sábado, 5 de outubro de 2013

CSUVA - 24-25-26-27-28-29

CAPÍTULO 24

Mindy

Jess e eu nos aninhamos na cama imensa do meu quarto de hóspedes,

desistindo totalmente da tarefa de desfazer as malas. Ambas tentamos ټngir que estávamos

bem, mas a mão de Jess começou a tremer assim que ela tentou abrir o zíper da bolsa que

continha todos os meus sapatos, por isso apenas nos sentamos ao lado do vestido preto que

eu tinha trazido para o caso de ocorrer algum evento chique.

Lancei um olhar bem triste para o vestido. Uma pena: o tal evento chique ia ser um

enterro.

– Sinto muito mesmo por isso ter acontecido agora – disse Jess.

Ela roía as unhas, hábito que, eu sabia, estava tentando abandonar. No entanto, não

comentei nada. Jess já estava com a cabeça cheia demais para ter que se preocupar com

coisas como manicure.

Um dos vampiros velhos tinha sido morto. Quando entrei, achei que fosse, tipo, um

cachorro morto no chão, e ټquei totalmente confusa quando vi que Lucius estava coberto

de sangue. Quando enټm saquei o que estava acontecendo, foi meio que a primeira vez que

entendi por que Jess achava a vida de princesa bem menos empolgante do que o que

narravam nos contos de fadas.

– Você está legal? – perguntei.

Ela tinha olheiras e estava magra demais. Fiquei feliz por ter trazido os bolinhos Tastykake.

– Eu é que deveria estar perguntando isso a você. – Ela me olhou, preocupada de verdade.

– E entendo se quiser dar meia-volta e ir para casa.

Mesmo com ela tendo dito isso, eu conhecia minha melhor amiga: ela queria que eu

ficasse.

– De jeito nenhum, Jess. Não vou abandonar você agora!

Ela pareceu superaliviada.

– Sinceramente, acredito que você está em segurança aqui. – E mesmo assim ela me

ofereceu mais uma chance de recuar: – Mas entendo se quiser ir embora.

Nossa, eu meio que queria ir. Mas aí pensei nas férias com minha mãe pegando no meu pé

todos os dias para eu arranjar um emprego em uma lanchonete qualquer, pois ela ia

começar a me cobrar aluguel, e de repente a alternativa não pareceu tão ruim. Não era como

se algum daqueles vampiros velhos – e, vamos encarar a realidade, um deles era culpado de

assassinato – fosse me perturbar.

– Jess? – falei. – Preciso contar uma coisa.

– É? – Ela ټcou furiosa consigo mesma e tentou de novo, porque estava treinando para

falar de um jeito mais majestoso. – Sim?

– Eu, tipo, levei pau na faculdade – confessei. – Não tenho para onde ir agora, minha mãe

está pê da vida. Se eu for para casa, vou ter que pagar só para morar na porcaria do meu

quarto.

Jess piscou umas 10 vezes, como se estivesse quase tão surpresa com minha notícia quanto

com o fato de um vampiro ter morrido na casa dela.

– Poxa, sinto muito. Acho que as coisas também andaram complicadas para você. Desculpe

se eu estava ocupada demais reclamando da minha vida para prestar atenção nos seus

problemas.

Dei de ombros.

– Tudo bem. Na verdade eu também não tinha sacado o que estava acontecendo com você.

Achei que você estivesse reclamando à toa. Até hoje.

– Pois é...

Jess pareceu meio assustada e sussurrou:

– Estou preocupada de verdade com Lucius.

Foi minha vez de piscar.

– Por quê?

Eu não conseguia imaginar ninguém que exigisse menos preocupação.

Mas Jess ټcou mais quieta ainda, mesmo sabendo que o único vampiro a menos de um

quilômetro de nós era seu guarda-costas pessoal, Emilio.

– Lucius teve uma briga com Claudiu ontem, na frente dos Anciões. Uma briga feia.

Eu não era nenhuma matematleta, mas pelo menos sabia somar dois mais dois.

– Ah, nossa. Que barra, Jess. – Depois tive que perguntar: – Você não acha que ele

poderia...?

– Não. – Ela balançou a cabeça. – De jeito nenhum. – Mas seus olhos ټcaram, tipo,

desesperados. – Você também não acha, não é?

Demorei um segundo pensando. Eu tinha visto Lukey jogar Frank Dormand contra um

armário, e sabia que ele não era nenhum santo. Mas também vira Lukey no casamento deles,

e de jeito nenhum ele iria estragar o que tinha com Jess matando outro vampiro. Além

disso, se Lucius fosse matar alguém, não iria esconder. Faria isso à vista de todos, depois

diria o motivo. E provavelmente você terminaria dizendo: “Claro, Lucius. Saquei tudo!”

Por ټm, mas não menos importante, Jess precisava que eu acreditasse nela. Tomei a

decisão ali mesmo.

– Acredito em você, Jess. Lukey é inocente.

Fiquei feliz porque pude falar aquilo de coração, pois era algo que parecia signiټcar muito

para ela. Jess até tentou sorrir, e disse:

– Tenho certeza de que tudo vai ficar bem, tá?

– Ah, vai, sem dúvida.

Tentei sorrir também. Mas não estava tão segura assim.

Então nós duas ficamos bem quietas, só sentadas ali, meio desanimadas com nossas vidas.

Depois de uns minutinhos, aټnal a gente não conseguia ټcar quieta por muito tempo, Jess

me olhou como se eu fosse alguma equação matemática que ela quisesse resolver. Tipo o

problema de álgebra mais lamentável do mundo.

– O que aconteceu na faculdade, aټnal? Você nunca foi a melhor aluna no ensino médio,

mas também nunca levou pau em nada.

Fiquei vermelha e quase desejei que estivéssemos falando de vampiros mortos de novo.

– Sei lá. Eu só não conseguia pensar naquele lugar.

Eu queria contar a Jess sobre Raniero. Queria mesmo. Mas eu nunca poderia contar a uma

princesa casada com o cara que tinha acabado de lidar com a cena de um crime, todo seguro

de si, que eu havia passado mais de um mês com o único vampiro do mundo que gritaria ao

ver sangue, e talvez até fugisse, pois odiava violência. A violência era a única coisa que ele

odiava.

Eu nunca teria um príncipe de verdade – ټcar de fora da realeza era, infelizmente, a única

coisa que Ronnie não negociava –, mas eu queria mais do que um defensor da paz, pobre,

preguiçoso e maluco-beleza incapaz de me defender. Mesmo que ele tivesse o melhor beijo

do mundo e olhos que me deixavam louca.

Mas Jess me conhecia bem o suټciente para ler minha mente. Ela abaixou a cabeça,

tentando enxergar meu rosto.

– Min, o que aconteceu entre você e Raniero no meu casamento?

Eu sabia que teria que revelar tudo em breve – devia ter contado meses antes –, mas mesmo

assim ټquei feliz quando alguém bateu à porta. Até a pessoa enټar a cabeça pela porta e se

revelar. Uma cabeça coberta de cachos iguais aos de Jess, só que mais crespos, como se

implorassem por um produto à base de silicone. E usava uma blusa roxa, a cor que era

marca registrada de Jess. A boca da garota também era igual à de Jess – só que ela não tinha

culpa por isso.

Mesmo assim, não consegui deixar de pensar: Essa garota é uma cópia pirata de Jess. E eu

conheço falsificações de longe!

Cruzei os braços sobre minha blusa falsiټcada Anna Sui e observei Elaine, ou Elainey, ou

sei lá como era o nome dela, entrar em meu quarto, gaguejando e se desculpando como se

lamentasse a própria existência – mas ela não deixaria que isso a impedisse de se aproximar

de uma princesa.

Então... aquela era a nova amiga de Jess.

CAPÍTULO 25

Antanasia

– Ylenia, esta é minha melhor amiga, Mindy.

Minha prima deu alguns passos hesitantes ao entrar no quarto e sorriu timidamente.

– Oi. Prazer em conhecê-la. Ouvi falar bastante de você.

Mindy assentiu – mas não sorriu.

– É. Eu ouvi coisas sobre você também.

Olhei para Min, surpresa com o cumprimento frio.

Então me virei de novo para Ylenia.

– Então você e Dorin voltaram para a reunião, é isso?

– Bem, eu não vou participar, claro. – Ela olhou para Mindy, que era mais forasteira ainda,

para esclarecer: – Afinal, não sou uma Anciã. Mas sim, Dorin precisa comparecer.

– Então vocês encontraram mesmo o corpo? – perguntou Mindy. Ela inclinou a cabeça em

um gesto que insinuava que a minúscula Ylenia poderia ter cravado uma estaca em um

vampiro de mais de 1,80 metro. – Deve ter sido terrível.

Ylenia estremeceu, uma característica aparentemente comum a todos os Dragomir, do

mesmo modo que a sobrancelha erguida de forma cínica caracterizava os homens Vladescu.

– Sim. Foi terrível. Mas foi Dorin que notou Claudiu primeiro, e tentou me virar para o

lado oposto antes que eu pudesse ver muita coisa. – A voz dela ټcou um pouco embargada

de emoção. – Acho que ele sabia que eu ټcaria perturbada caso visse o corpo, considerando

o que aconteceu há pouco tempo com meu pai.

– O pai de Ylenia foi destruído – expliquei a Mindy. – Lembra do julgamento que contei a

você?

– Sinto muito pelo seu pai – disse Mindy à minha prima. – Meu pai também se foi. É uma

barra.

Ylenia piscou.

– Seu pai... morreu? – quis saber.

– Não, só foi embora – respondeu Mindy secamente. – Mas, de qualquer modo, ele é, tipo,

um fracassado desempregado, então acho que isso não é grande coisa.

Mindy havia passado tanto tempo na fazenda de meus pais que às vezes eu me esquecia da

existência de seu pai imprestável que, não importava onde estivesse, mal telefonava para ela.

– Minha mãe foi embora também. – Em termos de disfunção familiar, Ylenia dava de mil

em Mindy. – Eu não a vejo há anos.

– Lamento – disse Mindy. – É uma barra para você, também.

Ylenia deu de ombros.

– Tudo bem. Por causa disso fui matriculada em um colégio interno na Inglaterra. Pelo

menos até o dinheiro acabar. – Ela deu um jeito de sorrir para mim. – E agora tenho a sorte

de morar na casa da família de Antanasia, desde que ela veio morar aqui.

Mindy não parecia ter mais nada a dizer, e embora a dinâmica esquisita entre elas estivesse

piorando um dia que já estava ruim, tive que perguntar a Ylenia:

– Quer ټcar aqui com a gente? Ou com Mindy, já que preciso me preparar logo para a

reunião?

Meu senso de premonição semipermanente se aguçou de novo ao pensar naquele

encontro. Lucius ameaçou Claudiu. Tudo mundo viu os dois brigando. E ouviu a declaração de

ambos: “Isso não acabou.”

– Na verdade, eu queria conversar com você sobre isso – disse Ylenia. – Sei que não tenho

voz em relação ao que acontece nos conselhos, mas achei que poderia sugerir... – ela

levantou as mãos – não que eu tenha o direito de sugerir alguma coisa a uma princesa...

– Ylenia, nós somos amigas – lembrei a ela. – E seria bom ter uma sugestão agora.

– Bem, eu imagino que Lucius tenha pensado nisto, mas, caso não tenha... talvez você

devesse pedir a todos os Anciões que mostrem suas estacas.

– O quê? – perguntou Mindy antes de mim.

– Foi assim que o assassino de meu pai foi condenado – explicou Ylenia a nós duas, já que,

claro, eu tinha perdido o julgamento. Mas ela olhou para Mindy, presumindo que eu

entenderia o que seria dito a seguir: – Todo vampiro do sexo masculino tem uma estaca que

lhe é dada pelo pai, quando chega à idade adulta.

Então me lembrei de outra coisa do diário da minha mãe. “Uma estaca, como o sangue, é

característica de seu portador...” E eu sabia que Lucius possuía apenas uma estaca.

Virei-me para Mindy, explicando em termos que ela conseguisse entender:

– Ylenia está certa. Uma estaca é como... um presente de bar mitzvah.

Mindy franziu a testa.

– É um presente bem bizarro.

– Talvez – concordou minha prima. – Mas a maioria dos vampiros do sexo masculino, em

particular os nobres, só usará essa estaca quando precisar de uma arma. Ela se torna uma

espécie de extensão de seu braço. – Ylenia fez uma pausa. – E uma estaca nunca é “largada

no lugar errado”.

Assenti, compreendendo.

– Então você está dizendo que, se um dos Anciões destruiu Claudiu, o sangue dele estaria

na arma.

Ylenia assentiu também.

– Sim. O cheiro do sangue de meu pai estava na estaca do assassino dele. Era inconfundível.

– Isso está ficando meio esquisito – interrompeu Mindy. – Sem querer ofender.

– É esquisito – admiti.

No entanto, simplesmente pedir que todo mundo mostrasse sua estaca poderia ser um

jeito eټcaz de encontrar o assassino. Ou de pelo menos ajudar a inocentar Lucius, cuja

estaca estaria limpa.

– Tenho certeza de que Lucius pensou nisso – acrescentou Ylenia de novo. – Mas pensei em

lhe fazer essa sugestão porque de repente ele pode estar distraído, sofrendo.

Eu não tinha certeza se Lucius estava sofrendo, mas com certeza ele estava distraído.

– Obrigada.

– Eu só quero ajudar – disse Ylenia. Depois olhou para a porta. – Vou embora agora.

– Obrigada – repeti. – Vamos fazer alguma coisa mais tarde. Nós três.

Ylenia se animou.

– Seria legal.

Quando ela saiu, comecei a ajudar Mindy outra vez a desfazer as malas. Eu estava me

sentindo um pouco melhor, mas ela tinha ټcado muito quieta. Começou a levar os sapatos

da mala para a parte de baixo do amplo armário de porta dupla, que parecia não ter

tamanho suficiente para guardar todos eles.

Também ټquei calada. Estava preocupada enquanto pendurava um vestido que parecia

perfeito para uma festa que provavelmente não teríamos.

Até que ponto estou preocupada com Lucius?

Onde ele estava ontem à noite?

De repente, Mindy interrompeu meus pensamentos com uma pergunta que eu nunca tinha

pensado em fazer. Mas quando a escutei sendo verbalizada, ela me intrigou de verdade.

– Essa tal de Ylenia... – disse ela quase bruscamente. – Ela é, tipo, uma vampira de verdade,

certo? Tipo, os dentes crescem e ela bebe sangue? Do mesmo jeito que você começou a fazer

depois que Lukey te mordeu?

Virei-me para olhá-la.

– É, acho que sim.

– Hum... – Mindy se ajoelhou para organizar melhor os sapatos. – Fico pensando: quem

diabo mordeu a garota?

CAPÍTULO 26

Lucius

Para: surfistanoturno3@freeweb.net

De: LVVladescu@euronet.web

Raniero,

Não vou esconder minha consternação por saber que mais um jovem vampiro falhou

desertando para a praia. (Será que isso vai virar moda? Sei que não desintegramos ao sol, mas

será que não deveria haver limite de exposição para seres que governam o lado sombrio do

Universo? Será que podemos despertar admiração se estivermos fedendo a bronzeadores com

cheiro de coco?) E também vou adiar o sermão sobre burritos – o que, como você prevê, é

inevitável – para informar que a notícia é verdadeira. Claudiu foi destruído.

Imagino que essa informação inspire em você as mesmas emoções conflitantes que experimento

por perder um tio inescrupuloso e que atormentou a nós dois, muitas vezes com um risinho de

escárnio – e que no entanto era tão ferozmente, tão orgulhosamente um Vladescu. Ou talvez você

não enxergue nada além da crueldade dele nessa altura de sua existência.

Quanto a quem cometeu o ato, ainda não está determinado, e é um assunto que eu preferiria

discutir pessoalmente.

Imagino que você tenha pouca bagagem para arrumar, mesmo para uma estadia prolongada, o

que deve tornar sua viagem muito mais fácil para os músculos, ainda que não para a mente.

L.

P.S.: Melinda chegou – e de modo bastante dramático, uma característica cativante dela. Fique

tranquilo, porque, claro, irei protegê-la – mas reitero que o serviço seria mais bem feito pelo

segundo-na-linha-de-sucessão-do-reino-vestindo-calças.

P.P.S.: Você notará que optei por nem mesmo abordar seu uso da palavra “ mermão”, opção

que continuarei seguindo. Já me dói o suficiente usar a palavra uma vez, aqui, e jamais a trarei à

tona de novo.

CAPÍTULO 27

Antanasia

Lucius caminhava de um lado para outro, as mãos cruzadas às costas e a

cabeça baixa, sem dúvida pensando em tudo o que nós – que ele – havíamos acabado de ler

em voz alta em todos os livros antigos que determinavam quem fazia o que quando um

vampiro era destruído, afinal não havia polícia oficial para os mortos-vivos.

Sentada no sofá de couro, eu o seguia com os olhos para lá e para cá, contando todas as

vezes que ele pisava em um ponto escuro no tapete turco. Uma nódoa de sangue que

nenhuma lavagem parecia capaz de remover. Era como se Vasile, o tio de Lucius que ele

havia destruído naquele local, se recusasse a nos abandonar.

E então, no instante em que pisou naquela mancha pela 54

arqueou uma das sobrancelhas escuras e me causou um choque ao sugerir a pergunta que eu

não descobrira como fazer sem que parecesse que estava duvidando da inocência dele. E eu

não duvidava.

– Você não quer perguntar onde eu estava ontem à noite, Jessica?

a

 vez, Lucius se virou para mim,

CAPÍTULO 28

Antanasia

– Não, Lucius – garanti. – Não preciso perguntar.

Ele sorriu e veio se sentar perto de mim. Abri espaço, mas ele segurou minha mão,

prendendo-me ao seu lado.

– Isso é interessante, porque estou enxergando a pergunta em seus olhos há pelo menos

uma hora.

Fiquei vermelha.

– Lucius, não!

– Tudo bem – garantiu ele. – Assim como os outros, você me viu ameaçar Claudiu. E,

diferentemente dos demais, que vão suspeitar baseados apenas nisso, você entrou neste

escritório tarde da noite e não me achou aqui.

Arregalei os olhos.

– Como você sabia?

Lucius sorriu de novo.

– Eu não vigio você, Jessica. Quando fui para o quarto e dispensei Emilian, ele mencionou

que você havia me procurado aqui e que não me encontrou. – Ele ټcou sério. – E você nem

sentiu quando eu a ajeitei na cama, por isso imagino que não faça ideia de que horas eram

quando me juntei a você.

– É... Sim, dormi pesado ontem à noite.

Depois de ver outra estaca na cama. Aquele sentimento horroroso de mau agouro ټcava

retornando, e eu me esforçava para afastá-lo.

Mas não ajudou em nada quando Lucius acrescentou:

– O fato de eu ter destruído alguém antes... – Seu olhar foi para a mancha no tapete. –

Inclusive outro tio, um ato pelo qual fui julgado... Tenho certeza de que nada disso ajuda a

aplacar as suspeitas de qualquer pessoa sobre meus atos ontem à noite.

– Então onde você estava? Não porque eu não conټe em você. Mas se os Anciões vão fazer

perguntas, eu deveria saber.

Lucius apertou minha mão.

– Você tem certeza de que conټa em mim? – O olhar dele obscureceu. – Porque eu avisei,

nesta mesma sala, que sempre seria um príncipe vampiro e sempre seria traiçoeiro. Tenho

certeza de que usei essa palavra, pois me lembro daquela noite mais nitidamente do que de

qualquer outra, afinal foi a pior, e a melhor, de minha existência até agora.

Encarei os olhos muito sombrios de Lucius, nos quais eu captara aspectos ainda mais

sombrios de seu coração. Eu sabia que ele era capaz de coisas que me causavam calafrios,

tanto no bom quanto no mau sentido. Sem dúvida, ele era capaz de destruir outro vampiro,

e não hesitaria em fazê-lo...

Ele nem sequer piscou, permitindo que eu lhe examinasse a alma.

Mas Lucius só destruiria outro vampiro se isso fosse inevitável, justo e lícito, segundo o código

que ele espera estabelecer de forma mais adequada em nosso reino.

– Conټo em você, Lucius – declarei. – Não importa onde você esteve ontem à noite. Sei

que não destruiu Claudiu.

Havia muito mais assuntos a discutir antes da reunião com os Anciões, mas eu me esqueci

de todos eles – inclusive da sugestão de Ylenia, de pedir que todos mostrassem as estacas –

quando Lucius se inclinou, me beijou e disse:

– Obrigado por sua fé, Jessica. Temo que seja a única conټança que tenho agora, e vou

precisar dela nos próximos dias.

– Mindy também acredita em você.

Aquilo soou bobo quando falei, porque, sério: o que o apoio dela signiټcava? Ela nem era

vampira, quanto mais uma Anciã.

Mas Lucius sempre gostara de Min e pareceu grato.

– Ela tem bom coração. – E deu um sorriso torto. – Talvez ela possa depor a meu favor se

eu precisar do que vocês, americanos, chamam de testemunho de caráter. Tenho certeza de

que garantiria aos Anciões que eu sou “maneiríssimo”, ainda que eles não façam ideia do

que isso signifique.

– Ah, Lucius...

Eu estava rindo, mas também morta de medo diante da lembrança de um possível

julgamento, então me inclinei e lhe dei um beijo.

Encerramos a conversa aí, mas foi como se tivéssemos continuado a conversar enquanto

prosseguíamos com o beijo, terno porém profundo. De vez em quando nos afastávamos para

ټtar os olhos um do outro, e ټquei tão envolvida nos braços dele, tão perdida na sensação

de seus lábios nos meus e em nossa comunicação silenciosa mas intensa, que vários dias se

passaram e só então notei que ele acabou não me contando onde havia estado naquela noite.

E aí já era tarde demais para perguntar qualquer coisa.

CAPÍTULO 29

Antanasia

– Então todos concordam que vamos sepultar Claudiu daqui a cinco dias? –

perguntou Lucius aos Anciões. Em seguida fechou a agenda com capa de couro que usava

nas reuniões, porque o laptop que tinha tentado levar uma vez irritara alguns vampiros da

época dos papiros e dos tinteiros. – Estamos de acordo em relação a isso?

– Sim, sim.

O murmúrio de concordância percorreu a mesa e cabeças grisalhas assentiram.

Soltei o ar, e pareceu que eu o prendia havia horas. Nem tinha percebido como estava

tensa até a reunião parecer se desenrolar sem incidentes. Talvez, sem Claudiu, houvesse

menos probabilidade de os Anciões criarem problemas.

Olhei para Lucius.

Ou será que estavam todos apavorados com a perspectiva de sofrer o mesmo destino de

Claudiu caso discordassem? Deټnitivamente havia um sentimento silencioso de

desconfiança naquela sala.

– Obrigado a todos por terem vindo depois de uma convocação tão em cima da hora –

acrescentou Lucius. – Antanasia e eu vamos mantê-los informados enquanto determinamos

os próximos passos do inquérito desse crime.

Minha respiração se normalizou mais e consegui oferecer um sorriso trêmulo a Dorin, que

parecia compartilhar de meu alívio, sem dúvida porque Lucius não o havia colocado na

berlinda. Ou talvez só estivesse feliz porque mais ninguém tinha sido assassinado. Toda a

pauta havia girado ao redor da garantia de que realizaríamos uma investigação meticulosa e

da decisão sobre a data do enterro de Claudiu, pois precisávamos dar tempo para a notícia

de sua destruição se espalhar por toda a rede mundial de boatos, já que não havia jornal,

quanto mais uma rede de TV como a CNN ou mesmo um site voltado ao público dos

mortos-vivos.

Lucius sentou-se e declarou:

– A sessão está encerrada.

Mas, claro, meu alívio foi prematuro.

– O que exatamente esse “inquérito” vai implicar? – perguntou Flaviu Vladescu. – E quem

exatamente vai conduzi-lo?

Ah, não.

Remexi-me na cadeira para procurar Flaviu e meu coração se apertou. Ele sempre fora

ofuscado pelo irmão mais velho, Claudiu, mas estava claro que agora era sua vez de se

destacar. Tal como Claudiu havia ascendido ao poder após a morte de Vasile. O vampiro

magricela, de nariz aquilino, empertigou-se mais um pouco e tamborilou na mesa, os dedos

magros e nodosos, do mesmo jeito que seu irmão costumava fazer. E Vasile, antes deste.

Tive um lampejo de desconټança. Será que há alguma chance de Flaviu ter algo a ver com a

destruição de Claudiu? Fiquei observando o vampiro caçula saborear seu novo status

enquanto também tentava parecer enlutado, e aquela possibilidade me pareceu plausível.

– Como você sabe, nossas leis relativas à punição são amplas – lembrou Lucius ao tio. –

Mas a investigação tem sido praticamente ignorada. Somente a suspeita tem bastado para

levar as turbas a fazer “justiça”. – Ele me olhou. – Antanasia e eu queremos estabelecer um

protocolo mais moderno e empírico. Só pedimos tempo para discutir o que deverá

acontecer em seguida, para que possamos colocar a questão em votação.

Mesmo odiando atrair atenção, assenti para apoiar o plano. Nós com certeza

concordávamos que a justiça dos vampiros enfatizava demais a vingança e a pressa em levar

os suspeitos a julgamento – e, em consequência, à estaca. E a coisa mais próxima de uma

corporação policial que possuíamos eram vampiros que mais se assemelhavam a caçadores

de recompensa, escolhidos por sua natureza especialmente implacável.

– Permaneçam tranquilos: a destruição de Claudiu não ټcará sem resposta – acrescentou

Lucius.

Mas Flaviu não pareceu tranquilo. Parecia estar com raiva, e olhou ao redor, buscando

apoio.

– Nenhum de vocês é corajoso o suټciente para falar o que todos estamos pensando? Que

aquele que afirma acreditar na “lei” foi o último a ser visto discutindo...

Senti o medo borbulhar dentro de mim e lutei para mantê-lo sob controle. Foi assim que

tudo começou naquele dia.

– Tenha cuidado se for fazer acusações – interrompeu Lucius, lançando um olhar incisivo

de advertência para o tio. – Este não é o lugar nem a hora. Prometo que descobriremos

quem cometeu esse ato.

– Como? – pressionou Flaviu, querendo detalhes. – O que implica esse tal processo

“empírico”?

Embora Lucius já estivesse abrindo a boca para responder, ainda não tínhamos um

processo, e eu imaginei toda a situação fugindo ao controle, do mesmo jeito que havia

acontecido com Claudiu. Foi provavelmente por esse motivo que, apesar de mal ter falado

uma palavra durante qualquer um dos encontros com os Anciões, eu soltei:

– A primeira coisa que pretendemos fazer é pedir que cada Ancião mostre sua estaca.

Flaviu pareceu chocado ao me ouvir erguendo a voz, mas girou e perguntou muito rápido:

– Quando, Antanasia?

Eu não havia pensado nisso, mas precisava dizer alguma coisa. E, quanto antes, melhor.

– Amanhã. Vamos nos encontrar aqui a esta mesma hora.

Houve um silêncio mortal à mesa. Presumi que todos estivessem atordoados por eu enټm

ter anunciado alguma coisa.

Então, de repente, em vez de sons de repúdio – ou mesmo de gargalhadas à minha custa,

como eu meio que esperava –, ouvi murmúrios de aprovação e vi cabeças assentindo.

Apesar das circunstâncias terríveis, senti uma onda de alívio que beirava o orgulho.

Eu enټm tinha feito alguma coisa certa na função de princesa, e olhei para Lucius em

busca de aprovação. Mas quando o encarei percebi que ele não achava minha sugestão tão

fantástica assim. E, apesar de ter me apoiado publicamente, dizendo: “Faremos como

Antanasia determinou e vamos nos encontrar amanhã ao crepúsculo” –, percebi que desta

vez eu de fato tinha feito besteira pelo modo como ele coçou o queixo antes de acrescentar

que a reunião estava encerrada.

Eu só não conseguia deduzir porque, já que meu plano – quer dizer, o plano de Ylenia –

para determinar quem havia destruído Claudiu parecia bastante infalível.

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