sábado, 5 de outubro de 2013

CSUVA - 40-41-42-43-44

CAPÍTULO 40

Antanasia

Lucius e eu estávamos na antessala onde sempre aguardávamos o início dos

conselhos com os Anciões, e eu estava bem consciente de que aqueles seriam nossos últimos

momentos de privacidade até... quando?

– Não demonstre preocupação – sussurrou ele. E, apesar de em geral usarmos aquele

espaço para nos preparar para parecer líderes e agir como tal (pelo menos o pouco que eu

havia conseguido), Lucius me abraçou. – Não vamos ټcar separados por muito tempo –

prometeu ele. – E lembre-se também de que agora você pensa em termos de eternidade, e

algumas semanas não significam nada.

Apoiei-me nele, querendo absorver sua força. O tempo – seriam mesmo semanas? – iria

passar devagar. E, no entanto, as semanas também não pareciam nada quando eu tentava

imaginar como descobriríamos quem havia destruído Claudiu antes que um julgamento se

tornasse inevitável.

– Odeio isso – desabafei.

Ele mudou de posição e tocou meu queixo com o indicador.

– Agora você é uma princesa – lembrou, parecendo ao mesmo tempo terno e um pouco

duro. – O tempo de chorar acabou.

– Eu sei. Prometo que não vou chorar de novo.

Pelo menos não até estar sozinha na cama esta noite.

– Conټe em Raniero – insistiu Lucius. – Sei que ele não parece nenhum herói, mas as

aparências enganam. Ele é um vampiro com muitos talentos, e a maioria deles pode ser útil

para você nas próximas semanas. Tirando, claro, a capacidade de “ټcar ligadaço” ao “dropar

uma onda”. – Lucius esboçou um sorriso, mas logo ټcou sério de novo. – E, fora você, ele é

o único vampiro em quem confio. O único.

– Queria que houvesse mais tempo para você me falar sobre ele.

– Infelizmente não temos esse luxo. – Lucius olhou para a porta que iria se abrir a qualquer

segundo, depois me encarou de novo. – E acho melhor que Raniero decida o que deseja

revelar sobre si. Porque ele tem uma forte inclinação à privacidade. – Ele me puxou para

mais perto. – Apenas confie na fé que eu tenho nele, Antanasia, e permita que ele a ajude.

Senti a garganta apertar, pois sabia que estávamos ficando sem tempo.

– Eu te amo – falei. – Te amo muito.

– Também te amo, Jessica. – Lucius me abraçou com mais força ainda. – Te amarei por

toda a eternidade. Vamos superar essa tempestade.

Assenti como se realmente acreditasse nisso, então ele baixou a cabeça e roçou os lábios

nos meus, depois se afastou, de modo que eu estava ao seu lado mas ainda assim me sentia

solitária. Empertigando os ombros e ajeitando os punhos da camisa, Lucius se transformou

de marido em governante que provavelmente seria prisioneiro em breve, e a voz dele saiu

mais firme ainda quando me disse:

– É hora de você assumir de fato seu papel como princesa. E tenho certeza absoluta de que

se sairá bem, muito além das expectativas de qualquer pessoa, principalmente das suas.

Então, em meio àquela deixa silenciosa que eu precisaria aprender caso um dia tivesse

coragem de reunir os Anciões sem Lucius, a porta dupla se abriu.

CAPÍTULO 41

Antanasia

Os Anciões já estavam reunidos ao redor da mesa, e diante de cada um

havia uma caixa semelhante à que também aguardava diante do assento de Lucius. Até meu

tio Dorin tinha uma pequena caixa de pinho, se bem que eu não conseguia imaginá-lo

usando uma estaca nem mesmo para fazer churrasquinho.

Enquanto ajeitava minha cadeira para mais perto da mesa observei meu marido, que já

estava dando início à reunião.

– Não desejo perder tempo – disse ele. – Vejo que todos trouxeram suas armas. Vamos em

frente.

Senti minha garganta se fechando, de modo que eu mal conseguia respirar.

Quero perder tempo. Quero fugir com você e viver como Raniero, em uma cabana na praia.

Mas isso não ia acontecer. Lucius já estava apontando com a cabeça para a esquerda, em

direção a Flaviu, que sem dizer palavra abriu a caixa diante de si e exibiu sua estaca,

batendo-a na mesa com uma segurança que proclamava inocência. Um instante depois

Horatiu Dragomir o acompanhou. Então foi a vez de Dorin e eu vi suas mãos tremerem,

ainda que sua estaca estivesse completamente limpa. Não havia nenhuma gota de sangue

nela, pois ele era adepto da fuga, não da luta.

Assim como eu? Porque não estou mais tão segura...

E assim foi, caixas se abrindo ao redor da mesa, mãos pálidas se enټando nelas, estacas

batendo na madeira. Era como assistir a uma onda muito sinistra passando por cima de mim

antes de arrebentar do outro lado, cobrindo Lucius.

NÃO!, senti vontade de gritar quando chegou a vez dele. Precisamos de mais tempo!

Mas só pude ټcar olhando, horrorizada, enquanto o vampiro que eu amava basicamente se

entregava à condenação.

No momento em que Lucius abriu a caixa e bateu sua estaca sobre a mesa com tanta

segurança quanto qualquer um dos Anciões, todos os vampiros na sala arfaram e o ambiente

foi preenchido por vozes romenas chocadas, ultrajadas e... acusadoras.

CAPÍTULO 42

Antanasia

– Explique isso, Lucius – exigiu Flaviu, levantando-se. – É óbvio que isso é

sangue de Claudiu!

É, era mesmo. Esforcei-me bravamente contra a ânsia de tapar o nariz de novo. O sangue

estava seco, mas fresco o suficiente para que o cheiro permeasse a sala.

– De fato é o sangue de Claudiu – concordou Lucius com toda a calma. – Isso é óbvio.

– E como ele foi parar aí? – berrou Flaviu. Ele permanecia de pé e seus olhos brilhavam,

como se mal pudesse esconder o júbilo pela ascensão ao poder e pela aparente queda

abrupta de Lucius. – Você está confessando, Lucius?

– Ora, ora, Flaviu. – Dorin fez uma interferência rara. – Tenho certeza de que o príncipe

Lucius tem uma boa explicação para isso. – Meu tio ofereceu um sorriso trêmulo e

esperançoso a Lucius. – Você tem, não tem, Lucius?

Mas Lucius balançou a cabeça.

– Não, não sei como o sangue de Claudiu foi parar aí, mas vou encontrar a explicação. –

Em seguida encarou cada um dos Anciões, acrescentando: – E a justiça será feita. Não

somente pela destruição de Claudiu, mas por essa tentativa óbvia de me destruir.

Flaviu sentou-se bruscamente, como se estivesse exasperado.

– Mas este exercício se destinava a determinar quem destruiu meu irmão! – Ele apontou

para mim e eu me encolhi. – Sua esposa o sugeriu!

Senti meu rosto ficar vermelho.

– Sim, e se Antanasia e eu quiséssemos esconder alguma coisa, não teríamos prosseguido

com isso – lembrou Lucius a todos. – E mesmo assim pedimos que as armas fossem

mostradas...

Minhas bochechas ficaram mais quentes ainda. Pelo menos eu pedi.

– … e eu me apresentei a vocês e mostrei minha estaca voluntariamente – acrescentou ele.

– Porque sou inocente e isso será provado.

– E nesse meio-tempo? – perguntou Flaviu com um risinho. – O que faremos? – Ele se

dirigiu a Lucius. – Com o devido respeito, é difícil justiټcar por que você ټcaria à solta

neste castelo! – Ele apelou aos outros. – A prova garante uma votação para decidir a

detenção do príncipe, não concordam?

Houve um silêncio longo e tenso, durante o qual eu olhei para todos ao redor. Todos o

consideram culpado. Exceto Dorin, talvez.

Mas nem mesmo meu tio ousou voltar a me encarar. Ficou remexendo na caixa onde

guardava sua estaca, fechando-a com dedos desajeitados.

E quando enټm me voltei para Lucius, percebi que meu momento havia chegado. Seus

olhos pediam que eu falasse – e asseguravam que eu podia fazer o que tínhamos decidido.

Mesmo assim, minha voz tremeu quando me expressei, baixo demais:

– Flaviu está certo em relação às provas.

Eu nunca tinha assumido nenhum cargo mais importante do que o de tesoureira da minha

turma na escola, por isso as palavras pareceram estranhas em meus lábios quando

acrescentei:

– Vamos votar agora.

Eu sabia que os Anciões ټcaram chocados ao me ouvir assumindo o comando – e ao

perceber que Lucius iria mesmo cumprir a lei. Mas, apesar de toda a insistência dele de que

o que estávamos fazendo era certo, não consegui encarar meu marido enquanto dizia:

– Aqueles que acreditam que Lucius Vladescu deve ser detido até ser inocentado ou

julgado, levantem a mão esquerda e digam “Sim”. Os que acreditam que ele deve

permanecer livre, levantem a mão direita e digam “Não”.

Com exceção de Flaviu, que ergueu a mão esquerda sem vacilar, todos foram hesitantes,

aټnal todo mundo sabia que, se por ټm fosse absolvido, o príncipe Lucius se lembraria do

desenrolar da votação. Mas a prova contra ele era tão evidente que, um por um, os Anciões

se renderam ao “Sim”.

Até mesmo Dorin pareceu não ter escolha, embora houvesse ensaiado levantar a mão

direita. Mas isso só aconteceu porque ele era um raro vampiro destro e muitas vezes se

confundia nas votações. Então se conteve e levantou a esquerda, que tremia feito uma folha

ao vento.

– É unânime – atestei, arrasada, quando todas as mãos já estavam ao alto. – Lucius

Vladescu será encarcerado.

Quando percebi que Lucius não parecia perturbado nem com medo, interpretei como uma

nova prova de sua coragem. Ele parecia orgulhoso – de mim. Mesmo que eu não conseguisse

deixar de me sentir uma traidora, especialmente quando me levantei e ordenei aos guardas,

usando as palavras que ele tinha me ajudado a memorizar: “Intraţi, gardieni.”

Fiquei aliviada por eles obedecerem à minha ordem, porém senti ânsia de vômito quando

Lucius se levantou, virou-se e estendeu as mãos às costas por vontade própria. Pensei ter

ouvido o guarda murmurar um pedido de desculpas enquanto lhe prendia os pulsos com

uma corrente de ferro.

E quando o cadeado antigo foi trancado, os Anciões, inclusive Flaviu, permaneceram

sentados, imóveis.

Percebi então que a estratégia de Raniero estava certa. Nós havíamos abalado o mundo

deles. Um príncipe estava obedecendo à lei mesmo quando ela não atendia aos seus

objetivos. Isso provavelmente nunca tinha acontecido em toda a brutal história dos

vampiros.

Lucius e eu nos encaramos, e ainda que eu quisesse usar meu novo poder para libertá-lo,

obriguei-me a dizer:

– Luaţi-l.

Levem-no.

Ele assentiu para mim mais uma vez, garantindo que eu tinha feito tudo certo. Depois, de

cabeça erguida, virou-se para os Anciões e disse:

– Não se esqueçam disso. Agora todos somos governados pela lei, e eu me submeto, de bom

grado, para provar que entramos em uma nova era. – No entanto, ele semicerrou os olhos

de um modo que tornava difícil acreditar que fosse mesmo um prisioneiro. – E lembrem-se

também, quando eu for inocentado, de que o castigo para quem de fato destruiu Claudiu

será breve e rigoroso, também de acordo com nossas leis. – Um vestígio de seu eu

aristocrático emergiu. – Garanto que, quando eu estiver no papel de juiz, também não me

esquecerei deste momento.

Ele me olhou mais uma vez pouco antes de o guarda abrir a porta, permitindo que Lucius

saísse à frente, intocado. O príncipe Vladescu podia ter se submetido às correntes para

provar um argumento, mas de jeito nenhum aceitaria ser arrastado. Nem mesmo guiado

com gentileza.

Fiquei ali, em meio a um silêncio impotente.

Mesmo depois que o som dos passos dele esmoreceu, continuei de pé, aټnal meus joelhos

tremiam tanto que eu tinha medo de cair caso me sentasse. Mas antes que eu pudesse dizer

“A reunião está encerrada”, Flaviu levantou a mão direita, a não dominante, o que

sinalizava um pedido para falar.

Não! O pânico me invadiu. Nós não planejamos isso. Estou sozinha!

Mas até eu entendia que precisava respaldar a fala do vampiro que provavelmente estava

disposto a derrubar meu mundo inteiro, talvez até mesmo à custa da existência do próprio

irmão.

Eu sabia que a estaca dele estava limpa. Mas também sabia que Flaviu Vladescu era maligno

e capaz de coisas que eu nem mesmo era capaz de imaginar, por motivos impensáveis para

mim.

Mas o que eu poderia fazer, além de permitir que ele causasse mais dano ainda?

CAPÍTULO 43

Mindy

Eu estava sentada no meu quarto folheando uma revista, mas era como se

estivesse lendo sobre arte na faculdade, porque não conseguia me concentrar em nada. Nem

conseguia pensar nos problemas de Jess, pois em algum lugar naquele castelo havia um cara

de bermuda...

Olhei para a porta pela milionésima vez. Não que eu queira que ele venha me procurar! NÃO

quero!

E lá estava eu bancando a boba quando alguém enfim bateu à porta e eu caí da cama e meio

que engatinhei para atender, porque meus pés estavam embolados nos lençóis de dois

milhões de fios.

– Já vou! – gritei. Chutei aquelas cobertas chatas para longe e me levantei. – Já estou indo!

Demorei um segundo ajeitando o cabelo – não que minha aparência importasse –, abri a

porta e...

VAMPIROS IDIOTAS!

CAPÍTULO 44

Mindy

Nossa, ele estava um horror.

Um horror gostosíssimo.

Quando abri a porta, Raniero estava encostado na parede, as mãos nos bolsos da pior das

suas quatro bermudas e usando a pior de todas as suas cinco camisetas – aquela com o

desenho assustador do taco –, e o cabelo estava um desastre maior ainda comparado à

última vez que eu o vira, no verão. Era como se ele nem tivesse cogitado cortar as ondas

castanhas e longas com ټos clareados pelo sol. E o cavanhaque precisava ser aparado

também, mais do que o normal.

Ele tirou as mãos dos bolsos e cruzou os braços. Os músculos continuavam espetaculares.

Por ټm, olhei para o rosto dele com atenção. O nariz continuava bonito, e tinha um

calombinho, como se ele tivesse tomado pancadas demais da prancha de surfe ao levar

caldos no mar. E também os lábios, rachados pelo sol. E aqueles olhos verde-acinzentados

que estavam, tipo, se cravando nos meus...

– Oi – falei ټnalmente, pois ele não tinha dito nem uma palavra. Só ټcou me encarando.

Com aqueles olhos incríveis e sensuais de desempregado-desgarrado. Eu sabia o que ele era,

então por que estava tendo diټculdade para falar? Cruzei os braços tal como ele. – O que...

hum... o que você está fazendo aqui?

Raniero continuou mudo. E, quando enټm falou, foi, tipo, a primeira vez que o ouvi soar

ao menos um pouco bravo:

– Eu disse a você um monte de vezes que não viesse aqui. Que é perigoso. E mesmo assim

você veio.

Meio que desviei o olhar, sem saber como me sentia em relação ao jeito como ele estava

falando comigo. Quer dizer, eu sempre quis que ele fosse mais, sei lá, enfático, porém...

– Jess precisava de mim – respondi. Fitei-o outra vez. – E então... por que você está aqui?

Por mim? Você me seguiu?

Não que eu queira isso!

– Lucius me convocou, e desaټar um príncipe Vladescu é punível com destruição. Por isso

obedeci.

– Ah. – Há alguns dias eu teria rido daquilo. Mas de repente eu não sabia direito se era

uma piada. – Então você teve que vir porque não queria se encrencar?

Ronnie continuou encostado à porta desleixadamente, mas seus olhos ټcaram de uma cor

estranha. Uma cor escura que eu nunca tinha visto.

– Você acredita mesmo que eu tenho medo de perder a vida, Mindy Sue? – perguntou ele.

– Eu vim, contra meu bom senso, só para não diټcultar as coisas para Lucius. Não quero

obrigá-lo a escolher entre o cumprimento das leis que ele considera importantes e a

destruição de alguém que tem como um irmão. Não é legal impor esse tipo de escolha

difícil aos amigos. Especialmente quando eles já enfrentam situações difíceis.

Abracei-me com mais força ainda. Então ele tinha vindo por causa de Lucius, e para salvar

a própria pele.

– É, saquei.

Ronnie se aproximou um passo e ټquei surpresa ao notar como ele preenchia todo o

portal. Parecia mais imponente do que antes. E não tão feliz.

– E, claro, vim por sua casa, Mindy Sue.

Dentre todas as coisas idiotas que eu já havia feito, a pior delas foi querer abraçá-lo

naquele momento. Eu queria pular em cima daquele vampiro italiano idiota de quem tinha

sentido tanta saudade e dizer como estava feliz por vê-lo. Queria beijá-lo de novo. E tocar

seu cabelo desarrumado, e sentir sua boca na minha.

Mas ټquei feliz de verdade por não ter feito nada disso quando ele falou o tipo exato de

coisa protetora que eu sempre havia desejado ouvir:

– Vim aqui porque estou preocupado com você. Não consigo dormir em paz sabendo que

você está neste lugar perigoso. – E em seguida ouvi a pior coisa que ele já dissera: – E

também quero dizer que você tem razão. Nós não damos certo como casal, sim? Vou cuidar

de você como uma amiga, e não vou falar de amor de novo. É melhor assim, como você já

disse muitas vezes.

Foi como se um grande balão tivesse estourado em meu coração.

– Ah, claro.

Ficamos nos encarando por mais alguns minutos, e, apesar de eu ter rompido com ele um

milhão de vezes – uma pessoalmente e 999.999 pelo telefone –, nunca pareceu realmente o

fim até aquele momento, quando ele complementou:

– Que bom que a gente deixou isso claro agora. E os dois concordam.

– É, com certeza.

Então ele fechou a porta com a mão tatuada e eu ټquei ali feito uma idiota, sem entender

direito o que havia acabado de acontecer. Eu só sabia que Raniero enټm tinha concordado

em romper comigo – e bem quando quase havia começado a agir como eu sempre desejei

que agisse.

Tranquilo, firme e forte.

Era o que toda garota queria, certo?

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