sábado, 5 de outubro de 2013

CSUVA - 97-98-99-100-101

CAPÍTULO 97

Lucius

R.,

É, eu me lembro de muitas coisas da convocação que resultou na marca em sua mão. Mergulho

cada vez mais no passado, ou no que parece ser o passado, até a memória ficar mais clara do que

a realidade. E naquela noite me recordo de que você estava com raiva, porém lúcido. Você

recusou até minhas tentativas de conversar, parecendo preferir ficar distante – até que Ylenia

Dragomir se aproximou de você.

Aquilo me pareceu tão estranho... Uma garota que sempre esteve à margem, e ainda mais uma

Dragomir...

Lembro-me de ter pensado, enquanto vocês saíam juntos, grudados demais: “Isso é um erro.”

Porque a expressão nos seus olhos era perigosa, Raniero – porque, para mim, você não parecia

ameaçador, e sim vulnerável. (É estranho usar essa palavra para descrever você – mas é exata.)

E quando fitei seus olhos em seguida, eles estavam desfocados e loucos – diferentes até mesmo do

dia em que você quase me destruiu – e você estava em uma poça de sangue com uma vampira

recém-mordida ao lado... e um vampiro morto aos pés.

Na posição de alguém que está enlouquecendo lentamente, Raniero, eu sei – com mais certeza

ainda do que soube naquela noite – que a mudança que você experimentou em minutos em geral

acontece em horas, dias ou anos. Mesmo naquela época percebi que Claudiu devia ter feito

alguma coisa para alterá-lo, esperando que você fosse destruído por uma turba, afinal não

bastava mandá-lo para longe durante meses seguidos. Nem isso poderia aliviar a preocupação do

meu tio de que um dia a verdade sobre como ele o incitou a me destruir fosse revelada.

E, claro, eu sempre soube que foi Claudiu quem o instigou a me atacar. Eu SEMPRE confiei em

você, Raniero. Não foi a brincadeira que fiz naquele dia que poupou minha vida. Você nunca

chegou mesmo perto de acabar com minha existência, como quis acreditar.

Preciso de toda minha energia para escrever isso, e para manter o foco, mas se isso ajudar você a

perceber que não apenas está apto para retornar à nossa sociedade, como também para

reivindicar seu lugar entre a realeza...

Talvez esta seja minha última carta, e assim, antes de voltar para meus sonhos, que ficam cada

vez mais sombrios e mais longos, dou uma última ordem. Quando eu me for, como parece

provável, seja pela destruição ou entrando no reino das imaginações loucas, reivindique seu lugar

como regente e governe ao lado de Antanasia, pois nós dois sabemos que não existe restrição para

um vampiro blestemată governar. Não há precedente, portanto não há restrição.

Faça isso por TODOS nós, irmão – padrinho – protetor da noiva...

Com gratidão tão eterna quanto espero que seja sua existência,

L.

CAPÍTULO 98

Antanasia

– “In cazul in care acuzatul nu poate vorbi” – leu Raniero em voz alta, o dedo

acompanhando as palavras, e como eu não estava nem perto de entender as frases complexas

nos livros de direito que estávamos examinando, flagrei-me olhando o curativo na mão dele.

Eu fiz isso com ele – e a sensação é terrível. Mas ao mesmo tempo poderosa.

A estaca não havia atravessado por completo, mas eu tinha causado algum dano. Muito

mais do que quando acertei o pé de Lucius com um forcado. E Raniero achou que ټz

direitinho.

– Esta é passagem que estamos procurando – disse ele, me arrancando dos pensamentos. –

Um caso de 1622, mas relevante. In realtà, os Anciões vão respeitar um precedente tão

venerável. Alguns até podem se lembrar do julgamento.

– O que diz exatamente? Preciso saber das palavras exatas.

Raniero pegou um pedaço de papel na escrivaninha de Lucius e começou a escrever.

– No caso de o acusado ser incapaz de falar...

Ele terminou e empurrou o bilhete para mim. E quando sua mão se moveu, o laptop de

Lucius se acendeu pela terceira vez naquela noite. E pela terceira vez vi os e-mails de meu

marido. Todas aquelas conversas com Raniero, algumas datadas de antes da destruição de

Claudiu.

Sobre o que eles discutiam? Futebol e surfe? Ou segredos e política?

– Se você tem o que necessita por enquanto, está ټcando tarde e eu tenho um

compromisso – disse Raniero.

Eu queria estudar aqueles livros de direito a noite toda. Faltava menos de um dia para o

julgamento de Lucius. Mas eu já havia perguntado a Raniero o suټciente por um dia. Talvez

por uma vida inteira. Não tinha o direito de indagar o que era o “compromisso” dele.

Será que tem a ver com Mindy? Porque ela não está preparada para enfrentar o Raniero que

vem surgindo.

– Não vou ver Mindy Sue – informou ele, me surpreendendo. Minha preocupação, pelo

jeito, era óbvia. – Não se preocupe com ela. – Ele deu um sorriso triste e amargo,

combinando os únicos tipos de sorriso que tinha nos últimos tempos. – Eu contei a ela tudo

sobre meu passado enquanto ela usava a tesoura, e o que restava entre nós desapareceu

junto com meu cabelo.

Comecei a me levantar.

– Eu deveria ir vê-la. Ela deve estar chateada.

Porém ele pôs a mão em meu ombro, pressionando-me para voltar a sentar.

– Ela está bem. E creio que também tem planos.

Planos? Tarde da noite em um castelo solitário?

Mas aceitei a palavra de Raniero, pois de qualquer modo eu não podia ser de grande ajuda

para Mindy. Pelo menos não até salvar Lucius. Aí então eu lhe ofereceria um ombro para

chorar, caso ela precisasse.

– Certo, se você tem certeza de que ela está bem.

– Você deveria descansar – sugeriu Raniero, indo para a porta. – Precisa tanto de forças

quanto de conhecimento.

Sentei-me de novo na poltrona de Lucius.

– Não. Vou continuar trabalhando. Posso dormir quando Lucius estiver livre.

– Essa é uma boa atitude. – Raniero abriu a porta. – Melhor ainda do que a de seu marido,

eu acho.

E saiu antes que eu pudesse perguntar o que ele sabia sobre a aparência de Lucius. Ou

sobre sua sanidade.

Eu sabia que precisava trabalhar, mas quando ټquei sozinha não tive certeza de como agir.

Estava ټcando sem tempo para inocentar Lucius, e não tinha prova alguma. Enquanto

lutava para pensar, levei a mão distraidamente ao mouse do laptop e o sacudi, de modo que

o computador acordou de novo, e desta vez cedi à tentação e cliquei no e-mail de Lucius.

Eu não estava xeretando de verdade, só procurava algum tipo de informação que pudesse

ajudá-lo. Queria saber mais sobre Raniero também, aټnal agora o assassino conٽituoso fazia

parte da minha vida. E um lado meu ansiava por ao menos esse pequeno contato com

Lucius. Queria ler sua prosa espirituosa e sarcástica, que era tão... ele.

Sentindo a menor das pontadas de culpa, abri a última mensagem trocada entre os dois

vampiros poderosos e misteriosos e desci a tela até o início da correspondência, que havia

começado semanas antes de meu casamento e continuava esporadicamente até a manhã da

destruição de Claudiu.

Os e-mails, claro, eram destinados a Raniero, e eu captei algumas ideias sobre o

relacionamento deles – e suas suspeitas. Mas também encontrei outra coisa espalhada nas

mensagens, e aquilo era quase melhor do que pistas.

Uma carta de amor para mim.

Pelo menos começava desse jeito.

CAPÍTULO 99

Mindy

Eu deveria ter imaginado que Raniero iria se encontrar com Ylenia em um

jardim. Ele sempre gostava de ټcar ao ar livre e dizia que as construções o sufocavam, e

independentemente do que pensava sobre si, eu sabia que Raniero não estava mudando de

verdade. Podia ter roupas melhores e um novo corte de cabelo, e até parecer louco algumas

vezes, mas ainda era o Ronnie meigo e inofensivo, amante da natureza.

Se ele não fosse um cara legal, não concordaria em fazer a coisa certa por Ylenia, que já

estava sentada perto dele em um banco sob as estrelas. Cheguei tarde, pois precisei pedir

informações a dois empregados diferentes, mas pelo jeito não tinha perdido muita coisa. De

onde eu estava, nas sombras, parecia que todas as coisas piores, mais dolorosas, estavam

acontecendo naquele momento.

– Ylenia – disse Raniero, parecendo muito triste. – Acho que errei por não conversar com

você antes. A princípio acreditei que estava fazendo um favor a você, porque não posso

imaginar quem iria quer um vampiro blestemată, mas talvez essa escolha também devesse ser

sua, não é? Porque nossa tradição diz que o que compartilhamos, o sangue, é um laço para

toda a eternidade.

Fiquei igual a uma das estátuas de mármore ao redor, que eu conseguia ver dali do meio

dos arbustos, como se a Renascença italiana ainda estivesse acontecendo e eu também não

pudesse me mexer. Era como se eu também fosse de pedra.

Eu não deveria ter ido espioná-los. Não estava ali para ٽagrar Ylenia fazendo ou dizendo

alguma coisa errada. Estava ali porque uma parte de mim desejava testemunhar o cara que

eu havia mandado embora – e que eu queria de volta – me abandonar para sempre.

Eu, tipo, queria sofrer. E tive o que queria.

– Entendo por que você agiu daquele jeito – disse Ylenia. – Aquela noite deu tão errado...

– Deu, sim.

Eu a vi levantar a mão e tocá-lo, como eu teria feito, e meu coração se encolheu no peito.

– Mas Lucius acreditou que você não pretendia de fato destruir ninguém naquela noite –

disse ela. – E eu também acredito. Não sei o que aconteceu, mas você não queria fazer

aquilo.

– Até hoje também não entendo. – Ele deu de ombros, quase como se tivesse desistido de

se importar com aquela coisa ruim que havia feito. – Mas sei que nós compartilhamos algo

sagrado para os vampiros, e se você não me desprezar, se de algum modo quiser que

comecemos a nos conhecer mais, aos pouquinhos, e quiser descobrir se talvez deseja um

vampiro perturbado e com certeza condenado, vou cortejá-la como você merecia e ainda

merece.

Ela ټcou sentada, encarando-o, e meu coração encolhido parou. Diga que não! Diga a ele

que não! Diga para ele ir se catar!

Mas, dããã, Ylenia era louca por ele havia anos – ela o odiava e amava completamente – e

respondeu:

– Eu gostaria, Raniero. Isso signiټcaria muito para mim. Assim como aquela noite também

significou.

Nenhum deles disse com todas as letras, mas eu percebi o que havia acabado de ocorrer.

Em resumo, ela aټrmara: “Aceito você como meu, para sempre.” Muita coisa da vida dos

vampiros era um mistério para mim, mas eu sabia que uma garota mordida possuía direitos

sobre o cara para sempre. Como uma garota que não tinha sido mordida, eu sabia disso bem

DEMAIS.

Eu quase fui “destruída” naquele momento, e a única coisa que me impediu de gritar foi

saber que Raniero não retrucara dizendo que aquela noite havia signiټcado muito para ele

também. Fiquei satisfeita ao menos por isso.

Até que ele se inclinou e deu um beijo nela.

Não foi como os beijos que nós dávamos. Eles não se atracaram e ټcaram grudados, sem

conseguir se afastar nem se o mundo acabasse. Foi só um beijo no rosto – mas foi a última

estaca tenebrosa no meu coração.

Comecei a me virar, sabendo que tinha cometido um erro ENORME indo até ali.

Eu não devia ter visto a cena. Isso vai me assombrar para sempre... mesmo que eu não tenha

um para sempre, como eles vão ter, porque ela NUNCA vai largá-lo.

Comecei a respirar de maneira ofegante e histérica, e foi uma surpresa ao menos ter

conseguido ouvir quando ela sussurrou:

– Vou ser boa para você, Raniero. Prometo. E você vai precisar de alguém se... se o pior

acontecer com Lucius e você ascender e se tornar regente de Antanasia. Prometo que estarei

pronta para ajudar a governar.

Eu estava de costas para eles e congelei de novo. Fechei os punhos com tanta força que

minhas unhas se cravaram na pele.

Vaca. Ela ERA uma vaca cheia de truques.

E eu não soube que diabo Raniero quis dizer quando respondeu:

– Obrigado, Ylenia. Acredito que você vai agir bem ao meu lado caso eu ocupe o lugar de

regente, governando com Antanasia na ausência de Lucius.

Uma de minhas unhas quebrou de encontro à mão.

Estava tudo errado. Ele não deveria agir como se houvesse alguma chance de Lukey não

ټcar bem. Amigos não falam daquele jeito. E ele não deveria estar falando sobre governar

nada. Ele não queria aquilo. Sempre jurou que não queria...

Então por que ele parecia estar babando diante da chance de ocupar o lugar de Lukey?

De repente eu não sabia se estava certa em relação ao meu ex-namorado.

Fiquei ali naquele jardim muito silencioso, como se duas pessoas tivessem parado de

conversar para se beijar mais um pouco, e pela primeira vez imaginei se Raniero não havia

escondido algumas coisas muito importantes de mim. Imaginei se ele não teria mentido para

todos nós o tempo todo, fingindo ser um cara legal e um bom amigo.

CAPÍTULO 100

Antanasia

Ainda que Lucius não falasse sobre Raniero com frequência, havia ocasiões em que

eles trocavam um bocado de e-mails. A correspondência entre os dois era uma daquelas

coisas que ele escondia até de mim – talvez em parte porque era onde ele falava sobre mim.

Eu tinha certeza de que esse era o único fórum, além de nosso quarto, onde Lucius Vladescu

chegava ao menos perto de expressar sentimentos.

“Minha esposa está enfraquecendo, Raniero... Eu me preocupo com ela... Não suporto vê-la

lutando...”

– Desculpe, Lucius – murmurei, com vergonha. – Desculpe mesmo.

Subindo pela tela, percebi que tinha chegado ao ټm da sequência de mensagens e me

recostei na poltrona, com raiva de mim mesma e enxergando mais claramente ainda como

me encolhera atrás dele desde nosso casamento. Como eu o havia deixado na mão e

aumentado seus fardos.

Quase todas as primeiras mensagens de Lucius incluíam algum tipo de elogio a mim – em

geral escondidos dentro dos papos de homem sobre esportes, estacas e os méritos de usar

calça ou não. Antanasia é brilhante, Raniero. Você precisa vir ao meu casamento, nem que seja

para ver a mulher que tem o poder de ME deixar sem fala.

Raniero havia escrito sobre Mindy também, e apesar de eu ter pulado essas partes, pois não

queria xeretar, ټcou claro, mesmo com todos os rsrsrs sobre os sapatos dela, que ele se

importava muito com minha amiga, e talvez enxergasse as necessidades dela com mais

clareza do que ela mesma. “Ela frequenta a faculdade porque a mãe quer, mas eu lhe disse que

há uma escola de estética excelente, não muito longe da casa da praia.”

Infelizmente, com o tempo, os dois relacionamentos pareceram se desintegrar um pouco.

Os rs de Raniero terminavam muitas vezes com um “mas triste”, enquanto Lucius começava a

expressar arrependimento, não por ter se casado comigo, mas por me arrastar para uma

vida que estava me esmagando aos poucos.

Reli uma das últimas mensagens, na qual Lucius pedia a Raniero, mais uma vez, para vir

ajudá-lo a cuidar do reino de forma que pudesse se concentrar mais em minha proteção.

– Desculpe – repeti, levantando o dedo para fechar o programa.

Mas segundos antes de clicar notei a hora e a data das últimas mensagens, que tinham sido

trocadas durante um breve período no qual Lucius mencionou que eu estava dormindo

perto dele, pois às vezes ele trazia o laptop para nosso quarto e trabalhava diante da lareira.

Descendo de novo pela tela, acompanhei a sequência mais uma vez, ټcando empolgada

enquanto as imagens de relógios, de Lucius me acordando e de sangue vermelho intenso

começavam a dançar de repente diante dos meus olhos.

Obriguei-me a me acalmar e a pensar com clareza, usando os dois hemisférios do cérebro.

Pense como uma vampira – e uma atleta de matemática, Jess. Use seu lado racional e sua nova

familiaridade com o sangue. E aos poucos a pergunta foi se formando na minha mente:

Dada a taxa de coagulação do sangue, será que um vampiro que estava mandando mensagens

às 6h47 – e ao meu lado na cama às 7h15 – poderia estar no saguão na hora certa para cravar

uma estaca três vezes em seu inimigo?

CAPÍTULO 101

Antanasia

O julgamento de Lucius estava chegando e eu tinha apenas uma prova

minúscula a favor dele, por isso pensei que jamais conseguiria dormir naquela noite. Só que,

não fazia muito tempo, eu havia cravado uma estaca na mão de Raniero, lido as leis e

realizado meu estudo habitual de romeno, então acho que estava exausta, pois assim que

minha cabeça bateu no travesseiro, caí no sono quase no mesmo instante.

Ou talvez eu não tivesse dormido de fato, porque enquanto estava apagando comecei a ter

um sonho quase tão nítido quanto as alucinações que havia sofrido. Só que dessa vez – talvez

alimentada pelos e-mails de Lucius – tive um sonho bom.

Na verdade, era uma lembrança. Uma lembrança que começava na noite em que me casei,

quando Lucius fechou a porta de nosso quarto, de modo que, pela primeira vez desde que

havíamos recitado nossos votos, estávamos a sós.

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