sábado, 5 de outubro de 2013

CSUVA - prólogo-1-2-3

“Se você estiver lendo isso, Antanasia, signiĀca

que o destino se desdobrou como seu pai e eu

planejamos e você encontrou o caminho de casa.

Espero que sua existência até este momento tenha

sido feliz – e que você esteja preparada para os

desafios e os riscos que virão...”

PRÓLOGO

– Mãe?

A neve gira em redemoinhos ao redor dela, que está de costas para mim, o corpo envolto numa

capa de um vermelho vivo. Carmim... A cor de Mihaela. A rainha que um dia governou os

Dragomir parece uma mancha de sangue em contraste com a vastidão branca, e no entanto ela é

tão forte e sólida quanto as rochas irregulares dos Cárpatos, que ascendem da montanha romena

solitária onde nós sempre nos encontramos.

Dou um passo em sua direção, sem compreender. Por que ela não se vira para falar comigo?

– Mãe?

E então Mihaela Dragomir dá meia-volta, o rosto parcialmente ocultado pela capa. Ela carrega

um objeto, que aperta contra o peito como uma freira aninharia uma cruz. Mihaela, porém, não

é uma irmã humilde, devota, e o objeto... não é uma relíquia sagrada.

A estaca... A estaca manchada de sangue...

A estaca de Lucius, que ele usou para destruir o próprio tio – e que certa vez quase utilizara

para...

– Não! Nunca!

Sacudindo-me, lutando contra algo que parecia comprimir meu peito, sentei-me com

diټculdade. Abri os olhos, vi a luz da lareira tremeluzir nas pedras e por um segundo não

tive certeza de onde estava.

Aos poucos, porém, fui reconhecendo o lugar. Eu estava na casa de Lucius – em nossa casa.

Em nossa cama. Aquela pressão no peito não era... eram só os cobertores pesados sempre

necessários no quarto dele – em nosso quarto –, enorme e gélido, embora a lareira estivesse

acesa.

Respirando fundo, estiquei o braço e pus a mão no ombro dele, para ter certeza de que

estava tudo bem. Enquanto Lucius estivesse comigo, eu ficaria bem.

Mesmo assim, cenas do pesadelo voltavam à tona.

A estaca, que eu não via desde a noite em que Lucius cravara os caninos em meu pescoço e

me recriara como vampira...

Por que eu havia sonhado com aquilo? E por que minha mãe biológica – que nunca me

faria mal – a estava segurando?

Eu tinha começado a sonhar com Mihaela ainda na Pensilvânia, e os sonhos haviam ټcado

mais frequentes desde meu casamento com Lucius e minha mudança para a Romênia. Era

como se minha mãe, destruída pouco depois de meu nascimento, estivesse tentando me

proteger enquanto eu me esforçava para seguir seus passos e me tornar uma governante,

valendo-me da ajuda de um diário que ela deixara para mim. Um presente de casamento

póstumo para me guiar enquanto eu aprendia a ser uma princesa.

Meu coração começou a bater mais depressa outra vez. Será que eu estava aprendendo?

Pelo menos estava tentando.

Enټei-me de novo sob os cobertores e me aninhei junto a Lucius na cama imensa – a

mesma, conforme ele havia confessado, na qual os Anciões Vladescu esperaram que ele

tirasse minha vida, exonerando convenientemente sua noiva Dragomir do poder e

permitindo que os Vladescu ganhassem domínio incontestável sobre as duas famílias. Chutei

as cobertas, meio que nadando em meio a elas, com uma impaciência súbita para ټcar ao

lado dele.

Tudo na casa dele – em nossa casa – parecia grande demais. Inclusive as obrigações.

Lucius dormia de lado, de costas para mim, e eu me aconcheguei a ele, sentindo a frieza de

seu corpo. Eu também era fria daquele jeito, desde que ele me mordera, selando nosso

destino e um pacto com décadas de idade que decretara nosso casamento para dar ټm a

uma guerra entre famílias rivais. Colada a meu marido – como isso ainda soava estranho! –,

ouvi sua respiração constante, que sempre me acalmava quando eu ټcava nervosa. Lucius

não estava com medo. Ele governava os clãs com destreza. Tinha nascido e sido criado para

cumprir esse objetivo.

Ou será que às vezes ele ficava preocupado?

– Lucius? – Apoiei-me no cotovelo e o sacudi gentilmente, pois precisava ver seus olhos

escuros e ouvir sua voz grave e reconfortante. – Lucius?

– O quê... o quê? – murmurou ele. Em seguida rolou, deitando-se de costas, e me procurou

embaixo das cobertas, que eram caras, pesadas e me faziam sentir falta das cobertas de

ٽanela, macias e já desgastadas, de minha cama na Pensilvânia. Mas como uma princesa

poderia pedir flanela? – O que foi, Jessica?

Pousei a mão em seu peito e o senti subindo e descendo bem lentamente, então me

perguntei se ele já havia adormecido de novo. Mas não consegui evitar perguntar em um

sussurro, para que os guardas do lado de fora não ouvissem:

– Quando um vampiro sonha com uma estaca, o que isso significa?

Lucius não respondeu e percebi que ele estava mesmo dormindo – provavelmente exausto

depois de mais um dia lutando para unir nossas famílias teimosas –, então me deitei e me

aninhei junto a ele outra vez. Em reação à pressão que eu exercia, ele se virou e me puxou

para perto, de modo que senti toda a extensão de seu corpo forte de guerreiro encostado ao

meu, como um escudo às minhas costas.

No alto daquela montanha romena, no coração de um castelo confuso que eu

supostamente governava, mas em cujos corredores sinuosos ainda me perdia, a noite ټcou

muito silenciosa. Até o fogo parecia estalar mais baixo. Depois de alguns minutos me

obrigando a esquecer o pesadelo, comecei a cair no sono de novo, quando de repente

Lucius murmurou, mais baixo que um sussurro, a respiração gelada em meu pescoço:

– Traição.

Fiquei rígida nos braços dele. Será que ele estava respondendo à minha pergunta ou

envolvido nos próprios sonhos? Nos próprios pesadelos?

Mesmo se fosse a segunda hipótese, não era muito reconfortante. Será que deslealdade –

traição – estaria martelando na cabeça dele? Como todos os vampiros, Lucius dava enorme

valor aos sonhos.

– Traição – repeti, tentando me certiټcar de que havia escutado mesmo aquela palavra. –

Traição.

Ao ouvir minha voz, que saiu baixa mas suټcientemente audível para romper o profundo

silêncio na montanha, Lucius, parecendo inquieto, me apertou mais em seus braços fortes e

marcados por cicatrizes, de modo que fiquei presa junto ao peito dele.

Puxei sua mão, procurando abrir um pouco de espaço para respirar. Mas ele não me soltou

e tentei movê-lo de novo. Senti com a ponta dos dedos mais uma cicatriz profunda – um X

na palma da mão que indicava que Lucius era meu, cortado em sua carne em nossa

cerimônia de casamento –, além da aliança na mão esquerda. Sua mão dominante. A mesma

com que ele segurara a estaca ao me agarrar de um modo muito diferente, ali naquele

mesmo castelo, não muitos meses antes.

CAPÍTULO 1

Antanasia

De todos os aposentos sinistros do Castelo Vladescu – sem contar as

masmorras, é claro –, o que era usado como sala do tribunal devia ser o pior deles.

Como em todos os outros cômodos acima do nível do chão, a lareira ټcava acesa, mas as

chamas estavam mais para infernais do que agradáveis. Lançavam sombras assustadoras e

agitadas nas paredes de pedra cinza e deټnitivamente não ajudavam a aquecer a decoração

austera, que consistia de um semicírculo de bancos para testemunhas, um lugar gasto no

chão de pedra onde o acusado ټcava de pé e uma mesa comprida à qual eu me sentava ao

lado de Lucius em uma cadeira dura, de encosto reto. De ambos os lados, os Anciões

esperavam em cadeiras semelhantes, todos os 10 vampiros mais velhos em uma imobilidade

notável.

Remexendo-me na cadeira, tentei – e não consegui – ficar mais confortável.

Eu deveria processar o pessoal que projetou o castelo do Meu Querido Pônei, com o qual eu

brincava no jardim de infância. Eles me levaram a acreditar que os castelos eram cheios de arco-

íris, cupcakes e mobília em tons pastel. Não de pedra, fogo e... sangue.

Virando-me um pouco de lado, tentei encontrar o olhar de Lucius, mas ele ټtava algo

adiante, claramente preocupado. Também estava muito quieto, exceto pela mão esquerda,

que coçava o queixo de modo distraído no ponto em que havia uma pequena cicatriz. Eu

sabia que isso signiټcava que ele estava disfarçando a tensão e o revirar em meu estômago

piorou.

Se Lucius está tenso, como posso sequer me imaginar enfrentando isso?

Meu marido pareceu sentir que eu estava ټcando muito nervosa e me olhou de soslaio só

por tempo suټciente para me lembrar: “Não pire de vez, Jess. Nós já conversamos sobre isso.

Faz parte de nossas funções.”

Tudo bem que Lucius não era de usar a expressão “pirar de vez”, mas tínhamos discutido

que minhas novas responsabilidades incluíam aplicar a justiça e às vezes penas de...

– Que o acusado se apresente.

Dei um pulo quando a voz grave e autoritária de Lucius ecoou de repente nas paredes e

quando me virei, com o coração apertado, vi um vampiro no fundo da sala, com as mãos

algemadas e a cabeça baixa.

Ele é um assassino, lembrei a mim mesma enquanto minha boca ټcava seca. Um punhado de

testemunhas o viu destruir meu tio Constantin Dragomir. E o que estou fazendo é o mesmo que

participar de um júri. Os humanos fazem isso o tempo todo.

Olhei à esquerda, procurando me tranquilizar com o fato de que não decidiria sozinha o

destino do prisioneiro que arrastava os pés até aquele lugar mais descorado no piso. Mas

meu tio Dorin – o único Ancião que eu considerava aliado – não estava ali, e acabei

encontrando o olhar de Claudiu Vladescu, que deu um sorrisinho afetado. Talvez em razão

do pânico cada vez maior que devia estar evidente em meu rosto... ou talvez por causa da

perspectiva de ouvir testemunhos de um crime.

Meu estômago ټcou mais embrulhado ainda. Claudiu é igualzinho ao irmão mais velho,

Vasile – outro vampiro maligno e perverso, que Lucius destruiu.

Mesmo ciente de que eu estava agitada demais para uma princesa, virei-me para olhar

Lucius de novo no instante em que ele falou com um tom de voz ټrme que eu não me

imaginava reproduzindo se tivesse que me manifestar:

– Conte sua história a este júri, Dumitru Vladescu, e decidiremos se você merece

clemência ou castigo.

Eu deveria prestar toda a atenção no vampiro que estava prestes a lutar por sua vida, mas

ټquei observando meu marido, que apenas poucos meses antes estivera naquele mesmo

círculo e felizmente fora considerado inocente da morte de Vasile. Por sorte, a maioria dos

Anciões – excluindo Claudiu, é claro – acreditou que Vasile tinha atacado primeiro, não

dando a Lucius outra opção senão se defender.

Nunca me permiti pensar no que poderia ter acontecido naquele julgamento, e ټquei feliz

por só ter tomado conhecimento dele muito depois do veredicto.

Continuei observando Lucius. Como ele suporta estar nesta sala e ainda por cima conduzir

qualquer coisa aqui com frieza? E se o veredicto de hoje for de culpa, não teremos que...?

– Fale – instigou Lucius, dirigindo-se a seu parente. – Esta é sua oportunidade de salvar

sua existência.

Ouvi tanto determinação quanto compaixão no tom de Lucius, mas de repente meu

sangue, que já era frio, pareceu gelo. Uma existência pode de fato chegar ao fim hoje. Não sou

apenas parte de um júri. Sou a juíza, e Lucius pode ser...

Agarrando minha cadeira, enټm me obriguei a encarar Dumitru Vladescu, que levantou a

cabeça, de modo que pude ver seus olhos escuros e apavorados, porque se ele fosse

considerado culpado...

– Não!

Nem percebi que tinha gritado, até porque o rangido da cadeira quando me levantei de

um pulo provavelmente abafou minha voz.

– Peço licença – murmurei, baixando a cabeça. – Preciso sair. Não estou me sentindo bem.

Não consegui olhar para Lucius quando me afastei dele, cambaleando. Também não olhei

para Claudiu nem para os outros Anciões, que estavam bem cientes do motivo pelo qual a

garota comum criada por veganos tinha saído correndo da sala, quase tropeçando no

vestido longo e formal.

– Com licença. – Os Anciões puxaram suas cadeiras para junto da mesa de modo que eu

pudesse passar por trás deles. – Desculpem...

Eu sabia que estava – de novo – prejudicando Lucius, assim como minha chance de ganhar

um voto de conټança, que seria crucial quando os membros mais inٽuentes dos clãs

Vladescu e Dragomir fossem se reunir em um importante congresso de vampiros no verão

daquele ano. Um voto que elevaria nós dois ao status de rei e rainha. No entanto, eu não

podia ficar ali, mesmo que minha saída nos condenasse ao fracasso.

Passei praticamente correndo pelo prisioneiro, tampouco sem encará-lo. Mas enquanto

corria até porta, troquei olhares com uma vampira que eu não tinha notado, embora eu

devesse ter imaginado que ela fosse estar presente no julgamento do assassino de seu pai.

Minha prima Ylenia Dragomir, de 18 anos (mesma idade que eu), baixinha e vestida de

preto, estava sentada sozinha a um canto, fundindo-se às sombras como se não quisesse que

ninguém visse seu rosto enquanto ouvia a história do assassinato do pai reproduzida em

detalhes.

Eu não sabia qual seria o veredicto, mas nunca havia me sentido tão culpada como quando

abandonei aquela sala, decepcionando não somente meu marido, mas também a primeira

amiga que eu tinha feito na Romênia.

CAPÍTULO 2

Antanasia

– Não seja tão dura consigo mesma, Antanasia – insistiu tio Dorin. Ele estava perto de minha

escrivaninha, retorcendo as mãos com nervosismo, cheio de compaixão nos olhos. – Eu... eu

também não fiz muito esforço para comparecer. Participar de um julgamento não é para todo

mundo, sabe?

– Claudiu parecia confortável com isso – comentei, arrasada. – E Lucius também!

Pelo menos ele tinha agido como se estivesse confortável, e isso era o que realmente

importava.

– É, os Vladescu são famosos pelo sangue-frio – lembrou Dorin. – Todos eles têm gelo

correndo nas veias. E uns poucos, como Claudiu, salivam de prazer ao infligir algum castigo.

Nós, os Dragomir, por outro lado, tendemos a ser um pouco...

Ele não conseguiu encontrar a palavra certa, mas eu era capaz de concluir a frase com bastante

facilidade.

Moles. Dóceis. Covardes?

Mas era tão ruim assim querer evitar que existências se perdessem?

Endireitei a postura em minha enorme cadeira de escritório, que pertencera à minha mãe

biológica. A camisola de seda que vestia – em uma tentativa desesperada de fazer todo mundo

acreditar que eu estava mesmo indisposta – fazia meu bumbum escorregar no assento de

couro, e quando cheguei para trás meus pés ficaram balançando, o que contribuiu para que eu

me sentisse ainda mais como uma criança brincando de princesa. Uma criança envergonhada.

Pelo menos uma Dragomir – Mihaela – nunca se esquivava de um julgamento.

Será que fui longe demais com a camisola?

– Acho que agora não posso fazer nada, a não ser tentar me redimir no encontro com os

Anciões amanhã – comentei, olhando de mau humor para o enorme livro-caixa aberto à minha

frente. – Pelo menos posso tentar fazer algumas observações inteligentes quando discutirmos

este orçamento.

No entanto, eu também não nutria muita esperança em relação a isso enquanto examinava

colunas de números que supostamente representavam quanto Lucius e eu pretendíamos gastar

governando um reino de vampiros mutável, sem fronteiras e louco, que até pouco tempo antes

eu nem sabia que existia.

Afundei na cadeira, pensando: Claro, eu sou craque em matemática, mas também sou uma

adolescente que no ano passado trabalhava para ganhar gorjetas de 3 dólares, não milhões de

euros em impostos!

E quem ao menos sabia que os vampiros cobravam impostos?

– Dorin? – Fechei o livro-caixa com uma pancada, pois minha mente preocupada e distraída

ficava antecipando o encontro ainda mais importante que estava por ocorrer naquele ano,

tornando impossível me concentrar em números. – Afinal, como é o congresso de vampiros?

Eu tenho dificuldade em visualizar esse evento no qual nosso destino, meu e de Lucius, será

decidido.

– Ah, nossa!... – Dorin deu um passo para trás e retorceu as mãos de novo, mas dessa vez

parecia feliz e nostálgico em relação a uma semana que eu temia. – O congresso é um

acontecimento e tanto! Os Vladescu e os Dragomir mais eminentes comparecem, vindos de

todo o mundo, e ao mesmo tempo que fazemos negócios, é claro, também há uma chance de

socializarmos. Há festas todas as noites durante uma semana inteira, com a melhor comida e a

melhor música. No passado as propriedades eram decoradas lindamente, tanto quanto foram

em seu casamento.

Os olhos dele quase reluziam, e desejei ser capaz de me empolgar com a perspectiva de

centenas de parentes meus vagando pelo castelo.

– Então basicamente é uma reunião familiar exagerada de mortos-vivos?

– Isso – assentiu Dorin. – Acontece todos os anos desde que foi assinado o pacto que decretou

seu casamento, unindo nossos clãs. E este ano será mais especial, afinal comemoraremos a paz

duradoura alcançada com esse enlace. – Ele deu um sorriso mais caloroso ainda. – Sua mãe foi

a anfitriã do primeiro congresso, pouco antes de ser destruída. Ela ficaria orgulhosa vendo

você assumir esse papel.

Escorreguei na cadeira de novo e voltei a me endireitar.

Como eu iria alimentar e entreter 800 vampiros quando nem sequer conseguia pedir o jantar

na cozinha para mim e Lucius? Iria estragar todo o acontecimento, e todos os meus parentes

ririam quando fossem depositar as cédulas com “não” na urna para a votação de confiança no

último dia. Eu estava condenada a fracassar em minha própria festa e também arruinar o

futuro de Lucius.

– Vai ser um desastre – admiti em voz alta, pela primeira vez.

– Antanasia!

Levantei o olhar e vi Dorin com o dedo nos lábios, pedindo silêncio e fazendo um gesto com a

cabeça em direção à porta.

De imediato percebi que tinha cometido outro erro. Emilian, o jovem guarda que ficava

postado à entrada do cômodo sempre que Lucius não podia estar comigo, jamais deveria me

ouvir reclamando ou demonstrando fraqueza. De acordo com meu marido, que havia lidado

com “subalternos” a vida toda – enquanto eu limpava as cocheiras em uma fazenda onde era

proibido matar qualquer coisa –, os serviçais, até mesmo os leais, eram fofoqueiros notórios.

Se Emilian contasse a alguém que eu estava prevendo o desastre no congresso, a notícia de que

eu não conseguia nem planejar uma festa se espalharia como um incêndio.

Dorin e eu nos entreolhamos, ambos provavelmente com o mesmo pensamento: a única coisa

que eu sabia fazer de forma majestosa era besteira.

Como Lucius estará se saindo no julgamento sem meu apoio?

E será que minha prima Ylenia, que também abandonei, está chorando detrás de seus óculos

de lentes grossas?

– Vamos voltar ao orçamento. – Suspirei, abri o livro-caixa outra vez e falei mais baixo: –

Acho que estou traduzindo errado do romeno, porque parece que Lucius quer gastar 65 mil

euros em coelhos no ano que vem.

– Gosto um bocado de lebres, mas jamais conseguiria consumir mais do que o equivalente a

50 mil euros em um ano – disse uma voz masculina e grave.

Congelei ao ouvir o som inesperado e percebi meu tio se empertigando também quando ambos

nos viramos e vimos Lucius encostado na soleira da porta, com os braços cruzados.

E ainda que ele houvesse acabado de fazer uma piada, seu rosto parecia perturbado, talvez

porque eu tivesse admitido minha ignorância suficientemente alto ou talvez por causa do que

ele havia acabado de fazer no julgamento.

– Lucius?

CAPÍTULO 3

Antanasia

– Estou surpreso por vê-lo aqui, Dorin – observou Lucius, depois olhou

por cima do ombro para falar com Emilian: – Eşti demis.

Parecia que eu estava desaprendendo romeno, mas até eu sabia o signiټcado daquela

ordem: “Está dispensado.” Não que eu a tivesse dado algum dia.

Ele se afastou do portal, entrando na sala, e foi direto até meu tio sem cumprimentá-lo, ou

a mim.

– Sua presença era necessária no julgamento, Dorin – disse Lucius, olhando do alto o

vampiro mais baixo. – Esqueceu-se da data?

Lucius não estava sendo grosseiro – ele jamais era grosseiro, nem com serviçais –, mas era

óbvio que estava muito insatisfeito com meu tio, que lambeu os lábios e gaguejou:

– É, eu... eu me atrasei, e então soube que Antanasia não estava se sentindo bem.

Lucius permaneceu mudo depois que Dorin parou de falar. Não precisava dizer nada.

Ficou óbvio que era melhor que o traseiro de Dorin estivesse na cadeira no próximo

julgamento de um vampiro.

Lancei um olhar de desculpas a meu tio enquanto ele seguia para a porta, fazendo uma

reverência sutil e dizendo a nós dois:

– Estou indo. – E olhou para Lucius, pedindo permissão. – Se não for problema.

Lucius não tentou impedi-lo, e eu me perguntei de novo: Por que meus dois aliados mais

próximos não podem ser amigos? Por que Lucius não pode perdoar a fraqueza de Dorin, que a

seus olhos é pior do que a insubordinação? Ele diz que o instinto de autopreservação de Dorin é

“perigoso”. “É perigoso para todo mundo, principalmente para Dorin!”

Eu queria entender isso, mas não conseguia. Tentar sobreviver me parecia algo bastante

razoável.

– Converso com você depois – falei a Dorin enquanto ele nos deixava sem ao menos se

despedir.

Então, quando a porta se fechou e Lucius veio em minha direção, ainda em silêncio, eu me

preparei para nosso confronto. Ele devia saber que eu estava fingindo.

Mas Lucius não fez qualquer menção à minha camisola nem ao julgamento. Simplesmente

me tomou nos braços e me cumprimentou como sempre fazia quando estávamos a sós: com

um beijo.

Aliviada, mas ao mesmo tempo um tanto nervosa, enlacei o pescoço dele e o beijo ټcou

mais intenso.

Eu queria desfrutar aquele raro momento de privacidade, mas mesmo quando senti a

pressão dos caninos em meu pescoço me ٽagrei à procura de suas mãos, em busca de algum

rastro discreto e pegajoso do sangue que eu temia que meu marido – que estava

murmurando “eu te amo” sem parar ao meu ouvido – houvesse acabado de derramar, pois

eu sabia que existia uma chance de ele não ter sido apenas juiz e júri, mas carrasco também.

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