sábado, 5 de outubro de 2013

CSUVA - 68-69-70-71-72-73

CAPÍTULO 68

Mindy

Fiquei deitada em minha cama enorme com o laptop que tinha pegado

emprestado no escritório de Jess, tentando demonstrar interesse em navegar na loja Zappos,

mas não conseguia me importar com sapatos nem com o que tinha pedido à cozinha através

de um simples telefonema, apertando botões e dizendo “sorvete” até alguém conseguir me

compreender.

Jess estava certa. Aquele castelo era medonho. Eu estava cercada de coisas fantásticas, mas

aquilo não fazia com que me sentisse melhor. Eu iria para casa se ela não precisasse tanto de

mim – e se minha mãe não quisesse me matar.

Enټei a colher de prata na boca, mas quase não senti o gosto do Häagen-Dazs, porque

como é que eu poderia me importar em comer – mesmo que fosse sorvete de chocolate?

Só pela expressão de Ronnie, e pelo modo como ele não dissera nada, eu tinha quase

certeza de que ele havia mordido Ylenia Dragomir. Que havia feito com ela algo que nem ao

menos se oferecia para fazer comigo.

Eu sabia que deveria odiá-lo. Mas não odiava.

Eu amava aquele vampiro italiano idiota e sem ambição. Não conseguia parar de amar.

Era ELA que eu odiava. Havia alguma coisa errada na garota, desde os óculos de nerd até

os sapatos pesados, e ela havia feito alguma coisa com ele. Eu sabia.

Com um enorme suspiro frustrado, larguei o laptop e peguei a revista Cosmo, aټnal não

podia fazer nada naquela noite – nem por mim, nem por Jess, nem por Ronnie ou Lucius –,

a não ser, talvez, ler nossos horóscopos para ver se havia uma notícia boa para alguém no

futuro.

Mas antes que eu pudesse chegar aos astros, a matéria principal na seção “Segredos &

Conselhos” me fez congelar. Eu tinha me esquecido por completo de que a matéria estava

ali, mas quando a notei, li como se cada palavra fosse um teste. Deve ter sido a leitura mais

rápida que já fiz, e quando terminei fechei a revista com força e repeti o título em voz alta:

“Mantenha as amigas por perto, e as INIMIGAS mais perto ainda.”

Eu me lembraria disso. E sabia que nunca me esqueceria das últimas frases – mesmo nem

tendo tentado decorar.

“Quem sabe? Manter sua inimiga por perto pode lhe render uma nova amiga sincera. Talvez ela

não seja tão má quanto você pensava. E se ela for do tipo que esfaqueia pelas costas, pelo menos

você vai ficar sabendo de todos os segredos dela.”

Tomei mais uma enorme colherada de sorvete, pensando que a Cosmo sempre dava bons

conselhos.

Era uma atitude horrível, e eu odiei fazer aquilo, mas peguei o computador de novo e abri

o e-mail de Jess, onde, claro, havia mensagens para sua nova melhor amiga, Ylenia – que, a

meu ver, não deveria estar usando o login Dragomir1. Ela era, tipo, a número dois – na

melhor das hipóteses.

E, mesmo precisando fazer um baita esforço para ser simpática, digitei:

“Oi, Ylenia, aqui é Mindy, usando o e-mail de Jess. Estou muito entediada, afinal Jess está

ocupada, dããã, e ela disse que você é a melhor guia de turismo da Romênia, então que tal a gente

dar uma volta? Sua amiga também – Min.”

Eu tinha consciência de que era a coisa certa a fazer – precisava saber se só estava com

ciúme ou se Ylenia era mesmo uma sanguessuga/traidora –, mas, mesmo assim, quase vomitei

o chocolate holandês caríssimo que estava dentro de mim quando apertei a tecla para

mandar a mensagem.

CAPÍTULO 69

Antanasia

– Eu ia procurar você – falei para Raniero, que segurou as rédeas enquanto eu

desmontava da égua. – Mas tive a sensação de que você estava perto.

– Sim, eu a segui. – O olhar dele estava ټxo no cemitério e ele parecia mais tenso do que

eu por estar ali. – Esperei você no portão.

Será que Raniero temia que seu destino estivesse entre o muro de pedras? Uns bons

instantes se passaram antes de ele afastar o olhar do cemitério para encontrar o meu, sob o

luar.

– Por que você iria me procurar?

Provavelmente era estranho ele não ter perguntado primeiro por que eu tinha ido sozinha

a um cemitério à noite, mas talvez ele soubesse o que eu estava fazendo. Como eu estava

mudando. Não pareceu surpreso quando falei:

– Quero que sejamos parceiros, e, se acontecer algum tipo de batalha, seja em um tribunal

ou com estacas, estarei ao seu lado e jamais vou fugir. – Olhei no fundo dos olhos dele, que

eram tão complexos quanto os de Lucius e guardavam ainda mais dor. – Fiz os votos a

Lucius há alguns meses, mas na ocasião não entendi de fato o que eles signiټcavam.

Garanto, porém, que agora entendo.

O sujeito que estava bem certo de que eu pedia – ordenava – que ele sacriټcasse a

existência para salvar meu marido me examinou por um longo tempo, como se imaginando

se eu iria voltar para a cama em algum momento. Então ele assentiu e declarou:

– Claro que vou ajudar você e o irmão que demonstrou tanta clemência para comigo. É

uma honra.

Naquela hora eu soube que enټm tinha feito alguma coisa certa. Havia conquistado o

respeito de um vampiro que eu também respeitava.

Mas ainda não era tão corajosa quanto Raniero, ou tão corajosa como Lucius poderia ter

sido, porque quando Raniero perguntou se eu pretendia marcar a data do julgamento,

respondi imediatamente:

– Não. Ainda não. Ainda não há provas para salvá-lo. – Continuei a encará-lo para ele

perceber que eu não estava mais acovardada, mesmo que ainda não estivesse cem por cento

segura. – Mas vou conseguir alguma prova.

Eu tinha quase certeza de que Raniero teria arriscado e marcado uma data imediatamente,

mas o amor que ele sentia por Lucius, por mais que fosse forte, não chegava nem perto do

meu, e eu não me arriscaria. Ainda não. Até ter alguma prova da inocência de Lucius, era

melhor continuar correndo o risco do luat do que condená-lo à destruição certa e imediata.

Saber que sua existência acabaria, sem esperança de jamais vê-lo de novo, tocá-lo...

– Não – repeti. – Por enquanto não vou marcar a data.

– Claro. – Raniero me entregou as rédeas e quando começamos a adentrar na ٽoresta

escura dos Cárpatos, lado a lado, ele perguntou: – Então, como quer agir, princesa?

– Preciso de um mapa do castelo. Não posso ficar me perdendo na minha própria casa.

– Posso providenciar isso – garantiu ele. – Sou bom com mapas. Posso desenhar a

propriedade de cor, inclusive lugares que você nem sabe que existem.

Não ټquei surpresa ao ouvir aquilo. Lucius havia me garantido que Raniero tinha muitos

talentos ocultos, os quais seriam úteis.

– O que mais você deseja? – perguntou ele, me olhando.

O surټsta praticamente tinha desaparecido, mas de algum modo eu me sentia mais à

vontade com o guerreiro que vinha emergindo. Eu o compreendia – porque compreendia

Lucius. E então tomei mais uma decisão. Se eu iria mesmo conټar nele, então precisava

confiar por completo.

– Quero que me ensine a usar uma estaca. Lucius ia fazer isso, antes de ser preso.

As árvores haviam se fechado ao redor de nós, escondendo o luar, mas acho que vislumbrei

dentes brancos, como se Raniero estivesse sorrindo no escuro. Eu esperava que fosse um

sorriso de aprovação pelo modo como eu estava enټm me comportando, e não expectativa

pela perspectiva de tocar uma arma que com certeza ele não usava havia dois anos.

CAPÍTULO 70

Lucius

R.,

Acordei do que parece ser um cochilo interminável para perguntar se há alguma novidade

acima do subsolo desde o funeral... ocorrido há quantos dias? Dois? Três? Perdi a noção.

Antanasia ainda está em segurança? Porque começo a ter sonhos terríveis que muitas vezes

acabam de maneiras que não suporto colocar no papel.

Nunca passei tanto tempo sem beber, e meus pensamentos quando acordo ficam apreensivos

por conta da sede por minha esposa em muitos sentidos... Descubro que sou incapaz até mesmo

de pensar em planos e estratégias e só consigo me concentrar na pergunta: haverá um

julgamento? A data foi marcada?

Lamento por não ser capaz de ajudar mais.

L.

P.S.: Obrigo-me a manter a sensatez e lembro-me de que também gostaria de ter notícias de

meu estimado “contraparente” Dorin. Sei que deveria agradecer a ele por trazer Antanasia de

volta para meu lado, no entanto, não posso perdoar seu instinto tóxico e infeccioso de

autopreservação, que temo influenciar demais minha esposa, causando – ironicamente – perigo a

ela.

Aí vai uma para seus livros de filosofia, irmão: haverá algo mais perigoso do que o desejo de

viver livre do perigo?

Você vai rir da minha tentativa de ser profundo – ou coçar a cabeça, como se eu já estivesse

falando coisas sem sentido.

CAPÍTULO 71

Mindy

Eu estava sentada na sala de jantar na hora do café da manhã, esperando comer

um pedaço de pão sozinha, porque Jess tinha sumido desde o desastre no funeral. Ela havia

mandado sua pequena serviçal me procurar naquela manhã, depois da confusão, com um

bilhete pedindo que eu fosse paciente enquanto ela ټcaria ocupada durante alguns dias,

resolvendo coisas.

Fiquei meio com medo de Jess estar escondida no quarto e talvez nunca mais sair. Por isso

quase levei um susto quando a porta se abriu e a princesa Antanasia entrou – parecendo

melhor do que durante todo o tempo que eu já havia passado na Romênia.

Tinha feito alguma coisa no cabelo, vestido uma bela calça jeans de lavagem escura e um

suéter que não a fazia parecer desesperada para ser uma princesa, mas era correto para uma

governante adolescente. Não lembrava a garota que costumava andar comigo na

Pensilvânia, mas também não parecia tão arrasada como antes.

– Nossa, Jess. – Larguei meu pão pela metade. – Você está melhor hoje!

Como sempre, quando eu abria a boca, falava a coisa errada. Mas, como sempre também,

Jess não ficou nem um pouco ofendida.

– Obrigada. – Ela sentou-se e pegou um pedaço de pão. – Estou me sentindo melhor.

Fiquei feliz por vê-la comer, mas eu... ainda não sentia fome. E voltei a ټcar enjoada

quando a porta se abriu mais uma vez e Ylenia entrou. Para mim, ela ainda parecia uma

imitação pálida e crespa de Jess, e eu não entendia como o Ronnie poderia ter sido capaz

de...

– Oi. – Jess pareceu surpresa ao ver a prima. – Eu não esperava você, e infelizmente estou

ocupada.

– Tudo bem – retrucou Ylenia com sua voz falsa. – Mindy e eu vamos a Bucareste. – Ela

franziu a testa um pouco. – A não ser que você precise de minha ajuda com alguma coisa.

– Não, estou bem. – Jess passou uma tonelada de manteiga em seu pão. – Divirtam-se,

vocês duas.

Levantei-me, peguei minha bolsa e ټz o máximo esforço para sorrir, esperando que o

sorriso saísse melhor do que meu estado de espírito. Eu tinha um monte de coisas

falsiټcadas, desde bolsas Gucci até sapatos Manolo Blahnik, mas nunca fui muito boa em

bancar a falsa.

– Certo, então vamos indo.

Jess pareceu feliz de verdade porque íamos fazer algo juntas, e eu tentei me concentrar

nisso. Pelo menos eu a estava deixando um tiquinho mais animada.

– Vejo vocês mais tarde – disse ela.

– É, mais tarde.

Acompanhei Ylenia para fora da sala, pensando: Vamos logo com isso. Toda vez que eu a

olhava, via Raniero curvando-se sobre ela, os dentes mudando, e sentia vontade de gritar. Já

era ruim o suficiente quando eu só achava que ela estava roubando minha melhor amiga.

Parei. Está com ciúme, Min? É por isso mesmo que você a odeia?

A porta estava se fechando atrás de mim, mas no último segundo ouvi Jess dando uma

ordem a um empregado:

– Ceaiul, te rog.

Era uma das primeiras vezes que eu a ouvia falar em romeno – sem contar sabe-se lá o que

ela disse no funeral –, e aquilo me fez lembrar de uma coisa, então entrei na sala de novo,

enfiando a mão na bolsa.

– Ei! – falei, pegando o presente que tinha comprado na Amazon. Entreguei-o a ela. –

Esqueci de lhe dar isso. Espero que goste!

– Ah... obrigada.

Jess pareceu surpresa de novo. Não esperei até ela rasgar o papel, mas olhei para trás

brevemente e a ٽagrei sorrindo ao ver seu novo exemplar de Fluente em cinco minutos –

Romeno.

Então saí e encontrei minha guia de turismo esperando, e me obriguei a entrelaçar meu

braço ao dela, que era frio e pequeno, como se de fato fôssemos amigas.

– Venha, Yleni – falei. – Vamos ver o que você reservou para nós.

CAPÍTULO 72

Antanasia

Continuei a enfiar pão e chá goela abaixo, sabendo que precisava comer, e ټquei

folheando o livro de exercícios que vinha com o DVD de romeno que Mindy tinha me dado.

A boa e velha Mindy. Sempre sabia do que eu precisava. E ټquei feliz porque ela e Ylenia

estavam tentando ser amigas. Para mim, seria importante que se dessem bem.

Virei outra página do livro, surpresa ao ver que tantas palavras nos diálogos pareciam

familiares. Eu nunca tinha tentado mais do que captar expressões ao ouvir Lucius e os

outros falando, mas quando vi as palavras escritas, percebi que muitas delas estavam

enraizadas no latim que minha mãe havia me obrigado a estudar na adolescência a ټm de

me preparar para o vestibular que acabei nunca fazendo, aټnal troquei a faculdade pelo

governo dos vampiros.

Mesmo assim, como sempre, a previsão das minhas mães continuava me ajudando. Eu

precisava aprender romeno.

Será que eu tinha sido não apenas covarde, mas também um pouco... preguiçosa?

– Scuzaţi-mă?

As palavras exatas que eu estava lendo em “Diálogos 3: Expressões educadas” foram ditas

atrás de mim, então olhei e vi a empregada que em geral trazia o chá me oferecendo algo

diferente na bandeja de prata.

– Aceasta este...? – Fiz um esforço para perguntar o que ela estava me dando. – Isso é...?

– De La Lordul Raniero Lovatu.

Tive quase certeza de que ela dissera “Do lorde Raniero”. Eu tinha ouvido pessoas se

dirigindo a ele assim em meu casamento, e na ocasião ri do que considerei uma cortesia

exageradamente formal. Mas não tinha mais graça.

Enquanto pegava alguns papéis enrolados como um pergaminho na bandeja, olhei para

meu livro, lembrando-me do que responder:

– Vă mulţumesc. Obrigada.

A serviçal fez uma reverência e recuou, deixando-me a sós. Empurrei o prato, tirei o

elástico dos papéis e os desenrolei. E quando vi os desenhos, percebi que Raniero tinha dito

a verdade. Ele era muito bom com mapas.

Até mesmo se lembrara de incluir uma planta detalhada de algo escondido no castelo. Eu

tinha me esquecido de que aquilo existia, mas resolvi começar a fazer uso dele naquela

mesma noite.

CAPÍTULO 73

Mindy

Sinceramente, eu estava começando a me preocupar pensando que talvez não

gostasse de Ylenia Dragomir porque ela possuía um milhão de coisas em comum com Jess,

tipo morar na Romênia, parecer inteligente e ser vampira, por isso devia fazer sentido que

no decorrer de, sei lá, 200 anos – muito tempo depois de minha morte – elas se tornassem as

duas melhores amigas do mundo, e Jess nem mesmo se lembrasse mais de mim. E talvez eu

odiasse Ylenia porque ela possuía algum tipo de passado com Raniero.

De fato, comecei a achar que talvez houvesse algo de errado comigo enquanto

percorríamos Bucareste – em um carro tão pequeno que eu meio que esperava que um

bando de palhaços pulasse do porta-malas toda vez que parávamos diante de outro museu

ou parque superchato.

Aquele carro – que pelo jeito Dorin usara para buscar Jess quando ela chegara à Romênia,

o qual sem dúvida a ټzera começar a não se sentir uma princesa – era um horror, mas

Ylenia... Eu tinha que admitir: ela parecia legal.

Até que paramos diante de um prédio que parecia a Casa Branca, caso alguém tivesse

jogado um bolo de casamento gigantesco no telhado, e ela começou a fazer seu discurso de

guia. Era um prédio sem graça onde aconteciam coisas entediantes, mas quando saímos eu

soube que enfim havia visto algo interessante.

Tinha tido um vislumbre da verdadeira Ylenia Dragomir – e eu não era a única ciumenta

naquele carro de palhaços.

Nenhum comentário:

Postar um comentário