CAPÍTULO 107
Mindy
Não sei como Jess aguentou quando o Lukey foi conduzido à sala lotada, as mãos
acorrentadas à frente do corpo. Eu não sabia para onde os guardas achavam que ele poderia
fugir, pois parecia que mal conseguiria chegar ao meio da sala, onde eu tinha me espremido
depois de empurrar uns 100 vampiros do caminho. Mas quando arranjei um lugar, quase
desejei não ter conseguido.
– Coitado do Lucius! – meio que choraminguei.
Jess me dissera que ele estaria quase morrendo por não beber sangue, mas acho que eu não
tinha como imaginar a cena. E era ruim.
Mas Jess nem se encolheu. Apenas encarou o marido, que se esforçava bastante para ser
como antes, porém mais parecia o Raniero surټsta. Era como se os dois tivessem trocado de
lugar. Os ombros de Lucius pendiam, frouxos, seu lindo cabelo preto estava desgrenhado,
ele precisava se barbear e as roupas estavam sujas, e quando enټm abriu os olhos e tentou
olhar em volta, como se quisesse dizer a todo mundo que ainda estava no comando...
Olhei para Jess de novo. Como ela conseguia não chorar ao vê-lo lutando tanto para ainda
ser... Lucius?
Mas Jess também estava lutando. Lutando por ele, e seus olhos pareciam gelo. Eram como
gelo negro, como se toda a parte castanha tivesse sumido. Eu nunca tinha visto Jess daquele
jeito.
– Está claro que Lucius Vladescu não está em condições de falar por si mesmo – disse ela,
depois parou para lançar um olhar matador a um dos tios, Fabio era o nome dele, acho. Eu
me encolhi um pouco. – Porque foi mantido em conټnamento solitário sem alimentação. E
assim, como sou sua esposa e portanto não poderei participar do veredicto, vou falar por
ele, convocar suas testemunhas e apresentar seu caso.
Aquilo pareceu chocar todo mundo, e o vampiro velho parecido com o que eu tinha visto
no caixão havia não muito tempo saltou da cadeira e começou a gaguejar como se estivesse
tendo um ataque cardíaco.
– Isso não tem precedentes! Lucius deve falar por si! E seu papel é presidir, princesa.
O tio Fabio devia ser acorrentado por falar daquele jeito, mas Jess nem piscou. Apenas se
virou para ele e disse, muito calma:
– Há um precedente. – Em seguida se levantou, demorando-se, e falou com todo mundo
como se estivesse na suprema corte: – Vladescu versus Vladescu, 1622. A rainha Sorina
Vladescu presidiu o tribunal como juíza não votante e falou pelo acusado, seu marido,
Alexandru, que se encontrava quase no estado de luat por conta da privação de sangue. Os
casos são idênticos.
Ao redor, escutei vampiros traduzindo todas as palavras de Jess e vi alguns Anciões
balançando as cabeças grisalhas e dizendo “Da”, como se concordassem.
– A princesa Antanasia tem razão – berrou um deles. – Eu estive nesse julgamento, assim
como Horatiu Vladescu, e ocorreu exatamente como ela relata. Há um precedente. Ela deve
prosseguir.
– Da. Da – assentiu todo mundo, exceto Fabio. – Prossiga.
Caramba! Eu estava quase histérica por dois motivos: Jess tinha vencido o primeiro round!
E havia caras que estavam vivos em 1622 ali?
Será que Lucius, Jess e Raniero – e Ylenia – de fato iriam viver tanto assim porque bebiam
sangue? Aquilo nunca havia soado real, mas agora eu percebia que pelo menos alguns deles
ainda estariam andando por aí muito depois de eu partir.
Comecei a procurar por Raniero e Ylenia, que eu estivera tentando não ver, e encontrei
Ylenia sentada quase na frente, como se já se esgueirasse para o lugar de Jess, e a odiei mais
ainda. Eu não estava mais com ciúme, apenas. Eu a odiava como nunca havia odiado
ninguém na vida.
E Raniero... Não estava em lugar nenhum. O que isso significava?
Olhei de novo para Jess e Lucius... e vi os olhos dela se suavizarem, só por um segundo,
quando ele levantou o rosto para ټtá-la. Parecia exausto, como se estivesse dormindo em
pé, mas o estranho é que eu pude jurar que ele sorriu para ela, e tinha aquele brilho de
Lucius Vladescu nos olhos sonolentos, pouco antes de Jess ټcar durona de novo e dizer aos
guardas:
– Intoarcerea la prizonier în celulă. Levem o prisioneiro de volta à cela. Sua presença não é
necessária agora.
Lucius estava péssimo, mas ainda era Lukey, e senti um nozinho na garganta quando ele se
desvencilhou dos guardas e foi caminhando sozinho para fora da sala enquanto todo mundo
olhava em silêncio absoluto.
Ele era Lucius Vladescu, caramba, e achei que ninguém jamais teria coragem de cochichar,
mesmo com ele moribundo. Mesmo daquele jeito, ele ainda parecia um rei.
De algum modo, lutando para ficar de pé acorrentado, ele parecia mais rei do que nunca.
Quando ele saiu e a porta bateu, comecei a procurar de novo pelo cara que eu temia
querer roubar o trono – mas não precisei procurar muito, pois Jess se sentou de novo e
disse:
– Convoco Raniero Vladescu Lovatu para apresentar a primeira prova.
Aí, nossa, a multidão pirou, boquiaberta e cochichando, e então meu coração parou
quando Raniero entrou pela mesma porta por onde Lucius tinha acabado de sair e ocupou
o lugar do melhor amigo naquele círculo no chão.
CAPÍTULO 108
Mindy
Como é que a visão de alguém tão forte e lindo, sobre quem eu nem sabia mais
como me sentia, podia doer mais do que ver um bom amigo doente e abalado?
Acho que foi porque Raniero pareceu mais arruinado para mim – ali de pé e usando um
terno feito sob medida – do que Lucius lutando acorrentado. Não ajudou em nada o fato de
os olhos de Raniero terem ټcado muito pretos também quando aquele Fabio sinistro e os
outros vampiros velhos começaram a guinchar:
– Mas ele é blestemată... ele se condenou!
É, houve um enorme barraco enquanto os Anciões decidiam se poderiam – ou deveriam –
ouvir o testemunho de um vampiro que era, tipo, o pior criminoso de todos os tempos.
Observei Raniero permanecer muito ereto durante toda a discussão e vi que era como se
estivessem dando socos nele. Dava para notar que ele se esforçava muito para não se
encolher toda vez que alguém dizia “Mas ele é amaldiçoado... O testemunho dele não é
válido”.
No entanto, Jess devolveu os socos, defendendo-o, e disse a todos, muito calma:
– Vocês treinaram Raniero Vladescu Lovatu para ser o que ele é: o assassino mais hábil do
mundo, um especialista em destruição, ferimentos e sangue. E, a seu modo, ele é a
testemunha mais digna de crédito que nossos clãs poderiam produzir.
Foi então que ela começou a vencer o segundo round.
Houve um longo momento de silêncio, então o velho Fabio disse, muito devagar, como se
fôssemos idiotas:
– Ele vai mentir para proteger o amigo.
Jess demorou um segundo para deixar que todos pensassem na declaração. Depois deu o
soco que produziu o nocaute, verbalizando exatamente o que estava me deixando meio
enjoada naquele momento:
– Raniero tem muito mais a ganhar se Lucius for condenado à destruição do que
absolvido. Ele está na linhagem para governar como meu regente. Assim, se seu testemunho
inocentar o príncipe, será mais digno de crédito do que qualquer outro, pois pagará um
preço alto para tal. Ele perderá a chance de obter riqueza, privilégio e poder com que a
maioria apenas sonha.
Jess parecia uma garota diferente – uma mulher diferente. Como se estivesse recebendo o
espírito da mãe biológica e usando todo um vocabulário novo ainda melhor do que o
romeno. Estava falando realezês.
Houve mais silêncio. Daria para ouvir um alټnete caindo. Então alguém enټm disse, em
nome de todos:
– Que o vampiro blestemată fale. Não há regra contra isso.
Vi Raniero cruzar as mãos diante do corpo, parado como Lukey estivera, mas sem as
correntes – pelo menos não havia nenhuma à vista – e com a cabeça erguida e os pés bem
plantados e separados. Antes, pensei ter visto o sorriso de Lucius quando ele estivera ali,
mas, agora, tive certeza de que os olhos de Raniero brilharam como se estivessem pegando
fogo, de um modo que eu nunca tinha presenciado – e não gostei muito.
Olhei para Ylenia e ela estava meio que sorrindo também, como se aquele julgamento
estivesse começando para valer.
CAPÍTULO 109
Antanasia
Para um vampiro que um dia aټrmara desejar tudo o que Lucius tinha, Raniero
fez um trabalho impressionante defendendo o príncipe que bloqueava seu caminho para o
poder – embora o simples fato de comparecer ao julgamento já lhe custasse. Se não a
oportunidade ao trono, pelo menos em termos de dor.
– Ele é um assassino... Amaldiçoado... Ele se condenou...
Enquanto ouvíamos os Anciões – sobretudo Flaviu – cuspir essas palavras, eu sabia que
Raniero enټm estava sendo empurrado para aquele lugar ao qual temia ir. Seus olhos
tinham ficado negros e perigosos. No entanto, ele fez o máximo pelo amigo.
Levou a estaca de Lucius e mostrou a todos como a mancha de sangue estava
completamente equivocada. E conseguiu que os serviçais que haviam preparado o corpo de
Claudiu para o enterro conټrmassem que havia três ferimentos no peito do Ancião
destruído.
– Dois são rasos e feitos por um vampiro destro, e um golpe ټnal foi causado por alguém
que atacou com a mão esquerda – disse a todos. – Para mim, como alguém que destruiu com
frequência, é muito fácil ver o padrão. E todos sabemos que Lucius Vladescu destruiria o
oponente com um único golpe da mão esquerda. Ele jamais usaria a mão direita. Nem
erraria. – Raniero chegou a sorrir um pouco. Um sorriso austero, de valorização da coragem
de Lucius. – E Lucius Vladescu não pede ajuda quando vai à batalha. Se fosse responsável
por esse ato, não haveria ferimentos realizados com a mão direita.
A maioria dos Anciões e todas as pessoas no tribunal concordaram que Lucius sempre
usaria sua mão dominante – destruiria com mais eټciência, e sem nenhuma ajuda patética
de algum vampiro mais fraco e destro. Todo mundo conhecia sua reputação, e seu poder
fora aparente mesmo quando entrara no tribunal, acorrentado porém lutando para ټcar de
pé, ainda soberano em cada centímetro do corpo.
Mas, infelizmente, ainda não parecia que ele iria vencer o julgamento.
Dava para ver que nada do que Raniero dizia seria suټciente para anular o refrão confuso
repetido por todos: “Mas o sangue de Claudiu está na estaca, e Lucius não é capaz de
explicar isso.”
Nem mesmo minha prova dos e-mails com os horátios, trocados quando Lucius teria que
estar no saguão caso houvesse destruído Claudiu, os abalou. Se muito, todas as informações
que apresentei sobre computadores só pareceram deixar os vampiros mais velhos
atordoados e levantar suspeitas entre eles.
Eles entendiam que era estranho o sangue de Claudiu ainda estar em um tom vermelho
vivo quando Lucius fora arrastado da cama e todos nos reunimos no saguão, mas não
conseguiam compreender como um computador poderia provar que ele estivera ocupado
em nosso quarto durante muito tempo antes disso, de modo que o sangue teria que coagular
e escurecer caso ele tivesse cometido o ato.
Eu estava tão certa de que venceríamos – de que minha nova atitude prevaleceria – que
imaginei que Raniero e Mindy, que me conheciam tão bem, deviam ter visto a incredulidade
em meus olhos quando bati o martelo e disse:
– Vamos encerrar os procedimentos por hoje e nos reuniremos de novo amanhã.
Porque ao ټm da tarde eu já estava sem ideias para salvar Lucius e sentia que o melhor a
fazer era esperar por um milagre naquela noite. E se não conseguisse um...
Eu não sabia muito bem o que fazer.
Enquanto os Anciões e os espectadores saíam arrastando os pés, ټnalmente encarei Dorin
e, pela primeira vez, ele não me encarou de volta, nem mesmo por um segundo. Estava
olhando para Ylenia – e os dois pareciam mais perplexos do que eu.
CAPÍTULO 110
Mindy
Eles se encontraram em um jardim diferente depois da primeira parte do
julgamento de Lucius. Segui Ylenia direto até o pátio secreto minúsculo onde Jess e Lucius
tinham se casado.
Na noite do casamento de Jess, as trepadeiras selvagens e retorcidas que cresciam em todos
os muros tinham parecido românticas, mas naquela noite era como se estivessem sufocando
a vida daquele lugar pequenino. Como se fossem se enrolar em meus braços e espremer a
vida do meu corpo também. A vida de todo mundo naquele castelo.
Lucius estava muito encrencado.
Aqueles vampiros eram velhos demais para compreender as provas de verdade, tipo as dos
computadores. Ou talvez só quisessem ver um candidato a rei, jovem e forte, ser derrubado
porque eles eram velhos e nunca tinham sido nada mais do que uns fracotes. Fiquei enjoada
quando vi até Dorin, o tio de Jess, se remexendo como se fosse fazer xixi nas calças.
E quase vomitei nas sombras, também, quando vi o cara por quem estava apaixonada
praticamente no mesmo lugar onde eu tinha visto seus olhos incríveis pela primeira vez,
sussurrando para Ylenia:
– Você tem certeza de que deseja esta vida? Porque você vê como Antanasia sofre. Se eu
chegasse ao poder, isso seria perigoso para você também.
Os olhinhos dela, não mais escondidos pelos óculos, reluziram mais do que antes.
– Sim, eu estaria pronta. Conseguiria dar conta.
Tentei de verdade entender o que Raniero estava fazendo, porque poderia jurar que ele
havia se esforçado bastante a favor de Lucius no tribunal.
Havia mesmo? Seria por isso que Jess tinha perdido no ټnal? Porque Raniero não havia
tentado de verdade?
Honestamente, não dava para saber. Ele parecia ter dito a coisa certa, mas daí...
– É bom nós termos nos juntado de novo – disse ele a Ylenia. Falava baixinho, mas não do
mesmo jeito que costumava falar comigo. Não parecia doce. Gostoso, sim, mas não doce. – É
bom ter uma segunda chance.
Virei-me, deixei os dois sozinhos e voltei ao meu quarto, certiټcando-me de que a garrafa
que eu havia apanhado estava em segurança. Até enټei algumas blusas a mais na bolsa, só
para garantir que ela não se quebraria por acidente quando eu a levasse para a sessão no dia
seguinte.
Eu deixaria Jess continuar fazendo o que sabia, porque eu não tinha cem por cento de
certeza em relação àquela garrafa, ou em relação a Ylenia, ou especialmente em relação a
Raniero. Ele parecia dois vampiros em um, e eu não conseguia deduzir qual era o
verdadeiro.
Mas, se tudo desse errado no ټnal... Bem, eu não era vampira, mas iria destampar aquela
garrafa e derramar um bocado de sangue. Ia provocar um pequeno inferno num lugar que já
parecia bem perto disso, se quer saber.
CAPÍTULO 111
Antanasia
A essa altura eu já presumira que poderia ter acordado o guarda bêbado e
simplesmente exigido a chave. Mas, quando parei nas sombras da masmorra, parte de mim
se agarrou à pequena esperança de que os Anciões ainda considerariam Lucius inocente,
baseados em parte na insistência contínua dele em obedecer às leis que o mandavam para
um mundo de pesadelos loucos. Por isso, no ټm das contas, fui em silêncio em direção ao
meu marido, que estava deitado em sua cama de tábuas, já parecendo um cadáver, e
sussurrei:
– Lucius.
Ele permaneceu imóvel.
– Lucius?
Ao meu segundo chamado, um pouco mais alto, seus olhos se abriram, e mesmo à luz fraca
do lampião vi uma quantidade enorme de emoções o atravessarem. Surpresa e
desaprovação, porque eu não deveria estar ali, tanto porque a lei proibia quanto porque ele
considerava arriscado eu vagar por ali sozinha. Mas, acima de tudo, enxerguei o amor que
eu precisava ver.
Ele não se movimentou logo. Achei que estivesse exausto demais e tive que dizer baixinho:
– Não posso ir até você. Não tenho a chave. – Lancei um olhar para o guarda que roncava.
– E não posso me arriscar a acordá-lo procurando.
Doía demais ټcar separada de Lucius, e tinha doído mais ainda vê-lo lutar no tribunal.
Mas nada doía tanto quanto vê-lo lutar, e muito, só para se levantar e vir até mim. Ele se
sentou no catre e parou durante uns 30 segundos com a cabeça baixa, e quase pedi que
permanecesse ali. Que já bastaria ficarmos nos olhando.
Mas eu queria tocá-lo e ele também queria me tocar – tanto que conseguiu se levantar e
dar os poucos passos até as barras que tinham espaço suټciente apenas para eu enټar o
braço e alcançá-lo. Ele se encostou na parede, mas logo nós dois escorregamos para o chão,
tocando um ao outro do único jeito que conseguíamos. E não era nem de longe tanto
quanto precisávamos.
Mesmo assim, ele me disse:
– Você não deveria estar aqui, Jessica. Se o guarda acordar, você também será castigada por
violar as leis.
Ajoelhei-me ao lado dele, e pela primeira vez desde que tínhamos nos casado, quando
praticamente deixei Lucius assumir o controle, afirmei minha autoridade para com ele.
– Não me importo.
Ele havia fechado os olhos, mas abriu de novo, e vi ali um traço muito precioso de
diversão – junto com a admiração que vinha diminuindo desde o casamento.
– Você mudou, esposa minha, com quem sonho enquanto estou aqui. Um de nós está
ټcando mais forte. – Ele deu um jeito de sorrir. – Você foi muito corajosa ao optar por
presidir o funeral de Claudiu, quando não precisava, e hoje foi uma força digna de crédito
no julgamento.
Não quis lembrá-lo de que eu era obrigada a presidir o funeral, mas morri de medo
pensando que Lucius pudesse ter esquecido até mesmo um detalhe do protocolo real. Os
livros que eu tentava decifrar estavam cauterizados na mente dele.
– Eu também sonho com você, o tempo todo – falei, afastando a preocupação. Apertei o
braço dele e nós tentamos encostar as testas através da abertura estreita. – Sinto muita
saudade. – Minha voz falhou, mas me controlei. – Mas amanhã isso vai acabar. Você vai estar
livre.
Lucius podia estar perdendo o contato com a realidade, mas mesmo assim optou por
encarar a verdade quando a reconheceu.
– Não creio que eu vá ټcar livre, Jessica. Sei que você e Raniero se saíram admiravelmente
bem hoje, mas meu guarda informa os boatos com honestidade. Os Anciões não acreditam
na minha inocência.
– Eles vão acreditar, Lucius. Vou pensar em outra coisa. Prometo.
Ele afastou a cabeça da minha e me encarou.
– Você se saiu bem, princesa. Assumiu um risco e nunca deve se arrepender disso. Eu teria
feito o mesmo.
– Vai valer a pena.
Ele não acreditava.
– Se não funcionar, saiba que tenho fé de que você será uma governante incrível... você já é
uma governante incrível. E lembre-se sempre de que você foi o amor da minha existência.
Aquilo foi demais para ele e Lucius não conseguiu falar mais nada. Eu não parecia capaz de
dizer mais nada, também.
Fiquei sentada com ele, em silêncio, sem querer que nosso tempo juntos acabasse. Em
algum momento, no entanto, o guarda se mexeu e Lucius murmurou:
– Você precisa ir, agora.
– Não, ainda não. Não antes de você beber.
Ele balançou a cabeça, parecendo confuso.
– Não, Jessica... Nós já violamos leis suټcientes, e não tenho como alcançar você. Não vou
machucá-la nem tentar beber desesperadamente por entre as barras, como um animal. – Vi
o pesar nos olhos dele. – Você não poderia me oferecer o suټciente para me sustentar por
mais do que poucas horas, de qualquer modo. Seriam necessárias semanas de descanso e
muito, muito sangue antes de eu ټcar forte de novo. – Ele continuou a me encarar e eu vi a
verdade em seus olhos. Vi como ele estava perto de... desaparecer. Lucius só estava ali
porque me amava a ponto de voltar do lugar de pesadelos por tempo suټciente para dizer
adeus. – Não quero que você se lembre de mim como alguém que a machucou, ou que agiu
com um desespero infrutífero.
Eu não podia aceitar aquilo. Ele precisava continuar lutando, então puxei meu braço,
enrolei a manga e enټei a mão pelas barras de novo. Eu também estava sendo egoísta. Se ele
fosse desaparecer mesmo, eu queria que levasse uma parte de mim consigo. E queria senti-lo
bebendo de novo. Conectar-me com ele daquele jeito.
– Você pode beber aqui, Lucius. Onde eu me cortei no nosso casamento.
Ele olhou do meu braço para meu rosto.
– Acho que não, Jessica.
Ai, meu marido frustrante, corajoso, maravilhoso. Eu estava me esforçando para ser
corajosa também, e começando a ter sucesso, mas lágrimas faziam meus olhos arderem.
– Eu amo você, Lucius. E vou morrer se ټcar sem você, por isso você vai beber do meu
sangue esta noite. – De repente eu parecia Raniero na camera de miză. – Acha que eu me
importo com alguns minutos de dor física? Acha que eu me importo com a lei?
Ele hesitou e acrescentei:
– Faça isso por mim. Por favor, Lucius. Não poderei viver se alguma coisa acontecer a
você. Não vou viver.
Eu sabia que não estava jogando limpo. Estava pedindo que ele violasse seu código de
honra usando a única tentação à qual sabia que ele não seria capaz de resistir.
Eu.
Ele não violaria as regras para salvar a própria existência, mas faria qualquer coisa para
salvar a minha.
– Lucius – sussurrei, vendo-o enfraquecer de um modo diferente. – Se você entrar no
limbo e nunca mais voltar para mim, não somente vou me juntar a você, como você não terá
a oportunidade de criar um reino melhor para centenas de milhares de vampiros que
precisam de um rei como você. Portanto esta noite vamos violar uma lei no interesse de nos
salvar, e em última instância aos nossos parentes, a maioria dos quais provavelmente nem
merece a vida que queremos dar a eles.
Ele hesitou só por mais um segundo.
– Às vezes me esqueço de como sua vontade é forte. De como você é forte.
É, porque eu também havia me esquecido, por tempo demais. Enټei a mão mais dentro da
cela.
– Aqui... beba.
– Às suas ordens, Jessica. – Eu poderia jurar que ele estava sorrindo levemente, assim como
tinha feito no julgamento, sorrindo de orgulho. Uma elevação quase imperceptível dos
lábios. – Já que você insiste.
Então Lucius tomou meu braço nas mãos frias e baixou a cabeça sobre mim, e senti seus
caninos roçando minha pele, aټnal ele estava faminto. Eu vinha bebendo sangue algumas
vezes, mas também estava faminta dele. Mesmo que, claro, não pudesse beber uma gota dele,
meus caninos doeram enquanto seus lábios roçavam a parte interna e pálida do meu pulso, e
de fato doeu quando seus dentes romperam a carne. O local era sensível, os caninos dele
eram muito mais grossos e rombudos do que a faca que eu havia usado no casamento, e o
que estávamos compartilhando naquele momento era diferente da paixão que em geral
tornava bom ser mordida. Era uma sensação nova, e tudo nela era doloroso. O fato de
simplesmente amar o vampiro tão desesperado por se alimentar, mas que tentava ser gentil
enquanto meu sangue penetrava em sua boca, doía.
– Beba mais – insisti quando ele começou a recuar. – Por favor. Beba o máximo que puder.
Mas, claro, ele era Lucius Vladescu, e ainda que pudesse ter destruído vampiros e cravado
uma estaca na mão do melhor amigo, também era meu protetor, e um príncipe, e não
acreditava que poderia ser salvo drenando meu corpo em uma noite de desespero. E antes
que eu ao menos ټcasse tonta, ele levantou a cabeça e a inclinou para trás, os olhos
fechados, como se estivesse satisfeito – embora eu soubesse que não estava. Seus dedos não
pareciam mais fortes quando ele apertou meu braço, estancando o sangue.
– Você devia beber mais, Lucius.
Mas eu sabia que ele não o faria.
– Eu te amo, Jessica – murmurou ele, parecendo tonto. – Mas agora você precisa ir...
– Sim, Lucius. Eu vou. Também te amo.
Mas não saí. Fiquei sentada com ele, olhando seu rosto, enquanto ele dormia ali mesmo no
chão, as costas na parede e a cabeça apoiada nas barras.
Quando o guarda enټm ټcou inquieto demais e não consegui suportar a visão dos olhos
de Lucius, não mais maliciosos e felizes, e sim sob pálpebras trêmulas enquanto ele
retornava a um local de tormento, esgueirei-me de volta ao meu quarto – e para a
escuridão, uma última vez.
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