sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

9

Capítulo 9
DO FOGO PARA O FOGO
       CLARY ALCANÇOU A PORTA E IRROMPEU NA CHUVA E NO AR úmido
do anoitecer. Agora, descia torrencialmente, e ela ficou instantaneamente
encharcada. Engasgando-se com água da chuva e lágrimas, ela passou pela
familiar van amarela de Eric, a chuva cobrindo de seu teto até o chão, e ela
estava prestes a atravessar correndo a rua contra a luz, quando uma mão
pegou seu braço e a fez dar meia-volta.
       Era Jace. Ele estava tão encharcado quanto ela, a chuva colando seu
cabelo claro à cabeça e emplastrando sua camisa ao corpo como tinta
negra. “Clary, você não me ouviu te chamar?”
       “Me solte.” A voz dela estava abalada.
       “Não. Não até você conversar comigo.” Ele olhou em volta, de um
lado ao outro da rua, que estava deserta, a chuva explodindo na calçada
preta como flores desabrochando rapidamente. “Vamos.”
       Ainda segurando-a pelo braço, ele meio que a arrastou em volta da
van até um estreito beco que ficava ao lado do Alto Bar. Janelas altas acima
deles deixavam passar o som indistinto da música que ainda estava sendo
tocada lá dentro. A parede do beco era de tijolos, claramente uma espécie
de depósito para velhas peças de equipamentos musicais não utilizáveis.
Amplificadores quebrados e microfones velhos sujavam o chão, junto com
garrafas de cerveja quebradas e tocos de cigarro.
       Clary puxou o braço do aperto de Jace e virou para encará-lo. “Se
você está
       planejando se desculpar, nem se incomode.” Ela tirou o cabelo
molhado e pesado do rosto. “Eu não quero ouvir.”
       “Eu ia lhe contar que estava tentando ajudar Simon”, ele disse, água
da chuva descendo pelas suas pálpebras até as bochechas como lágrimas.
“Eu tenho estado na casa dele pelos últimos—“
       “E você não podia ter me contado? Nem sequer uma única
mensagem me dizendo onde estava? Ah, espere. Você não podia, porque
ainda está com o meu maldito telefone. Me dê ele de volta.”
       Em silêncio ele pôs a mão no bolso do jeans e o entregou a ela. Não
parecia danificado. Ela o enfiou na mochila, antes que a chuva pudesse
estragá-lo. Jace a observou enquanto fazia isso, parecendo como se ela
tivesse lhe batido na cara.
       Isso só a deixou mais zangada. Que direito ele tinha de estar
magoado?
       “Eu acho”, ele disse lentamente, “que pensei que a coisa mais
próxima de estar com você, era estar com Simon. Tomar conta dele; Tive a
estúpida ideia que, se você percebesse o que eu estava fazendo, iria me
perdoar—”

        Toda a raiva de Clary subiu para a superfície, uma corrente intensa e
incontrolável...
        ”Eu nem mesmo sei o que você fez para precisar ser perdoado”, ela
gritou. “Eu deveria te perdoar por não me amar mais? Porque se é isso o
que você quer, Jace Lightwood, pode ir em frente e—” Ela deu um passo
para trás, cegamente, e quase derrubou uma caixa de som abandonada.
Sua mochila deslizou ao chão quando estendeu a mão para se endireitar,
mas Jace já estava ali. Ele avançou para pegá-la, e continuou avançando,
até as costas dela alcançar a parede do beco, os braços dele em torno dela,
e ele estava a beijando freneticamente.
        Ela sabia que devia empurrá-lo; sua mente lhe dizia que era a coisa
sensata de se fazer, mas nenhuma outra parte dela se importava sobre o
que era sensato. Não quando Jace a estava beijando como se ele achasse
que devia ir para o inferno por fazer isso, mas que valeria a pena.
        Ela enterrou os dedos nos ombros dele, no tecido molhado da sua
camiseta, sentindo a resistência dos músculos abaixo, e o beijou de volta
com todo o desespero dos dias que se passaram, tudo por não saber onde
ele estava ou o que ele estava pensando, todo o sentimento como se uma
parte de seu coração tivesse sido arrancada de seu peito e ela nunca mais
conseguisse suficiente.
        “Me diga”, ela disse entre beijos, seus rostos molhados dos dois
deslizantes um no outro. “Me diga o que há de errado — Ah”, ela ofegou
quando ele se afastou dela, apenas longe o bastante para descer as mãos e
colocá-las na cintura dela. Ele a levantou de forma que ficasse em pé em
cima de um alto-falante quebrado, deixando-os quase da mesma altura.
Então ele colocou uma mão em cada lado da cabeça dela e inclinou-se para
a frente, de forma que seus corpos quase se tocassem — mas não muito.
Era irritante. Ela podia sentir o calor ardente que irradiava dele; suas mãos
ainda estavam nos ombros dele, mas não era suficiente. Ela o queria
abraçando-a, prendendo-a firme. “P-por que”, ela tomou fôlego, “você não
pode falar comigo? Por que não pode olhar para mim?”
        Ele inclinou a cabeça para olhá-la no rosto. Seus olhos, cercados por
cílios escurecidos pela água da chuva, estavam impossivelmente dourados.
        “Porque eu amo você.”
        Clary não pôde mais aguentar. Tirou as mãos de seus ombros,
prendeu os dedos nos ilhoses de seu cinto e o puxou para ela. Ele a deixou
fazer isso sem resistência, suas mãos apoiando-o contra a parede,
dobrando o corpo contra o dela até estarem pressionados juntos em toda
parte — peitos, quadris, pernas — como peças de um quebra-cabeça. Suas
mãos deslizaram-se até a cintura dela e ele a beijou, longo e demorado,
fazendo-a estremecer.
        Ela se afastou. “Isso não faz sentido.”
        “Nem isso”, ele disse, “mas eu não me importo. Estou cansado de
tentar fingir que posso viver sem você. Você não entende isso? Não
consegue ver que isso está me matando?”
        Ela o fitou. Podia ver que o que ele dissera era verdade, podia ver
isso nos olhos que conhecia tão bem quanto os seus próprios, nas sombras
machucadas sob aqueles olhos, a pulsação martelando na garganta. Seu
desejo por respostas combateu na parte principal de seu cérebro, e perdeu.
“Me beije então”, ela sussurrou, e ele pressionou a boca dele contra a dela,
os corações de ambos martelando juntos nas finas camadas de tecido
molhado que os separavam. E ela estava afogando naquilo, na sensação de

ele a beijando; na chuva em toda parte, escorrendo pelos seus cílios; de
deixar as mãos dele deslizarem livremente pelo tecido molhado e enrugado
do vestido, fino e apertado pela chuva. Era quase como ter as mãos dele
sob sua pele nua, no peito, nos quadris, no estômago; quando ele alcançou
a bainha do vestido, ele agarrou as pernas dela, pressionando-a mais forte
na parede enquanto ela as envolvia em volta da cintura de Jace.
       Ele fez um ruído surpreso, no fundo de sua garganta, e enterrou os
dedos no tecido fino da meia-calça. Inesperadamente, ela se rasgou, e seus
dedos molhados estavam, subitamente, na pele nua das pernas dela. Para
não ser para não ficar para trás, ela deslizou as mãos sob a bainha da
camisa encharcada dele, e deixou os dedos explorarem o que havia
embaixo: a pele firme e quente sobre as costelas, os sulcos do abdome, as
cicatrizes nas costas, a curvatura do osso do quadril sobre o cós do jeans.
Esse era território desconhecido para ela, mas parecia estar o levando à
loucura: ele gemia suavemente contra sua boca, beijando-lhe cada vez
mais forte, como se nunca fosse o suficiente, não fosse o bastante—
       E um tinido horrendo explodiu nos ouvidos de Clary, tirando-a do seu
sonho de beijo e chuva. Com um arfar, ela afastou Jace, forte o suficiente
para que ele a soltasse e ela tropeçou no alto-falante, pousando instável de
pé, rapidamente endireitando seu vestido. Seu coração estava batendo com
força em suas costelas como um aríete28, e ela se sentiu tonta.
       “Droga.” Isabelle, de pé na entrada do beco, o cabelo negro molhado
como uma capa ao redor de seus ombros, chutara uma lata de lixo para
fora do caminho e encarou. “Ah, pelo amor de Deus”, ela disse. “Não
consigo acreditar em vocês dois. Por quê? Qual é o problema com quartos?
E privacidade?”
       Clary olhou para Jace. Ele estava totalmente encharcado, água
descendo dele em grandes quantidades, o seu cabelo claro, emplastrado à
cabeça, quase prata no fraco brilho dos distantes postes de rua. Só de olhar
para ele fez Clary querer tocá-lo novamente, com Isabelle ou sem Isabelle,
com uma vontade que era quase dolorosa. Ele fitava Izzy com o olhar de
alguém que fora jogado para fora de um sonho — espanto, raiva, súbita
compreensão.
       “Eu só estava procurando Simon”, disse Isabelle na defensiva, vendo
a expressão de Jace. “Ele correu do palco, e não tenho ideia de onde ele
foi.” A música tinha parado, Clary percebeu, em algum ponto; ela não notou
quando.
        “Enfim, ele decididamente não está aqui. Voltem ao que estavam
fazendo. Qual é o sentido de desperdiçar uma parede de tijolos
perfeitamente boa quando você tem alguém para jogar contra ela, é o que
eu sempre digo.” E ela se afastou em silêncio, voltando ao bar.
       Clary olhou para Jace. Em outra circunstância eles teriam rido juntos
do mau humor de Isabelle, mas não havia humor na expressão dele, e ela
soube imediatamente o que quer que tenha desabrochado de sua
momentânea falta de controle — agora se fora. Ela podia sentir o gosto de
sangue em sua boca e não sabia se tinha mordido o próprio lábio, ou ele se
tinha.
       “Jace...” Ela deu um passo na direção dele.
       “Não”, disse ele, a voz rígida. “Não posso.”
       E então ele foi embora, correndo tão rápido como só ele podia, um
borrão desaparecendo à distância antes que Clary ao menos tomasse fôlego
para o chamar de volta.

       ????
       “Simon!”
       A voz zangada explodiu nos ouvidos de Simon. Ele já teria soltado
Maureen — ou pelo menos foi isso o que disse para si próprio —, mas não
teve chance. Mãos fortes o pegaram pelo braço, puxando-o dela. Ele foi
puxado em pé por um pálido Kyle, ainda despenteado e suado da cena da
série que eles tinham terminado “Que inferno, Simon. Que diabos—”
       “Eu não queria”, ofegou Simon. Sua voz parecia indistinta para seus
próprios ouvidos; as presas ainda estavam expostas, e ele não aprendera a
falar ainda com as coisas malditas. Atrás de Kyle, no chão, ele podia ver
Maureen deitada num amontoado amassado, terrivelmente imóvel.
“Aconteceu—”
       “Eu te disse. Eu te disse.” A voz de Kyle ficou mais alta, e ele
empurrou Simon, forte. Simon tropeçou para trás, sua testa queimando,
quando uma mão invisível pareceu levantar Kyle e apertá-lo forte contra a
parede atrás dele. Ele a acertou e deslizou ao chão, pousando agachado
como um lobo, sobre as mãos e joelhos. Ele se levantou com dificuldade,
fitando-o. “Jesus Cristo. Simon—”
       Mas Simon caíra de joelhos ao lado de Maureen, as mãos em cima
dela,
       freneticamente sentindo a pulsação no pescoço. Quando esta oscilou
sob a ponta dos dedos, ele quase chorou de alívio.
       “Afaste-se dela.” Kyle, parecendo tenso, andou até o lado de Simon.
“Levante-se e se afaste.”
       Simon se levantou relutante e encarou Kyle acima da forma flácida de
Maureen. Luz passava pela abertura na cortina que levava até o palco; ele
podia ouvir os outros membros da banda ali fora, um conversando com o
outro, começando a desmontar as coisas. A qualquer minuto voltariam ali
para atrás.
       “O que você fez”, disse Kyle. “Você — me empurrou? Porque não te vi
se mexer.”
       “Eu não queria”, disse Simon de novo, miseravelmente. Isso parecia
ser tudo o que ele dizia ultimamente.
       Kyle sacudiu a cabeça, o cabelo voando. “Saia daqui. Vá esperar na
van. Eu cuido dela.” Ele se inclinou e levantou Maureen nos braços.
Comparado a Kyle, ela parecia minúscula contra a estrutura dele, como
uma boneca. Ele fixou em Simon um olhar. “Vá. E eu espero que você
realmente se sinta malditamente aterrorizado.”
       Simon foi. Andou até a saída de emergência e abriu a porta. Nenhum
alarme soou; ele estava quebrado há meses. A porta se fechou atrás dele, e
Simon se encostou na parede traseira do clube quando cada parte de seu
corpo começou a tremer.
       O fundo do clube ficava numa rua estreita com depósitos. No
caminho havia um terreno vazio bloqueado por uma cerca bamba feita de
correntes. Grama velha crescia nas rachaduras da calçada. A chuva caía
forte, encharcando o lixo que se amontoava na rua, fazendo velhas garrafas
de cerveja flutuarem na corrente de água do escoamento.
       Simon achou que era a coisa mais bonita que já vira. A noite inteira
parecia ter explodido em luz multicolorida. A cerca era uma corrente ligada
de brilhantes fios de prata, cada gota da chuva uma lágrima cor de platina.
       E eu espero que você realmente se sinta malditamente aterrorizado,
dissera Kyle. Mas era muito pior. Ele se sentia fantástico, vivo de uma

forma que nunca fora antes. Sangue humano era claramente, de algum
jeito, o perfeito, o alimento ideal para vampiros. Ondas de energia corriam
por ele como corrente elétrica. A dor na cabeça, no estômago, havia
passado. Ele podia correr por uns vinte mil quilômetros.
       Era assustador.
       “Ei, você. Está tudo bem?” A voz que falara era culta, divertida;
Simon virou e viu uma mulher em uma longa capa preta de chuva, um
guarda-chuva amarelo claro sobre a cabeça. Com sua nova visão
prismática, parecia um girassol reluzente. A mulher em si era bonita —
apesar de agora tudo para ele parecer bonito —, com um cabelo preto
brilhante e batom vermelho na boca. Ele vagamente se lembrava de vê-la
sentada em uma das mesas durante a apresentação da banda.
       Ele assentiu, não confiando em si mesmo para falar. Devia estar
parecendo bastante abalado, se totais estranhos estavam vindo para
perguntar sobre o seu bem-estar.
       “Parece que você foi acertado aí na cabeça”, ela disse, indicando a
testa dele. “É um ferimento feio. Tem certeza que não preciso chamar
ninguém pra te ajudar?”
       Ele levantou a mão apressadamente para jogar o cabelo em cima da
testa, escondendo a Marca. “Estou bem. Não é nada.”
       “Tudo bem. Se você está dizendo.” Ela soou um pouco em dúvida.
Pôs a mão no bolso, tirou um cartão e passou-o a ele. Tinha um nome nele:
Satrina Kendal. Sob o nome estava um título: PROMOTORA DE BANDAS, em
letras maiúsculas, um número de telefone e endereço. “Essa sou eu”, ela
disse. “Gostei do que vocês fizeram lá dentro. Se estiverem interessados
em fazer um grande sucesso, liga para mim.”
       E com isso, ela virou e se afastou em silêncio, deixando Simon
fitando-a. Certamente, ele pensou, sem chance essa noite ficaria mais
bizarra ainda.
       Sacudindo a cabeça — um movimento que mandou gotas d’água
voando em todas as direções —, em uma meia-volta andou até onde a van
estava estacionada. A porta do bar estava aberta e as pessoas no interior
gritavam. Tudo ainda parecia anormalmente claro, pensou Simon, mas sua
visão multicolorida estava começando a enfraquecer levemente. A cena na
sua frente parecia normal — o bar se esvaziando, as portas laterais abertas
e a van com as portas traseiras abertas, já sendo carregada com os
instrumentos por Mat, Kirk e vários outros amigos. Conforme Simon se
aproximava, viu que Isabelle estava encostada na lateral da van, uma
perna para cima, o calcanhar da bota no lado empolado da van.
       Ela poderia estar ajudando os garotos, é claro — Isabelle era mais
forte do que qualquer membro da banda, com a possível exceção de Kyle —
, mas claramente não podia ser incomodada. Simon dificilmente teria
esperado algo diferente.
       Ela ergueu o olhar quando ele se aproximou. A chuva tinha
diminuído, mas claramente Isabelle estivera nela por algum tempo; o
cabelo era uma cortina pesada e molhada descendo suas costas. “Ei!” disse,
empurrando-se da lateral da van e indo até ele. “Onde você esteve? Do
nada saiu correndo do palco—”
       “É”, ele disse. “Eu não estava me sentindo bem. Desculpe-me.”
       “Contanto que esteja melhor agora.” Ela passou os braços em volta
dele e sorriu para o seu rosto. Ele sentiu uma onda de alívio por não sentir

nenhum desejo para mordê-la. Então outra onda de culpa o atacou quando
se lembrou do por que.
       “Você não viu Jace em algum lugar, viu?”, perguntou ele.
       Ela revirou os olhos. “Passei por ele e Clary se beijando”, ela disse.
“Mas eles já foram — para casa, espero. Esses dois resumem o significado
de ‘arranjar um quarto’.”
       “Eu não achei que Clary estava vindo”, disse Simon, apesar de não
ser algo tão estranho; supôs que o compromisso do bolo tinha sido
cancelado ou algo assim. Ele nem tinha energia para se irritar em ver que
terrível guarda-costas Jace tinha se tornado. Não era como se algum dia
achasse que Jace levava sua segurança pessoal a sério. Ele só esperava que
Jace e Clary dessem certo, o que quer que fosse.
       “Que seja.” Isabelle sorriu. “Já que só há nós dois aqui, quer ir a
algum lugar e—”
       Uma voz — uma voz muito familiar — falou das sombras logo atrás
do alcance do poste de luz mais próximo.
       “Simon?”
       Ah, não, agora não. Agora não.
       Ele virou-se lentamente. O braço de Isabelle ainda estava
frouxamente
       passado na sua cintura, apesar de ele saber que isso não duraria
muito tempo. Não se a pessoa falando era quem ele pensava que era.
       Era.
       Maia deslocou-se para a luz, e estava em pé olhando para ele, uma
expressão de incredulidade no rosto. Seu cabelo normalmente cacheado
estava colado à cabeça com a chuva, os olhos cor de âmbar arregalados, as
calças e o casaco jeans encharcadas. Ela estava apertando um pedaço de
papel enrolado na mão esquerda.
       Simon ficou vagamente ciente de que, ao lado, os membros da banda
diminuíram os movimentos, e agora abertamente observavam a cena.
       O braço de Isabelle deslizou da cintura dele. “Simon?”, ela disse. “O
que está acontecendo?”
       “Você me disse que estava ocupado”, disse Maia, olhando para
Simon. “Então alguém jogou isso debaixo da porta da estação hoje de
manhã.” Ela abriu o papel enrolado; ficou instantaneamente reconhecível
como um dos panfletos de propaganda para a apresentação da banda hoje
à noite.
       Isabelle olhava de Simon para Maia, começando lentamente a
entender o que se passava. “Espera um segundo”, disse. “Vocês estão
namorando?”
       Maia ergueu a cabeça. “Vocês estão?”
       “Estamos”, respondeu Isabelle. “Há algumas semanas.”
       Os olhos de Maia se estreitaram. “Nós também. Estamos namorando
desde setembro.”
       “Eu não posso acreditar nisso”, disse Isabelle. Ela genuinamente fez
parecer que não dava. “Simon?” Virou para ele, as mãos nos quadris. “Você
tem uma explicação para isso?”
       A banda, que finalmente tinha enfiado todo o equipamento na van —
os tambores empilhados no banco traseiro e as guitarras e baixos no fundo
—, estava saindo da traseira do carro, encarando abertamente.

      Eric pôs as mãos na boca, imitando um megafone. “Senhoritas,
senhoritas”, entoou. “Não há necessidade de brigar. Tem Simon suficiente
para todo o mundo.”
      Isabelle deu meia-volta e atirou um olhar em Eric tão aterrorizante
que ele ficou imediatamente em silêncio. As portas traseiras da van se
fecharam, e ela acelerou para a estrada. Traidores, pensou Simon, apesar
de que, para ser justo, eles provavelmente assumiram que ele pegaria uma
carona para casa no carro de Kyle, que estava estacionado ali na esquina.
Isso se ele estivesse vivo até a hora de ir embora.
        “Não dá para acreditar em você, Simon”, disse Maia. Ela também
estava com as mãos nos quadris, numa pose idêntica à de Isabelle. “O que
você estava achando? Como pôde mentir assim?”
        “Eu não menti”, protestou Simon. “Nunca dissemos que éramos
exclusivos!” Virou para Isabelle. “Nem a gente! E sei que você está
namorando outros caras—”
        “Não alguém que você conheça”, disse Isabelle, furiosa. “Não seus
amigos. Como se sentiria se descobrisse que eu estava namorando o Eric?”
        “Francamente, estaria estupefato”, falou Simon. “Ele não é nada do
seu tipo.”
        “Não é essa a questão, Simon.” Maia se aproximara de Isabelle, e as
duas o encaravam juntas, uma muralha impassível de raiva feminina. O bar
tinha finalmente ficado vazio, e com exceção dos três, a rua estava deserta.
Ele se perguntou sobre as suas chances de dar um basta naquilo, e decidiu
que não eram boas.
        Lobisomens eram rápidos, e Isabelle era uma caçadora treinada de
vampiros.
        “Sinto muito mesmo”, disse Simon. O zumbido do sangue que ele
tinha bebido estava começando a diminuir, agradecidamente. Ele se sentiu
menos tonto com a sensação esmagadora, porém mais em pânico. Para
deixar as coisas piores, sua mente continuava voltando a Maureen, e o que
ele tinha feito com ela, e ela estava bem. Por favor, que ela esteja bem.
“Devia ter contado para vocês. É só — eu gosto muito de vocês duas, e não
queria ferir os sentimentos de ninguém.”
        No momento que aquilo saiu de sua boca, ele percebeu como pareceu
estúpido. Só outro garoto idiota inventando desculpas pelo seu
comportamento idiota. Simon nunca pensara em si mesmo assim. Ele era
um cara legal, o tipo de cara que passava despercebido, sem querer ser um
bad boy sexy ou artista da tortura. O tipo de garoto que se importava com
os próprios pensamentos e que não pensaria em namorar duas garotas de
uma vez, enquanto, talvez, não mentia exatamente sobre o que estava
fazendo, mas também não contava a verdade de qualquer forma.
        “Uau”, disse, em maior parte para si mesmo. “Eu sou um idiota
total.”
        “Essa é provavelmente a primeira verdade que você disse desde que
cheguei aqui”, disse Maia.
        “Amém”, disse Isabelle. “Mas se você me perguntar, é um pouquinho,
muito tarde—”
        A porta lateral do bar se abriu, e alguém saiu. Era Kyle. Simon sentiu
uma onda de alívio. Kyle parecia sério, mas não tão sério quanto Simon
achava que pareceria se algo terrível tivesse acontecido com Maureen.

       Ele desceu a escada na direção deles. A chuva agora mal era um
chuvisco. Maia e Isabelle estavam de costas para ele; elas fitavam Simon
com um foco laser de raiva. “Espero que você não ache que vamos voltar a
falar com você de novo”, Isabelle falou. “E vou ter uma conversa com Clary
— uma conversa realmente séria sobre a escolha dela de amigos.”
       “Kyle”, disse Simon, incapaz de fazer a voz não parecer aliviada
quando Kyle entrou no seu campo de audição. “Hã, Maureen — ela está—”
       Ele não tinha ideia de como perguntar o que queria sem deixar Maia e
Isabelle saberem o que aconteceu, mas, como se confirmou, não importava,
porque ele nunca conseguiria pronunciar o resto das palavras. Maia e
Isabelle se viraram; Isabelle pareceu entediada e Maia surpresa, claramente
perguntando-se quem seria Kyle.
       Assim que Maia realmente viu Kyle, seu rosto mudou; os olhos se
arregalaram, o sangue drenou de seu rosto. E Kyle, por sua vez, a fitava
com o olhar de alguém que tinha acabado de acordar de um pesadelo só
para descobrir que era verdadeiro e contínuo. Sua boca se moveu,
formando palavras, mas nenhum som saiu.
       “Uau”, disse Isabelle, olhando de um ao outro. “Vocês dois — se
conhecem?”
       Os lábios de Maia se separaram. Ainda fitava Kyle. Simon só teve
tempo para pensar que ela nunca tinha olhado para ele de forma tão
intensa, quando ela sussurrou “Jordan” — e lançou-se a Kyle, as garras
expostas e afiadas, e as afundou no pescoço dele.

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