CAPÍTULO 56
Mindy
Para um cara que todo mundo parecia odiar, até que Claude Vladescu havia
atraído uma boa quantidade de pessoas. Eu estava no ټnal de uma ټla de pelo menos 100
vampiros, todos de preto e arrastando os pés até o caixão a ټm de olhar para o defunto,
tipo o desfile mais triste do mundo.
Virei-me para dar uma conferida no cara atrás de mim.
Bem, para ser honesta, ninguém parecia muito triste. Talvez só um pouco chateado pela
obrigação de passar o sábado com um cadáver em um lugar enorme e arrepiante. O salão do
funeral era como uma igreja, com teto alto e pontudo, mas não havia estátuas nem nada. Só
um punhado de cadeiras encostadas nas paredes, uma mesa de pedra no meio, onde estava o
caixão, e uma pequena plataforma de pedra onde imaginei que Jess fosse fazer o discurso.
Também não havia nenhuma janela, então quase parecia que todos nós seríamos enterrados.
Eu não acreditava que Jess fosse mesmo comandar aquilo tudo.
O vampiro atrás de mim pigarreou e vi que a ټla havia andado sem mim. Dei um passo à
frente e um segundo depois chegou minha vez de olhar Claude. Olhei dentro do caixão e
não foi tão nojento quanto eu esperava. Ele tinha a aparência bem similar à do casamento
de Jess. Pálido, velho e assustador. Estava todo enrolado em tecido preto, como uma lagarta
suja que nunca se transformaria em algo bom.
Lancei um olhar para o vampiro atrás de mim, que pigarreava outra vez, e disse:
– Tudo bem, estou andando!
Depois fui caçar uma cadeira vazia, e quando me sentei enټei a mão na bolsa a ټm de
colocar o celular para vibrar, aټnal não queria interromper o grande momento de Jess. Não
que alguém ainda telefonasse para mim. Jess e Ronnie eram praticamente os únicos. E agora
só restava Jess.
Eu estava apertando o botão de silenciar quando, de repente, houve um burburinho.
Todos aqueles sugadores de sangue começaram a falar como se o cadáver tivesse se sentado
ou algum famoso astro do rock houvesse entrado para dar os pêsames. Tive um ataque de
nervosismo por causa de Jess e levantei os olhos, esperando ver a princesa Antanasia
Dragomir Vladescu passando pela porta dupla no final da sala.
Mas Jess ainda não estava ali, e ټquei totalmente confusa, pois o astro do rock que estava
fazendo todo mundo pirar e sussurrar feito maluco...
Era meu ex-namorado, Raniero Vladescu Lovatu.
Parado bem diante do caixão, sozinho.
De terno.
CAPÍTULO 57
Antanasia
Dorin e Ylenia só podiam ir comigo até certo ponto, depois precisavam entrar
na ټla para olhar Claudiu, por isso ټquei sozinha do lado de fora, diante da porta pela qual
entraria no salão do funeral.
Meu coração acelerava a cada passo que eu dava na direção daquela câmara, e já estava
batendo tão rápido que tive medo de que explodisse. Um coração de vampira não deveria
bater tão depressa... Passei a mão na boca de novo, pois não conseguia me livrar daquele
gosto amargo, acre, ainda que minha língua estivesse bem seca.
Não estou preparada... preciso de Lucius... Preciso de minha mãe para dizer que tudo vai ficar
bem...
Mas isso não iria acontecer, e de repente, do outro lado da porta, ouvi as pessoas falarem
inesperadamente alto. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo, e nem tive tempo para
ao menos imaginar, pois sem aviso – eu ainda não havia descoberto a deixa secreta – a porta
foi aberta e eu me vi diante de uma multidão maior do que havia esperado.
É isso aí. Minha primeira aparição como princesa desde o casamento, quando Lucius estava
comigo.
As conversas pararam de forma brusca quando cerca de 200 vampiros ټcaram de pé em
respeito não a Claudiu, mas a mim. Dava para sentir a curiosidade de alguns – os que ainda
não tinham me visto em carne e osso – enquanto eu olhava um mar de ternos pretos e peles
alvas, tentando ganhar tempo, organizar os pensamentos e encontrar rostos familiares.
Mindy, que me fez um sinal de positivo entusiasmado.
Raniero, encostado na parede do lado oposto, as mãos cruzadas e a cabeça erguida.
Ylenia, que assentiu sóbria e ligeiramente para me encorajar, e meu tio Dorin, que estava
sentado junto aos Anciões.
Eu posso fazer isso – por Lucius, falei para mim mesma. Subir no pódio, pedir um minuto de
silêncio, ouvir o toque dos sinos e falar.
Então vi Flaviu Vladescu, que conseguiu fazer uma careta e sorrir ao mesmo tempo, como
se mal pudesse esperar para ver meu fracasso, e me deu um branco total.
CAPÍTULO 58
Mindy
Todo o universo dos vampiros olhava para Jess e foi, tipo, a primeira vez que
minha ficha caiu: Caraca. Ela é mesmo, realmente, uma PRINCESA.
Claro, ela estava igualzinha a uma princesa no casamento, mas um monte de garotas
também se assemelhava a uma. E tudo bem, ela morava em um castelo e tinha empregados.
Mas foi quando aquela porta enorme se abriu e minha melhor amiga apareceu sozinha, com
um vestido preto simples, e todo mundo se levantou, que entendi o que significava ser régia.
E pela primeira vez eu tive que admitir que estava cem por cento feliz por ela ser a
princesa, não eu. Eu não trocaria de lugar com ela por nada naquele castelo, inclusive pelos
diamantes que com certeza ela possuía, mesmo que nunca os usasse.
Também ټquei olhando para Raniero, encostado em uma parede, de terno, mais gato do
que nunca, com as mãos cruzadas e o queixo erguido, como se não notasse que ainda havia
vampiros espiando-o de rabo de olho também. E ao mesmo tempo que eu enټm sacava o
que Jess era, também pensava: Quem diabo todos eles pensam que Raniero é? Porque eu não
tinha entendido os sussurros, mas conhecia bem o som emitido por vampiros surtados. Era
igual ao de pessoas surtadas.
Ronnie baixou a cabeça, mas notei seu olhar percorrendo o ambiente, como se estivesse
caçando alguém naquela multidão, então comecei a pensar naquela foto na internet, e pela
primeira vez desde que o beijara também me perguntei: Será que eu sei mesmo quem ele é?
Depois voltei a olhar para Jess e comecei a suar, porque ټcou muito claro que ela também
estava surtando.
CAPÍTULO 59
Antanasia
Sabe-se lá como, consegui subir ao púlpito em um silêncio digno do mausoléu
onde já parecíamos estar.
E de algum modo me lembrei de pedir um minuto de silêncio, usando as palavras que
havia decorado em romeno.
– Vom respecta acum tacere la marca Claudiu Vladescu trecerea intr-un teren de curcubeu.
Ouvi um burburinho logo em seguida, como se minha pronúncia tivesse sido ruim, e
quando olhei para Dorin seus olhos estavam arregalados de surpresa. E Ylenia havia
agarrado o braço do vampiro ao seu lado, como se eu a tivesse chocado também.
Será que falei as palavras erradas? Mas eu havia decorado o texto dado por eles. Agora
respeitaremos o silêncio para marcar a passagem de Claudiu Vladescu para o silêncio eterno. Eu
tinha certeza de que pronunciara direito, mas quando olhei ao redor ټcou claro que algo
tinha dado errado. Alguns vampiros estavam visivelmente lutando para não rir. Flaviu era
um deles, a mão pálida apertando a boca e os ombros tremendo – embora estivéssemos ali
para enterrar o irmão dele.
Claro que Mindy parecia tão pasma quanto eu. Ela virou as mãos para cima e moveu os
lábios em mímica:
– Não entendi.
Eu queria perguntar a alguém o que havia feito ou, melhor ainda, fugir do salão, mas
estava sozinha ali, então tudo o que pude fazer foi baixar a cabeça e me lembrar das palavras
que falaria em inglês, porque jamais teria sido capaz de decorar uma homenagem fúnebre
inteira em romeno.
Mas quando olhei para baixo – direto para o caixão de Claudiu –, não me importei com o
fato de o discurso cuidadosamente decorado ter evaporado do meu cérebro. Porque
Claudiu não estava naquele caixão de ébano.
Lucius estava, com um buraco enorme no peito.
E a última coisa de que me lembro foi de ter dado um berro tão alto que o som ecoou
pelas paredes e abafou os sinos que começavam a tocar sobre o vale coberto de neve,
anunciando que um vampiro nobre havia morrido.
CAPÍTULO 60
Lucius
Raniero,
Será que é a fraqueza que começo a sofrer que me faz sucumbir aos maus presságios e às tristes
conjecturas, ou será que aconteceu alguma coisa com Antanasia? Sinto algo me rasgar como os
sinos que dobram por Claudiu.
Talvez minha intuição sombria se deva à falta do sangue dela, o que me deixa fatigado a ponto
de começar a coexistir de forma pacífica com meu colega de cela roedor, que se enrosca no mesmo
pé que um dia usei para chutá-lo. Ou talvez o laço do casamento seja tamanho que consigo sentir
o que ela sente...
Por favor, Raniero. Notícias.
L.
CAPÍTULO 61
Antanasia
– Ela não está se alimentando bem. Está fraca.
– Está exausta de tanto se preocupar com Lucius.
– Ela precisa de ar! Deem um pouco de espaço!
A escuridão que estava me esmagando começou a se dissipar e consegui reconhecer as
vozes que giravam acima de minha cabeça. Dorin, preocupado com minha alimentação.
Ylenia, demonstrando compaixão por causa de minha separação de Lucius. E Mindy
assumindo o comando com uma voz mais autoritária do que qualquer uma que eu já havia
usado em meu mandato.
– Sério! – rosnou ela quando minhas pálpebras se abriram. – Deem um pouco de espaço,
caramba!
Meus amigos estavam tão afoitos para ajudar que nem notaram que eu estava acordada,
ainda que grogue, até que me apoiei nos cotovelos e choraminguei:
– Lucius? Como Lucius está?
– Está bem – disse Mindy quando todos se viraram para me olhar.
Sentei-me um pouco mais ereta e ela se acomodou ao meu lado, afastando Ylenia com uma
cotovelada.
– Você só teve um pequeno surto, só isso.
– Você jura que Lucius está bem?
– Juro. – Mindy parecia confusa. – Não aconteceu nada com Lucius!
Relaxei só um pouquinho, mas minha cabeça doía e os pensamentos pareciam enevoados.
– O que aconteceu? Não me lembro de muita coisa, só de ter visto Lucius em um caixão.
Min lançou um olhar esquisito para mim.
– Jess, quem estava no caixão era Claudiu. Eu juro. Eu vi.
A névoa em meu cérebro pareceu se dissipar um pouco mais e nós nos encaramos – ambas
sabíamos que não deveríamos verbalizar o que estávamos pensando. Eu havia tido uma
alucinação. De novo.
Então Ylenia nos interrompeu, explicando:
– Você presidia o funeral e de repente começou a gritar, chamando Lucius. Então parece
que você... desmaiou.
Dorin assentiu, confirmando a história.
– Sim, você... você disse uma coisa estranha em romeno, depois desmaiou. Foi
aterrorizante!
– É, agora eu lembro. – Tudo voltou de repente, desde minha subida ao púlpito até os risos
e o momento em que berrei, e então gritei de novo: – Ah, não!
Todos aqueles vampiros de cujos votos iríamos precisar no congresso tinham me visto
surtar. Os poucos minúsculos ټapos que restavam do sonho de coroação de Lucius haviam
chegado ao fim, incinerados por mim.
Lucius estava na prisão, mas eu nunca duvidara de que se – quando – ele fosse solto, ainda
teria total conټança por parte dos parentes que o haviam visto crescer em seu papel como
príncipe. Eles ainda iriam querê-lo como rei. Mas eu... Agora jamais iriam querer a mim, e
nós éramos um pacote.
– O que eu disse, afinal, que fez com que eles rissem? – perguntei a Dorin e Ylenia. Não que
isso importasse no momento. – Eu decorei o roteiro.
– Você não disse o que nós escrevemos – corrigiu Ylenia com delicadeza. – Você desejou
que Claudiu fosse para uma “terra de arco-íris”, em vez de ao “silêncio eterno”. É claro que
eu não escrevi isso para você.
– Arco-íris? – Fiquei mais confusa ainda. – Mas eu nem sei essa palavra em romeno.
– Como saber o que você ouviu e guardou no seu subconsciente? – Dorin se inclinou e
ajeitou meu travesseiro. Parecia que ele nem conseguia me encarar, como se eu o tivesse
humilhado também. – Como saber?
Também notei que Mindy estava olhando meus parentes com a mesma expressão que
Lucius exibia com frequência. Uma expressão de ceticismo que chegava às raias da aversão.
Mas meu erro não tinha sido culpa deles.
– Quem concluiu o funeral? – perguntei, alternando o olhar entre os três. – Como cheguei
até aqui?
– Flaviu se ofereceu, o que era certo – explicou Dorin. – Ele é o sucessor de Claudiu.
– Flaviu...
Cocei a cabeça no lugar onde achava que tinha batido. Ele tem que estar por trás do que está
acontecendo com Lucius. E comigo. Mas não tenho poder para lutar contra ele. Simplesmente
não tenho.
– Como cheguei aqui? – perguntei de novo. – Alguém me carregou?
Como se fossem marionetes conectadas pelo mesmo ټo, meus três protetores se viraram
para o canto oposto do quarto e dei um pulo quando um vampiro alto e imponente, que eu
nem tinha percebido estar conosco, saiu das sombras e anunciou:
– Gostaria que todos saíssem agora. Preciso falar com Antanasia. A sós.
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