CAPÍTULO 40
Antanasia
Lucius e eu estávamos na antessala onde sempre aguardávamos o início dos
conselhos com os Anciões, e eu estava bem consciente de que aqueles seriam nossos últimos
momentos de privacidade até... quando?
– Não demonstre preocupação – sussurrou ele. E, apesar de em geral usarmos aquele
espaço para nos preparar para parecer líderes e agir como tal (pelo menos o pouco que eu
havia conseguido), Lucius me abraçou. – Não vamos ټcar separados por muito tempo –
prometeu ele. – E lembre-se também de que agora você pensa em termos de eternidade, e
algumas semanas não significam nada.
Apoiei-me nele, querendo absorver sua força. O tempo – seriam mesmo semanas? – iria
passar devagar. E, no entanto, as semanas também não pareciam nada quando eu tentava
imaginar como descobriríamos quem havia destruído Claudiu antes que um julgamento se
tornasse inevitável.
– Odeio isso – desabafei.
Ele mudou de posição e tocou meu queixo com o indicador.
– Agora você é uma princesa – lembrou, parecendo ao mesmo tempo terno e um pouco
duro. – O tempo de chorar acabou.
– Eu sei. Prometo que não vou chorar de novo.
Pelo menos não até estar sozinha na cama esta noite.
– Conټe em Raniero – insistiu Lucius. – Sei que ele não parece nenhum herói, mas as
aparências enganam. Ele é um vampiro com muitos talentos, e a maioria deles pode ser útil
para você nas próximas semanas. Tirando, claro, a capacidade de “ټcar ligadaço” ao “dropar
uma onda”. – Lucius esboçou um sorriso, mas logo ټcou sério de novo. – E, fora você, ele é
o único vampiro em quem confio. O único.
– Queria que houvesse mais tempo para você me falar sobre ele.
– Infelizmente não temos esse luxo. – Lucius olhou para a porta que iria se abrir a qualquer
segundo, depois me encarou de novo. – E acho melhor que Raniero decida o que deseja
revelar sobre si. Porque ele tem uma forte inclinação à privacidade. – Ele me puxou para
mais perto. – Apenas confie na fé que eu tenho nele, Antanasia, e permita que ele a ajude.
Senti a garganta apertar, pois sabia que estávamos ficando sem tempo.
– Eu te amo – falei. – Te amo muito.
– Também te amo, Jessica. – Lucius me abraçou com mais força ainda. – Te amarei por
toda a eternidade. Vamos superar essa tempestade.
Assenti como se realmente acreditasse nisso, então ele baixou a cabeça e roçou os lábios
nos meus, depois se afastou, de modo que eu estava ao seu lado mas ainda assim me sentia
solitária. Empertigando os ombros e ajeitando os punhos da camisa, Lucius se transformou
de marido em governante que provavelmente seria prisioneiro em breve, e a voz dele saiu
mais firme ainda quando me disse:
– É hora de você assumir de fato seu papel como princesa. E tenho certeza absoluta de que
se sairá bem, muito além das expectativas de qualquer pessoa, principalmente das suas.
Então, em meio àquela deixa silenciosa que eu precisaria aprender caso um dia tivesse
coragem de reunir os Anciões sem Lucius, a porta dupla se abriu.
CAPÍTULO 41
Antanasia
Os Anciões já estavam reunidos ao redor da mesa, e diante de cada um
havia uma caixa semelhante à que também aguardava diante do assento de Lucius. Até meu
tio Dorin tinha uma pequena caixa de pinho, se bem que eu não conseguia imaginá-lo
usando uma estaca nem mesmo para fazer churrasquinho.
Enquanto ajeitava minha cadeira para mais perto da mesa observei meu marido, que já
estava dando início à reunião.
– Não desejo perder tempo – disse ele. – Vejo que todos trouxeram suas armas. Vamos em
frente.
Senti minha garganta se fechando, de modo que eu mal conseguia respirar.
Quero perder tempo. Quero fugir com você e viver como Raniero, em uma cabana na praia.
Mas isso não ia acontecer. Lucius já estava apontando com a cabeça para a esquerda, em
direção a Flaviu, que sem dizer palavra abriu a caixa diante de si e exibiu sua estaca,
batendo-a na mesa com uma segurança que proclamava inocência. Um instante depois
Horatiu Dragomir o acompanhou. Então foi a vez de Dorin e eu vi suas mãos tremerem,
ainda que sua estaca estivesse completamente limpa. Não havia nenhuma gota de sangue
nela, pois ele era adepto da fuga, não da luta.
Assim como eu? Porque não estou mais tão segura...
E assim foi, caixas se abrindo ao redor da mesa, mãos pálidas se enټando nelas, estacas
batendo na madeira. Era como assistir a uma onda muito sinistra passando por cima de mim
antes de arrebentar do outro lado, cobrindo Lucius.
NÃO!, senti vontade de gritar quando chegou a vez dele. Precisamos de mais tempo!
Mas só pude ټcar olhando, horrorizada, enquanto o vampiro que eu amava basicamente se
entregava à condenação.
No momento em que Lucius abriu a caixa e bateu sua estaca sobre a mesa com tanta
segurança quanto qualquer um dos Anciões, todos os vampiros na sala arfaram e o ambiente
foi preenchido por vozes romenas chocadas, ultrajadas e... acusadoras.
CAPÍTULO 42
Antanasia
– Explique isso, Lucius – exigiu Flaviu, levantando-se. – É óbvio que isso é
sangue de Claudiu!
É, era mesmo. Esforcei-me bravamente contra a ânsia de tapar o nariz de novo. O sangue
estava seco, mas fresco o suficiente para que o cheiro permeasse a sala.
– De fato é o sangue de Claudiu – concordou Lucius com toda a calma. – Isso é óbvio.
– E como ele foi parar aí? – berrou Flaviu. Ele permanecia de pé e seus olhos brilhavam,
como se mal pudesse esconder o júbilo pela ascensão ao poder e pela aparente queda
abrupta de Lucius. – Você está confessando, Lucius?
– Ora, ora, Flaviu. – Dorin fez uma interferência rara. – Tenho certeza de que o príncipe
Lucius tem uma boa explicação para isso. – Meu tio ofereceu um sorriso trêmulo e
esperançoso a Lucius. – Você tem, não tem, Lucius?
Mas Lucius balançou a cabeça.
– Não, não sei como o sangue de Claudiu foi parar aí, mas vou encontrar a explicação. –
Em seguida encarou cada um dos Anciões, acrescentando: – E a justiça será feita. Não
somente pela destruição de Claudiu, mas por essa tentativa óbvia de me destruir.
Flaviu sentou-se bruscamente, como se estivesse exasperado.
– Mas este exercício se destinava a determinar quem destruiu meu irmão! – Ele apontou
para mim e eu me encolhi. – Sua esposa o sugeriu!
Senti meu rosto ficar vermelho.
– Sim, e se Antanasia e eu quiséssemos esconder alguma coisa, não teríamos prosseguido
com isso – lembrou Lucius a todos. – E mesmo assim pedimos que as armas fossem
mostradas...
Minhas bochechas ficaram mais quentes ainda. Pelo menos eu pedi.
– … e eu me apresentei a vocês e mostrei minha estaca voluntariamente – acrescentou ele.
– Porque sou inocente e isso será provado.
– E nesse meio-tempo? – perguntou Flaviu com um risinho. – O que faremos? – Ele se
dirigiu a Lucius. – Com o devido respeito, é difícil justiټcar por que você ټcaria à solta
neste castelo! – Ele apelou aos outros. – A prova garante uma votação para decidir a
detenção do príncipe, não concordam?
Houve um silêncio longo e tenso, durante o qual eu olhei para todos ao redor. Todos o
consideram culpado. Exceto Dorin, talvez.
Mas nem mesmo meu tio ousou voltar a me encarar. Ficou remexendo na caixa onde
guardava sua estaca, fechando-a com dedos desajeitados.
E quando enټm me voltei para Lucius, percebi que meu momento havia chegado. Seus
olhos pediam que eu falasse – e asseguravam que eu podia fazer o que tínhamos decidido.
Mesmo assim, minha voz tremeu quando me expressei, baixo demais:
– Flaviu está certo em relação às provas.
Eu nunca tinha assumido nenhum cargo mais importante do que o de tesoureira da minha
turma na escola, por isso as palavras pareceram estranhas em meus lábios quando
acrescentei:
– Vamos votar agora.
Eu sabia que os Anciões ټcaram chocados ao me ouvir assumindo o comando – e ao
perceber que Lucius iria mesmo cumprir a lei. Mas, apesar de toda a insistência dele de que
o que estávamos fazendo era certo, não consegui encarar meu marido enquanto dizia:
– Aqueles que acreditam que Lucius Vladescu deve ser detido até ser inocentado ou
julgado, levantem a mão esquerda e digam “Sim”. Os que acreditam que ele deve
permanecer livre, levantem a mão direita e digam “Não”.
Com exceção de Flaviu, que ergueu a mão esquerda sem vacilar, todos foram hesitantes,
aټnal todo mundo sabia que, se por ټm fosse absolvido, o príncipe Lucius se lembraria do
desenrolar da votação. Mas a prova contra ele era tão evidente que, um por um, os Anciões
se renderam ao “Sim”.
Até mesmo Dorin pareceu não ter escolha, embora houvesse ensaiado levantar a mão
direita. Mas isso só aconteceu porque ele era um raro vampiro destro e muitas vezes se
confundia nas votações. Então se conteve e levantou a esquerda, que tremia feito uma folha
ao vento.
– É unânime – atestei, arrasada, quando todas as mãos já estavam ao alto. – Lucius
Vladescu será encarcerado.
Quando percebi que Lucius não parecia perturbado nem com medo, interpretei como uma
nova prova de sua coragem. Ele parecia orgulhoso – de mim. Mesmo que eu não conseguisse
deixar de me sentir uma traidora, especialmente quando me levantei e ordenei aos guardas,
usando as palavras que ele tinha me ajudado a memorizar: “Intraţi, gardieni.”
Fiquei aliviada por eles obedecerem à minha ordem, porém senti ânsia de vômito quando
Lucius se levantou, virou-se e estendeu as mãos às costas por vontade própria. Pensei ter
ouvido o guarda murmurar um pedido de desculpas enquanto lhe prendia os pulsos com
uma corrente de ferro.
E quando o cadeado antigo foi trancado, os Anciões, inclusive Flaviu, permaneceram
sentados, imóveis.
Percebi então que a estratégia de Raniero estava certa. Nós havíamos abalado o mundo
deles. Um príncipe estava obedecendo à lei mesmo quando ela não atendia aos seus
objetivos. Isso provavelmente nunca tinha acontecido em toda a brutal história dos
vampiros.
Lucius e eu nos encaramos, e ainda que eu quisesse usar meu novo poder para libertá-lo,
obriguei-me a dizer:
– Luaţi-l.
Levem-no.
Ele assentiu para mim mais uma vez, garantindo que eu tinha feito tudo certo. Depois, de
cabeça erguida, virou-se para os Anciões e disse:
– Não se esqueçam disso. Agora todos somos governados pela lei, e eu me submeto, de bom
grado, para provar que entramos em uma nova era. – No entanto, ele semicerrou os olhos
de um modo que tornava difícil acreditar que fosse mesmo um prisioneiro. – E lembrem-se
também, quando eu for inocentado, de que o castigo para quem de fato destruiu Claudiu
será breve e rigoroso, também de acordo com nossas leis. – Um vestígio de seu eu
aristocrático emergiu. – Garanto que, quando eu estiver no papel de juiz, também não me
esquecerei deste momento.
Ele me olhou mais uma vez pouco antes de o guarda abrir a porta, permitindo que Lucius
saísse à frente, intocado. O príncipe Vladescu podia ter se submetido às correntes para
provar um argumento, mas de jeito nenhum aceitaria ser arrastado. Nem mesmo guiado
com gentileza.
Fiquei ali, em meio a um silêncio impotente.
Mesmo depois que o som dos passos dele esmoreceu, continuei de pé, aټnal meus joelhos
tremiam tanto que eu tinha medo de cair caso me sentasse. Mas antes que eu pudesse dizer
“A reunião está encerrada”, Flaviu levantou a mão direita, a não dominante, o que
sinalizava um pedido para falar.
Não! O pânico me invadiu. Nós não planejamos isso. Estou sozinha!
Mas até eu entendia que precisava respaldar a fala do vampiro que provavelmente estava
disposto a derrubar meu mundo inteiro, talvez até mesmo à custa da existência do próprio
irmão.
Eu sabia que a estaca dele estava limpa. Mas também sabia que Flaviu Vladescu era maligno
e capaz de coisas que eu nem mesmo era capaz de imaginar, por motivos impensáveis para
mim.
Mas o que eu poderia fazer, além de permitir que ele causasse mais dano ainda?
CAPÍTULO 43
Mindy
Eu estava sentada no meu quarto folheando uma revista, mas era como se
estivesse lendo sobre arte na faculdade, porque não conseguia me concentrar em nada. Nem
conseguia pensar nos problemas de Jess, pois em algum lugar naquele castelo havia um cara
de bermuda...
Olhei para a porta pela milionésima vez. Não que eu queira que ele venha me procurar! NÃO
quero!
E lá estava eu bancando a boba quando alguém enfim bateu à porta e eu caí da cama e meio
que engatinhei para atender, porque meus pés estavam embolados nos lençóis de dois
milhões de fios.
– Já vou! – gritei. Chutei aquelas cobertas chatas para longe e me levantei. – Já estou indo!
Demorei um segundo ajeitando o cabelo – não que minha aparência importasse –, abri a
porta e...
VAMPIROS IDIOTAS!
CAPÍTULO 44
Mindy
Nossa, ele estava um horror.
Um horror gostosíssimo.
Quando abri a porta, Raniero estava encostado na parede, as mãos nos bolsos da pior das
suas quatro bermudas e usando a pior de todas as suas cinco camisetas – aquela com o
desenho assustador do taco –, e o cabelo estava um desastre maior ainda comparado à
última vez que eu o vira, no verão. Era como se ele nem tivesse cogitado cortar as ondas
castanhas e longas com ټos clareados pelo sol. E o cavanhaque precisava ser aparado
também, mais do que o normal.
Ele tirou as mãos dos bolsos e cruzou os braços. Os músculos continuavam espetaculares.
Por ټm, olhei para o rosto dele com atenção. O nariz continuava bonito, e tinha um
calombinho, como se ele tivesse tomado pancadas demais da prancha de surfe ao levar
caldos no mar. E também os lábios, rachados pelo sol. E aqueles olhos verde-acinzentados
que estavam, tipo, se cravando nos meus...
– Oi – falei ټnalmente, pois ele não tinha dito nem uma palavra. Só ټcou me encarando.
Com aqueles olhos incríveis e sensuais de desempregado-desgarrado. Eu sabia o que ele era,
então por que estava tendo diټculdade para falar? Cruzei os braços tal como ele. – O que...
hum... o que você está fazendo aqui?
Raniero continuou mudo. E, quando enټm falou, foi, tipo, a primeira vez que o ouvi soar
ao menos um pouco bravo:
– Eu disse a você um monte de vezes que não viesse aqui. Que é perigoso. E mesmo assim
você veio.
Meio que desviei o olhar, sem saber como me sentia em relação ao jeito como ele estava
falando comigo. Quer dizer, eu sempre quis que ele fosse mais, sei lá, enfático, porém...
– Jess precisava de mim – respondi. Fitei-o outra vez. – E então... por que você está aqui?
Por mim? Você me seguiu?
Não que eu queira isso!
– Lucius me convocou, e desaټar um príncipe Vladescu é punível com destruição. Por isso
obedeci.
– Ah. – Há alguns dias eu teria rido daquilo. Mas de repente eu não sabia direito se era
uma piada. – Então você teve que vir porque não queria se encrencar?
Ronnie continuou encostado à porta desleixadamente, mas seus olhos ټcaram de uma cor
estranha. Uma cor escura que eu nunca tinha visto.
– Você acredita mesmo que eu tenho medo de perder a vida, Mindy Sue? – perguntou ele.
– Eu vim, contra meu bom senso, só para não diټcultar as coisas para Lucius. Não quero
obrigá-lo a escolher entre o cumprimento das leis que ele considera importantes e a
destruição de alguém que tem como um irmão. Não é legal impor esse tipo de escolha
difícil aos amigos. Especialmente quando eles já enfrentam situações difíceis.
Abracei-me com mais força ainda. Então ele tinha vindo por causa de Lucius, e para salvar
a própria pele.
– É, saquei.
Ronnie se aproximou um passo e ټquei surpresa ao notar como ele preenchia todo o
portal. Parecia mais imponente do que antes. E não tão feliz.
– E, claro, vim por sua casa, Mindy Sue.
Dentre todas as coisas idiotas que eu já havia feito, a pior delas foi querer abraçá-lo
naquele momento. Eu queria pular em cima daquele vampiro italiano idiota de quem tinha
sentido tanta saudade e dizer como estava feliz por vê-lo. Queria beijá-lo de novo. E tocar
seu cabelo desarrumado, e sentir sua boca na minha.
Mas ټquei feliz de verdade por não ter feito nada disso quando ele falou o tipo exato de
coisa protetora que eu sempre havia desejado ouvir:
– Vim aqui porque estou preocupado com você. Não consigo dormir em paz sabendo que
você está neste lugar perigoso. – E em seguida ouvi a pior coisa que ele já dissera: – E
também quero dizer que você tem razão. Nós não damos certo como casal, sim? Vou cuidar
de você como uma amiga, e não vou falar de amor de novo. É melhor assim, como você já
disse muitas vezes.
Foi como se um grande balão tivesse estourado em meu coração.
– Ah, claro.
Ficamos nos encarando por mais alguns minutos, e, apesar de eu ter rompido com ele um
milhão de vezes – uma pessoalmente e 999.999 pelo telefone –, nunca pareceu realmente o
fim até aquele momento, quando ele complementou:
– Que bom que a gente deixou isso claro agora. E os dois concordam.
– É, com certeza.
Então ele fechou a porta com a mão tatuada e eu ټquei ali feito uma idiota, sem entender
direito o que havia acabado de acontecer. Eu só sabia que Raniero enټm tinha concordado
em romper comigo – e bem quando quase havia começado a agir como eu sempre desejei
que agisse.
Tranquilo, firme e forte.
Era o que toda garota queria, certo?
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