sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

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Capítulo 4
A ARTE DOS OITO MEMBROS
       AQUI ESTÃO CONSERVADAS A ÂNSIA DE GRANDES CORAÇÕES E
COISAS NOBRES QUE ASCENDERAM ACIMA DA MARÉ, A PALAVRA MÁGICA
ESSA MARAVILHA ALADA COMEÇA, A SABEDORIA ACUMULADA QUE NUNCA
MORRE.
       AS PALAVRAS ESTAVAM GRAVADAS SOBRE AS PORTAS DA frente da
Biblioteca Pública do Brooklyn no Grand Army Plaza. Simon estava sentado
sobre os degraus da frente, olhando acima para a fachada. Inscrições
brilhavam contra a pedra em um dourado embotado, cada palavra brilhando
em momentânea vida, quando capturadas pelos faróis dos carros passando.
       A biblioteca sempre tinha sido um dos seus lugares favoritos quando
ele era uma criança. Havia uma entrada separada de crianças na lateral, e
lá ele tinha encontrado Clary todos os sábados, por anos. Eles escolhiam
uma pilha de livros e iam para a próxima entrada do Jardim Botânico, onde
eles poderiam ler por horas, estendidos na grama, o som do tráfego um
constante zumbido a distância.
       Como ele tinha terminado aqui hoje a noite, ele não estava bem
certo. Ele tinha se distanciado de sua casa tão rápido quanto ele pôde, só
para perceber que não tinha lugar nenhum para ir. Ele não podia ousar ir
para a de Clary — ela ficaria horrorizada com o que ele tinha feito, e
desejaria que ele voltasse para consertar isso. Eric e os outros caras não
entenderiam. Jace não gostava dele, e, além disso, ele não podia ir para o
Instituto. Era uma igreja, e a razão dos
       Nephilim viverem lá, em primeiro lugar, era precisamente para
manter criaturas como ele fora. Eventualmente ele tinha percebido a quem
era que ele podia ligar, mas o pensamento tinha sido desagradável o
suficiente para que isso o tivesse feito levar um pouco de tempo para que
tomasse coragem de realmente fazer isso.
       Ele escutou a moto antes que ele a visse, o alto rugido do motor
cortando através dos sons do leve tráfego na Grand Army Plaza. A moto
inclinou-se na curva e acima na calçada, então se empinou e se atirou nos
degraus. Simon se moveu para o lado enquanto ela aterrissava levemente
ao seu lado e Raphael soltava o guidon.
       A moto ficou instantaneamente quieta. Motos vampiras eram
abastecidas por espíritos demoníacos e respondiam como bichos de
estimação aos desejos de seus donos. Simon as achava aterrorizantes.
       “Você queria me ver, Dayligher?” Raphael, tão elegante como sempre
em uma jaqueta preta e jeans parecendo caros, desmontou e inclinou sua
moto contra o corrimão da biblioteca. “É melhor que seja bom”, ele
adicionou. ”Não é por nada que eu vim por todo o caminho até o Brooklyn.
Raphael Santiago não pertence a um subúrbio.”
       “Ah, bom. Você está começando a falar em si mesmo na terceira
pessoa. Isso não é um sinal de megalomania iminente ou algo assim.”

       Raphael encolheu os ombros. “Você também pode me dizer o que
você queria me dizer, ou eu partirei. É com você.” Ele olhou para seu
relógio. “Você tem trinta segundos.”
       “Eu disse a minha mãe que eu sou um vampiro.”
       As sobrancelhas de Raphael se ergueram. Elas eram muito finas e
escuras. Em momentos menos generosos, Simon às vezes se perguntava se
elas eram pintadas. “E o que aconteceu?”
       “Ela me chamou de monstro e tentou me exorcizar.” A lembrança fez
o gosto amargo de sangue velho subir na garganta de Simon.
       “E então?”
       “E então eu não tenho certeza do que aconteceu. Eu comecei a falar
com ela em uma voz realmente estranha, calmante, dizendo a ela que nada
aconteceu e que tudo era um sonho.”
       “E ela acreditou em você.”
       “Ela acreditou em mim.” Simon disse, relutante.
       “É claro que ela acreditou.” Raphael disse. “Porque você é um
vampiro. Esse é um poder que nós temos. O encanto. A fascinação. O poder
de persuasão, você chamaria disso. Você pode convencer mundanos de
qualquer coisa quase, se você aprender como usar a habilidade
corretamente.”
       “Mas eu não queria usar isso nela. Ela é minha mãe. Tem algum jeito
de tirar isso dela — algum modo de consertar isso?”
       “Consertar para que ela odeie você de novo? Para que ela pense que
você é um monstro? Esta é uma estranha definição de consertar alguma
coisa.”
       “Eu não me importo”, Simon disse. “Há um jeito?”
       “Não”, Raphael disse contente. “Não há. Você saberia sobre tudo isso,
é claro, se você não desdenhasse tanto sua própria espécie.”
       “Tudo bem. Aja como se eu rejeitasse vocês. Não é como se você
tentasse me matar ou algo assim.”
       Raphael deu de ombros. “Aquilo foi política. Nada pessoal.” Ele se
inclinou contra o corrimão e cruzou os braços sobre seu peito. Ele estava
usando luvas pretas de motociclista. Simon teve que admitir que ele parecia
bem legal. “Por favor, me diga que você não me trouxe aqui para poder me
contar uma estória muito chata sobre sua irmã.”
       “Minha mãe”, Simon corrigiu.
       Raphael acenou uma mão desdenhosa; “Tanto faz. Alguma mulher
em sua vida te rejeitou. Essa não será a última vez, posso te dizer isso. Por
que você está me incomodando a respeito disso?”
       “Eu queria saber se eu poderia ir e ficar no Dumont”, Simon disse,
botando as palavras para fora tão rápido que ele não poderia voltar no meio
do caminho. Ele mal podia acreditar que ele estava pedindo. Suas memórias
do hotel vampiro eram memórias de sangue e terror e dor. Mas era um
lugar a ir, um lugar para ficar onde ninguém olharia para ele, e então ele
não teria que ir para casa. Ele era um vampiro. Era estúpido estar com
medo de um hotel cheio de outros vampiros. “Eu não tenho nenhum outro
lugar para ir.”
       Os olhos de Raphael cintilaram. “Aha,” ele disse, com um leve triunfo
que Simon, particularmente, não gostou. “Agora você quer algo de mim.”
       “Eu suponho que sim. Embora seja esquisito que você esteja tão
animado sobre isso, Raphael.”

       Raphael bufou. ”Se você quer ficar no Dumont, você não se dirigirá a
mim como Raphael, mas como Mestre, Majestade ou Grande Líder.”
       Simon se retesou. “E quanto a Camille?”
       Raphael continuou. ”O que você quer dizer?”
       “Você sempre me disse que não era realmente o líder dos vampiros”,
Simon disse brandamente. “Então, em Idris, você me contou que era
alguém chamado Camille. Você disse que ela não tinha voltado para Nova
York ainda. Mas, eu presumo, quando ela voltar, ela será a mestre, ou algo
assim?”
       O olhar de Raphael escureceu. “Eu não acho que gosto da sua linha
de questionamento, Daylighter.”
       “Eu tenho o direito de saber das coisas.”
       “Não”, Raphael disse. “Você não tem. Você vem a mim, me
perguntando se você pode ficar em meu hotel por que você não tem
nenhum outro lugar para ir. Não por que você deseja estar com outros de
sua espécie. Você nos evita.”
       “Que, como eu já apontei, tem haver com a época que você tentou
me matar.”
       “O Dumont não é uma casa provisória para vampiros relutantes.“
Raphael continuou. “Você vive entre humanos, você anda a luz do dia, você
toca em sua banda estúpida — sim, não pense que eu não sei sobre isso.
Em todos os sentidos você não aceita o que você realmente é. E enquanto
isso for verdade, você não é bem-vindo ao Dumont.”
       Simon se lembrou de Camille dizendo, No momento que seus
seguidores virem que você está comigo, eles o deixaram e virão para mim.
Eu acredito que eles são leais a mim, sob o temor dele. Uma vez que eles
nos virem juntos, esse temor desaparecerá, e eles virão para o nosso lado.
“Sabe”, ele disse. “Eu tive outras ofertas.”
       Raphael olhou para ele como se ele estivesse louco. “Oferta de que?”
       “Só... ofertas.” Simon disse debilmente.
       “Você é horrível em política, Simon Lewis. Eu sugiro que você não
tente de novo.”
       “Ótimo.“ Simon disse. “Eu vim aqui para lhe dizer algo, mas agora eu
não vou.”
       “Eu suponho que você também vai jogar fora o presente de
aniversário que você trouxe para mim”, Raphael disse. “Isso tudo é muito
trágico.” Ele apanhou sua moto e jogou uma perna sobre ela, enquanto o
motor voltava à vida. Faíscas vermelhas voaram do cano do escapamento.
“Se você me incomodar de novo Dayligher, é melhor que seja por uma boa
razão. Ou eu não serei indulgente.”
       E com isso, a moto jogou-se a frente e acima. Simon lançou sua
cabeça para trás para olhar, enquanto Raphael, como o anjo que ele era
chamado, voava para o céu num rastro de fogo.
       ????
       Clary sentou-se com seu caderno de desenho sobre seus joelhos e
roeu a ponta de seu lápis pensativamente. Ela tinha desenhado Jace
dezenas de vezes — ela achava que essa era sua versão de escrita da
maioria das garotas sobre seus namorados em seus diários — mas ela
nunca pareceu ser capaz de captá-lo exatamente. Por uma coisa, era quase
impossível fazê-lo ficar imóvel, então ela achou que agora, enquanto ele
estava dormindo, seria perfeito — mas ainda não estava saindo muito bem
do modo que ela queria. Simplesmente não parecia com ele.

       Ela lançou o caderno de desenho sobre o cobertor com um suspiro de
exasperação e puxou seus joelhos para cima, olhando ele abaixo. Ela não
tinha esperado que ele caísse no sono. Eles tinham vindo do Central Park
para almoçar e treinar lá fora, enquanto o tempo ainda estava bom. Ele
tinham feito uma daquelas coisas. Os recipientes do Taki estavam na grama
ao lado do cobertor. Jace não tinha comido muito, selecionando em sua
embalagem de macarrão de gergelim em um incoerente padrão, antes de
colocá-la de lado e se arremessar sobre o cobertor, olhando para o céu.
Clary sentou-se olhando para ele, o modo que as nuvens refletiam em seus
olhos claros, o contorno dos músculos nos braços cruzados atrás de sua
cabeça, a faixa de pele perfeita revelada entre a bainha de sua camiseta e o
cós de seus jeans. Ela desejou estender-se e deslizar sua mão ao longo de
seu estômago plano; ao invés disso ela desviou seus olhos, rebuscando seu
caderno de desenho. Quando ela se voltou, lápis na mão, os olhos dele
estavam fechados e sua respiração suave e nivelada.
       Ela estava agora no terceiro esboço esboços em sua ilustração, e nem
de perto um desenho que a satisfizesse. Olhando para ele agora, ela se
perguntou, por que por Deus, ela não podia desenhá-lo. A luz era perfeita,
a suave luz bronze de outubro que repousava um brilho dourado pálido
sobre seu cabelo e pele já dourados. Seus cílios fechados eram decorados
com uma dourada sombra mais escura de que seu cabelo. Uma de suas
mãos estava cobrindo frouxamente seu peito, a outra aberta a seu lado.
Seu rosto estava relaxado e vulnerável, era difícil capturar os traços dele
quando era ele. Parecia... estranho.
       Naquele preciso momento ele se mexeu. Ele tinha começado a fazer
pequenos sons arfantes em seu sono, seus olhos jogando-se para trás e
para frente, atrás de suas pálpebras. Sua mão sacudiu, apertando contra o
seu peito, e ele se sentou, tão subitamente que ele quase bateu em Clary.
Seus olhos se arregalaram. Por um momento ele pareceu pasmo; ele tinha
ficado assustadoramente pálido.
       “Jace?” Clary não pôde esconder sua surpresa.
       Os olhos dele se focaram nela; um momento depois ele a tinha
puxado em direção a ele com nenhuma de sua habitual gentileza; ele a
puxou para seu colo e a beijou impetuosamente, suas mãos sinuosas em
seu cabelo. Ela podia sentir o martelar do coração dele com o dela, e ela
sentiu suas bochechas corarem. Eles estavam em um parque público, ela
pensou, e pessoas provavelmente estavam olhando.
       “Whoa”, ele disse, se afastando, seus lábios curvados em um sorriso.
“Desculpe-me. Provavelmente você não estava esperando por isso.”
       “Foi uma bela surpresa.” Sua voz soava baixa e rouca aos seus
próprios ouvidos. “Sobre o que você estava sonhando?”
       “Você.” Ele torceu um cacho de seus cabelos ao redor de seu dedo.
“Eu sempre sonho com você.”
       Ainda em seu colo, suas pernas apoiando nas dele. Clary disse, “Ah,
é? Por que eu achei que você estava tendo um pesadelo.“
       Ele inclinou sua cabeça para trás para olhar para ela. “Às vezes eu
sonho que você se foi”, ele disse. “Fico imaginando quando você perceberá
o quanto melhor você poderia fazer e me deixar.”
       Ela tocou seu rosto com as pontas dos dedos, delicadamente os
correndo sobre a superfície de suas maças do rosto, abaixo para a curva de
sua boca. Jace nunca disse coisas como aquela a ninguém mais, a não ser
ela. Alec e Isabelle sabiam, de viver com ele e amá-lo, que por baixo

daquela armadura protetora de humor e pretensa arrogância, os
fragmentos afiados de memória e infância ainda o rasgavam. Mas ela era a
única a quem ele dizia as palavras alto. Ela sacudiu sua cabeça, seu cabelo
caiu à frente de sua testa, e ela o puxou impaciente. “Eu gostaria de poder
dizer coisas do modo que você o faz”, ela disse. “Tudo o que você diz, as
palavras que você escolhe, elas são tão perfeitas. Você sempre acha a
citação certa, ou a coisa certa a se dizer para me fazer acreditar que você
me ama. Se eu não posso convencer você que eu nunca vou te deixar—“
       Ele segurou a mão dela na dele. “Apenas diga isso de novo.”
       “Eu nunca vou deixar você.” Ela disse.
       “Não importa o que acontecer, o que eu faça?”
       “Eu nunca desistirei de você”, ela disse. ”Nunca. O que eu sinto por
você—“ ela tropeçou nas palavras. “É a coisa mais importante que eu já
senti.”
       Droga. ela pensou. Aquilo soava completamente estúpido. Mas Jace
não pareceu pensar assim; então ele sorriu melancólico e disse. “L’amor
Che move Il sole e l’altre stelle.”
       “Isso é Latin?”
       “Italiano”, ele disse. “Dante.”
       Ela correu a ponta de seus dedos sobre os lábios dele, e ele
estremeceu. ”Eu não falo italiano”, ela disse, muito suavemente.
       “Significa”, ele disse, ”que o amor é a mais poderosa força no mundo.
Que o amor pode fazer qualquer coisa.”
       Ela puxou sua mão da dele, alerta de que enquanto ela fazia isso ele
a estava observando através de seus olhos semicerrados. Ela fechou suas
mãos ao redor da parte de trás do pescoço dele, se inclinou para frente, e
tocou os lábios dele com os dela — não um beijo, desta vez, só um roçar de
lábios contra o outro. Foi o suficiente, ela sentiu o pulso dele acelerar, e ele
se inclinou a frente, tentando capturar sua boca com a dele, mas ela
balançou sua cabeça, sacudindo seu cabelo ao redor deles como uma
cortina que os esconderia dos olhos de todos os outros no parque. “Se você
está cansado, nós poderíamos voltar para o
       Instituto”, ela disse em um meio sussurro, ”tirar um cochilo. Nós não
dormimos juntos na mesma cama desde — desde Idris.”
       Seus olhares se prenderam, e ela sabia que ele estava se lembrando
da mesma coisa que ela estava. A luz pálida filtrando através da janela do
pequeno quarto de hóspedes de Amatis, o desespero na voz dele. Eu só
quero deitar com você e acordar com você, só uma vez, só mesmo uma em
minha vida. Toda aquela noite, deitados lado a lado, apenas suas mãos se
tocando. Eles tinham se tocado muito mais desde aquela noite, mas nunca
tinham passado a noite juntos. Ele sabia também que ela estava oferecendo
a ele mais do que um cochilo em um dos quartos não utilizados no Instituto.
Ela tinha certeza que ele podia ver isso em seus olhos — mesmo se ela por
si própria não soubesse exatamente o quanto estava oferecendo. Mas não
importava. Jace nunca pediria a ela nada que ela não quisesse dar.
       “Eu quero.” O calor que ela viu nos olhos dele, a desigualdade em sua
voz, disse a ela que ele não estava mentindo. “Mas — nós não podemos.”
Ele olhou firme para os pulsos dela, e os trouxe abaixo, segurando suas
mãos entre eles, fazendo uma barreira.
       Os olhos de Clary se arregalaram. “Por que não?”
       Ele tomou fôlego. ”Nós viemos aqui para treinar, e nós devemos
treinar. Se nós vamos gastar namorando, todo o tempo em que nós

deveríamos estar supostamente treinando, eles vão parar de permitir que
eu a treine.”
        “De qualquer modo, eles não vão estar contratando outra pessoa
para me treinar o tempo inteiro?”
        “Sim”, ele disse, levantando-se e a puxando com ele. ”E eu estou
preocupado em você pegar o hábito de namorar seus instrutores, você terá
problemas namorando ele também.”
        “Não seja machista. Eles podem achar para mim uma instrutora.”
        “Nesse caso você tem minha permissão de namorá-la, desde que eu
possa olhar.”
        “Legal”, Clary sorriu, se curvando para dobrar o cobertor que eles
tinham trazido para se sentar. “Você só está preocupado deles contratarem
um instrutor e ele ser mais gostoso do que você.”
        As sobrancelhas de Jace subiram. “Mais gostoso do que eu?”
        “Poderia acontecer”, Clary disse. ”Sabe, teoricamente?”
        “Teoricamente o planeta poderia de repente rachar no meio, me
deixando de um lado e você do outro lado, para sempre e tragicamente
separados, mas eu não estou preocupado sobre isso também. Algumas
coisas”, Jace disse, com seu habitual sorriso torto, “são simplesmente muito
improváveis para se preocupar.”
        Ele estendeu sua mão; ela a tomou, e juntos cruzaram o campo, indo
para um bosque de árvores na margem do campo leste que só os
Caçadores de Sombras pareciam conhecer. Clary suspeitava que ele
estivesse enfeitiçado, desde que ela e Jace treinavam lá, com frequência, e
ninguém nunca os tinha interrompido, exceto Isabelle ou Maryse.
        O Central Park no outono era um turbilhão de cor. As árvores
alinhadas no campo tinham posto suas brilhantes cores e circulado o verde
em resplandecente dourado, vermelho, cobre, e laranja avermelhado. Era
um belo dia para dar uma caminhada romântica através do parque e se
beijar em uma das pontes de pedra. Mas isso não ia acontecer.
Obviamente, até onde tocava a Jace, o parque era uma extensão externa
da sala de treinamentos do Instituto, e eles estavam lá para treinar Clary
em vários exercícios envolvendo reconhecimento de terreno, técnicas de
fuga e evasão, e matar coisas com suas mãos desarmadas.
        Normalmente ela estaria animada em aprender como matar coisas só
com suas mãos. Mas havia algo a incomodando sobre Jace. Ela não podia se
livrar da sensação incomoda de que algo estava seriamente errado. Se pelo
menos houvesse uma runa, ela pensou, que pudesse fazê-lo dizer o que ele
estava realmente sentindo. Mas ela nunca criaria uma runa como aquela,
ela se lembrou apressadamente. Seria antiético usar seu poder para poder
controlar alguém. E além do mais, desde que ela criou a runa de ligação em
Idris, seu poder tinha permanecido, aparentemente, dormente. Ela não
sentia urgência em desenhar antigas runas, não tinha tido nenhuma visão
de novas runas para criar. Marise tinha dito a ela que eles tentariam trazer
um especialista em runas para ensiná-la, uma vez que o treinamento
realmente estava em andamento, mas até agora isso não tinha acontecido.
Não que ela se importasse, de verdade. Ela tinha que admitir que não tinha
certeza se lamentaria se o seu poder tivesse desaparecido para sempre.
        “Haverá momentos que você encontra um demônio e não tem uma
arma de combate.” Jace estava dizendo, enquanto eles passavam por uma
fileira de árvores carregadas de folhas, cujas cores iam da gama do verde
ao dourado brilhante. “Nesse momento, não entre em pânico. Primeiro,

você tem que se lembrar de que qualquer coisa pode ser uma arma. Um
galho de árvore, um punhado de moedas — elas dão ótimas soqueiras —
um sapato, qualquer coisa. E segundo, mantenha em mente que você é
uma arma. Na teoria, quando você terminar com o treinamento, você
deverá ser capaz de fazer um buraco na parede com um chute ou nocautear
um alce com um único soco.”
       “Eu nunca bateria em um alce”, Clary disse. “Eles estão em extinção.”
       Jace sorriu levemente, e se virou para encará-la. Eles tinham
alcançado o bosque, uma pequena e clara área no centro de um perfilar de
árvores. Havia runas nos troncos das árvores que os cercavam, fazendo
dele como um lugar dos Caçadores de Sombras.
       “Há um antigo estilo de luta chamado Muay Thai”, ele disse. ”Você já
ouviu sobre isso?”
       Ela sacudiu sua cabeça. O sol estava brilhante e firme, e ela estava
quase quente demais em sua calça de moletom e blusa de aquecimento.
Jace tirou sua jaqueta e se voltou para ela, flexionando sua mão de
pianista. Seus olhos estavam intensamente dourados na luz de outono.
Marcas para velocidade, agilidade, e força como um padrão de trepadeiras
de seus pulsos e na elevação de cada bíceps, desaparecendo debaixo das
mangas de sua camiseta. Ela se perguntava por que ele tinha se
incomodado em marcar-se como se ela fosse um adversário a ser
considerado.
       “Eu escutei um rumor que o novo instrutor que vamos ter na próxima
semana é um mestre em Muay Thai”, ele disse. “E sambo, lethwei, tomoi,
krav maga, jiu jitsu12, e em outro que francamente eu não me lembro do
nome, mas que envolve matar pessoas com pequenas varetas ou algo
assim. Meu ponto é, ele ou ela não está acostumado a trabalhar com
alguém de sua idade, que é tão inexperiente quanto você é, então se nós te
ensinarmos um pouco do básico, eu espero que isso faça eles se sentirem
um pouco mais generosos em relação a você.” Ele colocou suas mãos nos
quadris dela. “Agora se vire e me enfrente.”
       Clary fez como o instruído. Encarar um ao outro desse jeito, sua
cabeça
       São todos estilos de luta.
       Batia na ponta do queixo dele. Ela descansou suas mãos levemente
em seus bíceps.
       “Muay Thai é chamado de a ‘arte dos oito membros.’ Isso é por que
você utiliza não só seus punhos e pés como pontos de ataque, mas também
seus joelhos e cotovelos. Primeiro, você tem que atrair seu oponente, então
esmurrá-lo com cada um de seus pontos de ataque até que ele ou ela caia.”
       “E isso funciona com demônios?” Clary levantou suas sobrancelhas.
       “Os menores.” Jace se moveu para mais perto dela. ”Ok. Estenda sua
mão ao redor e agarre as costas do meu pescoço.”
       Apenas era possível fazer como ele instruiu sem ficar nas pontas de
seus pés. Não pela primeira vez, Clary amaldiçoou o fato que ela fosse tão
baixa.
       “Agora você levanta sua outra mão e faz a mesma coisa de novo,
então suas mãos circulam ao redor da parte de trás do meu pescoço.”
       Ela o fez. A parte de trás de seu pescoço estava quente pelo sol, e
seu cabelo suave fazia cócegas em seus dedos. Seus corpos estavam
pressionados um contra o outro, ela podia sentir o anel que usava em uma

corrente ao redor de seu pescoço, pressionada entre eles, como uma pedra
pressionada entre duas palmas.
       “Numa luta real você faria este movimento mais rápido”, ele disse. A
menos que ela estivesse imaginando, a voz dele estava um pouco desigual.
“Agora a contenção sobre mim dá a você vantagem. Você vai utilizar esta
vantagem para se puxar a frente e adicionar o impulso para seu joelho
chutar acima—“
       “Pelos céus,” disse uma voz fria, entretida. “Apenas seis semanas, e
já estão na garganta um do outro? Quão depressa o amor mortal
enfraquece.”
       Soltando-se de seu abraço em Jace, Clary girou, embora ela já
soubesse quem era. A Rainha da corte de Seelie em pé nas sombras entre
duas árvores. Se Clary não soubesse que ela estava lá, ela se perguntava
se teria a visto, mesmo com a visão. A Rainha vestia um vestido tão verde
quanto à grama, e seu cabelo, caindo em torno de seus ombros, era da cor
de uma folha terracota. Ela era tão bonita e espantosa quanto um fim de
estação. Clary nunca confiou nela.
       “O que você está fazendo aqui?“ Foi Jace, seus olhos estreitos. ”Este
é um lugar de Caçadores de Sombras.”
       My, my – tradução livre.
       “E eu tenho notícias do interesse dos Caçadores de Sombras.”
Enquanto a Rainha vinha graciosamente à frente, o sol perfurava através
das árvores e cintilava o círculo de bagos dourados que ela usava ao redor
de sua cabeça. Clary algumas vezes se perguntava se a Rainha planejava
essas entradas dramáticas, e se sim, como. “Houve outra morte.”
       “Que tipo de morte?”
       “Outro de vocês. Nephilim morto.” Havia um certo deleite no modo
em que a Rainha disse isso. “O corpo foi descoberto neste amanhecer,
embaixo da Oak Bridge. Como você sabe, o parque é meu domínio. Um
humano morto não tem haver comigo, mas o morto não parecia ser um de
origem mundana. O corpo foi trazido à corte para ser examinado por meus
físicos. Eles pronunciaram que o mortal era um de vocês.”
       Clary olhou rapidamente para Jace, lembrando-se da notícia da morte
do Caçador de Sombras, dois dias antes. Ela podia dizer que Jace estava
pensando a mesma coisa; ele tinha empalidecido. “Onde está o corpo?”
       “Você está preocupado sobre minha hospitalidade? Ele aguarda em
minha corte, e eu lhe asseguro que nós proporcionamos ao corpo dele todo
o respeito que nós daríamos a um Caçador de Sombras vivo. Agora que um
dos meus tem um lugar no Conselho ao seu lado e dos seus, você não pode
duvidar de nossa boa fé.”
       “Como sempre, boa fé e a minha senhora andam de mãos dadas.” O
sarcasmo na voz de Jace era claro, mas a Rainha apenas sorriu. Ela gostava
de Jace, Clary sempre achou, do modo em que as fadas gostavam de coisas
belas por que elas eram bonitas. Ela não achava que a Rainha gostava dela,
e o sentimento era mútuo. “E por que você nos dá esta mensagem, ao
invés de a Maryse? A etiqueta mandaria—“
       “Ah, a etiqueta.” A Rainha afastou a convenção com um acenar de
sua mão. “Você estava aqui. Pareceu oportuno.”
       Jace deu a ela outro olhar estreito e abriu seu telefone. Ele gesticulou
para Clary ficar onde ela estava, e se afastou. Ela podia ouvi-lo dizendo,
“Marise?” enquanto o telefone respondia, e então sua voz foi engolida pelos
gritos nos campos de jogos próximos.

       Com uma sensação de frio terror, ela olhou para a Rainha. Ela não
tinha visto a senhora da corte de Seelie desde sua última noite em Idris, e
lá, Clary não tinha sido exatamente educada com ela. Ela duvidava que a
Rainha tivesse esquecido ou perdoado ela por aquilo. Você realmente
recusaria um favor da Rainha da Corte de Seelie?
       “Eu ouvi dizer que Meliorn conseguiu um assento no Conselho”, Clary
agora disse. “Você deve estar satisfeita sobre isso.”
       “De fato.” A Rainha olhou para ela com diversão. “Eu estou
suficientemente encantada.”
       “Então”, Clary disse. ”Sem ressentimentos, certo?”
       O sorriso da Rainha se tornou gelado ao redor no canto dos lábios,
como gelo na superfície de um lago. “Eu suponho que você se refere a
minha oferta, que você tão rudemente declinou”, ela disse. “Como você
sabe, meu objetivo foi apesar de tudo, realizado; a perda lá, eu imagino
que a maioria concorda, foi sua.”
       “Eu não queria seu trato.” Clary tentou manter afastada a aspereza
de sua voz, e falhou. ”Sabe, as pessoas não fazem o que você quer o tempo
todo.”
       “Não suponha em me dar um sermão, criança.” Os olhos da Rainha
seguiram Jace, que estava andando nas margens das árvores, o telefone na
mão. “Ele é bonito”, ela disse. “Eu posso ver por que você o ama. Mas você
alguma vez já se perguntou o que atrai ele para você?”
       Clary não disse nada para aquilo; não parecia haver nada a dizer.
       “O sangue do Céu une vocês”, A Rainha disse. “Sangue atrai sangue,
sob a pele. Mas amor e sangue não são os mesmos.”
       “Enigmas”, Clary disse com raiva. “Você quer dizer algo, quando você
fala desse jeito?”
       “Ele está ligado a você”, a Rainha disse. “Mas ele te ama?”
       Clary sentiu suas mãos se contraírem. Ela ansiou testar na Rainha
algum dos novos movimentos de luta que ela tinha aprendido, mas ela
sabia o quão imprudente isso seria. “Sim, ele ama.”
       “E ele te quer? Pois amor e desejo não são sempre um.”
       “Isso não é da sua conta”, Clary disse em poucas palavras, mas ela
viu que os olhos da Rainha sobre ela eram tão afiados quanto alfinetes.
       “Você o quer como você nunca quis outra coisa. Mas ele sente o
mesmo?”
       A voz suave da Rainha era implacável. “Ele poderia ter qualquer coisa
ou qualquer um que ele deseje. Você se pergunta por que ele lhe escolheu?
Você se pergunta se ele se arrepende disso? Se ele mudou em relação a
você?”
       Clary sentiu as lágrimas picarem atrás de seus olhos. “Não, ele não.”
Embora ela pensasse em seu rosto no elevador naquela noite, e o modo que
ele tinha dito a ela para ir para casa, quando ela tinha se oferecido para
ficar.
       “Você me disse que não desejava fazer um acordo comigo, pois não
havia nada que eu pudesse dar a você. Você disse que não havia nada no
mundo que você quisesse.” Os olhos da Rainha cintilaram. “Quando você
imagina sua vida sem ele, você ainda sente o mesmo?”
       Por que você está fazendo isso comigo? Clary queria gritar, mas ela
não disse nada, então a Rainha Fada olhou atrás dela, e sorriu, dizendo.
“Limpe suas lágrimas, pois ele retorna. Não fará bem nenhum para ele, ver
você chorar.”

       Clary esfregou apressadamente seus olhos com as costas de sua
mão, e se virou; Jace estava caminhando em direção a elas, fazendo uma
careta. “Maryse está a caminho da Corte”, ele disse. “Onde a Rainha foi?”
       Clary olhou para ele, surpresa. “Ela está aqui”, ela começou, se
virando — e se interrompeu. Jace estava certo. A rainha se fora, só um
farfalhar de folhas aos pés de Clary mostrava onde ela tinha estado.
       ????
       Simon, sua jaqueta acolchoando debaixo de sua cabeça, estava
deitado de costas, olhando para o teto preenchido de buracos da garagem
de Eric, com uma sensação de terrível fatalidade. Sua mochila estava aos
seus pés, seu telefone pressionado contra sua orelha. Agora mesmo a
familiaridade da voz de Clary na outra extremidade era a única coisa que o
mantinha longe de desmoronar completamente.
       “Simon, eu lamento tanto.” Ele podia dizer que ela estava em algum
lugar na cidade. O alto volume do tráfego soava atrás dela, abafando sua
voz. “Você realmente está na garagem do Eric? Ele sabe que você está ai?”
       “Não”, Simon disse. “Ninguém está em casa neste momento, e eu
tenho a chave da garagem. Parecia um lugar para se ir. A propósito, onde
você está?”
       “Na cidade”, Para os brooklynianos, Manhattan era sempre ‘a cidade’.
Nenhuma outra metrópole existia. “Eu estava treinando com Jace, mas
então ele teve que voltar para o Instituto para algum tipo de negócio da
Clave. Eu voltei para o Luke agora.” Um carro buzinou alto ao fundo. “Olha,
você quer ficar com a gente? Você poderia dormir no sofá do Luke.”
       Simon hesitou. Ele tinha boas memórias da casa do Luke. Em todos
esses anos que ele conhecia Clary, Luke tinha vivido na mesma desgastada,
mas agradável casa germinada sobre a livraria. Clary tinha uma chave, e
ela e Simon tinham transcorrido bastantes horas agradáveis lá, lendo livros
que eles ‘tomavam emprestado’ da loja lá embaixo, ou assistindo filmes
antigos na TV.
       Embora, as coisas fossem diferentes agora.
       “Talvez minha mãe pudesse conversar com sua mãe”, Clary disse,
soando preocupada com seu silêncio. “Fazê-la entender.”
       “Fazê-la entender que eu sou um vampiro? Clary, eu acho que ela
entende isso, de um modo estranho. Isso não significa que ela vai aceitar
ou ficar bem com isso.”
       “Bem, você só não pode continuar fazendo com que ela esqueça isso
também, Simon”, Clary disse. “Não vai continuar funcionando para
sempre.”
       “Por que não?” Ele sabia que não estava sendo razoável, mas deitado
sobre o chão duro, cercado pelo cheiro de gasolina e sussurros das aranhas
esticando suas teias nos cantos da garagem, sentindo-se mais solitário do
que ele jamais tinha, razoável parecia bem distante.
       “Por que então todo seu relacionamento com ela é uma mentira. Você
nunca vai poder voltar para casa—“
       “Então o que?“ Simon interrompeu rispidamente. “Essa é a parte da
maldição, não é? Um fugitivo e um errante tu deves ser.”
       Apesar dos ruídos de tráfego e o som de conversas ao fundo, ele
podia ouvir o súbito arfar de Clary.
       “Você acha que eu deveria falar a ela sobre isso também?”, ele disse.
“Como você pôs a marca de Caim em mim? Como eu sou, basicamente,
uma maldição ambulante? Você acha que ela vai querer isso em sua casa?”

       O fundo ficou silencioso; Clary deve ter se enfiado em uma entrada.
Ele podia ouvi-la lutando para afastar as lágrimas quando ela disse, ”Simon,
eu lamento tanto. Você sabe que eu lamento—“
       “Não é sua culpa.” Ele se sentiu subitamente cansado. Isso mesmo,
aterrorizar sua mãe e depois fazer sua melhor amiga chorar. Um belo dia
para você, Simon. “Olha, obviamente eu não deveria estar perto de pessoas
agora. Eu apenas vou ficar por aqui, e irei dar de cara com o Eric quando
ele chegar em casa.”
       Ela fez som de uma risada sufocada através das lágrimas. “O que,
Eric não conta como pessoas?”
       “Eu volto a falar sobre isso com você mais tarde.” Ele disse, e
hesitou. ”Eu ligo amanhã, tudo bem?”
       “Você me verá amanhã. Você prometeu vir para a prova de roupa
comigo, lembra-se?”
       “Wow,” ele disse. “Eu realmente devo te amar.”
       “Eu sei”, ela disse. “Eu também te amo.”
       Simon desligou o telefone e deitou-se, abraçando-o contra seu peito.
Era engraçado, ele pensou. Agora ele podia dizer “eu te amo” para Clary,
quando por anos ele tinha lutado para dizer aquelas palavras e não ter sido
capaz tirá-las de sua boca. Agora, que elas não significavam mais do
mesmo jeito, era fácil.
       Algumas vezes ele se perguntava o que teria acontecido se nunca
tivesse havido um Jace Wayland. Se Clary nunca tivesse descoberto que ela
era uma Caçadora de Sombras. Mas ele afastou esse pensamento — inútil,
não vá por ai. Você não pode mudar o passado. Você só poderia ir à frente.
Não que ele tivesse alguma ideia do que o a frente implicava. Ele não podia
ficar na garagem de Eric para sempre. Mesmo no seu atual humor, ele tinha
que admitir que era um lugar triste para se ficar. Ele não estava com frio —
ele não mais sentia frio ou calor em nenhum modo real — mas o chão era
duro, e ele estava tendo dificuldade em dormir. Ele desejou que pudesse
entorpecer seus sentidos. O barulho alto de tráfego lá fora não estava o
deixando descansar, como estava o desagradável fedor de gasolina. Mas
era a inquietante preocupação do que fazer em seguida que era o pior.
       Ele tinha jogado fora a maior parte de seu suprimento de sangue, e
escondido o resto em sua mochila; ele tinha o suficiente para alguns dias, e
então, ele estaria com problemas. Eric, onde quer que esteja, certamente
deixaria
       Simon ficar em casa se precisasse, mas isso poderia resultar em os
pais de Eric ligando para a mãe de Simon. E desde que ela pensava que ele
estava em uma excursão escolar, isso não faria bem algum.
       Dias, ele pensou. Essa era a quantidade de tempo que ele tinha.
Antes de ele ir atrás de sangue, antes que sua mãe começasse a se
perguntar onde ele estava e ligar para a escola, procurando por ele. Antes
que ela começasse a se lembrar. Ele era um vampiro agora. Era para ele ter
a eternidade. Mas o que ele tinha eram dias.
       Ele tinha sido tão cuidadoso. Tentou tanto para o que ele achava que
era uma vida normal — escola, amigos, sua própria casa, seu próprio
quarto. Tinha sido esforçado, mas isso era o que a vida era. Outras opções
pareciam tão sombrias e solitárias que não valiam pensar sobre elas. E a
voz de Camille ainda soava em sua cabeça. Mas e quanto à daqui a dez
anos, quando você irá ter vinte e seis? Em vinte anos? Trinta? Você acha

que ninguém vai notar que enquanto eles envelhecem e mudam, você
não?”
       A situação que ele tinha criado para si mesmo, que tinha entalhado
tão cuidadosamente no formato de sua antiga vida, nunca tinha sido
permanente, ele pensava agora, com um afundar em seu peito, ela nunca
poderia ter sido. Ele tinha estado apegado a sombras e memórias. Ele
pensou de novo em Camille, em sua oferta. Soava melhor agora do que
tinha antes. Uma oferta de uma comunidade, mesmo se não fosse a
comunidade que ele queria. Ele tinha apenas cerca de três dias ou mais
antes que ela viesse à procura de sua resposta. E o que ele diria quando ela
o fizesse? Ele achava que sabia, mas agora ele não tinha tanta certeza.
       Um ruído rangente interrompeu seu devaneio. A porta da garagem
estava engrenando, a luz brilhante avançando no interior escuro do espaço.
Simon sentou-se, seu corpo inteiro, de repente, alerta.
       “Eric?”
       “Nah. Sou eu, Kyle.”
       “Kyle?” Simon disse inexpressivamente, antes que ele se lembrasse
— o cara que eles tinham concordado em tomar como cantor principal.
Simon quase voltou para o chão de novo. “Ah, Certo. Nenhum dos outros
caras estão aqui agora, então se você estava esperando ensaiar...”
       “Tudo bem. Não é o porquê eu vim.” Kyle entrou na garagem,
piscando na escuridão, suas mãos nos bolsos de trás de seus jeans. “Você
é, qual é o seu nome, o baixista, certo?”
       Simon ficou de pé, limpando a poeira do chão da garagem de suas
roupas. “Eu sou o Simon.”
       Kyle olhou em torno, um perplexo sulco em suas sobrancelhas. “Eu
acho que deixei minhas chaves aqui, ontem. Procurei por elas por toda
parte. Hei, lá estão elas.” Ele mergulhou atrás da bateria e emergiu um
segundo depois, chacoalhando o grupo de chaves triunfantemente em sua
mão. Ele parecia o mesmo como tinha um dia antes. Ele vestia uma
camiseta azul hoje, por baixo da jaqueta de couro, e uma medalha dourada
de um santo brilhava em torno do seu pescoço. Seu cabelo escuro estava
mais bagunçado do que nunca. “Então”, Kyle disse, inclinando-se contra um
dos microfones. “Você estava, tipo, dormindo aqui? No chão?”
       Simon concordou. “Expulso de minha casa.” Não era precisamente a
verdade, mas era tudo que sentia que ia dizer.
       Kyle concordou com simpatia. “A mãe descobriu seu baseado
escondido, huh? Que droga.”
       “Não, não... baseado escondido.” Simon deu de ombros. “Nós
tivemos uma diferença de opinião sobre meu estilo de vida.”
       “Então ela descobriu sobre suas duas namoradas?” Kyle sorriu. Ele
era bonito, Simon teve que admitir, mas ao contrário de Jace, que parecia
saber exatamente o quanto bonito ele era, Kyle parecia como alguém que
provavelmente não tinha escovado seu cabelo por semanas. Embora
houvesse uma aberta docilidade amigável nele que era apelativa. “Sim, Kirk
me disse sobre isso. Bom para você, cara.”
       Simon sacudiu sua cabeça. “Não foi isso.”
       Houve um curto silêncio entre eles, e então:
       “Eu... não moro em casa, também”, Kyle disse. “Eu parti há alguns
anos atrás.” Ele envolveu seus braços ao redor de si mesmo, baixando sua
cabeça. Sua voz estava baixa. “Eu não tenho falado com meus pais desde

então. Quero dizer, eu estou fazendo tudo certo por minha conta, mas... eu
entendo.”
       “Suas tatuagens”, Simon disse, tocando seus próprios braços
levemente. “O
       que elas significam?”
       Kyle esticou seus braços. “Shaantih shaantih shaantih”, ele disse.
“Elas são mantras vinda dos Upanishads14. Sâncrito. Orações para paz.”
       Normalmente Simon teria pensado que se tatuar em sânscrito era um
tipo de pretensão. Mas agora mesmo, ele não o fez. “Shalom”, ele disse.
       Kyle piscou para ele. “O que?”
       “Significa paz”, Simon disse. “Em hebreu. Eu estava apenas pensando
que as palavras soavam semelhantes.”
       Kyle deu a ele um longo olhar. Ele pareceu estar deliberando.
Finalmente ele disse. “Isso vai parecer meio maluco—“
       “Ah, eu não sei. Minha definição de maluco tem se tornado bastante
flexível nos últimos meses.”
       “—mas eu tenho um apartamento. Na Alphabet City. E meu colega de
quarto acabou de se mudar. É um dois quartos, então você poderia ficar no
espaço dele. Há uma cama lá e tudo.”
       Simon hesitou. Por um lado ele não conhecia Kyle de modo algum, e
se mudar para um apartamento de um completo estranho parecia ser uma
jogada estúpida de proporções épicas. Kyle poderia vir a ser um serial killer,
apesar de suas tatuagens de paz. Por outro lado ele não conhecia Kyle de
modo algum, o que significava que ninguém iria procurar por ele lá. E o que
importava se Kyle fosse um serial killer? Ele pensou amargamente. Tornaria
pior para Kyle do que seria para ele, como tinha sido para aquele ladrão,
noite passada.
       “Sabe”, ele disse. ”Eu acho que aceitarei isso, se estiver tudo bem.”
       Kyle acenou. “Minha caminhonete está lá fora se você quiser uma
carona para a cidade comigo.”
       Simon se curvou para pegar sua mochila e se endireitou com ela
arremessada sobre seu ombro. Ele deslizou o telefone em seu bolso e
estendeu suas mãos largamente, indicando sua prontidão. “Vamos lá.”
       Hindus. Ensinamentos para se chegar aos céus.

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