sábado, 5 de outubro de 2013

CSUVA - 30-31-32-33-34

CAPÍTULO 30

Para: surfistanoturno3@freeweb.net

De: LVVladescu@euronet.web

R.,

Desculpe o tom brusco e a ordem mais concisa ainda: se você ainda não embarcou para a

Romênia, conforme já desconfio, afinal você É um Vladescu nobre, sua presença no castelo é

exigida agora.

L.

P.S.: Não precisa trazer nenhum de seus poucos pertences. Meu alfaiate está preparando um

terno para você usar no enterro, já que pode ser chamado a servir como meu suplente – o

equivalente de padrinho para um enterro –, pois há uma grande possibilidade de meu

comparecimento se provar impossível.

CAPÍTULO 31

– Obrigada por ter trazido isso – disse Jess, bem baixinho. Ela estava com a

cabeça abaixada e beliscava a cobertura de caramelo de seu bolinho predileto. – Às vezes

fico realmente com fome aqui.

Estiquei-me no colchão onde estávamos sentadas de pernas cruzadas, do mesmo jeito que

costumávamos ficar na cama de Jess na Pensilvânia, e peguei outro pacote de bolinhos.

– Como você pode passar fome aqui? Os empregados não trazem tudo o que você quer?

Jess ergueu os olhos, que estavam vermelhos e cansados.

– Não sei falar com a cozinheira. Às vezes, se Lucius não está por perto, eu simplesmente

não como. É mais fácil.

Olhei para minha amiga como se ela fosse maluca.

– Jess, você precisa comer!

Ela estava magra, tipo tamanho 38. Talvez 36, o que era magra demais para ela.

– Eu sei.

Mas mesmo assim ela continuou só beliscando a cobertura.

Fitei-a por um segundo e perguntei:

– Ainda está chateada por causa da tal reunião?

– Você não viu a cara de Lucius quando solicitei uma apresentação das estacas – repetiu

ela. – E depois, quando todo mundo já tinha saído, ele ټcou todo distante e disse:

“Precisamos conversar depois.” – Ela olhou para mim, arrasada. – Nunca é bom quando um

cara diz “precisamos conversar”.

É verdade – e também não é bom quando as garotas dizem isso. Eu mesma tinha dito a

frase fatídica em todas as vezes que rompera com Raniero. Mas Jess e Lukey não iriam

romper.

Ela afastou o bolinho e deu um suspiro enorme.

– Não sei o que fiz de errado.

Você ouviu aquela sua prima. Esse foi o seu erro. Eu bem que queria dizer isso, mas não falei

nada. Só ټquei olhando para minha melhor amiga, que eu conhecia desde que a gente era

criança, pensando que embora nunca tivéssemos sido populares, ela sempre fora muito

segura de si. Era estranho ver como o cargo de princesa e o relacionamento com um marido

por quem a maioria das garotas mataria estavam arruinando toda aquela autoconfiança.

Fala sério! Cadê aquela garota que colocou um vestido preto chiquérrimo, chegou ao baile

de Natal e roubou Lucius Vladescu da líder de torcida mais maligna do mundo?

– Estou fracassando nisso. – Ela enterrou os dedos nos cachos dos cabelos. – Nessa coisa

toda. É frustrante demais.

– Jess, você nunca fracassou nem em uma prova da escola – lembrei a ela. – Vai ser uma

princesa incrível. Só precisa de um tempinho.

– Esse é o problema: eu não tenho esse tempo.

Pus a mão em seu joelho magrelo demais e o sacudi.

– Jess...

– Desculpa jogar tudo isso em cima de você, Mindy. Mas estou com diټculdades mesmo. –

Depois ela assumiu uma expressão esquisita e perguntou, sussurrando: – Você acreditaria se

eu dissesse que comecei a enxergar coisas por aí, às vezes?

Parei de lamber o chocolate dos dedos.

– O quê?

– Acho que estou tendo alucinações, por causa do estresse.

Deixei meu bolinho cair, enchendo o cobertor de veludo de migalhas.

– Hum... o que você está vendo?

Jess me olhou, como se quisesse sacar minha reação quando respondesse.

– Uma estaca. Eu vejo uma estaca. E juro que é DE VERDADE. No começo não pensei

muito nisso, mas...

Uau. Eu não era psiquiatra, mas acreditava em visões e sonhos.

– O que você acha que isso significa?

– Nada, só que estou exausta. – Ela tentou rir. – Mas Lucius diz, pelo menos acho que ele

disse, que sonhar com uma estaca significa... traição.

– Traição...

Eu não conhecia muito bem o círculo de vampiros de Jess, mas entendia as pessoas –

mortas-vivas ou não. E então me veio à mente um punhado de rostos. Mas não tive a chance

de mencionar nomes porque alguém bateu à porta, e Lukey entrou sem ao menos veriټcar

se estávamos vestidas. Era provável que tivesse outras coisas na cabeça.

– Peço desculpas por interromper a reunião de vocês, Melinda Sue. – Ele veio até a cama e

estendeu a mão. – Mas está ټcando muito tarde e preciso de minha esposa. – Ele arqueou

uma sobrancelha para Jess, exatamente como Raniero costumava fazer comigo. Era, tipo,

um lance dos Vladescu. A única semelhança entre Lucius e Ronnie. – Se você estiver pronta.

Jess descruzou as pernas e me lançou um olhar do tipo Lá vamos nós! Mas disse a Lukey:

– É... Sim, estou pronta.

Daí ele a ajudou a se levantar da cama, e quando Jess ټcou de pé ele fechou os olhos,

curvou-se e beijou o topo da cabeça dela, e foi, tipo, a coisa mais fofa que eu já tinha visto.

Quer dizer, quando eles se casaram foi bem intenso. Havia fagulhas voando para todo lado.

Mas quando ele fez aquilo... foi a coisa mais romântica de todos os tempos. Depois ele abriu

os olhos e me disse, tal como Jess dissera:

– Tenho certeza de que você está em segurança, Melinda. O que quer que esteja

acontecendo aqui, não tem a ver com você. Mas vou deixar Emilian, o guarda de Antanasia,

à sua porta. – Ele olhou para Jess. – Porque você estará segura comigo.

Quase suspirei. Ele é tão protetor! Quero muito um cara assim!

Jess olhou para Lukey e fez que sim com a cabeça.

– Boa noite, Min – despediu-se ela. – Obrigada de novo por ter vindo. E por ter ټcado. –

Então me lançou um olhar cúmplice. – E, por favor, não se preocupe com a coisa que

mencionei. Só estou dizendo bobagens porque tenho estado cansada.

– Claro, Jess. – conټrmei. Mas eu não esqueceria nada do que ela disse. Na verdade, eu iria

começar a procurar “estacas” no signiټcadodossonhos.com assim que encontrasse um

computador. – Boa noite para vocês.

– Durma bem – disse Lucius. – E, se precisar de alguma coisa, fale com Emilian.

– Com certeza – prometi.

Quer dizer, eu sempre quis um serviçal, mesmo que Jess não quisesse.

Então peguei meus bolinhos, lambi a embalagem, ټquei olhando o príncipe Lucius e a

princesa Jess saírem, e soube, sem ao menos um tiquinho de dúvida, que estava certa ao

aټrmar para Jess que Lukey era inocente. Porque, só pelo modo como ele havia lhe beijado

a cabeça e segurado a mão dela, eu tive certeza absoluta de que ele jamais se arriscaria a

arruinar o que possuíam.

Mas alguém estava causando uma encrenca para os dois, e isso estava começando a me

deixar irritada.

CAPÍTULO 32

Antanasia

– Lucius, você queria conversar? – indaguei enquanto seguíamos de mãos dadas

pelo castelo escuro, em silêncio até então.

Ele está quieto demais...

– Daqui a pouco – respondeu ele baixinho.

Ainda parecia preocupado, e eu fiquei mais preocupada ainda.

Essa conversa vai ser ruim. E por que inventei de contar a Mindy que estava vendo coisas? Não

quero que nem mesmo minha melhor amiga saiba disso.

Continuamos andando pelos corredores iluminados somente pelos raios de luar que

entravam por janelas ocasionais, e, como sempre, deixei Lucius me guiar. Presumi que

estivéssemos indo para nosso quarto e quase não prestei atenção no caminho.

Mas depois de uns cinco minutos virando esquinas e tropeçando nos degraus minúsculos e

aparentemente inúteis distribuídos por tudo que era canto de nossa casa, percebi que não

íamos para o quarto, localizado a não mais do que dois minutos de distância do de Mindy.

E, mesmo não achando que houvesse motivo para sussurrar, perguntei baixinho:

– Para onde estamos indo?

Ele não respondeu, mas apertou minha mão, os dedos tensos em volta dos meus.

– Lucius? – arrisquei perguntar de novo, depois de dar voltas por mais uns três minutos,

durante os quais tive a sensação de estarmos descendo, apesar de os degraus minúsculos

serem tão aleatórios que era difícil ter certeza.

Eu não queria sentir medo – estava com meu marido, que me protegeria com sua própria

existência –, mas os corredores pareciam estar ټcando mais escuros, e mais mofados

também, como se poucos vampiros se aventurassem naquela área onde estávamos.

– Aonde nós...? – insisti.

Mas antes que eu pudesse concluir, ele parou, e mal consegui notar, bem em frente ao meu

nariz, uma porta muito estreita. Parecia quase uma fenda preta na pedra. Como a tampa de

um caixão pregada na parede. Uma luz fraquíssima escorria aos nossos pés, como se Lucius

tivesse estado ali antes e iluminado o que quer que me aguardasse lá dentro.

Havia algo de agourento naquela luz pálida, como as chamas infernais no tribunal, e eu de

fato tentei soltar nossos dedos e dar um passo para trás.

Mas Lucius me segurou e disse:

– Preciso lhe mostrar algo, Antanasia. – Ele fez uma pausa, depois, demonstrando algo

similar a relutância, acrescentou: – Algo que eu deveria ter mostrado há muito tempo,

talvez antes de você se casar comigo.

Então, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele estendeu a mão, abriu a porta e me

fez passar pelo portal alto e estreito, a mão em minhas costas a ټm de me tranquilizar, o que

não me impediu de arfar e dar um passo para trás enquanto perguntava baixinho:

– Lucius, que lugar é esse?

CAPÍTULO 33

Antanasia

Como uma americana que nem sabia direito o nome de seus bisavós, eu ainda

achava difícil compreender até onde a linhagem vampira de Lucius remontava. Mesmo

tendo preenchido em nosso casamento a grossa genealogia que ele tanto priorizava,

acrescentando meu nome a uma lista de mortos-vivos que datava de milhares de anos,

jamais captei de fato a ideia de uma família que media o tempo em milênios e que incluía

membros vivos que poderiam ter esbarrado em Aristóteles, Henrique VIII ou Aníbal

enquanto este cruzava os Alpes.

Não, os conceitos vampirísticos de história, legado e patrimônio não penetraram de fato

em minha mente até eu ver a herança medida em estacas.

– Lucius, isso é...

Espantoso? Inacreditável? Nojento?

– Sim, a camera de miză, a sala das estacas, é tudo isso – concordou ele, sem dúvida lendo

minha mente, como eu às vezes achava que era capaz de fazer. – É tudo isso e muito mais

para mim.

A sala era pequena, com tamanho suټciente para apenas dois ou três ocupantes e uma

mesa no centro, mas o que lhe faltava em tamanho era compensado em armamento.

Praticamente cada centímetro livre de parede tinha um suporte com uma estaca, a ponta

voltada para baixo, de modo que toda a sala parecia a mandíbula superior de um grande

tubarão branco. Talvez mais apavorante ainda. Quase senti que estava sendo comida viva

quando me arrisquei a dar um passo à frente, amedrontada mas também curiosa.

Estou em um museu da destruição.

– Cada uma dessas estacas pertenceu a um Vladescu que foi destruído – explicou Lucius, se

posicionando atrás de mim e pondo a mão no meu ombro. – Em determinada época, cada

arma foi uma posse valiosa. – Ele estendeu a mão, passando por mim, e apontou para um

pedaço minúsculo de papel amarelado abaixo de uma delas. – Veja: o nome do dono e a data

de sua destruição.

A sala estava iluminada por duas velas apenas, e me inclinei para mais perto, tentando ler,

mas o nome estava escrito em algum precursor do alfabeto cirílico, perdido havia muito

tempo, e eu não chegava nem perto de decifrá-lo. Mas reconheci a data: 53 d.C.

Também reconheci a mancha nítida que subia até a metade da arma e que me dizia que o

dono da estaca a havia utilizado, provavelmente mais de uma vez.

Hipnotizada, soltei-me da mão de Lucius e comecei a avaliar cada artefato com mais

atenção, acompanhando as datas que aumentavam: 358, 765, 822...

Apesar de usadas em diferentes eras, as armas não mostravam qualquer evolução. Cada

uma não passava de um pedaço de madeira rústico e aټado. Era como se o projeto fosse tão

eټcaz que não houvesse motivo para atualizá-lo. Encolhi-me, observando uma ټleira de

pontas manchadas.

Qualquer uma daquelas faria o serviço.

Então parei e espiei com mais atenção, detendo-me em um grupo de estacas da Idade

Média. Ali havia pequenas distinções. Desenhos esculpidos na parte que servia como cabo.

Iniciais gravadas. Reentrâncias gastas por dedos antigos, de épocas ainda mais violentas,

quando os vampiros teriam andado constantemente com suas estacas.

Lucius ټcou parado em silêncio, permitindo que eu explorasse os objetos, e fui andando

em sentido horário, sem saber direito como me sentia em meio a tanta história – e tanto

sangue antigo.

E então, quando estava quase no ټm daquela coleção bizarra, arfei assim que li Valeriu

Vladescu perto de uma data próxima do primeiro aniversário de Lucius. Então meu olhar

foi atraído por outro nome familiar, perto da única estaca dentro de uma caixa de vidro.

O quê?

Virei-me para Lucius, perplexa.

– Por que a estaca de Raniero está aqui? Ele está vivo. Foi seu padrinho.

Lucius veio para perto de mim.

– É uma história para outra ocasião. Uma longa história, que vou contar quando tivermos

algumas horas de folga em alguma noite de inverno igualmente longa.

Olhei de novo para o nome Raniero Vladescu Lovatu – e para a estaca do pacifista, que

estava coberta de sangue – e abri a boca para insistir que queria ouvir aquela história

imediatamente.

Mas quando me virei de volta para Lucius ele estava pegando minha mão de novo e a

expressão em seu rosto fez com que eu decidisse esperar. E mesmo tendo adivinhado o que

ele realmente queria me mostrar naquela sala, meu coração bateu mais forte quando me

levou à mesa onde havia uma caixa preta e lustrosa que se assemelhava a um pequeno caixão

– um caixão dentro do caixão no qual havíamos entrado.

Eu sabia o que havia sob a tampa daquela caixa antes mesmo de ele abri-la, e olhei para

meu marido.

– Então é aqui que você a mantém guardada?

Ele assentiu, o cabelo brilhante reluzindo à luz das velas.

– Sim, Antanasia. Em geral ela fica aqui.

O fato de ele usar meu nome “oټcial”, mesmo sabendo que estávamos a sós, me pareceu

estranho – tal como sua ênfase no “em geral” – e eu inclinei a cabeça, ټcando mais tensa

ainda.

– Por quê, Lucius?

Por que está me mostrando isso agora? O que isso tem a ver com o erro que eu cometi na

reunião, seja ele qual for?

– É incomum uma vampira usar uma estaca – prosseguiu ele, respondendo de seu modo

tortuoso de sempre à minha pergunta incompleta. – Se você soubesse ler cirílico, perceberia

que não há nomes femininos nestas paredes. – Ele pousou a mão na caixa. – Mas estes são

novos tempos, e você é igual a mim, Antanasia. E pode ser chamada a agir como tal, de um

modo que suas predecessoras, com exceção de sua mãe biológica, jamais teriam sonhado

fazer. Mihaela foi a primeira a governar como uma verdadeira rainha, e você tem a força

dela dentro de si.

Balancei a cabeça e recuei de novo, não gostando nada do rumo da conversa.

– Não, Lucius. Eu realmente nem poderia sonhar em usar uma estaca, não importa o que

minha mãe tenha feito.

Mas Lucius assentia, me contradizendo.

– Sim, Antanasia. Se algo me acontecer, você precisa saber onde isso está, e se acostumar a

senti-la na mão. Se algum dia precisar dela, você não vai desejar ter dúvidas, nem hesitar. –

Ele fez uma pausa, então acrescentou: – E há outro motivo para você precisar ver isso agora.

Então, enquanto eu ainda tentava processar o que ele queria dizer – Por que estou passando

subitamente de “princesa que nem pode participar de um julgamento” para “aulas de uso de

estaca”? –, ele levantou a tampa da caixa e eu franzi o nariz ao sentir um cheiro muito

poderoso – e reconhecível –, que me deu ânsias de vômito por mais de um motivo.

Era o cheiro de deterioração. De podridão.

Do sangue de Claudiu.

CAPÍTULO 34

Antanasia

– Lucius, você tem certeza de que não faz ideia de como o sangue de Claudiu

veio parar em sua estaca? – perguntei pela décima vez, no mínimo. Sentia como se aqueles

dentes de tubarão estivessem se fechando em cima de mim, furando a pele. – Tem certeza de

que não sabe quem fez isso?

Claro que tínhamos considerado os possíveis suspeitos. Os principais eram Flaviu e outros

Anciões descontentes, o que incluía a maior parte daqueles vampiros velhos. Mas eu não

conseguia parar de ficar repetindo a pergunta.

Será que estou com medo de ele estar escondendo mais coisas de mim? De não estar me

contando tudo?

– Juro que não, Jessica – repetiu Lucius. – Vim aqui pouco antes da reunião para planejar o

enterro de Claudiu e descobri isso. Não sei de nada que você não saiba.

Mas na reunião ele sabia mais do que eu, então o encarei, não apenas apavorada porque

era claro que alguém estava tentando acusá-lo injustamente, mas um pouco... traída.

– Por que você não me contou? E por que veio aqui, para início de conversa?

Lucius passou a mão pelos cabelos, como se sentisse culpa.

– Eu achava que você já tivesse preocupações suټcientes, com a ameaça de caos na reunião.

Se eu tivesse lhe contado que minha arma estava manchada com o sangue de Claudiu...

Fiquei vermelha.

– Você pensou que eu fosse pirar de vez e talvez fazer alguma coisa idiota.

– Por favor, não faça parecer que não conټo em você. Eu só queria lhe poupar uma

informação e uma pressão que achei desnecessárias naquele momento.

– Porque você não podia conټar a verdade a mim. – Minha indignação foi diminuindo e

minhas bochechas ټcaram quentes demais para as de uma vampira quando pensei no modo

como seguira tão prontamente o conselho de Ylenia sem ao menos comunicar Lucius. – E

eu ټz uma coisa idiota, de qualquer forma, insistindo que todo mundo apresentasse as

estacas.

– Não. – Lucius balançou a cabeça. – Você achou que a ideia fosse boa, que ela iria me

inocentar. A culpa foi minha por ter escondido informações de você. Se eu houvesse

contado logo sobre a estaca, você saberia que eu estava tentando ganhar tempo para

investigar. – Os olhos dele expressavam seu sofrimento. – O erro foi meu.

Lucius e eu nos encaramos, e apesar de ele estar assumindo a culpa pela crise, também

havia admitido que nós de fato não éramos iguais ainda. Será que algum dia seríamos? Será

que eu o havia obrigado a guardar um segredo? Pensei na estaca que tinha visto em nossa

cama, que parecera tão real quanto qualquer outra daquelas ao redor. E ele nem mesmo faz

ideia de como estou arrasada.

– Por que você veio aqui depois da morte de Claudiu? – perguntei de novo. Minha voz

soou sufocada. – O que estava verificando? Ou pegando?

– Um dos Anciões foi destruído em nossa casa. – Lucius cruzou os braços, como se estivesse

me desaټando a questionar sua lógica. – Achei melhor me armar, para proteger você, até

poder ensiná-la a se proteger.

De novo, eu precisava de proteção.

Analisei o rosto dele à luz das pequenas velas. O maxilar marcante, com a cicatriz que eu

não conseguia enxergar naquela sala escura. As maçãs do rosto proeminentes, sombreadas

pela luz das velas e pela barba por fazer. E os olhos, que eram tão doces e ternos... e tão bem

treinados para esconder sentimentos.

– Você ia me contar que estava carregando a estaca...

...que quase usou para me destruir? Que eu não tinha visto desde aquela noite?

– Ia – garantiu Lucius. – Eu ia contar.

Ficamos nos encarando por um longo tempo, em meio a um silêncio muito estranho.

Como se, com aqueles olhares, estivéssemos tentando fechar uma ټssura que houvesse se

aberto aos nossos pés. Era como se a estaca – aquela arma medonha, ainda visível na caixa

aberta – tivesse sido investida no chão, criando um abismo entre nós.

Será que aquela lacuna existiria para sempre?

– Por que você nem me mostrou esta sala? – perguntei finalmente. – Por que a escondeu de

mim?

– Olhe em volta – disse Lucius, sem deixar de me encarar e sem descruzar os braços. – Você

já está inserida em um mundo de violência. Você se casou com a violência. Eu não queria

chocá-la com uma lição explícita e desnecessária de como sua nova família é brutal e até que

ponto nós, Vladescu, cultuamos a agressão. Pelo menos não por enquanto.

Ah, os milhões de pensamentos e emoções que me atravessaram quando ouvi a explicação

dolorosa de Lucius que justiټcava o porquê de ele ter me mantido longe daquela câmara!

Para ele, a família era muito importante. Além disso, ele também aprendera nos Estados

Unidos que a violência não era o único modo de manter a ordem. Como eu, Lucius estava

lutando para compreender um novo modo de vida, e me senti mal por ele. E senti vergonha

por mais uma vez ser considerada fraca demais por ele para enfrentar a vida nova – mesmo

que eu fosse fraca de fato.

É, tínhamos um monte de desafios pela frente.

Olhei a estaca que representava o maior problema de todos.

Como iríamos explicar aos Anciões? Por que raios resolvi acatar a ideia de Ylenia? Ideia

que agora parecia péssima, aټnal os vampiros mais velhos também sentiriam o cheiro do

sangue e iriam responsabilizar Lucius.

– Jessica? – Ergui os olhos e vi Lucius pegando minhas mãos, senti os dedos dele

envolvendo os meus. Senti o X que lhe marcava a palma da mão esquerda e isso ajudou a nos

conectar de novo, tal como havia acontecido no casamento, quando ambos cortamos as

mãos e misturamos nossos sangues. – Eu tinha outros motivos para não querer lhe mostrar

esta sala – confessou ele. – Motivos egoístas. – Seus olhos se anuviaram com a expressão de

desculpas. – Acha que eu gosto de lhe lembrar do que quase fiz com você, uma vez? Acha que

eu queria reviver aquela noite, à sombra dos momentos mais tenebrosos de meus ancestrais?

– Lucius... – Segurei as mãos dele com mais força, lutando para encontrar palavras, aټnal

eu também pensava um bocado naquela noite. Ainda era capaz de sentir a ponta da estaca

fazendo pressão abaixo de meu esterno e os caninos dele furando minha pele de um modo

muito diferente, apenas alguns minutos depois. – Não se esqueça de que aquela noite

também foi uma das melhores de minha vida. Você disse que foi a melhor para você.

– E a pior – lembrou ele.

– Foi as duas coisas – insisti. – As duas coisas.

Era a primeira vez em que eu pensava nos dois acontecimentos da noite em questão – o

modo terrível como Lucius havia ameaçado me destruir e o momento lindo no qual me

tornara sua por toda a eternidade – como algo inteiriço ao invés de duas ocorrências

separadas e incompatíveis. Pela primeira vez enxerguei os dois acontecimentos como algo

indivisível, como o símbolo de yin-yang que Raniero tinha no braço.

– Talvez tudo tivesse que acontecer como aconteceu, para ټcarmos juntos – aټrmei. –

Talvez a estaca seja uma parte boa de nossa história.

Lucius deu um sorriso sombrio.

– Perdoe-me se nesse momento demonstro diټculdade para encarar uma arma suja de

sangue que quase usei em você, e que agora foi voltada contra mim, como algum tipo de

prenúncio de finais felizes.

Então ele soltou minhas mãos e apagou as velas, e eu ouvi o estalo da tampa da caixa e o

atrito de madeira contra pedra quando ele tirou a estaca da mesa para levá-la de volta ao

nosso quarto. E, ainda que inicialmente sua intenção fosse pegá-la para me proteger, eu

sabia que não ia conseguir dormir direito com aquela coisa no quarto.

E l a não era um prenúncio de qualquer coisa boa. Poderia vir a ser até mesmo o

instrumento da destruição de Lucius. A própria arma, usada contra ele.

Senti um aperto na garganta e quase não consegui respirar quando me lembrei de repente

de nossa lei, enunciada por Lucius: “A destruição deve ser punida com destruição” , e “A

destruição de um Ancião deve ser realizada pelo membro mais elevado do clã...” O que

signiټcava que, se Lucius de fato fosse considerado culpado pela destruição de Claudiu,

esperava-se que eu...

PARA, JESSICA! A situação NUNCA vai chegar a esse ponto. Lucius não vai permitir!

Ainda assim, achei que fosse passar mal enquanto o acompanhava até a porta, sabendo que

estivera enganando a mim mesma sobre a estaca, momentos antes. E que havia começado a

me enganar meses antes, quando jurara a Lucius estar pronta para ser uma vampira e

pertencer a ele por toda a eternidade.

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