sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

12

Capítulo 12
O SANTUÁRIO
       “POR QUE VOCÊ ACHA QUE CAMILLE QUER VER MAGNUS?” Simon
perguntou.
       Ele e Jace estavam na parede dos fundos do Santuário, que era uma
sala imensa anexada à parte principal do Instituto através de uma estreita
passagem. Não era parte do Instituto por si próprio; fora deixado
deliberadamente não consagrado para que pudesse ser usado como um
lugar para prender demônios e vampiros.
       Santuários, Jace informara a Simon, saíram de moda desde que a
Projeção foi inventada, mas de vez em quando eles encontravam um uso
para eles. Aparentemente, essa era uma das vezes.
       Era uma grande sala, feita na pedra e cheia de pilares, com uma
entrada igualmente feita na pedra atrás de um conjunto imenso de portas
duplas; o vão de entrada levava até o corredor, conectando a sala ao
Instituto. Grandes goivas no chão de pedra indicavam que, o que quer que
tenha estado preso aqui ao longo dos anos, era algo bem desagradável... e
grande. Simon não podia evitar de perguntar-se quantos cômodos enormes
cheios de pilares ele teria que passar o tempo dentro. Camille estava de pé
em um dos pilares, seus braços nas costas, guardada em cada lado por
guerreiros Caçadores de Sombras. Maryse andava de um lado ao outro,
ocasionalmente aconselhando-se com Kadir, claramente tentando imaginar
algum tipo de plano. Não havia janelas na sala, por motivos óbvios, mas
tochas de pedra enfeitiçada queimavam em todos os cantos, dando à cena
toda, um peculiar brilho esbranquiçado.
       “Eu não sei”, Jace disse. “Talvez ela queira dicas de beleza.”
       “Ah”, Simon disse. “Quem é aquele cara, com a sua mãe? Ele parece
familiar.”
       “É Kadir”, disse Jace. “Você provavelmente conheceu o irmão dele,
Malik. Ele morreu no ataque ao navio de Valentine. Kadir é a segunda
pessoa mais importante na Clave, depois de minha mãe. Ela confia muito
nele.”
       Enquanto Simon observava, Kadir puxou os braços de Camille nas
costas, de forma que circulassem o pilar, e acorrentou-a pelos pulsos. A
vampira soltou um gritinho.
       “Metal sagrado”, disse Jace sem um traço de emoção. “Queimam
eles.”
       Eles, pensou Simon. Você quer dizer “você.” Eu sou igual a ela. Não
sou diferente só porque você me conhece.
       Camille choramingava. Kadir pôs-se de novo em pé, o rosto
impassível. Runas, escuras na sua pele escura torciam-se nos seus braços e
pescoço. Ele se virou para dizer algo a Maryse; Simon pegou as palavras
“Magnus” e “mensagem de fogo.”
       “Magnus de novo”, falou Simon. “Mas ele não está viajando?”

       “Magnus e Camille são muito velhos”, respondeu Jace. “Eu suponho
que não seja estranho que eles se conheçam.” Ele deu de ombros,
aparentemente desinteressado no assunto. “Enfim, tenho certeza que eles
vão se esforçar para chamar Magnus de volta para cá. Maryse quer
informações, e ela as quer muito. Ela sabe que Camille não estava matando
aqueles Caçadores de Sombras só por sangue. Há maneiras mais fáceis de
conseguir sangue.”
       Simon pensou por um momento em Maureen, e sentiu um enjoo.
“Bem”, falou, tentando parecer despreocupado. “Acho que isso significa que
Alec vai voltar. Então isso é bom, não é?”
       “Claro.” A voz de Jace pareceu morta. Ele também não parecia tão
bem; a luz esbranquiçada na sala lançava-se nos ângulos dos ossos do
rosto dele em um relevo novo e mais agudo, mostrando que perdera peso.
Suas unhas estavam roídas a tocos com sangue, e havia sombras escuras
sob os seus olhos.
       “Pelo menos seu plano deu certo”, acrescentou Simon, tentando
injetar algum ânimo na miséria do Jace. Jace que tivera a ideia de fazer
Simon tirar uma foto com o celular e mandá-la à Clave, o que os permitiria
abrir um Portal onde ele estava. “Foi uma boa ideia.”
       “Eu sabia que funcionaria.” Jace pareceu aborrecido com o elogio. Ele
ergueu o olhar quando as portas duplas que levavam ao Instituto se
abriram, e Isabelle passou por elas, seu cabelo preto balançando. Ela
examinou a sala — mal olhando para Camille e os outros Caçadores de
Sombras —, e andou na direção do Jace e Simon, as botas ressoando no
piso de pedra.
       “Do que se trata isso, de tirar os pobres, Magnus e Alec, das férias?”,
exigiu Isabelle. “Eles têm bilhetes para ópera!”
       Jace explicou, enquanto Isabelle ficou com as mãos nos quadris,
ignorando Simon completamente.
       “Tudo bem”, ela disse quando a explicação terminou. “Mas isso tudo
é ridículo. Ela só está ganhando tempo. Afinal, o que ela poderia ter a dizer
a Magnus?” Ela olhou de novo sobre o ombro para Camille, quem agora
estava não só algemada, mas também colada ao pilar com extensões de
correntes cores de prata e ouro. Elas cruzavam sobre o corpo dela no seu
torso, nos seus joelhos e até nos seus tornozelos, deixando-a totalmente
imóvel. “É metal sagrado?”
       Jace assentiu. “As algemas estão alinhadas para proteger os pulsos,
mas se ela se mover demais...” Ele produziu um chiado de fritura. Simon
lembrou-se da forma que suas mãos queimaram quando ele tocou a Estrela
de David na sua cela em Idris, a forma que sangue descera pela sua pele,
teve que lutar contra o desejo de mordê-lo.
       “Bem, enquanto você estava fora prendendo vampiros, eu estava
lutando no bairro residencial com um demônio hidra”, contou Isabelle. “Com
Clary.”
       Jace, que indicava o interesse mais vago nas coisas acontecendo ao
seu redor até agora, jogou-se para a frente. “Com Clary? Você a levou para
caçar demônios com você? Isabelle—”
       “É claro que não. Ela já estava lutando quando cheguei lá.”
       “Como você soube—?”
       “Ela me mandou uma mensagem”, disse Isabelle. “Então, eu fui.” Ela
examinou as unhas, que estavam, como sempre, perfeitas.

       “Ela te mandou uma mensagem?” Jace pegou Isabelle pelo pulso.
“Ela está bem? Ela se feriu?”
       Isabelle olhou para a mão dele apertando o seu pulso, e então voltou
a olhar no rosto dele. Se ele estava a machucando, Simon não sabia ao
certo, mas o olhar em seu rosto podia cortar vidro, como podia o sarcasmo
em sua voz. “Sim, ela está sangrando até a morte lá em cima, mas achei
que seria melhor não te contar agora, porque eu gosto de prolongar o
suspense.”
       Jace, como se ficasse subitamente consciente do que estava fazendo,
soltou o pulso da Isabelle. “Ela está aqui?”
       “Lá em cima”, falou Isabelle. “Descansando—”
       Mas Jace já tinha ido embora, correndo para a entrada das portas.
Ele irrompeu por elas e desapareceu. Isabelle, olhando-o, sacudiu sua
cabeça.
       “Você não pode mesmo ter pensado que ele faria outra coisa”, disse
Simon.
       Por um momento, ela não disse nada. Ele se perguntou se o plano
dela era ignorar tudo o que ele dizia pelo resto da vida. “Eu sei”, ela disse
por fim. “Só queria saber o que se passa entre eles.”
       “Não tenho certeza se até mesmo eles sabem.”
       Isabelle estava afligindo o seu lábio inferior. Ela pareceu de repente
muito nova e estranhamente confusa para uma Isabelle. Algo claramente
estava acontecendo com ela, e Simon esperou em silêncio enquanto a
garota parecia decidir-se de algo. “Eu não quer ficar assim”, ela disse.
“Vamos. Eu quero falar com você.” Ela começou a andar até as portas do
Instituto.
       “Você Quer?” Simon estava surpreso.
       Ela se virou e fitou-o. “Agora eu quero. Mas não posso garantir que
isso continuará por muito tempo.”
       Simon levantou as mãos para cima. “Eu quero falar com você, Iz.
Mas eu não posso entrar no Instituto.”
       Uma linha apareceu entre suas sobrancelhas. “Por quê?” Ela se
interrompeu, olhando dele para as portas, para Camille, e para ele de novo.
“Ah, claro. Como você entrou aqui, então?”
       “Por Portal”, disse Simon. “Mas Jace disse que tem uma entrada que
levava para um conjunto de portas que levam para fora. Então vampiros
podem entrar aqui à noite.” Ele apontou para uma porta estreita na parede
a alguns metros dali. Ela era fechada por um ferrolho de ferro enferrujado,
como se não tivesse sido usado faz tempo.
       Isabelle deu de ombros. “Certo.”
       O ferrolho fez um barulho de chiado quando ela o puxou, mandando
lascas de ferrugem no ar, num salpico fino vermelho.
       Atrás da porta havia uma pequena sala de pedra, como a sacristia de
uma igreja, e uma série de portas que provavelmente levavam para fora.
Não havia janelas, mas o ar frio passava nas bordas das portas, fazendo
Isabelle, em seu curto vestido, tremer.
       “Olhe, Isabelle”, disse Simon, calculando que era para ele começar a
conversa. “Eu realmente sinto muito pelo que fiz. Não tenho como me
desculpar—”
       “Não, não tem mesmo”, respondeu Isabelle. “E enquanto você está
nessa, você poderia me contar porque está andando com o cara que
transformou Maia em um lobisomem.”

       Simon contou a história que Jordan contara a ele, tentando manter a
explicação mais imparcial possível quanto ele podia.
       Ele achou que era ao menos importante explicar para Isabelle que ele
não sabia quem Jordan realmente era a princípio, e também, que Jordan
lamentava o que fizera. “Não que isso resolva as coisas”, ele terminou.
“Mas, você sabe que—” Todos nós fizemos coisas ruins. Mas ele não podia
contar a ela sobre Maureen. Não agora.
       “Eu sei”, disse Isabelle. “E eu ouvi falar do Praetor Lupus. Se eles o
querem como um membro, ele pode não ser um fracasso total, eu acho.”
Ela olhou para Simon um pouco mais de perto. “Apesar de eu não entender
por que você precisa de alguém para te proteger. Você tem...” Ela apontou
para a sua testa.
       “Eu não posso passar o resto da vida com pessoas me perseguindo
todo dia e a Marca as explodindo”, disse Simon. “Eu tenho que saber quem
está tentando me matar. Jordan está ajudando com isso. Jace também.”
       “Você acha mesmo que Jordan está te ajudando? Porque a Clave tem
um pouco de influência com o Praetor. Poderíamos substituí-lo.”
       Simon hesitou. “Sim”, disse. “Eu acho realmente que ele está
ajudando. E não posso sempre confiar na Clave.”
       “Tudo bem.” Isabelle se encostou à parede. “Você já se perguntou
por que
       eu sou tão diferente dos meus irmãos?” Ela perguntou sem rodeio.
“Alec e Jace, eu quero dizer.”
       Simon pestanejou. “Você quer dizer, além da coisa toda que você é
uma garota e eles... não?”
       “Não. Não isso, idiota. Eu quero dizer, olhe para os dois. Eles não têm
problemas em se apaixonar. Ambos estão apaixonados. Tipo, pra sempre.
Eles estão realizados. Olhe para Jace. Ele ama Clary como — como se não
houvesse nada mais no mundo e nunca haverá. Alec também. E Max—” Sua
voz quebrou. “Eu não sei como seria para ele. Mas ele confiava em todo
mundo. E como você pode ter notado, eu não confio em ninguém.”
       “As pessoas são diferentes”, disse Simon, tentando soar como se
entendesse. “Não significa que eles são mais felizes que você—”
       “É claro que sim”, disse Isabelle. “Você acha que eu não sei disso?”
Ela olhou para Simon, firme. “Você conhece os meus pais.”
       “Não muito.” Eles nunca estiveram terrivelmente ansiosos para
conhecer o namorado vampiro da Isabelle, uma situação que não ajudara
muito para melhorar os sentimentos de Simon que ele era meramente o
mais recente numa longa lista de pretendentes indesejáveis.
       “Bem, você sabe que os dois estavam no Ciclo. Mas eu aposto que
você não sabia que foi tudo ideia da minha mãe. Meu pai nunca gostou
muito de Valentine ou algo disso. E então quando tudo aconteceu, e eles
foram banidos, e perceberam que praticamente arruinaram com as suas
vidas, eu acho que ele a culpou. Mas eles já tinham Alec e iriam me ter,
então ele ficou, mesmo que eu ache que ele meio que queria partir. E
então, quando Alec tinha, mais ou menos, uns nove anos, ele encontrou
outra pessoa.”
       “Uau”, disse Simon. “Seu pai traiu a sua mãe? Isso é — isso é
terrível.”
       “Ela me contou”, disse Isabelle. “Eu tinha, mais ou menos, uns treze
anos. Ela me contou que ele teria a deixado, mas eles descobriram que ela
estava grávida de Max, então eles ficaram juntos e ele rompeu com a outra

mulher. Minha mãe não contou quem ela era. Ela apenas me disse que você
não pode confiar nos homens. E ela me disse para não contar isso a
ninguém.”
       “E você fez isso? Contou a alguém?”
       “Não até agora”, falou Isabelle.
       Simon pensou numa Isabelle mais nova, guardando o segredo, nunca
contando a ninguém, escondendo-o dos seus irmãos. Sabendo coisas sobre
sua família que eles nunca saberiam. “Ela não deveria ter te pedido para
fazer isso”, ele disse, de repente, zangado. “Não foi justo.”
       “Talvez”, disse Isabelle. “Eu achei que isso me fazia especial. Eu não
pensava em como isso poderia me mudar. Mas eu observo meus irmãos
entregarem seus corações e penso, Você não é mais esperta? Corações são
frágeis. E acho que mesmo quando você o cura, você nunca será o que foi
antes.”
       “Talvez você esteja melhor”, disse Simon. “Eu sei que estou melhor.”
       “Você está falando de Clary”, disse Isabelle. “Porque ela quebrou o
seu coração.”
       “Em pedacinhos. Você sabe, quando alguém prefere o próprio irmão
ao invés de você, isso não melhora a sua confiança em si. Eu achei que,
talvez, uma vez que ela percebesse que nunca daria certo com Jace, ela
desistiria e voltaria para mim. Mas, por fim, descobri que ela nunca pararia
de amar Jace, se eles dessem certo ou não. E eu soube que se ela só
estivesse comigo porque ela não poderia tê-lo, eu preferiria estar sozinho,
então terminei tudo.”
       “Eu não sabia que você rompeu com ela”, disse Isabelle. “Eu achei...”
       “Que eu não tinha respeito próprio?” Simon sorriu ironicamente.
       “Eu achei que você ainda estava apaixonado por Clary”, disse
Isabelle. “E que você não poderia ter algo sério com mais ninguém.”
       “Porque você pega caras que nunca lhe levarão a sério”, disse Simon.
“Então você nunca precisa levá-los a sério.”
       Os olhos de Isabelle brilharam quando ela olhou para ele, mas ela
não disse nada.
       “Eu me importo com você”, disse Simon. “Eu sempre me importei
com você.”
       Ela deu um passo na direção dele. Eles estavam bastante perto um
do outro na pequena sala, e ele podia ouvir o som de sua respiração, a
pulsação mais fraca de seu batimento cardíaco abaixo. Ela tinha cheiro de
xampu, suor, perfume de gardênia e sangue de Caçador de Sombras.
       O pensamento de sangue o fez se lembrar da Maureen, e o corpo
dele tencionou. Isabelle notou — claro que notou, ela era uma guerreira,
seus sentidos finos sentiam até o movimento mais leve nos outros — e
recuou, sua expressão enrijecendo. “Muito bem”, disse ela. “Bem, estou
feliz que nós conversamos.”
       “Isabelle—”
       Mas ela já havia ido embora. Ele a seguiu pelo Santuário, mas ela
estava se movendo depressa. Quando a porta da sacristia se fechou atrás
dele, ela estava no meio da sala. Ele desistiu e observou Isabelle
desaparecer nas portas duplas para o Instituto, sabendo que não poderia
segui-la.
       ????
       Clary se sentou, sacudindo a cabeça para aliviar a sonolência. Levou-
lhe um momento para se lembrar de onde estava — em um quarto de

hóspedes no Instituto, iluminado apenas pela luz que passava na única
janela alta. Era uma luz azul — a luz do crepúsculo. Ela estivera deitada
torcida no cobertor; sua calça jeans, a jaqueta e os sapatos estavam
empilhados meticulosamente em uma cadeira perto da cama. E ao lado dela
estava Jace, olhando para ela, como se ela tivesse o conjurado, sonhando
com ele.
        Ele estava sentado na cama, vestido com seu traje de combate, como
se tivesse acabado de voltar de uma luta, e o seu cabelo estava
desarrumado, a luz fraca da janela iluminando as sombras debaixo dos seus
olhos, os sulcos das suas têmporas, os ossos das suas bochechas. Nessa luz
ele tinha a extrema e quase surreal beleza de uma pintura de Modigliani,
todos os planos e ângulos alongados.
        Ela esfregou os seus olhos, piscando para afastar o sono. “Que horas
são?” Ela disse. “Quanto tempo—”
        Jace a puxou para ele e a beijou, e por um momento ela congelou,
subitamente muito consciente que só vestia uma fina camiseta e roupas
íntimas. Em seguida foi sem hesitar para ele. Era o tipo de beijo demorado
que transformava suas entranhas em água. O tipo de beijo que poderia ter
feito fazê-la sentir que não havia nada errado, que as coisas estavam da
mesma forma que antes, e ele estava apenas feliz em vê-la. Mas quando
suas mãos tentaram levantar a bainha de sua camiseta, ela as empurrou.
        “Não”, ela disse, seus dedos envoltos nos pulsos dele. “Você não
pode simplesmente me agarrar toda vez que me vê. Não é um substituto
para uma verdadeira conversa.”
        Ele tomou uma respiração entrecortada e disse, “Por que você
mandou uma mensagem para Isabelle ao invés de mim? Se você estava
com problemas—”
        “Porque eu sabia que ela viria”, disse Clary. “E não tenho mais
certeza sobre você. Não agora.”
        “Se algo tivesse acontecido com você—”
        “Então acho que mais tarde você teria ouvido. Sabe, quando você se
dignasse em realmente atender ao telefone.” Ela ainda segurava os seus
pulsos; soltou-os agora, e se sentou de volta. Era difícil, fisicamente difícil,
ficar tão perto dele assim e não tocá-lo, mas ela forçou suas mãos a ficarem
ao seu lado, e as manteve ali. “Ou você me diz qual é o problema, ou você
pode sair do quarto.”
        Seus lábios se separaram, mas ele não disse nada; ela não se
lembrava de falar com ele tão duramente assim há muito tempo.
“Desculpe-me”, ele disse finalmente. “Quero dizer, eu sei, o modo que
venho agindo, você não tem motivos para me ouvir. E eu provavelmente
não devia ter entrado aqui. Mas quando Isabelle disse que você estava
ferida, não pude me conter.”
        “Algumas queimaduras”, disse Clary. “Nada que importe.”
        “Tudo que acontece com você importa a mim.”
        “Bem, isso certamente explica porque você retornou minhas ligações
nem uma vez. E da última vez que eu te vi, você fugiu sem me dizer o
porquê. É como namorar um fantasma.”
        A boca de Jace se levantou levemente de forma esquisita de lado.
“Não exatamente. Isabelle já namorou um fantasma. Ela poderia te
contar—”
        “Não”, disse Clary. “Foi uma metáfora. E você sabe exatamente o que
eu quero dizer.”

       Por um momento ele ficou em silêncio. Depois disse, “Deixe-me ver
as queimaduras.”
       Ela estendeu os braços. Havia acentuadas manchas vermelhas na
parte de dentro dos seus pulsos onde o sangue do demônio salpicou. Ele
pegou os seus pulsos, bem de leve, olhando para ela por permissão
primeiro, e os virou. Ela se lembrou da primeira vez que ele a tocara, na
rua do lado de fora do Java Jones, procurando Marcas nas mãos dela, que
ela não tinha. “Sangue de demônio”, ele disse. “Elas irão sumir em algumas
horas. Machucam?”
       Clary sacudiu a cabeça.
       “Eu não sabia”, ele disse. “Eu não sabia que você precisava de mim.”
       Sua voz estava trêmula. “Eu sempre preciso de você.”
       Ele inclinou a cabeça e beijou a queimadura no seu pulso. Uma onda
de calor passou por ela, como um espeto quente que ia do pulso até a boca
do seu estômago. “Eu não tinha percebido”, ele disse. Ele beijou a
queimadura seguinte, no seu antebraço, e então a próxima, subindo do
braço até o ombro, a pressão de seu corpo empurrando-a para trás até ela
estar deitada nos travesseiros, olhando para ele. Jace se apoiou nos seus
cotovelos para não esmagá-la com o seu peso e olhou para ela.
       Seus olhos sempre se escureciam quando se beijavam, como se o
desejo trocasse a cor deles de algum jeito fundamental. Ele tocou a marca
de estrela branca no ombro dela, aquela que ambos tinham, que os
marcavam como filhos daqueles que tiveram contato com anjos. “Eu sei que
eu tenho agido estranho ultimamente”, disse Jace. “Mas não é você. Eu
amo você. Isso não mudará.”
       “Então o quê—?”
       “Acho que tudo que aconteceu em Idris — Valentim, Max, Hodge, até
Sebastian — eu continuei ignorando tudo, tentando esquecer, mas sempre
volta para mim. Eu... vou conseguir ajuda. Vou melhorar. Eu prometo.”
       “Você promete.”
       “Juro pelo Anjo.” Ele inclinou a cabeça para baixo e beijou a bochecha
dela. “Para o inferno com isso. Eu juro por nós.”
       Clary enrolou os dedos na manga da camiseta dele. “Por que nós?”
       “Porque não há nada que eu acredite mais.” Ele inclinou a cabeça
para o lado. “Se fôssemos nos casar”, ele começou, e deve ter sentido ela
enrijecer debaixo dele, porque sorriu. “Não entre em pânico, não estou
fazendo uma proposta agora. Eu estava apenas imaginando o que você
sabe sobre casamentos de Caçadores de Sombras.”
       “Sem anéis”, disse Clary, passando os dedos atrás do pescoço dele,
onde a pele era macia. “Só runas.”
       “Uma aqui”, disse ele, gentilmente tocando o braço dela, onde a
cicatriz estava, com a ponta do dedo. “E outra aqui.” Ele deslizou o dedo
pelo braço, passando pela clavícula, e descendo até descansar sobre o
coração palpitante. “O ritual é inspirado na Canção de Salomão. “‘Coloca-
me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço: porque o
amor é forte como a morte.’”
       “O nosso é mais forte que isso”, sussurrou Clary, lembrando-se de
como ela o trouxera de volta. E dessa vez, quando os olhos dele se
escureceram, ela estendeu o braço e puxou-o para a sua boca.
       Eles se beijaram por um longo tempo, até a maior parte da luz sumir
do quarto e eles serem simplesmente sombras. Porém, Jace não mexeu as
mãos ou tentou tocá-la, e ela sentiu que ele esperava por sua permissão.

        Ela percebeu que ela deveria ser quem levaria aquilo adiante, se
quisesse — e ela queria. Ele admitira que havia algo de errado e que não
tinha nada a ver com ela. Isso era progresso: progresso positivo. Ele devia
ser recompensado, certo? Um pequeno sorriso torto se abriu no canto da
boca. Quem ela estava enganado; ela queria mais por si mesma. Porque ele
era Jace, porque ela o amava, porque ele era tão maravilhoso que às vezes
ela sentia que precisava beliscá-lo no braço só para ter certeza que ele era
real.
        E foi o que fez.
        “Ai”, disse ele. “Por que você fez isso?”
        “Tire a camiseta”, ela sussurrou. Ela pegou a bainha da camisa, mas
ele já estava lá, levantando-a até a cabeça e a jogando casualmente ao
chão. Ele sacudiu seu cabelo, e ela quase esperou que os fios dourados
lançassem faíscas na escuridão do quarto.
        “Sente-se”, ela disse suavemente. Seu coração estava martelando.
Ela geralmente não liderava a iniciativa nesse tipo de situações, mas ele
não pareceu se importar. Ele se sentou lentamente, puxando-a com ele, até
os dois estarem sentados no meio da confusão de cobertores. Ela foi
lentamente para o colo dele, sentando nas suas coxas. Agora eles estavam
cara-a-cara. Ela o ouviu tomar fôlego e ele ergueu suas mãos, levando-as à
camisa de Clary, mas ela as empurrou para baixo de novo, gentilmente,
para seus lados, e pôs as próprias mãos nele em vez disso. Ela observou
seus dedos deslizarem pelo peito e braços, a onda em seu bíceps onde as
Marcas negras se torciam, a marca em forma de estrela no seu ombro. Ela
traçou o dedo indicador pela linha entre os seus músculos peitorais, pelo
liso estômago e barriga com músculos definidos. Ambos respiravam com
dificuldade quando ela pôs as mãos na fivela do jeans, mas ele não se
mexeu, só fitou-a com uma expressão que dizia: “O que você quiser.”
        Com seu coração batendo forte, Clary desceu suas mãos para a
bainha da própria camiseta e puxou-a sobre a cabeça. Ela desejou estar
usando um sutiã mais excitante — aquele era todo branco —, mas quando
ela olhou de novo para a expressão de Jace, o pensamento se evaporou.
Seus lábios estavam abertos, seus olhos quase negros; ela podia se ver
refletida neles e soube que ele não se importava se o sutiã dela era branco,
preto ou verde néon. Tudo que ele via era ela.
        Clary pegou as mãos dele, então, soltando-as, as colocou na sua
cintura, como se dissesse, Agora você pode me tocar. Ele inclinou a cabeça
à frente, a boca dela desceu sobre a dele, e eles estavam se beijando
novamente, mas era feroz ao invés de letárgico, um quente e rápido
ardente fogo. Suas mãos estavam febris: em seu cabelo, em seu corpo,
puxando-a para baixo de forma que ela ficasse deitada debaixo dele, e
quando suas peles nuas deslizaram juntas, ela ficou completamente
consciente que, de fato, não havia nada entre eles, a não ser os jeans dele
e o sutiã e calcinha dela. Ela enredou suas mãos em seu cabelo sedoso e
desgrenhado, segurando sua cabeça enquanto ele a beijava em seu pescoço
abaixo. Até onde estamos indo? O que estamos fazendo? Uma pequena
parte de seu cérebro perguntava, mas o resto de sua mente gritava para
aquela pequena parte se calar. Ela queria continuar tocando-o, beijando-o;
ela queria que ele lhe segurasse e saber que era real, ele ali com ela, e que
nunca partiria de novo.

       Seus dedos encontraram o fecho do seu sutiã. Ela se tencionou. Os
olhos dele estavam grandes e luminosos na escuridão, o sorriso vagaroso.
“Está tudo bem?”
       Ela assentiu. A respiração estava vindo rápida. Ninguém na sua vida
a vira de topless — nenhum garoto, pelo menos. Como se sentisse o seu
nervosismo, ele pôs uma mão gentilmente no rosto dela, seus lábios
passando nos dela, roçando gentilmente por eles até o seu corpo inteiro
sentir que estava se despedaçando em tensão. Ele procurou usar seus
dedos longos calejados da mão direita para acariciar sua bochecha, e então
seu ombro, tranquilizando-a. Mas ela ainda estava nervosa, esperando
ainda a sua outra mão voltar ao fecho do sutiã, tocá-la de novo, mas ele
pareceu estar pegando algo atrás dele — O que ele estava fazendo?
       Clary pensou de repente no que Isabelle disse sobre ser cuidadosa.
Oh, pensou. Ela se enrijeceu um pouco e recuou. “Jace, não tenho certeza,
eu—”
       Houve um lampejo de Prata na escuridão, e algo frio e afiado
perfurou-a de lado, em seu braço. Tudo o que ela sentiu por um momento
foi surpresa; depois dor. Ela atraiu suas mãos para si, piscando, e viu uma
linha de sangue escuro descendo por sua pele onde um corte superficial ia
do seu cotovelo até o pulso. “Ai”, ela disse, mais em aborrecimento e
surpresa do que dor. “O que—”
       Jace se lançou dela e da cama, em um único movimento. De repente
estava de pé no meio do quarto, sem camisa, seu rosto tão branco quanto
osso.
       Com uma mão apertando o braço ferido, Clary começou a se sentar.
“Jace, o que—”
       Ela se interrompeu. Na sua mão esquerda, ele estava apertando uma
faca — a de punho prateado que vira na caixa que pertencera ao seu pai.
Havia uma fina mancha de sangue na lâmina.
       Ela abaixou o olhar para sua mão e, depois, para cima de novo, nele.
“Eu não entendo—”
       Ele abriu a sua mão, e a faca ressoou no chão. Por um momento, ele
pareceu querer fugir de novo, do jeito que fizera do lado de fora do bar.
Então afundou para o chão e colocou a cabeça em suas mãos.
       ????
       “Eu gosto dela”, disse Camille quando as portas se fecharam atrás de
Isabelle. “Faz-me lembrar de mim mesma.”
       Simon se virou para olhá-la. Estava muito escuro no Santuário, mas
ele podia vê-la claramente, as costas contra o pilar, suas mãos atadas atrás
dela.
       Um guarda Caçador de Sombras estava posicionado perto das portas
do Instituto, mas, ou ele não ouvira Camille, ou ele não estava interessado.
       Simon se aproximou um pouco mais de Camille. Os grilhões que lhe
prendiam tinham uma estranha fascinação para ele. Metal sagrado. A
corrente parecia brilhar de leve contra sua pele pálida, e ele achou que
podia ver algumas gotas de sangue descendo ao redor das algemas em
seus pulsos. “Ela não tem nada a ver com você.”
       “É o que você acha.” Camille inclinou a cabeça para o lado; seu
cabelo loiro parecia ardilosamente organizado ao redor do seu rosto, apesar
de Simon saber que ela não poderia ter tocado nele. “Você os ama muito”,
ela disse, “seus amigos Caçadores de Sombras. Como o falcão adora o
mestre que lhe amarra e lhe cega.”

       “As coisas não são assim”, disse Simon. “Caçadores de Sombras e os
Habitantes do Submundo não são inimigos.”
       “Você não pode sequer entrar na casa deles”, ela disse. “Você está
preso do lado de fora. Mesmo assim, anseia por servi-los. Você ficaria do
lado deles contra sua própria espécie.”
       “Eu não tenho uma espécie”, disse Simon. “Eu não sou um deles. Mas
não sou um de vocês também. E prefiro mais ser como eles a como vocês.”
       “Você é um de nós.” Ela se mexeu impaciente, agitando as suas
correntes, e soltou um pequeno ofego de dor. “Tem algo que eu não te
disse, lá no banco. Mas é verdade.” Ela sorriu rijamente por causa da dor.
“Eu posso sentir cheiro de sangue humano em você. Você se alimentou
recentemente. De um mundano.”
       Simon sentiu algo dentro dele saltar. “Eu...”
       “Foi incrível, não foi?” Os lábios vermelhos dela se curvaram. “A
primeira vez desde que se transformou em vampiro que você não está com
fome.”
       “Não”, disse Simon.
       “Você está mentindo.” Havia convicção em sua voz. “Eles tentam nos
fazer lutar contra a nossa natureza, os Nephilim. Eles só irão nos aceitar se
fingirmos sermos quem nós não somos — caçadores, não predadores. Seus
amigos nunca aceitarão o que você é, só o que você finge ser. O que você
faz por eles, eles nunca farão por você.”
       “Eu não sei por que você se importa com isso”, disse Simon. “O que
está feito, está feito. Não vou deixar você ir. Tomei a minha decisão. Eu não
quero o que você me ofereceu.”
       “Talvez não agora”, disse Camille suavemente. “Mas, você irá. Você
irá.”
       O guarda Caçador de Sombras recuou quando a porta se abriu, e
Maryse entrou na sala. Estava sendo seguida por duas figuras
imediatamente familiares a Simon: Alec, o irmão de Isabelle, e o seu
namorado, o Bruxo Magnus Bane.
       Alec vestia um escuro terno preto; Magnus, para a surpresa de
Simon, estava vestido do mesmo jeito, com a adição de um comprido
cachecol branco de seda com as pontas adornadas em borlas e luvas
brancas. O cabelo estava em pé como de costume, mas para variar estava
sem o encantamento. Camille, vendo-o, ficou imóvel.
       Magnus ainda não pareceu vê-la; ele estava escutando a Maryse, que
dizia, meio desajeitada, que foi bom eles virem tão rápido. “Não
esperávamos vocês até amanhã, no mínimo.”
       Alec produziu um barulho abafado de aborrecimento e observou o
espaço. Ele não pareceu feliz, de forma alguma, por estar ali. Além disso,
pensou Simon, ele não mudara muito — tinha o mesmo cabelo preto, os
mesmos olhos azuis resolutos —, apesar de haver algo mais relaxado em
relação a ele do que havia antes, como se tivesse crescido em si de alguma
forma.
       “Felizmente há um Portal localizado perto da Opera House de Viena”,
disse Magnus, lançando seu cachecol sobre o ombro com um grande gesto.
“No momento em que recebemos sua mensagem, corremos para estarmos
aqui.”
       “Eu ainda não vejo que isso tudo tem a ver com a gente”, disse Alec.
“Então, vocês capturaram um vampiro que estava tramando algo indecente.
Eles não fazem isso sempre?”

       Simon sentiu o estômago revirar. Olhou para Camille para ver se ela
estava rindo dele, mas seu olhar estava fixo em Magnus.
       Alec, olhando para Simon pela primeira vez, corou. Era fácil perceber
isso porque sua pele estava muito pálida. “Foi mal, Simon. Eu não me referi
a você. Você é diferente.”
       Você pensaria isso se tivesse me visto na noite passada, bebendo o
sangue de uma garota de catorze anos? Simon pensou. Mas não disse isso,
embora, só assentiu para Alec.
       “Ela é de interesse em nossa atual investigação sobre as mortes de
três Caçadores de Sombras”, disse Maryse. “Nós precisamos de informações
dela, e ela só irá conversar com Magnus Bane.”
       “Sério?” Alec olhou para Camille com intrigado interesse. “Só com
Magnus?”
       Magnus seguiu seu olhar, e pela primeira vez — ou assim pareceu a
Simon
       — olhou diretamente para Camille. Algo crepitou entre eles, um tipo
de energia. A boca de Magnus se torceu nos cantos num sorriso saudoso.
       “Sim”, disse Maryse, um olhar de confusão passando pelo rosto
quando percebeu o olhar entre o bruxo e a vampira. “Isso é, se Magnus
quiser.”
       “Eu quero”, disse Magnus, tirando as luvas. “Eu falo com Camille para
vocês.”
       “Camille?” Alec olhou para Magnus com as sobrancelhas erguidas.
“Você a conhece, então? Ou — ela te conhece?”
       “Nós nos conhecemos.” Magnus deu de ombros, bem de leve, como
se dissesse, Que você pode fazer? “Ela já foi minha namorada uma vez.”

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