NOSSA ESPÉCIE
O DEMÔNIO INVESTIU-SE PARA CLARY, ELA PAROU DE GRITAR
abruptamente e se lançou para trás, por cima do altar — um perfeito
arremesso, e por um bizarro momento ela desejou que Jace estivesse ali
para ver isso. Ela atingiu o chão num agachar, no mesmo momento alguma
coisa golpeou fortemente o altar, fazendo a pedra vibrar.
Um uivo soou através da igreja. Clary precipitou-se aos seus joelhos
e espiou por cima da borda do altar. O demônio não era tão grande quanto
ela havia pensando de início, mas também não era pequeno —
aproximadamente do tamanho de uma geladeira, com três cabeças
balançando em hastes. As cabeças eram cegas, com enormes mandíbulas
abertas das quais pendiam ligas de baba esverdeada. O demônio parecia ter
batido a cabeça da esquerda no altar quando ele se precipitou para ela,
porque ele estava balançando sua cabeça para trás e para frente como se
estivesse tentando a clarear.
Clary olhou para cima selvagemente, mas as figuras de agasalho de
moletom ainda estavam onde elas estavam antes. Nenhum deles se moveu.
Eles pareciam observar o que se passava com interesse imparcial. Ela virou
e olhou para trás, mas parecia não haver outras saídas da igreja além
daquela pela qual ela entrou, e o demônio atualmente estava bloqueando o
caminho de volta para ela. Percebendo que estava perdendo preciosos
segundos. Ela precipitou-se aos seus pés e agarrou o punhal. Ela o arrancou
fora do altar e se abaixou no momento em que o demônio veio para ela
novamente. Ela rolou para o lado enquanto uma cabeça, balançando em
uma haste grossa do pescoço, arremessou-se por cima do altar, sua grossa
língua preta tateando, procurando por ela. Com um grito ela pressionou o
punhal para dentro do pescoço da criatura uma vez, então o puxou,
arrastando-o para trás e fora do caminho.
A coisa gritou, a cabeça empinando para trás, sangue negro
espirrando da ferida que ela tinha feito. Mas esse não era um golpe fatal.
Enquanto Clary observava, a ferida começou a se curar lentamente, a carne
verde escurecida do demônio se unindo como um tecido sendo costurado. O
coração dela afundou. É claro. A razão dos Caçadores das Sombras usarem
armas com runas era que as runas evitavam a cura do demônio.
Ela alcançou a estela no seu cinto com sua mão esquerda, e puxou-a
no momento em que o demônio veio para ela novamente. Ela saltou para o
lado e se atirou dolorosamente escada abaixo, rolando até que foi
arremessada contra a primeira fileira de bancos. O demônio se virou, um
pouco desajeitado quando se moveu, e dirigiu-se para ela mais uma vez.
Percebendo que estava apertando ambas, estela e adaga — na verdade, a
adaga havia a cortado quando ela tinha rolado, e sangue estava
rapidamente manchando a frente de sua jaqueta — ela transferiu a adaga
para sua mão esquerda, a estela para a direita, e com uma desesperada
rapidez, gravou uma runa do Anjo no cabo do punhal.
Os outros símbolos do cabo começaram a derreter e a desbotar
quando o poder angelical tomou posse. Clary olhou para cima; o demônio
estava quase nela, suas três mãos alcançando, suas bocas escancaradas.
Impulsionando-se a seus pés, ela puxou seu braço para trás e lançou a
adaga o mais forte que pôde. Para sua grande surpresa, ela atingiu a
cabeça do meio bem no centro do crânio, afundando até o cabo. A cabeça
chacoalhou descontroladamente enquanto o demônio gritava — o coração
da Clary exultou — e então a cabeça simplesmente caiu, batendo no chão
com um baque repugnante. O demônio continuou vindo de qualquer
maneira, arrastando a cabeça agora morta, no flácido pescoço, conforme
ele se movia em direção a Clary.
O som de muitos passos veio de cima. Clary ergueu os olhos. As
figuras de agasalho de moletom tinham ido, deixando a galeria vazia. A
visão não foi tranquilizadora. O seu coração fazendo um tango selvagem no
peito, Clary virou-se e correu para a porta da frente, mas o demônio era
mais rápido do que ela. Com um grunhido de esforço ele lançou-se sobre
ela e pousou na frente das portas, bloqueando o caminho da saída. Fazendo
um barulho de silvo, ele se moveu em direção a ela, suas duas cabeças
vivas balançando, então se levantando e esticando no seu maior
comprimento, a fim de atingi-la—
Alguma coisa reluziu através do ar, uma chama dardejante de ouro
prateado. A cabeça do demônio chicoteou ao redor, o silvo crescendo para
um grito, mas já era tarde — a coisa prateada que havia as enlaçado
tencionou, e com um jato de sangue negro, as suas duas cabeças restantes
se deceparam. Clary rolou para fora do caminho no momento em que
sangue voante a borrifou, queimando sua pele. Então ela abaixou sua
cabeça no momento em que o corpo sem cabeça balançou, caindo em sua
direção—
E então se foi. Enquanto desabava, o demônio desapareceu, sugado
de volta para sua dimensão. Clary ergue sua cabeça cautelosamente. A
porta da frente da igreja estava aberta, e na entrada estava Isabelle,
usando botas e um vestido preto, seu chicote electrum na mão. Ela estava
o enrolando lentamente em torno do pulso, olhando em volta da igreja
enquanto fazia isso, suas escuras sobrancelhas contraídas em um franzido
curioso. Quando o olhar dela desceu sobre Clary, ela sorriu.
“Maldição, garota”, ela disse. “No que você se meteu agora?”
????
O toque das mãos dos servos de vampiro na pele de Simon era
gelado e leve, como o toque de asas de gelo. Ele estremeceu um pouco
enquanto eles desenrolavam a venda envolta em sua cabeça, suas peles
murchas e ásperas na dele antes de eles darem um passo para trás,
curvando-se enquanto se recuavam.
Ele olhou em volta, piscando. Momentos atrás, ele tinha estado em
pé na luz do sol na esquina da Seventy-Eighth Street com a Second Avenue
— distância suficiente do Instituto, que ele julgou segura, para usar a terra
de sepulcro para contatar Camille sem levantar suspeitas. Agora ele estava
em uma sala mal iluminada, muito grande, com um piso de mármore liso e
elegantes pilares de mármores segurando um teto alto. Ao longo da parede
esquerda corria uma linha de cubículos com vidro na frente, cada um com
uma placa de latão gravado suspensa sobre elas onde se lia CAIXA. Outra
placa de latão na parede indicava que esse era o DOUGLAS NATIONAL
BANK. Grossas camadas de poeira acolchoavam o chão e os guichês onde
pessoas tinham uma vez ficado para assinar cheques ou guias de saque, e
lâmpadas inflexíveis que pendiam do teto eram revestidas com verdete.
No centro da sala estava uma poltrona alta, e na cadeira sentava
Camille. Seu cabelo loiro-prateado desamarrado, esparramado por cima dos
seus ombros como ouropel. Sua maquiagem tinha sido limpa do seu rosto,
mas seus lábios estavam ainda muito vermelhos. Na escuridão do banco,
eles eram quase a única cor que Simon podia ver.
"Eu normalmente não concordaria em ter encontros durante as horas
do dia, Daylighter", ela disse. "Mas desde que é você eu resolvi abrir uma
exceção."
"Obrigado." Ele percebeu que nenhuma cadeira tinha sido
providenciada para ele, então continuou desconfortavelmente em pé. Se
seu coração ainda estivesse batendo, ele pensou, ele estaria martelando.
Quando ele concordou em fazer isso para a Clave, tinha esquecido o quanto
Camille o assustava. Talvez isso fosse ilógico — o que ela poderia realmente
fazer a ele? — mas ali estava.
"Eu suponho que isso signifique que você considerou minha oferta",
Camille disse. "E que você concordou com ela."
"O que faz você pensar que eu concordei?" Simon disse, muito
esperançoso que ela não fosse suprimir a presunção da pergunta para o
fato de ele estar procurando ganhar tempo.
Ela parecia levemente impaciente. "Você dificilmente viria em pessoa
entregar a notícia de que decidiu rejeitar minha proposta. Você teria medo
do meu temperamento."
"Eu deveria ter medo do seu temperamento?"
Ela se sentou na cadeira wing-back31, sorrindo. A cadeira era de
aparência moderna e luxuosa, diferente de qualquer outra coisa no banco
abandonado. Ela deve ter sido transportada para cá de algum outro lugar,
provavelmente pelos servos da Camille, os quais, no momento, estavam de
pé um de cada lado como estátuas silenciosas. "Muitos têm", ela disse,
"mas você não tem razão de ter. Eu estou muito satisfeita com você.
Embora você tenha esperado até o último momento para entrar em contato
comigo, sinto que você fez a decisão certa."
O telefone de Simon escolheu aquele minuto para começar a zunir
insistentemente. Ele pulou, sentindo uma gota de suor frio escorrer por
suas costas, então o puxou às pressas para fora do bolso de sua jaqueta.
“Desculpa”, ele disse, e o abriu para atendê-lo. “Telefone.”
Camille pareceu horrorizada. “Não atenda isso.”
Simon começou a levá-lo à sua orelha. Enquanto ele levava,
conseguiu apertar o botão da câmera várias vezes com seu dedo. “Isso vai
levar apenas um segundo.”
“Simon.”
Ele apertou o botão enviar e então o fechou depressa. “Desculpa. Eu
não pensei.”
O peito de Camille estava descendo e subindo com fúria, apesar do
fato de que ela na realidade não respirava. “Eu exijo mais respeito do que
isso dos meus servos” ela sibilou, “você nunca mais fará isso de novo, ou—“
“Ou o que?” Simon disse. “Você não pode me machucar, não mais do
que qualquer outro possa. E você me disse que eu não seria um servo. Você
me disse que eu seria seu companheiro.” Ele parou, deixando apenas a nota
certa de arrogância em sua voz. “Talvez eu devesse reconsiderar minha
aceitação à sua oferta.”
Os olhos da Camille escureceram. “Oh, pelo amor de Deus. Não seja
um idiota.”
“Como você pode dizer aquela palavra?” Simon exigiu.
Camille ergueu suas delicadas sobrancelhas. “Qual palavra? Você está
aborrecido por te chamar de idiota?”
“Não. Bem, sim, mas não foi isso que quis dizer. Você disse ‘oh,
pelo’—“ Ele parou de falar, sua voz quebrando. Ele ainda não podia falar
isso. Deus.
“Porque eu não acredito nele, garoto tolo”, disse Camille. “E você
ainda acredita.” Ela inclinou sua cabeça para o lado, olhando-o do jeito que
um pássaro olharia um verme na calçada, ao qual, estivesse considerando
comê-lo. “Eu penso talvez que é hora de um juramento de sangue.”
“Um... Juramento de sangue?” Simon se perguntou se ele tinha
ouvido direito.
“Eu esqueço que o seu conhecimento dos costumes da nossa espécie
é tão limitado.” Camille balançou sua cabeça prateada. “Eu preciso que você
assine um juramento, em sangue, que você é leal a mim. Isso vai evitar
que você me desobedeça no futuro. Considere isso um tipo de... pacto pré-
nupcial.” Ela sorriu, e ele viu um lampejo de suas presas. “Venha.” Ela
estalou seus dedos imperiosamente, e seus subordinados correram em
direção a ela, suas cabeças cinza curvadas. O primeiro a alcançou,
entregando para ela algo que parecia com uma antiquada caneta de vidro,
do tipo com uma ponta espiralada, específica para pegar e armazenar tinta.
“Você terá que se cortar e extrair seu próprio sangue”, disse Camille.
“Normalmente eu mesma faria isso, mas a Marca me impede. Portanto,
devemos improvisar.”
Simon hesitou. Isso era ruim. Ele sabia o suficiente sobre o mundo
sobrenatural para saber o que juramentos significavam para os Seres do
Submundo. Não eram apenas promessas vazias que podiam ser quebradas.
Elas realmente ligavam o promitente, como algemas virtuais. Se ele
assinasse o juramento, ele realmente iria ser leal a Camille. Possivelmente
para sempre.
“Venha”, Camille disse, um toque de impaciência rastejando em sua
voz. “Não há necessidade de perder tempo.”
Engolindo, Simon deu um relutante passo adiante, e então outro. Um
servo deu um passo entrando na frente dele, bloqueando seu caminho. Ele
estava segurando uma faca para Simon, uma coisa de aparência cruel,
como uma lâmina afiada. Simon a pegou e a elevou acima do seu pulso. E
então abaixou. “Você sabe”, ele disse, “eu realmente não gosto muito de
dor. Ou facas—“
“Faça!” Camille rosnou.
“Deve haver alguma outra forma.”
Camille levantou-se de sua cadeira, e Simon viu que suas presas
estavam completamente estendidas. Ela estava verdadeiramente irritada.
“Se você não parar de desperdiçar meu tempo—“
Ocorreu uma branda implosão, um som parecido com algo enorme
partindo-se ao meio. Um grande painel cintilante apareceu contra a parede
oposta. Camille virou-se para isso, seus lábios abertos em choque no
momento em que ela viu o que era. Simon soube que ela reconheceu
aquilo, assim como ele. Havia apenas uma coisa que aquilo poderia ser.
Um Portal. E através dele estava vertendo pelo menos uma dúzia de
Caçadores de Sombras.
????
“Ok”, disse Isabelle, colocando de lado o kit de primeiros socorros
com um gesto rápido. Elas estavam em um dos muitos quartos disponíveis
do Instituto destinado aos membros visitantes da Clave. Cada um era
mobiliado simplesmente com uma cama, uma cômoda, um guarda-roupa e
um pequeno banheiro. E, claro, cada um tinha um kit de primeiros socorros
com bandagens, cataplasmas, e até mesmo, estelas extras inclusas. “Você
está muito bem iratzeada, mas vai levar um pouco de tempo para algumas
dessas feridas desaparecerem. E essa” — ela correu a sua mão sobre a
marca de queimadura no antebraço da Clary onde sangue de demônio havia
espirrado nela — “provavelmente não desaparecerá totalmente até amanhã.
Embora, se você descansar, elas se curarão mais rápido.”
“Está excelente. Obrigada, Isabelle.” Clary olhou para suas mãos;
havia bandagens em volta da direita, e sua camisa ainda estava rasgada e
manchada de sangue, apesar das runas de Isabelle terem curado os cortes
debaixo. Ela supôs que poderia ter feito as iratzes ela mesma, mas era legal
ter alguém cuidando dela, e Izzy, embora não fosse a pessoa mais calorosa
que Clary conhecia, podia ser hábil e gentil quando ela queria. “E obrigada
por aparecer e, você sabe, salvar minha vida de o que quer que fosse
aquela coisa—“
“Um demônio Hidra. Eu lhe disse. Eles possuem muitas cabeças, mas
eles são muito estúpidos. E você não estava fazendo um trabalho tão ruim
com ele antes de eu aparecer. Eu gostei do que você fez com o punhal.
Bom raciocínio sob pressão. Que é, tanto quanto, uma parte de ser Caçador
de Sombras, como, de aprender a perfurar buracos nas coisas.” Isabelle
deixou-se cair na cama perto da Clary e suspirou. “Eu provavelmente
deveria ir ver o que eu posso descobrir a respeito da Igreja de Talto antes
da Clave voltar. Talvez, isso nos ajudará a descobrir o que está
acontecendo. A coisa do hospital, os bebês —“ Ela estremeceu. “Eu não
gosto disso.”
Clary tinha contado para Isabelle tanto quanto ela podia sobre porque
ela tinha estado na Igreja, até mesmo sobre o bebê demônio no hospital,
ainda que ela tenha fingido ser a única que estava suspeitando, e tivesse
deixado sua mãe fora da história. Isabelle pareceu enjoada quando Clary
descreveu o jeito como o bebê parecia exatamente como um bebê normal,
exceto, pelos seus arregalados olhos negros e as pequenas garras que ele
tinha, ao invés de mãos. “Eu acho que eles estavam tentando fazer outro
bebê como — como meu irmão. Eu acho que eles experimentaram em
alguma mulher Mundana pobre”, Clary disse. “Mas ela não pôde suportar
quando o bebê nasceu e perdeu a cabeça. É só que — quem poderia fazer
algo como aquilo? Um dos seguidores do Valentine? As pessoas que nunca
foram apanhadas, talvez tentando continuar o que ele estava fazendo?”
“Talvez. Ou apenas algum culto de adoradores do demônio. Há
bastante deles. Embora eu não consiga imaginar porque alguém iria querer
fazer mais criaturas como Sebastian.” A voz dela deu um pequeno salto de
ódio quando disse o nome dele.
“O verdadeiro nome dele é Jonathan—“
“Jonathan é o nome do Jace”, disse Isabelle firmemente. “Eu não
poderia chamar aquele monstro pelo mesmo nome que meu irmão tem. Ele
sempre será Sebastian para mim.”
Clary tinha que admitir, Isabelle tinha um ponto. Ela tinha tido um
tempo difícil pensando nele como Jonathan também. Ela supôs que isso não
era justo com o verdadeiro Sebastian, mas nenhum deles tinham realmente
o conhecido. Era mais fácil jogar o nome de um estranho para o perverso
filho de Valentine do que chamá-lo de alguma coisa que fizesse ele mais
próximo de sua família, mais próximo de sua vida.
Isabelle falou suavemente, mas Clary podia dizer que sua mente
estava trabalhando, assinalando sobre várias possibilidades. “De qualquer
modo, eu estou feliz que você tenha me enviado a mensagem. Eu podia
dizer, devido a ela, que alguma coisa estranha estava acontecendo, e
francamente, eu estava entediada. Todo mundo está fora fazendo algo
secreto para a Clave, e eu não quis ir, porque Simon iria estar lá, e eu o
odeio agora.”
“Simon esta com a Clave?” Clary estava surpresa. Ela tinha percebido
que o Instituto estava ainda mais vazio do que o habitual quando elas
chegaram. Jace, é claro, não estava lá, mas ela não esperava que ele
estivesse — embora não soubesse por quê. “Eu falei com ele essa manhã e
ele não disse nada sobre fazer algo para eles”, Clary adicionou.
Isabelle encolheu os ombros. “Isso tem alguma coisa a ver com
políticas de vampiros. É tudo que eu sei.”
“Você acha que ele está bem?”
Isabelle soou exasperada. “Ele não precisa mais de você para
defendê-lo, Clary. Ele tem a Marca de Caim. Ele pode ser explodido,
alvejado e esfaqueado que ele vai ficar bem.” Ela olhou duramente para
Clary. “Eu percebi que você não me perguntou por que eu odeio o Simon”,
ela disse. “Eu suponho que você sabia sobre a coisa do dois-ao-mesmo-
tempo?”
“Eu sabia”, Clary admitiu, “eu sinto muito.”
Isabelle fez um movimento com a mão empurrando a confissão para
longe. ”Você é a melhor amiga dele. Seria estranho se você não soubesse.”
“Eu devia ter lhe contado”, Clary disse. “É só que — eu nunca tive a
sensação de que você estava a sério com o Simon, você sabe?”
Isabelle fez uma careta. “Eu não estava. É só que — eu pensei que
ele poderia ter levado isso a sério, pelo menos. Já que eu era bonita demais
para ele. Eu acho que eu esperava mais dele do que dos outros caras.”
“Talvez”, Clary disse calmamente, “Simon não devia estar namorando
com alguém que acha que é bonita demais para ele.” Isabelle olhou para
ela, e Clary sentiu-se corar.
“Desculpe-me. A relação de vocês realmente não é da minha conta.”
Isabelle estava torcendo seu cabelo escuro em um coque, algo que
ela fazia quando estava tensa. “Não, não é. Quero dizer, eu poderia
perguntar por que você me mandou a mensagem para ir à igreja encontrar
com você, e não o Jace, mas eu não perguntei. Eu não sou estúpida. Eu sei
que algo errado está acontecendo entre vocês dois, apesar da sessão
amasso-apaixonado-no-beco.” Ela olhou entusiasmadamente para Clary.
“Vocês dois já dormiram juntos?”
Clary sentiu o sangue correndo em seu rosto. “O que — eu quero
dizer, não, nós não, mas eu não vejo o que isso tem a ver com qualquer
coisa.”
“Isso não tem”, disse Isabelle, dando batidinhas no lugar de seu
coque. “Foi só curiosidade lúbrica. O que está te segurando?”
“Isabelle—“ Clary puxou suas pernas para cima, envolvendo seus
braços em torno de seus joelhos, e suspirou. “Nada. Nós estamos apenas
levando nosso tempo. Eu nunca — você sabe.”
“Jace fez”, disse Isabelle. “Eu quero dizer, eu suponho que ele fez. Eu
não tenho certeza. Mas, se você precisar de alguma qualquer coisa...” Ela
deixou a frase suspensa no ar.
“Precisar de qualquer coisa?”
“Proteção. Você sabe. Assim você pode ser cuidadosa”, Isabelle disse.
Ela soou tão prática como se ela tivesse falando sobre botões extras. “Você
pensou que o Anjo foi providente suficiente para nos dar runas de controle
de natalidade, mas não foi.”
“É claro que eu vou ser cuidadosa”, Clary gaguejou sentindo suas
bochechas ficarem vermelhas. “Chega. Isso é embaraçoso.”
“Isso é conversa de garotas”, disse Isabelle. “Você só pensa que isso
é embaraçoso porque você passou sua vida toda com Simon como seu
único amigo. Você não pode falar com ele sobre Jace. Isso seria
embaraçoso.”
“E Jace realmente não falou nada para você? Sobre o que está o
incomodando?” Clary disse, em voz baixa. “Você promete?”
“Ele não precisa”, Isabelle disse. “O jeito como você tem agido, e
com Jace andando por ai parecendo alguém simplesmente morto, não é
como se eu não tivesse notado que algo estava errado. Você deveria ter
vindo falar comigo antes.”
“Ele, pelo menos, está bem?” Clary perguntou muito calmamente.
Isabelle levantou-se da cama e olhou para baixo, para ela. “Não”, ela
disse. “Ele não está muito bem. Você está?”
Clary balançou sua cabeça.
“Eu não achava que sim.” Isabelle disse.
????
Para a surpresa de Simon, Camille, ao ver os Caçadores de Sombras
nem mesmo tentou resistir ao ataque. Ela gritou e correu para a porta,
somente para congelar quando ela percebeu que era dia lá fora, e que ao
sair do banco iria rapidamente se incinerar. Ela arfou e ficou acuada contra
a parede, suas presas à mostra, um silvo baixo vindo de sua garganta.
Simon recuou no momento em que uma multidão de Caçadores de
Sombras da Conclave o rodearam, todos de preto, como um bando de
corvos assassinos; ele viu Jace, seu rosto pálido e rígido como mármore
branco, deslizando uma espada de lâmina larga através de um dos servos
humanos no momento em que passava por ele, tão casualmente quanto um
pedestre poderia esmagar uma mosca. Maryse avançava na frente, seu
cabelo negro esvoaçante lembrando a Simon de Isabelle. Ela despachou o
segundo subordinado acuado com um movimento em corte transversal da
sua lâmina Serafim, e avançou para Camille com sua brilhante lâmina
estendida. Jace estava ao lado dela, e outro Caçador de Sombras — um
homem alto com runas negras entrelaçando seus antebraços como videiras
— estava do seu outro lado.
Os demais Caçadores de Sombras se espalharam e estavam
vasculhando o banco, fazendo uma varredura com aquelas coisas estranhas
que eles usam — Sensores — checando cada canto, atrás de atividade
demoníaca. Eles ignoraram os corpos dos servos humanos da Camille,
deitados imóveis em suas poças de sangue secando. Eles ignoraram Simon
também. Ele podia muito bem ser outro pilar, por toda a atenção que eles
deram a ele.
“Camille Belcourt”, disse Maryse, sua voz ecoando através das
paredes de mármore. “Você quebrou a Lei e está sujeita às suas
penalidades. Você vai se render e vir conosco ou você vai lutar?”
Camille estava chorando, não fazendo nenhum esforço para esconder
suas lágrimas, as quais estavam tingidas com sangue. Elas estavam
listrando sua face branca com linhas vermelhas enquanto ela engasgava,
“Walker — e meu Archer—“
Maryse parecia confusa. Ela virou para o homem em sua esquerda.
“Kadir, o que ela está dizendo?”
“Os servos humanos dela”, ele respondeu. “Eu acredito que ela está
lamentando pelas mortes deles.”
Maryse sacudiu suas mãos desdenhosamente. “É contra a Lei fazer
servos entre seres humanos.”
“Eu os fiz antes dos Seres do Submundo serem subjulgados pelas
suas
malditas leis, cadela. Eles tem estado comigo há duzentos anos. Eles
eram como filhos para mim.”
As mãos de Maryse apertaram o cabo de sua lâmina. “O que você
pode saber sobre filhos?”, ela sussurrou. “O que a sua espécie sabe sobre
qualquer coisa além de destruir?”
O rosto listrado de sangue de Camille brilhou por um momento com
triunfo. “Eu sabia”, ela disse. “Não importa o que você possa dizer, qualquer
mentira que você conte, você odeia nossa espécie. Não odeia?”
O rosto de Maryse tencionou. “Peguem ela”, ela disse. “Tragam-na
para o Santuário.”
Jace se moveu rapidamente para um dos lados da Camille e a pegou;
Kadir pegou seu outro braço. Juntos, eles a prenderam entre si.
“Camile Belcourt, você está sendo acusada pelo assassinato de
humanos”, Maryse entoou, “e do assassinato de Caçadores de Sombras.
Você será levada ao Santuário, onde você será interrogada. A sentença para
o assassinato de Caçadores de Sombras é a morte, mas é possível que se
você cooperar conosco, sua vida será poupada. Você entendeu?” Maryse
perguntou.
Camille gesticulou com sua cabeça desafiadoramente. “Só existe um
homem ao qual irei responder”, ela disse. “Se você não o trouxer a mim, eu
não direi nada. Você pode me matar, mas eu não vou dizer nada a você.”
“Muito bem”, disse Maryse. “Que homem é esse?”
Camille mostrou seus dentes. “Magnus Bane.”
“Magnus Bane?” Maryse pareceu impressionada. “O Alto Bruxo do
Brooklyn? Porque você quer falar com ele?”
“Eu responderei para ele”, Camille disse novamente. “Ou não
responderei a mais ninguém.”
E foi isso. Ela não disse outra palavra se quer. Enquanto ela era
arrastada para longe por Caçadores de Sombras, Simon a observou ir. Ele
não se sentiu, como ele tinha pensado que se sentiria, triunfante. Ele se
sentiu vazio, e estranhamente mal do estômago. Ele olhou para os corpos
dos servos assassinados; ele não tinha gostado muito deles tampouco, mas
eles não pediram para ser o que eram, não realmente. De uma forma,
talvez nem Camille tivesse. Mas ela era um monstro para os Nephilins de
qualquer forma. E, talvez, não fosse só porque ela tivesse matado
Caçadores de Sombras; talvez, não houvesse forma, de fato, que eles
pensassem nela como qualquer outra coisa.
Camille foi empurrada através do Portal; Jace do outro lado,
acenando impacientemente para Simon o seguir. “Você está vindo ou não?”,
ele chamou.
Não importa o que você possa dizer, qualquer mentira que você
conte, você odeia nossa espécie.
“Indo”, Simon disse, e relutantemente se moveu para frente.
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