CAPÍTULO 102
Antanasia
– Eu teria levado você a qualquer lugar do mundo, você sabe – provoca meu
marido, puxando-me para perto. – Nós não precisávamos ficar aqui em casa na noite de núpcias!
Sorrio para ele.
– Eu não queria viajar. Só queria ficar aqui com você.
Ele sorri também e beija meu pescoço, depois diz:
– Não tenho objeção a isso, esposa minha. Prefiro carregá-la para nosso quarto a arrastar malas
por aeroportos!
Dou uma risada nervosa. Esperei tanto tempo por esse momento... mas de repente também
tenho uma ciência aguda da minha inexperiência.
Lucius é experiente.
Isso fica explícito no modo como ele tira o paletó sem interromper o roçar suave e insistente dos
lábios em meu pescoço. E um segundo depois ele solta as abotoaduras às minhas costas e eu as
ouço tilintar no chão.
Nem sei como as abotoaduras funcionam. Será que devo ajudá-lo? Será que devo me despir?
Claro, Lucius sente minha tensão, já que fiquei rígida nos seus braços, e diz baixinho:
– Não fique nervosa. Eu amo você.
– Também amo você.
Recuo um pouco e seguro sua gravata-borboleta, puxando-a. O que não resulta em nada, só faz
com que a gente quase caia. Ponho a mão no ombro dele, tentando nos firmar.
– Desculpa. Meleca!
Eu não queria dizer aquela gíria sem graça, infantil, nem quase puxar nós dois para o chão.
Estou constrangida e arruinando a noite mais especial da minha vida...
– Permita-me, por favor.
Acho que Lucius vai rir de mim, mas ele não faz isso. E com um puxão breve a gravata está
desamarrada e pendendo em volta do pescoço. Então ele me beija, os lábios firmes porém ternos
contra os meus, e muda a posição para sussurrar de novo ao meu ouvido, murmurando uma das
coisas mais doces que já me disse. Palavras que, tenho certeza, nunca vou esquecer, assim como
nunca poderia me esquecer de seu pedido de casamento ou dos votos que acabamos de trocar.
– Algum dia, Jessica – diz ele baixinho – você vai estar diante de mim neste mesmo quarto
enquanto nos preparamos para alguma cerimônia que ambos odiamos, afinal já teremos estado
em tantas outras durante os anos que passamos juntos, e você vai sorrir, levantar a mão e ajeitar
minha gravata torta, como sempre faz. E um de nossos filhos, talvez nosso primeiro filho, vai
puxar seu vestido, exigindo nossa atenção. Então vou beijar você e me abaixar para pegá-lo,
pensando: Como foi que me tornei tão feliz?
Adoro a historinha. O príncipe guerreiro com quem me casei imaginou aquela cena de família.
A família que vamos criar. Ele nos visualiza muito depois da nossa primeira noite, juntos, felizes e
acostumados um com o outro, mas ainda empolgados, como sempre estaremos...
E de repente não estou nem um pouco nervosa.
– E se só tivermos filhas? – provoco-o, porque sei que o comentário sobre um filho, no masculino,
não foi somente descuidado ou uma brincadeira.
Lucius fora criado para acreditar que ter um herdeiro homem é muito importante.
Passo os braços em volta da cintura dele, sentindo a camisa branca e engomada sob os dedos.
Também sonhei em ter filhos com ele – algum dia. Só tenho 18 anos e nunca contei isso a
ninguém. Mas penso nisso às vezes.
– E se só tivermos meninas, príncipe Lucius? – pergunto de novo, rindo.
Ele ri e aperta a boca mais perto do meu ouvido – e meu corpo mais perto do dele, de modo que
consigo sentir todo o poder, a tensão gostosa crescendo nele, pois apesar de estarmos falando do
futuro, estamos cada vez mais sob o feitiço do presente.
– Se só tivermos filhas, eu serei o vampiro mais feliz que existe – sussurra ele. – Porque aprendi
com você que uma princesa pode ser tão poderosa quanto um príncipe.
Então ele me tira do chão pela segunda vez naquela noite e me carrega para nossa cama, e não
consigo imaginar por que fiquei nervosa ao menos por um segundo enquanto estamos juntos –
completamente juntos – pela primeira vez, e logo os caninos que senti roçando em minha pele
mergulham fundo em meu pescoço outra vez.
Acordei no meio da noite e esfreguei o pescoço como se o sonho tivesse sido real. Não
como se fosse outra alucinação. Foi só um sonho vívido, maravilhoso, que iria se realizar.
Ele tinha previsto nosso futuro, que iria acontecer.
Eu faria acontecer.
Queria ser a mulher que ajeitava a gravata do rei, que comparecia a eventos tediosos e o
olhava colocar nossos ټlhos nos ombros. E queria mais do que isso. Queria recuperar o tal
poder que Lucius tinha visto em mim e que eu havia perdido, e usá-lo para comandar um
reino de vampiros com a mesma força que minha mãe biológica mostrara. Queria tudo isso,
de coração, mais do que já tinha desejado qualquer outra coisa na vida. Enquanto
permanecia na nossa cama, o desejo de governar, que eu havia começado a sentir quando
usei a estaca pela primeira vez e experimentei aquele poder nas mãos, endureceu,
transformando-se em uma resolução feroz. Uma necessidade feroz.
Eu não queria ser apenas a Sra. Lucius Vladescu, ou uma princesa, até. Queria ser rainha.
De repente entendi o que Raniero devia ter sentido naquele momento em que ټcou
tentado a tomar o poder. Mas eu não afastaria minha mão e nem recuaria, temerosa de dar
o golpe final para tomar o que era meu.
Eu tinha algumas horas, e iria aproveitá-las do melhor modo possível para conseguir tudo
o que eu precisava ter.
Quando pus os pés para fora da cama, pensei em Lucius e na imagem da estaca que era
sempre tão importante em nossa vida juntos, e ainda era capaz de sentir a força e a
autoridade nas mãos dele, uma remanescência do sonho – e outra coisa se encaixou para
mim. Uma coisa que era, de novo, uma combinação entre matemática racional e a esfera
irracional dos vampiros – e tão óbvia que eu não conseguia acreditar não ter percebido
antes.
Correndo para me vestir, saí do quarto, sem nem mesmo me dar ao trabalho de me dirigir
a Emilian.
Percebi que ele seguia atrás de mim enquanto eu corria até o quarto de Raniero, onde
entrei sem bater. Fechando a porta e deixando meu guarda do lado de fora, fui até a cama e
sacudi Raniero, dando-lhe um susto, de modo que ele se sentou totalmente alerta, então
perguntei:
– Raniero... Você já exumou um corpo?
CAPÍTULO 103
Antanasia
A noite estava muito fria, mas a lua estava reluzente e nem precisamos de
lanterna quando chegamos ao cemitério, onde não havia árvores para bloquear a luz.
Através das barras do portão de ferro já dava para ver o mausoléu onde meus pais
biológicos tinham sido enterrados – e onde um dia eu talvez fosse repousar – como uma
mancha cinza na vastidão de branco. E à distância também dava para ver a cripta muito mais
grandiosa dos Vladescu, onde um lugar esperava...
Olhei para Raniero, que se mantinha atrás de mim, com uma pá apoiada no ombro como
se fosse uma prancha enquanto eu levantava a tranca.
– Tem certeza de que precisamos fazer isso? – perguntou ele.
– Tenho. Eu me lembro de uma coisa do dia em que Claudiu morreu. Uma coisa na qual
nem pensei, até que você me ensinou a usar uma estaca. – Entrei e logo encontrei o túmulo
de Claudiu. A lápide nova em folha reluzia mais branca do que as que estavam ao redor, e a
neve formava montinhos, afinal a terra tinha sido revirada havia pouco tempo.
Avancei alguns passos, depois me virei, porque Raniero não estava me seguindo. Estava
parado junto ao portão, tenso, como na primeira vez em que eu o encontrara ali.
– Não me diga que você fica nervoso aqui – falei.
Ele se remexeu, inquieto.
– Não, eu já disse que sou preguiçoso. O chão vai estar duro.
– Se não quer ajudar, eu mesma faço.
– Só tento fazer uma piada, Antanasia. – Mas, mesmo assim, ele não se mexeu. Demorou
um instante examinando o cemitério, e mesmo ao luar deu para ver que o queixo dele estava
tenso. – Não gosto de estar aqui. Sou responsável por algumas dessas sepulturas. Andar aqui
é pisar em um campo minado, e me pergunto se a visão de uma lápide vai bastar para me
fazer explodir. Só brinco para afastar pensamentos mais sombrios.
Apertei minha capa com mais força em volta do corpo.
– Desculpe, não pensei nisso. Só quero ajudar Lucius.
Ele me lançou um olhar cético.
– E você acha que desenterrar o corpo de Claudiu Vladescu vai ajudar alguém?
– Acho.
Seus dedos se flexionaram em volta do cabo da pá.
– Ainda não entendo.
– E eu não entendo por que os vampiros ainda investigam crimes como se estivéssemos na
Idade Média, usando tortura, sussurros e a palavra de um vampiro contra outro. Quero
levar provas ao julgamento de Lucius. – Examinei o trecho de neve salpicado de lápides
brancas. Em algum lugar embaixo do chão estava um vampiro que eu não tinha podido
condenar. – Houve testemunhas, mas nenhuma prova de verdade quando o assassino do pai
de Ylenia foi julgado. – Encarei Raniero. – E será que alguém, além de Lucius, tentou
defender você no seu julgamento?
– Não. Ninguém. – Ele arrastou os pés de novo. – Então você quer fazer justiça para os
vampiros igual à dos seriados de TV americanos, sim?
Ele ainda estava meio brincando, mas respondi muito séria:
– Isso mesmo. E, apesar de não termos equipamento de cromatograټa líquida e nem
mesmo um kit para tirar digitais, podemos coletar fatos. Os Anciões podem ser levados a
fazer julgamentos mais racionais, mais comedidos.
Raniero assentiu, pensativo.
– Lucius diz que seu jeito americano lógico de pensar vai beneficiar nossos clãs.
Estávamos separados por alguns metros de neve e eu disse baixinho porém com firmeza, do
mesmo jeito que ele já havia falado comigo várias e várias vezes:
– Se eu consigo sair da cama e encarar as coisas que me aterrorizam no futuro, você pode
encarar seu passado.
O vento soprou e olhei de novo para a cripta dos Vladescu. Será que sou hipócrita...?
Quando me virei, vi que Raniero tinha se aproximado. Nem ouvi o portão se fechar ou a
neve guinchar embaixo das botas pesadas que haviam substituído seus chinelos. Ele virou a
cabeça para a nova lápide.
– Vamos, Antanasia, vamos acabar logo com isso.
Sem mais uma palavra, fui adiante, até o túmulo de Claudiu. Quando chegamos, Raniero
tirou a pá dos ombros, jogou a capa de Lucius no chão, depois se curvou e cravou a pá na
neve e na terra.
Ainda que a terra provavelmente estivesse dura, continuava solta na cova rasa, e Raniero
era forte. Nem ofegou enquanto trabalhava. Poucos minutos depois a pá acertou em
madeira. Em meia hora ele havia liberado o caixão.
Ajoelhando-se ao lado do buraco estreito, ele passou os dedos embaixo da tampa de ébano
e ergueu o rosto para o meu.
– Está preparada, Antanasia? Está frio, e não se passou muito tempo, de modo que não
haverá muita podridão. Mas a visão não vai ser bonita.
Eu sabia disso. E sabia o que havia acontecido na última vez em que tinha olhado para
aquele caixão. Mas precisava me certificar.
– Vá em frente.
Ele puxou com força e eu dei um pulo, pois a tampa cedeu com facilidade, abrindo-se para
revelar o corpo. Inclinando-me, obriguei-me a olhar.
– Tire a mortalha para vermos o ferimento – instruí.
Raniero iniciou, em silêncio, o processo desajeitado de descobrir o peito de Claudiu, e eu
me virei – não porque estivesse surtada demais para olhar, mas porque, mesmo tendo
desprezado Claudiu, parecia desrespeitoso espiar seus ombros nus e ossudos. Eu estava
quase sem graça por ele.
– Diga o que vê.
A voz de Raniero saiu abafada, porque a cabeça dele estava voltada para dentro da
sepultura.
– Talvez você possa me dizer o que deseja que eu procure.
Mas nem precisei responder. Antes que eu dissesse qualquer coisa, ouvi-o murmurar
baixinho uma expressão de surpresa em italiano.
– Mavalà.
Cerca de uma hora depois, tínhamos enterrado Claudiu Vladescu de novo, então Raniero
vestiu a capa, escondendo a estaca recém-esculpida que continuava enټada na cintura da
calça jeans.
Fomos caminhando pelos montes de neve e, quando ele fechou o portão, eu olhei para o
céu, esperando que nevasse mais ainda, pois eu queria que a sepultura parecesse intocada...
para o caso de eu precisar abri-la de novo.
CAPÍTULO 104
Antanasia
– Por que estamos aqui? – perguntei a Raniero. Tateei procurando a estaca
no bolso do meu casaco. Estava tentando me acostumar a andar com ela. – Achei que as
aulas houvessem terminado.
Tínhamos ido direto do cemitério para a camera de miză, e Raniero passara o tempo todo
calado. Enquanto eu acendia as velas, ele andava de um lado para outro, mas não como
ټzera na primeira vez em que eu o encontrara ali. Dessa vez ele ainda parecia um leão, mas
fazia do mesmo jeito que Lucius quando andava para lá e para cá, imerso em pensamentos.
Raniero parecia estar rondando, com a presa à vista.
– Raniero?
Acordei-o de um devaneio que parecia mais profundo ainda do que o sono que eu tinha
interrompido antes.
– Sim? O quê?
– Por que estamos aqui?
– Preciso ver... – Ele foi até a caixa onde a estaca de Lucius estava e abriu a tampa com os
dedos ainda sujos depois de desenterrar um cadáver e de examinar os ferimentos de Claudiu
– … isso.
Ele ergueu a arma de Lucius e a pôs perto do rosto, depois passou um dedo pelas manchas
de sangue em camadas, como se as estivesse analisando. Ou medindo.
Eu ainda conseguia sentir levemente o fedor de Claudiu e, como sempre, queria recuar.
Mas o assassino que sabia tanto sobre ferimentos, estacas e sangue não se afastou do odor
rançoso tal como tinha feito no cemitério. Limpou as mãos na calça, tirando parte da
sujeira, e segurou a estaca mais perto do rosto, inalando o cheiro desde a ponta até o cabo.
Depois se virou para mim e declarou de modo muito solene:
– Esta estaca está manchada com o sangue de Claudiu. Mas não é a arma que destruiu meu
tio.
Meu coração falhou pelo menos umas cinco batidas.
– Como você sabe?
– O sangue de Claudiu, que é pungente, só está na ponta da estaca.
– O que significa...
– Uma pessoa fraca a usou e não conseguiu penetrar o suټciente. Ou o sangue foi posto
mais tarde, por alguém que não sabe quanto a ponta deve penetrar para furar um coração.
Isso é algo forjado ou parte de uma tentativa fracassada, e nós temos certeza de que Lucius
não falharia.
Meu coração começou a bater mais forte.
– Isso é uma boa notícia. Não é?
No cemitério já havíamos estabelecido a precisão de minha memória. Claudiu tinha sido
golpeado três vezes, ao passo que Lucius o teria destruído com uma única investida. Além
disso, Raniero havia determinado que os dois primeiros golpes tinham sido dados por um
vampiro destro. Ele não precisava de nenhum laboratório ou equipamento especial. Só de
seu conhecimento sobre o modo como os ferimentos eram infligidos em lutas mortais.
– Então você está dizendo que não só o número de ferimentos e seus ângulos de entrada
ajudam a inocentar Lucius, mas que a arma dele nem mesmo causou o ferimento fatal?
Eu pedia uma confirmação, porque aquilo era importante demais.
– Sim, mas não se empolgue muito, Antanasia – alertou ele. – Mesmo assim, foi um
vampiro canhoto que furou o coração de Claudiu.
Mas eu estava empolgada.
– Lucius jamais precisaria de ajuda em uma luta – lembrei. – Será óbvio para os Anciões
que ele não estava envolvido.
– Sim. – Mas na verdade Raniero não estava escutando. Dava para ver que as engrenagens
giravam na cabeça dele, e havia algo que não estava me contando. Eu conhecia aquela
expressão reservada. Ele estava ټcando com raiva também, por algum motivo. – Desculpe
por eu não ter olhado a estaca nem o corpo antes.
– Tudo bem. Agora nós sabemos de mais coisas, e é só isso que importa.
Ele balançou a cabeça, no entanto, parecendo mais preocupado ainda. Não pressionei para
que me contasse seus pensamentos, pois ele era igualzinho a Lucius e não revelaria nada
antes de estar pronto para isso.
– Perdi alguns instintos depois que saí deste lugar. – Ele me encarou. – Desculpe.
Não tive certeza se ele estava se desculpando por não ter pensado em veriټcar a estaca
antes ou pelo que fez em seguida: foi até a caixa onde sua arma estava, ainda mais
ensanguentada, e deu um soco no vidro, despedaçando-o e liberando a arma, que levantou
com uma segurança incrível e enټou atrás da calça depois de tirar a outra, menor, mais
nova, e jogá-la no chão.
– Está quase amanhecendo – observou ele quando notou que eu o encarava, sem fala. –
Você deveria se preparar para o julgamento. Acho que este será um dia longo.
CAPÍTULO 105
Mindy
Cheguei ao quarto de Jess bem cedo com meu estojo de maquiagem, pensando
que precisaria fazer mais uma transformação antes de aposentar a tesoura para sempre.
Depois de aprontar Jess para o julgamento, eu nunca mais ia mexer com cabelos. Estava
farta de gente bonita – e de vampiros bonitos.
Mas quando bati à porta e abri, Jess não estava lá.
Quem estava era a princesa Antanasia Dragomir Vladescu.
– Acho que você não precisa de mim hoje – falei. – Uau!
No casamento, ela estava bonita. Mas agora estava poderosa.
Essa era, tipo, a única palavra para descrevê-la.
– Sempre vou precisar de você, Min – disse ela, e de algum modo, embora o amor da vida
dela estivesse para ser julgado e com a vida em jogo, ela sorriu. – Sempre.
Mas não era verdade. Pelo menos não do modo de sempre. Alguma coisa havia mudado
dentro dela, tipo, da noite para o dia. Nós sempre seríamos melhores amigas, mas algo
estava diferente. Não fazia sentido, mas parecia que eu estava me despedindo quando nos
abraçamos.
– Boa sorte, Jess. Vou ficar assistindo.
– Obrigada. – Ela segurou minha mão antes que eu saísse. – E, quando isso acabar, vai ser
minha vez de ajudar você. Sabe disso, né?
Imaginei que ela tivesse percebido que eu estava sofrendo um bocado também. Não tanto
quanto ela, talvez, mas o bastante, a meu modo.
– É, eu sei.
Pensei em contar que eu estava confusa em relação a Raniero, que não sabia se ela deveria
conټar nele, e que eu estava em dúvida quanto à Ylenia também, mas ټquei quieta. Hoje a
luta era dela, e dava para ver em seus olhos que ela estava decidida a vencer. E tentar
confundi-la com relação a vampiros que ela provavelmente enxergava com mais clareza do
que eu não iria ajudar no último minuto. Eu poderia abalar tudo o que ela havia conseguido
construir. Depois de ter lido um milhão de matérias sobre autoconټança, eu sabia que
acreditar em si mesma era metade da batalha.
Se isso era mesmo verdade, então Antanasia Vladescu estava pelo menos 50 por cento a
caminho de vencer seu primeiro julgamento. Por isso falei apenas:
– Fique esperta. Você sabe quem são seus amigos de verdade.
Ela me lançou um olhar dizendo que eu ainda era a número um.
– Sim. Eu sei.
A princesa Antanasia virou para se olhar no espelho, mas não havia nada para consertar no
visual formado pelo terno vermelho escuro ou nos cachos pretos, ou no modo como ela
simplesmente se portava, parecendo ter uns 3 metros de altura. Por isso peguei minha bolsa
e a deixei sozinha.
Assim que fechei a porta, dei de cara com Emilio, que carregava uma garrafa – e um
bilhete.
– Me dê isso.
Estendi a mão.
Ele recuou.
– Este pentru prinţesa.
Eu não saquei nada do que ele disse, mas continuei com a mão estendida.
– Me. Dê. Isso.
Emilio estava acostumado a obedecer e me entregou a garrafa. Abri o bilhete e li: Por favor,
Antanasia, beba antes do julgamento. Você vai precisar de todas as forças. D & Y.
Emilio estendeu as mãos.
– Vă rog, trebuie să duc asta.
Não entendi uma palavra também, por isso não estava mentindo quando disse:
– Desculpe, não falo romeno.
Pude senti-lo me espiando o tempo todo enquanto eu atravessava o corredor com a
garrafa.
Talvez a princesa Antanasia ainda precisasse de mim, só um pouquinho.
Parei em uma das zilhões de salas que quase nunca eram usadas naquele castelo enorme e
joguei toda a minha maquiagem em um tapete, aټnal não iria levar nada daquilo para casa e
as empregadas ganhariam um belo presente surpresa. Parte daquilo era de marcas
concorridíssimas e ainda estava com os lacres. Usei o espaço vazio para guardar a garrafa
cheia de sangue nojento, sentindo-me muito melhor por Antanasia, e um pouco melhor por
mim também, pois tinha quase certeza de que havia salvado a pele dela uma última vez.
CAPÍTULO 106
Antanasia
Os Anciões já estavam reunidos quando cheguei à sala do tribunal e ټz uma
pausa à entrada a ټm de encarar a multidão que tinha ido assistir ao julgamento de Lucius.
A sala estava apinhada, e havia mais vampiros esperando nos corredores e nos arredores dos
muros do castelo.
Eu tinha ouvido um barulho baixo e persistente ao alvorecer, e, quando fui à janela e olhei
para baixo, vi um ٽuxo constante de parentes arrastando os pés pela estrada gelada, do jeito
silencioso que os vampiros fazem graças a séculos tentando não atrair atenção. A princípio
ټquei surpresa, até que me dei conta de que, obviamente, o julgamento era de interesse de
todo o reino. Eu não havia espalhado a notícia de que ele ia acontecer e estivera
preocupada demais para pensar em como nossos súditos estariam curiosos. Tinha até
imaginado a notícia sendo publicada mais tarde, depois do veredicto, mas era claro que,
mesmo sem uma mídia organizada, a data e a hora haviam se espalhado pelos clãs.
De pé na sala do tribunal, demorei um instante a mais para encarar alguns rostos.
Os mesmos vampiros que tinham me visto desmoronar no enterro de Claudiu estão aqui.
Há ainda mais vampiros aqui.
Sem hesitar mais e sem nem sequer olhar os Anciões ao redor para ver se alguém
questionava, segui direto para a cadeira de Lucius outra vez – o assento do poder – e me
acomodei.
Mantive o queixo erguido enquanto reivindicava meu lugar, depois olhei devagar para a
esquerda e para a direita, encarando todos os Anciões – passando rápido por Dorin, pois
não queria ver o medo dele, que era contagioso – e sustentando o olhar em Flaviu, aټnal
queria que ele enxergasse exatamente o que eu estava projetando.
Poder.
Ele não desviou o olhar de cara e deu um risinho cínico, mas tudo bem. Eu sabia que uma
pequena vitória em uma reunião do conselho não bastaria para desfazer o dano que eu
causara ao me acorvadar durante meses. A pequena dose de respeito em vários rostos dos
Anciões já me bastava.
Sem perder mais tempo, voltei-me para a multidão e anunciei, com uma voz clara que
escondia por completo o terror que eu havia trancado bem no fundo, sabendo que jamais
poderia deixar que voltasse a transparecer em público:
– Tragam o acusado.
Nem mesmo hesitei – nem ao menos pisquei, embora um lado meu gritasse por dentro –
quando Lucius foi escoltado até aquele círculo cinza-claro no chão.
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