sábado, 5 de outubro de 2013

CSUVA - 50-51-52-53-54-55

CAPÍTULO 50

Mindy

Alguém me sacudiu para me acordar, aparentemente no meio da noite, e eu

quase gritei, até que vi Jess sentada em minha cama. Na verdade, quase gritei assim mesmo,

pois ela estava um horror. Como se não houvesse dormido nada – eu também quase não

tinha dormido, aټnal não existe nada igual a uma nevasca em uma montanha da Romênia,

mesmo quando se está em um castelo de pedra.

Então me lembrei de tudo o que vinha acontecendo e me senti mal por ter sequer

reparado nos cabelos despenteados de Jess.

– O que aconteceu? – perguntei, sentando-me na cama. Peguei meu relógio da Hello Kitty

e vi que eram sete da manhã, horário da Romênia. – Como foi a reunião?

– Terrível. Levaram Lucius embora e ele está preso na solitária. – Ela ټcou com uma

expressão esquisita. – E sem poder beber sangue, algo pelo qual eu não esperava.

– Ai, nossa, Jess. Que barra! Se bem que não sei o que essa última parte significa.

– Ele... ele... não vai durar muito tempo se não beber sangue. Nós, os vampiros, entramos

em um estado pior do que o coma.

Caramba, parecia que a vida dela estava ټcando cada vez mais horrível, e eu nem sabia o

que dizer. Então simplesmente abri espaço para Jess na cama e ela subiu como se fôssemos

crianças outra vez, uma dormindo na casa da outra.

Mas aí ela mudou de assunto.

– Na verdade, eu não vim aqui falar sobre Lucius. Queria perguntar a você sobre Raniero.

Sobre o que aconteceu entre vocês e o que você acha dele. De verdade.

Imaginei que não houvesse mais jeito de esconder aquela confusão. Aquela confusão

deliciosa.

– Eu devia ter contado há meses – respondi. – Mas estava sem graça porque saí da sua festa

para me atracar com ele. – Fiquei meio vermelha. – Aquilo não foi legal.

– Tudo bem – garantiu Jess. Foi bom ver o sorriso dela, mesmo que bem fraquinho. – Sei

como é ficar nas nuvens por causa de um vampiro de smoking.

– É, só que Ronnie nem sempre usava smoking. – Fiquei repuxando a estampa tribal do

meu cobertor. – Eu também devia ter contado que ele foi, tipo, passar um tempo comigo na

Pensilvânia. – Olhei para ver se ela havia ټcado chocada, e de fato ټcou. – Ele se hospedou

com uns malucos que tinham uma banda em Lancaster, e a gente saiu e se pegou um bocado.

Senti arrepios tristes e maravilhosos só de me lembrar. Tinha sido tão vergonhoso e tão

bom!

Jess estava com os olhos arregalados.

– Você não... Ele não mordeu você, não é?

– Não, não sou vampira. – Eu tinha me expressado mal, então lancei o olhar mais

arrependido do mundo. – Não foi isso que eu quis dizer.

Eu estava era com raiva por ele nunca ter se oferecido.

Mas Jess estava acostumada a me ver pagando mico.

– Tudo bem.

– De qualquer modo... – Dei de ombros. – O lance não deu certo.

– O que aconteceu, exatamente?

– Alô-ou, o que não aconteceu, né? – Comecei a fazer uma lista contando nos dedos. – Ele

não arranjou emprego. Não cortou o cabelo. E nunca tinha dinheiro, apesar de os pais dele

serem super-ricos.

– É, ouvi falar. – Então Jess, tipo, começou a me sondar. – Alguma vez ele pareceu...

perigoso? Tipo, violento?

Eu estava com o coração meio partido, mas mesmo assim tive que rir. Por um segundo. De

um jeito triste.

– Jess, a pior coisa que ele fez foi não me defender quando um dos idiotas que moravam

com ele me acusou de ter roubado pizza da geladeira, apesar de eu ter comprado a pizza. Eu

e o doidão tivemos uma briga enorme, ele me empurrou, e eu ټquei toda, tipo: “Ronnie,

você viu isso?” E tudo o que meu namorado fez foi dizer, com seu sotaque maluco:

“Desculpe, Mindy Sue, mas não posso fazer nada.” E então foi embora e eu saí também. E foi

só! – Suspirei. – Ele é um vagabundo, igual ao meu pai. Nós nunca iríamos dar certo.

– Raniero saiu mesmo de perto quando você foi empurrada?

– Saiu.

Fiquei muito sem graça por contar aquilo a uma garota casada com Lucius Vladescu, o

cara que tinha acabado com Frank Dormand. E não saquei o que Jess disse depois:

– Que bom para Raniero. – Ela me olhou de novo, com bastante atenção. – E você tem

certeza de que ele nunca pareceu nem um pouquinho violento?

– Jess, ele nunca nem se ofereceu para me morder. – Agarrei um dos milhões de travesseiros

da cama e ټquei abraçada a ele. – Para falar a verdade, essa foi realmente a pior parte. – Dei

de ombros, ao estilo Raniero. – Acho que ele apenas não queria compromisso.

Não sei bem o que foi que eu disse, mas pelo jeito Jess tinha concluído alguma coisa,

porque falou:

– É uma pena mesmo que não tenha dado certo para vocês, mas obrigada por ter contado

tudo. Preciso saber quem está morando em meu castelo, agora que Lucius não está aqui para

me orientar.

– Ah, eu conheço Raniero, Jess, e acredite: ele é o cara mais legal do mundo. É um

vagabundo sem ambição, mas é legal.

Eu queria ټcar ali sentada e conversar, talvez pedir um café da manhã na cama, mas de

repente houve uma batida na porta e em segundos a nova amiga de Jess, Ylenia, estava ali

com a gente – às sete da matina, caramba! E então, daquele jeito de quem lamenta mas na

verdade não lamenta nada, ela disse:

– Não queria interromper, mas eu estava procurando você, Antanasia. Fiquei com medo de

ter se esquecido de que a gente precisa planejar um enterro hoje. Tínhamos uma reunião no

escritório de Lucius às sete.

– Ai, nossa, esqueci mesmo. – Apesar de ainda parecer cansada, Jess saiu depressa da cama,

como se Ylenia fosse a chefe. – Desculpe, Min. A gente conversa mais tarde. Talvez a gente

possa almoçar juntas. Que tal?

– É claro.

Mas eu estava sacando a prima de Jess, e ela parecia ter dormido bem.

– Ei, Jess – falei antes que ela e sua nova coleguinha saíssem. – Se você vai usar o escritório

de Lucius, será que eu posso usar o seu?

Ela pareceu surpresa, mas concordou:

– Claro, acho que sim.

Fiquei olhando para Ylenia, que estava dando ordens em romeno a Emilio como se fosse

chefe dele também.

– Obrigada. Só quero procurar umas coisas no Google.

Ou alguém.

Eu esperava conseguir soletrar o nome daquela garota direito.

CAPÍTULO 51

Antanasia

Meu tio Dorin aguardava em frente ao escritório de Lucius, e baixou a cabeça

quando Ylenia e eu nos aproximamos.

– Lamento o que houve com Lucius. Sinto como se meu papel tivesse sido...

Era irracional ټcar com raiva dele só por dizer a verdade – ele não tivera escolha, e eu o

havia colocado na berlinda –, mas não consegui evitar ټcar meio chateada, pensando em

como suas palavras tinham ajudado a pôr Lucius em uma situação tão terrível quanto

aquela. Mas falei:

– Tudo bem. – Em seguida destranquei a porta e mudei de assunto. – Sei que Lucius tem o

livro certo aqui. Só precisamos encontrar.

– Sim, sim – concordou Dorin. – Vou começar a procurar.

O livro que devíamos encontrar nas estantes entulhadas de Lucius se chamava Carte de

Ritual: Nașterea, Moartea, și Căsătorie, ou coisa assim, mas em vez de ajudar na busca fui à

mesa de Lucius, sentei-me e balancei o mouse do laptop, de modo que os e-mails dele

apareceram de novo. Havia pelo menos seis mensagens datadas da manhã da morte de

Claudiu, trocadas entre meu marido e alguém cujo apelido era surټstanoturno3, muito

provavelmente Raniero. Eu não podia imaginar que ele conhecesse nenhum outro

“surfistanoturno”.

– Já encontrei – anunciou minha prima.

Levantei os olhos e vi Ylenia puxando um livro quase do tamanho dela. Meio que esperei

que ela tombasse para trás quando o volume caiu em seus braços, mas ela pareceu pegá-lo

com facilidade e o entregou a Dorin, que o largou na mesa com uma pancada, quase

esmagando o laptop.

Afastei o computador quando meu tio disse:

– O funeral é muito simples, na verdade, até mesmo para um Ancião. Vampiros gostam de

cerimônias grandiosas, mas nós não exageramos na questão do luto. – Ele suspirou. – E

vamos ser sinceros: muitos de nós não temos coisas boas para dizer sobre Claudiu. As

homenagens tenderão a ser breves... e estranhas.

Perguntei a Ylenia e Dorin, que estavam me tirando um pouco do espaço:

– Imagino que eu seja encarregada da homenagem fúnebre, não é?

Minha prima assentiu, e seus cachos balançaram.

– Sim, o soberano deve fazer o discurso para um Ancião. Lucius fez o de meu pai.

– Não que eu não acredite em Ylenia... – falei, girando a cadeira para Dorin. – Mas você

tem certeza de que eu preciso fazer o discurso? Não há como escapar disso?

Eu me sentia mal pela destruição de Claudiu, mas isso não mudava o fato de que ele me

odiava. O que eu diria? “Eu era grata por ele não ter me destruído... ainda. Ele parecia contente

em apenas enfraquecer a mim e a Lucius.”

Isso é que é ser breve e estranho.

– Bem, podemos verificar. – Dorin abriu o Carte de Ritual. – Acho que é possível.

Eu tinha visto o Livro do ritual – Nascimento, morte e casamento antes de me casar. Na

época não tinha entendido nada do romeno, e agora continuava sem entender.

– Vocês vão ter que ler para mim – lembrei aos dois.

– Sim, ټco contente em fazê-lo – concordou Dorin. Ele passou um dedo pela página, que

parecia ser a certa, traduzindo trechos. – Vejamos... rito de enterro para um Ancião... caixão

de ébano... velório organizado... toques de sinos... – Então ele parou e franziu as

sobrancelhas, lendo com mais atenção, para minha decepção. – Sim, infelizmente o membro

mais elevado do clã deve se dirigir aos presentes antes do enterro. E como Lucius não estará

conosco, por motivos óbvios...

Ele deixou o restante no ar e trocou um olhar desconfortável com Ylenia.

Fiquei olhando de um para outro.

– Vocês dois acreditam que ele é inocente?

– Sim, sim! – assentiu Dorin, depressa demais. Depois acrescentou, com mais sinceridade: –

Lucius não é descontrolado. Ele não age por raiva e é ambicioso demais para arriscar o

futuro dele, e o seu, em um impulso momentâneo, ainda que compreensível, para destruir

alguém que desaټou sua autoridade, como Claudiu fez. Lucius seguiria os caminhos devidos

caso quisesse castigar um insubordinado!

Não eram exatamente as palavras mais elogiosas para a defesa de um caráter – que meu

marido não mataria alguém porque isso destruiria sua carreira –, mas eu sabia que Dorin só

conseguia enxergar Lucius como um governante que vivia menosprezando-o.

Por que eles não podem ser amigos? Seria bom o Lucius ter outro aliado também.

– Tenho certeza de que Lucius é inocente – disse Ylenia, com mais convicção.

Lancei-lhe um olhar agradecido.

– Obrigada. – Depois me virei, desamparada, para o livro aberto à minha frente. – Agora,

será que um de vocês, por favor, poderia continuar lendo?

Ylenia e Dorin trocaram um olhar de novo, e meu tio pôs a mão em meu ombro.

– Por que não vai descansar um pouco? – sugeriu ele.

– Você tem tido dias difíceis – acrescentou Ylenia. – Dorin e eu podemos traduzir tudo o

que você precisa saber e escrever um resumo. Talvez dê até para pensarmos em sugestões

para o discurso fúnebre.

– Sim – concordou Dorin. – Podemos cuidar de tudo e informar a Flaviu qualquer coisa de

que ele precise saber também.

Eu tinha consciência de que deveria ټcar com eles, mas estava exausta. E, para ser sincera,

não queria pensar no tal discurso fúnebre... nem lidar com Flaviu.

– Obrigada. Seria ótimo.

Levantei-me para sair, mas Dorin manteve a mão em meu ombro.

– Quer que eu peça o jantar, Antanasia? Sei que a cozinheira não fala inglês.

Fiquei vermelha, desejando não ter conټdenciado que certa vez, esperando surpreender

Lucius, acabei pedindo um prato romeno chamado, de forma muito apropriada, salata de

peşte.

Lucius riu quando viu aquilo no prato.

– Sério, Antanasia? – provocara ele. – Salada de peixe? Você me fez sentir saudade das

lentilhas! Os Vladescu não comem criaturas que se alimentam nas profundezas das águas!

Só de pensar em Lucius – especialmente em Lucius rindo – perdi qualquer apetite que

poderia ter.

– Não quero jantar. Só vou cair na cama.

Então deixei meus parentes sozinhos para fazer meu trabalho enquanto Emilian me

acompanhava até meu quarto, embora àquela altura eu já conhecesse o caminho. O castelo,

coberto de neve – e sem Lucius por perto –, parecia quieto demais, e quando Emilian virou

uma esquina tive plena consciência de que, ao permitir que ele me guiasse aos lugares em

vez de me seguir, eu deixava as costas expostas. Era uma sensação arrepiante, vulnerável, e

quando olhei por cima do ombro algumas vezes pude jurar ter visto uma ټgura me

seguindo nas sombras.

Ou talvez eu estivesse tendo alucinações outra vez.

CAPÍTULO 52

Mindy

De algum modo, sem Lukey por aí, acabei sem guarda-costas e demorei uma

eternidade para encontrar o escritório de Jess. Devo ter testado umas 50 portas e

perguntado: “Princesa? Escritório?” a umas 20 garotas que imaginei serem empregadas, pois

estavam espanando o pó e andando depressa de um lado para outro.

Depois do que pareceu uma hora, enټm abri uma porta e vi uma escrivaninha gigantesca

com uma foto muito meiga de Ned e Dara Packwood sorrindo para mim em um porta-
retratos dourado. O dicionário de romeno-inglês de Jess também estava ali, e eu achei que

ela deveria andar com aquilo no bolso.

Sentei-me na cadeira imensa, liguei o laptop dela e só precisei de três tentativas para

descobrir a senha do computador, que era... dããã... “Lucius1!”.

Quer dizer, o nome do marido dela e um número? A única parte que me atrapalhou foi o

ponto de exclamação, que não fazia o estilo de Jess.

– Mesmo assim não é muito complicado, Sra. Vladescu – falei em voz alta.

Alguns segundos depois, eu tinha acesso a cada um dos milhões de programas de seu

computador incrementado, e à internet. Abri um site de busca e demorei um tempo para

escrever “Ylenia Dragomir” de forma correta.

Mas enټm consegui, e a princípio pensei estar errada. Praticamente não havia nenhum

resultado, e a única coisa que descobri foi o tempo que ela passou no colégio interno. A

Academia Lanier tinha todos os antigos anuários no site, e havia fotos de Ylenia referentes a

todos os anos que ela passara lá. Pelo jeito ela experimentara todas as panelinhas que

existiam – e nunca se encaixou. Ali estava ela, no cantinho junto aos Astros da Ciência,

depois na base de uma pilha de animadoras de torcida e, no primeiro ano do ensino médio

– acho que “antes de o dinheiro acabar” –, ela parecia ter desistido e se juntado aos párias e

aos doidões, porque só apareceu em uma foto, e era uma imagem aleatória de alunos na

arquibancada, com cara de tédio. A galeria dos fracassados. Dava para imaginar que metade

deles acendera baseados assim que o fotógrafo saiu. Para mim, eram todos iguais aos caras

que dividiam a casa com Raniero.

Para ela, deve ter sido um saco, mas não era isso que eu esperava achar – e sim uma foto

dela cravando a estaca em alguém.

– Qual é, Min? – falei para mim mesma. – Pesquise direito pelo menos uma vez na vida!

E talvez eu devesse ter me esforçado mais na faculdade, pois não demorei muito até

encontrar um jornal chamado Destaques da Romênia!, uma espécie de tabloide

sensacionalista daquele ټm de mundo, onde achei outra foto muito diferente, que grudou

na minha cabeça, pois eu nunca esqueceria aquilo.

Não foi por causa da aparência de Ylenia. Foi principalmente por causa da pessoa com

quem ela estava, o que tirou meu fôlego, como se eu tivesse levado um chute.

Depois que aquela foto ټcou gravada em meu cérebro, entrei na Amazon, onde eu sabia

que duas traças de livros como Jess e Lukey deviam ter conta, e usei o cartão de crédito

deles para comprar um presente para Jess que iria ajudá-la muito a virar uma princesa

romena de verdade.

E não era um vestido novo, uma tiara ou um cetro, como eu teria pensado algumas

semanas antes.

O que comprei por 69 dólares e 95 centavos – mais 38 dólares para o frete internacional

mais veloz – foi poder.

CAPÍTULO 53

Raniero

Lucius,

Lamento saber que sofre com a privação em seu cativeiro. Se eu pudesse trocar de lugar com

você, faria isso. Gostaria muito de meditar tendo apenas um rato como companhia. Será que

pensar nas palavras do venerável Cheng Yen ajuda? “A felicidade não resulta de ter muito, e sim

de estar ligado a pouco.”

Repito esse ditado com frequência em minha cabana humilde, lembrando que sou muito feliz

tendo quase nada. Para alguém como eu, é melhor ter areia escorrendo pelos dedos vazios do que

sangue em mãos cheias de dinheiro, sim?

Mas, afinal de contas, quem é Raniero Lovatu para mandar um príncipe abandonar os desejos

mundanos? Principalmente quando durmo com tanto conforto em uma cama macia à sua custa?

(rs)

Claro, tenho certeza de que você não deseja a sabedoria de filósofos chineses, e sim notícias de

sua esposa, que vigio do mesmo modo que faria com minha própria vida – se eu ainda a

valorizasse.

Durma em paz esta noite, Lucius. Antanasia não chora, nem na frente dos amigos, e isso diz

muito sobre ela, eu acho. Ela é mais forte do que até mesmo você acredita, irmão.

Você me aconselha muitas vezes no quesito roupas, por isso ousarei oferecer palavras

importantes também.

Não desejo essa experiência para nenhum de vocês, mas não se pergunta se sua esposa não vai

crescer mais rápido para cumprir seu papel de principessa quando não estiver à sombra do

enorme carvalho que é Lucius Vladescu? Todas as coisas ficam mais fortes ao sol e ao vento, sim?

Esta é uma ideia na qual se pensar em suas horas de companheirismo silencioso junto a seu

amigo rato, sim? (Já pensou em coexistir em vez de CHUTAR, Lucius?)

Também saiba que investigo o crime, conforme você anseia. Claro que Raniero vai encontrar o

verdadeiro assassino. (Imagino que, como conhecedor das ciências, você esteja pensando agora:

Semelhante atrai semelhante. E sentindo-se mais seguro! rsrsrs, que triste.)

Até acredito que já respondi a uma de suas perguntas. Há um bom motivo para seu inimigo

escolhê-lo como a primeira presa. Ele teme a vingança sobre a qual você escreve, caso algo

aconteça a sua esposa. (Fico temeroso só de ler sua última messagio!) E assim resolvemos uma

parte do quebra-cabeça, e depressa.

A maior charada é: qual é o objetivo dessa trama?

E por que nós “evitamos” a discussão do fato de eu ser o suspeito mais provável, como seu

sucessor legítimo na linhagem do trono?

R.

CAPÍTULO 54

Antanasia

A manhã do enterro de Claudiu – e o quinto dia da prisão de Lucius – começou

de um modo que me lembrou do próprio falecido. O dia estava cinza, frio e úmido, com um

cheiro quase bolorento no ar, como se as poucas pessoas corajosas o suټciente para morar

nas casas espalhadas pelo vale sombreado nos arredores de nosso castelo estivessem

queimando madeira podre nos fogões.

Abri a janela pesada, inclinei-me para fora e vi fumaça subindo de chaminés escondidas

pelas árvores, e meu companheiro constante, o medo, me sufocou ainda mais.

Humanos sortudos, que hoje farão coisas comuns de humanos.

Será que vou conseguir me lembrar das palavras que decorei?

– Jess, você está pronta? – Virei-me e vi Mindy entrando no quarto de vestir. – Está quase

na hora, certo?

– Está... Está. – Fechei a janela antes que nós duas congelássemos. Depois me virei e alisei o

vestido preto, que era comprido, simples e feito de lã grossa, pois eu teria que caminhar até

o local do enterro depois do discurso fúnebre. – O que você acha?

Min inclinou a cabeça.

– Acho que você está usando o traje certo. – Ela olhou para meus cachos. – Mas vamos

fazer alguma coisa no cabelo.

Então notei que ela arrastava uma maleta com rodinhas que reconheci de meu casamento:

era o salão de cabeleireiro ambulante de Mindy Stankowicz, talvez mais bem-equipado do

que muitos salões de beleza de verdade. Também percebi que ela vestia preto, tendo

conseguido encontrar em uma de suas outras malas uma roupa adequada para um enterro.

– Mindy, você não precisa ir.

Ela se aproximou e segurou meus ombros, me empurrando para a cadeira da penteadeira.

– Claro que vou apoiar você, Jess. Você teria me ajudado a estudar Arte Renascentista e

Pensamento Crítico se não estivesse tão ocupada governando uma espécie de país, não é?

– Claro. – Enquanto ela segurava meu queixo para ټrmar minha cabeça, acrescentei: –

Obrigada.

Mas Mindy já estava trabalhando, do seu jeito rápido e eficiente.

– Vou fazer um penteado Princesa Grace de Mônaco. Bem puxado para trás e sério.

– Confio em você.

Pensei em Raniero e na decisão que ainda não havia tomado. Será que devo confiar nele?

– Min?

Ela puxou meus cachos para domá-los.

– O quê?

– Você disse que Raniero nem se ofereceu para transformá-la em vampira...

As mãos dela pararam.

– Hã?

– Você teria mesmo... aceitado isso? Viraria vampira por ele? Como eu fiz por Lucius?

Seus dedos puxaram meu cabelo com mais força.

– Não sei. Sério. – Ela deu de ombros e recomeçou a trabalhar. – Não que faça diferença

agora. Ele já está em outra.

Eu mal conseguia me mexer, tamanha era a força com que ela havia prendido minha

cabeça, mas pude ver seu rosto e percebi com um sobressalto... Ela ama Raniero.

Mindy Stankowicz não queria, mas amava um cara que considerava um hippie sem rumo

igual a seu pai fracassado, mas que na verdade era o maior assassino vampiro do mundo e o

segundo na linhagem do trono de meu marido – fato que vinha me mantendo acordada nas

últimas noites.

Será que Raniero deseja secretamente ser rei? Será que o voto de pobreza pacifista não passa de

um ardil? Será que as proclamações de fraternidade escondem um coração traiçoeiro? Ele é

amaldiçoado, afinal, e matou sem ter sido atacado...

Eu precisava decidir no que acreditar em relação ao ex de Mindy. E, nesse meio-tempo,

tinha que convencê-la a mantê-lo assim. Ex.

– Bom, na verdade foi bom vocês romperem, não é?

– É. Claro.

Mas ela não parecia ter certeza.

De repente suas mãos se movimentaram mais depressa ainda, e alguns segundos depois ela

me virou para o espelho, e eu vi que meu cabelo parecia adequadamente sério para um

funeral. Mas meu rosto estava abatido, e os olhos exaustos, assombrados e... solitários. Eu

precisava de Lucius. Precisava de sangue, mas não conseguia me obrigar a beber.

Será que Lucius está muito fraco? Raniero previu que ele começaria a resvalar para o luat em

menos de uma semana, e ele já está sem beber sangue há cinco dias.

Lucius era forte, sem dúvida, mas eu conhecia meu marido, e ele tinha um apetite enorme

por... mim. Levantei a mão e toquei o pescoço onde seus dentes costumavam se cravar. Ele

sempre parecia se conter, jamais sorvendo tanto quanto desejava. E na Pensilvânia ele

raramente ټcava sem um copo enorme, mesmo na escola. Será que seu corpo – e sua mente

– já estaria pifando?

Mindy deve ter pensado que eu estava franzindo a testa por causa do meu visual, porque

disse:

– Você está ótima. Sério.

– Meu cabelo está ótimo, graças a você. Mas eu estou apavorada e cansada. E este dia é

importante demais. – Virei-me para ela. – Não é só o enterro de Claudiu. Eu preciso provar

a todo mundo que estou pronta para comandar, pois muitos nobres que em algum

momento vão votar sobre minha condição de ser rainha estarão lá. Preciso fazer isso direito,

por Lucius.

Eu nem mesmo me permitia pensar que talvez não chegássemos à tal votação.

– Ei, Jess! – Min agarrou meus ombros e os sacudiu. – Você é a garota que levou os nerds

de matemática da Woodrow Wilson às semiټnais do campeonato regional. E se lembra do

ano em que aquele bezerro que você criou, o Fedido, foi para a exposição agropecuária

estadual?

– O nome dele era Felício – corrigi. – Você é que chamava de Fedido.

De repente, o absurdo completo de nossa conversa – sem mencionar quanto meus “feitos”

eram patéticos – pareceu atingir nós duas, e toda a minha tensão explodiu em uma onda de

gargalhadas histéricas que contaminaram Mindy. Nós duas rimos até eu chorar. Então

chorei até chorar de verdade, e Min me abraçou e garantiu:

– Vai dar certo, Jess. Lucius ficará bem. E você vai mostrar quem manda hoje. Você vai.

Não era nem mesmo uma questão de realizar um trabalho ótimo, percebi. Nós duas

provavelmente sabíamos que apenas enfrentar o funeral já seria uma vitória.

– Espero que sim – declarei.

Min já estava me soltando quando alguém bateu à porta e eu me recompus o suټciente

para gritar:

– Entre!

Claro, eram Dorin e Ylenia, vindo garantir que eu estava em condições de ir ao funeral.

Mas depois que enxuguei os olhos de novo vi que meu tio carregava algo nos braços, como

se fosse um bebê. Sentindo-me mais arrasada ainda, já sem vontade de rir, olhei para Min e,

mesmo querendo que ela ficasse, falei:

– É melhor você ir agora.

Porque, mesmo que ela estivesse apaixonada por um vampiro e tivesse me visto oferecer e

beber sangue em meu casamento, eu não queria que ela me visse bebê-lo daquele jeito.

CAPÍTULO 55

Antanasia

– Não sei... talvez eu devesse esperar até o funeral.

Mas Dorin já estava derramando um líquido espesso, quase preto, em uma pequena taça de

prata que me lembrou a que eu havia segurado sob o pulso aberto antes de meu casamento,

para que Lucius pudesse beber meu sangue na cerimônia. Desejei que tivessem trazido uma

taça diferente.

– Não, não, Antanasia – protestou ele com seu jeito afável. Porém a mão dele estremeceu

ao servir, como se também não estivesse muito seguro. – Acho que não é sensato esperar.

Você precisa ter forças para este dia. – Como se eu me importasse, ele acrescentou: – E este

é de uma safra maravilhosa da adega. Muitos adorariam prová-lo!

Eu precisava de sangue, mas olhei para a taça com aversão.

– Não é por causa do gosto.

Ylenia avançou e disse a Dorin:

– Dê-nos um momento, por favor. Está bem?

– Sim, claro. – Meu tio pareceu satisfeito em recuar para um canto. – Levem o tempo que

precisarem.

Ylenia se aproximou e falou baixo demais para que Dorin pudesse ouvir:

– Ele não entende o que você está sentindo, pois acho que nunca se apaixonou.

Continuei olhando a taça, cheia com o sangue de um estranho.

– É, ele não entende.

– Mas está certo no que diz respeito à sua necessidade de fazer isso. – Ela pôs a mão no

meu braço. – Não se sinta mal, Antanasia. Não é errado só porque Lucius não está aqui.

Você precisa fazer.

Fitei os olhos dela – que tinham a mesma tonalidade dos meus – e não enxerguei somente

compaixão, mas também uma compreensão genuína, e de repente me lembrei da pergunta

que Mindy havia feito.

Quem mordeu Ylenia?

Por que ela não tinha um parceiro? Porque, se ela era totalmente vampira, seus caninos

estavam liberados para crescer e mudar a partir da mordida de um vampiro do sexo

masculino, e esse momento era o simbolismo mais próximo do sagrado que os vampiros

possuíam. Meu casamento havia sido um reconhecimento público do compromisso entre

mim e Lucius, mas nosso momento particular tinha sido mais importante ainda. Antes de

mergulhar os caninos em meu pescoço, Lucius me dissera: “Isto, para nós, é a eternidade.”

A partir daquele momento eu só deveria beber dele, e ele de mim.

– Está tudo bem – garantiu Ylenia de novo. – Se estiver sozinha, você precisa beber desse

jeito. Lucius vai entender. Ele diria para você fazer isso.

A compreensão nos olhos dela me deu coragem para pegar a taça.

– Eu sei. Sei que está certa.

Então ela recuou e eu ergui a taça rapidamente, porque tinha medo de não conseguir caso

hesitasse. O sangue possuía um gosto tão amargo e acre que engasguei quando ele tocou

meus lábios. Eu tinha ouvido os vampiros falarem sobre as safras incríveis que haviam

provado, e sabia que Dorin devia ter escolhido dentre as melhores da famosa adega dos

Vladescu, porém senti ânsia de vômito enquanto o sangue passava pela minha garganta. Não

era só o gosto que me sufocava, ou a ideia generalizada de beber sangue, aټnal eu fazia isso

o tempo todo. Era a sensação de estar violando meus votos, não importando o que Raniero,

Ylenia ou Dorin dissessem.

Estou traindo Lucius... de novo. Traindo-o...

– Apenas beba – sussurrou Ylenia, tocando meu ombro. – Engula de uma vez só, se

precisar. Está tudo bem.

Assenti, encostei a taça nos lábios de novo e fiz o que ela disse. Bebi depressa, esvaziando a

taça, depois a bati na penteadeira e limpei a boca com a mão. Meus dedos tremiam, e eu vi o

sangue neles.

– Pegue um pano molhado, Dorin – ordenou Ylenia. – Agora.

– Sim, sim – disse ele.

Um instante depois, meu tio limpava minhas mãos, e os dois pareceram entender que eu

não queria falar mais.

Fomos juntos para a câmara do funeral e meu corpo de fato parecia mais forte, mas eu não

conseguia deixar de pensar que deveria ter esperado até depois do enterro – deveria ter

confiado em meus instintos, e não na insistência bem-intencionada de meus parentes –, pois

minha cabeça estava uma confusão na primeira vez em que eu iria me apresentar diante de

um grande número de súditos.

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