CAPÍTULO 4
Antanasia
– Lucius, o que aconteceu hoje de manhã? – perguntei baixinho.
Ele não respondeu. Estava bastante quieto desde que havia bebido meu sangue, e brincava
distraidamente com meu anel de noivado, girando-o em meu dedo magro enquanto me
abraçava no sofá em meu escritório.
– Lucius? – Levantei minha cabeça do ombro dele para encará-lo: as maçãs do rosto
salientes, o nariz reto e aristocrático e o queixo forte que o faziam parecer mais velho.
Assim como a maioria das garotas da Escola Woodrow Wilson, incluindo minha melhor
amiga, Mindy Stankowicz, eu me sentira ao mesmo tempo atraída e intimidada pela beleza
muito madura de Lucius. E ele estava ainda mais parecido com um príncipe guerreiro desde
o retorno à Romênia. – Lucius?
– Diga. – Ele enfim se virou para me olhar. – Desculpe... Eu estava distraído.
– O que aconteceu hoje? – repeti, embora tivesse bastante certeza de que já sabia a
resposta, só pelo olhar dele: a infelicidade que ele ټnalmente estava revelando por
completo.
– Ele foi considerado culpado – respondeu. – Não houve debate. Não existia nenhuma
dúvida na cabeça dos Anciões.
Meu coração ficou apertado.
– E você? Você tinha alguma dúvida? – perguntei.
– Não posso me dar a esse luxo. Se houvesse ao menos uma migalha de dúvida, eu não
poderia ter dado cabo à sentença. Minha mão poderia ter hesitado e eu causaria mais
sofrimento ao prisioneiro. Quero ser justo, jamais cruel. – O franzido em sua testa se
intensiټcou. – E se os Anciões notassem qualquer hesitação de minha parte, eu iria me
prejudicar, e iria nos prejudicar também, por parecer fraco.
– Então você realmente...
Eu nem sequer era capaz de pronunciar aquelas palavras. Mas Lucius era:
– Sim, Antanasia. Eu o destruí. A lei é clara. A destruição deve ser punida com destruição.
E a destruição de um Ancião precisa ser realizada por ninguém menos que o membro mais
elevado do clã. – Seu olhar endureceu um pouco. – Além disso, nós dois sabemos que sou o
mais indicado para concluir a tarefa causando o mínimo de dor possível. Desde a infância
fui treinado para usar uma estaca com eټciência. A execução não é uma tarefa a ser
repassada a um serviçal, como se fossem roupas para lavar.
– Sinto muito!
Pelo pobre assassinado Constantin Dragomir, por minha prima órfã Ylenia e também pelo
prisioneiro. E por Lucius, que eu não deveria ter abandonado...
– Eu também sinto muito, Jessica.
O fato de ter usado meu nome americano mostrava que ele, assim como eu, estava
sofrendo. Lucius lutara contra o uso de “Jessica” na Pensilvânia, insistindo que eu era
“Antanasia”. Mas nos últimos tempos passara a me chamar de Jess quando estávamos a sós.
Eu achava que ele usava o apelido especialmente quando sentia falta de ser apenas um
adolescente comum, como acontecia comigo em boa parte do tempo. Na maioria dos dias
eu só desejava que pudéssemos morar no apartamento anexo à garagem de meus pais
adotivos, casados mas também vivendo como adolescentes. No entanto, não podia nem
telefonar para mamãe e papai, que estavam fazendo pesquisa de campo numa região remota
da América do Sul.
Eu sabia que eles tinham viajado para evitar a sensação nova de “ninho vazio”, e eu
entendia isso, mas queria conversar com eles – mesmo sabendo o que minha mãe,
antropóloga cultural, diria sobre o julgamento: “Você precisa aprender a viver segundo as
normas rígidas de sua nova cultura. Lucius já tinha falado disso.”
Lembrei-me também de uma frase do diário de minha mãe biológica: “Como princesa, você
será convocada a testemunhar destruições.”
– Odeio a supremacia da lei – murmurei.
Pela primeira vez naquele dia Lucius sorriu.
– Princesa! Nós concordamos que a supremacia da lei é a coisa mais necessária neste reino,
não foi?
– Foi, mas...
– Não existe “mas”! – Ele ټcou sério de novo. – Nossos clãs ignoraram nossas próprias leis
por tempo demais. Mesmo nos últimos 10 anos, o que você chamaria de linchamentos foram
mais comuns entre os vampiros do que os julgamentos. E as leis também protegem os
governantes. – Ele voltou a sorrir. – Está vendo quanto aprendi nos Estados Unidos com sua
Constituição, a sucessão ordeira de líderes e os intermináveis licenciamentos e
regulamentos?
– Eu sei – concordei. – Ter leis é bom. Mas simplesmente não consegui estar lá para aplicá-
las hoje.
– Por favor, não seja tão dura consigo mesma. Você foi criada por veganos, no meio de
gatinhos. – Lucius fez uma pausa e então confessou: – Foi difícil até para mim, criado por
assassinos alimentando-se à base de violência.
– Mas você cumpriu a execução.
– Cumpri, e cumprirei outras vezes. E você vai aprender a permanecer ao meu lado quando
estiver acostumada a essa cultura, do mesmo jeito que me acostumei à sua.
– E se eu não conseguir? – perguntei, quase num sussurro.
Lucius sorriu.
– Eu me perguntava a mesma coisa diante das caçarolas de lentilha de sua mãe. “E se eu
literalmente não conseguir erguer o garfo hoje?” Mas eu conseguia, Jessica.
Arregalei os olhos.
– Você não pode comparar o julgamento de hoje a uma caçarola de lentilha.
Lucius arqueou uma sobrancelha e gargalhou.
– Você nunca provou a caçarola?
Em seguida se levantou e eu o vi se transformar, como acontecia com frequência, de
marido em governante. Por que eu não conseguia dar conta do recado?
– Desculpe, mas preciso ir agora – disse ele, abaixando-se para me dar um beijo breve. –
Preciso me preparar para o encontro com os Anciões amanhã.
Senti um aperto no coração outra vez.
– No qual Claudiu vai comentar que pirei de vez.
– Não se preocupe, Jessica. Você está ټcando muito tensa, muito preocupada. Prometo a
você que cuidarei de Claudiu.
– Lucius... – Eu sabia qual seria a resposta dele, mas não pude deixar de perguntar pela
centésima vez: – Tem certeza de que a gente não deveria adiar o voto de conټança? Talvez
por um ano, para que eu tenha tempo de impressionar os Anciões?
Mas ele já estava balançando a cabeça.
– Os títulos de rei e rainha são uma forma de proteção, assim como a lei – lembrou ele. –
Têm muito mais força do que os de príncipe e princesa. E quando se é jovem como nós,
tentando governar duas nações de vampiros implacáveis, é preciso garantir todas as
vantagens possíveis. O risco maior, especialmente para você, seria adiar a votação. Não
posso deixá-la vulnerável conhecendo um modo de protegê-la.
Eu tinha que admitir que não queria ficar vulnerável.
– Tudo bem.
Ele me beijou outra vez, depois foi para a porta, chamando Emilian de volta ao posto, e
me deixou sozinha com uma pilha de livros romenos empoeirados que eu não conseguia ler,
papéis que não sabia se deveria assinar e preocupações que não tinha ideia de como
enfrentar. Por isso fiz a última coisa que uma princesa deveria ter feito.
Peguei meu celular, me escondi no banheiro mais próximo e digitei um número
internacional familiar, desesperada para ouvir uma voz mais familiar ainda.
CAPÍTULO 5
Mindy
“É claro que toda mulher deve ser independente financeiramente, mas não há
nada de errado em gostar de um cara que tem alguns dólares no banco ou um Mercedes na
garagem.”
– É, totalmente – falei, alto demais.
Meio constrangida, deslizei na cadeira e olhei em volta para veriټcar se alguém da turma
tinha me ouvido falar sozinha sobre a matéria interessantíssima da Cosmopolitan: “Homem
rico, homem pobre – Por que não amar um cara que tem dinheiro?” Mas, por sorte, todo
mundo estava ocupado ouvindo o Dr. Wayne Prentiss tagarelar sobre os slides de arte
italiana chatíssimos que projetava enquanto vagava pelos fundos da sala escura, como fazia
toda semana.
Escorreguei mais ainda na cadeira, quase me deitando no chão. Malditas matérias
obrigatórias da faculdade! Eu achava que Fundamentos da Arte Renascentista seria a
matéria de humanas mais fácil, mas odiava a aula, que por acaso só falava da... Itália! E todos
aqueles quadros italianos e caras pelados de mármore só me faziam pensar em... italianos. E
e u não queria pensar em italianos. Nem mesmo em sapatos italianos. Praticamente nem
comia mais espaguete.
Eu fazia o maior esforço para não escutar a voz do Dr. Prentiss, mas ele continuava com o
blá-blá-blá atrás de mim:
– Os artistas contemporâneos ainda tentam imitar, sem sucesso, o modo como
Michelangelo imbuía o corpo masculino de um sentimento de grandeza.
Houve um clarão e quando ergui os olhos vi mais um slide de um italiano pelado. Um cara
com o corpo perfeito. Eu conhecia um corpo assim...
Para de se lembrar dele!
Levantei mais um pouco o caderno que estava usando para esconder a revista, a ټm de
bloquear a claridade da projeção, mas quando virei a página para terminar a leitura de
“Homem rico, homem pobre” – matéria com a qual eu concordava totalmente após ver
minha melhor amiga ter um casamento muito feliz em um castelo –, dei de cara com um
anúncio da Versace. E – mas que surpresa! – com outro italiano quase pelado.
Eles estavam, tipo, por toda parte, com seus peitos duros feito pedra e as barrigas
tanquinho.
Eu não queria, mas ټquei olhando aquele anúncio, e foi como se estivesse hipnotizada e
voltando no tempo, até o verão na Romênia e aquele casamento incrível em que Jess
Packwood se tornou a princesa Antanasia Dragomir Vladescu – depois de se transformar
em uma vampira, claro. O casamento no qual eu meio que mudei, também, e não no bom
sentido.
Na minha cabeça ainda estava bem claro como tudo havia começado. Pelo visto eu não
conseguia me lembrar de nada que estudava nos livros, por isso estava levando pau em todas
as matérias na faculdade em Lebanon Valley, mas não conseguia esquecer uma única palavra
daquela conversa, por mais que tentasse.
– Gostaria de dar um passeio, Mindy Sue? Apreciar o luar comigo, sim?
Estou, tipo, confirmando e recusando com a cabeça ao mesmo tempo, de modo que o cérebro
chacoalha em círculos, pois não entendo o jeito maluco como Raniero Vladescu Lovatu faz
perguntas e me diz o que fazer ao mesmo tempo. A resposta certa é sim? Ou não? Será que ao
menos sei o que desejo responder? Será que quero “apreciar o luar” com o padrinho de casamento
sugador de sangue, tatuado, que parece incrivelmente gostoso em seu smoking, com o cabelo
castanho comprido e ondulado preso em um rabo de cavalo, destacando seus peculiares olhos
verde-acinzentados?
De qualquer modo, Raniero não espera resposta. Ele sorri – aliás, faz isso, tipo, o tempo todo – e
segura minha mão, e sua pele é fria mesmo, como a de Jess agora. Mas a pele de Raniero é
morena, porque ele passa muito tempo na praia, o que também lhe proporcionou um corpo
incrível de surfista.
Começamos a caminhar, saindo da recepção, e eu olho por cima do ombro, vendo Jess dançar
com Lukey na grande clareira pela qual ele pagou, tipo, um milhão de dólares para decorar, só
para deixá-la feliz por uma noite, e estou quase certa de que vou cometer um erro ENORME, mas
vou com Raniero, porque tem alguma coisa de especial nele, nessa noite...
Meu coração começou a disparar ali mesmo, na sala de aula, e eu não sabia se aquela
lembrança iria me deixar enjoada ou excitada, como acontecera naquela noite, quando dei
meu primeiro beijo de verdade nas montanhas que Jess dissera se chamarem Carpaccio-
alguma-coisa. Um beijo que começou praticamente no segundo em que Ronnie e eu
pusemos o pé naquele caminho escuro e assustador na ٽoresta e que se seguiu por todo o
percurso de volta ao castelo gigantesco ainda iluminado por um zilhão de velas para o
casamento. Naquela noite tudo parecia, tipo, pegando fogo. E Raniero estava mais bonito
do que o modelo da Versace, tanto de smoking quanto sem camisa.
Aqueles músculos... Aquele erro enorme... A manhã seguinte... O verão inteiro!
– Ai, meu Deus!
Dei um gritinho, pois eu mal conseguia suportar aquelas lembranças, mas também porque
a revista foi arrancada de meus dedos de repente, e pulei empertigada na cadeira bem a
tempo de ouvir o Dr. Prentiss dizer à turma toda:
– Parece que Melinda descobriu um corpo masculino que a interessa ainda mais do que o
Davi de Michelangelo!
Então meu rosto ټcou vermelho-beterraba quando o professor levantou a Cosmo e a girou
bem devagar, para garantir que absolutamente todos vissem o modelo quase nu – e, é claro,
rissem de mim feito doidos. Foi um milagre não terem se mijado nas calças.
E antes que eu pudesse explicar a todo mundo que não estava babando por aquele cara – e
não estava mesmo –, o Dr. Prentiss bateu a revista em minha mesa e disse só para mim:
– Venha falar comigo depois da aula, Melinda.
– É, já sei como é – resmunguei, afundando de novo na cadeira.
Todos os meus professores naquela faculdade idiota viviam pedindo para falar comigo
depois da aula. E nunca era para dizer “Bom trabalho, Mindy!”. Eles simplesmente não
entendiam que eu nunca tinha sido muito boa nos estudos, para começo de conversa, e
agora parecia que eu nem conseguia mais pensar.
Fiquei o mais perto possível do chão até que minhas bochechas começaram a esfriar.
Depois me ajeitei de novo, cruzei os braços na carteira e enterrei o rosto ali, sem me
importar que todo mundo percebesse que eu tinha desistido até de ټngir que estava
prestando atenção na arte da Renascença e seus “fundamentos”.
ITALIANOS IDIOTAS!
E justo quando achei que não haveria humilhação maior, meu celular, que eu tinha me
esquecido de desligar, começou a tocar. Quando consegui silenciá-lo – com toda a turma
rindo de novo do meu toque com a música tema do desenho da Hello Kitty e o Dr. Prentiss
falando como se aquilo fosse a gota d’água –, vi que tinha recebido duas mensagens.
Uma era de um vampiro italiano que simplesmente não desistiria, dizendo: “Buon giorno,
Mindy Sue!”
E outra de uma princesa romena que também devia estar tendo um dia ruim, porque tudo
o que dizia era “:-(”.
CAPÍTULO 6
Mindy
– Fala mais alto, Jess – pedi a ela. – Parece que você está em uma caverna ou
coisa assim!
A um milhão de quilômetros de distância, na Romênia, Jess continuou sussurrando:
– Não estou em uma caverna. Estou em um banheiro. E não posso falar mais alto.
Afastei meu Motorola cor-de-rosa do ouvido e dei uma sacudida, porque não era possível
que eu tivesse ouvido direito.
– Você está, tipo, sentada no vaso? Isso é nojento.
– Não estou no vaso – disse a princesa Jess, um pouquinho mais alto. – Só estou no
banheiro para meu guarda-costas não escutar tudo o que digo.
Joguei-me em um banco em frente à sala do Dr. Prentiss, que ټcava em um prédio feio
cheio de móveis baratos.
– Você é uma princesa em uma porcaria de castelo – lembrei a ela. – Se quer privacidade,
vai para... uma torre ou algo parecido. Não se esconde no banheiro!
Houve um longo silêncio, então pensei que a ligação tivesse caído, como acontecia em
metade das vezes que eu falava com Jess. Esse era o único problema em toda a vida de Jess. A
região da Romênia em que morava estava mais agarrada ao passado do que uma
comunidade Amish. Não tinha nem shoppings por lá. Sacudi o telefone de novo.
– Jess, você tá aí?
– Tô. – Ela parecia superdeprimida. – Quero dizer, estou.
– Então... Qual é o problema? Por que a carinha triste?
Eu não entendia como minha melhor – e sejamos honestos: minha única – amiga nunca
parecia curtir a única coisa que eu sempre desejei a vida inteira: ser alguém da realeza.
Bem, isso e ser uma hair stylist das estrelas.
– Só estou tendo um dia ruim – disse ela. – Houve um julgamento, e Lucius voltou agindo
de modo estranho, me beijando feito um maluco sem nem ao menos falar como tudo tinha
dado errado e como isso vai estragar nossa chance de sermos rei e rainha...
Eu não queria rir dela, mas, fala sério, aquele era um dia ruim? Ela estava se escondendo
dos serviçais para reclamar que o príncipe incrivelmente gato e rico com quem estava casada
queria dar uns amassos no castelo deles? E, caramba, ela podia não se tornar rainha e só se
limitar a ser princesa pelo restante da vida?!
É, eu queria, tipo, chorar.
Por mim!
Eu tinha ټcado com um cara que praticamente podia ser um príncipe – e, por sinal, um
bem rico –, mas que trocou tudo pelo... surfe!
– Ei, Jess – meio que a interrompi. – Isto vai fazer você se sentir melhor: tirei três no
trabalho de Pensamento Crítico sobre reciclagem porque o professor disse que eu não podia
citar a revista Elle como fonte acadêmica. Depois toda a turma de arte riu de mim porque
fui flagrada olhando um italiano seminu, e agora...
Tive a sensação maluca de que alguém estava me observando, e quando levantei os olhos vi
o Dr. Prentiss parado à porta da sala, com os braços cruzados. Eu não sabia se ele estava
rindo de mim ou pronto para me matar. Provavelmente as duas coisas. Todo mundo da
faculdade parecia me olhar daquele mesmo jeito.
Ele fez sinal com o dedo para que eu me aproximasse, e eu disse ao telefone:
– Poxa, Jess, desculpa, mas preciso ir.
Ela deu um suspiro enorme que pude ouvir mesmo estando aqui e ela lá na Romênia,
então respondeu:
– Acho que também preciso ir. Minha amiga Ylenia deve estar chegando a qualquer
momento.
Fiquei de pé e fui atrás do medonho blazer de tweed do Dr. Prentiss, até a sala dele.
– Certo, a gente se fala depois.
– Min! – Ouvi Jess tentando me impedir de desligar. – Você não gostaria de passar um
tempinho aqui? Eu pago tudo...
Não deu tempo de responder porque eu já estava encerrando a ligação. Já era tarde demais
para conter meu gesto. E o que eu poderia ter dito, aټnal? “ Sim, Jess, vou largar a faculdade
só para passar um tempo na Romênia”?
Alguns minutos depois, no entanto, quando o Dr. Prentiss girou a tela de seu computador
para que eu visse todas as minhas notas em todas as matérias – a maior quantidade de 6 e 6,5
na história das faculdades meia-boca –, comecei a pensar que a Romênia talvez não fosse
uma ideia tão ruim assim.
– Você precisa se concentrar – repetia ele sem parar.
– É.
Eu meio que concordava, olhando para um grande pôster emoldurado atrás dele, com a
tal estátua Davi de Michelangelo, e pensando: Será que na Romênia eu consigo ficar longe dos
italianos pelados?
Porque eu sabia que pelo menos um italiano odiava aquele lugar.
E quando meu professor disse “Você sabe que vai ser reprovada, não é, Melinda?”, eu só
assenti, praticamente sem escutá-lo, porque a penúltima coisa que Jess tinha dito enټm
penetrou no meu cérebro, e eu me senti mais fracassada e solitária ainda.
Eu podia lidar com o fato de Jess ter um marido que a levou para longe de mim. Ele era
um cara, e nunca poderia me substituir.
Mas ela realmente tinha uma nova amiga?
CAPÍTULO 7
Antanasia
Encerrei a ligação no meu celular caríssimo – requisito básico para os
nobres Vladescu –, e suspirei enquanto estendia a mão para a porta do banheiro.
Tinha quase certeza de que Mindy não tinha ouvido meu convite desesperado antes de
desligar seu telefone cor-de-rosa coberto de cristais, que eu era capaz de visualizar com
tanta clareza quanto os olhos castanho-claros e os cabelos castanhos ondulados da minha
melhor amiga. Ou talvez Min não quisesse saber de passar as férias de inverno em uma
montanha sem graça cheia de vampiros porque estivesse empolgada com a faculdade, com
os novos professores, “pensamento crítico” e... italianos seminus. Mas, sério, quem escolheria
passar as férias em um lugar onde ocorriam execuções?
Abri a porta puxando com força demais – e dei um pulo ao me ver cara a cara com uma
garota cheia de cachos quase negros, boca um pouquinho grande demais para os padrões da
beleza clássica e olhos escuros meio escondidos atrás de óculos de lentes grossas.
Uma garota que – exceto pelos óculos – se parecia um bocado comigo.
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