sábado, 5 de outubro de 2013

CSUVA - 62-63-64-65-66-67

CAPÍTULO 62

Antanasia

Quando todos saíram, Raniero parou perto de minha cama e vi diante de mim

um vampiro preso entre dois mundos. Parecia que ele estava no limbo.

O terno havia sumido, mas não fora substituído pelo monstro do taco. Em seu lugar, ele

usava uma camiseta familiar e cara. Além disso, também estava de calça jeans de grife, mas o

cavanhaque ainda era um desastre. E seus olhos raros de um verde acinzentado... Quase

pareciam tranquilos demais, como o oceano pouco antes de uma tempestade.

– Você viu o Lucius no caixão? – perguntou ele. – Teve alucinações?

Olhei-o de meu ninho de travesseiros e parecia que meus pensamentos estavam em um

turbilhão, em um padrão tão confuso e tortuoso quanto as tatuagens dele. Ele é um maldito

vampiro natureba deturpado assassino e vegano, o melhor amigo e quase assassino de Lucius, e o

segundo na linhagem do trono depois de meu marido, mas pode ser o único indivíduo capaz de

nos ajudar, se não enlouquecer no processo – e não faço ideia do que devo contar a ele.

– Eu... estou cansada demais para falar sobre isso agora – respondi, embromando. – Preciso

descansar.

Raniero assentiu, e pensei que ele fosse me dizer que estava tudo bem. Que eu deveria ټcar

deitada um tempo. Acho que esperei compaixão porque ټquei acostumada demais a ter

todo mundo oferecendo isso enquanto eu tentava em vão ser uma princesa.

Assim, fui pega completamente desprevenida quando ele disse com delicadeza, porém de

modo firme:

– Sei que isso vai parecer ir contra tudo em que você acredita, Antanasia, mas se quer ser

governante e salvar seu marido, que está mesmo ټcando mais fraco, agora é hora de

começar a lutar com o máximo de força que puder. Não há mais tempo para ser criança,

reclamando de cansaço e confusão.

Enquanto eu estava ali sentada, boquiaberta – Estou fazendo o máximo que posso. É difícil –,

ele acrescentou:

– E você precisa decidir, de uma vez por todas, se quer se aliar a mim, pois também tenho

que saber se vou lutar. Estou feliz por dar sentido à minha existência, mas quero fazer isso

por alguém que aprecie o sacrifício e esteja disposto a cair junto comigo se a situação

chegar a esse ponto.

Então Raniero se empertigou e me aconselhou:

– E se você escolher lutar, sugiro enfaticamente que comece saindo já da cama.

De repente, enquanto o encarava, percebi que Raniero era tudo o que eu tinha pensado que

fosse – tudo ao mesmo tempo. Era vegano e vampiro, budista e sanguessuga, paciټsta e

assassino. Mas estava abrindo mão de metade dessas personalidades, e depressa.

Ele havia escolhido o que seria e, ao contrário de mim, não estava remoendo o passado,

desejando em vão ainda estar no ensino médio quando havia uma nação de vampiros para

governar e seu melhor amigo para salvar.

Observei Raniero sair do quarto, ainda sem palavras e me perguntando como exatamente o

antigo Raniero seria quando eu o visse em toda a sua glória anterior. Porque o vampiro que

estava emergindo – o mesmo que havia destruído talvez dezenas de vezes e que uma vez

quase tinha cravado a estaca em meu marido – era meu novo aliado.

CAPÍTULO 63

Mindy

Esperei Raniero em frente ao quarto de Jess, e não demorou muito até ele

aparecer. Só que o cara que passou pela porta não parecia Ronnie. Tinha algo diferente no

jeito de andar e na expressão dele.

– Raniero? – chamei. – Jess está legal?

– Sim.

A voz também parecia um pouco diferente. Tipo... mais severa.

Ele não fez menção de parar, por isso lhe agarrei a manga e ele se virou e me olhou. Será

que antes eu precisava levantar a cabeça tanto assim para olhá-lo? Ou será que ele estava,

tipo, ficando mesmo mais alto?

– Ronnie? – chamei de novo. – Tem certeza?

– Ela vai ficar bem.

Ficamos ali durante alguns segundos e tentei deduzir exatamente o que havia mudado, mas

não consegui. Também ټquei pensando no jeito como todo mundo tinha surtado quando

ele entrou no funeral e em como Jess havia me perguntado se ele era perigoso, por isso ټz

uma pergunta que soou esquisita até para mim:

– Raniero... quem é você de verdade?

Ele demorou um tempão para responder, e por um segundo pensei que quase pareceu

normal de novo. Os ombros meio que relaxaram e o olhar ټcou mais brando, assim como a

voz.

– Ah, Mindy Sue...

Nunca pensei que diria isso, mas fiquei aliviada ao vê-lo não empertigado.

– Sério, Ronnie. – Examinei o rosto dele. Sobretudo os lindos olhos, que ainda não

estavam exatamente como eu me lembrava. – Quem é você?

Ele estava escondendo alguma coisa. Ou tipo... mudando, de algum modo. Mas ainda

parecia um filósofo – um filósofo triste – quando disse:

– Estou me transformando em tudo o que você sempre desejou que eu fosse, Mindy Sue. E

esse é um vampiro que você não deveria querer conhecer.

Eu estava tentando decifrar aquele quebra-cabeça quando ele saiu andando pelo corredor,

parecendo mais alto a cada passo, e de repente me lembrei do que eu queria ter perguntado

de fato e gritei para ele:

– Ronnie... Você e Ylenia... O que aconteceu?

Ele se virou, mas não disse nada.

Não precisou. Estava escrito na cara dele, assim como estivera escrito na cara de Ylenia

quando ela ټcou observando-o de pé no canto – como se não conseguisse parar de olhar.

Pus as mãos na barriga, porque parecia que o cara incapaz de ferir qualquer pessoa – o

mesmo que tinha aquela expressão de sinto muitíssimo nos olhos acinzentados – havia

acabado de me dar um soco no estômago.

CAPÍTULO 64

Raniero

Lucius,

Repito: fique tranquilo. Sua esposa teve mesmo dificuldade no funeral, mas se recupera. Na

verdade, acho que ela vai ficar melhor do que nunca!

Durante muitos anos acreditei que não aprendera nada de bom em minha época de

treinamento de violência, mas agora (com o coração relutante) vejo o valor do que gli Americani

chamam de amor duro. Os sábios, que dizem que nenhuma experiência é desperdiçada, provam-
se corretos de novo, sim?

Já que estamos no assunto violência, você se oporia se eu pegasse emprestado um artefato de sua

coleção de armas de nossos ancestrais? Ou prefere que eu cinzele uma nova estaca?

R.

Acrescento um pós-escrito, coisa de que você tanto gosta: estou passando a usar calça, como

sugeriu tantas vezes. Acho que não vai ficar chateado se eu pegar emprestado no seu armário.

Talvez um dia eu possa pagar... por exemplo, com minha existência! (rsrsrs)

CAPÍTULO 65

Antanasia

Não me levantei da cama de imediato quando Raniero saiu do meu quarto. Na

verdade, ټquei ali por muito tempo, olhando o teto enquanto a luz ia sumindo e sombras

imensas se arrastavam pelas paredes.

Raniero foi duro demais comigo. Ninguém é capaz de imaginar como é difícil ser uma estudante

comum do ensino médio em um dia e no outro ser casada e líder de vampiros malignos. Eu podia

mesmo perder meu marido... para sempre.

Minha parte racional dizia isso. A hábil matemática que havia em mim, que pesava e

quantificava os desafios de modo lógico.

Mas eu não era mais aquela garota. Também era – sempre tinha sido – a ټlha de Mihaela

Dragomir, uma rainha poderosa, que enfrentara a própria destruição sem medo, escrevendo

uma última anotação no diário, uma que eu nunca fora capaz de terminar de ler porque

começava com “Esta é minha despedida para você”. E eu tinha sido criada por outra mulher

forte, Dara Packwood, que me dera um beijo de despedida na Romênia e seguira para

encarar novos desaټos, dizendo: “Você consegue fazer isso, Antanasia. Você prometeu a Lucius

que era capaz, e vai crescer para enfrentar qualquer problema que surgir.”

Ouvi as palavras de Lucius, também, e só então as compreendi. “O medo é o pior tipo de

sepultura, pois enterra gente viva.”

E por fim, mas não menos importante, ouvi Raniero me dizendo para sair já da cama.

Levantar... eu precisava me levantar...

Sem esperar mais, aټnal já era quase meia-noite, enټm rolei para fora do colchão, vesti

uma calça jeans e fui para a porta. Abrindo-a, falei para Emilian:

– Ești demis – no mesmo tom que tinha ouvido Lucius falar tão frequentemente.

“Está dispensado.”

Não disse “por favor” nem “obrigada” e ignorei o olhar dele de surpresa e incerteza.

Depois de um minuto, ele fez uma ligeira reverência e concordou.

– Da.

Quando desapareceu no corredor – dando uma olhadinha para trás, como se de fato não

tivesse certeza se deveria ir –, retornei ao quarto, peguei meu casaco e enټei o diário de

minha mãe no bolso. Depois fui para o estábulo, selei a égua que Lucius e eu havíamos

montado para ir ao cemitério e parti noite afora, ignorando os lobos que uivavam na

floresta.

Eu não precisava mais temer cães selvagens. Vivia com predadores muito mais perigosos

em minha casa. E era hora de parar de me esconder deles e começar a caçar.

CAPÍTULO 66

Antanasia

O portão de ferro do cemitério se abriu com facilidade, aټnal as dobradiças

haviam sido usadas recentemente para o enterro de Claudiu. A trilha de rastros dos

enlutados que tinham vindo do castelo continuava pela neve, levando até a sepultura dele.

Mas eu não estava ali para prestar respeitos ao tio de Lucius.

Fechei o portão depois de entrar e olhei para o cemitério silencioso. O luar iluminava o

mausoléu claro que eu mal conseguira olhar quando estivera ali com Lucius. Virei-me para

a cripta dos Vladescu também, quase invisível contra o céu, preto contra preto. Só dava

para ver o contorno da cobertura pontuda, que me lembrou da parede de estacas na camera

de miză.

“Não há o que temer aqui.”

Ouvi mais uma vez as palavras de Lucius, aprumei os ombros e comecei a andar para a

cripta dos Vladescu. Então parei e me virei, primeiro para a estrutura menor, para enټm

encarar os vampiros que tinham me dado a existência que eu desperdiçara durante tantas

semanas, quando deveria estar saboreando cada momento com meu marido. Algumas

pessoas – e a maioria dos vampiros – jamais haviam experimentado o amor que possuíamos.

Errei ao desperdiçar um segundo daquilo.

Minhas botas guinchavam na neve e o pequeno portão que lacrava a cripta rangeu quando

eu o abri, usando de mais força do que o necessário. Eu meio que havia esperado que a

entrada estivesse emperrada por causa da ferrugem, pois não podia imaginar ninguém indo

ali. Nem mesmo Dorin, que teria calafrios naquele lugar, imaginando o próprio

falecimento.

Entrei e acendi uma das três velas que repousavam em nichos nas paredes antigas, e apesar

de ter imaginado que ټcaria triste, e talvez até chorasse de novo, ٽagrei-me sorrindo um

pouco, porque alguém estivera ali havia não muito tempo.

Lucius.

CAPÍTULO 67

Antanasia

O bilhete estava enfiado embaixo de uma tigelinha com sangue – já seco –, mas

pude ver o suټciente do meu nome escrito em letra familiar, forte e nítida, a ponto de

perceber que a mensagem era para mim, por isso me abaixei e a peguei, desdobrando-a com

os dedos rígidos de frio. O papel estava quebradiço, talvez pela exposição ao ar gélido – ou

talvez porque eu tivesse esperado mais tempo para fazer a jornada do que Lucius havia

estimado.

Lucius.

Estava claro que ele tinha fé de que um dia eu reuniria coragem para ټcar naquele local

junto a meus pais biológicos – e junto a um lugar vazio que provavelmente também estava

ali, em algum ponto entre os cerca de 30 caixões dentro das paredes, esperando por mim.

Cheguei mais perto da vela e li as palavras de Lucius:

Antanasia, eu venho aqui com frequência e deixo uma taça de sangue para seus pais. É uma

oferenda tradicional entre os vampiros, que demonstra reverência pelos falecidos. Dou esse

presente também em gratidão – quando baixo a cabeça, agradeço a eles em silêncio por você.

Gostaria de poder oferecer-lhes mais em troca do presente que me deram, mas NADA poderia

pagar isso.

L.

Eu ainda estava sorrindo em meio a uma mistura estranha de felicidade genuína e tristeza

profunda quando enټei o bilhete no bolso e enټm examinei as paredes de mármore,

procurando o nome de meus pais.

Mihaela Dragomir e Ladislau Dragomir.

E, quando ټnalmente os encontrei, gravados em letras simples, baixei a cabeça e apenas me

permiti sentir por um minuto. Deixei tudo aquilo me inundar, inclusive as coisas que eu

vinha tentando evitar – todo o medo, o sofrimento e a saudade de casa – e o orgulho que eu

sentia de meus pais também. Quando levantei o rosto de novo, foi como se a conexão que

vinha crescendo entre mim e minha mãe biológica estivesse selada. Enquanto estava ali, pela

primeira vez me dei conta de que os amava. Eu admirava meus pais e sentia um temor

respeitoso por minha mãe, e era grata a eles por terem salvado minha vida, mas não os havia

amado de fato até então.

E de repente entendi por que Lucius visitava um cemitério, e o que ele sentia quando

estava ali.

Minha família está aqui. Foi aqui que comecei e é aqui que provavelmente terminarei, e é o

meu lugar.

Tirei o diário de minha mãe do bolso, voltei a me aproximar da vela e enټm li a última

anotação. Era surpreendentemente curta e dizia apenas:

“É hora de me despedir de você, Antanasia. Quero que saiba que estou preparada e em paz. E se

você leu até aqui... então também está preparada.”

Notei que ela não disse para que eu estaria preparada. Eu tinha quase certeza de que ela se

referia a tudo. Desde me casar com Lucius até comandar os clãs e enfrentar o destino que

levou a mim e a minha mãe àquele lugar em uma noite de nevasca, quase 19 anos depois de

sua destruição.

Após fechar o diário pela última vez, enټei-o em uma fenda do mármore que separava os

caixões de meus pais. Aquela era minha oferenda particular a eles. Era meu jeito de dizer:

“Estou preparada.”

Então segui para o cemitério e fechei o portão do mausoléu. Parada na neve, hesitei mais

uma vez, depois dei um passo em direção à cripta cuja fachada escura e pontuda continha

uma palavra gravada, apropriadamente serrilhada. VLADESCU. No entanto, algo me fez

parar, e em vez de seguir em frente fui até a égua trêmula, montei na sela e virei para casa a

fim de iniciar a difícil tarefa de salvar Lucius.

Mas quando bati os calcanhares nos ٽancos do animal, nós duas paramos bruscamente –

porque alguém havia segurado as rédeas. Eu meio que sabia que ele havia estado comigo o

tempo todo.

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