CAPÍTULO 12
Antanasia
– Lucius, acorde! – gritei. Lágrimas escorriam pelo meu rosto, e sacudi o
ombro dele com toda a força que possuía, mesmo sabendo que poderia machucá-lo mais. Se
é que ainda era possível machucá-lo, porque ele devia estar... – Acorde! Por favor, acorde!
O sangue nele... Nos lençóis... A estaca largada entre nós.
Levei as mãos até o meu rosto. O sangue em MIM.
Agarrei os ombros dele de novo, sacudindo-o de modo que o sangue se espalhou por todo
lado.
– Lucius, NÃO!
CAPÍTULO 13
Antanasia
– Jessica, não deixe que as lembranças de um pesadelo a incomodem –
insistiu Lucius, baixinho. – Você não precisa temer fantasmas evocados pelo seu
subconsciente. Obviamente estou vivo e bem de saúde. – Ele sorriu. – Você não vai se livrar
de mim com tanta facilidade!
É, obviamente ele estava bem. Estávamos a sós na antessala onde sempre ټcávamos antes
das reuniões com os Anciões, dando-lhes a chance de deliberarem antes de entrarmos, e
Lucius ajeitava a gravata que cobria seu peito não empalado. E, no entanto...
– Foi tão real... – repeti.
Mais do que simplesmente um pesadelo. Uma visão. Uma alucinação. Senti a estaca nas mãos
e o sangue pegajoso nos dedos, porque era eu quem tinha usado a arma...
Será que estou ficando louca por causa do estresse?
Lucius deve ter notado a perda, a culpa e a confusão insuportável que eu ainda não
conseguia afastar horas depois de ter gritado na cama, pois segurou meus ombros,
oferecendo firmeza, mas arriscando uma piadinha.
– Eu devia ter avisado sobre os riscos de tomar sopa de galinha antes de dormir. Aquilo é
capaz de induzir pensamentos desagradáveis em plena luz do dia; tal qual o sorvete de tofu e
alfarroba que seu pai fazia! Se você quiser alguma coisa comestível, simplesmente pegue
qualquer telefone, digite seis e diga “Häagen-Dazs”. A velha que atende vai compreender,
pois é uma ordem que eu costumo dar com frequência.
Tentei sorrir também, mas não consegui. A última coisa da qual me lembrava – com
lucidez – era de ter bebido aquela sopa estranha e quente e ter caído no sono, e depois de
ter acordado e descoberto um buraco enorme em Lucius... Eu estava acordada.
– Jessica. – Lucius ټcou sério e soltou meus ombros depois de apertá-los mais uma vez. –
Tente esquecer o sonho, afinal temos que encarar a realidade agora.
E de repente, por intermédio de alguma ordem que não vi ser emitida, a porta se abriu e
eu estava diante da minha terceira reunião formal com os Anciões – sem contar o encontro
numa churrascaria na Pensilvânia, onde os conheci e onde eles espancaram Lucius até
deixar a vida dele por um fio.
CAPÍTULO 14
Antanasia
Enquanto caminhava até minha cadeira na outra extremidade da mesa
comprida, eu fazia o máximo, como sempre, para me lembrar de quem era quem em meio ao
bando de vampiros parecidos demais, como se a passagem de centenas de anos de muitos ali
já os tivesse desgastado a uma uniformidade pálida, como pedras em um rio.
Claro que reconheci Dorin, que me ofereceu um sorriso tranquilizador. E Horatiu
Dragomir, que eu sempre reconhecia porque ele havia perdido uma das mãos em alguma
guerra travada na época em que as catapultas eram tecnologia de ponta. E havia uma
cadeira vazia na qual meu tio Constantin teria sentado...
Lucius, que adentrara logo atrás de mim, puxou minha cadeira, e enquanto ele me ajudava
a me acomodar reconheci Flaviu Vladescu sentado ao lado de Claudiu, e senti um arrepio.
Aqueles dois haviam estado entre os vampiros que tinham espancado Lucius naquela noite
medonha no condado de Lebanon, quando os Anciões tentaram obrigar um príncipe
subitamente rebelde a se casar comigo e cumprir o pacto.
Meu olhar saltou para Lucius, que estava sentando-se com toda a calma, e eu não
conseguia entender como ele era capaz de lidar com Claudiu e Flaviu todos os dias sem
jamais demonstrar que os desprezava. Porque ele tinha que odiá-los. Tinha que ansiar por
vingança.
Olhei para as mãos fortes de Lucius, e também não consegui entender como ele permitira
que os tios o espancassem, aټnal eu não tinha dúvidas de que meu marido poderia
massacrar qualquer um de seus parentes mais velhos. Mas, claro, ele fora criado para aceitar
o castigo dos Anciões e não revidou nenhum golpe de seu tio Vasile até ser desaټado
diretamente a lutar.
Então olhei de novo para Claudiu, cujos lábios ټnos ostentavam um sorriso estranho, e
que interrompeu Lucius assim que ele começou a pedir ordem na reunião, dirigindo-se a
mim, conforme eu havia temido:
– E como você está, princesa? Todos ټcamos muito preocupados com sua saúde e
esperamos um relato completo sobre a doença que a afastou do julgamento mais importante
deste século!
Antes que eu pudesse me recompor para responder – estava paralisada –, Lucius falou por
mim, dando uma ordem com duas palavras que mudariam tudo.
– Silêncio, Claudiu.
CAPÍTULO 15
Antanasia
– Lucius, você está mesmo silenciando seu tio? – perguntou Claudiu,
parecendo genuinamente surpreso. – Neste tom de voz?
Também ټquei chocada. Nas reuniões, Lucius era sempre controlado. Eu nunca o vira se
dirigir a um dos Anciões de modo tão ríspido. Mas ficara claro que Claudiu me provocara, e
o príncipe Vladescu estava informando a todos que isto não iria acontecer.
Ele está me protegendo de novo. Eu deveria dizer alguma coisa...
Mas não disse, e Lucius falou outra vez, de modo menos áspero, mas que ainda não deixava
margem para discussões:
– Você falou sem pedir a palavra, Claudiu. E nosso costume, nossa lei, exige que solicite
minha autorização ou a de Antanasia.
– Apenas perguntei pela saúde de sua esposa – protestou Claudiu mesmo assim. – Você
não para de pedir que eu aceite uma Dragomir como minha superior, no entanto, quando
faço uma observação amigável, você fica insatisfeito!
– Insatisfeito com seu fracasso em cumprir a lei – esclareceu Lucius. – Fui muito claro
neste fórum: agora somos uma cultura que obedece às leis.
– Leis! – bufou Claudiu, abandonando qualquer ټngimento de preocupação comigo e
também ousando confrontar Lucius diretamente. – Você cita leis com muita frequência,
Lucius! No passado, Vasile permitia que falássemos à vontade. Ele não se preocupava com
leis.
– Você fala demais, ponto – alertou Lucius. E se recostou na cadeira, como se ainda
estivesse à vontade. Mas eu percebia a tensão crescente no maxilar dele. – E Vasile não está
mais no comando. Portanto, sugiro que você se acostume à nova liderança.
– Por quanto tempo? – murmurou Claudiu, balançando a cabeça.
A voz dele saiu baixa – alta o suficiente apenas para garantir que todo mundo escutasse.
Fiquei sentada em choque e em silêncio. Os outros vampiros também permaneceram
calados, mas quando examinei o rosto de cada um vi empolgação, não preocupação. Apenas
Dorin parecia apreensivo, como eu.
– O que você disse? – quis saber Lucius, a voz baixando uma oitava. – Ou quer omitir suas
palavras, como um covarde?
– Lucius...
Flagrei-me fazendo uma tentativa hesitante de interferir, mas ninguém sequer notou.
Todos os olhares estavam cravados em Lucius e em Claudiu, cujas bochechas pálidas
coraram um pouco ao dizer:
– Ótimo, Lucius. Vou falar, porque fiquei quieto por muito tempo.
Então ele se virou na cadeira para apontar para mim, e pareceu que o mundo inteiro ټcou
imóvel quando Claudiu verbalizou o que cada Vladescu – e talvez alguns Dragomir – devia
acreditar ser verdade. Eu acreditava ser verdade.
– Ela não está preparada para governar, Lucius. Não consegue nem mesmo aplicar a
justiça!
Não...
Eu sabia que a rainha Mihaela Dragomir teria aplicado um pouco de justiça naquela hora,
mas permaneci imóvel, espiando Lucius, cujos olhos estavam ټcando completamente
negros, como na noite em que ele me aprisionara no castelo e quase perdera o controle.
No entanto, Claudiu não pareceu notar. Estava ocupado demais verbalizando sua fúria
contida ao reconhecer que o jovem vampiro que ele costumava controlar não se encontrava
mais sob seu domínio – e também estava ficando com raiva.
– Lucius! – A voz de Claudiu estremeceu de repente. – Eu venho aceitando os Dragomir
nesta mesa, como Anciões, há quase 20 anos. Mas não posso, e NÃO vou, aceitar um deles
como meu soberano. JAMAIS! – Ele virou para mim, os olhos semicerrados. –
Principalmente uma garota que não sabe nada sobre liderança.
O cômodo ficou mergulhado em silêncio absoluto enquanto as palavras dele esmoreciam.
E então Lucius se levantou e eu voltei a enxergar o príncipe guerreiro que havia invadido
o castelo de meus ancestrais jurando derrotar os Dragomir. Só que desta vez ele estava
protegendo uma Dragomir – e isso só tornava seu poder mais ameaçador enquanto ele
caminhava até o tio, os caninos à mostra.
Claudiu também se levantou e eu vi que seu corpo inteiro tremia. Talvez de fúria – ou
talvez porque enfim compreendesse o que havia provocado em meu marido.
Eu queria correr, me colocar entre os dois vampiros e implorar que se acalmassem, mas
não pude, em parte porque Lucius ټcou quase estranhamente contido quando se inclinou
perto de Claudiu e o advertiu, mostrando aqueles dentes que podiam ser tão lindos quanto
ameaçadores:
– Suas palavras são de traição. Retire-se e agradeça por eu não destruí-lo antes mesmo de
você receber o devido julgamento regido pelas leis às quais EU VOU OBEDECER, mesmo
estando bastante inclinado a acabar com sua existência. A simples visão de sua ټgura coloca
à prova minha determinação para não esmurrá-lo.
Claudiu hesitou um instante.
– Saia agora – rosnou Lucius.
– Ótimo. Vou sair – concordou Claudiu por ټm. Mas enquanto se retirava da sala ainda
ousou se virar e vociferar: – Isso não acabou, Lucius.
Os dois vampiros se encararam por um longo momento.
E quando Lucius enټm falou, dentre todas as palavras que havia pronunciado naquela
reunião nenhuma pareceu mais agourenta do que as que vieram a seguir, com a aparência
calma completamente restaurada e os caninos recolhidos:
– Não acabou mesmo, Claudiu.
Quando o tio saiu, Lucius voltou a se sentar e olhou ao redor da mesa, desaټando em
silêncio qualquer vampiro que ousasse questioná-lo, e tive a sensação de que todos os outros
Anciões sentiram o mesmo que eu.
Aquilo que havia acabado de acontecer entre Claudiu e Lucius... não era apenas Lucius me
protegendo, ou protegendo meu direito de governar. Estava enraizado havia mais tempo,
em um passado remoto, tanto em uma rixa entre clãs quanto em um ressentimento pessoal
entre dois vampiros poderosos: um que havia tentado adestrar um príncipe para obedecer
aos Anciões e este mesmo príncipe, que havia ficado forte demais para ser controlado.
E, com ou sem julgamento, aquilo não tinha acabado.
CAPÍTULO 16
Lucius
Para: surfistanoturno3@freeweb.net
De: LVVladescu@euronet.web
Raniero,
Desnecessário dizer que estou decepcionado com sua decisão de permanecer na Califórnia,
principalmente porque as coisas estão ficando mais complicadas na Romênia.
Parece que tenho em mãos o contratempo de uma pequena revolução. Uma rebelião de um só,
que me deixa diante da perspectiva infeliz de um julgamento de nada menos do que traição. E
nós dois sabemos como isso deve terminar – para Claudiu.
Sendo muito sincero, lidar com nossos tios Vladescu não é diferente de surfar suas amadas
ondas. Lutamos para controlar Vasile até o choque final gigantesco e inevitável só para dar meia-
volta e descobrir que Claudiu está a postos no horizonte, seguido por Flaviu.
Seria bom se eu tivesse, se não um soldado, pelo menos um surfista experiente por aqui.
E, mesmo não dando uma ordem direta, reitero que é hora de você parar de fugir do passado.
Você é um guerreiro, Raniero, e sabe que algum dia terá que enfrentar o inimigo que é você
mesmo – e nesta arena, onde suas lembranças têm um apelo tão forte. Se ao fim dessa batalha
você optar por voltar à sua vida na praia, respeitarei a decisão. Aceitarei que você é o primeiro
vampiro Vladescu budista, vegano e pacífico como seu oceano (o genro que Ned Packwood sem
dúvida desejaria secretamente que tivesse se alistado em seu pequeno exército de cordeiros,
galinhas e bezerros, e não eu – já que não hesito em consumir meus colegas recrutas!). Mas, até
que tal confronto aconteça, será que você não está somente se escondendo atrás de suas tatuagens
e se acovardando sob as ondas?
E você não é do tipo que se acovarda, irmão.
Lucius
P.S.: Claro que vou proteger Melinda, caso ela venha para cá. Mas será que ela não ficaria mais
impressionada ainda se você realizasse essa tarefa? De preferência usando calça?
CAPÍTULO 17
Mindy
– Voo 473 para Bucareste, embarque imediato dos passageiros da classe
executiva.
Veriټquei a passagem pela milionésima vez, aټnal nunca tinha viajado na classe executiva.
Nas quatro vezes em que havia estado em um avião ocupei assentos medonhos na classe
econômica, com vista para a asa.
Mas agora meu lugar era bem na frente, onde Jess prometeu que me dariam uma bebida
antes mesmo de decolarmos. Eu poderia me esticar em uma poltrona reclinável,
bebericando suco de laranja fresco enquanto o restante dos passageiros arrastava as malas
rumo a seus assentos baratos.
Levantei-me, peguei a alça da minha bolsa falsa da Gucci – a que eu não quereria perder
caso minha bagagem fosse extraviada para Roma ou algo assim, pois poderiam confundir os
dois lugares – e fui para o avião.
Dentro de algumas horas eu estarei, tipo assim, a uns mil quilômetros da faculdade de
Lebanon Valley, que eu havia abandonado antes mesmo do início das provas ټnais. Qual era
o sentido de tentar tirar ao menos uma nota dois?
E estarei longe demais para ouvir minha mãe berrando de novo sobre como eu havia
desperdiçado milhares de dólares dela em mensalidades, e que eu deveria simplesmente
esquecer o vagabundo que a fazia se lembrar de meu pai irresponsável – vagabundo que ela
odiaria ainda mais se soubesse que ele era um vampiro, imagine só!
Em breve estarei em um castelo cheio de empregados, dormindo em uma cama enorme e
comendo metade dos bolinhos da marca Tastykake que estava levando para Jess porque por
algum motivo eles não são encontrados na Europa.
E, principalmente, estarei em um país que matava meu ex-namorado de medo, mesmo que
fosse um morto-vivo, como era metade da população da Romênia. Eu tinha quase certeza de
que Ronnie nem mesmo iria telefonar para mim enquanto eu estivesse lá, pois tinha me
mandado, tipo, uns 20 torpedos implorando que eu ټcasse em casa – e depois simplesmente
sumiu. Até que enfim.
Entreguei meu cartão de embarque à funcionária e arrastei a mala pelo corredor em
direção ao avião.
É, tudo para mim será de primeira classe nas próximas duas semanas. De primeira classe e
totalmente livre do sugador de sangue.
Passei pela porta, minha malinha saltando no vão, e vi aquelas poltronas de couro enormes
me esperando.
Então por que eu não estava superempolgada?
CAPÍTULO 18
Antanasia
– Não foi tão terrível assim – insistiu Dorin. Mas ele estava retorcendo as
mãos gorduchas e passeando em volta de minha mesa. – Já vi incidentes piores em reuniões
dos Anciões!
Eu estava com a cabeça enterrada nas mãos, mas a ergui para lhe lançar um olhar cético.
– Verdade? Você já viu coisa pior do que um dos vampiros mais poderosos cometer
traição dizendo diretamente a uma princesa que ela não é adequada para governar? Uma
coisa pior do que minha incapacidade de me defender?
– Você está sendo dura demais consigo mesma – interveio Ylenia, empoleirada no sofá. –
Só conhece os Anciões há alguns meses. Não pode lutar contra eles!
Lancei-lhe um olhar agradecido.
– Você está certa. Não sei como eu conseguiria fazer isso.
Então me virei de novo para Dorin, que estava revirando a memória em busca de algo pior
do que o motim.
– Houve uma ocasião, há anos, em que dois Vladescu se atacaram com estacas, bem no
salão de reuniões. – Ele abanou as mãos. – Não que eu tenha olhado! Fiquei de cabeça baixa!
Suspirei. É, claro que ficou. Porque nós somos Dragomir.
– Lucius disse que vai haver outro julgamento – completei, carrancuda. – Que a traição
deve ser punida com destruição.
Como praticamente tudo no mundo dos vampiros.
– Onde está o garoto? – Dorin olhou ao redor, como se Lucius pudesse estar escondido em
um canto; como se isso um dia fosse acontecer. Então meu tio serviu para todos nós um
pouco do chá que Ylenia havia pedido. – O que ele está fazendo?
– Você conhece Lucius. – Bebi um gole, desejando que pudesse tomar chá sempre que
quisesse. Aquilo me lembrava de quando eu estava em casa com meu pai, que resolvia todas
as crises com camomila. Infelizmente eu sempre me esquecia da palavra romena “ceai”, e na
única vez em que tentei pôr água para ferver, a velha cozinheira me expulsou da cozinha,
quase berrando comigo. – Ele queria um pouco de paz sozinho no escritório, para ler seus
livros de Direito. – Olhei para minhas prateleiras, repletas de livros de minha mãe
biológica. – Eu também deveria estar estudando as leis.
– Posso traduzir para você – ofereceu Ylenia. – Só diga o que precisa saber.
Tentei sorrir.
– Obrigada.
Mas será que eu ao menos sabia o que precisava saber?
– Tente não se preocupar, Antanasia – acrescentou ela. – Parece que Lucius cuidou de
tudo.
– É, ele foi bastante feroz – conټrmou Dorin com um tremor. – Se eu fosse Claudiu, ټcaria
esperto!
– É isso aí... – Eu me corrigi, tentando parecer mais “régia”. – Quer dizer, sim, claro que
Lucius assumiu o controle.
Deixei-me afundar atrás da escrivaninha enorme, que também tinha sido trazida do
Castelo Dragomir quando eu estava estupidamente empolgada com a ideia de virar
princesa.
– Precisamos ir agora – observou Dorin, e eu olhei para meu relógio, surpresa ao notar
que era quase meia-noite. – Antanasia terá um dia movimentado amanhã. – Ele olhou para
Ylenia. – E nós temos um longo caminho para casa.
Repousei a xícara de chá, percebendo que tinha sido grosseira por retê-los até tão tarde.
– Por que não passam a noite aqui? – ofereci. – Há dezenas de quartos. – Talvez centenas? –
E a descida de carro pela montanha é muito perigosa no inverno.
Dorin e Ylenia trocaram olhares, e ambos pareceram aliviados.
– Se está segura disso... – disse Dorin. E empalideceu um pouquinho. – Se Lucius não se
importar...
– Está tudo bem – garanti. Eu podia não ser capaz de lutar contra meus inimigos, mas pelo
menos podia proteger meus amigos da queda de um penhasco. – Por favor, ټquem. – E falei
a Dorin: – Você sabe onde ficam os quartos de hóspedes.
– Sei. Obrigado, Antanasia – assentiu ele. – Conheço bem este castelo!
– Muito obrigada – acrescentou Ylenia.
– De nada.
Levantei-me e me senti quase tonta, provavelmente porque não tinha comido nada desde
de manhã. E me deu uma vontade incontrolável de ver Lucius. Parecia que eu estava sempre
nervosa naquele castelo, mas naquele momento essa sensação estava se transformando em
uma inquietação forte, quase como uma premonição.
Mas eu não acredito em premonições. Não é?
De repente eu não tinha certeza.
– Ylenia? Por favor, pode dizer ao Emilian que eu desejo ir ao escritório de Lucius?
– Tem certeza de que não deveria ir direto para a cama? – sugeriu ela. – Você parece
exausta.
– Não, quero mesmo ver Lucius.
Eu preciso vê-lo.
– Certo – concordou ela, porém ostentando um olhar esquisito. – Se você quer mesmo... –
Ela me acompanhou até a porta e falou com Emilian: – Prendere Princess Vladescu Antanasia
al principe della biblioteca.
Após uma despedida breve, larguei meus parentes ali e, enquanto Emilian e eu seguíamos
pelos corredores escuros, minhas preocupações pareciam crescer a cada passo. No entanto,
quando cheguei ao escritório de Lucius e abri a porta, meu marido não estava andando de
um lado para outro conforme eu havia esperado. A lareira estava acesa, o laptop dele se
encontrava aberto sobre a mesa e o troféu de basquete brilhava na estante.
Mas Lucius não estava à vista.
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