sábado, 5 de outubro de 2013

CSUVA - 112-113-114-115-116-117

CAPÍTULO 112

Antanasia

O cemitério parecia mais frio ainda do que antes, e eu sabia que estava mesmo

sozinha naquela noite. Raniero havia feito sua parte por Lucius, e agora parecia ter outras

coisas ocupando sua vida nova. Eu não o vira desde o julgamento e não sabia para onde

tinha ido.

Abri o portão de ferro e fui primeiro para a cripta de meus pais, onde derramei minha

oferenda de sangue na pequena tigela, e disse baixinho:

– Espero que, no ټnal, eu tenha deixado vocês orgulhosos. E espero que ټquem felizes, e

não decepcionados, se eu não for posta para descansar aqui, perto de vocês, embora fosse

uma honra estar a seu lado.

Então saí da cripta dos Dragomir e fui para o alto mausoléu dos Vladescu, o mausoléu

pontudo que eu tinha evitado até mesmo olhar durante tanto tempo, e onde insistiria para

ser enterrada.

CAPÍTULO 113

Antanasia

Acendi uma fileira de cinco velas que estavam em uma prateleira de mármore

dentro da tumba dos Vladescu e derramei outra oferenda de sangue na tigela que Lucius

usava para seus pais.

– Eu devia ter vindo aqui antes, para agradecer a vocês pelo Lucius – declarei, de cabeça

baixa. – Vocês não podem imaginar como seu ټlho é incrível, e agradeço também por

assinarem o pacto que o tornou meu marido, ligando-me a ele por toda a eternidade.

Quando falei essa palavra – eternidade –, levantei a cabeça e enټm encarei o que tinha me

feito afastar os olhos daquela cripta por tempo demais. Finalmente encarei... o futuro.

Ao contrário dos Dragomir, que deixavam espaços vazios em seu mausoléu – talvez um

reservado para mim, talvez não –, os Vladescu eram realistas em relação às perspectivas até

mesmo de seus filhos prediletos. Li as palavras gravadas em mármore:

LUCIUS VALERIU VLADESCU, 1993 d.C. –

Olhei o nome dele e me recusei a estremecer. Eu não faria isso mais. Lucius se postava

naquele mesmo lugar e encarava aquela lápide todas as vezes que ia visitar os pais. Talvez

aquele fosse o motivo pelo qual ele conseguisse encarar o ټm da própria existência em

outras ocasiões também.

E, naquele lugar austero e terrível, fiz uma nova promessa a Lucius.

Eu seria destruída junto com ele antes de participar de sua condenação à destruição.

Cometeria traição desaټando as regras dos Anciões, violaria algumas de nossas maiores leis

e morreria com meu marido caso a situação chegasse a tal ponto.

No dia do casamento, eu tinha feito uma promessa a Lucius, de estar com ele durante toda

a eternidade, e ia mantê-la, se não do modo como eu esperava, de qualquer modo que fosse

necessário. Ou seria destruída imediatamente ou, se de algum modo Lucius fosse

inocentado mas já estivesse perdido no reino de pesadelos, eu iria segui-lo até lá, iria

encontrá-lo e sofreríamos juntos, porque eu jamais beberia o sangue de outra pessoa de

novo, e preferiria passar a imortalidade em tormentos ao lado dele do que cinco minutos

sozinha em um castelo com todos os confortos que nosso dinheiro podia comprar.

Apaguei as velas e saí do mausoléu e, na volta para o castelo, caminhando pela ٽoresta

cheia de lobos, imaginei quem iria me enterrar caso fosse necessário.

Seria Dorin, cuja existência era passada numa cova rasa feita de medo, tentando espantar

sombras que nem estavam ali ainda?

Pensei mais e mais em meu funeral, e comecei a andar cada vez mais depressa. E, apesar de

Lucius insistir que membros da realeza jamais se apressavam, quando me aproximei de casa

eu já estava correndo a toda velocidade.

Eu precisava ver a Carte de Ritual.

O livro que ditava, até os detalhes mais ínټmos, o modo como nossos clãs realizavam os

ritos de nascimento, casamento... e destruição.

CAPÍTULO 114

Antanasia

Meus dedos tremiam de empolgação e fúria enquanto corriam pela página do

Carte de Ritual e eu comparava meticulosamente as palavras que via nas páginas às do

dicionário romeno-inglês que enfim estava começando a parecer bem manuseado.

Immormăntarea... Pentru... Conducător...

No decorrer de três horas, traduzi todo o trecho sobre funerais de Anciões para garantir

que não estava enganada. Tive um cuidado especial com a entonação antes do toque dos

sinos. “Acum vom respecta un moment de tăcere pentru a marca trecerea lui Claudiu Vladescu

in tăcerea veşcnică.”

E quando a manhã chegou, fechei o livro com uma pancada que deve ter abalado os

alicerces do castelo.

Tudo o que li ali, e outras coisas das quais me lembrava, também – uma palavra no rótulo

de uma garrafa, uma rolha tirada um pouco cedo demais, a mão direita de alguém

tremendo...

Tudo se traduzia em... traição.

CAPÍTULO 115

Mindy

Tentei encontrar Jess antes do segundo dia do julgamento, mas naquela noite

ela nem dormiu na própria cama. Esperei durante horas, assim como tinha esperado por

Raniero, porque achei que deveria alertá-la sobre minhas crenças em relação a Ylenia e

Ronnie.

Mandei torpedos e tentei ligar para o celular, mas ela não atendeu. Nem o Emiliozinho

sabia onde ela estava, por isso acabei levando minha bolsa para a sala do tribunal,

apertando-a como um bebê, e esperando junto com todo mundo – um punhado de

vampiros que me olhavam como se eu fosse maluca.

E talvez eu estivesse um pouquinho ansiosa. Mas não tanto quanto a princesa que entrou

no tribunal usando jeans muito pouco proټssionais e uma camiseta, como se tivesse ido ao

inferno e voltado – e já fosse arrastar todos nós de volta para lá, como eu meio que

planejava fazer.

Eu soube em uma fração de segundo – e todo mundo também soube, até o velho Fabio –

que não estávamos vendo só uma princesa ali parada, usando jeans e botas.

Todos estávamos tendo um primeiro vislumbre da próxima rainha.

CAPÍTULO 116

Antanasia

Dava para ver que todo mundo naquele tribunal sabia que eu estava ali a sério,

mesmo não usando um terninho e salto alto. Eu poderia estar vestindo a camisola que tinha

posto depois de fugir de meu primeiro julgamento, e mesmo assim a expressão em meus

olhos bastaria para silenciar toda a câmara.

A atmosfera estava tensa, nervosa e agitada quando marchei sala adentro, e eu soube que

era daquele modo que uma princesa – ou até uma rainha – deveria ser recebida.

Até Flaviu parou com seu risinho de desdém, e imagino que tenha pensado ser o alvo

quando não fui para trás da mesa dos Anciões para ocupar meu lugar, e sim para a frente de

todos aqueles vampiros, que me olharam com cautela até eu encontrar quem desejava ver. E,

quando o ټz, pousei as mãos na mesa e o vi tremer enquanto eu anunciava, sem a menor

hesitação – e no mesmo tom baixo, suave, ameaçador, que eu tinha ouvido Lucius usar para

intimidar tantos vampiros, tornando-o meu tom:

– Dorin Dragomir, você traiu seus soberanos e cometeu traição, e vai pagar com sua

existência.

CAPÍTULO 117

Antanasia

– Eu não... eu não fiz nada, Antanasia – gaguejou Dorin. E levantou as mãos.

– Nada!

Eu não iria aceitar aquilo. Suas bochechas pálidas e seus olhos de coelho assustado

entregavam tudo.

Semicerrei os olhos e me inclinei mais para perto dele.

– Você traduziu errado a Carte de Ritual para me obrigar a presidir o funeral de Claudiu

quando eu não precisaria fazer isso e me transformou em objeto de riso, ensinando a frase

errada, de modo que eu entregaria o corpo dele a uma terra de arco-íris em vez de ao

silêncio eterno. Eu não disse “arco-íris” por acaso. Você redigiu para mim. Depois você me

drogou... me deu sangue maculado para eu ter alucinações na frente de todo mundo. Você

quis me ver fracassar.

Todos os Anciões se inclinavam para trás em suas cadeiras, e os espectadores que tinham

ido assistir ao destino de Lucius se agitaram e murmuraram, ao passo que os que falavam

inglês traduziam minhas palavras para os que não conseguiam compreender.

– Por que... Antanasia... eu não faria... – Mas ele estava chacoalhando na cadeira. – Por que

eu faria...?

– Não sei... ainda – rosnei. – Mas você tentou me drogar de novo antes de minha última

reunião com os Anciões. Você me deu sangue de uma garrafa que já estava aberta, e que

tinha um cheiro esquisito até mesmo para mim. Você queria que eu visse coisas de novo, na

frente deles!

– Claro que eu abri a garrafa...

– Você disse que o sangue era siberiano, pois estava desesperado para me obrigar a beber,

mas era mentira. Eu vi a palavra Franţa, “França”, no rótulo. Por algum motivo deturpado,

você estava em pânico na tentativa de me fazer bebê-lo, apavorado como sempre está, e

cometeu um erro terrível.

Lucius sempre dizia que o medo de Dorin seria o fim dele.

– Você tem me drogado há tempos, fazendo com que eu e todo mundo pensássemos que eu

estava enlouquecendo. E destruiu Claudiu também – acusei. – Raniero disse que os

ferimentos mais fracos foram feitos com a mão direita, e você é um dos poucos vampiros

destros em todo o reino. Você sempre levanta a mão errada nas reuniões, apesar de ter

quase 100 anos. Você não consegue deixar de usar a direita!

De todas as coisas que eu dissera, aquela pareceu impressionar de fato os Anciões. Os

vampiros eram o oposto dos humanos em termos de destreza. Um morto-vivo destro era de

fato incomum. E um vampiro destro com acesso ao castelo e à estaca de Lucius...

Era mais raro ainda.

Eu realmente não sabia por que um fracote como Dorin havia feito aquelas coisas, mas

sabia que tinha feito.

Mas ele era tão covarde que ainda não era capaz de admitir.

Até que Mindy, a única não vampira na sala, levantou-se e disse:

– Com licença?

Virei-me e a vi segurando uma bolsa que eu pensava conter maquiagem e spray de cabelo,

que havia me salvado tantas vezes antes, e não entendi o que minha amiga estava fazendo até

que ela disse:

– Acho que acabou, Dorin. Estou com a última garrafa de sangue batizado. A que você

mandou ontem para Jess.

Então ele desmoronou. Desmoronou como o arremedo patético de vampiro – de Dragomir

– que sempre fora e disse, lágrimas começando a escorrer pelo rosto:

– Tenha piedade de mim, Antanasia. Ela me obrigou a fazer tudo. O plano foi dela, e eu

tinha medo. Ela é amarga e deturpada, e odeia você. Queria destruir tudo o que você e

Lucius têm! Ela não suporta o fato de Lucius amar você, quando nem mesmo conseguiu

manter o nobre Vladescu que ela drogou para fazer com que ele a mordesse. Raniero foi

amaldiçoado por culpa dela, e mesmo assim ela não parou!

Era difícil acompanhar um dedo que tremia tanto, mas me virei e vi que ele apontava para

minha única outra amiga no reino dos vampiros.

Ylenia Dragomir, que já estava se levantando e tentando sair da sala.

– Ela me fez atrair Claudiu para o saguão e ajudá-la a destruí-lo, para arruinar você e

Lucius. – Dorin continuava balbuciando enquanto Ylenia saía da área das cadeiras e

começava a correr. – Ela me obrigou a pegar a estaca de Lucius e solicitar uma reunião com

Claudiu ao amanhecer...

Não me dei ao trabalho de perseguir minha prima. Eu era da realeza, e quem é da realeza

não corre. Pelo menos não em público.

Mais ainda, eu tinha visto um assassino treinado sair das sombras de onde estivera

assistindo a tudo, e resolvi deixar que ele ټzesse o que fazia de melhor. Rastrear e trazer os

piores vampiros à justiça.

Raniero não iria desmoronar – porque, na verdade, nunca havia desmoronado.

Virei-me de volta para Dorin, que soluçava enquanto falava:

– E foi ela que destruiu Claudiu. Eu o golpeei, mas ela furou o coração dele com uma

estaca que ela própria esculpiu, para o caso de eu não conseguir. E eu não pude... não pude...

Ele podia até não ter dado o golpe fatal, mas seus crimes eram imperdoáveis, e eu anunciei

seu destino sem pena, mas também sem crueldade, pois havia exaurido o pior de minha

raiva. E parte de mim sempre saberia como era ser fraca também.

– Dorin Dragomir – falei de forma resoluta, obrigando-me a encará-lo. – Você cometeu

traição, será julgado dentro de dois dias e será penalizado com a destruição.

Então me virei para os guardas que vigiavam as portas e disse:

– Duceţi-l la temniţă. Levem-no à cela que Lucius Vladescu não vai mais ocupar.

Eu me embolei falando romeno, mas não me importei. Tinha dito as palavras certas – sem

espaço para contradição – e só isso importava. Olhei para Flaviu, veriټcando se ele ousaria

protestar contra a libertação de Lucius, mas pela primeira vez ele me pareceu o vampiro

confuso, ridículo e velho que de fato era. Como se não tivesse certeza do que estava

acontecendo, porque esperava que eu fracassasse.

E Dorin... Deu para ouvi-lo chorando o tempo todo enquanto eu saía lenta e regiamente

do salão. Não olhei para trás e não corri até ter certeza de que ninguém me veria, então

disparei em direção às masmorras, à frente dos guardas e de Dorin, para ver se Lucius ainda

podia ser trazido de volta, ou se os dois iríamos vaguear juntos em um reino de pesadelos,

presos para sempre entre a vida e a morte.

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