sábado, 5 de outubro de 2013

CSUVA - 56-57-58-59-60-61

CAPÍTULO 56

Mindy

Para um cara que todo mundo parecia odiar, até que Claude Vladescu havia

atraído uma boa quantidade de pessoas. Eu estava no ټnal de uma ټla de pelo menos 100

vampiros, todos de preto e arrastando os pés até o caixão a ټm de olhar para o defunto,

tipo o desfile mais triste do mundo.

Virei-me para dar uma conferida no cara atrás de mim.

Bem, para ser honesta, ninguém parecia muito triste. Talvez só um pouco chateado pela

obrigação de passar o sábado com um cadáver em um lugar enorme e arrepiante. O salão do

funeral era como uma igreja, com teto alto e pontudo, mas não havia estátuas nem nada. Só

um punhado de cadeiras encostadas nas paredes, uma mesa de pedra no meio, onde estava o

caixão, e uma pequena plataforma de pedra onde imaginei que Jess fosse fazer o discurso.

Também não havia nenhuma janela, então quase parecia que todos nós seríamos enterrados.

Eu não acreditava que Jess fosse mesmo comandar aquilo tudo.

O vampiro atrás de mim pigarreou e vi que a ټla havia andado sem mim. Dei um passo à

frente e um segundo depois chegou minha vez de olhar Claude. Olhei dentro do caixão e

não foi tão nojento quanto eu esperava. Ele tinha a aparência bem similar à do casamento

de Jess. Pálido, velho e assustador. Estava todo enrolado em tecido preto, como uma lagarta

suja que nunca se transformaria em algo bom.

Lancei um olhar para o vampiro atrás de mim, que pigarreava outra vez, e disse:

– Tudo bem, estou andando!

Depois fui caçar uma cadeira vazia, e quando me sentei enټei a mão na bolsa a ټm de

colocar o celular para vibrar, aټnal não queria interromper o grande momento de Jess. Não

que alguém ainda telefonasse para mim. Jess e Ronnie eram praticamente os únicos. E agora

só restava Jess.

Eu estava apertando o botão de silenciar quando, de repente, houve um burburinho.

Todos aqueles sugadores de sangue começaram a falar como se o cadáver tivesse se sentado

ou algum famoso astro do rock houvesse entrado para dar os pêsames. Tive um ataque de

nervosismo por causa de Jess e levantei os olhos, esperando ver a princesa Antanasia

Dragomir Vladescu passando pela porta dupla no final da sala.

Mas Jess ainda não estava ali, e ټquei totalmente confusa, pois o astro do rock que estava

fazendo todo mundo pirar e sussurrar feito maluco...

Era meu ex-namorado, Raniero Vladescu Lovatu.

Parado bem diante do caixão, sozinho.

De terno.

CAPÍTULO 57

Antanasia

Dorin e Ylenia só podiam ir comigo até certo ponto, depois precisavam entrar

na ټla para olhar Claudiu, por isso ټquei sozinha do lado de fora, diante da porta pela qual

entraria no salão do funeral.

Meu coração acelerava a cada passo que eu dava na direção daquela câmara, e já estava

batendo tão rápido que tive medo de que explodisse. Um coração de vampira não deveria

bater tão depressa... Passei a mão na boca de novo, pois não conseguia me livrar daquele

gosto amargo, acre, ainda que minha língua estivesse bem seca.

Não estou preparada... preciso de Lucius... Preciso de minha mãe para dizer que tudo vai ficar

bem...

Mas isso não iria acontecer, e de repente, do outro lado da porta, ouvi as pessoas falarem

inesperadamente alto. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo, e nem tive tempo para

ao menos imaginar, pois sem aviso – eu ainda não havia descoberto a deixa secreta – a porta

foi aberta e eu me vi diante de uma multidão maior do que havia esperado.

É isso aí. Minha primeira aparição como princesa desde o casamento, quando Lucius estava

comigo.

As conversas pararam de forma brusca quando cerca de 200 vampiros ټcaram de pé em

respeito não a Claudiu, mas a mim. Dava para sentir a curiosidade de alguns – os que ainda

não tinham me visto em carne e osso – enquanto eu olhava um mar de ternos pretos e peles

alvas, tentando ganhar tempo, organizar os pensamentos e encontrar rostos familiares.

Mindy, que me fez um sinal de positivo entusiasmado.

Raniero, encostado na parede do lado oposto, as mãos cruzadas e a cabeça erguida.

Ylenia, que assentiu sóbria e ligeiramente para me encorajar, e meu tio Dorin, que estava

sentado junto aos Anciões.

Eu posso fazer isso – por Lucius, falei para mim mesma. Subir no pódio, pedir um minuto de

silêncio, ouvir o toque dos sinos e falar.

Então vi Flaviu Vladescu, que conseguiu fazer uma careta e sorrir ao mesmo tempo, como

se mal pudesse esperar para ver meu fracasso, e me deu um branco total.

CAPÍTULO 58

Mindy

Todo o universo dos vampiros olhava para Jess e foi, tipo, a primeira vez que

minha ficha caiu: Caraca. Ela é mesmo, realmente, uma PRINCESA.

Claro, ela estava igualzinha a uma princesa no casamento, mas um monte de garotas

também se assemelhava a uma. E tudo bem, ela morava em um castelo e tinha empregados.

Mas foi quando aquela porta enorme se abriu e minha melhor amiga apareceu sozinha, com

um vestido preto simples, e todo mundo se levantou, que entendi o que significava ser régia.

E pela primeira vez eu tive que admitir que estava cem por cento feliz por ela ser a

princesa, não eu. Eu não trocaria de lugar com ela por nada naquele castelo, inclusive pelos

diamantes que com certeza ela possuía, mesmo que nunca os usasse.

Também ټquei olhando para Raniero, encostado em uma parede, de terno, mais gato do

que nunca, com as mãos cruzadas e o queixo erguido, como se não notasse que ainda havia

vampiros espiando-o de rabo de olho também. E ao mesmo tempo que eu enټm sacava o

que Jess era, também pensava: Quem diabo todos eles pensam que Raniero é? Porque eu não

tinha entendido os sussurros, mas conhecia bem o som emitido por vampiros surtados. Era

igual ao de pessoas surtadas.

Ronnie baixou a cabeça, mas notei seu olhar percorrendo o ambiente, como se estivesse

caçando alguém naquela multidão, então comecei a pensar naquela foto na internet, e pela

primeira vez desde que o beijara também me perguntei: Será que eu sei mesmo quem ele é?

Depois voltei a olhar para Jess e comecei a suar, porque ټcou muito claro que ela também

estava surtando.

CAPÍTULO 59

Antanasia

Sabe-se lá como, consegui subir ao púlpito em um silêncio digno do mausoléu

onde já parecíamos estar.

E de algum modo me lembrei de pedir um minuto de silêncio, usando as palavras que

havia decorado em romeno.

– Vom respecta acum tacere la marca Claudiu Vladescu trecerea intr-un teren de curcubeu.

Ouvi um burburinho logo em seguida, como se minha pronúncia tivesse sido ruim, e

quando olhei para Dorin seus olhos estavam arregalados de surpresa. E Ylenia havia

agarrado o braço do vampiro ao seu lado, como se eu a tivesse chocado também.

Será que falei as palavras erradas? Mas eu havia decorado o texto dado por eles. Agora

respeitaremos o silêncio para marcar a passagem de Claudiu Vladescu para o silêncio eterno. Eu

tinha certeza de que pronunciara direito, mas quando olhei ao redor ټcou claro que algo

tinha dado errado. Alguns vampiros estavam visivelmente lutando para não rir. Flaviu era

um deles, a mão pálida apertando a boca e os ombros tremendo – embora estivéssemos ali

para enterrar o irmão dele.

Claro que Mindy parecia tão pasma quanto eu. Ela virou as mãos para cima e moveu os

lábios em mímica:

– Não entendi.

Eu queria perguntar a alguém o que havia feito ou, melhor ainda, fugir do salão, mas

estava sozinha ali, então tudo o que pude fazer foi baixar a cabeça e me lembrar das palavras

que falaria em inglês, porque jamais teria sido capaz de decorar uma homenagem fúnebre

inteira em romeno.

Mas quando olhei para baixo – direto para o caixão de Claudiu –, não me importei com o

fato de o discurso cuidadosamente decorado ter evaporado do meu cérebro. Porque

Claudiu não estava naquele caixão de ébano.

Lucius estava, com um buraco enorme no peito.

E a última coisa de que me lembro foi de ter dado um berro tão alto que o som ecoou

pelas paredes e abafou os sinos que começavam a tocar sobre o vale coberto de neve,

anunciando que um vampiro nobre havia morrido.

CAPÍTULO 60

Lucius

Raniero,

Será que é a fraqueza que começo a sofrer que me faz sucumbir aos maus presságios e às tristes

conjecturas, ou será que aconteceu alguma coisa com Antanasia? Sinto algo me rasgar como os

sinos que dobram por Claudiu.

Talvez minha intuição sombria se deva à falta do sangue dela, o que me deixa fatigado a ponto

de começar a coexistir de forma pacífica com meu colega de cela roedor, que se enrosca no mesmo

pé que um dia usei para chutá-lo. Ou talvez o laço do casamento seja tamanho que consigo sentir

o que ela sente...

Por favor, Raniero. Notícias.

L.

CAPÍTULO 61

Antanasia

– Ela não está se alimentando bem. Está fraca.

– Está exausta de tanto se preocupar com Lucius.

– Ela precisa de ar! Deem um pouco de espaço!

A escuridão que estava me esmagando começou a se dissipar e consegui reconhecer as

vozes que giravam acima de minha cabeça. Dorin, preocupado com minha alimentação.

Ylenia, demonstrando compaixão por causa de minha separação de Lucius. E Mindy

assumindo o comando com uma voz mais autoritária do que qualquer uma que eu já havia

usado em meu mandato.

– Sério! – rosnou ela quando minhas pálpebras se abriram. – Deem um pouco de espaço,

caramba!

Meus amigos estavam tão afoitos para ajudar que nem notaram que eu estava acordada,

ainda que grogue, até que me apoiei nos cotovelos e choraminguei:

– Lucius? Como Lucius está?

– Está bem – disse Mindy quando todos se viraram para me olhar.

Sentei-me um pouco mais ereta e ela se acomodou ao meu lado, afastando Ylenia com uma

cotovelada.

– Você só teve um pequeno surto, só isso.

– Você jura que Lucius está bem?

– Juro. – Mindy parecia confusa. – Não aconteceu nada com Lucius!

Relaxei só um pouquinho, mas minha cabeça doía e os pensamentos pareciam enevoados.

– O que aconteceu? Não me lembro de muita coisa, só de ter visto Lucius em um caixão.

Min lançou um olhar esquisito para mim.

– Jess, quem estava no caixão era Claudiu. Eu juro. Eu vi.

A névoa em meu cérebro pareceu se dissipar um pouco mais e nós nos encaramos – ambas

sabíamos que não deveríamos verbalizar o que estávamos pensando. Eu havia tido uma

alucinação. De novo.

Então Ylenia nos interrompeu, explicando:

– Você presidia o funeral e de repente começou a gritar, chamando Lucius. Então parece

que você... desmaiou.

Dorin assentiu, confirmando a história.

– Sim, você... você disse uma coisa estranha em romeno, depois desmaiou. Foi

aterrorizante!

– É, agora eu lembro. – Tudo voltou de repente, desde minha subida ao púlpito até os risos

e o momento em que berrei, e então gritei de novo: – Ah, não!

Todos aqueles vampiros de cujos votos iríamos precisar no congresso tinham me visto

surtar. Os poucos minúsculos ټapos que restavam do sonho de coroação de Lucius haviam

chegado ao fim, incinerados por mim.

Lucius estava na prisão, mas eu nunca duvidara de que se – quando – ele fosse solto, ainda

teria total conټança por parte dos parentes que o haviam visto crescer em seu papel como

príncipe. Eles ainda iriam querê-lo como rei. Mas eu... Agora jamais iriam querer a mim, e

nós éramos um pacote.

– O que eu disse, afinal, que fez com que eles rissem? – perguntei a Dorin e Ylenia. Não que

isso importasse no momento. – Eu decorei o roteiro.

– Você não disse o que nós escrevemos – corrigiu Ylenia com delicadeza. – Você desejou

que Claudiu fosse para uma “terra de arco-íris”, em vez de ao “silêncio eterno”. É claro que

eu não escrevi isso para você.

– Arco-íris? – Fiquei mais confusa ainda. – Mas eu nem sei essa palavra em romeno.

– Como saber o que você ouviu e guardou no seu subconsciente? – Dorin se inclinou e

ajeitou meu travesseiro. Parecia que ele nem conseguia me encarar, como se eu o tivesse

humilhado também. – Como saber?

Também notei que Mindy estava olhando meus parentes com a mesma expressão que

Lucius exibia com frequência. Uma expressão de ceticismo que chegava às raias da aversão.

Mas meu erro não tinha sido culpa deles.

– Quem concluiu o funeral? – perguntei, alternando o olhar entre os três. – Como cheguei

até aqui?

– Flaviu se ofereceu, o que era certo – explicou Dorin. – Ele é o sucessor de Claudiu.

– Flaviu...

Cocei a cabeça no lugar onde achava que tinha batido. Ele tem que estar por trás do que está

acontecendo com Lucius. E comigo. Mas não tenho poder para lutar contra ele. Simplesmente

não tenho.

– Como cheguei aqui? – perguntei de novo. – Alguém me carregou?

Como se fossem marionetes conectadas pelo mesmo ټo, meus três protetores se viraram

para o canto oposto do quarto e dei um pulo quando um vampiro alto e imponente, que eu

nem tinha percebido estar conosco, saiu das sombras e anunciou:

– Gostaria que todos saíssem agora. Preciso falar com Antanasia. A sós.

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