sábado, 5 de outubro de 2013

CSUVA - 80-81-82-83-84-85

CAPÍTULO 80

Mindy

Fiquei sentada na cama de Ronnie tomando sorvete Häagen-Dazs de baunilha e

pensando em Jess, Raniero, Ylenia e Lucius, e em toda a confusão na qual estávamos

metidos.

– Conexões, Min – falei para mim mesma. Meu professor de Pensamento Crítico sempre

dizia que qualquer um consegue decorar coisas, mas uma pessoa inteligente faz conexões. –

Conecte os pontos.

Um vampiro morto no saguão. Sangue em uma estaca. Raniero sendo tratado feito um

astro do rock assustador – e esculpindo armas. A expressão de Ylenia quando falou sobre os

dois caras – e Jess. Isso sem mencionar aquela foto na internet, mostrando Ylenia em alguma

festa de vampiros... com Ronnie. E minha melhor amiga, que era a pessoa mais lúcida que já

conheci, tendo alucinações no momento mais importante de seu reinado.

– Ai, nossa. – Tomei outra colherada de sorvete e bati a embalagem na mesinha de

cabeceira, furiosa comigo mesma. – Não sou inteligente o bastante para juntar tudo isso.

Desistindo, joguei-me de volta na cama que tinha o cheiro forte de Ronnie – e de incenso

também, do tipo que ele sempre acendia quando meditava. Aquele negociozinho de

mármore que ele usava para segurar os gravetos de incenso estava ao lado do sorvete, e eu

rolei para olhar dentro da tigelinha. As cinzas pareciam velhas e frias, e não cheiravam

muito, como se ele não entrasse em êxtase mental havia dias.

Na primeira vez em que senti o cheiro daquele incenso peguei no pé dele porque achei que

ele estivesse fumando maconha. Mas ele não fazia isso. Eram aqueles idiotas com quem ele

estava morando que ټcavam doidões com qualquer coisa nas quais pusessem a mão, desde

xarope até cactos, ervas e saquinhos que eles compravam nas esquinas.

– Não deixe isso incomodar você – dissera Raniero quando o cara chamado Dirk teve uma

viagem ruim de verdade e pirou geral. – Induzir visões faz parte de muitas religiões, de

muitas culturas, e não devemos condenar. Viva e deixe viver, sim? Isto aqui é só um lugar

para eu dormir e ficar perto de você.

Debrucei-me no colchão e olhei para aquela pilha de estacas outra vez. Imaginei que “viva

e deixe viver” não fosse a ټlosoټa daquele castelo. Nem para Ronnie, que teria que me dar

muitas explicações... caso voltasse um dia.

Rolei na cama e, mesmo estando com raiva, furiosa e de coração partido, ټquei com sono

depois de algum tempo, e pouco antes de cochilar pensei estar tendo sonhos incríveis, pois

senti cheiro de praia – de Ronnie – no travesseiro dele, ou então eu estava tendo pesadelos

por tomar sorvete antes de ir para a cama com um punhado de estacas em volta.

E naquele instante, quando meus olhos estavam se fechando, enټm senti o início ínټmo de

uma conexão se formando no cérebro. Era uma conexão maluca, mas eu estava em um lugar

completamente doido onde vampiros que citavam Gandhi esculpiam estacas e a garota mais

lúcida do mundo tinha visões, então meio que permiti que tudo se acendesse como o

incenso de Raniero, para ver se a ideia poderia pegar fogo na minha cabeça.

CAPÍTULO 81

Antanasia

Raniero segurou minha mão, guiando meus dedos do mesmo jeito que Lucius

tinha feito ao me mostrar a tranca atrás do espelho do quarto de vestir. Mas enquanto o

guerreiro que eu amava me ensinara uma rota de fuga, o paciټsta estava tentando me

ensinar a lutar.

– Ainda não parece a ideal. – Soltei-me dele e larguei outra estaca, rejeitando-a. – Tem

certeza de que eu não deveria tentar com a de Lucius?

– Não. – O aperto de Raniero havia sido suave, mas o tom fora ټrme. – A estaca de Lucius

é grande demais para sua mão. Eu esculpi estas para você. São as melhores das cerca de 50

que eu criei. – Ele pegou talvez a décima estaca da caixa. – Experimente esta.

Aceitei mais um pedaço de madeira afiada e enrolei os dedos nela, já balançando a cabeça.

– Desculpe. Simplesmente não parece adequada.

– Antanasia.

Levantei os olhos e encontrei Raniero franzindo a testa.

– O quê?

– Será que a arma parece errada na sua mão... ou na sua mente? Na sua consciência? Você

não pode rejeitá-las tão depressa.

Parei, segurando a estaca. Ele tinha razão. Eu estava sendo chata de novo, apesar de minhas

promessas de abandonar a covardia.

– Vou tentar outra vez – respondi em um tom mais resoluto. – E me esforçar mais.

– Ótimo. – O tom dele se abrandou enquanto pegava mais uma estaca na caixa. – Você deve

se demorar para entender a arma. Você aperta com força demais e não se permite senti-la

contra os dedos. Não tenha medo de deixá-la descansar em sua mão e de encontrar o

próprio lugar.

Era estranho como ele levava um toque do ټlósofo até mesmo para aquele lugar e aquela

aula. Fiquei olhando enquanto Raniero sentia o peso da estaca, permitindo que ela caísse

com naturalidade na palma, apertando e soltando os dedos em volta, mas com suavidade.

Havia um ar de concentração no rosto dele, mas era óbvio que Raniero era muito

familiarizado com aquele movimento.

– Aqui! – Ele encontrou o que estava procurando. – Este é o modo de segurar esta.

– Como?

Eu ainda não tinha entendido. A estaca parecia perfeitamente lisa, uniforme por toda a

extensão. Como poderia haver um lugar “certo” para segurá-la?

Raniero abriu a mão e se curvou, de modo que nossas cabeças quase se tocaram.

– Está vendo isto? – Ele desceu o indicador pela madeira, perto do polegar. – Há uma

ligeira reentrância e um chanfro.

– Sim. – Consegui ver. Uma concavidade muito sutil que terminava em um ligeiro calombo

suficiente apenas para delinear a “lâmina”, separando-a do “punho”. – Isso é para...

– Impedir que seus dedos escorreguem quando a arma encontra a carne. – Antes que eu

pudesse ټcar chatinha de novo (eu me recusava a ser a chatinha), ele acrescentou: – Aqui. –

E aparentemente sem mexer os dedos, girou a estaca de modo que a parte mais larga ټcasse

na minha direção e a ponta, virada para o corpo dele. Aquilo me lembrou dos pistoleiros do

Velho Oeste, que giravam as armas e depois disparavam seis tiros com precisão mortal. –

Tente você, sim?

Sentindo-me mais novata ainda depois de ver aquilo, peguei a estaca da mão dele com

cautela, usando o polegar e o indicador.

E ele a pegou de volta no mesmo instante.

Olhei para Raniero.

– O quê?

Ele estendeu a arma de novo.

– Pegue como se estivesse levando isso a sério, princesa.

Devia ser errado provocar uma soberana, mas eu havia pedido que Raniero me ensinasse, e

compreendia a atitude dele. Não era como Cinderela tentando aprender a segurar uma

xícara de chá sem quebrar a porcelana. Eu era uma princesa vampira e precisava de

habilidades diferentes.

Ele estendeu a mão, esperando, e eu assenti.

– Certo.

Então apertei a palma contra a dele e segurei a estaca com a mão inteira, sem hesitar, com

conټança, e, para minha surpresa, ela se encaixou no lugar como se de fato tivesse sido

moldada para meus dedos.

Raniero ټtou minha expressão e, pela primeira vez desde que eu havia me encontrado com

ele naquela sala, sorriu com prazer genuíno.

– Isso é bom. Você fez direitinho. – Então ele pareceu se conter, como se não achasse que

deveria sorrir diante da habilidade de alguém com uma estaca. – Acho que basta por uma

noite, sim?

– É. Está ficando tarde.

– Vou voltar com você pelos túneis, aټnal você está certa: precisamos trabalhar em

segredo. A surpresa também é uma arma excelente. É bom quando os inimigos subestimam a

gente, e ainda não sabemos quem eles são, não é? É melhor manter todo mundo

complacente.

Ele era cheio de surpresas e segredos também. E àquela altura eu já conhecia os maiores

que ele tinha a oferecer, mas ao mesmo tempo tinha certeza de que ele ainda possuía muitos

truques na manga. Raniero não havia desenhado aquele mapa das passagens a partir de uma

lembrança distante – e era provável que houvesse omitido algo bem signiټcativo. Quando

chegamos à porta, eu o fiz parar colocando a mão em seu ombro.

– Raniero... você viu Lucius, não viu?

Ele hesitou, depois admitiu.

– Eu o vigio de vez em quando. Acho que isso não signiټca violar a amada lei dele, já que

não faço nada além de observar das sombras enquanto o guarda dorme sob a inٽuência do

vinho que mando quase todas as noites.

Apertei o braço de Raniero, e embora eu estivesse ټcando melhor em dar ordens, ouvi um

toque de apelo em minha voz quando disse:

– Leve-me para vê-lo, também.

Os olhos de Raniero ټcaram muito perturbados, como se ele fosse questionar – mas ele era

meu súdito.

– Claro. Você é a princesa, sim?

Meu coração recomeçou a martelar com muita força enquanto eu seguia Raniero para

dentro dos túneis, entrando em passagens que ele não havia marcado para mim e que

ټcavam cada vez mais úmidas e rançosas até eu sentir que ia sufocar. Pareceu que tínhamos

andando por uma eternidade – como se de fato estivéssemos seguindo para o coração da

montanha, ou talvez para o inferno – até que Raniero ټnalmente abriu uma pequena porta

secreta que devia ser a mais baixa do castelo e eu saí atrás dele, chorando baixinho.

– Lucius.

Quando Raniero segurou meu braço, me impedindo de correr até a cela onde meu marido

estava deitado sobre uma tábua, compreendi por que ele relutara em me levar até ali.

CAPÍTULO 82

Antanasia

Quando parei de lutar contra Raniero, ele me soltou e recuou, como se me

oferecesse um momento de privacidade com o marido que eu nem mesmo podia tocar e que

partia meu coração do outro lado de uma masmorra suja.

Lucius estava deitado de lado no catre de madeira, sem ao menos um travesseiro, e sua

mão esquerda encostava no chão, do mesmo jeito que às vezes pendia da cama quando

dormíamos juntos. Ele parecia estar sempre tentando alcançar alguma coisa, como se fosse

ambicioso até nos sonhos.

Seus cabelos negros brilhavam à luz do único lampião a óleo que pouco servia para

iluminar a cela – porque os Vladescu não queriam eletricistas xeretando em suas masmorras

–, e apesar de só estar preso há cerca de nove dias, achei que seu cabelo já parecia mais

comprido. Isso me lembrou de como ele havia mudado ټsicamente para o papel de

guerreiro na primeira vez em que eu tinha vindo à Romênia. Na época ele usava os cabelos

compridos, presos com displicência em um rabo de cavalo, quando declarou guerra à minha

família.

Mas antes ele parecia poderoso. Ainda parecia, mas também parecia estar lutando pela

sobrevivência. Parte de mim havia se preparado para o pior, mas acho que também nutria

em segredo a expectativa de encontrar um Lucius Vladescu indomável e alerta, andando de

um lado para outro, talvez até fazendo piadas com o guarda. E não daquele jeito...

Ousei avançar alguns passos, querendo ver melhor o rosto dele, e, mesmo não desejando

acordar o guarda que roncava na cadeira dura – perto de uma garrafa vazia –, falei o nome

dele baixinho outra vez, escutando a consternação em minha minha voz.

– Ah, Lucius...

Eu o tinha visto dormir muitas vezes. Gostava de observar Lucius dormindo, pois era a

única ocasião em que podia examiná-lo sem ser distraída por seus olhos sempre mutantes –

ou sem ser provocada pelos devaneios com ele.

– Você acha seu marido bonito, não é? – gostava de brincar meu príncipe

maravilhosamente arrogante sempre que me ٽagrava boquiaberta, como se fosse Mindy na

arquibancada do colégio. – Não faço ideia de por que você demorou tanto para me amar, já

que eu amei você até quando usava suas piores camisetas com estampas de cavalos!

Quase abri um sorriso, mas ele morreu nos meus lábios enquanto eu olhava Lucius

estendido na cama dura. Ele tinha o sono inquieto até mesmo em nosso colchão macio, mas

naquela noite não se mexeu.

Será que está entrando naquele lugar de sonhos terríveis que enlouquecem os vampiros? Dei

mais um passo, pensando: Dane-se o primado da lei. Vou até ele.

Mas, antes que eu pudesse correr, Raniero veio por trás e segurou meu braço de novo.

– Não, Antanasia – ordenou baixinho. – Temos que ir embora agora.

Olhei para meu acompanhante imponente e quase protestei. Mas sabia que ele estava certo.

Lucius queria que tudo acontecesse de acordo com a lei. Não iria querer que eu arruinasse

seu grande desígnio em um impulso. Não desejaria que o guarda acordasse e contasse a

Flaviu e aos outros: “A mulher dele vem visitá-lo.” O que deixaria todos se perguntando

quais outras leis maiores nós ignorávamos quando isso nos era conveniente.

Virei-me para Lucius de novo, esperando que ele se mexesse – mas ele não se mexeu.

– Venha – disse Raniero.

Ele manteve a mão em meu braço e me levou de volta para os túneis enquanto eu

continuava a olhar por cima do ombro para o marido com quem estava tão desesperada

para falar, e em quem ansiava por tocar.

Continuei olhando-o até que Raniero passou por mim e nos trancou na passagem estreita

e escura que obviamente era tão familiar para ele quanto a sensação de ter uma estaca na

mão.

– Ele se mexe? – perguntei. As palavras estavam presas na minha garganta. – Em algum

momento?

– Ele se mexe – conټrmou Raniero, e a onda de alívio que senti quase me fez chorar de

alegria. – Ele ainda fala, até. Mas dá para notar que ele está ficando fraco.

Começamos a andar no escuro, mas depois de uns 20 metros estendi a mão para Raniero e

o fiz parar de novo. Senti e ouvi quando ele se virou.

– Sim?

– Vou convocar os Anciões e marcar a data do julgamento – respondi. – Vou fazer isso

amanhã.

Raniero fez uma pausa, depois disse:

– Ainda é arriscado. Não existem provas para inocentá-lo.

Eu sabia disso. Mas também admitia que tinha sido egoísta ao agir de modo seguro. Eu

sabia o tempo todo que Lucius preferiria ser destruído de imediato a se esvair em uma cela,

deslizando para um outro mundo que não era a morte nem a vida. Ele jamais desejaria

existir pela metade, e escolheria a cripta para não ter um destino que o diminuísse ou que

deixasse a mim a incumbência de cuidar de uma casca de seu eu anterior. Eu não podia

deixar que meus temores determinassem a existência dele. Ou minha própria existência, por

sinal.

– Então é melhor arranjarmos alguma prova – retruquei. – E depressa.

A passagem estava um breu, mas nem aquele negrume profundo bastaria para esconder os

dentes incrivelmente brancos do vampiro quando ele sorriu em aprovação. Então notei que

Raniero nunca havia pretendido de fato me desencorajar a ver Lucius. Talvez até tivesse

planejado me levar, quando achasse que fosse a hora certa.

CAPÍTULO 83

Lucius

R.,

Obrigado por ter tirado Antanasia de lá antes que ela pudesse se aproximar de mim. (Você

ficará surpreso ao saber que também estou consciente de sua presença frequente naquelas

sombras.)

Precisei de todo o autocontrole para não deslocar o rato – que agora sempre dorme enrolado no

meu pé –, me levantar e chamá-la para chegar mais perto, de modo que eu pudesse ver seu rosto

com mais clareza, tocá-la através das barras.

É estranho como o amor é uma fonte de poder – ele consegue provocar o desejo de lutar até a

morte, ou de lutar para sair de algo que se assemelha à morte por tempo suficiente para poder

escrever um bilhete coerente –, mas também é uma fonte de fraqueza. Quase abandonei todos os

valores sobre os quais pretendo basear meu reinado, isso sem mencionar minha melhor (única?)

defesa, só para compartilhar alguns instantes com ela.

E agora não consigo pensar, a não ser para me lembrar do rosto dela...

L.

Não estou enganado e sonhando, estou? Ela ESTEVE aqui, certo?

CAPÍTULO 84

Mindy

Dormi a noite toda no quarto de Raniero. Já tinha amanhecido quando acordei e

descobri que ele não havia voltado. Tive certeza de que estava sozinha.

Então rolei e vi que tinha me enganado.

Raniero não estava apenas no quarto. Estava na cama. Sentado ao meu lado, sem mexer um

músculo. Só me olhando.

Esfreguei os olhos para vê-lo melhor.

Bom, eu meio que tinha razão. O Raniero que eu conhecia não havia voltado.

E o cara que se encontrava sentado ali, que havia esculpido todas aquelas estacas e usava a

roupa de Lucius – uma camiseta cinza que custara pelo menos 200 dólares, pois eu sentia o

cheiro da etiqueta Prada... eu deveria fazer um milhão de perguntas àquele cara. Tipo: o que

você fez com meu ex-namorado? Onde você o trancou dentro desse vampiro de olhos frios e

roupas chiques? E por que Ylenia Dragomir disse que você era cruel?

E ele devia ter um milhão de perguntas para mim também, tipo: por que você está aqui

depois de me afastar durante meses? Por que está na minha cama depois que enټm

concordei em deixá-la em paz?

Provavelmente deveríamos ter uma conversa que terminaria com uma briga feia e muitas

lágrimas, porque era como se houvesse uma bomba-relógio entre nós.

Mas éramos eu e Raniero, e pouco antes de a bomba explodir eu captei um pequeno

vislumbre do velho Ronnie – aquele que me amava – em seus incríveis olhos acinzentados.

Então nós explodimos de um modo diferente quando ele se aproximou e eu coloquei as

mãos em seu rosto – naquela barba idiota, bagunçada. A boca dele pressionou a minha como

se ele estivesse faminto de mim, tanto quanto eu estava faminta dele.

Beijamo-nos por um longo tempo, e foi como se tivéssemos dito um milhão de coisas

diferentes que não éramos capazes de expressar com palavras, tipo “Desculpe”, “Sou louco

por você”, “Isso é errado demais” e “Não vamos parar nunca”, e talvez a coisa tivesse

continuado para sempre se eu não houvesse mudado tudo sussurrando ao ouvido dele a

única coisa que eu pensava que nunca falaria, quando os caninos dele – dentes incríveis,

sensuais, que costumavam me apavorar – começaram a roçar meu pescoço sem parar:

– Me morde, Raniero – implorei. – Me morde e fica comigo para sempre.

CAPÍTULO 85

Mindy

Ele se afastou e eu ټquei muito feliz porque o antigo Raniero ainda estava

comigo. O Raniero meigo. Eu não tinha certeza se gostava do novo, mesmo que se vestisse

melhor e assumisse o controle da situação.

– Você sabe, não sabe? – disse ele bem baixinho. – Você adivinhou uma das piores coisas

que já fiz. Que, na minha cultura, quase equivale à destruição.

Eu estava começando a adivinhar que Raniero Vladescu Lovatu havia feito um monte de

coisas ruins na vida. Coisas que provavelmente eu nem queria saber. Mas eu tinha ouvido

Ylenia falar a respeito dele e também percebera como ela olhava para ele – e como ele não

olhava para ela. E eu também tinha visto aquela foto no tabloide da Romênia com a

manchete espalhafatosa que, assim como tantas coisas na Europa, estava impressa em dois

idiomas – “Partidul Vampir Expus! Festa de Vampiros Revelada! –, a foto na qual ela estava

segurando a mão dele...

– É, acho que sei.

Ele acariciou meu rosto e eu quis empurrá-lo, mas não consegui.

– Sinto muito – disse ele. – De todos os atos pelos quais eu me desprezo, talvez esse seja o

que me causa mais remorso.

Eu acreditava nele. Ele estava inټnitamente arrependido. No entanto, nem por isso foi

mais fácil perguntar:

– Então por que você a mordeu? – Minha voz saiu bem desolada, como se eu fosse chorar.

– Por quê?

Raniero rolou, deitando de costas, e ټcou olhando para o teto, como se não pudesse me

contar cara a cara. Eu também não sabia se queria encará-lo. Havia uma boa chance de eu

começar a odiá-lo dali a pouco.

– Isso aconteceu no congresso de vampiros, quando tudo desmoronou – disse ele. – Na

época eu era um vampiro muito raivoso. Passei muitos meses na estrada fazendo coisas

terríveis, e quando retornei à Romênia Lucius foi o único vampiro que me recebeu

calorosamente. Meus próprios pais, que me entregaram anos antes, olharam para o ټlho, o

assassino, com uma espécie de medo nos olhos. Não era mais nem mesmo um ټlho amargo e

poderoso, da riqueza e dos privilégios. Era um pária que perdeu tudo, menos um amigo que

ele não merecia.

Havia muita coisa errada no que ele estava dizendo. Tipo... Raniero era um assassino? Eu

precisava que ele explicasse aquilo, e esperava que ele estivesse usando o termo errado,

como fazia o tempo todo. Mas por ora não ټz perguntas. Primeiro queria escutar o restante

da história. A parte que poderia me matar.

– Estou sozinho na maior festa de todas, observando os tios que desprezo sorrirem e

tramarem suas maldades para o próximo ano, e então, saindo das sombras, Ylenia se

aproxima. Identiټco-a no mesmo instante como uma Dragomir e ټco duplamente satisfeito.

Um lado pequenino e triste de mim ټca feliz porque alguém além de Lucius ao menos fala

comigo, já que a maioria evita o vampiro que um dia pode destruí-los. – Ele enټm virou a

cabeça para me olhar. – E sei que meus tios vão ټcar horrorizados por me ver com uma

Dragomir, porque fui criado para odiar os Dragomir.

Quando vi seus olhos tristes, não consegui odiá-lo. Pelo menos por enquanto.

– É? E...?

– Nós conversamos e ela sugere bebermos alguma coisa. – Ele acrescentou bem depressa: –

Só compartilharmos sangue, como fazem muitos vampiros jovens. Bebendo do estoque da

adega. E ela é muito meiga. Parece entender que não estou feliz e se oferece para arranjar

algo para nós, apesar de o castelo ser o meu lar. – O queixo dele estremeceu, coisa que eu

nunca tinha visto. – Ou melhor, era onde eu morava. Nunca foi um lar.

Aquela pequena chama no meu cérebro tremeluziu de novo.

– Então Ylenia arranjou um pouco de... sangue, e você bebeu?

– Sim, e nós caminhamos para conversar a sós. – Ele devia saber que era melhor não falar

mais, me poupando dos detalhes sórdidos. Talvez porque uma vez tivesse me chamado para

caminhar daquele mesmo jeito. De qualquer modo, ele saltou para: – Eu não pretendia

beber dela, Mindy Sue. Nunca. Mas ela insistiu, sem parar, e é como se tudo mudasse, e eu

perdi o controle...

Ele sentou-se e enterrou o rosto nas mãos, e eu me sentei também, de modo que pude

ouvir quando ele falou, muito depressa, como se necessitasse pôr para fora:

– Toda a raiva dentro de mim jorrou, e eu cravei os dentes nela, e a estranheza que eu já

sentia... ficou molto peggio, muito pior.

– Ronnie? – Eu meio que engasguei nas palavras. – Alguma vez... alguma vez você pensou

seriamente em ټcar com ela, para sempre? Porque é isso que deve acontecer, não é, se você

morde uma garota?

Ele manteve a cabeça baixa.

– Não tive oportunidade para pensar nisso. Porque naquela noite, logo depois de provar o

sangue dela, destruí um vampiro sem motivo, e fui marcado na mão para ser destruído, um

sinal que havia muito tempo ninguém carregava. Não houve chance nem de falar com ela de

novo. E ela não poderia ter futuro com um vampiro condenado, independentemente de

qualquer coisa. Era melhor que esse erro fosse esquecido.

Eu não entendi metade daquela história, mas tinha quase certeza de que ouvira o pior de

sua “crueldade” se derramando dele em um ímpeto confuso. Ele havia mordido Ylenia,

conforme eu havia imaginado, e também tinha feito um monte de coisas horríveis. Coisas

que ninguém poderia perdoar.

– Mostre a marca – falei bem baixinho.

Segurei a mão tatuada dele e ele levantou a cabeça, e eu vi que estava chorando. Só um

pouquinho. Só, tipo, uma lágrima escorrendo pelo rosto.

Tudo o que eu sempre desejei foi um cara forte, mas nunca o amei tanto como quando ele

chorou. Mesmo odiando-o também. Eu precisava odiá-lo, não por morder Ylenia, mas por

esconder tantas coisas de mim. Tipo o fato de ser um assassino e parecer tipo... condenado.

– É o “b” cirílico. – Ele o trilhou com um dedo pálido. – Isso diz aos outros vampiri que

sou perigoso e serei destruído caso cometa outro ato de violência. E é por isso que não

posso lutar, nem por você, porque tenho medo de perder o controle de novo e isso custar

mais vidas ainda.

Encontrei a marca e continuei segurando sua mão, encostada nele, sentindo aquele corpo

rígido que era tão macio e ferido por dentro.

É por isso que ele não queria vir para cá. E é por isso que não deveria estar esculpindo estacas.

Mas ele veio por minha causa, e de Lucius, e de Jess...

– Eu escondi muita coisa de você, Mindy Sue. – Ronnie parecia arrependido por causa

daquilo também. – Tento me obrigar a acreditar que o antigo Raniero não existe e que você

não precisa conhecê-lo, mas menti para nós dois. Enterrei a mentira até mesmo na ټlosoټa,

que diz que só o presente importa.

Mesmo acreditando nele, nós dois sabíamos que ele havia escondido coisas demais de mim,

por isso nem falei nada. Só ټcamos encostados um no outro, de mãos dadas, e eu tentava

não chorar, soprando aquela pequena chama que estava se acendendo no meu cérebro.

Aquela pequena conexão.

Ylenia Dragomir, superciumenta ex-membro da galera fracassada-doidona de um colégio

interno. Jess pirando. Raniero sendo extra “cruel”...

Eu não tinha certeza de nada, mas apertei a mão dele e perguntei, sentindo um tiquinho

minúsculo de esperança pelo futuro dele, ainda que seu passado fosse assustador e nosso

presente estivesse acabado:

– E se aquele Raniero cruel nunca existiu de verdade? E se alguém, tipo... o criou?

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