CAPÍTULO 91
Antanasia
– Antanasia, você tem... tem certeza de que quer fazer isso? – gaguejou Dorin.
Eu sabia que ele estava apavorado porque eu me arriscava a perder o amor da minha vida,
mesmo que ele não gostasse de Lucius. – Existe algum motivo premente? Alguma coisa
mudou?
– Não quero explicar nada agora – falei a todos eles.
Mas o comentário foi direcionado a Dorin. Eu não gostava de falar com meu tio naquele
tom quase áspero, mas, em seu esforço para me proteger, sem querer ele estava minando
minha autoridade ao questionar meus motivos.
Flaviu deu um risinho e me depreciou de propósito, dirigindo-se a todos os Anciões:
– Nada mudou! Ela age por medo! Sabe que Lucius está ټcando fraco sem sangue e aposta
em um julgamento para salvá-lo do luat, ainda que seja quase certo que isso o condenará. A
estaca de Lucius diz tudo o que precisamos saber!
Levantei-me de novo, como Mihaela Dragomir teria feito, e embora meus joelhos
tremessem, minha voz saiu firme.
– Você não vai falar de mim como se eu não estivesse aqui. A menos que queira se juntar a
Lucius nas masmorras. E depois veremos quanto tempo você suporta sem sangue, pois é 200
anos mais velho e nem de longe tão forte quanto meu marido.
Minhas palavras surpreenderam até mesmo a mim. Eu tinha ido mais longe do que
esperava. Flaviu também ټcou claramente surpreso. Ergueu as sobrancelhas e quase
começou a gargalhar, como se eu fosse uma criancinha que de repente tivesse dado um
chilique.
– Você está brincando. Não ousaria.
Levantei as sobrancelhas também. Não ousaria?
E de repente ټquei tão irritada com todos eles que meus joelhos começaram a tremer de
raiva, e eu soube que precisava tomar cuidado para não perder o controle de um modo
novo. Eu não estava prestes a apagar nem ver coisas, mas de repente queria gritar com eles.
Meses de frustração e medo, tudo o que eu havia sentido desde meu casamento, desde que
começara a desmoronar, ficaram à beira de transbordar.
Eles haviam espancado Raniero até ele ټcar abalado e no limiar da destruição, pelo menos
um deles era responsável pela situação atual de Lucius, riam de mim e eram o pior bando de
fofoqueiros, conspiradores e traidores que eu já havia conhecido.
Eu podia não ser a aluna nova no colégio, mas ainda era como se tivesse entrado para o
time de animadoras de torcida mais velho, grisalho e menos animado do mundo, e estava
cheia de ficar em um castelo feito uma prisioneira junto com todos aqueles nojentos.
– Gardă! Vin aici! – ouvi-me rosnando em um tom de voz que nunca havia usado.
E também não sabia de onde as palavras tinham vindo. Elas não estavam no meu DVD, mas
devo ter ouvido Lucius chamar os guardas por vezes suټcientes, e quando precisei da frase
ela simplesmente saiu e os dois vampiros que estavam postados junto à porta vieram para o
meu lado.
Não olhei para os Anciões ao redor – eu não ia parar de encarar meu novo pior inimigo –,
mas ouvi murmúrios de novo, como se todo mundo estivesse mais surpreso com meu
romeno impecável do que com o anúncio sobre o julgamento.
Semicerrei o olhar para Flaviu.
– E então? Quer ver quanto tempo você dura sem sangue?
Continuamos nos encarando e o risinho no rosto dele se esvaiu aos poucos, sendo
substituído por uma raiva renovada que eu sabia ser perigosa. Mas Flaviu sempre fora
perigoso. Era melhor encará-lo de cabeça erguida. A sensação era melhor.
– E então? – repeti.
– Continue com sua reunião – concordou ele por ټm, desviando os olhos de novo. –
Marque a data do julgamento e salve, ou mais provavelmente condene, seu marido.
Ainda havia um tom desrespeitoso na voz e nas palavras dele, mas não o suټciente para eu
me importar demais. Eu tinha sorte por ter obtido uma pequena vitória, e virei a cabeça de
forma brusca para mandar os guardas de volta às suas posições. Depois repeti:
– Proponho estabelecermos a data do julgamento de Lucius para daqui a dois dias,
reunindo-nos na Sala de Justiţie ao amanhecer.
Quase todos começaram a assentir, por isso acrescentei:
– Os que estão de acordo, levantem a mão esquerda.
Dorin quase levantou a direita – de novo por acidente, ou não? Depois se juntou aos
outros, erguendo a esquerda. Olhei todos os rostos enquanto contava os votos. Haveria
alguma pista, algum sinal de culpa na expressão de alguém? Será que eles ټtavam Flaviu
com muita frequência?
Desejei tê-los examinado mais, porém não podia embromar por muito tempo, então
anunciei a contagem unânime a favor, depois concluí:
– A reunião está encerrada.
Não me mexi, agindo como se estivesse estabelecendo um novo protocolo ao deixar que
saíssem primeiro – mas só porque meus joelhos começaram a tremer feito loucos e eu tive
medo de tentar andar. Pelo jeito, ټquei mortinha de medo. Mas me controlei pelo tempo
necessário. Era um começo.
Enquanto os Anciões saíam, olhei para Dorin, esperando os parabéns, mas ele não me
encarou, como se de repente estivesse com medo de mim. Só conseguiu sorrir por um
segundo e dizer, enquanto se retirava com os outros:
– Você agiu bem.
Quanto todos haviam saído, deslizei na cadeira e respirei fundo, ao mesmo tempo que
absorvia tudo que eu tinha acabado de fazer.
Era possível que eu houvesse dado o primeiro passo para garantir o futuro que Lucius
sonhava para nós e nossas famílias. Eu tinha visto, se não a culpa e o nervosismo que
esperava, pelo menos o respeito em alguns rostos. Talvez, apenas talvez, eu tivesse ganhado
meus primeiros votos de confiança.
Fechei os olhos, tentando me recompor.
Ou talvez só tivesse condenado o vampiro que eu amava mais do que à minha própria
existência à destruição.
Por que Flaviu não pareceu mais nervoso?
CAPÍTULO 92
Antanasia
Raniero – sua encarnação mais recente – estava me esperando na camera de
miză e quase engasguei quando o vi.
A transformação que ele vinha sofrendo, de surfista à assassino outra vez, estava completa.
Não era somente a postura, sem qualquer traço dos ombros caídos e ao mesmo tempo não
tão rígida. Ele estava mais aprumado, porém relaxado, como Lucius costumava se portar.
Como a nobreza. E não eram só as roupas que usava, ou mesmo o corte de cabelo e a barba
feita, que presumi serem obra de Mindy, porque eu reconhecia o trabalho dela, sabia qual
visual ela gostava de ver nos caras, e Raniero Vladescu Lovatu parecia o ápice de todas as
fantasias que ela já havia descrito. Um cara cujo queixo ټrme e os maxilares pronunciados
dos Vladescu, que enټm estavam visíveis, pareciam o ápice das fantasias de um monte de
garotas.
Mas não era nem mesmo a soma de todas aquelas coisas que o fazia parecer o vampiro
majestoso e perigoso que ele fora criado para ser.
Não, era principalmente a estaca recém-esculpida que ele estava guardando na parte de
trás da calça jeans enquanto perguntava:
– Está preparada para a segunda aula, Antanasia? Trouxe sua arma?
CAPÍTULO 93
Antanasia
– Raniero, tem certeza de que você deveria estar portando isso? – Eu não
precisava dizer o quê. – Você tem permissão, ao menos?
– Eu não trabalho dentro da restrição das leis. Não mais. Mas se você me ordenar
diretamente a ficar sem a arma, claro que vou me curvar à sua decisão.
Observei-o durante alguns segundos, tentando avaliar sua expressão, mas seus olhos
pareciam cerrados.
– Tem certeza de que precisa de uma estaca neste momento?
– Antanasia, um vampiro já foi destruído e um príncipe está para ser julgado. Seria idiota
em não me armar quando estou fazendo perguntas sobre o assassinato. Com muita
frequência os que fazem perguntas acabam com o próximo buraco no peito, não é?
Eu não queria concordar, mas ele estava certo. E, tal como Lucius ټcara ao chamar seu
primo de volta à Romênia, eu também estava um pouco preocupada, pensando que Raniero
acabaria desobedecendo se eu ordenasse que ele deixasse de andar armado. Para não dizer
que eu provavelmente devia a ele o direito de se proteger...
– Certo, fique com ela, se assim o desejar.
Mas, por favor, não a use. A menos que não haja opção.
Ele baixou a cabeça recém-tosada.
– Grazie.
– Você disse que está fazendo perguntas...
– E não estou descobrindo nada. Pergunto a todos os empregados se eles viram alguma
coisa na manhã da morte de Claudiu. – Ele me olhou diretamente. – Inclusive um príncipe
que não deveria estar por perto.
Meu coração falhou, não porque eu desconټasse de Lucius, mas porque percebi que nunca
havia ficado sabendo onde ele tinha estado naquela noite.
– E?
– Ninguém viu nada. Não conseguem relatar nada incomum.
– Ah.
Fiquei aliviada e desapontada ao mesmo tempo.
O olhar de Raniero se abrandou só um pouquinho.
– Não se preocupe, Antanasia. Vamos descobrir a verdade. E, claro, eu ouvi da antecâmara,
e você se saiu bem durante a reunião quando marcou a data do julgamento. Agora há
vampiros Anciões que enxergarão você de modo diferente.
Olhei a estaca em minhas mãos.
– Espero que sim.
E naquele instante que meus olhos se desviaram, Raniero optou por começar a aula, de
modo que um segundo depois me ٽagrei com as costas de encontro ao peito dele – do
mesmo jeito que já havia ocorrido com Lucius –, a estaca posicionada junto a meu esterno,
enquanto Raniero aconselhava:
– Nunca é sensato expressar dúvida diante de um vampiro armado e perigoso, sobretudo se
isso faz você baixar a cabeça como se fosse ser sacrificada... e largar a arma.
CAPÍTULO 94
Antanasia
– Raniero... o que você está fazendo?
Lutei para acalmar a respiração e não sucumbir ao pânico. Raniero era incrivelmente forte.
Seu peito era rígido contra minhas costas e a mão estava plantada com ټrmeza em minha
barriga, bem embaixo do esterno. Eu podia sentir a ponta de uma estaca.
– Raniero! – falei um pouco mais alto.
Ele estava com meus dois pulsos presos em uma de suas mãos temíveis, e apertou mais.
Porém sua voz não era ameaçadora – apenas mais nítida do que o usual – quando disse:
– Estou mostrando, em um movimento rápido, quase tudo o que você precisará saber se
for usar mesmo uma estaca.
– Certo, mostre.
Ele parecia calmo, mas eu lutava para controlar a voz, que queria tremer.
– Você vai ficar parada e ouvir com atenção, sim?
– Sim – concordei. Eu não tinha escolha. – Vou.
– Você é pequena, portanto é vantajoso agir primeiro. Usar o elemento surpresa, se
possível. Viu com que facilidade eu peguei você porque não estava preparada?
Eu nem o tinha visto se mexer.
– Certo, entendi.
– E esta... – Ele apertou o braço contra meu peito. – Esta é a melhor posição para causar
um dano sério. Seu próprio corpo oferece a resistência, de modo que há mais potência
quando você crava a estaca. É um princípio de alavanca, e é especialmente importante para
uma pessoa pequena como você.
Assenti, minha cabeça batendo no peito dele.
– Entendi.
– Se você não puder prender o oponente desse jeito, tente garantir que ele esteja com as
costas junto a uma parede. Caso contrário, você pode ter que golpear muitas vezes, o que é
perigoso. Um lutador fraco costuma acabar dando vários golpes, em pânico, e nesse tempo
o oponente começa a reagir. Você não pode permitir isso.
Assenti de novo, tentando me concentrar, apesar da pressão da estaca que ele continuava
apertando junto ao meu coração. Eu confio nele.
– Eu vou... eu tentaria usar uma parede.
Minha conټança vacilou quando ele apertou a estaca com mais ټrmeza, fazendo com que
eu me encolhesse. Mas suas palavras faziam sentido.
– Este é o lugar onde a ponta deve entrar. Lembre-se disso, sim? Caso contrário, mais uma
vez, você pode não destruir de primeira. E depois você acabaria se metendo em uma luta.
– Vou me lembrar.
Eu me lembrava daquele lugar, da vez em que Lucius quase havia me destruído. Nunca me
esqueceria.
Ficamos em silêncio e eu esperei que ele continuasse falando – ou que me soltasse. Mas ele
não fez mais nada. Ficamos travados, e dava para senti-lo respirando contra meu ouvido,
então enټm falei, com uma voz que eu esperava projetar uma autoridade capaz de alcançá-
lo, caso ele estivesse de fato perdendo o controle e aquela “aula” não fosse nada além de um
ardil para me tornar vulnerável enquanto ele tentava decidir naquele instante seu próximo
passo...
– Raniero, ordeno que você me solte. Agora.
Ele me soltou de imediato. Eu me virei e vi que ele assentia em aprovação. Em seguida
enfiou a arma na cintura novamente.
– Esse é o último argumento que eu gostaria de levantar. Uma lição que você está
aprendendo sozinha, e só pode aprender sozinha.
Afastei-me dele, ainda cautelosa.
– Não entendi.
– Você é da realeza. Isso implica um poder especial, e se acreditar nisso entrará na batalha
com vantagem. Veja como eu me afasto ao ouvir sua ordem no instante em que você se
lembra de quem é.
– Não creio que alguém que tente me destruir ouvirá minhas ordens.
Raniero sorriu, mas não calorosamente. Era um sorriso de guerreiro, talvez provocado por
algum triunfo recordado.
– Não, talvez não. Mas seu oponente pode hesitar só um momento, e é então que a batalha
é vencida.
Será que ele está pensando naquela vantagem momentânea sobre Lucius? Assenti.
– Entendi.
– Desculpe por amedrontar você – acrescentou ele. – Mas seu medo vai ajudar a recordar
tudo o que eu ensinei. Garanto que vai se lembrar de cada momento que nós
compartilhamos.
– É, sem dúvida, vou. – Abaixei-me para pegar a estaca que eu tinha deixado cair, sem
afastar os olhos dele. – E acho que já basta por esta noite.
Mas, quando me levantei, Raniero agarrou meu pulso, me fazendo parar de novo.
– Com sua permissão, também gostaria de administrar um pequeno teste. Um desaټo. E, se
você passar, se conseguir fazer o que peço, acho que estará pronta para carregar uma arma
com confiança.
Olhei para minha mão e ele a soltou.
– Que tipo de teste?
– Você está ficando muito corajosa, e rápido. Mas tem coragem para usar a estaca?
– Usar? Tipo cravar em alguma coisa?
Ele assentiu.
– Sim.
Eu não deveria desviar os olhos de um vampiro armado, mas ټz uma veriټcação rápida na
sala ao redor.
– Aqui não há nada além de estacas. O que eu usaria?
– Podemos usar isto.
– O quê?
Ao olhar para ele de novo, notei que Raniero não estava segurando coisa alguma.
Ele simplesmente estava apontando para o próprio peito.
CAPÍTULO 95
Antanasia
– Você está brincando, não é?
Por um momento não tive certeza se Raniero estava me provocando ou se oferecendo de
verdade para deixar que eu o destruísse. Então ele levantou a mão e disse:
– Vou colocar minha mão na mesa e você vai atravessá-la com a estaca. É assim que se
aprende a sensação de causar um ferimento.
– Você não pode estar falando sério.
– Estou falando muito sério. Você não faz ideia de qual é a sensação de causar dano até
fazê-lo. Se não quer hesitar em um momento crucial, é melhor ter a experiência em
segurança primeiro. E em pouco tempo, como muitas outras coisas, causar dano ټca fácil
com a prática.
Ouvi a melancolia e a amargura voltarem à sua voz, e mais uma vez isso me levou a conټar
nele mais ainda. Raniero se arrependia de seus feitos do passado.
– Mas nem sou capaz de imaginar quanto doeria se eu cravasse uma estaca na sua mão
mesmo.
Ele não pareceu preocupado.
– Suportar a dor é igual a causar dor. Também ټca mais fácil com a prática. E você sabe,
claro, que os vampiros se curam rápido. – Ele abriu a mão tatuada na mesa e indicou a parte
carnuda entre o polegar e o indicador. – Aqui não tem osso. O ferimento vai durar no
máximo alguns dias.
Balancei a cabeça, consternada.
– Não... eu não poderia.
Raniero sorriu diante do meu pavor.
– O próprio Buda diz: “A vida é sofrimento.” A dor não pode ser evitada, apenas
enfrentada e aceita por completo. Para mim, um momento de desconforto não é nada.
– Não acho que Buda aprovaria se eu cravasse uma estaca em você deliberadamente.
O sorriso abandonou os lábios dele devagar, e eu vi que, sem querer, havia feito suas novas
ټlosoټas se chocarem com sua antiga vida, onde elas já não se encaixavam tão bem quanto
na praia. E aquele era exatamente o motivo pelo qual ele não queria estar ali.
– É assim que Lucius e eu fomos treinados. E ainda que eu não possa lhe dar a ordem, já
que você é soberana, sugiro com veemência que faça isso se deseja ter as habilidades
necessárias para sobreviver em seu novo papel.
Recuei.
– Você e Lucius cravaram estacas de propósito na mão um do outro?
Ele não respondeu, mas por sua expressão pude ver que os dois tinham feito aquilo, sim.
Tinham sido obrigados a fazer. E talvez mais de uma vez – provavelmente o motivo pelo
qual ele fora capaz de cravar a estaca no peito de Lucius.
Raniero se encostou na mesa, olhando para o meu rosto, e ficou pensativo.
– Você já machucou alguma coisa ou alguém, Antanasia? Não falo de pisar em uma
aranha, mas de causar dor verdadeira.
– Bem, uma vez cravei um forcado no pé de Lucius.
Os lábios de Raniero, não mais escondidos pelo cavanhaque, se retorceram com diversão,
como se ele conhecesse a história e não a considerasse significativa.
– Não. Acho que nunca machuquei ninguém de verdade – admiti.
Ele me surpreendeu – e me deixou sem graça – ao dizer:
– Você saiu do tribunal incapaz de ao menos votar para destruir um vampiro.
– Como você sabe?
Ele deu de ombros.
– As notícias viajam até mesmo aos vampiros que moram na praia.
Até Raniero sabia o que havia acontecido, e ele se mantinha deliberadamente afastado das
fofocas. Apoiei-me na mesa também, com minha nova coragem levando um pequeno golpe.
– Se todo mundo sabe que eu fugi, como posso ao menos sonhar em ser elevada à rainha?
Então o vampiro que pensara ter abandonado sua personalidade de ټlósofo me ofereceu
outra coisa profunda sobre a qual reٽetir – e desta vez era uma citação de Raniero, não do
Buda:
– Se você não consegue destruir um vampiro que merece isso, de acordo com a lei, talvez
não devesse querer ser rainha.
Demorei alguns instantes para absorver aquilo e de repente foi como se meus olhos se
abrissem.
O que eu tinha desejado era ser mulher de Lucius. Isso, sim, era o que eu queria quando
concordei em me tornar princesa. E tinha aceitado a ideia de construir um reino melhor
para os súditos que havia ganhado quando coloquei a aliança de casamento. Eu queria fazer
isso – sobretudo por Lucius.
Mas então percebi... será que eu realmente, honestamente, queria ser uma governante?
E sabia que a resposta era não.
Ser princesa sempre havia sido apenas uma circunstância infeliz de meu nascimento e o
prêmio despropositado que acompanhava a vida conjugal com Lucius. Eu não estava
falhando como realeza só porque não me esforçava o bastante para aprender romeno,
estudar os velhos livros de leis ou aprender a andar pelo castelo – embora esses tivessem
sido erros grandiosos de minha parte.
Eu estava falhando porque meu objetivo havia sido apenas agir como governante.
No fundo, eu não queria ser monarca, como o vampiro que estava preso em uma cela e que
ansiava pela chance de ser rei – um bom rei – com a intensidade de cada batida de seu
coração enfraquecido.
Eu devia a Lucius o desejo de governar ao lado dele – não porque esse fosse o preço para
estar perto dele, mas porque eu acreditava em minha liderança. Precisava tomar aquele
cetro nas mãos. Oferecer menos do que isso não seria enganar meus súditos ou a mim – ou
até mesmo a meus pais biológicos. Seria enganar Lucius.
E eu não faria isso. De algum modo, eu mudaria não apenas meus atos, mas também minha
postura. De algum modo, eu iria me obrigar a querer – e reivindicar – meu direito inato.
Eu havia caído tão profundamente nos pensamentos que quase me esqueci de Raniero a
meu lado, até que o vampiro muito perceptivo que eu estava começando aos poucos a
compreender – ao mesmo tempo em que ele sentia estar se perdendo – disse:
– E então, Antanasia? O que você quer fazer?
Encarei-o por um longo momento, depois mudei a posição da estaca na mão até que
estivesse bem acomodada e falei, com uma convicção que de fato já estava começando a se
formar:
– Eu quero ser a princesa Antanasia Dragomir Vladescu, governante dos clãs de vampiros
mais veneráveis.
Sem hesitar, Raniero pôs a mão na mesa e eu cravei a estaca em sua carne com toda a força.
CAPÍTULO 96
Mindy
– Você vai ficar fantástica – falei para Ylenia.
E ia mesmo, pois era eu quem estava arrumando os cabelos dela, e eu não fazia serviço
ruim nem para uma garota que eu odiava – talvez pelos motivos certos ou talvez pelos
errados. Não sabia mais dizer.
– Obrigada, Mindy – disse ela. – É muita gentileza sua me ajudar. – As bochechas pálidas
ficaram um pouquinho vermelhas. – Sei que não sou muito boa com o cabelo e as roupas.
– Você se vira legal – menti. – Mas eu ajudei Jess a ganhar o Lucius, por isso acho que levo
jeito.
– Não é um encontro – retrucou Ylenia, depressa demais. – Ele só pediu para conversar. E
eu nem acreditei que ele fez isso.
– É, bem, com Raniero a gente nunca sabe, não é? – De fato, não dava mais para saber.
Puxei com um pouquinho de força demais, tentando penetrar os cabelos crespos de Ylenia
com a escova de pelos de javali que havia levado especialmente para os cachos de Jess. – E
não faz mal ficar bonita.
Ylenia sorriu e pareceu tímida de verdade, como Raniero disse que ela era.
– É, acho que não.
– E aí... aonde vocês vão?
Na verdade, era isso que eu queria saber, e o motivo pelo qual eu tinha me oferecido para
dar um jeito nela.
– Eu já disse, não é grande coisa. – Ela encolheu os ombros ossudos. – Só um passeio no
jardim.
– Ah.
Puxei os cabelos dela com força demais de novo. Não porque a odiasse. Foi só que meus
dedos ficaram trêmulos.
Talvez eu estivesse mantendo minha inimiga perto demais. Eu queria odiá-la e ainda não
conټava nela, mas naquele momento também senti pena. Raniero a havia mordido e
abandonado, e não importava o que ela dissesse, Ylenia estava empolgada porque ele queria
conversar.
Ou seria culpa dela o fato de ele ter sido amaldiçoado? E de Jess e Lukey estarem
encrencados?
Ou será que eu é que era doida, vendo coisas que não existiam? Porque me sentia quase
maluca de ciúme só de imaginar Ylenia andando com Raniero por um jardim lindo, do
mesmo jeito que eu e ele costumávamos fazer em algum parque idiota em Lancaster.
Continuei a trabalhar durante todo o tempo que passei pensando na situação, e me perdi
em minha mente, na confusão de cachos de Ylenia e em minha caixa de maquiagem, e
quando enټm recuei da minha segunda transformação daquela semana, para que Ylenia
pudesse se levantar e dar uma rodadinha, quase gritei ao ver seus cachos brilhantes e seus
olhos grandes e luminosos, porque pela primeira vez ela havia tirado os óculos...
Caramba, eu fiz um trabalho bom demais.
Ainda que a saia que ela usava fosse totalmente cafona, o restante dela quase parecia... Jess.
Quase igual a uma verdadeira princesa vampira.
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