto disso era só para
os convidados. Havia uma certa rigidez na boca de Jocelyn que deixava
Clary preocupada — ela estava mesmo feliz, ou só sorrindo através da dor?

        Não que Clary não soubesse como ela se sentia. Não importa o que
estivesse acontecendo, ela não conseguia tirar Jace da cabeça. O que os
Irmãos do Silêncio estavam fazendo com ele? Ele estava bem? Eles
poderiam consertar o que havia de errado com ele, bloquear a influência
demoníaca? Ela passara a noite anterior às claras fitando a escuridão de seu
quarto e se preocupando até se sentir literalmente enjoada.
        Mais do que qualquer outra coisa, ela queria que ele estivesse ali. Ela
escolhera o vestido que usava naquela noite — ouro pálido e mais adequado
ao corpo do que qualquer coisa que geralmente vestia — com a esperança
expressa que Jace gostasse; agora ele nem iria vê-la usá-lo. Aquilo era uma
coisa superficial de se preocupar, ela sabia disso; andaria vestindo um barril
pelo resto da vida se isso significasse que Jace iria melhorar. Além disso,
ele estava sempre dizendo que ela era linda, e nunca reclamava do fato de
que na maioria das horas ela vestia jeans e tênis, mas Clary achou que ele
gostaria desse.
        De pé na frente do espelho à noite, quase se sentiu bonita. Sua mãe
dissera que ela mesma teve um desabrochar tardio, e Clary, olhando para o
próprio reflexo, imaginara se a mesma coisa podia lhe acontecer. Ela não
era mais lisa como uma tábua — aumentara o número do sutiã no ano
passado — e, se semicerrasse os olhos, achava que podia ver — sim,
aqueles eram definitivamente quadris. Tinha curvas, pequenas, mas você
tinha que começar em algum lugar.
        Continuava usando joias simples — muito simples.
        Ela levantou a sua mão e tocou o anel Morgenstern em sua corrente
em volta do pescoço. Havia voltado a usar, pela primeira vez em dias,
naquela manhã. Sentia que era um gesto silencioso de confiança em Jace,
uma forma de sinalizar sua lealdade, ele sabendo disso ou não. Ela decidiu
que usaria aquilo até vê-lo de novo.
        “Clarissa Morgenstern?”, disse uma voz suave no seu ombro.
        Clary virou em surpresa. A voz não era familiar. De pé ali estava uma
garota magra e alta que tinha aproximadamente vinte anos. A pele era
pálida, da cor de leite, com várias veias verdes como seiva, e seu cabelo
loiro tinha a mesma tintura esverdeada. Os olhos eram azuis sólidos, como
mármores, e vestia um vestido azul curto, tão fino, que Clary achou que ela
devia estar congelando de frio. Uma memória emergiu lentamente das
profundezas.
        “Kaelie”, disse Clary lentamente, reconhecendo a garçonete fada do
Taki que servira a ela e aos Lightwood em mais de uma ocasião. Um
bruxulear a fez lembrar que havia uma insinuação sobre Kaelie e Jace já
terem ficado, mas o fato parecia tão pequeno frente a tudo que acontecia
que ela não se importou com isso. “Eu não sabia — você conhece Luke?”
        “Não me confunda com uma convidada nessa ocasião”, disse Kaelie,
sua mão pequena traçando um gesto casualmente indiferente no ar. “Minha
Senhora me mandou aqui para encontrar você — não para comparecer em
festividades.” Olhou curiosa sobre o ombro, seus olhos todos azuis
brilhando. “Apesar de eu não ter percebido que sua mãe estava se casando
com um lobisomem.”
        Clary ergueu as sobrancelhas. “E...?”
        Kaelie examinou-a de cima a baixo com algum divertimento. “Minha
lady disse que você era bem dura, apesar de ser pequena em tamanho. Na
Corte seria menosprezada por ter uma estatura tão pequena.”

       “Nós não estamos na Corte”, disse Clary. “E não estamos no Taki, o
que significa que você veio até mim, o que significa que tem cinco segundos
para me dizer o que a Rainha de Seelie quer. Eu não gosto muito dela, e
não estou no clima para os seus joguinhos.”
       Kaelie apontou um dedo fino e de unha verde para o pescoço de
Clary. “Minha lady disse para te perguntar”, ela disse, “por que você usa o
anel Morgenstern. É em reconhecimento ao seu pai?”
       A mão de Clary foi ao pescoço. “É por Jace — porque Jace o deu para
mim”, ela disse antes que pudesse se impedir, e então se xingou em
silêncio. Não era inteligente contar à Rainha de Seelie mais do que devia.
       “Mas ele não é um Morgenstern”, disse Kaelie, “é um Herondale, e
eles têm seu próprio anel. Um arranjo de garças, ao invés de estrelas da
manhã. E isso não lhe cai melhor, uma alma que plana como um pássaro ao
vento, ao invés de cair como Lúcifer?”
       “Kaelie”, Clary rangeu os dentes. “O que a Rainha de Seelie quer?”
       A garota fada riu. “Ora”, ela disse, “só te dar isso.” Ela estendeu a
mão segurando algo, um minúsculo pingente sino de prata, com um gancho
na ponta da alça para que pudesse ser preso a uma corrente. Quando
Kaelie moveu a mão para a frente, o sino tocou, leve e agradável como
chuva.
       Clary recuou. “Eu não quero presentes da sua lady”, disse, “pois eles
vêm junto com mentiras e suposições. Não deverei nada à Rainha.”
       “Não é um presente”, disse Kaelie impacientemente. “É um meio de
convocação. A Rainha lhe perdoa por sua teimosia anterior. Ela espera que
haja um momento em breve, em que você irá querer a ajuda dela. Ela está
disposta a oferecer isso a você, caso você escolha pedir. Simplesmente
toque esse sino, e um servo da Corte virá e lhe trará até ela.”
       Clary sacudiu a cabeça. “Eu não vou tocá-lo.”
       Kaelie deu de ombros. “Então não custa nada pegá-lo.”
       Como se num sonho, Clary viu a própria mão se estender, os dedos
pairando sobre o sino.
       “Você faria qualquer coisa para salvá-lo”, disse Kaelie, a voz baixa e
doce como o toque do anel, “o que quer que lhe custe, não importa o que
você pudesse dever a Hellor Heaven, não faria?”
       Vozes recordadas soaram na cabeça de Clary. ‘Você já parou para
pensar quais mentiras podem haver na história que sua mãe lhe contou,
que serviram ao propósito dela de contá-las? Você realmente acha que sabe
cada um dos segredos de seu passado?’
       Madame Dorothea disse que Jace se apaixonaria pela pessoa errada.
       Ele não está além de salvação. Mas será difícil.
       O sino tiniu quando Clary o pegou, fechando a mão com ele dentro.
Kaelie sorriu, os olhos azuis brilhando como contas de vidro. “Uma sábia
escolha.”
       Clary hesitou. Mas antes que pudesse jogar o sino de volta para a
garota fada, ouviu alguém chamar seu nome, e virou para ver sua mãe
andando pela multidão até ela. Ela virou de volta rapidamente, mas não se
surpreendeu ao ver que Kaelie havia sumido, tendo dissolvido na multidão
como névoa queimando na luz do sol da manhã.
       “Clary”, disse Jocelyn, alcançando-a, “eu estava te procurando, e
depois Luke apontou para você, parada aí sozinha. Está tudo bem?”

       Parada aqui sozinha. Clary imaginou que tipo de feitiço Kaelie
estivera usando; sua mãe devia ser capaz de ver a maioria. “Estou bem,
mãe.”
       “Cadê Simon? Achei que ele viria.”
       É claro que ela pensaria em Simon primeiro, pensou Clary, e não
Jace. Mesmo que Jace devesse vir, e como namorado da Clary, ele
provavelmente tinha que ter chegado cedo. “Mãe”, disse, então parou.
“Você acha que algum dia vai gostar do Jace?”
       Os olhos verdes de Jocelyn se suavizaram. “Eu notei que ele não
estava aqui, Clary. Só não sabia se você iria querer falar sobre isso.”
       “Quero dizer”, continuou Clary, obstinada, “você acha que exista algo
que ele possa fazer para fazer você gostar dele?”
       “Sim”, respondeu Jocelyn. “Ele poderia fazer você feliz.” Ela tocou o
rosto da Clary levemente, e Clary apertou a própria mão, sentindo o sino se
pressionar contra a pele.
       “Ele me faz feliz”, disse Clary. “Mas não pode controlar tudo no
mundo, mãe. Outras coisas acontecem—”
       Atrapalhou-se com as palavras. Como poderia explicar que não era
Jace fazendo-a infeliz, mas o que estava acontecendo com ele, sem revelar
o que era?
       “Você o ama tanto”, disse Jocelyn gentilmente. “Me assusta. Eu
sempre quis manter você protegida.”
       “E olhe como isso deu certo”, Clary começou, depois acalmou a voz.
Não era hora de culpar a mãe ou brigar com ela, não agora. Não com Luke
observando-as na entrada, o rosto iluminado de amor e ansiedade. “Se
você pelo menos o conhecesse,” ela disse, um pouco sem esperança. “Mas
acho que todas dizem isso sobre o seu namorado.”
       “Você tem razão”, disse Jocelyn, surpreendendo-a. “Eu não o
conheço, de forma alguma. Eu o vejo, e ele me faz lembrar um pouco da
mãe dele, de algum modo. Eu não sei por que — ele não parece com ela,
exceto que ela também era bonita, e tinha aquela terrível vulnerabilidade
que ele tem—”
       “Vulnerabilidade?” Clary se espantou. Nunca achara que alguém a
não ser ela mesma pensasse em Jace como vulnerável.
       “Ah, sim”, disse Jocelyn. “Eu queria odiá-la por tirar Stephen de
Amatis, mas você simplesmente não podia deixar de querer proteger Céline.
Jace tem um pouco disso.” Ela pareceu perdida em pensamentos. “Ou
talvez, apenas seja que coisas bonitas, são tão facilmente quebradas pelo
mundo.” Ela abaixou a sua mão. “Não importa. Tenho minhas memórias
para combater, mas são minhas memórias. Jace não devia suportar o peso
delas. Entretanto, direi uma coisa a você. Se ele não te amasse como ama
— e isso está escrito na cara dele sempre que olha para você —, eu não o
toleraria por nem um minuto. Então mantenha isso em mente quando ficar
zangada comigo.”
       Ela recusou o protesto de Clary de que não estava zangada com um
sorriso e um tapinha na bochecha, e rumou de volta a Luke, com um último
pedido para Clary entrar na multidão e se misturar. Clary assentiu sem
dizer nada, olhando a mãe enquanto esta se afastava, e sentindo o sino
queimar no interior de sua mão onde ela o apertava, como a ponta de um
fósforo aceso.
       ????

       A área em volta da Ironworks era na maioria armazéns e galerias de
arte, o tipo de bairro que esvaziava à noite, então não demorou muito para
Jordan e Simon encontrarem um lugar para estacionar. Simon pulou do
caminhão, só para encontrar Jordan já na calçada, olhando para ele
criticamente.
       Simon não botara na mala roupas legais quando saiu de casa — não
tinha nada mais extravagante que uma jaqueta que pertencera ao seu pai
—, então, ele e Jordan passaram a tarde rondando a East Village,
procurando um traje descente para ele usar. Finalmente encontraram um
antigo terno Zegna numa loja de consignação chamada Amor Salva o Dia,
que na maior parte vendia botas brilhantes e lenços Pucci dos anos
sessenta. Simon suspeitou que era ali que Magnus comprava a maioria das
suas roupas.
       “Que foi?” disse agora, conscientemente abaixando as mangas do
terno. Era um pouco pequeno demais para ele, apesar de Jordan opinar que
se não abotoasse, ninguém notaria. “Estou tão ruim assim?”
       Jordan deu de ombros. “Você não vai quebrar espelhos”, disse.
“Estava só imaginando se você estava armado. Quer alguma coisa? Uma
adaga, talvez?” Abriu o terno dele só um pouco, e Simon viu algo longo e
metálico brilhante no revestimento interno.
       “Não me admira que você e Jace se gostem tanto. Os dois são
arsenais andantes malucos.” Simon sacudiu a cabeça em exaustão e virou
para encarar a entrada da Ironworks. Estava do outro lado da rua, um
imenso toldo dourado lançando uma sombra sobre um retângulo na calçada
que fora decorada com um tapete vermelho escuro com a imagem dourada
de um lobo estampada. Simon não pôde deixar de sentir um pouco de
graça.
       Encostada em uma das vigas que seguravam o toldo estava Isabelle.
Ela estava com o cabelo amarrado e vestia um longo vestido vermelho,
cortado no lado para mostrar a maior parte de sua perna. Laços dourados
corriam por seu braço direito. Pareciam braceletes, mas Simon sabiam que
eram na verdade seu chicote electrum. Estava coberta de Marcas. Ligavam
seus braços, subiam pela coxa, passavam como um colar pelo seu pescoço
e decoravam o peito, a maior parte do que estava visível, graças ao grande
decote do vestido. Simon tentou não encarar.
       “Oi, Isabelle”, disse.
       Ao seu lado Jordan também tentava não olhar. “Hã”, disse. “Oi. Sou o
Jordan.”
       “Nós nos conhecemos”, Isabelle disse friamente, ignorando a mão
estendida dele. “Maia estava tentando cortar sua cara. Por justa causa,
também.”
       Jordan pareceu preocupado. “Ela está aqui? Está bem?”
       “Está aqui”, disse Isabelle. “Não que seja de sua incumbência sentir
por ela algo como ser algo de seu interesse —”
       “Sinto um senso de responsabilidade”, disse Jordan.
       “E onde está esse seu senso? Em suas calças, talvez?”
       Jordan ficou indignado.
       Isabelle acenou uma esbelta mão decorada. “Olhe, o que você fez no
passado é passado. Sei que agora é Praetor Lupus, e disse para Maia o que
isso significa. Ela está querendo aceitar que você está aqui e ignorar você.
Mas isso é tudo o que você irá conseguir. Não a chateie, não tente falar com

ela, nem olhe para ela, ou vou te dobrar ao meio tantas vezes que você vai
parecer um lobisomem origami.”
       Simon bufou.
       “Nem ria.” Isabelle apontou para ele. “Ela também não quer falar
com você. Então apesar do fato de ela estar totalmente linda hoje — e se
eu fosse um menino avançaria nela —, nenhum de vocês pode falar com
ela. Entenderam?”
       Assentiram, olhando para os sapatos como se fossem alunos
recebendo detenção.
       Isabelle se desencostou da viga. “Ótimo. Vamos entrar.”

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