CAPÍTULO 62
Antanasia
Quando todos saíram, Raniero parou perto de minha cama e vi diante de mim
um vampiro preso entre dois mundos. Parecia que ele estava no limbo.
O terno havia sumido, mas não fora substituído pelo monstro do taco. Em seu lugar, ele
usava uma camiseta familiar e cara. Além disso, também estava de calça jeans de grife, mas o
cavanhaque ainda era um desastre. E seus olhos raros de um verde acinzentado... Quase
pareciam tranquilos demais, como o oceano pouco antes de uma tempestade.
– Você viu o Lucius no caixão? – perguntou ele. – Teve alucinações?
Olhei-o de meu ninho de travesseiros e parecia que meus pensamentos estavam em um
turbilhão, em um padrão tão confuso e tortuoso quanto as tatuagens dele. Ele é um maldito
vampiro natureba deturpado assassino e vegano, o melhor amigo e quase assassino de Lucius, e o
segundo na linhagem do trono depois de meu marido, mas pode ser o único indivíduo capaz de
nos ajudar, se não enlouquecer no processo – e não faço ideia do que devo contar a ele.
– Eu... estou cansada demais para falar sobre isso agora – respondi, embromando. – Preciso
descansar.
Raniero assentiu, e pensei que ele fosse me dizer que estava tudo bem. Que eu deveria ټcar
deitada um tempo. Acho que esperei compaixão porque ټquei acostumada demais a ter
todo mundo oferecendo isso enquanto eu tentava em vão ser uma princesa.
Assim, fui pega completamente desprevenida quando ele disse com delicadeza, porém de
modo firme:
– Sei que isso vai parecer ir contra tudo em que você acredita, Antanasia, mas se quer ser
governante e salvar seu marido, que está mesmo ټcando mais fraco, agora é hora de
começar a lutar com o máximo de força que puder. Não há mais tempo para ser criança,
reclamando de cansaço e confusão.
Enquanto eu estava ali sentada, boquiaberta – Estou fazendo o máximo que posso. É difícil –,
ele acrescentou:
– E você precisa decidir, de uma vez por todas, se quer se aliar a mim, pois também tenho
que saber se vou lutar. Estou feliz por dar sentido à minha existência, mas quero fazer isso
por alguém que aprecie o sacrifício e esteja disposto a cair junto comigo se a situação
chegar a esse ponto.
Então Raniero se empertigou e me aconselhou:
– E se você escolher lutar, sugiro enfaticamente que comece saindo já da cama.
De repente, enquanto o encarava, percebi que Raniero era tudo o que eu tinha pensado que
fosse – tudo ao mesmo tempo. Era vegano e vampiro, budista e sanguessuga, paciټsta e
assassino. Mas estava abrindo mão de metade dessas personalidades, e depressa.
Ele havia escolhido o que seria e, ao contrário de mim, não estava remoendo o passado,
desejando em vão ainda estar no ensino médio quando havia uma nação de vampiros para
governar e seu melhor amigo para salvar.
Observei Raniero sair do quarto, ainda sem palavras e me perguntando como exatamente o
antigo Raniero seria quando eu o visse em toda a sua glória anterior. Porque o vampiro que
estava emergindo – o mesmo que havia destruído talvez dezenas de vezes e que uma vez
quase tinha cravado a estaca em meu marido – era meu novo aliado.
CAPÍTULO 63
Mindy
Esperei Raniero em frente ao quarto de Jess, e não demorou muito até ele
aparecer. Só que o cara que passou pela porta não parecia Ronnie. Tinha algo diferente no
jeito de andar e na expressão dele.
– Raniero? – chamei. – Jess está legal?
– Sim.
A voz também parecia um pouco diferente. Tipo... mais severa.
Ele não fez menção de parar, por isso lhe agarrei a manga e ele se virou e me olhou. Será
que antes eu precisava levantar a cabeça tanto assim para olhá-lo? Ou será que ele estava,
tipo, ficando mesmo mais alto?
– Ronnie? – chamei de novo. – Tem certeza?
– Ela vai ficar bem.
Ficamos ali durante alguns segundos e tentei deduzir exatamente o que havia mudado, mas
não consegui. Também ټquei pensando no jeito como todo mundo tinha surtado quando
ele entrou no funeral e em como Jess havia me perguntado se ele era perigoso, por isso ټz
uma pergunta que soou esquisita até para mim:
– Raniero... quem é você de verdade?
Ele demorou um tempão para responder, e por um segundo pensei que quase pareceu
normal de novo. Os ombros meio que relaxaram e o olhar ټcou mais brando, assim como a
voz.
– Ah, Mindy Sue...
Nunca pensei que diria isso, mas fiquei aliviada ao vê-lo não empertigado.
– Sério, Ronnie. – Examinei o rosto dele. Sobretudo os lindos olhos, que ainda não
estavam exatamente como eu me lembrava. – Quem é você?
Ele estava escondendo alguma coisa. Ou tipo... mudando, de algum modo. Mas ainda
parecia um filósofo – um filósofo triste – quando disse:
– Estou me transformando em tudo o que você sempre desejou que eu fosse, Mindy Sue. E
esse é um vampiro que você não deveria querer conhecer.
Eu estava tentando decifrar aquele quebra-cabeça quando ele saiu andando pelo corredor,
parecendo mais alto a cada passo, e de repente me lembrei do que eu queria ter perguntado
de fato e gritei para ele:
– Ronnie... Você e Ylenia... O que aconteceu?
Ele se virou, mas não disse nada.
Não precisou. Estava escrito na cara dele, assim como estivera escrito na cara de Ylenia
quando ela ټcou observando-o de pé no canto – como se não conseguisse parar de olhar.
Pus as mãos na barriga, porque parecia que o cara incapaz de ferir qualquer pessoa – o
mesmo que tinha aquela expressão de sinto muitíssimo nos olhos acinzentados – havia
acabado de me dar um soco no estômago.
CAPÍTULO 64
Raniero
Lucius,
Repito: fique tranquilo. Sua esposa teve mesmo dificuldade no funeral, mas se recupera. Na
verdade, acho que ela vai ficar melhor do que nunca!
Durante muitos anos acreditei que não aprendera nada de bom em minha época de
treinamento de violência, mas agora (com o coração relutante) vejo o valor do que gli Americani
chamam de amor duro. Os sábios, que dizem que nenhuma experiência é desperdiçada, provam-
se corretos de novo, sim?
Já que estamos no assunto violência, você se oporia se eu pegasse emprestado um artefato de sua
coleção de armas de nossos ancestrais? Ou prefere que eu cinzele uma nova estaca?
R.
Acrescento um pós-escrito, coisa de que você tanto gosta: estou passando a usar calça, como
sugeriu tantas vezes. Acho que não vai ficar chateado se eu pegar emprestado no seu armário.
Talvez um dia eu possa pagar... por exemplo, com minha existência! (rsrsrs)
CAPÍTULO 65
Antanasia
Não me levantei da cama de imediato quando Raniero saiu do meu quarto. Na
verdade, ټquei ali por muito tempo, olhando o teto enquanto a luz ia sumindo e sombras
imensas se arrastavam pelas paredes.
Raniero foi duro demais comigo. Ninguém é capaz de imaginar como é difícil ser uma estudante
comum do ensino médio em um dia e no outro ser casada e líder de vampiros malignos. Eu podia
mesmo perder meu marido... para sempre.
Minha parte racional dizia isso. A hábil matemática que havia em mim, que pesava e
quantificava os desafios de modo lógico.
Mas eu não era mais aquela garota. Também era – sempre tinha sido – a ټlha de Mihaela
Dragomir, uma rainha poderosa, que enfrentara a própria destruição sem medo, escrevendo
uma última anotação no diário, uma que eu nunca fora capaz de terminar de ler porque
começava com “Esta é minha despedida para você”. E eu tinha sido criada por outra mulher
forte, Dara Packwood, que me dera um beijo de despedida na Romênia e seguira para
encarar novos desaټos, dizendo: “Você consegue fazer isso, Antanasia. Você prometeu a Lucius
que era capaz, e vai crescer para enfrentar qualquer problema que surgir.”
Ouvi as palavras de Lucius, também, e só então as compreendi. “O medo é o pior tipo de
sepultura, pois enterra gente viva.”
E por fim, mas não menos importante, ouvi Raniero me dizendo para sair já da cama.
Levantar... eu precisava me levantar...
Sem esperar mais, aټnal já era quase meia-noite, enټm rolei para fora do colchão, vesti
uma calça jeans e fui para a porta. Abrindo-a, falei para Emilian:
– Ești demis – no mesmo tom que tinha ouvido Lucius falar tão frequentemente.
“Está dispensado.”
Não disse “por favor” nem “obrigada” e ignorei o olhar dele de surpresa e incerteza.
Depois de um minuto, ele fez uma ligeira reverência e concordou.
– Da.
Quando desapareceu no corredor – dando uma olhadinha para trás, como se de fato não
tivesse certeza se deveria ir –, retornei ao quarto, peguei meu casaco e enټei o diário de
minha mãe no bolso. Depois fui para o estábulo, selei a égua que Lucius e eu havíamos
montado para ir ao cemitério e parti noite afora, ignorando os lobos que uivavam na
floresta.
Eu não precisava mais temer cães selvagens. Vivia com predadores muito mais perigosos
em minha casa. E era hora de parar de me esconder deles e começar a caçar.
CAPÍTULO 66
Antanasia
O portão de ferro do cemitério se abriu com facilidade, aټnal as dobradiças
haviam sido usadas recentemente para o enterro de Claudiu. A trilha de rastros dos
enlutados que tinham vindo do castelo continuava pela neve, levando até a sepultura dele.
Mas eu não estava ali para prestar respeitos ao tio de Lucius.
Fechei o portão depois de entrar e olhei para o cemitério silencioso. O luar iluminava o
mausoléu claro que eu mal conseguira olhar quando estivera ali com Lucius. Virei-me para
a cripta dos Vladescu também, quase invisível contra o céu, preto contra preto. Só dava
para ver o contorno da cobertura pontuda, que me lembrou da parede de estacas na camera
de miză.
“Não há o que temer aqui.”
Ouvi mais uma vez as palavras de Lucius, aprumei os ombros e comecei a andar para a
cripta dos Vladescu. Então parei e me virei, primeiro para a estrutura menor, para enټm
encarar os vampiros que tinham me dado a existência que eu desperdiçara durante tantas
semanas, quando deveria estar saboreando cada momento com meu marido. Algumas
pessoas – e a maioria dos vampiros – jamais haviam experimentado o amor que possuíamos.
Errei ao desperdiçar um segundo daquilo.
Minhas botas guinchavam na neve e o pequeno portão que lacrava a cripta rangeu quando
eu o abri, usando de mais força do que o necessário. Eu meio que havia esperado que a
entrada estivesse emperrada por causa da ferrugem, pois não podia imaginar ninguém indo
ali. Nem mesmo Dorin, que teria calafrios naquele lugar, imaginando o próprio
falecimento.
Entrei e acendi uma das três velas que repousavam em nichos nas paredes antigas, e apesar
de ter imaginado que ټcaria triste, e talvez até chorasse de novo, ٽagrei-me sorrindo um
pouco, porque alguém estivera ali havia não muito tempo.
Lucius.
CAPÍTULO 67
Antanasia
O bilhete estava enfiado embaixo de uma tigelinha com sangue – já seco –, mas
pude ver o suټciente do meu nome escrito em letra familiar, forte e nítida, a ponto de
perceber que a mensagem era para mim, por isso me abaixei e a peguei, desdobrando-a com
os dedos rígidos de frio. O papel estava quebradiço, talvez pela exposição ao ar gélido – ou
talvez porque eu tivesse esperado mais tempo para fazer a jornada do que Lucius havia
estimado.
Lucius.
Estava claro que ele tinha fé de que um dia eu reuniria coragem para ټcar naquele local
junto a meus pais biológicos – e junto a um lugar vazio que provavelmente também estava
ali, em algum ponto entre os cerca de 30 caixões dentro das paredes, esperando por mim.
Cheguei mais perto da vela e li as palavras de Lucius:
Antanasia, eu venho aqui com frequência e deixo uma taça de sangue para seus pais. É uma
oferenda tradicional entre os vampiros, que demonstra reverência pelos falecidos. Dou esse
presente também em gratidão – quando baixo a cabeça, agradeço a eles em silêncio por você.
Gostaria de poder oferecer-lhes mais em troca do presente que me deram, mas NADA poderia
pagar isso.
L.
Eu ainda estava sorrindo em meio a uma mistura estranha de felicidade genuína e tristeza
profunda quando enټei o bilhete no bolso e enټm examinei as paredes de mármore,
procurando o nome de meus pais.
Mihaela Dragomir e Ladislau Dragomir.
E, quando ټnalmente os encontrei, gravados em letras simples, baixei a cabeça e apenas me
permiti sentir por um minuto. Deixei tudo aquilo me inundar, inclusive as coisas que eu
vinha tentando evitar – todo o medo, o sofrimento e a saudade de casa – e o orgulho que eu
sentia de meus pais também. Quando levantei o rosto de novo, foi como se a conexão que
vinha crescendo entre mim e minha mãe biológica estivesse selada. Enquanto estava ali, pela
primeira vez me dei conta de que os amava. Eu admirava meus pais e sentia um temor
respeitoso por minha mãe, e era grata a eles por terem salvado minha vida, mas não os havia
amado de fato até então.
E de repente entendi por que Lucius visitava um cemitério, e o que ele sentia quando
estava ali.
Minha família está aqui. Foi aqui que comecei e é aqui que provavelmente terminarei, e é o
meu lugar.
Tirei o diário de minha mãe do bolso, voltei a me aproximar da vela e enټm li a última
anotação. Era surpreendentemente curta e dizia apenas:
“É hora de me despedir de você, Antanasia. Quero que saiba que estou preparada e em paz. E se
você leu até aqui... então também está preparada.”
Notei que ela não disse para que eu estaria preparada. Eu tinha quase certeza de que ela se
referia a tudo. Desde me casar com Lucius até comandar os clãs e enfrentar o destino que
levou a mim e a minha mãe àquele lugar em uma noite de nevasca, quase 19 anos depois de
sua destruição.
Após fechar o diário pela última vez, enټei-o em uma fenda do mármore que separava os
caixões de meus pais. Aquela era minha oferenda particular a eles. Era meu jeito de dizer:
“Estou preparada.”
Então segui para o cemitério e fechei o portão do mausoléu. Parada na neve, hesitei mais
uma vez, depois dei um passo em direção à cripta cuja fachada escura e pontuda continha
uma palavra gravada, apropriadamente serrilhada. VLADESCU. No entanto, algo me fez
parar, e em vez de seguir em frente fui até a égua trêmula, montei na sela e virei para casa a
fim de iniciar a difícil tarefa de salvar Lucius.
Mas quando bati os calcanhares nos ٽancos do animal, nós duas paramos bruscamente –
porque alguém havia segurado as rédeas. Eu meio que sabia que ele havia estado comigo o
tempo todo.
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