sábado, 5 de outubro de 2013

CSUVA - 8-9-10-11

CAPÍTULO 8

Antanasia

– Trouxe um pouco de sopa para você – disse Ylenia Dragomir, tirando uma

garrafa térmica de uma bolsa enorme pendurada em seu ombro. Pelo menos a bolsa parecia

grande em minha prima. Na verdade, era provável que não tivesse metade do tamanho da

Louis Vuitton falsiټcada predileta de Mindy, forrada com pele falsa de leopardo. – Achei

que pudesse ajudá-la a se sentir melhor.

– Obrigada.

Aceitei a garrafa, na dúvida se contava a Ylenia que não estava doente de fato, já que

estávamos ټcando amigas. Eu sabia qual seria o conselho de Lucius: “Não confie em

ninguém...”

– Tome um pouco – sugeriu ela antes que eu pudesse decidir se admitiria a verdade.

Girei a tampa e cheirei, tentando não fazer uma careta diante do odor estranho.

– O cheiro está... ótimo – menti mais um pouco. – Delicioso.

– É ciorbã de pui – explicou Ylenia. – Sopa oriental de galinha com limão. É muito

saudável!

– Você que fez? – perguntei, embromando, conduzindo-a à parte do escritório semelhante

a uma sala de estar.

Ylenia me acompanhou e se acomodou na beira de uma poltrona enquanto eu me sentava

no sofá novamente.

– Isso! – Ela sorriu e deu de ombros. – Quem ainda é Dragomir, e não Vladescu, não tem

um séquito de empregados para preparar a comida. Nós sabemos cozinhar!

Ela estava rindo, mas eu me senti mal. Será que deveria pedir a Lucius que gastasse um

pouco do dinheiro daquele orçamento na contratação de empregados e no conserto do

velho castelo de minha família, que era pateticamente sustentado por turistas que pagavam

para visitá-lo?

Ylenia pareceu ter percebido que eu não tinha achado graça da piada.

– Ei, eu só estava brincando – disse ela. – Eu me sinto afortunada pelo simples fato de ter

um lugar para morar, agora que meu pai se foi. Não tinha para onde ir, e foi gentileza sua e

de Dorin me darem um quarto.

Pobre Ylenia. Sua mãe havia abandonado a família quando ela era pequena, e seu pai a

deixou largada em um colégio interno durante a maior parte da infância. Até que ele

perdeu a fortuna já escassa em um acordo ruim com Dumitru Vladescu, o que levou a uma

briga mortal. Ela não estava apenas órfã, mas também pobre e sem teto, e senti uma pontada

de culpa por achar que minha existência era difícil. Eu tinha pais, tinha Lucius.

Pus a garrafa térmica e a tampa na mesinha de centro feita em mogno.

– Então.... você quer conversar sobre o julgamento? – perguntei. – Vou entender se não

quiser.

– Não, tudo bem. – Minha prima se inclinou, serviu uma boa dose do líquido amarelado na

tampa e a empurrou para mim. – O julgamento foi difícil. Lucius arrancou toda a história

do assassino de meu pai, e foi duro de ouvir. Mas agora sinto que a justiça foi feita.

Bebi um gole da sopa e me obriguei a não fazer careta.

– Como Lucius fez para que ele confessasse?

Ylenia alisou a saia longa e fora de moda que terminava abaixo dos joelhos.

– Ele é Lucius. Como alguém seria capaz de guardar segredos diante daquele olhar? Seu

marido já intimidava quando era criança e, quanto mais amadurece, mais poderoso parece

ficar.

Tomei outro gole, e de repente a sopa parecia menos estranha do que boa parte das

palavras ditas por ela.

Sou uma intrusa em meu próprio casamento. Ylenia existia na vida de Lucius antes mesmo

de eu saber que ele existia. Eles frequentavam os tais congressos de verão na época em que

eu criava novilhos para o Clube da Juventude e nadava no lago Conewago enquanto Mindy

ficava sentada na margem, com nojo de tocar na água suja.

– Ylenia. – De repente eu precisava saber se eu era a maior covarde das duas primas

Dragomir também. – Você ficou para a...

Ela entendeu a pergunta claramente antes que eu precisasse concluí-la, e balançou a

cabeça, agitando seus cachos, que eram uma versão mais crespa dos meus.

– Não! Eu não seria capaz de presenciar aquilo, nem mesmo para ver a morte de meu pai

ser vingada.

– Também não consegui ficar lá – admiti então. – Simplesmente não consegui.

Ficamos sentadas em silêncio durante cerca de um minuto inteiro enquanto eu tomava a

sopa, porque, mesmo sem ter gostado, pela primeira vez em semanas parecia que eu sentia

fome, que surgiu depois daquela conټssão. Nunca havia tido uma amiga íntima, a não ser

Mindy, e agora que ela estava longe eu precisava de uma. Dorin era ótimo, mas era meu tio.

E Lucius, apesar de ser meu amor eterno, também era homem. Havia coisas que ele não

entenderia ou sobre as quais não conseguiria falar do jeito que só uma garota era capaz.

– Acho que vou embora – disse Ylenia por fim. – Você parece cansada.

Eu estava começando a ficar sonolenta. Nós duas nos levantamos.

– É, estou pensando em me deitar.

– Claro. – Ylenia tampou a garrafa térmica de novo e a entregou para mim. – Pode

terminar isto mais tarde. Dorin disse que você odeia pedir comida da cozinha.

Lucius com certeza teria franzido a testa diante daquele comentário, mas na hora não me

importei. Tenho uma amiga aqui que entende o que estou enfrentando.

– Obrigada.

Então Ylenia foi comigo até a porta e, com seu romeno ٽuente, mandou que Emilian me

acompanhasse ao meu quarto, pois eu estava mais do que cansada. Estava exausta e ansiosa

para chegar ao único lugar do castelo onde me sentia mais segura e à vontade... Pelo menos

até mais tarde, naquela noite.

CAPÍTULO 9

Lucius

Para: surfistanoturno3@freeweb.net

De: LVVladescu@euronet.web

Raniero,

Saudações instantâneas do coração da Romênia, onde a chegada da “banda larga” está

facilitando o contato (leia-se “controle”) com toda minha família e meu longínquo reino. (Refiro-
me especificamente a você, “sufistanoturno3”, já que não consigo imaginar terra mais

“longínqua” do coração frio e selvagem dos Cárpatos do que as areias amenas e ensolaradas do

sul da Califórnia, não é?)

Presumindo que você não tenha sido levado pelas “ondas saborosas” das quais fala com tanta

reverência – você não bebe essas ondas de fato, certo, Raniero? –, escrevo, em primeiro lugar,

para saber como você tem passado desde que nos vimos pela última vez, em meu casamento.

(Vou repetir que foi uma honra tê-lo a meu lado – e o fato de você ter se dignado a usar calças

em vez de “bermuda de surfista” foi motivo de grande apreciação de minha parte. Apreciação – e

alívio bastante considerável.)

Também admitirei: o fato de você não ter respondido ao meu convite por escrito para ser meu

padrinho realmente me deixou em dúvida. Ainda assim, não pedi a ninguém que me

acompanhasse caso você não aparecesse. Não somente eu não conseguia pensar em ninguém que

respeitasse o suficiente para cumprir esse papel tão significativo, como confiava que você, Raniero,

faria a coisa certa, assim como confiei que conteria a mão naquele momento fundamental,

quando poderia ter encerrado nosso treinamento – para não mencionar minha existência – em

um lago de sangue nas masmorras dos Vladescu.

É essa fé inabalável que tenho em você que também me leva a escrever hoje.

Os próximos seis meses serão cruciais para meu futuro como líder dos clãs recém-unidos. Meu

objetivo é insistir no voto de confiança na convocação de julho e na coroação antes do fim do ano.

Você me conhece bastante bem para compreender metade de meus motivos. Nunca deixei de

desejar o poder, e tenho confiança de que possuo a visão e a capacidade para liderar os clãs e tirá-

los da idade das trevas na qual nossas famílias parecem irrevogavelmente presas, em termos

sociais, educacionais e tecnológicos. (Cá entre nós, Raniero, será que somos os únicos Vladescu de

berço que sabem, com certeza, que bluetooth não é uma doença pavorosa, que só os vampiros

pegam, que consiste na falta de oxigênio nas gengivas? Temo que seja verdade.)

Mas, além de minhas ambições pessoais, quero acelerar esse processo pelo bem de Antanasia.

Ela está se esforçando muito para se transformar de adolescente humana em princesa vampira,

embora o processo seja difícil para minha esposa. Mais difícil ainda do que previ quando nos

casamos.

Fui egoísta, Raniero, no desejo de torná-la minha. E agora, para protegê-la, devo lhe infligir

mais um fardo, pressionando por uma coroação antecipada de modo que eu, especialmente,

possa ascender à condição de rei. Como nosso implacável porém astuto tio Vasile sempre

observou: “‘Príncipe’ está para ‘REI’ assim como ‘filhote’ está para ‘LEÃO’. E pode-se chutar um

filhote – mas com um leão NINGUÉM mexe!”

Sendo assim, o que me diz, irmão? Será que você pode por um tempo – ou para sempre! –

pendurar sua prancha, arquivar seus textos budistas e se tornar de novo o “sábio guerreiro” que

seu próprio nome, “Raniero”, o destina a ser? E assumir seu lugar ao meu lado direito? Não

haveria consequências terríveis, como você teme. O que passou, passou. Suas “filosofias” não lhe

ensinam isso?

Acrescentarei que minha mente ficaria mais tranquila se outra pessoa na Romênia que não

esteja contagiada pela covardia estivesse cuidando de Antanasia. Ela forja alianças com vampiros

que parecem inofensivos, mas cuja própria fraqueza representa ameaças que ela não sabe

reconhecer. Busca, por instinto, os gatinhos fofinhos com os quais foi criada – e exatamente

aqueles que tiveram suas garras arrancadas. (Na verdade, comparar Dorin Dragomir a um

gatinho recém-nascido é insultar o temperamento felino. E, é claro, você se lembra da índole de

Ylenia Dragomir...)

Aguardo, ansioso, por sua resposta. Não exijo sua presença aqui, o que seria meu direito, mas a

solicito como amigo.

Lucius

P.S.: Você sabia que a tradição diz que o “padrinho” não é um ajudante do noivo, e sim um

guardião da noiva? Acredite, irmão, eu não deixaria tal responsabilidade – nem de forma

simbólica – nas mãos de um vampiro em cujo autocontrole eu não confiasse. Se eu de fato

acreditasse que você representa o menor risco para Antanasia, destruiria até mesmo você, meu

amigo mais íntimo, sem piedade, antes de deixá-lo chegar a 100 quilômetros de nosso lar. Como

você pode não ter fé em si mesmo?

P.P.S.: Traga Mindy, se quiser!

CAPÍTULO 10

Mindy

Eu estava deitada na cama lendo a revista Mundo das Celebridades, para

esquecer que praticamente havia levado pau na faculdade, quando meu telefone tocou.

Quase não atendi, porque, sendo sincera, se Jess me dissesse que estava chateada porque

Lucius ia lhe dar, tipo assim, uma tiara de ouro maciço em vez da de platina que ela queria,

eu iria gritar tão alto que ela escutaria na Romênia mesmo se a ligação caísse.

Mas peguei o telefone e não reconheci o número, então atendi.

– Alô.

– Buona sera, Mindy Sue. – Havia muito chiado na linha. Ou talvez fosse vento. Ou ondas

ao fundo. – Ciao.

Bati a revista na cabeça.

– Ai, caramba, Raniero... Por que você está me ligando? – Afastei o telefone e veriټquei o

número de novo. – E de quem é esse telefone?

Eu podia, tipo, ouvir Raniero Vladescu Lovatu sorrindo daquele jeito tranquilo dele.

– Estou de pé na areia quente, olhando o pôr do sol mais lindo e exuberante, e só penso

em você, que é muito linda e exuberante, sim?

Ignorei totalmente o elogio. E tentei, com muito esforço, não visualizar Raniero na praia,

com sua bermuda verde-oliva meio que pendendo no quadril, talvez com algumas gotas de

água no peito largo, musculoso, bronzeado e nu. O braço que segurava o telefone estaria

dobrado, de modo que os bíceps estariam perfeitos e duros como uma pedra, e os dentes

branquíssimos...

Não, Mindy! Concentre-se na cabana ao fundo! No modo como aqueles dentes mudam!

– Sério, Ronnie, você arranjou um telefone novo? – perguntei, porque ele não era do tipo

que arranjava nada novo. – Que número esquisito é esse?

– Não sei de quem é o telefone. Estou passando por uma toalha de praia, vejo um telefone,

penso em você e ligo.

Imaginei ter ouvido errado – ele vivia se confundindo com o idioma e fazia uma bagunça

enorme, principalmente na hora de conjugar os verbos no passado e no presente – e me

sentei direito na cama.

– O quê? Isso é... tipo... roubo!

– Roubo, não – corrigiu ele, como se eu fosse maluca. – Estou pegando emprestado. Assim

como deixo que outros peguem emprestado minhas coisas. Existe muita preocupação neste

mundo em relação ao que pertence a quem. Mas se isso ټzer você se sentir melhor, vou

deixar aqui na toalha a manga que acabei de comprar para o jantar.

Eu me esparramei na cama outra vez. Claro que ele não compraria um telefone novo. Era

um milagre ele gastar, tipo, 45 centavos em uma manga, embora sua família tivesse zilhões

de dólares.

– Fala sério, Raniero, não me importo se você der sua fruta. Estou tendo um dia ruim de

verdade, então por que não diz logo o que quer?

– Eu não quero nada. – Ele gastou alguns minutos ټlosofando ao telefone do

desconhecido. Eu praticamente podia visualizá-lo encolhendo aqueles ombros largos e nus.

– Só pensei em você e liguei. – Também podia ver seus olhos verde-acinzentados ټcando

tristes quando ele demonstrou sentir um pouco de pena. – Mas sinto muito por saber que

você está infeliz. Tem alguma coisa que eu possa fazer para ajudar, sim?

– Não! – Sentei-me de novo e cruzei as pernas. – Não, a não ser que você possa consertar

meu cérebro antes que eu seja reprovada na faculdade daqui a uns dois dias.

Ele ficou bem quieto. Tudo o que eu escutava era o vento.

– Eu acho seu cérebro perfetto, Mindy Sue – disse ele. – Simplesmente perfeito. E acho que

você ټcará feliz em sair da faculdade, porque não acredito que algum dia tenha sido seu

sonho estudar lá.

– Você não conhece meus sonhos – rebati, ټcando brava com ele. Talvez meu sonho fosse

ter um namorado que pelo menos arranjasse um emprego, ou então que usasse sua

poupança. E um namorado que estivesse perto de mim quando eu precisasse. E que pelo

menos se oferecesse para me morder, mesmo que eu não quisesse, porque para os sugadores

de sangue isso significava um compromisso. – Você não conhece mesmo meus sonhos!

– Talvez não. – Lá estava ele dando de ombros de novo. Ele vivia remexendo aqueles

ombros gostosos e largos. – Mas achei que você quisesse ser estilista de cabelos.

– É, tipo, das estrelas – expliquei pela milionésima vez. – Mas isso é uma fantasia idiota que

não vai acontecer. Se eu cursar algum instituto de beleza chinfrim aqui, vou acabar

cortando cabelo no salão do shopping, encarando crianças aos berros, e nunca vou

conhecer um cara decente com futuro, como talvez pudesse acontecer na faculdade.

Ai, nossa. Tudo aquilo saiu errado. Eu não queria magoar o cara, porque em muitos

sentidos ele era decente. Era meigo. Meigo demais...

Mas, como sempre, Ronnie não se importou nem um pouco que eu o estivesse

desprezando ou falando de outros caras.

– Você quer vir para cá? – Deu para ouvi-lo sorrir outra vez. – Tem sol e sempre há espaço

para você, se bem que talvez não haja para todos os seus sapatos... E tenho certeza de que

você pode encontrar um instituto de beleza aqui, bem perto das estrelas que quer conhecer.

Que resposta eu poderia dar?

Claro que eu adoraria estudar na mundialmente famosa Academia de Estética Ashton, em

Hollywood, onde praticamente todos os cabeleireiros que apareciam na Penteados das

Celebridades haviam estudado. Mas eu não tinha dinheiro sequer para ir à Califórnia, quanto

mais para pagar a mensalidade, caso entrasse na Ashton. Não conseguiria comprar nem uma

manga para o almoço. E no minuto em que chegasse lá ele provavelmente iria para o Taiti,

como vivia falando.

Não, se eu fosse viajar para algum lugar, seria para visitar Jess, porque ela, graças a seu

marido rico, podia pagar.

– Melinda, você ainda está aí? – perguntou Ronnie. – Está pensando em minha proposta,

sim?

Não respondi, porque de repente comecei a “pensar”. Na Romênia, já que para lá eu sabia

que Raniero não iria, porque por algum motivo ele não gostava daquele país. “Lá é frio

demais para mim”, dissera ele. “Muito, muito gelado e traiçoeiro.”

No entanto, lá havia mais do que gelo, neve e estradas ruins. Eu quase tinha sido reprovada

em inglês no ensino médio, e não sacava metáforas e essas coisas que Jess e Lukey

entendiam, mas pela cara de Raniero eu sabia que ele estava se referindo a muito mais do

que o clima quando dizia que o lugar era “gelado” para ele.

– Ah, na verdade eu estava pensando em visitar Jess por uns tempos – respondi, enټm. – As

férias de inverno começam daqui a alguns dias, e ela se ofereceu para pagar minha passagem.

Ouvi o vento e as ondas durante vários minutos – os minutos de chamada de algum pobre

coitado sendo totalmente desperdiçados –, e então pela primeira vez desde que conheci

Ronnie ele soou super, superinfeliz.

– Eu gostaria que você não fosse.

– Bem, acho que eu vou.

Praticamente me decidi naquele minuto. Precisava cortar aquela coisa entre nós. Aquela

que me deixava falando e viajando sobre o cara mais sem-teto, desempregado, acomodado,

cabeludo, Nova Era e morto-vivo do mundo. Um sugador de sangue cujo pior erro foi ter

dado de ombros para mim quando falei: “Acho que isso não está dando certo, Ronnie.”

Eu sabia que ele não acreditava em brigas e tinha o braço cheio de tatuagens de paz para

provar sua posição. Mas será que não podia ao menos ter lutado por mim? Não podia ter se

disposto a mudar, só um pouquinho?

– Preciso desligar – falei.

A última coisa que ouvi antes de desligar foi um vampiro ao pôr do sol em uma praia

dizendo:

– Eu te amo muito, Mindy Sue.

Enټei o telefone embaixo do travesseiro, como se pudesse apagar aquelas palavras sem

signiټcado. Raniero amava tudo e todo mundo. Até insetos, que ele não mataria nem se

andassem em cima da gente naquele apartamento abominável em Lancaster onde ele havia

passado um tempo.

Se eu fosse mesmo especial, ele teria lutado – e mudado – por mim.

VAMPIROS ITALIANOS IDIOTAS! IDIOTAS!

CAPÍTULO 11

Raniero

Para: LVVladescu@euronet.web

De: surfistanoturno3@freeweb.net

Lucius,

Que bom ter notícias suas! Mas, pelas suas palavras, acho que você inveja secretamente o primo

que tem a gentileza de chamar de irmão, que está acordando nesse instante, ao meio-dia, e que

pensa somente em comer um abacaxi fresco sem se preocupar com banho antes de passar o dia

no mar. Em comparação, um futuro rei tem muitas obrigações, sim?

Lamento por suas preocupações. Imploro: não desperdice suas energias régias temendo por

Raniero, que bebe, sim, as ondas do Pacífico, ocasionalmente. O que é um pouco de água

emporcalhada pelos peixes para alguém que já jantou no chão sujo das masmorras dos Vladescu,

com a cabeça baixa e dolorida esmagada pelo calcanhar de sua bota até chegar ao vazio atual?

(rs)

Como você, estou brincando – demais, eu acho, com um príncipe. Você é gentil em suportar

minhas provocações e não arrancar o que resta de minha cabeça por simples prazer. Então agora

fico sério, sim?

Lucius... Não entendo essa “fé” que você tem em mim. Ela é equivocada, não é?

Você estava sentado à mesa quando os Anciões decidiram meu destino. Você sabe o que sou. O

que fiz. Você viu dentro de meus olhos quando me ajoelhei acima de você, com a estaca na mão!

Eu gostaria de ajudá-lo. Gostaria de pagar o que lhe devo, e também que você se tornasse rei.

Porque, mesmo sem compartilhar mais seu desejo pelo poder terreno, acredito que você tem um

poder raro no coração, que não é deste mundo. Compaixão? Sim. Algo novo para um governante

vampiro, e muito necessário!

Mas é uma infelicidade que eu esteja apenas começando a encontrar essa qualidade dentro de

mim. Temo que o antigo Raniero de apenas dois anos atrás ainda exista – ele até mesmo espiou

em seu casamento para captar um vislumbre de tio Claudiu. Então, fico feliz em dizer, eu o

ponho para dormir de novo ao surfar nas ondas constantes, olhando o pôr do sol tranquilizador e

respirando fundo, pacificamente.

Não vamos perturbar aquele vampiro indisciplinado e raivoso outra vez, sim?

Sem dúvida, não devemos permitir que ele chegue perto de sua esposa! Notei seu olhar para a

princesa Antanasia durante seus votos nupciais, e acredito que você destruiria qualquer um que

representasse ameaça para ela. Prefiro que esse vampiro morto não seja eu!

Sinto muito, Lucius, por não poder fazer nada além de ficar longe da Romênia. No entanto, se

em algum momento você quiser abandonar a pressão de sua vida de realeza, ainda que por

alguns dias, saiba que meu lar é humilde, mas a vista é boa. E a porta jamais está trancada...

porque na verdade não há porta. Só uma cortina de chuveiro com estampa de peixinhos. Basta

afastá-la e entrar!

Pace, Lucius... Paz!

Raniero

Esqueci uma coisa, e portanto P.S. para você também. Acho que per una volta – só desta vez –,

você está errado, meu futuro rei. Mindy Sue não está com Raniero. (Acho que ela ficou muito

surpresa, ao voltarmos para os Estados Unidos, em saber que não uso smoking todo dia!) Mas

somos opostos que nos atraímos muito, e espero pacientemente que ela perceba que as roupas

não são tão importantes. Temos tempo, sim? A não ser, é claro, que essa garota muito meiga sofra

alguma coisa em sua casa, porque acho que ela planeja viajar para aí sem mim.

Fico pensando: quem precisa de mais proteção, Lucius? Uma princesa vampira corajosa o

suficiente para entrar em seu castelo, alerta, ou uma jovem inocente que não enxerga o mal e só

deseja tornar o mundo mais bonito, um fio de cabelo de cada vez? (Isso é o que mais amo nela.

Isso e sua ossessione por sapatos. Como pode, já que eu tenho apenas um par? Mas é a verdade!)

Você poupou minha vida duas vezes e não ouso lhe pedir o favor de proteger alguém a quem eu

amo tanto, mas é uma questão a se considerar, não é?

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