CAPÍTULO 118
Mindy
Encontrei Raniero e Ylenia em frente à sala do tribunal – ela não chegou
muito longe –, mas quando abri caminho à força pela multidão que assistia, ele já a havia
colocado contra uma parede e segurava uma estaca, avisando-a na voz mais profunda e
apavorante que eu já tinha visto alguém usar:
– Por sua causa estou marcado para a destruição, e hoje você também será destruída.
– Você não entende – balbuciou ela. – Eu só queria que você me mordesse naquela noite.
Só coloquei um pouco de sálvia no sangue que dei a você, porque tinha ouvido falar de uns
caras que faziam isso com as garotas... Achei que, se você me mordesse uma vez, nós
ټcaríamos juntos e eu faria você feliz. Se me conhecesse, iria gostar de mim, mas você nem
me olhava...
Vi a mão dele começar a tremer com a estaca, e nunca me senti pior por estar certa a
respeito de alguma coisa na vida. Eu sabia que ela havia drogado Raniero. E Jess. Tinha feito
essa conexão porque vira o colega de Ronnie pirando, e ele ټcou igualzinho a Jess quando
ela desmoronou. Tinha adivinhado, dias antes, que Ylenia havia imitado algum truque de
seus amigos doidões do colégio interno e sacaneado os dois.
Uma pena ela não ter lido a matéria aprofundada da revista Garota Moderna: “Quase ilegal:
o que seus amigos PODEM estar usando para ټcarem doidões”. Talvez, se tivesse lido, ela
preferisse lhe dar um pouco de xarope para tosse em vez de sálvia, uma planta com efeitos
similares ao do LSD e que podia fazer a pessoa ficar violenta.
Talvez assim não acabasse acuada contra uma parede por um vampiro cuja mão, que
segurava uma estaca sangrenta, tremeu ainda mais quando ele rosnou, parecendo mais
apavorante:
– Você é a culpada por eu destruir um vampiro e virar blestemată. É SUA CULPA eu estar
marcado para a destruição e acreditar que sou pior ainda do que sou. Por sua causa eu vivo
cada dia dos últimos dois anos imaginando se poderia destruir injustamente de novo! Eu me
desprezo!
Eu não sabia se deveria correr e segurar a mão dele ou se isso só o faria se distrair e
cometer algo terrível, mas, antes que eu pudesse decidir, o rosto de Ylenia se retorceu de
um modo esquisito e de repente ela não estava mais chorando. Estava gritando.
– Você não se acha nada menos do que perfeito! Você e Lucius acreditam que são os donos
do mundo!
Raniero ainda estava com ela encostada na parede, mas Ylenia fechou o punho pequenino
e começou a espernear como uma pirralha mimada, como se odiasse todo mundo a ponto
de nem se importar se seria morta.
– Odeio todos vocês, e espero que Lucius passe a eternidade se retorcendo no limbo, de
modo que ela também ټque arrasada para sempre! Ela é uma Dragomir e nem sabe falar
romeno, nem encontrar o próprio quarto, e ele a ama mesmo assim, e você nunca nem me
olhou! Espero que eles dois apodreçam e sofram para sempre, e que você seja destruído,
também!
Uma coisa era arruinar a vida de Raniero e fazer com que ele fosse marcado para a
destruição, mas outra era insultar seus amigos e estragar a vida deles, e acho que foi isso que
o fez estourar do jeito que ele temera durante anos. A última gota que o fez enlouquecer
não foi uma droga mais ou menos liberada, foi uma adolescente aspirante a princesa
vampira, fracassada e ciumenta, que arruinaria a vida de todos nós se eu não dissesse alguma
coisa, porque, pela primeira vez desde que o conheci, Raniero me pareceu feio.
Ele recuou a mão com a estaca e seu rosto ټcou de um jeito que eu mal reconheci, e acho
que foi por isso que fechei os olhos – para poder visualizar o Ronnie que eu queria de volta.
Daí gritei para ele, o mais alto que pude, como se também fosse uma rainha:
– Pare, Raniero Lovatu! Pare com isso agora mesmo, seu vampiro italiano idiota! Pare,
porque eu te amo e quero viver com você na praia, e quero que você deixe o cavanhaque
crescer de volta, encontre sua camisa idiota do taco e saia daqui comigo no próximo avião
antes que a gente não consiga construir mais nada juntos! Desculpe se um dia eu quis que
você mudasse ou que brigasse com alguém. Só... PARE COM ISSO! AGORA!
Todo o ruído do mundo parou. Até os vampiros que estavam traduzindo tudo para um
punhado de línguas europeias se calaram e não se mexeram.
E quando tive coragem de abrir os olhos, vi os ombros de Raniero tremendo, e as mãos
também, e achei que fosse morrer antes de descobrir qual Ronnie eu veria quando ele
começou a se virar para mim.
CAPÍTULO 119
Antanasia
O guarda que estava preparando Dorin para o cárcere havia deixado a chave da
cela de Lucius à vista, e eu controlei os dedos para abrir a fechadura, depois passei pelas
barras e corri até meu marido, que estava deitado de lado, os olhos fechados.
– Lucius. – Eu o sacudi devagar. – Por favor. Abra os olhos.
EPÍLOGO
Antanasia
Deitei-me ao lado de Lucius e fiquei observando-o dormir ao sol que penetrava em nosso
quarto. O rosto dele estava tão tranquilo... Agora ele sempre parecia sereno, e isso me
reconfortou.
– Acorde – Dei uma leve sacudida nele. – O sol nasceu.
Ele abriu os olhos e notei outra vez que ele havia mudado desde a prisão.
Não estava preocupado e arrependido por ter me levado para o nosso mundo, e me considerava
uma pessoa igual a ele de novo. Sentia orgulho de mim.
Recuei e lhe dei espaço para se apoiar nos braços fortes – ele não havia demorado muito para
se recuperar –, e olhou para o relógio. Depois caiu de volta no colchão e riu para mim.
– Por que deixou que eu dormisse tanto tempo em um dia tão importante? Não quer que seu
marido, o futuro rei, esteja com a melhor aparência?
– Ainda gosto quando você descansa.
Ele puxou meu braço e eu caí em cima do peito dele, e senti os músculos, que pareciam
ótimos. De volta à forma perfeita.
– Estou bem há meses, Antanasia. Você não precisa mais me tratar como um bebê.
Mas era difícil parar. Ele estava tão fraco quando foi carregado para o nosso quarto que mal
consegui obrigá-lo a beber. Tive que cortar o pulso de novo e deixar o sangue pingar na boca
dele. E quando fitei seus olhos pela primeira vez, ainda na cela, poderia jurar que ele não
voltaria mais.
Mas ele era Lucius Vladescu e, claro, tinha lutado para voltar para mim, de modo que
pudéssemos realizar o sonho que ele havia sussurrado ao meu ouvido na noite de nosso
casamento.
– Você acha mesmo que vamos ter o voto de confiança? – perguntei, encarando aqueles olhos
negros, pois sabia que iria ler a verdade ali. – Acha que todos aqueles vampiros que estão
apinhados em nossa casa confiam o suficiente em nós?
– Acho que temos uma boa chance. Melhor do que eu tinha no julgamento, e eu venci ali.
– Eu venci – lembrei a ele. – Eu, Mindy e Raniero.
– Sim, sim – concordou ele, rindo. – Eu sei. Você vive me lembrando disso.
Fiquei séria.
– Naquele primeiro dia no tribunal você não conseguia mesmo falar?
Ele pôs um de meus cachos atrás da orelha.
– Você estava se saindo bem sozinha. Eu não tinha nada a acrescentar.
Eu lhe perguntava aquilo de vez em quando, só para me lembrar exatamente de quanta fé ele
tinha em mim. E a resposta era sempre a mesma. Depois fiz outra pergunta, só para ver a
malícia que ela sempre provocava nos olhos dele:
– Onde você estava naquela noite em que tentei encontrá-lo no escritório e você voltou para a
cama tão tarde?
Ele me lançou o olhar que eu esperava. A sobrancelha arqueada.
– Jessica, você quer mesmo saber de todos os meus segredos?
Talvez sim... talvez não.
Aquele olhar – e os pensamentos sobre aquela noite – me lembrou de outra coisa.
– Raniero vem hoje?
Lucius balançou a cabeça, os cabelos curtos e bem-cuidados brilhando ao sol.
– Não. Ele fez o bastante por nós. Eu o liberei de votar, apesar de ele ter se oferecido.
Não mencionamos a ausência de minha prima Ylenia ou de meu tio Dorin, apesar de eles
nunca se distanciarem do meu pensamento. Eu era uma princesa esperando virar rainha, mas
ainda sofria com a lembrança de ter dado a sentença de destruição aos dois. Não era
exatamente culpa o que eu sentia por ter presidido os julgamentos de ambos enquanto Lucius
se recuperava. Era uma tristeza mais profunda, conflituosa, mas com a qual eu precisava
aprender a conviver.
Lucius deve ter notado que fiquei melancólica e quis acabar com aquilo, porque de repente, e
com facilidade, me fez rolar, me deitando de costas, e apesar de eu já estar vestida para o
maior dia da assembleia do verão, o dia de nosso voto de confiança, ele me beijou de um modo
que indicava que ele estava forte de novo, porém não desesperado por sangue, e que ainda
estava, e sempre estaria, muito sedento de mim.
Mindy
– Quer, tipo, um taco ou um burrito no almoço? – perguntei ao meu namorado vampiro
surfista, que largou a prancha na praia ao lado da minha espreguiçadeira barata e sacudiu um
bocado d’água dos cabelos compridos, bem em cima de mim. – Ei! Eu vou pagar o almoço,
então não me deixe furiosa!
– Hoje eu vou pagar o almoço para você – ofereceu Raniero. Em seguida se abaixou e me
beijou, o que ajudou a compensar por ele ter me molhado toda, depois se jogou na areia. – Il
mio trattare: por minha conta!
– E você vai pagar com o quê?
– Eu ganhei 200 dólares tirando o segundo lugar na competizione, lembra-se?
Fitei-o e revirei os olhos. Pelo jeito seria assim que íamos viver. Acompanhando as
competições de surfe de praia em praia, e eu cortando cabelos quando tinha oportunidade.
Cheguei a achar que não faria isso de novo, mas a gente precisava de grana, e eu meio que já
possuía uma reputação no circuito do surfe.
Então olhei para o mar, que estava superagitado naquele dia, e me lembrei da aparência dos
olhos de Raniero quando ele se virou, prestes a cravar uma estaca no coração de Ylenia
Dragomir.
Ele não tinha perdido o controle, mas havia chegado muito mais perto do que seria confortável
para todo mundo.
Nunca perguntei se ele sabia o tempo todo que Ylenia era má... ou se ele tinha começado a
vacilar um pouquinho, de verdade, e sonhado com o poder e as riquezas no jardim do castelo.
“Para mim, é melhor ter areia escorrendo pelos dedos vazios do que sangue em mãos cheias
de dinheiro.”
Meu surfista-praticamente-príncipe-filósofo dizia isso às vezes, e eu tinha que concordar.
De repente, me lembrei de algo no qual eu quase não pensava mais: no tempo.
– Ei... não é hoje a grande votação de Jess e Lucius?
– Sim – assentiu Ronnie. – Eu me ofereci para ir, mas Lucius insistiu que o mar está bom
demais agora para eu deixar a Califórnia. Eles vão vencer ou perder sem o meu voto.
– Vão vencer – afirmei.
E esperava que eles vivessem felizes para sempre no castelo. Talvez a gente pudesse fazer
uma visitinha de vez em quando.
Ou não.
Talvez eles devessem nos visitar. A gente poderia abrir espaço, agora que eu tinha, tipo, só
seis pares de chinelos. Todos os meus sapatos ainda estavam na Pensilvânia, onde minha mãe
os guardava como reféns até eu criar juízo e voltar para a faculdade ou algo assim – coisa que
não iria acontecer.
Peguei a mão de Raniero na areia. Ele permitiu, e a sensação era boa e fria.
– Então, o que vai ser? Taco ou burrito?
– Eu gostaria de uma vampira – disse ele, rindo para mim feito um idiota. Agora ele vivia
pegando no meu pé para eu virar morta-viva. – Quando você vai deixar que eu a torne minha
para sempre? A vida é boa, se você ficar longe da violência.
– Sei lá – respondi, soltando a mão dele. – Não tenho pressa.
Mas eu sabia que um dia o faria. Quanto mais ficava perto dele, mais me acostumava à ideia
de beber sangue.
Certo, talvez eu meio que quisesse aquilo.
Mas não deixaria que ele soubesse por enquanto.
Primeiro, ele precisava provar que ia mesmo me levar ao Taiti. Aí a gente conversaria sobre a
eternidade.
– Venha. – Fiquei de pé e espanei a areia da bunda, depois estendi a mão para puxar Raniero. –
Vamos almoçar.
O desempregado de cabelo revolto, cavanhaque e bermuda – e barriga tanquinho, que agora eu
via o tempo todo, já que as camisas eram totalmente opcionais – se agarrou a mim de novo e
continuou com os dedos entrelaçados aos meus por todo o caminho até o Terrible Taco, e eu
senti orgulho de verdade por ele ser meu.
sábado, 5 de outubro de 2013
CSUVA - 112-113-114-115-116-117
CAPÍTULO 112
Antanasia
O cemitério parecia mais frio ainda do que antes, e eu sabia que estava mesmo
sozinha naquela noite. Raniero havia feito sua parte por Lucius, e agora parecia ter outras
coisas ocupando sua vida nova. Eu não o vira desde o julgamento e não sabia para onde
tinha ido.
Abri o portão de ferro e fui primeiro para a cripta de meus pais, onde derramei minha
oferenda de sangue na pequena tigela, e disse baixinho:
– Espero que, no ټnal, eu tenha deixado vocês orgulhosos. E espero que ټquem felizes, e
não decepcionados, se eu não for posta para descansar aqui, perto de vocês, embora fosse
uma honra estar a seu lado.
Então saí da cripta dos Dragomir e fui para o alto mausoléu dos Vladescu, o mausoléu
pontudo que eu tinha evitado até mesmo olhar durante tanto tempo, e onde insistiria para
ser enterrada.
CAPÍTULO 113
Antanasia
Acendi uma fileira de cinco velas que estavam em uma prateleira de mármore
dentro da tumba dos Vladescu e derramei outra oferenda de sangue na tigela que Lucius
usava para seus pais.
– Eu devia ter vindo aqui antes, para agradecer a vocês pelo Lucius – declarei, de cabeça
baixa. – Vocês não podem imaginar como seu ټlho é incrível, e agradeço também por
assinarem o pacto que o tornou meu marido, ligando-me a ele por toda a eternidade.
Quando falei essa palavra – eternidade –, levantei a cabeça e enټm encarei o que tinha me
feito afastar os olhos daquela cripta por tempo demais. Finalmente encarei... o futuro.
Ao contrário dos Dragomir, que deixavam espaços vazios em seu mausoléu – talvez um
reservado para mim, talvez não –, os Vladescu eram realistas em relação às perspectivas até
mesmo de seus filhos prediletos. Li as palavras gravadas em mármore:
LUCIUS VALERIU VLADESCU, 1993 d.C. –
Olhei o nome dele e me recusei a estremecer. Eu não faria isso mais. Lucius se postava
naquele mesmo lugar e encarava aquela lápide todas as vezes que ia visitar os pais. Talvez
aquele fosse o motivo pelo qual ele conseguisse encarar o ټm da própria existência em
outras ocasiões também.
E, naquele lugar austero e terrível, fiz uma nova promessa a Lucius.
Eu seria destruída junto com ele antes de participar de sua condenação à destruição.
Cometeria traição desaټando as regras dos Anciões, violaria algumas de nossas maiores leis
e morreria com meu marido caso a situação chegasse a tal ponto.
No dia do casamento, eu tinha feito uma promessa a Lucius, de estar com ele durante toda
a eternidade, e ia mantê-la, se não do modo como eu esperava, de qualquer modo que fosse
necessário. Ou seria destruída imediatamente ou, se de algum modo Lucius fosse
inocentado mas já estivesse perdido no reino de pesadelos, eu iria segui-lo até lá, iria
encontrá-lo e sofreríamos juntos, porque eu jamais beberia o sangue de outra pessoa de
novo, e preferiria passar a imortalidade em tormentos ao lado dele do que cinco minutos
sozinha em um castelo com todos os confortos que nosso dinheiro podia comprar.
Apaguei as velas e saí do mausoléu e, na volta para o castelo, caminhando pela ٽoresta
cheia de lobos, imaginei quem iria me enterrar caso fosse necessário.
Seria Dorin, cuja existência era passada numa cova rasa feita de medo, tentando espantar
sombras que nem estavam ali ainda?
Pensei mais e mais em meu funeral, e comecei a andar cada vez mais depressa. E, apesar de
Lucius insistir que membros da realeza jamais se apressavam, quando me aproximei de casa
eu já estava correndo a toda velocidade.
Eu precisava ver a Carte de Ritual.
O livro que ditava, até os detalhes mais ínټmos, o modo como nossos clãs realizavam os
ritos de nascimento, casamento... e destruição.
CAPÍTULO 114
Antanasia
Meus dedos tremiam de empolgação e fúria enquanto corriam pela página do
Carte de Ritual e eu comparava meticulosamente as palavras que via nas páginas às do
dicionário romeno-inglês que enfim estava começando a parecer bem manuseado.
Immormăntarea... Pentru... Conducător...
No decorrer de três horas, traduzi todo o trecho sobre funerais de Anciões para garantir
que não estava enganada. Tive um cuidado especial com a entonação antes do toque dos
sinos. “Acum vom respecta un moment de tăcere pentru a marca trecerea lui Claudiu Vladescu
in tăcerea veşcnică.”
E quando a manhã chegou, fechei o livro com uma pancada que deve ter abalado os
alicerces do castelo.
Tudo o que li ali, e outras coisas das quais me lembrava, também – uma palavra no rótulo
de uma garrafa, uma rolha tirada um pouco cedo demais, a mão direita de alguém
tremendo...
Tudo se traduzia em... traição.
CAPÍTULO 115
Mindy
Tentei encontrar Jess antes do segundo dia do julgamento, mas naquela noite
ela nem dormiu na própria cama. Esperei durante horas, assim como tinha esperado por
Raniero, porque achei que deveria alertá-la sobre minhas crenças em relação a Ylenia e
Ronnie.
Mandei torpedos e tentei ligar para o celular, mas ela não atendeu. Nem o Emiliozinho
sabia onde ela estava, por isso acabei levando minha bolsa para a sala do tribunal,
apertando-a como um bebê, e esperando junto com todo mundo – um punhado de
vampiros que me olhavam como se eu fosse maluca.
E talvez eu estivesse um pouquinho ansiosa. Mas não tanto quanto a princesa que entrou
no tribunal usando jeans muito pouco proټssionais e uma camiseta, como se tivesse ido ao
inferno e voltado – e já fosse arrastar todos nós de volta para lá, como eu meio que
planejava fazer.
Eu soube em uma fração de segundo – e todo mundo também soube, até o velho Fabio –
que não estávamos vendo só uma princesa ali parada, usando jeans e botas.
Todos estávamos tendo um primeiro vislumbre da próxima rainha.
CAPÍTULO 116
Antanasia
Dava para ver que todo mundo naquele tribunal sabia que eu estava ali a sério,
mesmo não usando um terninho e salto alto. Eu poderia estar vestindo a camisola que tinha
posto depois de fugir de meu primeiro julgamento, e mesmo assim a expressão em meus
olhos bastaria para silenciar toda a câmara.
A atmosfera estava tensa, nervosa e agitada quando marchei sala adentro, e eu soube que
era daquele modo que uma princesa – ou até uma rainha – deveria ser recebida.
Até Flaviu parou com seu risinho de desdém, e imagino que tenha pensado ser o alvo
quando não fui para trás da mesa dos Anciões para ocupar meu lugar, e sim para a frente de
todos aqueles vampiros, que me olharam com cautela até eu encontrar quem desejava ver. E,
quando o ټz, pousei as mãos na mesa e o vi tremer enquanto eu anunciava, sem a menor
hesitação – e no mesmo tom baixo, suave, ameaçador, que eu tinha ouvido Lucius usar para
intimidar tantos vampiros, tornando-o meu tom:
– Dorin Dragomir, você traiu seus soberanos e cometeu traição, e vai pagar com sua
existência.
CAPÍTULO 117
Antanasia
– Eu não... eu não fiz nada, Antanasia – gaguejou Dorin. E levantou as mãos.
– Nada!
Eu não iria aceitar aquilo. Suas bochechas pálidas e seus olhos de coelho assustado
entregavam tudo.
Semicerrei os olhos e me inclinei mais para perto dele.
– Você traduziu errado a Carte de Ritual para me obrigar a presidir o funeral de Claudiu
quando eu não precisaria fazer isso e me transformou em objeto de riso, ensinando a frase
errada, de modo que eu entregaria o corpo dele a uma terra de arco-íris em vez de ao
silêncio eterno. Eu não disse “arco-íris” por acaso. Você redigiu para mim. Depois você me
drogou... me deu sangue maculado para eu ter alucinações na frente de todo mundo. Você
quis me ver fracassar.
Todos os Anciões se inclinavam para trás em suas cadeiras, e os espectadores que tinham
ido assistir ao destino de Lucius se agitaram e murmuraram, ao passo que os que falavam
inglês traduziam minhas palavras para os que não conseguiam compreender.
– Por que... Antanasia... eu não faria... – Mas ele estava chacoalhando na cadeira. – Por que
eu faria...?
– Não sei... ainda – rosnei. – Mas você tentou me drogar de novo antes de minha última
reunião com os Anciões. Você me deu sangue de uma garrafa que já estava aberta, e que
tinha um cheiro esquisito até mesmo para mim. Você queria que eu visse coisas de novo, na
frente deles!
– Claro que eu abri a garrafa...
– Você disse que o sangue era siberiano, pois estava desesperado para me obrigar a beber,
mas era mentira. Eu vi a palavra Franţa, “França”, no rótulo. Por algum motivo deturpado,
você estava em pânico na tentativa de me fazer bebê-lo, apavorado como sempre está, e
cometeu um erro terrível.
Lucius sempre dizia que o medo de Dorin seria o fim dele.
– Você tem me drogado há tempos, fazendo com que eu e todo mundo pensássemos que eu
estava enlouquecendo. E destruiu Claudiu também – acusei. – Raniero disse que os
ferimentos mais fracos foram feitos com a mão direita, e você é um dos poucos vampiros
destros em todo o reino. Você sempre levanta a mão errada nas reuniões, apesar de ter
quase 100 anos. Você não consegue deixar de usar a direita!
De todas as coisas que eu dissera, aquela pareceu impressionar de fato os Anciões. Os
vampiros eram o oposto dos humanos em termos de destreza. Um morto-vivo destro era de
fato incomum. E um vampiro destro com acesso ao castelo e à estaca de Lucius...
Era mais raro ainda.
Eu realmente não sabia por que um fracote como Dorin havia feito aquelas coisas, mas
sabia que tinha feito.
Mas ele era tão covarde que ainda não era capaz de admitir.
Até que Mindy, a única não vampira na sala, levantou-se e disse:
– Com licença?
Virei-me e a vi segurando uma bolsa que eu pensava conter maquiagem e spray de cabelo,
que havia me salvado tantas vezes antes, e não entendi o que minha amiga estava fazendo até
que ela disse:
– Acho que acabou, Dorin. Estou com a última garrafa de sangue batizado. A que você
mandou ontem para Jess.
Então ele desmoronou. Desmoronou como o arremedo patético de vampiro – de Dragomir
– que sempre fora e disse, lágrimas começando a escorrer pelo rosto:
– Tenha piedade de mim, Antanasia. Ela me obrigou a fazer tudo. O plano foi dela, e eu
tinha medo. Ela é amarga e deturpada, e odeia você. Queria destruir tudo o que você e
Lucius têm! Ela não suporta o fato de Lucius amar você, quando nem mesmo conseguiu
manter o nobre Vladescu que ela drogou para fazer com que ele a mordesse. Raniero foi
amaldiçoado por culpa dela, e mesmo assim ela não parou!
Era difícil acompanhar um dedo que tremia tanto, mas me virei e vi que ele apontava para
minha única outra amiga no reino dos vampiros.
Ylenia Dragomir, que já estava se levantando e tentando sair da sala.
– Ela me fez atrair Claudiu para o saguão e ajudá-la a destruí-lo, para arruinar você e
Lucius. – Dorin continuava balbuciando enquanto Ylenia saía da área das cadeiras e
começava a correr. – Ela me obrigou a pegar a estaca de Lucius e solicitar uma reunião com
Claudiu ao amanhecer...
Não me dei ao trabalho de perseguir minha prima. Eu era da realeza, e quem é da realeza
não corre. Pelo menos não em público.
Mais ainda, eu tinha visto um assassino treinado sair das sombras de onde estivera
assistindo a tudo, e resolvi deixar que ele ټzesse o que fazia de melhor. Rastrear e trazer os
piores vampiros à justiça.
Raniero não iria desmoronar – porque, na verdade, nunca havia desmoronado.
Virei-me de volta para Dorin, que soluçava enquanto falava:
– E foi ela que destruiu Claudiu. Eu o golpeei, mas ela furou o coração dele com uma
estaca que ela própria esculpiu, para o caso de eu não conseguir. E eu não pude... não pude...
Ele podia até não ter dado o golpe fatal, mas seus crimes eram imperdoáveis, e eu anunciei
seu destino sem pena, mas também sem crueldade, pois havia exaurido o pior de minha
raiva. E parte de mim sempre saberia como era ser fraca também.
– Dorin Dragomir – falei de forma resoluta, obrigando-me a encará-lo. – Você cometeu
traição, será julgado dentro de dois dias e será penalizado com a destruição.
Então me virei para os guardas que vigiavam as portas e disse:
– Duceţi-l la temniţă. Levem-no à cela que Lucius Vladescu não vai mais ocupar.
Eu me embolei falando romeno, mas não me importei. Tinha dito as palavras certas – sem
espaço para contradição – e só isso importava. Olhei para Flaviu, veriټcando se ele ousaria
protestar contra a libertação de Lucius, mas pela primeira vez ele me pareceu o vampiro
confuso, ridículo e velho que de fato era. Como se não tivesse certeza do que estava
acontecendo, porque esperava que eu fracassasse.
E Dorin... Deu para ouvi-lo chorando o tempo todo enquanto eu saía lenta e regiamente
do salão. Não olhei para trás e não corri até ter certeza de que ninguém me veria, então
disparei em direção às masmorras, à frente dos guardas e de Dorin, para ver se Lucius ainda
podia ser trazido de volta, ou se os dois iríamos vaguear juntos em um reino de pesadelos,
presos para sempre entre a vida e a morte.
Antanasia
O cemitério parecia mais frio ainda do que antes, e eu sabia que estava mesmo
sozinha naquela noite. Raniero havia feito sua parte por Lucius, e agora parecia ter outras
coisas ocupando sua vida nova. Eu não o vira desde o julgamento e não sabia para onde
tinha ido.
Abri o portão de ferro e fui primeiro para a cripta de meus pais, onde derramei minha
oferenda de sangue na pequena tigela, e disse baixinho:
– Espero que, no ټnal, eu tenha deixado vocês orgulhosos. E espero que ټquem felizes, e
não decepcionados, se eu não for posta para descansar aqui, perto de vocês, embora fosse
uma honra estar a seu lado.
Então saí da cripta dos Dragomir e fui para o alto mausoléu dos Vladescu, o mausoléu
pontudo que eu tinha evitado até mesmo olhar durante tanto tempo, e onde insistiria para
ser enterrada.
CAPÍTULO 113
Antanasia
Acendi uma fileira de cinco velas que estavam em uma prateleira de mármore
dentro da tumba dos Vladescu e derramei outra oferenda de sangue na tigela que Lucius
usava para seus pais.
– Eu devia ter vindo aqui antes, para agradecer a vocês pelo Lucius – declarei, de cabeça
baixa. – Vocês não podem imaginar como seu ټlho é incrível, e agradeço também por
assinarem o pacto que o tornou meu marido, ligando-me a ele por toda a eternidade.
Quando falei essa palavra – eternidade –, levantei a cabeça e enټm encarei o que tinha me
feito afastar os olhos daquela cripta por tempo demais. Finalmente encarei... o futuro.
Ao contrário dos Dragomir, que deixavam espaços vazios em seu mausoléu – talvez um
reservado para mim, talvez não –, os Vladescu eram realistas em relação às perspectivas até
mesmo de seus filhos prediletos. Li as palavras gravadas em mármore:
LUCIUS VALERIU VLADESCU, 1993 d.C. –
Olhei o nome dele e me recusei a estremecer. Eu não faria isso mais. Lucius se postava
naquele mesmo lugar e encarava aquela lápide todas as vezes que ia visitar os pais. Talvez
aquele fosse o motivo pelo qual ele conseguisse encarar o ټm da própria existência em
outras ocasiões também.
E, naquele lugar austero e terrível, fiz uma nova promessa a Lucius.
Eu seria destruída junto com ele antes de participar de sua condenação à destruição.
Cometeria traição desaټando as regras dos Anciões, violaria algumas de nossas maiores leis
e morreria com meu marido caso a situação chegasse a tal ponto.
No dia do casamento, eu tinha feito uma promessa a Lucius, de estar com ele durante toda
a eternidade, e ia mantê-la, se não do modo como eu esperava, de qualquer modo que fosse
necessário. Ou seria destruída imediatamente ou, se de algum modo Lucius fosse
inocentado mas já estivesse perdido no reino de pesadelos, eu iria segui-lo até lá, iria
encontrá-lo e sofreríamos juntos, porque eu jamais beberia o sangue de outra pessoa de
novo, e preferiria passar a imortalidade em tormentos ao lado dele do que cinco minutos
sozinha em um castelo com todos os confortos que nosso dinheiro podia comprar.
Apaguei as velas e saí do mausoléu e, na volta para o castelo, caminhando pela ٽoresta
cheia de lobos, imaginei quem iria me enterrar caso fosse necessário.
Seria Dorin, cuja existência era passada numa cova rasa feita de medo, tentando espantar
sombras que nem estavam ali ainda?
Pensei mais e mais em meu funeral, e comecei a andar cada vez mais depressa. E, apesar de
Lucius insistir que membros da realeza jamais se apressavam, quando me aproximei de casa
eu já estava correndo a toda velocidade.
Eu precisava ver a Carte de Ritual.
O livro que ditava, até os detalhes mais ínټmos, o modo como nossos clãs realizavam os
ritos de nascimento, casamento... e destruição.
CAPÍTULO 114
Antanasia
Meus dedos tremiam de empolgação e fúria enquanto corriam pela página do
Carte de Ritual e eu comparava meticulosamente as palavras que via nas páginas às do
dicionário romeno-inglês que enfim estava começando a parecer bem manuseado.
Immormăntarea... Pentru... Conducător...
No decorrer de três horas, traduzi todo o trecho sobre funerais de Anciões para garantir
que não estava enganada. Tive um cuidado especial com a entonação antes do toque dos
sinos. “Acum vom respecta un moment de tăcere pentru a marca trecerea lui Claudiu Vladescu
in tăcerea veşcnică.”
E quando a manhã chegou, fechei o livro com uma pancada que deve ter abalado os
alicerces do castelo.
Tudo o que li ali, e outras coisas das quais me lembrava, também – uma palavra no rótulo
de uma garrafa, uma rolha tirada um pouco cedo demais, a mão direita de alguém
tremendo...
Tudo se traduzia em... traição.
CAPÍTULO 115
Mindy
Tentei encontrar Jess antes do segundo dia do julgamento, mas naquela noite
ela nem dormiu na própria cama. Esperei durante horas, assim como tinha esperado por
Raniero, porque achei que deveria alertá-la sobre minhas crenças em relação a Ylenia e
Ronnie.
Mandei torpedos e tentei ligar para o celular, mas ela não atendeu. Nem o Emiliozinho
sabia onde ela estava, por isso acabei levando minha bolsa para a sala do tribunal,
apertando-a como um bebê, e esperando junto com todo mundo – um punhado de
vampiros que me olhavam como se eu fosse maluca.
E talvez eu estivesse um pouquinho ansiosa. Mas não tanto quanto a princesa que entrou
no tribunal usando jeans muito pouco proټssionais e uma camiseta, como se tivesse ido ao
inferno e voltado – e já fosse arrastar todos nós de volta para lá, como eu meio que
planejava fazer.
Eu soube em uma fração de segundo – e todo mundo também soube, até o velho Fabio –
que não estávamos vendo só uma princesa ali parada, usando jeans e botas.
Todos estávamos tendo um primeiro vislumbre da próxima rainha.
CAPÍTULO 116
Antanasia
Dava para ver que todo mundo naquele tribunal sabia que eu estava ali a sério,
mesmo não usando um terninho e salto alto. Eu poderia estar vestindo a camisola que tinha
posto depois de fugir de meu primeiro julgamento, e mesmo assim a expressão em meus
olhos bastaria para silenciar toda a câmara.
A atmosfera estava tensa, nervosa e agitada quando marchei sala adentro, e eu soube que
era daquele modo que uma princesa – ou até uma rainha – deveria ser recebida.
Até Flaviu parou com seu risinho de desdém, e imagino que tenha pensado ser o alvo
quando não fui para trás da mesa dos Anciões para ocupar meu lugar, e sim para a frente de
todos aqueles vampiros, que me olharam com cautela até eu encontrar quem desejava ver. E,
quando o ټz, pousei as mãos na mesa e o vi tremer enquanto eu anunciava, sem a menor
hesitação – e no mesmo tom baixo, suave, ameaçador, que eu tinha ouvido Lucius usar para
intimidar tantos vampiros, tornando-o meu tom:
– Dorin Dragomir, você traiu seus soberanos e cometeu traição, e vai pagar com sua
existência.
CAPÍTULO 117
Antanasia
– Eu não... eu não fiz nada, Antanasia – gaguejou Dorin. E levantou as mãos.
– Nada!
Eu não iria aceitar aquilo. Suas bochechas pálidas e seus olhos de coelho assustado
entregavam tudo.
Semicerrei os olhos e me inclinei mais para perto dele.
– Você traduziu errado a Carte de Ritual para me obrigar a presidir o funeral de Claudiu
quando eu não precisaria fazer isso e me transformou em objeto de riso, ensinando a frase
errada, de modo que eu entregaria o corpo dele a uma terra de arco-íris em vez de ao
silêncio eterno. Eu não disse “arco-íris” por acaso. Você redigiu para mim. Depois você me
drogou... me deu sangue maculado para eu ter alucinações na frente de todo mundo. Você
quis me ver fracassar.
Todos os Anciões se inclinavam para trás em suas cadeiras, e os espectadores que tinham
ido assistir ao destino de Lucius se agitaram e murmuraram, ao passo que os que falavam
inglês traduziam minhas palavras para os que não conseguiam compreender.
– Por que... Antanasia... eu não faria... – Mas ele estava chacoalhando na cadeira. – Por que
eu faria...?
– Não sei... ainda – rosnei. – Mas você tentou me drogar de novo antes de minha última
reunião com os Anciões. Você me deu sangue de uma garrafa que já estava aberta, e que
tinha um cheiro esquisito até mesmo para mim. Você queria que eu visse coisas de novo, na
frente deles!
– Claro que eu abri a garrafa...
– Você disse que o sangue era siberiano, pois estava desesperado para me obrigar a beber,
mas era mentira. Eu vi a palavra Franţa, “França”, no rótulo. Por algum motivo deturpado,
você estava em pânico na tentativa de me fazer bebê-lo, apavorado como sempre está, e
cometeu um erro terrível.
Lucius sempre dizia que o medo de Dorin seria o fim dele.
– Você tem me drogado há tempos, fazendo com que eu e todo mundo pensássemos que eu
estava enlouquecendo. E destruiu Claudiu também – acusei. – Raniero disse que os
ferimentos mais fracos foram feitos com a mão direita, e você é um dos poucos vampiros
destros em todo o reino. Você sempre levanta a mão errada nas reuniões, apesar de ter
quase 100 anos. Você não consegue deixar de usar a direita!
De todas as coisas que eu dissera, aquela pareceu impressionar de fato os Anciões. Os
vampiros eram o oposto dos humanos em termos de destreza. Um morto-vivo destro era de
fato incomum. E um vampiro destro com acesso ao castelo e à estaca de Lucius...
Era mais raro ainda.
Eu realmente não sabia por que um fracote como Dorin havia feito aquelas coisas, mas
sabia que tinha feito.
Mas ele era tão covarde que ainda não era capaz de admitir.
Até que Mindy, a única não vampira na sala, levantou-se e disse:
– Com licença?
Virei-me e a vi segurando uma bolsa que eu pensava conter maquiagem e spray de cabelo,
que havia me salvado tantas vezes antes, e não entendi o que minha amiga estava fazendo até
que ela disse:
– Acho que acabou, Dorin. Estou com a última garrafa de sangue batizado. A que você
mandou ontem para Jess.
Então ele desmoronou. Desmoronou como o arremedo patético de vampiro – de Dragomir
– que sempre fora e disse, lágrimas começando a escorrer pelo rosto:
– Tenha piedade de mim, Antanasia. Ela me obrigou a fazer tudo. O plano foi dela, e eu
tinha medo. Ela é amarga e deturpada, e odeia você. Queria destruir tudo o que você e
Lucius têm! Ela não suporta o fato de Lucius amar você, quando nem mesmo conseguiu
manter o nobre Vladescu que ela drogou para fazer com que ele a mordesse. Raniero foi
amaldiçoado por culpa dela, e mesmo assim ela não parou!
Era difícil acompanhar um dedo que tremia tanto, mas me virei e vi que ele apontava para
minha única outra amiga no reino dos vampiros.
Ylenia Dragomir, que já estava se levantando e tentando sair da sala.
– Ela me fez atrair Claudiu para o saguão e ajudá-la a destruí-lo, para arruinar você e
Lucius. – Dorin continuava balbuciando enquanto Ylenia saía da área das cadeiras e
começava a correr. – Ela me obrigou a pegar a estaca de Lucius e solicitar uma reunião com
Claudiu ao amanhecer...
Não me dei ao trabalho de perseguir minha prima. Eu era da realeza, e quem é da realeza
não corre. Pelo menos não em público.
Mais ainda, eu tinha visto um assassino treinado sair das sombras de onde estivera
assistindo a tudo, e resolvi deixar que ele ټzesse o que fazia de melhor. Rastrear e trazer os
piores vampiros à justiça.
Raniero não iria desmoronar – porque, na verdade, nunca havia desmoronado.
Virei-me de volta para Dorin, que soluçava enquanto falava:
– E foi ela que destruiu Claudiu. Eu o golpeei, mas ela furou o coração dele com uma
estaca que ela própria esculpiu, para o caso de eu não conseguir. E eu não pude... não pude...
Ele podia até não ter dado o golpe fatal, mas seus crimes eram imperdoáveis, e eu anunciei
seu destino sem pena, mas também sem crueldade, pois havia exaurido o pior de minha
raiva. E parte de mim sempre saberia como era ser fraca também.
– Dorin Dragomir – falei de forma resoluta, obrigando-me a encará-lo. – Você cometeu
traição, será julgado dentro de dois dias e será penalizado com a destruição.
Então me virei para os guardas que vigiavam as portas e disse:
– Duceţi-l la temniţă. Levem-no à cela que Lucius Vladescu não vai mais ocupar.
Eu me embolei falando romeno, mas não me importei. Tinha dito as palavras certas – sem
espaço para contradição – e só isso importava. Olhei para Flaviu, veriټcando se ele ousaria
protestar contra a libertação de Lucius, mas pela primeira vez ele me pareceu o vampiro
confuso, ridículo e velho que de fato era. Como se não tivesse certeza do que estava
acontecendo, porque esperava que eu fracassasse.
E Dorin... Deu para ouvi-lo chorando o tempo todo enquanto eu saía lenta e regiamente
do salão. Não olhei para trás e não corri até ter certeza de que ninguém me veria, então
disparei em direção às masmorras, à frente dos guardas e de Dorin, para ver se Lucius ainda
podia ser trazido de volta, ou se os dois iríamos vaguear juntos em um reino de pesadelos,
presos para sempre entre a vida e a morte.
CSUVA - 107-108-109-110-111
CAPÍTULO 107
Mindy
Não sei como Jess aguentou quando o Lukey foi conduzido à sala lotada, as mãos
acorrentadas à frente do corpo. Eu não sabia para onde os guardas achavam que ele poderia
fugir, pois parecia que mal conseguiria chegar ao meio da sala, onde eu tinha me espremido
depois de empurrar uns 100 vampiros do caminho. Mas quando arranjei um lugar, quase
desejei não ter conseguido.
– Coitado do Lucius! – meio que choraminguei.
Jess me dissera que ele estaria quase morrendo por não beber sangue, mas acho que eu não
tinha como imaginar a cena. E era ruim.
Mas Jess nem se encolheu. Apenas encarou o marido, que se esforçava bastante para ser
como antes, porém mais parecia o Raniero surټsta. Era como se os dois tivessem trocado de
lugar. Os ombros de Lucius pendiam, frouxos, seu lindo cabelo preto estava desgrenhado,
ele precisava se barbear e as roupas estavam sujas, e quando enټm abriu os olhos e tentou
olhar em volta, como se quisesse dizer a todo mundo que ainda estava no comando...
Olhei para Jess de novo. Como ela conseguia não chorar ao vê-lo lutando tanto para ainda
ser... Lucius?
Mas Jess também estava lutando. Lutando por ele, e seus olhos pareciam gelo. Eram como
gelo negro, como se toda a parte castanha tivesse sumido. Eu nunca tinha visto Jess daquele
jeito.
– Está claro que Lucius Vladescu não está em condições de falar por si mesmo – disse ela,
depois parou para lançar um olhar matador a um dos tios, Fabio era o nome dele, acho. Eu
me encolhi um pouco. – Porque foi mantido em conټnamento solitário sem alimentação. E
assim, como sou sua esposa e portanto não poderei participar do veredicto, vou falar por
ele, convocar suas testemunhas e apresentar seu caso.
Aquilo pareceu chocar todo mundo, e o vampiro velho parecido com o que eu tinha visto
no caixão havia não muito tempo saltou da cadeira e começou a gaguejar como se estivesse
tendo um ataque cardíaco.
– Isso não tem precedentes! Lucius deve falar por si! E seu papel é presidir, princesa.
O tio Fabio devia ser acorrentado por falar daquele jeito, mas Jess nem piscou. Apenas se
virou para ele e disse, muito calma:
– Há um precedente. – Em seguida se levantou, demorando-se, e falou com todo mundo
como se estivesse na suprema corte: – Vladescu versus Vladescu, 1622. A rainha Sorina
Vladescu presidiu o tribunal como juíza não votante e falou pelo acusado, seu marido,
Alexandru, que se encontrava quase no estado de luat por conta da privação de sangue. Os
casos são idênticos.
Ao redor, escutei vampiros traduzindo todas as palavras de Jess e vi alguns Anciões
balançando as cabeças grisalhas e dizendo “Da”, como se concordassem.
– A princesa Antanasia tem razão – berrou um deles. – Eu estive nesse julgamento, assim
como Horatiu Vladescu, e ocorreu exatamente como ela relata. Há um precedente. Ela deve
prosseguir.
– Da. Da – assentiu todo mundo, exceto Fabio. – Prossiga.
Caramba! Eu estava quase histérica por dois motivos: Jess tinha vencido o primeiro round!
E havia caras que estavam vivos em 1622 ali?
Será que Lucius, Jess e Raniero – e Ylenia – de fato iriam viver tanto assim porque bebiam
sangue? Aquilo nunca havia soado real, mas agora eu percebia que pelo menos alguns deles
ainda estariam andando por aí muito depois de eu partir.
Comecei a procurar por Raniero e Ylenia, que eu estivera tentando não ver, e encontrei
Ylenia sentada quase na frente, como se já se esgueirasse para o lugar de Jess, e a odiei mais
ainda. Eu não estava mais com ciúme, apenas. Eu a odiava como nunca havia odiado
ninguém na vida.
E Raniero... Não estava em lugar nenhum. O que isso significava?
Olhei de novo para Jess e Lucius... e vi os olhos dela se suavizarem, só por um segundo,
quando ele levantou o rosto para ټtá-la. Parecia exausto, como se estivesse dormindo em
pé, mas o estranho é que eu pude jurar que ele sorriu para ela, e tinha aquele brilho de
Lucius Vladescu nos olhos sonolentos, pouco antes de Jess ټcar durona de novo e dizer aos
guardas:
– Intoarcerea la prizonier în celulă. Levem o prisioneiro de volta à cela. Sua presença não é
necessária agora.
Lucius estava péssimo, mas ainda era Lukey, e senti um nozinho na garganta quando ele se
desvencilhou dos guardas e foi caminhando sozinho para fora da sala enquanto todo mundo
olhava em silêncio absoluto.
Ele era Lucius Vladescu, caramba, e achei que ninguém jamais teria coragem de cochichar,
mesmo com ele moribundo. Mesmo daquele jeito, ele ainda parecia um rei.
De algum modo, lutando para ficar de pé acorrentado, ele parecia mais rei do que nunca.
Quando ele saiu e a porta bateu, comecei a procurar de novo pelo cara que eu temia
querer roubar o trono – mas não precisei procurar muito, pois Jess se sentou de novo e
disse:
– Convoco Raniero Vladescu Lovatu para apresentar a primeira prova.
Aí, nossa, a multidão pirou, boquiaberta e cochichando, e então meu coração parou
quando Raniero entrou pela mesma porta por onde Lucius tinha acabado de sair e ocupou
o lugar do melhor amigo naquele círculo no chão.
CAPÍTULO 108
Mindy
Como é que a visão de alguém tão forte e lindo, sobre quem eu nem sabia mais
como me sentia, podia doer mais do que ver um bom amigo doente e abalado?
Acho que foi porque Raniero pareceu mais arruinado para mim – ali de pé e usando um
terno feito sob medida – do que Lucius lutando acorrentado. Não ajudou em nada o fato de
os olhos de Raniero terem ټcado muito pretos também quando aquele Fabio sinistro e os
outros vampiros velhos começaram a guinchar:
– Mas ele é blestemată... ele se condenou!
É, houve um enorme barraco enquanto os Anciões decidiam se poderiam – ou deveriam –
ouvir o testemunho de um vampiro que era, tipo, o pior criminoso de todos os tempos.
Observei Raniero permanecer muito ereto durante toda a discussão e vi que era como se
estivessem dando socos nele. Dava para notar que ele se esforçava muito para não se
encolher toda vez que alguém dizia “Mas ele é amaldiçoado... O testemunho dele não é
válido”.
No entanto, Jess devolveu os socos, defendendo-o, e disse a todos, muito calma:
– Vocês treinaram Raniero Vladescu Lovatu para ser o que ele é: o assassino mais hábil do
mundo, um especialista em destruição, ferimentos e sangue. E, a seu modo, ele é a
testemunha mais digna de crédito que nossos clãs poderiam produzir.
Foi então que ela começou a vencer o segundo round.
Houve um longo momento de silêncio, então o velho Fabio disse, muito devagar, como se
fôssemos idiotas:
– Ele vai mentir para proteger o amigo.
Jess demorou um segundo para deixar que todos pensassem na declaração. Depois deu o
soco que produziu o nocaute, verbalizando exatamente o que estava me deixando meio
enjoada naquele momento:
– Raniero tem muito mais a ganhar se Lucius for condenado à destruição do que
absolvido. Ele está na linhagem para governar como meu regente. Assim, se seu testemunho
inocentar o príncipe, será mais digno de crédito do que qualquer outro, pois pagará um
preço alto para tal. Ele perderá a chance de obter riqueza, privilégio e poder com que a
maioria apenas sonha.
Jess parecia uma garota diferente – uma mulher diferente. Como se estivesse recebendo o
espírito da mãe biológica e usando todo um vocabulário novo ainda melhor do que o
romeno. Estava falando realezês.
Houve mais silêncio. Daria para ouvir um alټnete caindo. Então alguém enټm disse, em
nome de todos:
– Que o vampiro blestemată fale. Não há regra contra isso.
Vi Raniero cruzar as mãos diante do corpo, parado como Lukey estivera, mas sem as
correntes – pelo menos não havia nenhuma à vista – e com a cabeça erguida e os pés bem
plantados e separados. Antes, pensei ter visto o sorriso de Lucius quando ele estivera ali,
mas, agora, tive certeza de que os olhos de Raniero brilharam como se estivessem pegando
fogo, de um modo que eu nunca tinha presenciado – e não gostei muito.
Olhei para Ylenia e ela estava meio que sorrindo também, como se aquele julgamento
estivesse começando para valer.
CAPÍTULO 109
Antanasia
Para um vampiro que um dia aټrmara desejar tudo o que Lucius tinha, Raniero
fez um trabalho impressionante defendendo o príncipe que bloqueava seu caminho para o
poder – embora o simples fato de comparecer ao julgamento já lhe custasse. Se não a
oportunidade ao trono, pelo menos em termos de dor.
– Ele é um assassino... Amaldiçoado... Ele se condenou...
Enquanto ouvíamos os Anciões – sobretudo Flaviu – cuspir essas palavras, eu sabia que
Raniero enټm estava sendo empurrado para aquele lugar ao qual temia ir. Seus olhos
tinham ficado negros e perigosos. No entanto, ele fez o máximo pelo amigo.
Levou a estaca de Lucius e mostrou a todos como a mancha de sangue estava
completamente equivocada. E conseguiu que os serviçais que haviam preparado o corpo de
Claudiu para o enterro conټrmassem que havia três ferimentos no peito do Ancião
destruído.
– Dois são rasos e feitos por um vampiro destro, e um golpe ټnal foi causado por alguém
que atacou com a mão esquerda – disse a todos. – Para mim, como alguém que destruiu com
frequência, é muito fácil ver o padrão. E todos sabemos que Lucius Vladescu destruiria o
oponente com um único golpe da mão esquerda. Ele jamais usaria a mão direita. Nem
erraria. – Raniero chegou a sorrir um pouco. Um sorriso austero, de valorização da coragem
de Lucius. – E Lucius Vladescu não pede ajuda quando vai à batalha. Se fosse responsável
por esse ato, não haveria ferimentos realizados com a mão direita.
A maioria dos Anciões e todas as pessoas no tribunal concordaram que Lucius sempre
usaria sua mão dominante – destruiria com mais eټciência, e sem nenhuma ajuda patética
de algum vampiro mais fraco e destro. Todo mundo conhecia sua reputação, e seu poder
fora aparente mesmo quando entrara no tribunal, acorrentado porém lutando para ټcar de
pé, ainda soberano em cada centímetro do corpo.
Mas, infelizmente, ainda não parecia que ele iria vencer o julgamento.
Dava para ver que nada do que Raniero dizia seria suټciente para anular o refrão confuso
repetido por todos: “Mas o sangue de Claudiu está na estaca, e Lucius não é capaz de
explicar isso.”
Nem mesmo minha prova dos e-mails com os horátios, trocados quando Lucius teria que
estar no saguão caso houvesse destruído Claudiu, os abalou. Se muito, todas as informações
que apresentei sobre computadores só pareceram deixar os vampiros mais velhos
atordoados e levantar suspeitas entre eles.
Eles entendiam que era estranho o sangue de Claudiu ainda estar em um tom vermelho
vivo quando Lucius fora arrastado da cama e todos nos reunimos no saguão, mas não
conseguiam compreender como um computador poderia provar que ele estivera ocupado
em nosso quarto durante muito tempo antes disso, de modo que o sangue teria que coagular
e escurecer caso ele tivesse cometido o ato.
Eu estava tão certa de que venceríamos – de que minha nova atitude prevaleceria – que
imaginei que Raniero e Mindy, que me conheciam tão bem, deviam ter visto a incredulidade
em meus olhos quando bati o martelo e disse:
– Vamos encerrar os procedimentos por hoje e nos reuniremos de novo amanhã.
Porque ao ټm da tarde eu já estava sem ideias para salvar Lucius e sentia que o melhor a
fazer era esperar por um milagre naquela noite. E se não conseguisse um...
Eu não sabia muito bem o que fazer.
Enquanto os Anciões e os espectadores saíam arrastando os pés, ټnalmente encarei Dorin
e, pela primeira vez, ele não me encarou de volta, nem mesmo por um segundo. Estava
olhando para Ylenia – e os dois pareciam mais perplexos do que eu.
CAPÍTULO 110
Mindy
Eles se encontraram em um jardim diferente depois da primeira parte do
julgamento de Lucius. Segui Ylenia direto até o pátio secreto minúsculo onde Jess e Lucius
tinham se casado.
Na noite do casamento de Jess, as trepadeiras selvagens e retorcidas que cresciam em todos
os muros tinham parecido românticas, mas naquela noite era como se estivessem sufocando
a vida daquele lugar pequenino. Como se fossem se enrolar em meus braços e espremer a
vida do meu corpo também. A vida de todo mundo naquele castelo.
Lucius estava muito encrencado.
Aqueles vampiros eram velhos demais para compreender as provas de verdade, tipo as dos
computadores. Ou talvez só quisessem ver um candidato a rei, jovem e forte, ser derrubado
porque eles eram velhos e nunca tinham sido nada mais do que uns fracotes. Fiquei enjoada
quando vi até Dorin, o tio de Jess, se remexendo como se fosse fazer xixi nas calças.
E quase vomitei nas sombras, também, quando vi o cara por quem estava apaixonada
praticamente no mesmo lugar onde eu tinha visto seus olhos incríveis pela primeira vez,
sussurrando para Ylenia:
– Você tem certeza de que deseja esta vida? Porque você vê como Antanasia sofre. Se eu
chegasse ao poder, isso seria perigoso para você também.
Os olhinhos dela, não mais escondidos pelos óculos, reluziram mais do que antes.
– Sim, eu estaria pronta. Conseguiria dar conta.
Tentei de verdade entender o que Raniero estava fazendo, porque poderia jurar que ele
havia se esforçado bastante a favor de Lucius no tribunal.
Havia mesmo? Seria por isso que Jess tinha perdido no ټnal? Porque Raniero não havia
tentado de verdade?
Honestamente, não dava para saber. Ele parecia ter dito a coisa certa, mas daí...
– É bom nós termos nos juntado de novo – disse ele a Ylenia. Falava baixinho, mas não do
mesmo jeito que costumava falar comigo. Não parecia doce. Gostoso, sim, mas não doce. – É
bom ter uma segunda chance.
Virei-me, deixei os dois sozinhos e voltei ao meu quarto, certiټcando-me de que a garrafa
que eu havia apanhado estava em segurança. Até enټei algumas blusas a mais na bolsa, só
para garantir que ela não se quebraria por acidente quando eu a levasse para a sessão no dia
seguinte.
Eu deixaria Jess continuar fazendo o que sabia, porque eu não tinha cem por cento de
certeza em relação àquela garrafa, ou em relação a Ylenia, ou especialmente em relação a
Raniero. Ele parecia dois vampiros em um, e eu não conseguia deduzir qual era o
verdadeiro.
Mas, se tudo desse errado no ټnal... Bem, eu não era vampira, mas iria destampar aquela
garrafa e derramar um bocado de sangue. Ia provocar um pequeno inferno num lugar que já
parecia bem perto disso, se quer saber.
CAPÍTULO 111
Antanasia
A essa altura eu já presumira que poderia ter acordado o guarda bêbado e
simplesmente exigido a chave. Mas, quando parei nas sombras da masmorra, parte de mim
se agarrou à pequena esperança de que os Anciões ainda considerariam Lucius inocente,
baseados em parte na insistência contínua dele em obedecer às leis que o mandavam para
um mundo de pesadelos loucos. Por isso, no ټm das contas, fui em silêncio em direção ao
meu marido, que estava deitado em sua cama de tábuas, já parecendo um cadáver, e
sussurrei:
– Lucius.
Ele permaneceu imóvel.
– Lucius?
Ao meu segundo chamado, um pouco mais alto, seus olhos se abriram, e mesmo à luz fraca
do lampião vi uma quantidade enorme de emoções o atravessarem. Surpresa e
desaprovação, porque eu não deveria estar ali, tanto porque a lei proibia quanto porque ele
considerava arriscado eu vagar por ali sozinha. Mas, acima de tudo, enxerguei o amor que
eu precisava ver.
Ele não se movimentou logo. Achei que estivesse exausto demais e tive que dizer baixinho:
– Não posso ir até você. Não tenho a chave. – Lancei um olhar para o guarda que roncava.
– E não posso me arriscar a acordá-lo procurando.
Doía demais ټcar separada de Lucius, e tinha doído mais ainda vê-lo lutar no tribunal.
Mas nada doía tanto quanto vê-lo lutar, e muito, só para se levantar e vir até mim. Ele se
sentou no catre e parou durante uns 30 segundos com a cabeça baixa, e quase pedi que
permanecesse ali. Que já bastaria ficarmos nos olhando.
Mas eu queria tocá-lo e ele também queria me tocar – tanto que conseguiu se levantar e
dar os poucos passos até as barras que tinham espaço suټciente apenas para eu enټar o
braço e alcançá-lo. Ele se encostou na parede, mas logo nós dois escorregamos para o chão,
tocando um ao outro do único jeito que conseguíamos. E não era nem de longe tanto
quanto precisávamos.
Mesmo assim, ele me disse:
– Você não deveria estar aqui, Jessica. Se o guarda acordar, você também será castigada por
violar as leis.
Ajoelhei-me ao lado dele, e pela primeira vez desde que tínhamos nos casado, quando
praticamente deixei Lucius assumir o controle, afirmei minha autoridade para com ele.
– Não me importo.
Ele havia fechado os olhos, mas abriu de novo, e vi ali um traço muito precioso de
diversão – junto com a admiração que vinha diminuindo desde o casamento.
– Você mudou, esposa minha, com quem sonho enquanto estou aqui. Um de nós está
ټcando mais forte. – Ele deu um jeito de sorrir. – Você foi muito corajosa ao optar por
presidir o funeral de Claudiu, quando não precisava, e hoje foi uma força digna de crédito
no julgamento.
Não quis lembrá-lo de que eu era obrigada a presidir o funeral, mas morri de medo
pensando que Lucius pudesse ter esquecido até mesmo um detalhe do protocolo real. Os
livros que eu tentava decifrar estavam cauterizados na mente dele.
– Eu também sonho com você, o tempo todo – falei, afastando a preocupação. Apertei o
braço dele e nós tentamos encostar as testas através da abertura estreita. – Sinto muita
saudade. – Minha voz falhou, mas me controlei. – Mas amanhã isso vai acabar. Você vai estar
livre.
Lucius podia estar perdendo o contato com a realidade, mas mesmo assim optou por
encarar a verdade quando a reconheceu.
– Não creio que eu vá ټcar livre, Jessica. Sei que você e Raniero se saíram admiravelmente
bem hoje, mas meu guarda informa os boatos com honestidade. Os Anciões não acreditam
na minha inocência.
– Eles vão acreditar, Lucius. Vou pensar em outra coisa. Prometo.
Ele afastou a cabeça da minha e me encarou.
– Você se saiu bem, princesa. Assumiu um risco e nunca deve se arrepender disso. Eu teria
feito o mesmo.
– Vai valer a pena.
Ele não acreditava.
– Se não funcionar, saiba que tenho fé de que você será uma governante incrível... você já é
uma governante incrível. E lembre-se sempre de que você foi o amor da minha existência.
Aquilo foi demais para ele e Lucius não conseguiu falar mais nada. Eu não parecia capaz de
dizer mais nada, também.
Fiquei sentada com ele, em silêncio, sem querer que nosso tempo juntos acabasse. Em
algum momento, no entanto, o guarda se mexeu e Lucius murmurou:
– Você precisa ir, agora.
– Não, ainda não. Não antes de você beber.
Ele balançou a cabeça, parecendo confuso.
– Não, Jessica... Nós já violamos leis suټcientes, e não tenho como alcançar você. Não vou
machucá-la nem tentar beber desesperadamente por entre as barras, como um animal. – Vi
o pesar nos olhos dele. – Você não poderia me oferecer o suټciente para me sustentar por
mais do que poucas horas, de qualquer modo. Seriam necessárias semanas de descanso e
muito, muito sangue antes de eu ټcar forte de novo. – Ele continuou a me encarar e eu vi a
verdade em seus olhos. Vi como ele estava perto de... desaparecer. Lucius só estava ali
porque me amava a ponto de voltar do lugar de pesadelos por tempo suټciente para dizer
adeus. – Não quero que você se lembre de mim como alguém que a machucou, ou que agiu
com um desespero infrutífero.
Eu não podia aceitar aquilo. Ele precisava continuar lutando, então puxei meu braço,
enrolei a manga e enټei a mão pelas barras de novo. Eu também estava sendo egoísta. Se ele
fosse desaparecer mesmo, eu queria que levasse uma parte de mim consigo. E queria senti-lo
bebendo de novo. Conectar-me com ele daquele jeito.
– Você pode beber aqui, Lucius. Onde eu me cortei no nosso casamento.
Ele olhou do meu braço para meu rosto.
– Acho que não, Jessica.
Ai, meu marido frustrante, corajoso, maravilhoso. Eu estava me esforçando para ser
corajosa também, e começando a ter sucesso, mas lágrimas faziam meus olhos arderem.
– Eu amo você, Lucius. E vou morrer se ټcar sem você, por isso você vai beber do meu
sangue esta noite. – De repente eu parecia Raniero na camera de miză. – Acha que eu me
importo com alguns minutos de dor física? Acha que eu me importo com a lei?
Ele hesitou e acrescentei:
– Faça isso por mim. Por favor, Lucius. Não poderei viver se alguma coisa acontecer a
você. Não vou viver.
Eu sabia que não estava jogando limpo. Estava pedindo que ele violasse seu código de
honra usando a única tentação à qual sabia que ele não seria capaz de resistir.
Eu.
Ele não violaria as regras para salvar a própria existência, mas faria qualquer coisa para
salvar a minha.
– Lucius – sussurrei, vendo-o enfraquecer de um modo diferente. – Se você entrar no
limbo e nunca mais voltar para mim, não somente vou me juntar a você, como você não terá
a oportunidade de criar um reino melhor para centenas de milhares de vampiros que
precisam de um rei como você. Portanto esta noite vamos violar uma lei no interesse de nos
salvar, e em última instância aos nossos parentes, a maioria dos quais provavelmente nem
merece a vida que queremos dar a eles.
Ele hesitou só por mais um segundo.
– Às vezes me esqueço de como sua vontade é forte. De como você é forte.
É, porque eu também havia me esquecido, por tempo demais. Enټei a mão mais dentro da
cela.
– Aqui... beba.
– Às suas ordens, Jessica. – Eu poderia jurar que ele estava sorrindo levemente, assim como
tinha feito no julgamento, sorrindo de orgulho. Uma elevação quase imperceptível dos
lábios. – Já que você insiste.
Então Lucius tomou meu braço nas mãos frias e baixou a cabeça sobre mim, e senti seus
caninos roçando minha pele, aټnal ele estava faminto. Eu vinha bebendo sangue algumas
vezes, mas também estava faminta dele. Mesmo que, claro, não pudesse beber uma gota dele,
meus caninos doeram enquanto seus lábios roçavam a parte interna e pálida do meu pulso, e
de fato doeu quando seus dentes romperam a carne. O local era sensível, os caninos dele
eram muito mais grossos e rombudos do que a faca que eu havia usado no casamento, e o
que estávamos compartilhando naquele momento era diferente da paixão que em geral
tornava bom ser mordida. Era uma sensação nova, e tudo nela era doloroso. O fato de
simplesmente amar o vampiro tão desesperado por se alimentar, mas que tentava ser gentil
enquanto meu sangue penetrava em sua boca, doía.
– Beba mais – insisti quando ele começou a recuar. – Por favor. Beba o máximo que puder.
Mas, claro, ele era Lucius Vladescu, e ainda que pudesse ter destruído vampiros e cravado
uma estaca na mão do melhor amigo, também era meu protetor, e um príncipe, e não
acreditava que poderia ser salvo drenando meu corpo em uma noite de desespero. E antes
que eu ao menos ټcasse tonta, ele levantou a cabeça e a inclinou para trás, os olhos
fechados, como se estivesse satisfeito – embora eu soubesse que não estava. Seus dedos não
pareciam mais fortes quando ele apertou meu braço, estancando o sangue.
– Você devia beber mais, Lucius.
Mas eu sabia que ele não o faria.
– Eu te amo, Jessica – murmurou ele, parecendo tonto. – Mas agora você precisa ir...
– Sim, Lucius. Eu vou. Também te amo.
Mas não saí. Fiquei sentada com ele, olhando seu rosto, enquanto ele dormia ali mesmo no
chão, as costas na parede e a cabeça apoiada nas barras.
Quando o guarda enټm ټcou inquieto demais e não consegui suportar a visão dos olhos
de Lucius, não mais maliciosos e felizes, e sim sob pálpebras trêmulas enquanto ele
retornava a um local de tormento, esgueirei-me de volta ao meu quarto – e para a
escuridão, uma última vez.
Mindy
Não sei como Jess aguentou quando o Lukey foi conduzido à sala lotada, as mãos
acorrentadas à frente do corpo. Eu não sabia para onde os guardas achavam que ele poderia
fugir, pois parecia que mal conseguiria chegar ao meio da sala, onde eu tinha me espremido
depois de empurrar uns 100 vampiros do caminho. Mas quando arranjei um lugar, quase
desejei não ter conseguido.
– Coitado do Lucius! – meio que choraminguei.
Jess me dissera que ele estaria quase morrendo por não beber sangue, mas acho que eu não
tinha como imaginar a cena. E era ruim.
Mas Jess nem se encolheu. Apenas encarou o marido, que se esforçava bastante para ser
como antes, porém mais parecia o Raniero surټsta. Era como se os dois tivessem trocado de
lugar. Os ombros de Lucius pendiam, frouxos, seu lindo cabelo preto estava desgrenhado,
ele precisava se barbear e as roupas estavam sujas, e quando enټm abriu os olhos e tentou
olhar em volta, como se quisesse dizer a todo mundo que ainda estava no comando...
Olhei para Jess de novo. Como ela conseguia não chorar ao vê-lo lutando tanto para ainda
ser... Lucius?
Mas Jess também estava lutando. Lutando por ele, e seus olhos pareciam gelo. Eram como
gelo negro, como se toda a parte castanha tivesse sumido. Eu nunca tinha visto Jess daquele
jeito.
– Está claro que Lucius Vladescu não está em condições de falar por si mesmo – disse ela,
depois parou para lançar um olhar matador a um dos tios, Fabio era o nome dele, acho. Eu
me encolhi um pouco. – Porque foi mantido em conټnamento solitário sem alimentação. E
assim, como sou sua esposa e portanto não poderei participar do veredicto, vou falar por
ele, convocar suas testemunhas e apresentar seu caso.
Aquilo pareceu chocar todo mundo, e o vampiro velho parecido com o que eu tinha visto
no caixão havia não muito tempo saltou da cadeira e começou a gaguejar como se estivesse
tendo um ataque cardíaco.
– Isso não tem precedentes! Lucius deve falar por si! E seu papel é presidir, princesa.
O tio Fabio devia ser acorrentado por falar daquele jeito, mas Jess nem piscou. Apenas se
virou para ele e disse, muito calma:
– Há um precedente. – Em seguida se levantou, demorando-se, e falou com todo mundo
como se estivesse na suprema corte: – Vladescu versus Vladescu, 1622. A rainha Sorina
Vladescu presidiu o tribunal como juíza não votante e falou pelo acusado, seu marido,
Alexandru, que se encontrava quase no estado de luat por conta da privação de sangue. Os
casos são idênticos.
Ao redor, escutei vampiros traduzindo todas as palavras de Jess e vi alguns Anciões
balançando as cabeças grisalhas e dizendo “Da”, como se concordassem.
– A princesa Antanasia tem razão – berrou um deles. – Eu estive nesse julgamento, assim
como Horatiu Vladescu, e ocorreu exatamente como ela relata. Há um precedente. Ela deve
prosseguir.
– Da. Da – assentiu todo mundo, exceto Fabio. – Prossiga.
Caramba! Eu estava quase histérica por dois motivos: Jess tinha vencido o primeiro round!
E havia caras que estavam vivos em 1622 ali?
Será que Lucius, Jess e Raniero – e Ylenia – de fato iriam viver tanto assim porque bebiam
sangue? Aquilo nunca havia soado real, mas agora eu percebia que pelo menos alguns deles
ainda estariam andando por aí muito depois de eu partir.
Comecei a procurar por Raniero e Ylenia, que eu estivera tentando não ver, e encontrei
Ylenia sentada quase na frente, como se já se esgueirasse para o lugar de Jess, e a odiei mais
ainda. Eu não estava mais com ciúme, apenas. Eu a odiava como nunca havia odiado
ninguém na vida.
E Raniero... Não estava em lugar nenhum. O que isso significava?
Olhei de novo para Jess e Lucius... e vi os olhos dela se suavizarem, só por um segundo,
quando ele levantou o rosto para ټtá-la. Parecia exausto, como se estivesse dormindo em
pé, mas o estranho é que eu pude jurar que ele sorriu para ela, e tinha aquele brilho de
Lucius Vladescu nos olhos sonolentos, pouco antes de Jess ټcar durona de novo e dizer aos
guardas:
– Intoarcerea la prizonier în celulă. Levem o prisioneiro de volta à cela. Sua presença não é
necessária agora.
Lucius estava péssimo, mas ainda era Lukey, e senti um nozinho na garganta quando ele se
desvencilhou dos guardas e foi caminhando sozinho para fora da sala enquanto todo mundo
olhava em silêncio absoluto.
Ele era Lucius Vladescu, caramba, e achei que ninguém jamais teria coragem de cochichar,
mesmo com ele moribundo. Mesmo daquele jeito, ele ainda parecia um rei.
De algum modo, lutando para ficar de pé acorrentado, ele parecia mais rei do que nunca.
Quando ele saiu e a porta bateu, comecei a procurar de novo pelo cara que eu temia
querer roubar o trono – mas não precisei procurar muito, pois Jess se sentou de novo e
disse:
– Convoco Raniero Vladescu Lovatu para apresentar a primeira prova.
Aí, nossa, a multidão pirou, boquiaberta e cochichando, e então meu coração parou
quando Raniero entrou pela mesma porta por onde Lucius tinha acabado de sair e ocupou
o lugar do melhor amigo naquele círculo no chão.
CAPÍTULO 108
Mindy
Como é que a visão de alguém tão forte e lindo, sobre quem eu nem sabia mais
como me sentia, podia doer mais do que ver um bom amigo doente e abalado?
Acho que foi porque Raniero pareceu mais arruinado para mim – ali de pé e usando um
terno feito sob medida – do que Lucius lutando acorrentado. Não ajudou em nada o fato de
os olhos de Raniero terem ټcado muito pretos também quando aquele Fabio sinistro e os
outros vampiros velhos começaram a guinchar:
– Mas ele é blestemată... ele se condenou!
É, houve um enorme barraco enquanto os Anciões decidiam se poderiam – ou deveriam –
ouvir o testemunho de um vampiro que era, tipo, o pior criminoso de todos os tempos.
Observei Raniero permanecer muito ereto durante toda a discussão e vi que era como se
estivessem dando socos nele. Dava para notar que ele se esforçava muito para não se
encolher toda vez que alguém dizia “Mas ele é amaldiçoado... O testemunho dele não é
válido”.
No entanto, Jess devolveu os socos, defendendo-o, e disse a todos, muito calma:
– Vocês treinaram Raniero Vladescu Lovatu para ser o que ele é: o assassino mais hábil do
mundo, um especialista em destruição, ferimentos e sangue. E, a seu modo, ele é a
testemunha mais digna de crédito que nossos clãs poderiam produzir.
Foi então que ela começou a vencer o segundo round.
Houve um longo momento de silêncio, então o velho Fabio disse, muito devagar, como se
fôssemos idiotas:
– Ele vai mentir para proteger o amigo.
Jess demorou um segundo para deixar que todos pensassem na declaração. Depois deu o
soco que produziu o nocaute, verbalizando exatamente o que estava me deixando meio
enjoada naquele momento:
– Raniero tem muito mais a ganhar se Lucius for condenado à destruição do que
absolvido. Ele está na linhagem para governar como meu regente. Assim, se seu testemunho
inocentar o príncipe, será mais digno de crédito do que qualquer outro, pois pagará um
preço alto para tal. Ele perderá a chance de obter riqueza, privilégio e poder com que a
maioria apenas sonha.
Jess parecia uma garota diferente – uma mulher diferente. Como se estivesse recebendo o
espírito da mãe biológica e usando todo um vocabulário novo ainda melhor do que o
romeno. Estava falando realezês.
Houve mais silêncio. Daria para ouvir um alټnete caindo. Então alguém enټm disse, em
nome de todos:
– Que o vampiro blestemată fale. Não há regra contra isso.
Vi Raniero cruzar as mãos diante do corpo, parado como Lukey estivera, mas sem as
correntes – pelo menos não havia nenhuma à vista – e com a cabeça erguida e os pés bem
plantados e separados. Antes, pensei ter visto o sorriso de Lucius quando ele estivera ali,
mas, agora, tive certeza de que os olhos de Raniero brilharam como se estivessem pegando
fogo, de um modo que eu nunca tinha presenciado – e não gostei muito.
Olhei para Ylenia e ela estava meio que sorrindo também, como se aquele julgamento
estivesse começando para valer.
CAPÍTULO 109
Antanasia
Para um vampiro que um dia aټrmara desejar tudo o que Lucius tinha, Raniero
fez um trabalho impressionante defendendo o príncipe que bloqueava seu caminho para o
poder – embora o simples fato de comparecer ao julgamento já lhe custasse. Se não a
oportunidade ao trono, pelo menos em termos de dor.
– Ele é um assassino... Amaldiçoado... Ele se condenou...
Enquanto ouvíamos os Anciões – sobretudo Flaviu – cuspir essas palavras, eu sabia que
Raniero enټm estava sendo empurrado para aquele lugar ao qual temia ir. Seus olhos
tinham ficado negros e perigosos. No entanto, ele fez o máximo pelo amigo.
Levou a estaca de Lucius e mostrou a todos como a mancha de sangue estava
completamente equivocada. E conseguiu que os serviçais que haviam preparado o corpo de
Claudiu para o enterro conټrmassem que havia três ferimentos no peito do Ancião
destruído.
– Dois são rasos e feitos por um vampiro destro, e um golpe ټnal foi causado por alguém
que atacou com a mão esquerda – disse a todos. – Para mim, como alguém que destruiu com
frequência, é muito fácil ver o padrão. E todos sabemos que Lucius Vladescu destruiria o
oponente com um único golpe da mão esquerda. Ele jamais usaria a mão direita. Nem
erraria. – Raniero chegou a sorrir um pouco. Um sorriso austero, de valorização da coragem
de Lucius. – E Lucius Vladescu não pede ajuda quando vai à batalha. Se fosse responsável
por esse ato, não haveria ferimentos realizados com a mão direita.
A maioria dos Anciões e todas as pessoas no tribunal concordaram que Lucius sempre
usaria sua mão dominante – destruiria com mais eټciência, e sem nenhuma ajuda patética
de algum vampiro mais fraco e destro. Todo mundo conhecia sua reputação, e seu poder
fora aparente mesmo quando entrara no tribunal, acorrentado porém lutando para ټcar de
pé, ainda soberano em cada centímetro do corpo.
Mas, infelizmente, ainda não parecia que ele iria vencer o julgamento.
Dava para ver que nada do que Raniero dizia seria suټciente para anular o refrão confuso
repetido por todos: “Mas o sangue de Claudiu está na estaca, e Lucius não é capaz de
explicar isso.”
Nem mesmo minha prova dos e-mails com os horátios, trocados quando Lucius teria que
estar no saguão caso houvesse destruído Claudiu, os abalou. Se muito, todas as informações
que apresentei sobre computadores só pareceram deixar os vampiros mais velhos
atordoados e levantar suspeitas entre eles.
Eles entendiam que era estranho o sangue de Claudiu ainda estar em um tom vermelho
vivo quando Lucius fora arrastado da cama e todos nos reunimos no saguão, mas não
conseguiam compreender como um computador poderia provar que ele estivera ocupado
em nosso quarto durante muito tempo antes disso, de modo que o sangue teria que coagular
e escurecer caso ele tivesse cometido o ato.
Eu estava tão certa de que venceríamos – de que minha nova atitude prevaleceria – que
imaginei que Raniero e Mindy, que me conheciam tão bem, deviam ter visto a incredulidade
em meus olhos quando bati o martelo e disse:
– Vamos encerrar os procedimentos por hoje e nos reuniremos de novo amanhã.
Porque ao ټm da tarde eu já estava sem ideias para salvar Lucius e sentia que o melhor a
fazer era esperar por um milagre naquela noite. E se não conseguisse um...
Eu não sabia muito bem o que fazer.
Enquanto os Anciões e os espectadores saíam arrastando os pés, ټnalmente encarei Dorin
e, pela primeira vez, ele não me encarou de volta, nem mesmo por um segundo. Estava
olhando para Ylenia – e os dois pareciam mais perplexos do que eu.
CAPÍTULO 110
Mindy
Eles se encontraram em um jardim diferente depois da primeira parte do
julgamento de Lucius. Segui Ylenia direto até o pátio secreto minúsculo onde Jess e Lucius
tinham se casado.
Na noite do casamento de Jess, as trepadeiras selvagens e retorcidas que cresciam em todos
os muros tinham parecido românticas, mas naquela noite era como se estivessem sufocando
a vida daquele lugar pequenino. Como se fossem se enrolar em meus braços e espremer a
vida do meu corpo também. A vida de todo mundo naquele castelo.
Lucius estava muito encrencado.
Aqueles vampiros eram velhos demais para compreender as provas de verdade, tipo as dos
computadores. Ou talvez só quisessem ver um candidato a rei, jovem e forte, ser derrubado
porque eles eram velhos e nunca tinham sido nada mais do que uns fracotes. Fiquei enjoada
quando vi até Dorin, o tio de Jess, se remexendo como se fosse fazer xixi nas calças.
E quase vomitei nas sombras, também, quando vi o cara por quem estava apaixonada
praticamente no mesmo lugar onde eu tinha visto seus olhos incríveis pela primeira vez,
sussurrando para Ylenia:
– Você tem certeza de que deseja esta vida? Porque você vê como Antanasia sofre. Se eu
chegasse ao poder, isso seria perigoso para você também.
Os olhinhos dela, não mais escondidos pelos óculos, reluziram mais do que antes.
– Sim, eu estaria pronta. Conseguiria dar conta.
Tentei de verdade entender o que Raniero estava fazendo, porque poderia jurar que ele
havia se esforçado bastante a favor de Lucius no tribunal.
Havia mesmo? Seria por isso que Jess tinha perdido no ټnal? Porque Raniero não havia
tentado de verdade?
Honestamente, não dava para saber. Ele parecia ter dito a coisa certa, mas daí...
– É bom nós termos nos juntado de novo – disse ele a Ylenia. Falava baixinho, mas não do
mesmo jeito que costumava falar comigo. Não parecia doce. Gostoso, sim, mas não doce. – É
bom ter uma segunda chance.
Virei-me, deixei os dois sozinhos e voltei ao meu quarto, certiټcando-me de que a garrafa
que eu havia apanhado estava em segurança. Até enټei algumas blusas a mais na bolsa, só
para garantir que ela não se quebraria por acidente quando eu a levasse para a sessão no dia
seguinte.
Eu deixaria Jess continuar fazendo o que sabia, porque eu não tinha cem por cento de
certeza em relação àquela garrafa, ou em relação a Ylenia, ou especialmente em relação a
Raniero. Ele parecia dois vampiros em um, e eu não conseguia deduzir qual era o
verdadeiro.
Mas, se tudo desse errado no ټnal... Bem, eu não era vampira, mas iria destampar aquela
garrafa e derramar um bocado de sangue. Ia provocar um pequeno inferno num lugar que já
parecia bem perto disso, se quer saber.
CAPÍTULO 111
Antanasia
A essa altura eu já presumira que poderia ter acordado o guarda bêbado e
simplesmente exigido a chave. Mas, quando parei nas sombras da masmorra, parte de mim
se agarrou à pequena esperança de que os Anciões ainda considerariam Lucius inocente,
baseados em parte na insistência contínua dele em obedecer às leis que o mandavam para
um mundo de pesadelos loucos. Por isso, no ټm das contas, fui em silêncio em direção ao
meu marido, que estava deitado em sua cama de tábuas, já parecendo um cadáver, e
sussurrei:
– Lucius.
Ele permaneceu imóvel.
– Lucius?
Ao meu segundo chamado, um pouco mais alto, seus olhos se abriram, e mesmo à luz fraca
do lampião vi uma quantidade enorme de emoções o atravessarem. Surpresa e
desaprovação, porque eu não deveria estar ali, tanto porque a lei proibia quanto porque ele
considerava arriscado eu vagar por ali sozinha. Mas, acima de tudo, enxerguei o amor que
eu precisava ver.
Ele não se movimentou logo. Achei que estivesse exausto demais e tive que dizer baixinho:
– Não posso ir até você. Não tenho a chave. – Lancei um olhar para o guarda que roncava.
– E não posso me arriscar a acordá-lo procurando.
Doía demais ټcar separada de Lucius, e tinha doído mais ainda vê-lo lutar no tribunal.
Mas nada doía tanto quanto vê-lo lutar, e muito, só para se levantar e vir até mim. Ele se
sentou no catre e parou durante uns 30 segundos com a cabeça baixa, e quase pedi que
permanecesse ali. Que já bastaria ficarmos nos olhando.
Mas eu queria tocá-lo e ele também queria me tocar – tanto que conseguiu se levantar e
dar os poucos passos até as barras que tinham espaço suټciente apenas para eu enټar o
braço e alcançá-lo. Ele se encostou na parede, mas logo nós dois escorregamos para o chão,
tocando um ao outro do único jeito que conseguíamos. E não era nem de longe tanto
quanto precisávamos.
Mesmo assim, ele me disse:
– Você não deveria estar aqui, Jessica. Se o guarda acordar, você também será castigada por
violar as leis.
Ajoelhei-me ao lado dele, e pela primeira vez desde que tínhamos nos casado, quando
praticamente deixei Lucius assumir o controle, afirmei minha autoridade para com ele.
– Não me importo.
Ele havia fechado os olhos, mas abriu de novo, e vi ali um traço muito precioso de
diversão – junto com a admiração que vinha diminuindo desde o casamento.
– Você mudou, esposa minha, com quem sonho enquanto estou aqui. Um de nós está
ټcando mais forte. – Ele deu um jeito de sorrir. – Você foi muito corajosa ao optar por
presidir o funeral de Claudiu, quando não precisava, e hoje foi uma força digna de crédito
no julgamento.
Não quis lembrá-lo de que eu era obrigada a presidir o funeral, mas morri de medo
pensando que Lucius pudesse ter esquecido até mesmo um detalhe do protocolo real. Os
livros que eu tentava decifrar estavam cauterizados na mente dele.
– Eu também sonho com você, o tempo todo – falei, afastando a preocupação. Apertei o
braço dele e nós tentamos encostar as testas através da abertura estreita. – Sinto muita
saudade. – Minha voz falhou, mas me controlei. – Mas amanhã isso vai acabar. Você vai estar
livre.
Lucius podia estar perdendo o contato com a realidade, mas mesmo assim optou por
encarar a verdade quando a reconheceu.
– Não creio que eu vá ټcar livre, Jessica. Sei que você e Raniero se saíram admiravelmente
bem hoje, mas meu guarda informa os boatos com honestidade. Os Anciões não acreditam
na minha inocência.
– Eles vão acreditar, Lucius. Vou pensar em outra coisa. Prometo.
Ele afastou a cabeça da minha e me encarou.
– Você se saiu bem, princesa. Assumiu um risco e nunca deve se arrepender disso. Eu teria
feito o mesmo.
– Vai valer a pena.
Ele não acreditava.
– Se não funcionar, saiba que tenho fé de que você será uma governante incrível... você já é
uma governante incrível. E lembre-se sempre de que você foi o amor da minha existência.
Aquilo foi demais para ele e Lucius não conseguiu falar mais nada. Eu não parecia capaz de
dizer mais nada, também.
Fiquei sentada com ele, em silêncio, sem querer que nosso tempo juntos acabasse. Em
algum momento, no entanto, o guarda se mexeu e Lucius murmurou:
– Você precisa ir, agora.
– Não, ainda não. Não antes de você beber.
Ele balançou a cabeça, parecendo confuso.
– Não, Jessica... Nós já violamos leis suټcientes, e não tenho como alcançar você. Não vou
machucá-la nem tentar beber desesperadamente por entre as barras, como um animal. – Vi
o pesar nos olhos dele. – Você não poderia me oferecer o suټciente para me sustentar por
mais do que poucas horas, de qualquer modo. Seriam necessárias semanas de descanso e
muito, muito sangue antes de eu ټcar forte de novo. – Ele continuou a me encarar e eu vi a
verdade em seus olhos. Vi como ele estava perto de... desaparecer. Lucius só estava ali
porque me amava a ponto de voltar do lugar de pesadelos por tempo suټciente para dizer
adeus. – Não quero que você se lembre de mim como alguém que a machucou, ou que agiu
com um desespero infrutífero.
Eu não podia aceitar aquilo. Ele precisava continuar lutando, então puxei meu braço,
enrolei a manga e enټei a mão pelas barras de novo. Eu também estava sendo egoísta. Se ele
fosse desaparecer mesmo, eu queria que levasse uma parte de mim consigo. E queria senti-lo
bebendo de novo. Conectar-me com ele daquele jeito.
– Você pode beber aqui, Lucius. Onde eu me cortei no nosso casamento.
Ele olhou do meu braço para meu rosto.
– Acho que não, Jessica.
Ai, meu marido frustrante, corajoso, maravilhoso. Eu estava me esforçando para ser
corajosa também, e começando a ter sucesso, mas lágrimas faziam meus olhos arderem.
– Eu amo você, Lucius. E vou morrer se ټcar sem você, por isso você vai beber do meu
sangue esta noite. – De repente eu parecia Raniero na camera de miză. – Acha que eu me
importo com alguns minutos de dor física? Acha que eu me importo com a lei?
Ele hesitou e acrescentei:
– Faça isso por mim. Por favor, Lucius. Não poderei viver se alguma coisa acontecer a
você. Não vou viver.
Eu sabia que não estava jogando limpo. Estava pedindo que ele violasse seu código de
honra usando a única tentação à qual sabia que ele não seria capaz de resistir.
Eu.
Ele não violaria as regras para salvar a própria existência, mas faria qualquer coisa para
salvar a minha.
– Lucius – sussurrei, vendo-o enfraquecer de um modo diferente. – Se você entrar no
limbo e nunca mais voltar para mim, não somente vou me juntar a você, como você não terá
a oportunidade de criar um reino melhor para centenas de milhares de vampiros que
precisam de um rei como você. Portanto esta noite vamos violar uma lei no interesse de nos
salvar, e em última instância aos nossos parentes, a maioria dos quais provavelmente nem
merece a vida que queremos dar a eles.
Ele hesitou só por mais um segundo.
– Às vezes me esqueço de como sua vontade é forte. De como você é forte.
É, porque eu também havia me esquecido, por tempo demais. Enټei a mão mais dentro da
cela.
– Aqui... beba.
– Às suas ordens, Jessica. – Eu poderia jurar que ele estava sorrindo levemente, assim como
tinha feito no julgamento, sorrindo de orgulho. Uma elevação quase imperceptível dos
lábios. – Já que você insiste.
Então Lucius tomou meu braço nas mãos frias e baixou a cabeça sobre mim, e senti seus
caninos roçando minha pele, aټnal ele estava faminto. Eu vinha bebendo sangue algumas
vezes, mas também estava faminta dele. Mesmo que, claro, não pudesse beber uma gota dele,
meus caninos doeram enquanto seus lábios roçavam a parte interna e pálida do meu pulso, e
de fato doeu quando seus dentes romperam a carne. O local era sensível, os caninos dele
eram muito mais grossos e rombudos do que a faca que eu havia usado no casamento, e o
que estávamos compartilhando naquele momento era diferente da paixão que em geral
tornava bom ser mordida. Era uma sensação nova, e tudo nela era doloroso. O fato de
simplesmente amar o vampiro tão desesperado por se alimentar, mas que tentava ser gentil
enquanto meu sangue penetrava em sua boca, doía.
– Beba mais – insisti quando ele começou a recuar. – Por favor. Beba o máximo que puder.
Mas, claro, ele era Lucius Vladescu, e ainda que pudesse ter destruído vampiros e cravado
uma estaca na mão do melhor amigo, também era meu protetor, e um príncipe, e não
acreditava que poderia ser salvo drenando meu corpo em uma noite de desespero. E antes
que eu ao menos ټcasse tonta, ele levantou a cabeça e a inclinou para trás, os olhos
fechados, como se estivesse satisfeito – embora eu soubesse que não estava. Seus dedos não
pareciam mais fortes quando ele apertou meu braço, estancando o sangue.
– Você devia beber mais, Lucius.
Mas eu sabia que ele não o faria.
– Eu te amo, Jessica – murmurou ele, parecendo tonto. – Mas agora você precisa ir...
– Sim, Lucius. Eu vou. Também te amo.
Mas não saí. Fiquei sentada com ele, olhando seu rosto, enquanto ele dormia ali mesmo no
chão, as costas na parede e a cabeça apoiada nas barras.
Quando o guarda enټm ټcou inquieto demais e não consegui suportar a visão dos olhos
de Lucius, não mais maliciosos e felizes, e sim sob pálpebras trêmulas enquanto ele
retornava a um local de tormento, esgueirei-me de volta ao meu quarto – e para a
escuridão, uma última vez.
CSUVA - 102-103-104-105-106
CAPÍTULO 102
Antanasia
– Eu teria levado você a qualquer lugar do mundo, você sabe – provoca meu
marido, puxando-me para perto. – Nós não precisávamos ficar aqui em casa na noite de núpcias!
Sorrio para ele.
– Eu não queria viajar. Só queria ficar aqui com você.
Ele sorri também e beija meu pescoço, depois diz:
– Não tenho objeção a isso, esposa minha. Prefiro carregá-la para nosso quarto a arrastar malas
por aeroportos!
Dou uma risada nervosa. Esperei tanto tempo por esse momento... mas de repente também
tenho uma ciência aguda da minha inexperiência.
Lucius é experiente.
Isso fica explícito no modo como ele tira o paletó sem interromper o roçar suave e insistente dos
lábios em meu pescoço. E um segundo depois ele solta as abotoaduras às minhas costas e eu as
ouço tilintar no chão.
Nem sei como as abotoaduras funcionam. Será que devo ajudá-lo? Será que devo me despir?
Claro, Lucius sente minha tensão, já que fiquei rígida nos seus braços, e diz baixinho:
– Não fique nervosa. Eu amo você.
– Também amo você.
Recuo um pouco e seguro sua gravata-borboleta, puxando-a. O que não resulta em nada, só faz
com que a gente quase caia. Ponho a mão no ombro dele, tentando nos firmar.
– Desculpa. Meleca!
Eu não queria dizer aquela gíria sem graça, infantil, nem quase puxar nós dois para o chão.
Estou constrangida e arruinando a noite mais especial da minha vida...
– Permita-me, por favor.
Acho que Lucius vai rir de mim, mas ele não faz isso. E com um puxão breve a gravata está
desamarrada e pendendo em volta do pescoço. Então ele me beija, os lábios firmes porém ternos
contra os meus, e muda a posição para sussurrar de novo ao meu ouvido, murmurando uma das
coisas mais doces que já me disse. Palavras que, tenho certeza, nunca vou esquecer, assim como
nunca poderia me esquecer de seu pedido de casamento ou dos votos que acabamos de trocar.
– Algum dia, Jessica – diz ele baixinho – você vai estar diante de mim neste mesmo quarto
enquanto nos preparamos para alguma cerimônia que ambos odiamos, afinal já teremos estado
em tantas outras durante os anos que passamos juntos, e você vai sorrir, levantar a mão e ajeitar
minha gravata torta, como sempre faz. E um de nossos filhos, talvez nosso primeiro filho, vai
puxar seu vestido, exigindo nossa atenção. Então vou beijar você e me abaixar para pegá-lo,
pensando: Como foi que me tornei tão feliz?
Adoro a historinha. O príncipe guerreiro com quem me casei imaginou aquela cena de família.
A família que vamos criar. Ele nos visualiza muito depois da nossa primeira noite, juntos, felizes e
acostumados um com o outro, mas ainda empolgados, como sempre estaremos...
E de repente não estou nem um pouco nervosa.
– E se só tivermos filhas? – provoco-o, porque sei que o comentário sobre um filho, no masculino,
não foi somente descuidado ou uma brincadeira.
Lucius fora criado para acreditar que ter um herdeiro homem é muito importante.
Passo os braços em volta da cintura dele, sentindo a camisa branca e engomada sob os dedos.
Também sonhei em ter filhos com ele – algum dia. Só tenho 18 anos e nunca contei isso a
ninguém. Mas penso nisso às vezes.
– E se só tivermos meninas, príncipe Lucius? – pergunto de novo, rindo.
Ele ri e aperta a boca mais perto do meu ouvido – e meu corpo mais perto do dele, de modo que
consigo sentir todo o poder, a tensão gostosa crescendo nele, pois apesar de estarmos falando do
futuro, estamos cada vez mais sob o feitiço do presente.
– Se só tivermos filhas, eu serei o vampiro mais feliz que existe – sussurra ele. – Porque aprendi
com você que uma princesa pode ser tão poderosa quanto um príncipe.
Então ele me tira do chão pela segunda vez naquela noite e me carrega para nossa cama, e não
consigo imaginar por que fiquei nervosa ao menos por um segundo enquanto estamos juntos –
completamente juntos – pela primeira vez, e logo os caninos que senti roçando em minha pele
mergulham fundo em meu pescoço outra vez.
Acordei no meio da noite e esfreguei o pescoço como se o sonho tivesse sido real. Não
como se fosse outra alucinação. Foi só um sonho vívido, maravilhoso, que iria se realizar.
Ele tinha previsto nosso futuro, que iria acontecer.
Eu faria acontecer.
Queria ser a mulher que ajeitava a gravata do rei, que comparecia a eventos tediosos e o
olhava colocar nossos ټlhos nos ombros. E queria mais do que isso. Queria recuperar o tal
poder que Lucius tinha visto em mim e que eu havia perdido, e usá-lo para comandar um
reino de vampiros com a mesma força que minha mãe biológica mostrara. Queria tudo isso,
de coração, mais do que já tinha desejado qualquer outra coisa na vida. Enquanto
permanecia na nossa cama, o desejo de governar, que eu havia começado a sentir quando
usei a estaca pela primeira vez e experimentei aquele poder nas mãos, endureceu,
transformando-se em uma resolução feroz. Uma necessidade feroz.
Eu não queria ser apenas a Sra. Lucius Vladescu, ou uma princesa, até. Queria ser rainha.
De repente entendi o que Raniero devia ter sentido naquele momento em que ټcou
tentado a tomar o poder. Mas eu não afastaria minha mão e nem recuaria, temerosa de dar
o golpe final para tomar o que era meu.
Eu tinha algumas horas, e iria aproveitá-las do melhor modo possível para conseguir tudo
o que eu precisava ter.
Quando pus os pés para fora da cama, pensei em Lucius e na imagem da estaca que era
sempre tão importante em nossa vida juntos, e ainda era capaz de sentir a força e a
autoridade nas mãos dele, uma remanescência do sonho – e outra coisa se encaixou para
mim. Uma coisa que era, de novo, uma combinação entre matemática racional e a esfera
irracional dos vampiros – e tão óbvia que eu não conseguia acreditar não ter percebido
antes.
Correndo para me vestir, saí do quarto, sem nem mesmo me dar ao trabalho de me dirigir
a Emilian.
Percebi que ele seguia atrás de mim enquanto eu corria até o quarto de Raniero, onde
entrei sem bater. Fechando a porta e deixando meu guarda do lado de fora, fui até a cama e
sacudi Raniero, dando-lhe um susto, de modo que ele se sentou totalmente alerta, então
perguntei:
– Raniero... Você já exumou um corpo?
CAPÍTULO 103
Antanasia
A noite estava muito fria, mas a lua estava reluzente e nem precisamos de
lanterna quando chegamos ao cemitério, onde não havia árvores para bloquear a luz.
Através das barras do portão de ferro já dava para ver o mausoléu onde meus pais
biológicos tinham sido enterrados – e onde um dia eu talvez fosse repousar – como uma
mancha cinza na vastidão de branco. E à distância também dava para ver a cripta muito mais
grandiosa dos Vladescu, onde um lugar esperava...
Olhei para Raniero, que se mantinha atrás de mim, com uma pá apoiada no ombro como
se fosse uma prancha enquanto eu levantava a tranca.
– Tem certeza de que precisamos fazer isso? – perguntou ele.
– Tenho. Eu me lembro de uma coisa do dia em que Claudiu morreu. Uma coisa na qual
nem pensei, até que você me ensinou a usar uma estaca. – Entrei e logo encontrei o túmulo
de Claudiu. A lápide nova em folha reluzia mais branca do que as que estavam ao redor, e a
neve formava montinhos, afinal a terra tinha sido revirada havia pouco tempo.
Avancei alguns passos, depois me virei, porque Raniero não estava me seguindo. Estava
parado junto ao portão, tenso, como na primeira vez em que eu o encontrara ali.
– Não me diga que você fica nervoso aqui – falei.
Ele se remexeu, inquieto.
– Não, eu já disse que sou preguiçoso. O chão vai estar duro.
– Se não quer ajudar, eu mesma faço.
– Só tento fazer uma piada, Antanasia. – Mas, mesmo assim, ele não se mexeu. Demorou
um instante examinando o cemitério, e mesmo ao luar deu para ver que o queixo dele estava
tenso. – Não gosto de estar aqui. Sou responsável por algumas dessas sepulturas. Andar aqui
é pisar em um campo minado, e me pergunto se a visão de uma lápide vai bastar para me
fazer explodir. Só brinco para afastar pensamentos mais sombrios.
Apertei minha capa com mais força em volta do corpo.
– Desculpe, não pensei nisso. Só quero ajudar Lucius.
Ele me lançou um olhar cético.
– E você acha que desenterrar o corpo de Claudiu Vladescu vai ajudar alguém?
– Acho.
Seus dedos se flexionaram em volta do cabo da pá.
– Ainda não entendo.
– E eu não entendo por que os vampiros ainda investigam crimes como se estivéssemos na
Idade Média, usando tortura, sussurros e a palavra de um vampiro contra outro. Quero
levar provas ao julgamento de Lucius. – Examinei o trecho de neve salpicado de lápides
brancas. Em algum lugar embaixo do chão estava um vampiro que eu não tinha podido
condenar. – Houve testemunhas, mas nenhuma prova de verdade quando o assassino do pai
de Ylenia foi julgado. – Encarei Raniero. – E será que alguém, além de Lucius, tentou
defender você no seu julgamento?
– Não. Ninguém. – Ele arrastou os pés de novo. – Então você quer fazer justiça para os
vampiros igual à dos seriados de TV americanos, sim?
Ele ainda estava meio brincando, mas respondi muito séria:
– Isso mesmo. E, apesar de não termos equipamento de cromatograټa líquida e nem
mesmo um kit para tirar digitais, podemos coletar fatos. Os Anciões podem ser levados a
fazer julgamentos mais racionais, mais comedidos.
Raniero assentiu, pensativo.
– Lucius diz que seu jeito americano lógico de pensar vai beneficiar nossos clãs.
Estávamos separados por alguns metros de neve e eu disse baixinho porém com firmeza, do
mesmo jeito que ele já havia falado comigo várias e várias vezes:
– Se eu consigo sair da cama e encarar as coisas que me aterrorizam no futuro, você pode
encarar seu passado.
O vento soprou e olhei de novo para a cripta dos Vladescu. Será que sou hipócrita...?
Quando me virei, vi que Raniero tinha se aproximado. Nem ouvi o portão se fechar ou a
neve guinchar embaixo das botas pesadas que haviam substituído seus chinelos. Ele virou a
cabeça para a nova lápide.
– Vamos, Antanasia, vamos acabar logo com isso.
Sem mais uma palavra, fui adiante, até o túmulo de Claudiu. Quando chegamos, Raniero
tirou a pá dos ombros, jogou a capa de Lucius no chão, depois se curvou e cravou a pá na
neve e na terra.
Ainda que a terra provavelmente estivesse dura, continuava solta na cova rasa, e Raniero
era forte. Nem ofegou enquanto trabalhava. Poucos minutos depois a pá acertou em
madeira. Em meia hora ele havia liberado o caixão.
Ajoelhando-se ao lado do buraco estreito, ele passou os dedos embaixo da tampa de ébano
e ergueu o rosto para o meu.
– Está preparada, Antanasia? Está frio, e não se passou muito tempo, de modo que não
haverá muita podridão. Mas a visão não vai ser bonita.
Eu sabia disso. E sabia o que havia acontecido na última vez em que tinha olhado para
aquele caixão. Mas precisava me certificar.
– Vá em frente.
Ele puxou com força e eu dei um pulo, pois a tampa cedeu com facilidade, abrindo-se para
revelar o corpo. Inclinando-me, obriguei-me a olhar.
– Tire a mortalha para vermos o ferimento – instruí.
Raniero iniciou, em silêncio, o processo desajeitado de descobrir o peito de Claudiu, e eu
me virei – não porque estivesse surtada demais para olhar, mas porque, mesmo tendo
desprezado Claudiu, parecia desrespeitoso espiar seus ombros nus e ossudos. Eu estava
quase sem graça por ele.
– Diga o que vê.
A voz de Raniero saiu abafada, porque a cabeça dele estava voltada para dentro da
sepultura.
– Talvez você possa me dizer o que deseja que eu procure.
Mas nem precisei responder. Antes que eu dissesse qualquer coisa, ouvi-o murmurar
baixinho uma expressão de surpresa em italiano.
– Mavalà.
Cerca de uma hora depois, tínhamos enterrado Claudiu Vladescu de novo, então Raniero
vestiu a capa, escondendo a estaca recém-esculpida que continuava enټada na cintura da
calça jeans.
Fomos caminhando pelos montes de neve e, quando ele fechou o portão, eu olhei para o
céu, esperando que nevasse mais ainda, pois eu queria que a sepultura parecesse intocada...
para o caso de eu precisar abri-la de novo.
CAPÍTULO 104
Antanasia
– Por que estamos aqui? – perguntei a Raniero. Tateei procurando a estaca
no bolso do meu casaco. Estava tentando me acostumar a andar com ela. – Achei que as
aulas houvessem terminado.
Tínhamos ido direto do cemitério para a camera de miză, e Raniero passara o tempo todo
calado. Enquanto eu acendia as velas, ele andava de um lado para outro, mas não como
ټzera na primeira vez em que eu o encontrara ali. Dessa vez ele ainda parecia um leão, mas
fazia do mesmo jeito que Lucius quando andava para lá e para cá, imerso em pensamentos.
Raniero parecia estar rondando, com a presa à vista.
– Raniero?
Acordei-o de um devaneio que parecia mais profundo ainda do que o sono que eu tinha
interrompido antes.
– Sim? O quê?
– Por que estamos aqui?
– Preciso ver... – Ele foi até a caixa onde a estaca de Lucius estava e abriu a tampa com os
dedos ainda sujos depois de desenterrar um cadáver e de examinar os ferimentos de Claudiu
– … isso.
Ele ergueu a arma de Lucius e a pôs perto do rosto, depois passou um dedo pelas manchas
de sangue em camadas, como se as estivesse analisando. Ou medindo.
Eu ainda conseguia sentir levemente o fedor de Claudiu e, como sempre, queria recuar.
Mas o assassino que sabia tanto sobre ferimentos, estacas e sangue não se afastou do odor
rançoso tal como tinha feito no cemitério. Limpou as mãos na calça, tirando parte da
sujeira, e segurou a estaca mais perto do rosto, inalando o cheiro desde a ponta até o cabo.
Depois se virou para mim e declarou de modo muito solene:
– Esta estaca está manchada com o sangue de Claudiu. Mas não é a arma que destruiu meu
tio.
Meu coração falhou pelo menos umas cinco batidas.
– Como você sabe?
– O sangue de Claudiu, que é pungente, só está na ponta da estaca.
– O que significa...
– Uma pessoa fraca a usou e não conseguiu penetrar o suټciente. Ou o sangue foi posto
mais tarde, por alguém que não sabe quanto a ponta deve penetrar para furar um coração.
Isso é algo forjado ou parte de uma tentativa fracassada, e nós temos certeza de que Lucius
não falharia.
Meu coração começou a bater mais forte.
– Isso é uma boa notícia. Não é?
No cemitério já havíamos estabelecido a precisão de minha memória. Claudiu tinha sido
golpeado três vezes, ao passo que Lucius o teria destruído com uma única investida. Além
disso, Raniero havia determinado que os dois primeiros golpes tinham sido dados por um
vampiro destro. Ele não precisava de nenhum laboratório ou equipamento especial. Só de
seu conhecimento sobre o modo como os ferimentos eram infligidos em lutas mortais.
– Então você está dizendo que não só o número de ferimentos e seus ângulos de entrada
ajudam a inocentar Lucius, mas que a arma dele nem mesmo causou o ferimento fatal?
Eu pedia uma confirmação, porque aquilo era importante demais.
– Sim, mas não se empolgue muito, Antanasia – alertou ele. – Mesmo assim, foi um
vampiro canhoto que furou o coração de Claudiu.
Mas eu estava empolgada.
– Lucius jamais precisaria de ajuda em uma luta – lembrei. – Será óbvio para os Anciões
que ele não estava envolvido.
– Sim. – Mas na verdade Raniero não estava escutando. Dava para ver que as engrenagens
giravam na cabeça dele, e havia algo que não estava me contando. Eu conhecia aquela
expressão reservada. Ele estava ټcando com raiva também, por algum motivo. – Desculpe
por eu não ter olhado a estaca nem o corpo antes.
– Tudo bem. Agora nós sabemos de mais coisas, e é só isso que importa.
Ele balançou a cabeça, no entanto, parecendo mais preocupado ainda. Não pressionei para
que me contasse seus pensamentos, pois ele era igualzinho a Lucius e não revelaria nada
antes de estar pronto para isso.
– Perdi alguns instintos depois que saí deste lugar. – Ele me encarou. – Desculpe.
Não tive certeza se ele estava se desculpando por não ter pensado em veriټcar a estaca
antes ou pelo que fez em seguida: foi até a caixa onde sua arma estava, ainda mais
ensanguentada, e deu um soco no vidro, despedaçando-o e liberando a arma, que levantou
com uma segurança incrível e enټou atrás da calça depois de tirar a outra, menor, mais
nova, e jogá-la no chão.
– Está quase amanhecendo – observou ele quando notou que eu o encarava, sem fala. –
Você deveria se preparar para o julgamento. Acho que este será um dia longo.
CAPÍTULO 105
Mindy
Cheguei ao quarto de Jess bem cedo com meu estojo de maquiagem, pensando
que precisaria fazer mais uma transformação antes de aposentar a tesoura para sempre.
Depois de aprontar Jess para o julgamento, eu nunca mais ia mexer com cabelos. Estava
farta de gente bonita – e de vampiros bonitos.
Mas quando bati à porta e abri, Jess não estava lá.
Quem estava era a princesa Antanasia Dragomir Vladescu.
– Acho que você não precisa de mim hoje – falei. – Uau!
No casamento, ela estava bonita. Mas agora estava poderosa.
Essa era, tipo, a única palavra para descrevê-la.
– Sempre vou precisar de você, Min – disse ela, e de algum modo, embora o amor da vida
dela estivesse para ser julgado e com a vida em jogo, ela sorriu. – Sempre.
Mas não era verdade. Pelo menos não do modo de sempre. Alguma coisa havia mudado
dentro dela, tipo, da noite para o dia. Nós sempre seríamos melhores amigas, mas algo
estava diferente. Não fazia sentido, mas parecia que eu estava me despedindo quando nos
abraçamos.
– Boa sorte, Jess. Vou ficar assistindo.
– Obrigada. – Ela segurou minha mão antes que eu saísse. – E, quando isso acabar, vai ser
minha vez de ajudar você. Sabe disso, né?
Imaginei que ela tivesse percebido que eu estava sofrendo um bocado também. Não tanto
quanto ela, talvez, mas o bastante, a meu modo.
– É, eu sei.
Pensei em contar que eu estava confusa em relação a Raniero, que não sabia se ela deveria
conټar nele, e que eu estava em dúvida quanto à Ylenia também, mas ټquei quieta. Hoje a
luta era dela, e dava para ver em seus olhos que ela estava decidida a vencer. E tentar
confundi-la com relação a vampiros que ela provavelmente enxergava com mais clareza do
que eu não iria ajudar no último minuto. Eu poderia abalar tudo o que ela havia conseguido
construir. Depois de ter lido um milhão de matérias sobre autoconټança, eu sabia que
acreditar em si mesma era metade da batalha.
Se isso era mesmo verdade, então Antanasia Vladescu estava pelo menos 50 por cento a
caminho de vencer seu primeiro julgamento. Por isso falei apenas:
– Fique esperta. Você sabe quem são seus amigos de verdade.
Ela me lançou um olhar dizendo que eu ainda era a número um.
– Sim. Eu sei.
A princesa Antanasia virou para se olhar no espelho, mas não havia nada para consertar no
visual formado pelo terno vermelho escuro ou nos cachos pretos, ou no modo como ela
simplesmente se portava, parecendo ter uns 3 metros de altura. Por isso peguei minha bolsa
e a deixei sozinha.
Assim que fechei a porta, dei de cara com Emilio, que carregava uma garrafa – e um
bilhete.
– Me dê isso.
Estendi a mão.
Ele recuou.
– Este pentru prinţesa.
Eu não saquei nada do que ele disse, mas continuei com a mão estendida.
– Me. Dê. Isso.
Emilio estava acostumado a obedecer e me entregou a garrafa. Abri o bilhete e li: Por favor,
Antanasia, beba antes do julgamento. Você vai precisar de todas as forças. D & Y.
Emilio estendeu as mãos.
– Vă rog, trebuie să duc asta.
Não entendi uma palavra também, por isso não estava mentindo quando disse:
– Desculpe, não falo romeno.
Pude senti-lo me espiando o tempo todo enquanto eu atravessava o corredor com a
garrafa.
Talvez a princesa Antanasia ainda precisasse de mim, só um pouquinho.
Parei em uma das zilhões de salas que quase nunca eram usadas naquele castelo enorme e
joguei toda a minha maquiagem em um tapete, aټnal não iria levar nada daquilo para casa e
as empregadas ganhariam um belo presente surpresa. Parte daquilo era de marcas
concorridíssimas e ainda estava com os lacres. Usei o espaço vazio para guardar a garrafa
cheia de sangue nojento, sentindo-me muito melhor por Antanasia, e um pouco melhor por
mim também, pois tinha quase certeza de que havia salvado a pele dela uma última vez.
CAPÍTULO 106
Antanasia
Os Anciões já estavam reunidos quando cheguei à sala do tribunal e ټz uma
pausa à entrada a ټm de encarar a multidão que tinha ido assistir ao julgamento de Lucius.
A sala estava apinhada, e havia mais vampiros esperando nos corredores e nos arredores dos
muros do castelo.
Eu tinha ouvido um barulho baixo e persistente ao alvorecer, e, quando fui à janela e olhei
para baixo, vi um ٽuxo constante de parentes arrastando os pés pela estrada gelada, do jeito
silencioso que os vampiros fazem graças a séculos tentando não atrair atenção. A princípio
ټquei surpresa, até que me dei conta de que, obviamente, o julgamento era de interesse de
todo o reino. Eu não havia espalhado a notícia de que ele ia acontecer e estivera
preocupada demais para pensar em como nossos súditos estariam curiosos. Tinha até
imaginado a notícia sendo publicada mais tarde, depois do veredicto, mas era claro que,
mesmo sem uma mídia organizada, a data e a hora haviam se espalhado pelos clãs.
De pé na sala do tribunal, demorei um instante a mais para encarar alguns rostos.
Os mesmos vampiros que tinham me visto desmoronar no enterro de Claudiu estão aqui.
Há ainda mais vampiros aqui.
Sem hesitar mais e sem nem sequer olhar os Anciões ao redor para ver se alguém
questionava, segui direto para a cadeira de Lucius outra vez – o assento do poder – e me
acomodei.
Mantive o queixo erguido enquanto reivindicava meu lugar, depois olhei devagar para a
esquerda e para a direita, encarando todos os Anciões – passando rápido por Dorin, pois
não queria ver o medo dele, que era contagioso – e sustentando o olhar em Flaviu, aټnal
queria que ele enxergasse exatamente o que eu estava projetando.
Poder.
Ele não desviou o olhar de cara e deu um risinho cínico, mas tudo bem. Eu sabia que uma
pequena vitória em uma reunião do conselho não bastaria para desfazer o dano que eu
causara ao me acorvadar durante meses. A pequena dose de respeito em vários rostos dos
Anciões já me bastava.
Sem perder mais tempo, voltei-me para a multidão e anunciei, com uma voz clara que
escondia por completo o terror que eu havia trancado bem no fundo, sabendo que jamais
poderia deixar que voltasse a transparecer em público:
– Tragam o acusado.
Nem mesmo hesitei – nem ao menos pisquei, embora um lado meu gritasse por dentro –
quando Lucius foi escoltado até aquele círculo cinza-claro no chão.
Antanasia
– Eu teria levado você a qualquer lugar do mundo, você sabe – provoca meu
marido, puxando-me para perto. – Nós não precisávamos ficar aqui em casa na noite de núpcias!
Sorrio para ele.
– Eu não queria viajar. Só queria ficar aqui com você.
Ele sorri também e beija meu pescoço, depois diz:
– Não tenho objeção a isso, esposa minha. Prefiro carregá-la para nosso quarto a arrastar malas
por aeroportos!
Dou uma risada nervosa. Esperei tanto tempo por esse momento... mas de repente também
tenho uma ciência aguda da minha inexperiência.
Lucius é experiente.
Isso fica explícito no modo como ele tira o paletó sem interromper o roçar suave e insistente dos
lábios em meu pescoço. E um segundo depois ele solta as abotoaduras às minhas costas e eu as
ouço tilintar no chão.
Nem sei como as abotoaduras funcionam. Será que devo ajudá-lo? Será que devo me despir?
Claro, Lucius sente minha tensão, já que fiquei rígida nos seus braços, e diz baixinho:
– Não fique nervosa. Eu amo você.
– Também amo você.
Recuo um pouco e seguro sua gravata-borboleta, puxando-a. O que não resulta em nada, só faz
com que a gente quase caia. Ponho a mão no ombro dele, tentando nos firmar.
– Desculpa. Meleca!
Eu não queria dizer aquela gíria sem graça, infantil, nem quase puxar nós dois para o chão.
Estou constrangida e arruinando a noite mais especial da minha vida...
– Permita-me, por favor.
Acho que Lucius vai rir de mim, mas ele não faz isso. E com um puxão breve a gravata está
desamarrada e pendendo em volta do pescoço. Então ele me beija, os lábios firmes porém ternos
contra os meus, e muda a posição para sussurrar de novo ao meu ouvido, murmurando uma das
coisas mais doces que já me disse. Palavras que, tenho certeza, nunca vou esquecer, assim como
nunca poderia me esquecer de seu pedido de casamento ou dos votos que acabamos de trocar.
– Algum dia, Jessica – diz ele baixinho – você vai estar diante de mim neste mesmo quarto
enquanto nos preparamos para alguma cerimônia que ambos odiamos, afinal já teremos estado
em tantas outras durante os anos que passamos juntos, e você vai sorrir, levantar a mão e ajeitar
minha gravata torta, como sempre faz. E um de nossos filhos, talvez nosso primeiro filho, vai
puxar seu vestido, exigindo nossa atenção. Então vou beijar você e me abaixar para pegá-lo,
pensando: Como foi que me tornei tão feliz?
Adoro a historinha. O príncipe guerreiro com quem me casei imaginou aquela cena de família.
A família que vamos criar. Ele nos visualiza muito depois da nossa primeira noite, juntos, felizes e
acostumados um com o outro, mas ainda empolgados, como sempre estaremos...
E de repente não estou nem um pouco nervosa.
– E se só tivermos filhas? – provoco-o, porque sei que o comentário sobre um filho, no masculino,
não foi somente descuidado ou uma brincadeira.
Lucius fora criado para acreditar que ter um herdeiro homem é muito importante.
Passo os braços em volta da cintura dele, sentindo a camisa branca e engomada sob os dedos.
Também sonhei em ter filhos com ele – algum dia. Só tenho 18 anos e nunca contei isso a
ninguém. Mas penso nisso às vezes.
– E se só tivermos meninas, príncipe Lucius? – pergunto de novo, rindo.
Ele ri e aperta a boca mais perto do meu ouvido – e meu corpo mais perto do dele, de modo que
consigo sentir todo o poder, a tensão gostosa crescendo nele, pois apesar de estarmos falando do
futuro, estamos cada vez mais sob o feitiço do presente.
– Se só tivermos filhas, eu serei o vampiro mais feliz que existe – sussurra ele. – Porque aprendi
com você que uma princesa pode ser tão poderosa quanto um príncipe.
Então ele me tira do chão pela segunda vez naquela noite e me carrega para nossa cama, e não
consigo imaginar por que fiquei nervosa ao menos por um segundo enquanto estamos juntos –
completamente juntos – pela primeira vez, e logo os caninos que senti roçando em minha pele
mergulham fundo em meu pescoço outra vez.
Acordei no meio da noite e esfreguei o pescoço como se o sonho tivesse sido real. Não
como se fosse outra alucinação. Foi só um sonho vívido, maravilhoso, que iria se realizar.
Ele tinha previsto nosso futuro, que iria acontecer.
Eu faria acontecer.
Queria ser a mulher que ajeitava a gravata do rei, que comparecia a eventos tediosos e o
olhava colocar nossos ټlhos nos ombros. E queria mais do que isso. Queria recuperar o tal
poder que Lucius tinha visto em mim e que eu havia perdido, e usá-lo para comandar um
reino de vampiros com a mesma força que minha mãe biológica mostrara. Queria tudo isso,
de coração, mais do que já tinha desejado qualquer outra coisa na vida. Enquanto
permanecia na nossa cama, o desejo de governar, que eu havia começado a sentir quando
usei a estaca pela primeira vez e experimentei aquele poder nas mãos, endureceu,
transformando-se em uma resolução feroz. Uma necessidade feroz.
Eu não queria ser apenas a Sra. Lucius Vladescu, ou uma princesa, até. Queria ser rainha.
De repente entendi o que Raniero devia ter sentido naquele momento em que ټcou
tentado a tomar o poder. Mas eu não afastaria minha mão e nem recuaria, temerosa de dar
o golpe final para tomar o que era meu.
Eu tinha algumas horas, e iria aproveitá-las do melhor modo possível para conseguir tudo
o que eu precisava ter.
Quando pus os pés para fora da cama, pensei em Lucius e na imagem da estaca que era
sempre tão importante em nossa vida juntos, e ainda era capaz de sentir a força e a
autoridade nas mãos dele, uma remanescência do sonho – e outra coisa se encaixou para
mim. Uma coisa que era, de novo, uma combinação entre matemática racional e a esfera
irracional dos vampiros – e tão óbvia que eu não conseguia acreditar não ter percebido
antes.
Correndo para me vestir, saí do quarto, sem nem mesmo me dar ao trabalho de me dirigir
a Emilian.
Percebi que ele seguia atrás de mim enquanto eu corria até o quarto de Raniero, onde
entrei sem bater. Fechando a porta e deixando meu guarda do lado de fora, fui até a cama e
sacudi Raniero, dando-lhe um susto, de modo que ele se sentou totalmente alerta, então
perguntei:
– Raniero... Você já exumou um corpo?
CAPÍTULO 103
Antanasia
A noite estava muito fria, mas a lua estava reluzente e nem precisamos de
lanterna quando chegamos ao cemitério, onde não havia árvores para bloquear a luz.
Através das barras do portão de ferro já dava para ver o mausoléu onde meus pais
biológicos tinham sido enterrados – e onde um dia eu talvez fosse repousar – como uma
mancha cinza na vastidão de branco. E à distância também dava para ver a cripta muito mais
grandiosa dos Vladescu, onde um lugar esperava...
Olhei para Raniero, que se mantinha atrás de mim, com uma pá apoiada no ombro como
se fosse uma prancha enquanto eu levantava a tranca.
– Tem certeza de que precisamos fazer isso? – perguntou ele.
– Tenho. Eu me lembro de uma coisa do dia em que Claudiu morreu. Uma coisa na qual
nem pensei, até que você me ensinou a usar uma estaca. – Entrei e logo encontrei o túmulo
de Claudiu. A lápide nova em folha reluzia mais branca do que as que estavam ao redor, e a
neve formava montinhos, afinal a terra tinha sido revirada havia pouco tempo.
Avancei alguns passos, depois me virei, porque Raniero não estava me seguindo. Estava
parado junto ao portão, tenso, como na primeira vez em que eu o encontrara ali.
– Não me diga que você fica nervoso aqui – falei.
Ele se remexeu, inquieto.
– Não, eu já disse que sou preguiçoso. O chão vai estar duro.
– Se não quer ajudar, eu mesma faço.
– Só tento fazer uma piada, Antanasia. – Mas, mesmo assim, ele não se mexeu. Demorou
um instante examinando o cemitério, e mesmo ao luar deu para ver que o queixo dele estava
tenso. – Não gosto de estar aqui. Sou responsável por algumas dessas sepulturas. Andar aqui
é pisar em um campo minado, e me pergunto se a visão de uma lápide vai bastar para me
fazer explodir. Só brinco para afastar pensamentos mais sombrios.
Apertei minha capa com mais força em volta do corpo.
– Desculpe, não pensei nisso. Só quero ajudar Lucius.
Ele me lançou um olhar cético.
– E você acha que desenterrar o corpo de Claudiu Vladescu vai ajudar alguém?
– Acho.
Seus dedos se flexionaram em volta do cabo da pá.
– Ainda não entendo.
– E eu não entendo por que os vampiros ainda investigam crimes como se estivéssemos na
Idade Média, usando tortura, sussurros e a palavra de um vampiro contra outro. Quero
levar provas ao julgamento de Lucius. – Examinei o trecho de neve salpicado de lápides
brancas. Em algum lugar embaixo do chão estava um vampiro que eu não tinha podido
condenar. – Houve testemunhas, mas nenhuma prova de verdade quando o assassino do pai
de Ylenia foi julgado. – Encarei Raniero. – E será que alguém, além de Lucius, tentou
defender você no seu julgamento?
– Não. Ninguém. – Ele arrastou os pés de novo. – Então você quer fazer justiça para os
vampiros igual à dos seriados de TV americanos, sim?
Ele ainda estava meio brincando, mas respondi muito séria:
– Isso mesmo. E, apesar de não termos equipamento de cromatograټa líquida e nem
mesmo um kit para tirar digitais, podemos coletar fatos. Os Anciões podem ser levados a
fazer julgamentos mais racionais, mais comedidos.
Raniero assentiu, pensativo.
– Lucius diz que seu jeito americano lógico de pensar vai beneficiar nossos clãs.
Estávamos separados por alguns metros de neve e eu disse baixinho porém com firmeza, do
mesmo jeito que ele já havia falado comigo várias e várias vezes:
– Se eu consigo sair da cama e encarar as coisas que me aterrorizam no futuro, você pode
encarar seu passado.
O vento soprou e olhei de novo para a cripta dos Vladescu. Será que sou hipócrita...?
Quando me virei, vi que Raniero tinha se aproximado. Nem ouvi o portão se fechar ou a
neve guinchar embaixo das botas pesadas que haviam substituído seus chinelos. Ele virou a
cabeça para a nova lápide.
– Vamos, Antanasia, vamos acabar logo com isso.
Sem mais uma palavra, fui adiante, até o túmulo de Claudiu. Quando chegamos, Raniero
tirou a pá dos ombros, jogou a capa de Lucius no chão, depois se curvou e cravou a pá na
neve e na terra.
Ainda que a terra provavelmente estivesse dura, continuava solta na cova rasa, e Raniero
era forte. Nem ofegou enquanto trabalhava. Poucos minutos depois a pá acertou em
madeira. Em meia hora ele havia liberado o caixão.
Ajoelhando-se ao lado do buraco estreito, ele passou os dedos embaixo da tampa de ébano
e ergueu o rosto para o meu.
– Está preparada, Antanasia? Está frio, e não se passou muito tempo, de modo que não
haverá muita podridão. Mas a visão não vai ser bonita.
Eu sabia disso. E sabia o que havia acontecido na última vez em que tinha olhado para
aquele caixão. Mas precisava me certificar.
– Vá em frente.
Ele puxou com força e eu dei um pulo, pois a tampa cedeu com facilidade, abrindo-se para
revelar o corpo. Inclinando-me, obriguei-me a olhar.
– Tire a mortalha para vermos o ferimento – instruí.
Raniero iniciou, em silêncio, o processo desajeitado de descobrir o peito de Claudiu, e eu
me virei – não porque estivesse surtada demais para olhar, mas porque, mesmo tendo
desprezado Claudiu, parecia desrespeitoso espiar seus ombros nus e ossudos. Eu estava
quase sem graça por ele.
– Diga o que vê.
A voz de Raniero saiu abafada, porque a cabeça dele estava voltada para dentro da
sepultura.
– Talvez você possa me dizer o que deseja que eu procure.
Mas nem precisei responder. Antes que eu dissesse qualquer coisa, ouvi-o murmurar
baixinho uma expressão de surpresa em italiano.
– Mavalà.
Cerca de uma hora depois, tínhamos enterrado Claudiu Vladescu de novo, então Raniero
vestiu a capa, escondendo a estaca recém-esculpida que continuava enټada na cintura da
calça jeans.
Fomos caminhando pelos montes de neve e, quando ele fechou o portão, eu olhei para o
céu, esperando que nevasse mais ainda, pois eu queria que a sepultura parecesse intocada...
para o caso de eu precisar abri-la de novo.
CAPÍTULO 104
Antanasia
– Por que estamos aqui? – perguntei a Raniero. Tateei procurando a estaca
no bolso do meu casaco. Estava tentando me acostumar a andar com ela. – Achei que as
aulas houvessem terminado.
Tínhamos ido direto do cemitério para a camera de miză, e Raniero passara o tempo todo
calado. Enquanto eu acendia as velas, ele andava de um lado para outro, mas não como
ټzera na primeira vez em que eu o encontrara ali. Dessa vez ele ainda parecia um leão, mas
fazia do mesmo jeito que Lucius quando andava para lá e para cá, imerso em pensamentos.
Raniero parecia estar rondando, com a presa à vista.
– Raniero?
Acordei-o de um devaneio que parecia mais profundo ainda do que o sono que eu tinha
interrompido antes.
– Sim? O quê?
– Por que estamos aqui?
– Preciso ver... – Ele foi até a caixa onde a estaca de Lucius estava e abriu a tampa com os
dedos ainda sujos depois de desenterrar um cadáver e de examinar os ferimentos de Claudiu
– … isso.
Ele ergueu a arma de Lucius e a pôs perto do rosto, depois passou um dedo pelas manchas
de sangue em camadas, como se as estivesse analisando. Ou medindo.
Eu ainda conseguia sentir levemente o fedor de Claudiu e, como sempre, queria recuar.
Mas o assassino que sabia tanto sobre ferimentos, estacas e sangue não se afastou do odor
rançoso tal como tinha feito no cemitério. Limpou as mãos na calça, tirando parte da
sujeira, e segurou a estaca mais perto do rosto, inalando o cheiro desde a ponta até o cabo.
Depois se virou para mim e declarou de modo muito solene:
– Esta estaca está manchada com o sangue de Claudiu. Mas não é a arma que destruiu meu
tio.
Meu coração falhou pelo menos umas cinco batidas.
– Como você sabe?
– O sangue de Claudiu, que é pungente, só está na ponta da estaca.
– O que significa...
– Uma pessoa fraca a usou e não conseguiu penetrar o suټciente. Ou o sangue foi posto
mais tarde, por alguém que não sabe quanto a ponta deve penetrar para furar um coração.
Isso é algo forjado ou parte de uma tentativa fracassada, e nós temos certeza de que Lucius
não falharia.
Meu coração começou a bater mais forte.
– Isso é uma boa notícia. Não é?
No cemitério já havíamos estabelecido a precisão de minha memória. Claudiu tinha sido
golpeado três vezes, ao passo que Lucius o teria destruído com uma única investida. Além
disso, Raniero havia determinado que os dois primeiros golpes tinham sido dados por um
vampiro destro. Ele não precisava de nenhum laboratório ou equipamento especial. Só de
seu conhecimento sobre o modo como os ferimentos eram infligidos em lutas mortais.
– Então você está dizendo que não só o número de ferimentos e seus ângulos de entrada
ajudam a inocentar Lucius, mas que a arma dele nem mesmo causou o ferimento fatal?
Eu pedia uma confirmação, porque aquilo era importante demais.
– Sim, mas não se empolgue muito, Antanasia – alertou ele. – Mesmo assim, foi um
vampiro canhoto que furou o coração de Claudiu.
Mas eu estava empolgada.
– Lucius jamais precisaria de ajuda em uma luta – lembrei. – Será óbvio para os Anciões
que ele não estava envolvido.
– Sim. – Mas na verdade Raniero não estava escutando. Dava para ver que as engrenagens
giravam na cabeça dele, e havia algo que não estava me contando. Eu conhecia aquela
expressão reservada. Ele estava ټcando com raiva também, por algum motivo. – Desculpe
por eu não ter olhado a estaca nem o corpo antes.
– Tudo bem. Agora nós sabemos de mais coisas, e é só isso que importa.
Ele balançou a cabeça, no entanto, parecendo mais preocupado ainda. Não pressionei para
que me contasse seus pensamentos, pois ele era igualzinho a Lucius e não revelaria nada
antes de estar pronto para isso.
– Perdi alguns instintos depois que saí deste lugar. – Ele me encarou. – Desculpe.
Não tive certeza se ele estava se desculpando por não ter pensado em veriټcar a estaca
antes ou pelo que fez em seguida: foi até a caixa onde sua arma estava, ainda mais
ensanguentada, e deu um soco no vidro, despedaçando-o e liberando a arma, que levantou
com uma segurança incrível e enټou atrás da calça depois de tirar a outra, menor, mais
nova, e jogá-la no chão.
– Está quase amanhecendo – observou ele quando notou que eu o encarava, sem fala. –
Você deveria se preparar para o julgamento. Acho que este será um dia longo.
CAPÍTULO 105
Mindy
Cheguei ao quarto de Jess bem cedo com meu estojo de maquiagem, pensando
que precisaria fazer mais uma transformação antes de aposentar a tesoura para sempre.
Depois de aprontar Jess para o julgamento, eu nunca mais ia mexer com cabelos. Estava
farta de gente bonita – e de vampiros bonitos.
Mas quando bati à porta e abri, Jess não estava lá.
Quem estava era a princesa Antanasia Dragomir Vladescu.
– Acho que você não precisa de mim hoje – falei. – Uau!
No casamento, ela estava bonita. Mas agora estava poderosa.
Essa era, tipo, a única palavra para descrevê-la.
– Sempre vou precisar de você, Min – disse ela, e de algum modo, embora o amor da vida
dela estivesse para ser julgado e com a vida em jogo, ela sorriu. – Sempre.
Mas não era verdade. Pelo menos não do modo de sempre. Alguma coisa havia mudado
dentro dela, tipo, da noite para o dia. Nós sempre seríamos melhores amigas, mas algo
estava diferente. Não fazia sentido, mas parecia que eu estava me despedindo quando nos
abraçamos.
– Boa sorte, Jess. Vou ficar assistindo.
– Obrigada. – Ela segurou minha mão antes que eu saísse. – E, quando isso acabar, vai ser
minha vez de ajudar você. Sabe disso, né?
Imaginei que ela tivesse percebido que eu estava sofrendo um bocado também. Não tanto
quanto ela, talvez, mas o bastante, a meu modo.
– É, eu sei.
Pensei em contar que eu estava confusa em relação a Raniero, que não sabia se ela deveria
conټar nele, e que eu estava em dúvida quanto à Ylenia também, mas ټquei quieta. Hoje a
luta era dela, e dava para ver em seus olhos que ela estava decidida a vencer. E tentar
confundi-la com relação a vampiros que ela provavelmente enxergava com mais clareza do
que eu não iria ajudar no último minuto. Eu poderia abalar tudo o que ela havia conseguido
construir. Depois de ter lido um milhão de matérias sobre autoconټança, eu sabia que
acreditar em si mesma era metade da batalha.
Se isso era mesmo verdade, então Antanasia Vladescu estava pelo menos 50 por cento a
caminho de vencer seu primeiro julgamento. Por isso falei apenas:
– Fique esperta. Você sabe quem são seus amigos de verdade.
Ela me lançou um olhar dizendo que eu ainda era a número um.
– Sim. Eu sei.
A princesa Antanasia virou para se olhar no espelho, mas não havia nada para consertar no
visual formado pelo terno vermelho escuro ou nos cachos pretos, ou no modo como ela
simplesmente se portava, parecendo ter uns 3 metros de altura. Por isso peguei minha bolsa
e a deixei sozinha.
Assim que fechei a porta, dei de cara com Emilio, que carregava uma garrafa – e um
bilhete.
– Me dê isso.
Estendi a mão.
Ele recuou.
– Este pentru prinţesa.
Eu não saquei nada do que ele disse, mas continuei com a mão estendida.
– Me. Dê. Isso.
Emilio estava acostumado a obedecer e me entregou a garrafa. Abri o bilhete e li: Por favor,
Antanasia, beba antes do julgamento. Você vai precisar de todas as forças. D & Y.
Emilio estendeu as mãos.
– Vă rog, trebuie să duc asta.
Não entendi uma palavra também, por isso não estava mentindo quando disse:
– Desculpe, não falo romeno.
Pude senti-lo me espiando o tempo todo enquanto eu atravessava o corredor com a
garrafa.
Talvez a princesa Antanasia ainda precisasse de mim, só um pouquinho.
Parei em uma das zilhões de salas que quase nunca eram usadas naquele castelo enorme e
joguei toda a minha maquiagem em um tapete, aټnal não iria levar nada daquilo para casa e
as empregadas ganhariam um belo presente surpresa. Parte daquilo era de marcas
concorridíssimas e ainda estava com os lacres. Usei o espaço vazio para guardar a garrafa
cheia de sangue nojento, sentindo-me muito melhor por Antanasia, e um pouco melhor por
mim também, pois tinha quase certeza de que havia salvado a pele dela uma última vez.
CAPÍTULO 106
Antanasia
Os Anciões já estavam reunidos quando cheguei à sala do tribunal e ټz uma
pausa à entrada a ټm de encarar a multidão que tinha ido assistir ao julgamento de Lucius.
A sala estava apinhada, e havia mais vampiros esperando nos corredores e nos arredores dos
muros do castelo.
Eu tinha ouvido um barulho baixo e persistente ao alvorecer, e, quando fui à janela e olhei
para baixo, vi um ٽuxo constante de parentes arrastando os pés pela estrada gelada, do jeito
silencioso que os vampiros fazem graças a séculos tentando não atrair atenção. A princípio
ټquei surpresa, até que me dei conta de que, obviamente, o julgamento era de interesse de
todo o reino. Eu não havia espalhado a notícia de que ele ia acontecer e estivera
preocupada demais para pensar em como nossos súditos estariam curiosos. Tinha até
imaginado a notícia sendo publicada mais tarde, depois do veredicto, mas era claro que,
mesmo sem uma mídia organizada, a data e a hora haviam se espalhado pelos clãs.
De pé na sala do tribunal, demorei um instante a mais para encarar alguns rostos.
Os mesmos vampiros que tinham me visto desmoronar no enterro de Claudiu estão aqui.
Há ainda mais vampiros aqui.
Sem hesitar mais e sem nem sequer olhar os Anciões ao redor para ver se alguém
questionava, segui direto para a cadeira de Lucius outra vez – o assento do poder – e me
acomodei.
Mantive o queixo erguido enquanto reivindicava meu lugar, depois olhei devagar para a
esquerda e para a direita, encarando todos os Anciões – passando rápido por Dorin, pois
não queria ver o medo dele, que era contagioso – e sustentando o olhar em Flaviu, aټnal
queria que ele enxergasse exatamente o que eu estava projetando.
Poder.
Ele não desviou o olhar de cara e deu um risinho cínico, mas tudo bem. Eu sabia que uma
pequena vitória em uma reunião do conselho não bastaria para desfazer o dano que eu
causara ao me acorvadar durante meses. A pequena dose de respeito em vários rostos dos
Anciões já me bastava.
Sem perder mais tempo, voltei-me para a multidão e anunciei, com uma voz clara que
escondia por completo o terror que eu havia trancado bem no fundo, sabendo que jamais
poderia deixar que voltasse a transparecer em público:
– Tragam o acusado.
Nem mesmo hesitei – nem ao menos pisquei, embora um lado meu gritasse por dentro –
quando Lucius foi escoltado até aquele círculo cinza-claro no chão.
CSUVA - 97-98-99-100-101
CAPÍTULO 97
Lucius
R.,
É, eu me lembro de muitas coisas da convocação que resultou na marca em sua mão. Mergulho
cada vez mais no passado, ou no que parece ser o passado, até a memória ficar mais clara do que
a realidade. E naquela noite me recordo de que você estava com raiva, porém lúcido. Você
recusou até minhas tentativas de conversar, parecendo preferir ficar distante – até que Ylenia
Dragomir se aproximou de você.
Aquilo me pareceu tão estranho... Uma garota que sempre esteve à margem, e ainda mais uma
Dragomir...
Lembro-me de ter pensado, enquanto vocês saíam juntos, grudados demais: “Isso é um erro.”
Porque a expressão nos seus olhos era perigosa, Raniero – porque, para mim, você não parecia
ameaçador, e sim vulnerável. (É estranho usar essa palavra para descrever você – mas é exata.)
E quando fitei seus olhos em seguida, eles estavam desfocados e loucos – diferentes até mesmo do
dia em que você quase me destruiu – e você estava em uma poça de sangue com uma vampira
recém-mordida ao lado... e um vampiro morto aos pés.
Na posição de alguém que está enlouquecendo lentamente, Raniero, eu sei – com mais certeza
ainda do que soube naquela noite – que a mudança que você experimentou em minutos em geral
acontece em horas, dias ou anos. Mesmo naquela época percebi que Claudiu devia ter feito
alguma coisa para alterá-lo, esperando que você fosse destruído por uma turba, afinal não
bastava mandá-lo para longe durante meses seguidos. Nem isso poderia aliviar a preocupação do
meu tio de que um dia a verdade sobre como ele o incitou a me destruir fosse revelada.
E, claro, eu sempre soube que foi Claudiu quem o instigou a me atacar. Eu SEMPRE confiei em
você, Raniero. Não foi a brincadeira que fiz naquele dia que poupou minha vida. Você nunca
chegou mesmo perto de acabar com minha existência, como quis acreditar.
Preciso de toda minha energia para escrever isso, e para manter o foco, mas se isso ajudar você a
perceber que não apenas está apto para retornar à nossa sociedade, como também para
reivindicar seu lugar entre a realeza...
Talvez esta seja minha última carta, e assim, antes de voltar para meus sonhos, que ficam cada
vez mais sombrios e mais longos, dou uma última ordem. Quando eu me for, como parece
provável, seja pela destruição ou entrando no reino das imaginações loucas, reivindique seu lugar
como regente e governe ao lado de Antanasia, pois nós dois sabemos que não existe restrição para
um vampiro blestemată governar. Não há precedente, portanto não há restrição.
Faça isso por TODOS nós, irmão – padrinho – protetor da noiva...
Com gratidão tão eterna quanto espero que seja sua existência,
L.
CAPÍTULO 98
Antanasia
– “In cazul in care acuzatul nu poate vorbi” – leu Raniero em voz alta, o dedo
acompanhando as palavras, e como eu não estava nem perto de entender as frases complexas
nos livros de direito que estávamos examinando, flagrei-me olhando o curativo na mão dele.
Eu fiz isso com ele – e a sensação é terrível. Mas ao mesmo tempo poderosa.
A estaca não havia atravessado por completo, mas eu tinha causado algum dano. Muito
mais do que quando acertei o pé de Lucius com um forcado. E Raniero achou que ټz
direitinho.
– Esta é passagem que estamos procurando – disse ele, me arrancando dos pensamentos. –
Um caso de 1622, mas relevante. In realtà, os Anciões vão respeitar um precedente tão
venerável. Alguns até podem se lembrar do julgamento.
– O que diz exatamente? Preciso saber das palavras exatas.
Raniero pegou um pedaço de papel na escrivaninha de Lucius e começou a escrever.
– No caso de o acusado ser incapaz de falar...
Ele terminou e empurrou o bilhete para mim. E quando sua mão se moveu, o laptop de
Lucius se acendeu pela terceira vez naquela noite. E pela terceira vez vi os e-mails de meu
marido. Todas aquelas conversas com Raniero, algumas datadas de antes da destruição de
Claudiu.
Sobre o que eles discutiam? Futebol e surfe? Ou segredos e política?
– Se você tem o que necessita por enquanto, está ټcando tarde e eu tenho um
compromisso – disse Raniero.
Eu queria estudar aqueles livros de direito a noite toda. Faltava menos de um dia para o
julgamento de Lucius. Mas eu já havia perguntado a Raniero o suټciente por um dia. Talvez
por uma vida inteira. Não tinha o direito de indagar o que era o “compromisso” dele.
Será que tem a ver com Mindy? Porque ela não está preparada para enfrentar o Raniero que
vem surgindo.
– Não vou ver Mindy Sue – informou ele, me surpreendendo. Minha preocupação, pelo
jeito, era óbvia. – Não se preocupe com ela. – Ele deu um sorriso triste e amargo,
combinando os únicos tipos de sorriso que tinha nos últimos tempos. – Eu contei a ela tudo
sobre meu passado enquanto ela usava a tesoura, e o que restava entre nós desapareceu
junto com meu cabelo.
Comecei a me levantar.
– Eu deveria ir vê-la. Ela deve estar chateada.
Porém ele pôs a mão em meu ombro, pressionando-me para voltar a sentar.
– Ela está bem. E creio que também tem planos.
Planos? Tarde da noite em um castelo solitário?
Mas aceitei a palavra de Raniero, pois de qualquer modo eu não podia ser de grande ajuda
para Mindy. Pelo menos não até salvar Lucius. Aí então eu lhe ofereceria um ombro para
chorar, caso ela precisasse.
– Certo, se você tem certeza de que ela está bem.
– Você deveria descansar – sugeriu Raniero, indo para a porta. – Precisa tanto de forças
quanto de conhecimento.
Sentei-me de novo na poltrona de Lucius.
– Não. Vou continuar trabalhando. Posso dormir quando Lucius estiver livre.
– Essa é uma boa atitude. – Raniero abriu a porta. – Melhor ainda do que a de seu marido,
eu acho.
E saiu antes que eu pudesse perguntar o que ele sabia sobre a aparência de Lucius. Ou
sobre sua sanidade.
Eu sabia que precisava trabalhar, mas quando ټquei sozinha não tive certeza de como agir.
Estava ټcando sem tempo para inocentar Lucius, e não tinha prova alguma. Enquanto
lutava para pensar, levei a mão distraidamente ao mouse do laptop e o sacudi, de modo que
o computador acordou de novo, e desta vez cedi à tentação e cliquei no e-mail de Lucius.
Eu não estava xeretando de verdade, só procurava algum tipo de informação que pudesse
ajudá-lo. Queria saber mais sobre Raniero também, aټnal agora o assassino conٽituoso fazia
parte da minha vida. E um lado meu ansiava por ao menos esse pequeno contato com
Lucius. Queria ler sua prosa espirituosa e sarcástica, que era tão... ele.
Sentindo a menor das pontadas de culpa, abri a última mensagem trocada entre os dois
vampiros poderosos e misteriosos e desci a tela até o início da correspondência, que havia
começado semanas antes de meu casamento e continuava esporadicamente até a manhã da
destruição de Claudiu.
Os e-mails, claro, eram destinados a Raniero, e eu captei algumas ideias sobre o
relacionamento deles – e suas suspeitas. Mas também encontrei outra coisa espalhada nas
mensagens, e aquilo era quase melhor do que pistas.
Uma carta de amor para mim.
Pelo menos começava desse jeito.
CAPÍTULO 99
Mindy
Eu deveria ter imaginado que Raniero iria se encontrar com Ylenia em um
jardim. Ele sempre gostava de ټcar ao ar livre e dizia que as construções o sufocavam, e
independentemente do que pensava sobre si, eu sabia que Raniero não estava mudando de
verdade. Podia ter roupas melhores e um novo corte de cabelo, e até parecer louco algumas
vezes, mas ainda era o Ronnie meigo e inofensivo, amante da natureza.
Se ele não fosse um cara legal, não concordaria em fazer a coisa certa por Ylenia, que já
estava sentada perto dele em um banco sob as estrelas. Cheguei tarde, pois precisei pedir
informações a dois empregados diferentes, mas pelo jeito não tinha perdido muita coisa. De
onde eu estava, nas sombras, parecia que todas as coisas piores, mais dolorosas, estavam
acontecendo naquele momento.
– Ylenia – disse Raniero, parecendo muito triste. – Acho que errei por não conversar com
você antes. A princípio acreditei que estava fazendo um favor a você, porque não posso
imaginar quem iria quer um vampiro blestemată, mas talvez essa escolha também devesse ser
sua, não é? Porque nossa tradição diz que o que compartilhamos, o sangue, é um laço para
toda a eternidade.
Fiquei igual a uma das estátuas de mármore ao redor, que eu conseguia ver dali do meio
dos arbustos, como se a Renascença italiana ainda estivesse acontecendo e eu também não
pudesse me mexer. Era como se eu também fosse de pedra.
Eu não deveria ter ido espioná-los. Não estava ali para ٽagrar Ylenia fazendo ou dizendo
alguma coisa errada. Estava ali porque uma parte de mim desejava testemunhar o cara que
eu havia mandado embora – e que eu queria de volta – me abandonar para sempre.
Eu, tipo, queria sofrer. E tive o que queria.
– Entendo por que você agiu daquele jeito – disse Ylenia. – Aquela noite deu tão errado...
– Deu, sim.
Eu a vi levantar a mão e tocá-lo, como eu teria feito, e meu coração se encolheu no peito.
– Mas Lucius acreditou que você não pretendia de fato destruir ninguém naquela noite –
disse ela. – E eu também acredito. Não sei o que aconteceu, mas você não queria fazer
aquilo.
– Até hoje também não entendo. – Ele deu de ombros, quase como se tivesse desistido de
se importar com aquela coisa ruim que havia feito. – Mas sei que nós compartilhamos algo
sagrado para os vampiros, e se você não me desprezar, se de algum modo quiser que
comecemos a nos conhecer mais, aos pouquinhos, e quiser descobrir se talvez deseja um
vampiro perturbado e com certeza condenado, vou cortejá-la como você merecia e ainda
merece.
Ela ټcou sentada, encarando-o, e meu coração encolhido parou. Diga que não! Diga a ele
que não! Diga para ele ir se catar!
Mas, dããã, Ylenia era louca por ele havia anos – ela o odiava e amava completamente – e
respondeu:
– Eu gostaria, Raniero. Isso signiټcaria muito para mim. Assim como aquela noite também
significou.
Nenhum deles disse com todas as letras, mas eu percebi o que havia acabado de ocorrer.
Em resumo, ela aټrmara: “Aceito você como meu, para sempre.” Muita coisa da vida dos
vampiros era um mistério para mim, mas eu sabia que uma garota mordida possuía direitos
sobre o cara para sempre. Como uma garota que não tinha sido mordida, eu sabia disso bem
DEMAIS.
Eu quase fui “destruída” naquele momento, e a única coisa que me impediu de gritar foi
saber que Raniero não retrucara dizendo que aquela noite havia signiټcado muito para ele
também. Fiquei satisfeita ao menos por isso.
Até que ele se inclinou e deu um beijo nela.
Não foi como os beijos que nós dávamos. Eles não se atracaram e ټcaram grudados, sem
conseguir se afastar nem se o mundo acabasse. Foi só um beijo no rosto – mas foi a última
estaca tenebrosa no meu coração.
Comecei a me virar, sabendo que tinha cometido um erro ENORME indo até ali.
Eu não devia ter visto a cena. Isso vai me assombrar para sempre... mesmo que eu não tenha
um para sempre, como eles vão ter, porque ela NUNCA vai largá-lo.
Comecei a respirar de maneira ofegante e histérica, e foi uma surpresa ao menos ter
conseguido ouvir quando ela sussurrou:
– Vou ser boa para você, Raniero. Prometo. E você vai precisar de alguém se... se o pior
acontecer com Lucius e você ascender e se tornar regente de Antanasia. Prometo que estarei
pronta para ajudar a governar.
Eu estava de costas para eles e congelei de novo. Fechei os punhos com tanta força que
minhas unhas se cravaram na pele.
Vaca. Ela ERA uma vaca cheia de truques.
E eu não soube que diabo Raniero quis dizer quando respondeu:
– Obrigado, Ylenia. Acredito que você vai agir bem ao meu lado caso eu ocupe o lugar de
regente, governando com Antanasia na ausência de Lucius.
Uma de minhas unhas quebrou de encontro à mão.
Estava tudo errado. Ele não deveria agir como se houvesse alguma chance de Lukey não
ټcar bem. Amigos não falam daquele jeito. E ele não deveria estar falando sobre governar
nada. Ele não queria aquilo. Sempre jurou que não queria...
Então por que ele parecia estar babando diante da chance de ocupar o lugar de Lukey?
De repente eu não sabia se estava certa em relação ao meu ex-namorado.
Fiquei ali naquele jardim muito silencioso, como se duas pessoas tivessem parado de
conversar para se beijar mais um pouco, e pela primeira vez imaginei se Raniero não havia
escondido algumas coisas muito importantes de mim. Imaginei se ele não teria mentido para
todos nós o tempo todo, fingindo ser um cara legal e um bom amigo.
CAPÍTULO 100
Antanasia
Ainda que Lucius não falasse sobre Raniero com frequência, havia ocasiões em que
eles trocavam um bocado de e-mails. A correspondência entre os dois era uma daquelas
coisas que ele escondia até de mim – talvez em parte porque era onde ele falava sobre mim.
Eu tinha certeza de que esse era o único fórum, além de nosso quarto, onde Lucius Vladescu
chegava ao menos perto de expressar sentimentos.
“Minha esposa está enfraquecendo, Raniero... Eu me preocupo com ela... Não suporto vê-la
lutando...”
– Desculpe, Lucius – murmurei, com vergonha. – Desculpe mesmo.
Subindo pela tela, percebi que tinha chegado ao ټm da sequência de mensagens e me
recostei na poltrona, com raiva de mim mesma e enxergando mais claramente ainda como
me encolhera atrás dele desde nosso casamento. Como eu o havia deixado na mão e
aumentado seus fardos.
Quase todas as primeiras mensagens de Lucius incluíam algum tipo de elogio a mim – em
geral escondidos dentro dos papos de homem sobre esportes, estacas e os méritos de usar
calça ou não. Antanasia é brilhante, Raniero. Você precisa vir ao meu casamento, nem que seja
para ver a mulher que tem o poder de ME deixar sem fala.
Raniero havia escrito sobre Mindy também, e apesar de eu ter pulado essas partes, pois não
queria xeretar, ټcou claro, mesmo com todos os rsrsrs sobre os sapatos dela, que ele se
importava muito com minha amiga, e talvez enxergasse as necessidades dela com mais
clareza do que ela mesma. “Ela frequenta a faculdade porque a mãe quer, mas eu lhe disse que
há uma escola de estética excelente, não muito longe da casa da praia.”
Infelizmente, com o tempo, os dois relacionamentos pareceram se desintegrar um pouco.
Os rs de Raniero terminavam muitas vezes com um “mas triste”, enquanto Lucius começava a
expressar arrependimento, não por ter se casado comigo, mas por me arrastar para uma
vida que estava me esmagando aos poucos.
Reli uma das últimas mensagens, na qual Lucius pedia a Raniero, mais uma vez, para vir
ajudá-lo a cuidar do reino de forma que pudesse se concentrar mais em minha proteção.
– Desculpe – repeti, levantando o dedo para fechar o programa.
Mas segundos antes de clicar notei a hora e a data das últimas mensagens, que tinham sido
trocadas durante um breve período no qual Lucius mencionou que eu estava dormindo
perto dele, pois às vezes ele trazia o laptop para nosso quarto e trabalhava diante da lareira.
Descendo de novo pela tela, acompanhei a sequência mais uma vez, ټcando empolgada
enquanto as imagens de relógios, de Lucius me acordando e de sangue vermelho intenso
começavam a dançar de repente diante dos meus olhos.
Obriguei-me a me acalmar e a pensar com clareza, usando os dois hemisférios do cérebro.
Pense como uma vampira – e uma atleta de matemática, Jess. Use seu lado racional e sua nova
familiaridade com o sangue. E aos poucos a pergunta foi se formando na minha mente:
Dada a taxa de coagulação do sangue, será que um vampiro que estava mandando mensagens
às 6h47 – e ao meu lado na cama às 7h15 – poderia estar no saguão na hora certa para cravar
uma estaca três vezes em seu inimigo?
CAPÍTULO 101
Antanasia
O julgamento de Lucius estava chegando e eu tinha apenas uma prova
minúscula a favor dele, por isso pensei que jamais conseguiria dormir naquela noite. Só que,
não fazia muito tempo, eu havia cravado uma estaca na mão de Raniero, lido as leis e
realizado meu estudo habitual de romeno, então acho que estava exausta, pois assim que
minha cabeça bateu no travesseiro, caí no sono quase no mesmo instante.
Ou talvez eu não tivesse dormido de fato, porque enquanto estava apagando comecei a ter
um sonho quase tão nítido quanto as alucinações que havia sofrido. Só que dessa vez – talvez
alimentada pelos e-mails de Lucius – tive um sonho bom.
Na verdade, era uma lembrança. Uma lembrança que começava na noite em que me casei,
quando Lucius fechou a porta de nosso quarto, de modo que, pela primeira vez desde que
havíamos recitado nossos votos, estávamos a sós.
Lucius
R.,
É, eu me lembro de muitas coisas da convocação que resultou na marca em sua mão. Mergulho
cada vez mais no passado, ou no que parece ser o passado, até a memória ficar mais clara do que
a realidade. E naquela noite me recordo de que você estava com raiva, porém lúcido. Você
recusou até minhas tentativas de conversar, parecendo preferir ficar distante – até que Ylenia
Dragomir se aproximou de você.
Aquilo me pareceu tão estranho... Uma garota que sempre esteve à margem, e ainda mais uma
Dragomir...
Lembro-me de ter pensado, enquanto vocês saíam juntos, grudados demais: “Isso é um erro.”
Porque a expressão nos seus olhos era perigosa, Raniero – porque, para mim, você não parecia
ameaçador, e sim vulnerável. (É estranho usar essa palavra para descrever você – mas é exata.)
E quando fitei seus olhos em seguida, eles estavam desfocados e loucos – diferentes até mesmo do
dia em que você quase me destruiu – e você estava em uma poça de sangue com uma vampira
recém-mordida ao lado... e um vampiro morto aos pés.
Na posição de alguém que está enlouquecendo lentamente, Raniero, eu sei – com mais certeza
ainda do que soube naquela noite – que a mudança que você experimentou em minutos em geral
acontece em horas, dias ou anos. Mesmo naquela época percebi que Claudiu devia ter feito
alguma coisa para alterá-lo, esperando que você fosse destruído por uma turba, afinal não
bastava mandá-lo para longe durante meses seguidos. Nem isso poderia aliviar a preocupação do
meu tio de que um dia a verdade sobre como ele o incitou a me destruir fosse revelada.
E, claro, eu sempre soube que foi Claudiu quem o instigou a me atacar. Eu SEMPRE confiei em
você, Raniero. Não foi a brincadeira que fiz naquele dia que poupou minha vida. Você nunca
chegou mesmo perto de acabar com minha existência, como quis acreditar.
Preciso de toda minha energia para escrever isso, e para manter o foco, mas se isso ajudar você a
perceber que não apenas está apto para retornar à nossa sociedade, como também para
reivindicar seu lugar entre a realeza...
Talvez esta seja minha última carta, e assim, antes de voltar para meus sonhos, que ficam cada
vez mais sombrios e mais longos, dou uma última ordem. Quando eu me for, como parece
provável, seja pela destruição ou entrando no reino das imaginações loucas, reivindique seu lugar
como regente e governe ao lado de Antanasia, pois nós dois sabemos que não existe restrição para
um vampiro blestemată governar. Não há precedente, portanto não há restrição.
Faça isso por TODOS nós, irmão – padrinho – protetor da noiva...
Com gratidão tão eterna quanto espero que seja sua existência,
L.
CAPÍTULO 98
Antanasia
– “In cazul in care acuzatul nu poate vorbi” – leu Raniero em voz alta, o dedo
acompanhando as palavras, e como eu não estava nem perto de entender as frases complexas
nos livros de direito que estávamos examinando, flagrei-me olhando o curativo na mão dele.
Eu fiz isso com ele – e a sensação é terrível. Mas ao mesmo tempo poderosa.
A estaca não havia atravessado por completo, mas eu tinha causado algum dano. Muito
mais do que quando acertei o pé de Lucius com um forcado. E Raniero achou que ټz
direitinho.
– Esta é passagem que estamos procurando – disse ele, me arrancando dos pensamentos. –
Um caso de 1622, mas relevante. In realtà, os Anciões vão respeitar um precedente tão
venerável. Alguns até podem se lembrar do julgamento.
– O que diz exatamente? Preciso saber das palavras exatas.
Raniero pegou um pedaço de papel na escrivaninha de Lucius e começou a escrever.
– No caso de o acusado ser incapaz de falar...
Ele terminou e empurrou o bilhete para mim. E quando sua mão se moveu, o laptop de
Lucius se acendeu pela terceira vez naquela noite. E pela terceira vez vi os e-mails de meu
marido. Todas aquelas conversas com Raniero, algumas datadas de antes da destruição de
Claudiu.
Sobre o que eles discutiam? Futebol e surfe? Ou segredos e política?
– Se você tem o que necessita por enquanto, está ټcando tarde e eu tenho um
compromisso – disse Raniero.
Eu queria estudar aqueles livros de direito a noite toda. Faltava menos de um dia para o
julgamento de Lucius. Mas eu já havia perguntado a Raniero o suټciente por um dia. Talvez
por uma vida inteira. Não tinha o direito de indagar o que era o “compromisso” dele.
Será que tem a ver com Mindy? Porque ela não está preparada para enfrentar o Raniero que
vem surgindo.
– Não vou ver Mindy Sue – informou ele, me surpreendendo. Minha preocupação, pelo
jeito, era óbvia. – Não se preocupe com ela. – Ele deu um sorriso triste e amargo,
combinando os únicos tipos de sorriso que tinha nos últimos tempos. – Eu contei a ela tudo
sobre meu passado enquanto ela usava a tesoura, e o que restava entre nós desapareceu
junto com meu cabelo.
Comecei a me levantar.
– Eu deveria ir vê-la. Ela deve estar chateada.
Porém ele pôs a mão em meu ombro, pressionando-me para voltar a sentar.
– Ela está bem. E creio que também tem planos.
Planos? Tarde da noite em um castelo solitário?
Mas aceitei a palavra de Raniero, pois de qualquer modo eu não podia ser de grande ajuda
para Mindy. Pelo menos não até salvar Lucius. Aí então eu lhe ofereceria um ombro para
chorar, caso ela precisasse.
– Certo, se você tem certeza de que ela está bem.
– Você deveria descansar – sugeriu Raniero, indo para a porta. – Precisa tanto de forças
quanto de conhecimento.
Sentei-me de novo na poltrona de Lucius.
– Não. Vou continuar trabalhando. Posso dormir quando Lucius estiver livre.
– Essa é uma boa atitude. – Raniero abriu a porta. – Melhor ainda do que a de seu marido,
eu acho.
E saiu antes que eu pudesse perguntar o que ele sabia sobre a aparência de Lucius. Ou
sobre sua sanidade.
Eu sabia que precisava trabalhar, mas quando ټquei sozinha não tive certeza de como agir.
Estava ټcando sem tempo para inocentar Lucius, e não tinha prova alguma. Enquanto
lutava para pensar, levei a mão distraidamente ao mouse do laptop e o sacudi, de modo que
o computador acordou de novo, e desta vez cedi à tentação e cliquei no e-mail de Lucius.
Eu não estava xeretando de verdade, só procurava algum tipo de informação que pudesse
ajudá-lo. Queria saber mais sobre Raniero também, aټnal agora o assassino conٽituoso fazia
parte da minha vida. E um lado meu ansiava por ao menos esse pequeno contato com
Lucius. Queria ler sua prosa espirituosa e sarcástica, que era tão... ele.
Sentindo a menor das pontadas de culpa, abri a última mensagem trocada entre os dois
vampiros poderosos e misteriosos e desci a tela até o início da correspondência, que havia
começado semanas antes de meu casamento e continuava esporadicamente até a manhã da
destruição de Claudiu.
Os e-mails, claro, eram destinados a Raniero, e eu captei algumas ideias sobre o
relacionamento deles – e suas suspeitas. Mas também encontrei outra coisa espalhada nas
mensagens, e aquilo era quase melhor do que pistas.
Uma carta de amor para mim.
Pelo menos começava desse jeito.
CAPÍTULO 99
Mindy
Eu deveria ter imaginado que Raniero iria se encontrar com Ylenia em um
jardim. Ele sempre gostava de ټcar ao ar livre e dizia que as construções o sufocavam, e
independentemente do que pensava sobre si, eu sabia que Raniero não estava mudando de
verdade. Podia ter roupas melhores e um novo corte de cabelo, e até parecer louco algumas
vezes, mas ainda era o Ronnie meigo e inofensivo, amante da natureza.
Se ele não fosse um cara legal, não concordaria em fazer a coisa certa por Ylenia, que já
estava sentada perto dele em um banco sob as estrelas. Cheguei tarde, pois precisei pedir
informações a dois empregados diferentes, mas pelo jeito não tinha perdido muita coisa. De
onde eu estava, nas sombras, parecia que todas as coisas piores, mais dolorosas, estavam
acontecendo naquele momento.
– Ylenia – disse Raniero, parecendo muito triste. – Acho que errei por não conversar com
você antes. A princípio acreditei que estava fazendo um favor a você, porque não posso
imaginar quem iria quer um vampiro blestemată, mas talvez essa escolha também devesse ser
sua, não é? Porque nossa tradição diz que o que compartilhamos, o sangue, é um laço para
toda a eternidade.
Fiquei igual a uma das estátuas de mármore ao redor, que eu conseguia ver dali do meio
dos arbustos, como se a Renascença italiana ainda estivesse acontecendo e eu também não
pudesse me mexer. Era como se eu também fosse de pedra.
Eu não deveria ter ido espioná-los. Não estava ali para ٽagrar Ylenia fazendo ou dizendo
alguma coisa errada. Estava ali porque uma parte de mim desejava testemunhar o cara que
eu havia mandado embora – e que eu queria de volta – me abandonar para sempre.
Eu, tipo, queria sofrer. E tive o que queria.
– Entendo por que você agiu daquele jeito – disse Ylenia. – Aquela noite deu tão errado...
– Deu, sim.
Eu a vi levantar a mão e tocá-lo, como eu teria feito, e meu coração se encolheu no peito.
– Mas Lucius acreditou que você não pretendia de fato destruir ninguém naquela noite –
disse ela. – E eu também acredito. Não sei o que aconteceu, mas você não queria fazer
aquilo.
– Até hoje também não entendo. – Ele deu de ombros, quase como se tivesse desistido de
se importar com aquela coisa ruim que havia feito. – Mas sei que nós compartilhamos algo
sagrado para os vampiros, e se você não me desprezar, se de algum modo quiser que
comecemos a nos conhecer mais, aos pouquinhos, e quiser descobrir se talvez deseja um
vampiro perturbado e com certeza condenado, vou cortejá-la como você merecia e ainda
merece.
Ela ټcou sentada, encarando-o, e meu coração encolhido parou. Diga que não! Diga a ele
que não! Diga para ele ir se catar!
Mas, dããã, Ylenia era louca por ele havia anos – ela o odiava e amava completamente – e
respondeu:
– Eu gostaria, Raniero. Isso signiټcaria muito para mim. Assim como aquela noite também
significou.
Nenhum deles disse com todas as letras, mas eu percebi o que havia acabado de ocorrer.
Em resumo, ela aټrmara: “Aceito você como meu, para sempre.” Muita coisa da vida dos
vampiros era um mistério para mim, mas eu sabia que uma garota mordida possuía direitos
sobre o cara para sempre. Como uma garota que não tinha sido mordida, eu sabia disso bem
DEMAIS.
Eu quase fui “destruída” naquele momento, e a única coisa que me impediu de gritar foi
saber que Raniero não retrucara dizendo que aquela noite havia signiټcado muito para ele
também. Fiquei satisfeita ao menos por isso.
Até que ele se inclinou e deu um beijo nela.
Não foi como os beijos que nós dávamos. Eles não se atracaram e ټcaram grudados, sem
conseguir se afastar nem se o mundo acabasse. Foi só um beijo no rosto – mas foi a última
estaca tenebrosa no meu coração.
Comecei a me virar, sabendo que tinha cometido um erro ENORME indo até ali.
Eu não devia ter visto a cena. Isso vai me assombrar para sempre... mesmo que eu não tenha
um para sempre, como eles vão ter, porque ela NUNCA vai largá-lo.
Comecei a respirar de maneira ofegante e histérica, e foi uma surpresa ao menos ter
conseguido ouvir quando ela sussurrou:
– Vou ser boa para você, Raniero. Prometo. E você vai precisar de alguém se... se o pior
acontecer com Lucius e você ascender e se tornar regente de Antanasia. Prometo que estarei
pronta para ajudar a governar.
Eu estava de costas para eles e congelei de novo. Fechei os punhos com tanta força que
minhas unhas se cravaram na pele.
Vaca. Ela ERA uma vaca cheia de truques.
E eu não soube que diabo Raniero quis dizer quando respondeu:
– Obrigado, Ylenia. Acredito que você vai agir bem ao meu lado caso eu ocupe o lugar de
regente, governando com Antanasia na ausência de Lucius.
Uma de minhas unhas quebrou de encontro à mão.
Estava tudo errado. Ele não deveria agir como se houvesse alguma chance de Lukey não
ټcar bem. Amigos não falam daquele jeito. E ele não deveria estar falando sobre governar
nada. Ele não queria aquilo. Sempre jurou que não queria...
Então por que ele parecia estar babando diante da chance de ocupar o lugar de Lukey?
De repente eu não sabia se estava certa em relação ao meu ex-namorado.
Fiquei ali naquele jardim muito silencioso, como se duas pessoas tivessem parado de
conversar para se beijar mais um pouco, e pela primeira vez imaginei se Raniero não havia
escondido algumas coisas muito importantes de mim. Imaginei se ele não teria mentido para
todos nós o tempo todo, fingindo ser um cara legal e um bom amigo.
CAPÍTULO 100
Antanasia
Ainda que Lucius não falasse sobre Raniero com frequência, havia ocasiões em que
eles trocavam um bocado de e-mails. A correspondência entre os dois era uma daquelas
coisas que ele escondia até de mim – talvez em parte porque era onde ele falava sobre mim.
Eu tinha certeza de que esse era o único fórum, além de nosso quarto, onde Lucius Vladescu
chegava ao menos perto de expressar sentimentos.
“Minha esposa está enfraquecendo, Raniero... Eu me preocupo com ela... Não suporto vê-la
lutando...”
– Desculpe, Lucius – murmurei, com vergonha. – Desculpe mesmo.
Subindo pela tela, percebi que tinha chegado ao ټm da sequência de mensagens e me
recostei na poltrona, com raiva de mim mesma e enxergando mais claramente ainda como
me encolhera atrás dele desde nosso casamento. Como eu o havia deixado na mão e
aumentado seus fardos.
Quase todas as primeiras mensagens de Lucius incluíam algum tipo de elogio a mim – em
geral escondidos dentro dos papos de homem sobre esportes, estacas e os méritos de usar
calça ou não. Antanasia é brilhante, Raniero. Você precisa vir ao meu casamento, nem que seja
para ver a mulher que tem o poder de ME deixar sem fala.
Raniero havia escrito sobre Mindy também, e apesar de eu ter pulado essas partes, pois não
queria xeretar, ټcou claro, mesmo com todos os rsrsrs sobre os sapatos dela, que ele se
importava muito com minha amiga, e talvez enxergasse as necessidades dela com mais
clareza do que ela mesma. “Ela frequenta a faculdade porque a mãe quer, mas eu lhe disse que
há uma escola de estética excelente, não muito longe da casa da praia.”
Infelizmente, com o tempo, os dois relacionamentos pareceram se desintegrar um pouco.
Os rs de Raniero terminavam muitas vezes com um “mas triste”, enquanto Lucius começava a
expressar arrependimento, não por ter se casado comigo, mas por me arrastar para uma
vida que estava me esmagando aos poucos.
Reli uma das últimas mensagens, na qual Lucius pedia a Raniero, mais uma vez, para vir
ajudá-lo a cuidar do reino de forma que pudesse se concentrar mais em minha proteção.
– Desculpe – repeti, levantando o dedo para fechar o programa.
Mas segundos antes de clicar notei a hora e a data das últimas mensagens, que tinham sido
trocadas durante um breve período no qual Lucius mencionou que eu estava dormindo
perto dele, pois às vezes ele trazia o laptop para nosso quarto e trabalhava diante da lareira.
Descendo de novo pela tela, acompanhei a sequência mais uma vez, ټcando empolgada
enquanto as imagens de relógios, de Lucius me acordando e de sangue vermelho intenso
começavam a dançar de repente diante dos meus olhos.
Obriguei-me a me acalmar e a pensar com clareza, usando os dois hemisférios do cérebro.
Pense como uma vampira – e uma atleta de matemática, Jess. Use seu lado racional e sua nova
familiaridade com o sangue. E aos poucos a pergunta foi se formando na minha mente:
Dada a taxa de coagulação do sangue, será que um vampiro que estava mandando mensagens
às 6h47 – e ao meu lado na cama às 7h15 – poderia estar no saguão na hora certa para cravar
uma estaca três vezes em seu inimigo?
CAPÍTULO 101
Antanasia
O julgamento de Lucius estava chegando e eu tinha apenas uma prova
minúscula a favor dele, por isso pensei que jamais conseguiria dormir naquela noite. Só que,
não fazia muito tempo, eu havia cravado uma estaca na mão de Raniero, lido as leis e
realizado meu estudo habitual de romeno, então acho que estava exausta, pois assim que
minha cabeça bateu no travesseiro, caí no sono quase no mesmo instante.
Ou talvez eu não tivesse dormido de fato, porque enquanto estava apagando comecei a ter
um sonho quase tão nítido quanto as alucinações que havia sofrido. Só que dessa vez – talvez
alimentada pelos e-mails de Lucius – tive um sonho bom.
Na verdade, era uma lembrança. Uma lembrança que começava na noite em que me casei,
quando Lucius fechou a porta de nosso quarto, de modo que, pela primeira vez desde que
havíamos recitado nossos votos, estávamos a sós.
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