sábado, 5 de outubro de 2013

CSUVA - 74-75-76-77-78-79

CAPÍTULO 74

Mindy

O Ateneu romeno não era o lugar onde o presidente da Romênia morava. Na

verdade, era um grande teatro, e eu acompanhei Ylenia e um grupo de turistas –

suټcientemente loucos para visitar Bucareste no inverno – rumo à parte principal onde

ficavam as poltronas.

– Isso é bem bonito – falei, olhando ao redor. – Tipo uau.

– É. É “uau” mesmo. – Ylenia também olhava, boquiaberta, como se nunca tivesse visto

aquele lugar, embora eu soubesse que tinha, sim. – É considerado o prédio mais bonito da

cidade. – Ela apontou para o teto. – Veja esses tons intensos de vermelho, como sangue, e as

folhas de ouro. E, quando este lugar é preenchido pelos sons da orquestra, e por pessoas e

vampiros usando suas melhores roupas... É simplesmente incrível vir aqui em uma noite de

verão, mesmo que você só esteja nas poltronas mais baratas, olhando lá de trás.

Não era possível ir a lugar algum sem ouvir um vampiro falar de sangue, por isso aquilo

não me soou estranho. Esquisito foi o modo como ela ټcou muito sonhadora e meio

desligada, por isso nós duas continuamos olhando tudo – até muito depois de eu já estar

pronta para ir embora. Era um lugar chique e bonito, mas eu estava ټcando deprimida, pois

mesmo que não quisesse odiar minha nova amiga falsa, continuava odiando, e queria voltar

para o castelo de Jess. Eu não estava descobrindo nada a respeito de Ylenia, só aprendendo a

história do comunismo.

Talvez pela primeira vez a revista Cosmo estivesse errada. Talvez sair com uma amiga falsa

só fizesse a cabeça – e o coração – da gente doer.

Eu já ia dar um tapinha no braço dela, porque ela parecia perdida de verdade, quando de

repente Ylenia apontou para algumas poltronas no segundo andar – o tipo de poltronas de

camarote, onde os ricos ټcam – e disse bem baixinho, mas de um jeito que quase me fez sair

de mim de tanto susto.

– Foi ali que vi Lucius... e Raniero pela primeira vez.

Por que eu havia duvidado da Cosmo?

CAPÍTULO 75

Antanasia

Parei diante do enorme espelho pendurado na parede do meu quarto de vestir –

mas não olhei a jovem pálida refletida ali.

Em vez disso, levei a mão ao canto superior direito da moldura de madeira pesada e tateei

às cegas.

Lucius havia me mostrado a porta escondida quando tínhamos nos casado, e falou dela

fazia pouco tempo, quando achou que eu pudesse estar em perigo. “Você sabe aonde ir. ” Mas

eu não tinha entendido o que ele queria dizer. Havia me esquecido daquela porta até

Raniero desenhar o mapa – e incluir a rede de túneis que Lucius garantira existir atrás das

paredes.

– Claro que temos um elaborado sistema de fuga, escondido dentro das pedras – dissera

ele, guiando minha mão para a tranca. Somos vampiros, e pelo jeito nunca aplacamos a sede

de criar subterfúgios. – Encontrei os olhos dele reٽetidos no espelho, e ele sorriu. – Não

que eu fosse fugir do perigo!

Só estávamos casados havia alguns dias, e tudo era tão perfeito que nem mesmo a menção a

emergências me impedia de sorrir. Não quando estávamos sozinhos, as mãos se tocando, o

corpo forte de meu marido às minhas costas...

– E eu? Fujo?

Mesmo nos nossos bem-aventurados primeiros dias juntos, Lucius entendia, claro, os

riscos que enfrentávamos, então a mão dele congelou ao redor da minha enquanto ele

pensava na resposta.

– Não sei. Em tese as princesas não fogem. Mas se você estivesse correndo perigo de

verdade, não consigo me imaginar não obrigando você a fugir para a segurança. – Ele fez

uma pausa, os olhos se abrandando, e acrescentou: – E, caso tenhamos a sorte de ter ټlhos,

eu a obrigaria a protegê-los e permaneceria atrás. Assim como nossos pais, que nos

protegeram à custa da própria existência.

Eu ainda me sentia jovem demais para pensar em bebês, mas Lucius sempre raciocinava em

termos de família, e havia algo na menção dele – pela segunda vez desde nossa breve vida de

casados – de que poderíamos ter filhos juntos que me fez...

Senti uma onda intensa de emoção por meu novo marido, que seria um pai incrível, então

me virei e o beijei... e talvez por isso agora eu não estivesse conseguindo encontrar a tranca

com meus dedos desajeitados. Nós nunca concluímos aquela lição.

– Vamos lá – murmurei, ټcando impaciente e enټando os dedos embaixo da moldura de

madeira com mais força. Parecia impossível que o espelho, feito para reٽetir reis e rainhas

totalmente aparatados, fosse sair do lugar um dia. Mas aí encontrei. Um pequeno calombo

de metal, como um botão. Apertei-o e aquele espelho enorme se soltou da parede tão

depressa que quase gritei, pois tive certeza de que ele ia cair e me esmagar. Devia pesar mais

de 50 quilos.

Mas ele não caiu. Só girou alguns centímetros nas dobradiças invisíveis, revelando uma

passagem escura. Exatamente como Lucius e o mapa de Raniero haviam prometido.

Espiando aquele túnel escuro e mofado, cheio de poeira e teias de aranha, quase mudei de

ideia. Aټnal de contas, eu estava começando a controlar Emilian com mais destreza e

poderia dispensá-lo se quisesse ir sozinha a algum lugar.

Mas a nova princesa que emergia dentro de mim... ela nem tinha mais certeza se conټava

em seu guarda. Eu queria ser capaz de usar aquelas passagens quando desejasse me

movimentar em segredo absoluto. Do mesmo jeito que fiz naquela noite.

E assim, com a rota que eu havia memorizado a partir do mapa de Raniero e uma lanterna

na mão, passei pelo espelho. Inspirando o ar rançoso, girei-o e fechei-o, mesmo não tendo

certeza se a tranca poderia ser aberta por dentro – ou se a saída do outro lado não tinha

sido lacrada há gerações conforme o castelo evoluía. Pelo que eu sabia, Raniero nunca

pusera os pés dentro daquelas passagens e só as conhecia pelas lendas.

Olhando por cima do ombro, pensei em testar se eu seria capaz de retornar por ali –

depois resolvi que não ia começar aquela jornada com um recuo.

Eu estava farta de recuar.

CAPÍTULO 76

Mindy

– Raniero?

Bati na porta com delicadeza, pois já estava tarde quando eu e Ylenia voltamos de

Bucareste. Mas eu não podia esperar até de manhã para falar com ele. Precisava saber o que

tinha acontecido entre meu ex-namorado e a prima de Jess, mesmo que isso me matasse.

A voz de Ylenia falando sobre Lucius e Raniero ainda ecoava na minha cabeça, bem como

o jeito como ela os havia olhado das poltronas baratas, babando por eles – e odiando-os ao

mesmo tempo.

– Todas as cabeças se viravam para olhar Lucius, com seus cabelos negros e olhos escuros

arrogantes, e Raniero, com a pele morena e o sorriso que fazia as debutantes tremerem,

porque todo mundo sabia que ele era tão cruel... Eles pareciam governar não somente o

reino dos vampiros, mas o mundo, e dava para ouvir todo mundo sussurrando: “Vladescu...

Vladescu...” – contara ela.

Eu não queria, mas tive que perguntar:

– Você, tipo, chegou a andar com eles?

Ylenia deu um sorriso arrepiante que disse demais sobre ela, Lucius e Raniero. E Jess.

– Ah, não! Isso foi antes de os Vladescu se apaixonarem pelos Dragomir... na época em que

até uma Dragomir europeia educada não passava de poeira sob os pés deles.

Ah, ela praticamente estava fervendo de ciúme ao pensar que uma americana criada em

uma fazenda tinha aparecido e ganhado o coração do príncipe...

– Raniero?

Ele continuou sem ouvir, por isso bati mais alto, porque de repente pareceu esquisito –

mais esquisito ainda do que alguém usar a palavra “cruel” para descrever o sorriso dele –

que Ronnie tivesse fechado a porta. Ele nunca fazia isso. Segundo ele, nem havia uma porta

em sua cabana de praia. Só uma velha cortina de chuveiro.

Girei a maçaneta, que chacoalhou mas não cedeu. E Ronnie nunca trancava nada. Quase

desejava que as pessoas roubassem suas coisas.

De repente eu não estava só perturbada, mas também preocupada com ele, e remexi na

bolsa até encontrar uma lixa de unha, que enټei na fechadura antiga tal como tinha visto

em um milhão de seriados de TV quando deveria estar estudando.

Mas pela primeira vez a TV foi valiosa. Ou talvez a tranca estivesse tão velha que fosse fácil

de ser arrombada. Parecia da época do Renascimento ou coisa parecida.

De qualquer modo, a porta se abriu depois de umas cinco cutucadas, e um segundo depois

eu tinha entrado no quarto. Estava escuro ali dentro, e a princípio não me movimentei

porque o cômodo... tinha o cheiro de Ronnie. Tipo o Ronnie surfista, que de algum modo

mantivera o cheiro da praia mesmo morando na Pensilvânia. A pele e os cabelos sempre

cheiravam a coco, água salgada e... sol. Era ridículo, mas, para mim, a criatura da noite que

eu amava cheirava mesmo a sol.

Eu sabia que estava bancando a invasora, mas fui até a cama dele, com a intenção de apenas

cheirar seu travesseiro. Só por um segundo.

Mas algo me fez parar. Alguma coisa no chão se embolou nos meus pés, e de repente eu

estava agachada e tentando não gritar, porque fui espetada quando caí. Não entendi que

diabo aconteceu, por isso comecei a tatear – e era como se eu estivesse sentada em uma

pilha de poeira.

Funguei e senti cheiro de uma coisa diferente também. Tipo... madeira.

O piso do quarto de Ronnie tinha o mesmo cheiro da oټcina de marcenaria da Escola

Woodrow Wilson.

Tateei mais um pouco e meus dedos tocaram aquela coisa aټada. Um monte de coisas

afiadas.

Batendo no piso, tentei contá-las. Uma, duas, três, quatro, cinco...

Sentindo enjoo, desisti de contar, peguei só uma e falei alto, para ninguém:

– Raniero Vladescu Lovatu, por que raios você está esculpindo todas essas estacas?

E por que alguém disse que você é cruel?

CAPÍTULO 77

Antanasia

Até onde eu via, os túneis batiam mesmo com o mapa desenhado por Raniero, o

que era reconfortante. Mas mesmo assim era difícil não ټcar inquieta enquanto eu seguia a

rota que memorizara, penetrando cada vez mais no coração do que parecia um verdadeiro

labirinto saído direto da mitologia. Tropecei algumas vezes no piso irregular e tentei

manter aquele meu lado matemático concentrado para contar os pequenos desvios do

caminho principal.

Eu precisava encontrar a 13

desejava ir.

– Não tenha medo – falei quando minha lanterna piscou como se as pilhas estivessem

acabando. – Não tenha medo.

Agora aquilo seria um mantra. Eu iria cantarolá-lo se precisasse.

Mas era quase impossível não ټcar nervosa enquanto o teto se tornava mais baixo e o facho

da lanterna ia enfraquecendo. Eu devia ter andado mais de um quilômetro e parecia estar

penetrando direto na montanha.

Será possível? Não, claro que não.

Então, no instante em que a lanterna tremeluziu de novo e se apagou, mergulhando-me no

negrume, encontrei a 13

caminho era apertado feito uma sepultura, de modo que meus ombros roçavam as paredes

–, me espremi no escuro. Sete passos depois, senti a coisa que eu havia temido.

Um beco sem saída.

Mas quando estendi a mão e tateei, já muito perto do pânico claustrofóbico, não senti

pedra, e sim madeira sob os dedos. Madeira úmida porém lisa.

Embora eu soubesse que provavelmente havia algum mecanismo escondido para liberar a

porta, eu precisava sair dali, por isso empurrei com força – e quase tropecei, pois ela cedeu

sem o mínimo esforço.

Talvez porque Raniero a tivesse aberto pelo outro lado e estivesse me aguardando – junto

com uma caixa de estacas recém-esculpidas.

a

 ramiټcação minúscula à esquerda. Isso me levaria aonde eu

a

 saída do caminho principal. Recusando-me a hesitar – porque o

CAPÍTULO 78

Antanasia

A camera de miză – a sala das estacas – parecia deixar Raniero tão desconfortável

quanto a passagem estreita havia me deixado. Ele caminhava de um lado para outro

enquanto eu acendia as duas velas, pois ele estivera me aguardando no escuro, e quando a

luz surgiu eu o vi espiar ao redor, cauteloso... sem ao menos chegar perto de olhar a própria

estaca dentro do vidro.

Ele odeia estar aqui. Odeia estar na presença de todas estas armas e da própria estaca.

– Este lugar não foi uma boa escolha para nosso encontro – falei. – Escolhi aqui porque é

onde Lucius guarda a estaca dele, mas você está incomodado.

– Não. Estou bem.

Mas ele continuou andando como um leão desesperado para sair da jaula.

– Deveríamos ir para outro lugar – sugeri. Olhei a caixa de estacas aparentemente recém-
esculpidas. Ele a havia colocado na mesa junto à arma de Lucius, que havia sido devolvida

ao lugar de sempre depois de sua prisão. – Sobretudo porque acho que não precisamos da

estaca de Lucius.

Raniero diminuiu o passo e me encarou, falando com mais calma:

– Desculpe por eu estar agitado. Eu peço para você ser corajosa e depois ajo feito um

covarde. – Ele respirou fundo. – Vamos ficar aqui, Antanasia.

Observei o rosto dele, tentando avaliar se era mesmo uma boa ideia. Toda vez que eu o via

ele se assemelhava menos ao surټsta que eu conhecera. Não se encurvava mais, o sorriso

pacíټco havia sumido e as bermudas e camisetas com logotipos tinham desaparecido. Pelo

jeito ele atacara o armário de Lucius à vontade, e estava diante de mim usando uma das

muitas calças jeans de marca de meu marido e uma camisa cinza que combinava com seus

olhos, que nunca mais aparentaram ser verdes. Mas, quando ټtei aqueles olhos, não vi nada

que me aterrorizasse. Vi um vampiro poderoso e perigoso como Lucius, mas não alguém a

ponto de morder. Pelo menos não por enquanto.

Talvez por isso eu tivesse me arriscado e pressionado um pouco, tal qual ele havia feito

comigo. Chegando até a caixa de vidro, falei:

– Raniero, antes de prosseguirmos, acho que você deveria me contar por que sua estaca

está em uma caixa de vidro, como um artefato precioso ou um vírus que precise ser isolado.

E também quero ouvir a história do dia em que você quase destruiu Lucius.

Quando falei aquilo e ele enټm olhou para a caixa, vi algo amedrontador brilhar em seus

olhos – mas ele se controlou e concordou.

– Você está certa, Antanasia. Acho que é hora de saber toda a verdade sobre o vampiro que

está com você e muito perto da arma que faz dele o próximo futuro rei.

CAPÍTULO 79

Antanasia

Raniero não começou a história de imediato. Passou alguns instantes olhando

para a própria estaca ensanguentada, como se estivesse se acostumando a vê-la de novo.

– O que é, Raniero? – instiguei baixinho. – É um relicário ou uma contenção?

– Na verdade, acho que é as duas coisas – disse ele. – Os Anciões removeram a estaca de

minha posse, como é costume para os condenados como blestemată, mas foi Lucius quem

optou por dar a ela esse lugar especial. – Ele passou um dedo tatuado com o símbolo da paz

sobre a caixa de vidro. – Embora eu esperasse jamais tocar nisso de novo, Lucius acredita

que ela me aguarda e que é diferente das outras, não porque tenha causado talvez mais

destruição do que qualquer outra aqui, mas porque o dono ainda está neste mundo. E

Lucius acredita que vai continuar assim por muito tempo.

Então ele levantou a cabeça e vi aquela sombra familiar de dor. Dor dos Vladescu. Mas

apesar de os olhos dele estarem tempestuosos, as emoções continuavam sob controle.

– Acho que Lucius também quer ټxar na memória o dia em que ele chegou mais perto da

destruição – comentou.

Era difícil ouvir aquelas palavras, e precisei me lembrar de que a história havia tido um

final feliz.

– O que aconteceu?

Raniero passou a mão pelos longos cabelos, obviamente incomodado ao contar aquilo.

– Um dia Lucius e eu estávamos treinando nas masmorras... Nossa parceria de combate

chegava ao ټm e nós travávamos a disputa de forma violenta, equiparados. Havia muito

sangue, porque estávamos ټcando mais fortes. Não éramos mais garotos, e sim homens. –

Ele deu um sorriso torto. – Acho que éramos homens havia muito tempo e nem sabíamos.

Saber que a história terminava com Lucius vivo não impediu que minha boca ټcasse meio

seca.

– E...?

– Nós fazemos uma pausa – disse ele, escorregando para o verbo no tempo presente, como

se as lembranças fossem nítidas demais para serem contidas no passado. – E os que

supervisionam a luta, Claudiu e Flaviu, nos puxam de lado e dizem, como sempre, que

estamos fazendo tudo errado.

Ele coçou a nuca com força e eu me perguntei se tinha cometido um erro ao pedir para

ouvir aquela história. Mas era tarde demais para recuar. Era como se ele estivesse dando os

primeiros passos rumo a um mausoléu ou túnel escuro, tal qual eu tinha acabado de fazer.

Encarando coisas que Lucius também se achava capaz de enfrentar.

– É Claudiu que fala comigo – continuou ele. A boca assumiu uma expressão triste e os

olhos ټcaram duros como pedra. – Ele me diz que Lucius é o vitorioso naquele dia. Que

lamenta terem se dado ao trabalho de me tirar de meu amado lar em Tropea e desperdiçado

grandes esforços para me tornar um guerreiro.

– Deve ter sido horrível – observei, demonstrando compaixão. – Ouvir que a perda de sua

infância foi em vão...

– Sim – concordou ele. – E então, quando estou com muita raiva, Claudiu sussurra ao meu

ouvido: “Por que você não se prova agora? Derrube o príncipe, ascenda ao trono e faça seu

sacrifício valer a pena.”

Fiquei rígida no lugar, fascinada e horrorizada.

– Ele não precisou insistir – admitiu Raniero. – Lucius ainda está falando com Flaviu, de

costas para mim, e eu atravesso o piso e agarro o ombro dele, e quando ele se vira para me

encarar vê minha expressão e entende imediatamente que não estamos mais brincando de

guerra.

Um arrepio percorreu minhas costas quando os dedos de Raniero se apertaram como se

segurassem uma estaca imaginária, e a expressão nos olhos dele...

– Golpeio sem hesitar porque tenho um segundo de vantagem enquanto Lucius percebe a

mudança na disputa. – Eu vi um lampejo de caninos. – E minha mira é boa.

Dei um passo para trás, nauseada – e consciente de que ele estava perdido no passado. Eu o

pressionei demais. Cometi um erro. E até que ponto ele chegou de...?

– Mas...? – falei. De repente estava desesperada para ouvir o ټnal da história, o ټnal feliz, e

para chamar Raniero de volta. – O que aconteceu?

Pareceu que minha voz o alcançou. Ele me encarou e percebi que estava no presente de

novo, ainda que arfasse como se continuasse no calor da batalha.

– Nós somos equiparados o suټciente para Lucius recuar, talvez dois centímetros, e é esse

movimento ínfimo que salva o coração dele.

NÃO!, senti vontade de gritar. Não havia esperado que Raniero tivesse chegado tão perto

de acabar com a existência de Lucius. Quantas vezes meu marido vai chegar à beira da

destruição – e sobreviver? Quantas chances tem um vampiro?

– Lucius está deitado no chão – acrescentou Raniero, parecendo ter se livrado da raiva.

Seus dedos não estavam mais apertados em torno da estaca, os ombros tinham baixado

quase como antigamente e os caninos se foram. – Estou acima dele e me ajoelho, preparado

para ser o vitorioso naquele dia. O vitorioso de todos os tempos. – Ele baixou a cabeça e

olhou para aquela mão odiada. – Mas quando meus dedos agarram a estaca para enټá-la

pelos dois centímetros que vão me dar o trono, seu marido, que é sempre corajoso mesmo

no sofrimento, consegue sorrir de algum modo enquanto o sangue escorre na poeira e me

diz, ofegando muito: “Raniero, meu irmão! Quase acreditei que você quisesse me destruir, se

não tivéssemos marcado um jantar para esta noite. Você não vai me fazer perder a lebre na

qual fiquei pensando o dia todo,vai?”

Raniero ergueu os olhos e eu vi que ele estava rindo por causa da lembrança. Horrorizado

e rindo, como eu.

Quando Lucius for solto, vou encomendar 65 mil euros em coelhos para ele, por ter sido corajoso

a ponto de fazer piada de um modo que quase certamente salvou sua existência, dando-me assim

a oportunidade de conhecê-lo e de me casar com ele.

– Lucius me chama de irmão... e sorri. – Raniero continuou olhando para os próprios

dedos, que tremiam. – Minhas mãos começam a tremer como agora, e eu arranco a estaca da

carne dele e aperto o ferimento com os dedos, dizendo que ele feche os olhos. Que ele está

em segurança e que lamento por minha mão ter escorregado. – Ele levantou os olhos para

me encarar outra vez. – Mas nós dois sabemos que o que eu fiz não foi um engano.

Entendi tudo o que havia se passado entre Raniero e Lucius naquele dia. A estranha

mistura de raiva, fraternidade e ciúme que levara àquele momento. Mas havia algo

importante que eu ainda não compreendia.

– Por que Claudiu não foi castigado por ter incitado você a fazer isso? Ele usou você como

arma. Não sei muito sobre nossas leis, mas isso deve significar traição.

Raniero deu de ombros.

– Lucius e eu não falamos mais sobre o incidente, e logo fui despachado para atuar como

assassino. Só muito mais tarde chegamos a mencionar o que quase aconteceu, mas nunca de

forma direta.

– Entendo.

Mas Raniero não havia terminado de confessar, e passou a mão pelo cabelo outra vez.

– Acho que você não enxerga a parte mais terrível da história, Antanasia. Ninguém

enxerga, porque nunca contei.

Senti arrepios de novo, porque ele estava falando de modo muito estranho. No entanto,

cheguei ao ápice de minha conټança em Raniero quando ele me mostrou seus olhos, cheios

de autorrecriminação, e admitiu:

– Enquanto eu me preparava para destruir seu marido, havia uma parte de mim que agia

não por raiva infantil, mas por um desejo genuíno, um apetite poderoso, de tomar tudo o

que ele possuía e tornar meu.

Raniero e eu nos encaramos, a estaca ensanguentada entre nós, e aquela confissão pairando

no ar. O vampiro que um dia jurou não precisar de nada na verdade havia desejado TUDO. O

poder – e a vida – de Lucius.

Deixei essa ideia se assentar, depois lhe disse:

– Está ficando tarde. Dê uma estaca para mim.

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