sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

16

Capítulo 16
NOVA YORK: CIDADE DOS ANJOS
       “CHEGAMOS”, DISSE MAUREEN A SIMON.
       Ela parou no meio da calçada e olhava para um grande prédio de
vidro e pedra que se erguia diante deles. Foi claramente projetado para
parecer um dos complexos de apartamentos de luxo que foram construídos
no Upper East Side, em Manhattan, antes da Segunda Guerra Mundial, mas
os toques da modernidade estragavam tudo — as grandes janelas, o
telhado cor de cobre intocado por acetatos de cobre, os estandartes
pendurados na frente do edifício, prometendo APARTAMENTOS DE LUXO A
PARTIR DE $750,000. Aparentemente, a compra de um iria lhe garantir o
uso de um jardim no terraço, uma academia, uma piscina aquecida e um
serviço de portaria vinte e quatro horas, começando em dezembro. No
momento, o lugar ainda estava em construção, e as placas de PROIBIDA A
ENTRADA: PROPRIETADE PRIVADA estavam presas nos andaimes que
cercavam o prédio.
       Simon olhou para Maureen. Ela parecia estar se acostumando
rapidamente a ser vampira. Eles haviam corrido pela Queensboro Bridge e
passado pela Segunda Avenida para chegar ali, e seus chinelos estavam em
farrapos. Mas ela não diminuiu a velocidade, e não pareceu surpresa em
não se cansar. Ela olhava para o prédio agora com uma expressão
beatificada, seu pequeno rosto brilhando com o que Simon só podia supor
que era por expectativa.
       “Esse lugar está fechado”, disse ele, sabendo que aquilo era óbvio.
“Maureen—”
       “Silêncio.” Ela estendeu uma pequena mão e puxou um cartaz preso
num canto do andaime. Ele se soltou com um estrondo de placas de gesso e
pregos sendo arrancados. Alguns caíram ao chão, aos pés de Simon.
Maureen jogou a placa de gesso quadrada para o lado e sorriu para o
buraco que fizera.
       Um velho que estava passando, andando com um pequeno poodle
vestido de xadrez numa correia, parou e observou. “Você devia arrumar um
casaco para sua irmãzinha”, ele disse a Simon. “Magrela como está, ela vai
congelar nesse frio.”
       Antes que Simon pudesse responder, Maureen virou-se para o
homem com um sorriso feroz, mostrando todos os dentes, incluindo as
presas afiadas. “Eu não sou irmã dele”, sibilou.
       O homem empalideceu, pegou o cachorro nos braços e saiu correndo.
       Simon sacudiu a cabeça para Maureen. “Você não precisava fazer
isso.”
       As presas dela perfuraram o lábio inferior, algo que acontecia
frequentemente com Simon antes de se acostumar com elas. Finas gotas de
sangue desceram pelo seu queixo. “Não me diga o que fazer”, ela disse

impertinente, mas as presas se recolheram. Ela limpou o queixo com o
dorso da mão, um gesto de criança, lambuzando o sangue. Então, ela virou
para o buraco que fez. “Vamos.”
       Ela passou agachada, e ele seguiu atrás. Eles atravessaram uma área
onde a equipe de construção claramente depositava o lixo. Havia
ferramentas quebradas por toda a parte, tijolos quebrados, sacolas plásticas
velhas e latas de Coca-Cola sujando o chão. Maureen levantou a saia e
abriu caminho graciosamente pelos destroços, um olhar de desgosto no
rosto. Ela pulou por uma estreita vala e subiu uma fileira de degraus
rachados de pedra. Simon a seguiu.
       Os degraus levavam para um conjunto de portas de vidro abertas.
Atrás das portas, podia-se ver um saguão de mármore adornado. Um
pesado candelabro apagado pendia do teto, apesar de não haver nenhuma
luz para iluminar seus cristais suspensos. Seria muito escuro na sala para
um humano enxergar. Havia uma mesa de mármore para o porteiro se
sentar, uma espreguiçadeira verde debaixo de um espelho de bordas
douradas, e elevadores em cada lado da sala. Maureen apertou o botão do
elevador e, para a surpresa de Simon, este se acendeu.
       “Aonde vamos?” Ele perguntou.
       Quando o elevador chegou, Maureen entrou, Simon logo atrás dela. O
elevador tinha um interior dourado e vermelho, com espelhos de vidro fosco
em cada parede. “Subir.” Ela apertou o botão do terraço e riu. “Até o Céu”,
disse, e as portas se fecharam.
       ????
       “Não consigo achar o Simon.”
       Isabelle, encostada num pilar na Ironworks e tentando não se
preocupar, olhou para Jordan à sua frente. Ele era mesmo exageradamente
alto, pensou ela. Devia ter pelo menos um metro e oitenta. Achou-o
bastante atraente na primeira vez que o viu, com o cabelo escuro
desarrumado e olhos esverdeados, mas agora que sabia que era o ex de
Maia, ela o passou firmemente para o espaço mental que reservava para
garotos fora de alcance.
       “Bem, eu não o vi”, disse ela. “Achei que você devia ser o protetor
dele.”
       “Ele me disse que voltaria logo. Isso foi a quarenta minutos atrás.
Pensei que ele fosse ao banheiro.”
       “Que tipo de guardião é você? Não devia ter ido ao banheiro com
ele?” Exigiu Isabelle.
       Jordan ficou aterrorizado. “Homens”, disse, “não seguem outros
homens para ir ao banheiro.”
       Isabelle suspirou. “O pânico homossexual latente irá segui-lo o tempo
todo”, falou ela. “Tudo bem. Vamos procurar por ele.”
       Rodearam a festa, entrando e saindo na multidão de convidados. Alec
estava sozinho numa mesa, zangado, brincando com um copo vazio de
champanhe. “Não, eu não o vi”, ele disse em resposta à pergunta deles.
“Apesar de admitir que não estava o procurando.”
       “Bem, então agora pode procurar conosco”, disse Isabelle. “Vai lhe
dar algo mais a fazer além de se sentir miserável.”
       Alec deu de ombros e se juntou a eles. Eles decidiram se separar e
rondar a festa. Alec subiu para procurar nas passarelas e no segundo piso.
Jordan saiu para ver o terraço e a entrada. Isabelle ficou com a área da

festa. Ela estava se perguntando se olhar debaixo das mesas seria mesmo
ridículo, quando Maia se aproximou por trás dela.
       “Está tudo bem?” Ela inquiriu. Ela olhou na direção de Alec, e depois
na direção que Jordan havia tomado. “Eu reconheço uma formação de
busca quando vejo uma. O que vocês estão procurando? Há algum
problema?”
       Isabelle lhe colocou a par da situação de Simon.
       “Eu falei com ele por volta de meia hora atrás.”
       “Jordan também, mas ele sumiu agora. E já que tem gente tentando
matá-lo ultimamente...”
       Maia abaixou o copo na mesa. “Vou ajudar vocês a procurar.”
       “Você não precisa. Eu sei que não está se sentindo superamigável
com Simon agora—”
       “Isso não significa que eu não queira ajudar se ele estiver em
apuros”, disse Maia, como se Isabelle estivesse sendo ridícula. “Jordan não
devia estar observando ele?”
       Isabelle levantou as mãos. “Sim, mas aparentemente homens não
seguem outros homens para ir ao banheiro, ou algo assim. Ele não estava
fazendo muito sentido.”
       “Garotos nunca fazem”, disse Maia, seguindo-a. Elas entraram e
saíram da multidão, mesmo Isabelle já tendo certeza que não iriam
encontrá-lo. Ela sentia um pequeno ponto frio no meio do estômago que só
aumentava e esfriava mais. Quando todos haviam voltado à mesa de onde
haviam saído, ela parecia ter tomado um copo de água gelada.
       “Ele não está aqui”, ela disse.
       Jordan praguejou, depois olhou de forma culpada para Maia.
“Desculpe-me.”
       “Já ouvi piores”, disse ela. “E agora, qual é o próximo passo? Alguém
tentou ligar para ele?”
       “Cai direto na caixa postal”, respondeu Jordan.
       “Alguma ideia para onde ele poderia ter ido?” Perguntou Alec.
       “Na melhor das hipóteses, voltou ao apartamento”, disse Jordan. “Na
pior, aquelas pessoas que estiveram atrás dele finalmente o pegaram.”
       “Pessoas que o quê?” Alec ficou confuso; enquanto Isabelle tinha
contado para Maia a história de Simon, ainda não tivera a chance de contar
para o irmão.
       “Vou voltar ao apartamento para procurar por ele”, falou Jordan. “Se
estiver lá, perfeito. Se não, mesmo assim é onde eu devia começar. Eles
sabem onde ele vive; estiveram nos mandando mensagens lá. Talvez haja
uma mensagem.”
       Ele não parecia acreditar muito no que dizia.
       Isabelle tomou uma decisão numa fração de segundo. “Eu vou com
você.”
       “Você não precisa—”
       “Preciso sim. Eu falei para Simon que ele devia vir aqui hoje à noite;
eu sou a responsável. Além disso, essa festa não está me animando muito
mesmo.”
       “É”, disse Alec, aliviado com a ideia de sair dali. “Eu também. Talvez
todos nós deveríamos ir. Contamos para Clary?”
       Isabelle sacudiu a cabeça. “É a festa da mãe dela. Não seria justo.
Vamos ver o que podemos fazer só nós três.”

       “Nós três?” Perguntou Maia, um tom de irritação delicada
assombrando sua voz.
       “Você quer vir com a gente, Maia?” Era Jordan. Isabelle congelou;
não tinha certeza de como Maia reagiria ao ter o ex-namorado falando com
ela diretamente. A boca da garota se apertou um pouquinho, e só por um
momento ela olhou para Jordan — não como se o odiasse, mas pensativa.
       “É o Simon”, disse finalmente, como se isso decidisse tudo. “Vou
pegar meu casaco.”
       ????
       As portas do elevador se abriram num turbilhão de escuridão e
sombras. Maureen deu outra risada aguda e dançou para a escuridão,
deixando Simon para segui-la com um suspiro.
       Eles estavam numa grande sala de mármore sem janelas. Não havia
pontos de luz, mas a parede da esquerda do elevador estava ajustada com
um conjunto grande de portas duplas de vidro. Atrás delas, Simon podia ver
a superfície lisa no telhado, e acima o negro céu noturno pontilhado com
estrelas fracamente brilhantes.
       O vento soprava muito forte novamente. Ele seguiu Maureen pelas
portas e saiu no ar frio soprando, o vestido dela tremulando como uma
mariposa batendo as asas numa ventania. O jardim do terraço era elegante
como as placas prometiam. O chão era formado de lustrosos azulejos
hexagonais de pedra; havia várias flores floresciam sob vidro e cercas vivas
topiárias cuidadosamente cortadas nas formas de monstros e animais. O
passadiço que eles seguiram era alinhado com minúsculas luzes brilhantes,
em volta deles erguiam-se altos prédios de apartamentos de vidro e aço,
suas janelas brilhando com eletricidade.
       O caminho terminava em um vão para uma fileira suspensa de
degraus ladrilhados, sobre o qual era um imenso quadrado limitado em três
lados pelo alto muro que rodeava o jardim. Claramente era uma área aonde
os eventuais residentes do prédio iriam se socializar. Havia um grande bloco
de concreto no centro do quadrado, que provavelmente algum dia teria uma
grelha, pensou Simon, e a área era cercada por roseiras meticulosamente
aparadas que floresceriam em junho, assim como as treliças adornando os
muros um dia iriam sumir sob uma cobertura de folhas. Mais tarde seria um
belo espaço, um jardim de luxo do Upper East Side onde você podia relaxar
numa espreguiçadeira, com o rio East resplandecendo no pôr do sol, e a
cidade se estendia diante de você, um mosaico de luz tremeluzente.
       Havia um porém. O chão ladrilhado fora deformado, salpicado com
algum tipo de fluido negro e grudento que havia sido usado para desenhar
um círculo irregular, dentro de um círculo maior ainda. O espaço entre os
dois círculos era preenchido de runas rabiscadas. Mesmo Simon não sendo
um Caçador de Sombras, já vira runas Nephilim suficientes para reconhecer
quais vinham do Livro Branco.
       Essas não vieram. Pareciam ameaçadoras e erradas, como uma
maldição rabiscada numa língua estranha.
       No centro do círculo estava o bloco de concreto. No topo dele um
volumoso objeto retangular repousava, coberto com um tecido escuro. A
sua forma lembrava um caixão. Mais runas estavam riscadas na base do
bloco.
       Se o sangue de Simon pudesse mudar de temperatura, teria ficado
frio.

       Maureen bateu palmas uma vez. “Oh”, disse na sua voz élfica. “É
lindo.”
       “Lindo?” Simon olhou rapidamente para a forma sobre o bloco de
concreto. “Maureen, que inferno—”
       “Então você o trouxe.” Foi uma voz de mulher que falou, refinada,
forte, e — familiar. Simon se virou. Parada na passagem atrás dele estava
uma mulher alta com cabelo escuro curto. Era bem magra, vestindo um
comprido casaco escuro, acinturada como uma mulher fatal de um filme de
espionagem dos anos quarenta. “Maureen, obrigada”, ela continuou. Ela
tinha um rosto rígido e lindo, precisamente plano, com a maçã do rosto
saliente e grandes olhos escuros. “Você fez seu trabalho muito bem. Pode ir
agora.” Virou o olhar para Simon. “Simon Lewis”, ela disse ela. “Obrigada
por vir.”
       No momento em que ela disse o nome dele, ele a reconheceu. Da
última vez que a vira, ela estivera na chuva do lado de fora do Alto Bar.
“Você. Lembro-me de você. Me deu o seu cartão. A promotora musical.
Nossa, você deve mesmo querer promover minha banda. Nem achava que
éramos tão bons assim.”
       “Não seja sarcástico”, a mulher disse. “Não há sentido nisso.” Ela
olhou para o lado. “Maureen. Você pode ir.” Sua voz fora firme dessa vez, e
Maureen, que estivera pairando como um fantasma, chiou baixinho e correu
para o caminho de onde eles haviam chegado. Ele a observou desaparecer
nas portas que levavam aos elevadores, sentindo quase pena ao vê-la
partir. Maureen não era muita companhia, mas sem ela, ele se sentia muito
sozinho. Quem quer que a estranha mulher fosse, essa desprendia uma
aura de poder obscuro que ele estivera muito drogado de sangue para
perceber antes. “Você foi difícil para mim, Simon”, disse ela, e agora sua
voz vinha de outra direção, há vários metros de distância.
       Simon girou, e viu que ela estava ao lado do bloco de concreto, no
centro do círculo. As nuvens sopravam rapidamente sobre a lua, lançando
sombras móveis no rosto dela. Devido estar na base da escada, ele teve
que inclinar a cabeça para trás para olhá-la. “Achei que pegá-lo seria fácil.
Cuidar de um simples vampiro. Um recentemente criado. Nem um
Daylighter é algo que eu não tenha encontrado antes, mesmo não havendo
um por cem anos. Sim”, acrescentou, com um sorriso ao olhar dele, “eu sou
mais velha do que pareço.”
       “Você parece bem velha.”
       Ela ignorou o insulto. “Enviei minhas melhores pessoas atrás de você,
e só um retornou, com uma história ridícula sobre fogo sagrado e a ira de
Deus. Ele ficou inútil para mim depois disso. Tive que eliminá-lo. Foi muito
aborrecedor. Depois disso, decidi que devia cuidar de você, eu mesma. Te
segui àquele estúpido show musical, e mais tarde, quando fui até você, eu a
vi. Sua Marca. Como alguém que conhecia Caim pessoalmente, sou
intimamente familiar com sua forma.”
       “Conhecia Caim pessoalmente?” Simon sacudiu a cabeça. “Você não
pode esperar que eu acredite nisso.”
       “Acredite ou não”, disse ela. “Não faz diferença para mim. Sou mais
velha que os sonhos de sua espécie, garotinho. Andei pelas trilhas do
Jardim do Éden. Conheci Adão antes mesmo de Eva. Fui sua primeira
esposa, mas não fui obediente a ele, então Deus me excluiu e fez para Adão
uma nova esposa, uma modulada ao corpo dele que podia ser para sempre

útil.” Ela sorriu fracamente. “Tenho muitos nomes. Mas você pode me
chamar de Lilith, a primeira de todos os demônios.”
       Com isso, Simon, que não sentia arrepios há meses, finalmente
tremeu. Ele já ouvira antes o nome Lilith. Não podia se lembrar de
exatamente onde, mas sabia que era um nome associado à escuridão, com
coisas malignas e terríveis.
       “Sua Marca me presenteou com um enigma”, disse Lilith. “Eu preciso
de você, entende, Daylighter. Sua força de vida — seu sangue. Mas não
poderia forçá-lo ou machucá-lo.”
       “Você — bebe sangue?”, perguntou Simon. Sentiu-se ofuscado, como
se estivesse preso num estranho sonho. Certamente isso não podia estar
acontecendo.
       Ela riu. “Sangue não é o alimento dos demônios, criança boba. O que
eu quero de você não é para mim.” Estendeu uma mão fina. “Aproxime-se.”
       Simon sacudiu a cabeça. “Eu não vou entrar nesse círculo.”
       Ela deu de ombros. “Tudo bem, então. Só queria que você tivesse
uma visão melhor.” Ela movimentou os dedos levemente, quase negligente,
o gesto de alguém abrindo uma cortina. O tecido negro cobrindo o objeto
em forma de caixão entre eles desapareceu.
       Simon fitou o que havia sido revelado. Não errara sobre a forma de
caixão. Era uma grande caixa de vidro, longa e extensa o suficiente para
uma pessoa se deitar dentro. Um caixão de vidro, pensou, como o da
Branca de Neve. Só que esse não era nenhum conto de fadas. O caixão
estava cheio de um líquido sombrio, e flutuando naquele líquido — nu da
cintura para cima, o cabelo loiro-esbranquiçado flutuando sobre a cabeça
como algas marinhas brancas — estava Sebastian.
       ????
       Não havia mensagens presas na porta do apartamento de Jordan,
nada sobre ou debaixo do tapete de boas-vindas, e também nada
imediatamente óbvio dentro do apartamento. Enquanto Alec ficava de
guarda lá embaixo e Maia e Jordan revistavam a mochila de Simon na sala
de estar, Isabelle, parada na porta do quarto de Simon, olhou em silêncio
para o lugar em que ele dormira nos últimos dias. Era tão vazio — só quatro
paredes, sem nenhuma decoração, um chão vazio só com um colchão futon
e um cobertor branco dobrado no pé, e uma única janela que dava para a
Avenida B.
       Ela podia ouvir a cidade — a cidade em que crescera, cujos barulhos
sempre lhe cercaram, desde que era um bebê. Ela achava a quietude de
Idris terrivelmente anormal sem os barulhos dos alarmes de carro, pessoas
gritando, sirenes de ambulância e música tocando que nunca, em Nova
York, parava direito, nem na calada da noite. Mas agora, olhando aqui o
pequeno quarto de Simon, pensou sobre como aqueles barulhos eram
solitários, como eram distantes, e se ele estivera sozinho aqui à noite,
deitado aqui olhando para o teto, solitário.
       Por outro lado, não era como se ela nunca tivesse visto o seu quarto
na casa dele, que provavelmente era cobertor de pôsteres de bandas,
troféus esportivos, caixas daqueles jogos que adorava jogar, instrumentos
musicais, livros — tudo que vinha junto com ter uma vida normal. Ela nunca
pediu para ir lá, e ele nunca sugeriu isso. Ela tivera vergonha de conhecer a
mãe dele, de fazer qualquer coisa que podia indicar uma relação maior do
que estava querendo ter. Mas agora, olhando para essa concha vazia que
era chamada de quarto, sentindo o vasto alvoroço sombrio da cidade em

todo o seu redor, sentiu uma pontada de medo por Simon — misturada com
uma igual pontada de lamento.
       Virou-se de novo para o resto do apartamento, mas parou quando
ouviu baixos murmúrios vindo da sala de estar. Reconheceu a voz de Maia.
Não parecia zangada, o que era de se surpreender na verdade,
considerando o quanto parecia odiar Jordan.
       “Nada”, ela estava dizendo. “Algumas chaves, papéis com pontos de
jogo escritos neles.” Isabelle se inclinou na porta. Podia ver Maia, de pé em
um lado do balcão na cozinha, a mão no bolso do zíper da mochila de
Simon. Jordan, no outro lado do balcão, lhe observava. Observando-a,
Isabelle pensou, não o que ela estava fazendo — da forma que garotos te
observavam quando estavam tão na sua que se fascinavam com cada
movimento seu. “Vou ver se tem algo na carteira.”
       Jordan, que havia trocado sua roupa formal para jeans e uma jaqueta
de couro, franziu a testa. “Estranho ele ter deixado isso. Posso ver?”
Estendeu a mão na direção do outro lado do balcão.
       Maia recuou tão rápido que deixou cair a carteira, a mão voando para
cima.
       “Eu não estava...” Jordan lentamente recolheu sua mão. “Desculpe-
me.”
       Maia respirou fundo. “Olhe”, ela disse, “eu falei com Simon. Sei que
você nunca quis me Transformar. Sei que você não sabia sobre o que
estava acontecendo contigo. Lembro-me de como foi. Lembro-me de estar
aterrorizada.”
       Jordan abaixou as mãos lenta e cuidadosamente na superfície do
balcão. Era estranho, pensou Isabelle, observar alguém tão alto se fazer
parecer inofensivo e pequeno. “Eu devia estar lá por você.”
       “Mas o Praetor não deixaria você estar”, disse Maia. “E vamos
admitir, você não sabia nada sobre ser um lobisomem; seríamos duas
pessoas descuidadas andando em círculos. Talvez tenha sido melhor você
não estar lá. Me fez fugir para onde consegui ajuda. Do Bando.”
       “Primeiro eu esperei que o Praetor Lupus te convidasse a entrar”,
sussurrou. “Para que eu pudesse vê-la novamente. Então eu percebi que
isso era egoísta e eu devia estar desejando não ter passado a enfermidade
a você. Sabia que era meio a meio. Achei que você seria uma das
sortudas.”
       “Bem, não fui”, falou ela com praticidade. “E ao longo dos anos
formei você na minha mente, como, meio que, um monstro. Eu achei que
soubesse o que estava fazendo quando fez isso para mim. Achei que era
vingança por eu beijar aquele garoto. Então te odiei. E te odiar deixou tudo
mais fácil. Ter alguém para culpar.”
       “Você devia me culpar”, disse ele. “Foi minha culpa.”
       Ela correu o dedo pela superfície do balcão, evitando os olhos dele.
“Eu te culpo. Mas... não do jeito que fazia antes.”
       Jordan estendeu uma mão e pegou o próprio cabelo com os punhos,
puxando forte. “Não há um dia que passe que eu não pense sobre o que fiz
a você. Eu te mordi. Te Transformei. Te fiz o que é. Levantei minha mão
contra você. Feri você. A única pessoa que amei mais que qualquer outra no
mundo.”
       Os olhos de Maia brilhavam com lágrimas. “Não fale isso. Isso não
ajuda. Você acha que ajuda?”

        Isabelle deu uma tossida alta, entrando na sala de estar. “Muito bem.
Encontraram alguma coisa?”
        Maia desviou o olhar, piscando rapidamente. Jordan, abaixando as
mãos, disse, “Nada. Íamos olhar agora a carteira dele.” Ele a pegou de
onde Maia havia deixado cair. “Aqui.” Ele jogou para Isabelle.
        Ela pegou e a abriu. Passe escolar, carteira de identidade do estado
de Nova York, uma palheta de guitarra enfiada no espaço reservado a
guardar cartões de crédito. Uma nota de dez dólares e um recibo de dados.
Outra coisa lhe chamou a atenção — um cartão de trabalho, metido sem
cuidado atrás de uma foto de Simon e Clary, o tipo de foto que você devia
ter tirado numa cabine de fotos barata de uma farmácia. Os dois sorriam.
        Isabelle pegou o cartão e analisou-o. Tinha um desenho embaraçado
e quase abstrato de uma guitarra flutuando entre as nuvens. Abaixo dali
havia um nome: Satrina Kendal. Promotora de Bandas. Logo abaixo, estava
escrito um número de telefone e um endereço do Upper East Side. Isabelle
franziu a testa. Algo, uma memória, saltou no fundo de sua mente.
        Isabelle estendeu o cartão para Jordan e Maia, que estavam
ocupados não olhando um para o outro. “O que vocês acham disso?”
        Antes que pudessem responder, a porta do apartamento abriu e Alec
entrou por ela. Tinha um olhar zangado. “Vocês encontraram alguma coisa?
Estou de pé lá em baixo por meia hora, e nem a coisa mais remotamente
ameaçadora apareceu. A menos que vocês contem o estudante da NYU35
que vomitou nos degraus da frente.”
        “Aqui”, disse Isabelle, passando o cartão para o irmão. “Veja isso.
Algo não lhe parece estranho?”
        “Você quer dizer, além do fato de nenhum promotor de banda poder
estar possivelmente interessado na banda ridícula de Lewis?” Alec inquiriu,
pegando o cartão entre dois longos dedos. Linhas apareceram entre os
olhos. “Satrina?”
        “Esse nome significa algo a você?” Perguntou Maia. Seus olhos ainda
estavam vermelhos, porém sua voz estava firme.
        “Satrina é um dos dezessete nomes de Lilith, a mãe de todos os
demônios. Ela é o motivo pelos quais os bruxos são chamados de filhos de
Lilith”, disse Alec. “Porque ela criava demônios, e eles em troca passavam a
raça de bruxos adiante.”
        “E você tem todos os dezessete nomes gravados na memória?”
Jordan parecia em dúvida.
        Alec lhe atirou um olhar frio. “Quem é você mesmo?”
        “Ah, cala a boca, Alec”, Isabelle falou, no tom que só usava com o
irmão. “Olhe, nem todo mundo tem o seu poder de memorizar fatos
insignificantes. Não acho que você se lembre dos outros nomes de Lilith?”
        Com um olhar superior, Alec os disse: “Satrina, Lilith, Ita, Kali, Batna,
Talto—”
        “Talto!” berrou Isabelle. “É isso. Sabia que estava lembrando de algo.
Sabia que havia uma conexão!” Rapidamente, ela os deixou a par da Igreja
de Talto, o que Clary encontrou lá e como isso se conectava com o bebê
meio-demônio morto no Beth Israel.
        “Queria que você tivesse me contado isso antes”, disse Alec. “Sim,
Talto é outro nome de Lilith. E Lilith sempre foi associada a bebês. Ela foi a
primeira esposa de Adão, mas fugiu do Jardim do Éden porque não queria
obedecer Adão ou Deus. Mas Deus a amaldiçoou por sua desobediência —
qualquer filho que tivesse iria morrer. A lenda diz que ela tentou mais e

mais vezes ter uma criança, mas todas nasceram mortas. No fim, jurou que
teria sua vingança contra Deus enfraquecendo e assassinando crianças
humanas. Pode-se dizer que ela é a deusa demônio das crianças mortas.”
        “Mas você disse que ela era a mãe dos demônios”, disse Maia.
       “Ela era capaz de criar demônios espalhando gotas de seu sangue na
terra de um lugar chamado Edom”, disse Alec. “Uma vez que nasceram por
causa de seu ódio por Deus e pela humanidade, se tornaram demônios.”
Ciente de que todos o fitavam, ele deu de ombros. “É só uma história.”
       “Todas as histórias são verdadeiras”, Isabelle disse. Esse era o
princípio de suas crenças desde que era criança, todos os Caçadores de
Sombras acreditavam. Não havia religião, não havia verdade — e todos os
mitos tinham um significado. “Você sabe disso Alec.”
       “Eu sei outra coisa também”, disse Alec, devolvendo à irmã o cartão.
“Esse número de telefone e o endereço são ridículos. Sem chance de serem
verdadeiros.”
       “Pode ser”, disse Isabelle, enfiando o cartão no bolso. “Mas não
temos mais nenhum lugar para começar a procurar. Então vamos começar
por lá.”
       ????
       Simon só podia fitar. O corpo flutuando dentro do caixão — o de
Sebastian — não parecia estar vivo; pelo menos, ele não estava respirando.
Mas claramente também não estava exatamente morto. Havia sido há dois
meses. Se estivesse morto, Simon tinha quase certeza, estaria numa forma
muito pior do que estava. Seu corpo estava muito branco, como mármore;
uma mão tinha uma bandagem, mas tirando isso ele estava sem marca. Ele
parecia estar dormindo, os olhos fechados, os braços soltos nos lados. Só o
fato do seu peito não levantar e descer indicava que havia alguma coisa
muito errada.
       “Mas”, disse Simon, sabendo que soaria ridículo, “ele está morto.
Jace o matou.”
       Lilith pousou uma mão pálida na superfície de vidro do caixão.
“Jonathan”, ela disse, e Simon se lembrou de que esse era, na verdade, seu
nome. A voz dela tinha uma estranha e suave qualidade quando o disse,
como se cantasse para uma criança. “Ele é lindo, não é?”
       “Hã”, disse Simon, olhando com repugnância a criatura dentro do
caixão — o garoto que assassinou Max Lightwood, de nove anos. A criatura
que matou Hodge. Que tentara matar todos eles. “Não faz muito o meu
tipo.”
       “Jonathan é único”, ela disse. “Ele é o único Caçador de Sombras que
já conheci que é parte Demônio Maior. Isso o torna muito poderoso.”
       “Ele está morto”, disse Simon. Sentia que, de alguma forma, era
importante continuar repetindo esse argumento, mesmo que Lilith não
parecesse entendê-lo direito.
       Lilith, olhando para Sebastian, franziu a testa. “É verdade. Jace
Lightwood andou por trás dele e o apunhalou nas costas, atravessando o
coração.”
       “Como você—”
       “Eu estava em Idris”, disse Lilith. “Quando Valentin abriu a porta do
mundo dos demônios, passei por ela. Não para lutar em sua batalha
estúpida. Menos curiosidade do que qualquer outra coisa. Que Valentine
pudesse ter tanta insolência—” Fez uma pausa, dando de ombros. “O Céu o
eliminou por isso, é claro. Vi o sacrifício que ele fez; vi o Anjo se erguer e se

virar contra ele. Vi o que foi trazido de volta. Sou a mais antiga dos
demônios; conheço as Leis Antigas. Uma vida por uma vida. Corri até
Jonathan. Era quase tarde demais. O que era humano nele morreu
instantaneamente — o coração parou de bater, os pulmões pararam de se
expandir. As Leis Antigas não eram o suficiente. Tentei trazê-lo de volta
naquela hora. Ele já estava muito longe. Tudo o que pude fazer foi isso.
Preservá-lo até esse momento.”
       Simon imaginou brevemente o que aconteceria se saísse correndo —
passava por esse demônio insano e se jogava do terraço do prédio. Não
podia ser ferido por nenhuma criatura viva; esse era o resultado da Marca,
mas duvidava que seu poder se estendia a protegê-lo do chão. Mesmo
assim, era um vampiro. Se caísse de quarenta andares e esmagasse cada
osso do corpo, iria se curar disso? Engoliu em seco e encontrou Lilith
olhando para ele em diversão.
       “Você não quer saber”, disse na sua voz fria e sedutora, “que
momento eu me refiro?” Antes que ele pudesse responder, ela se inclinou
para a frente, seus cotovelos no caixão. “Suponho que saiba a história de
como os Nephilim foram criados. Como o Anjo Raziel misturou o seu sangue
ao sangue dos homens, e o deu para um homem beber, e que este homem
se tornou o primeiro Nephilim. Sabe?”
       “Já ouvi isso.”
       “Como consequência, o Anjo criou uma nova raça de criaturas. E
agora, com Jonathan, uma nova raça renasceu de novo. Da mesma forma
que Jonathan Caçador de Sombras liderou os primeiros Nephilim, esse
Jonathan liderará a nova raça que pretendo criar.”
       “A nova raça que você pretende—” Simon levantou as mãos. “Você
sabe de uma coisa, se quiser liderar uma nova raça começando com um
garoto morto, sem problemas. Não vejo o que isso tem a ver comigo.”
       “Ele está morto agora. Ele não precisa permanecer assim.” A voz de
Lilith era fria, sem emoção. “Há, é claro, uma espécie de Habitante do
Submundo cujo sangue oferece a possibilidade de, digamos, ressurreição.”
       “Vampiros”, disse Simon. “Você quer que eu transforme Sebastian
em vampiro?”
       “O nome dele é Jonathan.” O tom dela era agudo. “E sim, de certa
forma. Eu quero que você o morda, beba seu sangue, e lhe dê a ele o seu
sangue em troca—”
       “Eu não vou fazer isso.”
       “Você tem tanta certeza disso?”
       “Um mundo sem Sebastian” — Simon usou o nome deliberadamente
— “nele é um mundo melhor do que um mundo com ele. Eu não vou fazer
isso.” Raiva crescia dentro de Simon, uma onda rápida. “Eu não poderia
fazer nem que quisesse. Ele está morto. Vampiros não podem trazer os
mortos de volta. Você devia saber disso, já que é tão esperta. Quando a
alma deixa o corpo, nada pode trazê-la de volta. Felizmente.”
       Lilith virou o olhar para ele. “Você não sabe mesmo, sabe?” Ela
perguntou. “Clary nunca te contou.”
       Simon começava a ficar de saco cheio. “Nunca me contou o quê?”
       Lilith riu. “Olho por olho, dente por dente, vida por vida. Para impedir
o caos, deve haver ordem. Se uma vida é dada à Luz, deve-se dar uma vida
à Escuridão também.”
       “Eu não”, Simon disse lenta e deliberadamente, “tenho literalmente a
mínima ideia do que você está falando. E não me importo. Vocês vilões e

seus programas eugênicos assustadores estão começando a me irritar.
Então vou embora agora. Pode tentar me impedir ameaçando ou me
ferindo. Te estimulo a seguir em frente.”
        Ela olhou para ele e riu. “‘Caim se levantou,’” disse ela. “Você parece
um pouco como ele cuja Marca você carrega. Ele era inflexível, e você
também. Também imprudente.”
        “Ele se levantou contra—” Simon sufocou com a palavra. Deus.
“Estou só interagindo com você.” Ele se virou para partir.
        “Eu não viraria as costas para mim se fosse você, Daylighter”, disse
Lilith, e havia algo na sua voz que o fez olhar para ela de novo, onde se
inclinava no caixão de Sebastian. “Você acha que não pode ser ferido”, ela
falou com um olhar zombeteiro. “E de fato não posso erguer uma mão
contra você. Não sou tola; eu vi o fogo sagrado do divino. Não tenho desejo
de vê-lo voltado contra mim. Não sou Valentine para barganhar com o que
não posso entender. Sou um demônio, mas um muito velho. Conheço a
humanidade melhor do que você pode pensar. Entendo as fraquezas de
orgulho, de desejo por poder, de desejo da carne, de ganância, de vaidade
e de amor.”
        “Amor não é uma fraqueza.”
        “Ah, não é?” Disse ela, e olhou para um ponto atrás dele, com um
olhar frio e afiado como uma estalactite.
        Ele se virou, não querendo, sabendo que devia, e olhou o que era.
        Ali no passadiço de tijolos estava Jace. Ele vestia um terno escuro e
uma camisa branca. De pé à sua frente estava Clary, ainda no bonito
vestido dourado que vestira na festa da Ironworks. Seu cabelo ruivo longo e
ondulado saíra de seu nó e descia pelos seus ombros. Ela estava bastante
quieta no círculo dos braços de Jace. Quase pareceria uma foto romântica
se não fosse o fato de que em uma das mãos dele, Jace segurava uma faca
longa e brilhante com punho de osso, e a sua ponta estivesse pressionada
contra a garganta de Clary.
        Simon fitou Jace em total e absoluto choque. Não havia emoção no
rosto de Jace, nenhuma luz em seus olhos. Ele parecia totalmente
inexpressivo.
        Bem de leve, ele inclinou a cabeça.
        “Eu a trouxe, lady Lilith”, ele falou. “Assim como você pediu.”

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