sábado, 5 de outubro de 2013

CSUVA - 45-46-47-48-49

CAPÍTULO 45

Antanasia

– Flaviu está com a palavra – consegui dizer, apesar de mal ouvir minha

própria voz.

Era quase como se meus ouvidos estivessem zunindo, de tão apavorada que eu estava.

Ele percebeu – e provavelmente farejou – meu medo, do mesmo jeito que todos havíamos

sentido o cheiro do sangue na estaca de Lucius. Olhei para a cadeira de meu marido, mas,

claro, estava vazia. Então ټtei Dorin, que não me servia de muita coisa, e não tive opção a

não ser me virar para Flaviu, que disse:

– Nós não estabelecemos as condições do conټnamento. Existem leis que também governam

a detenção.

Ele parecia ultrajado com tal deslize, mas notei um brilho diferente em seus olhos. A

expressão de um lobo partindo para a matança.

Eu não sabia o que dizer, por isso deixei que ele continuasse, mesmo sabendo que isso era

um erro.

– O assassino de Constantin Dragomir foi mantido em solitária com dieta restrita a pão e

água – continuou ele, apelando a cada um dos Anciões. – Determinamos que esta era a lei

para um crime capital envolvendo um Ancião. – A voz dele pareceu embargar. – E este

ancião era meu irmão, alguém que Lucius ameaçou na frente de todos.

Solitária? Dieta restrita?

Minha cabeça começou a rodar. Lucius não havia me preparado para isso. Eu nem sabia se

Flaviu estava dizendo a verdade, pois nunca tinha lido todos aqueles livros jurídicos. Será

que Lucius havia cometido um erro? Será que havia subestimado Flaviu? Este, por sua vez,

estava exigindo uma resposta:

– E então, princesa? O que diz?

– Mas... Lucius nem foi acusado formalmente – gaguejei, aټnal não podia permitir que ele

fosse conټnado daquele modo. Eu não poderia vê-lo. E sem sangue ele iria... – Não acho

que...

Mas eu não tinha certeza do que eu achava, daí apelei para Dorin.

– Foi isso mesmo que aconteceu com o assassino de Constantin?

Se antes Dorin parecia em conٽito, agora suas bochechas ټcavam ainda mais brancas

enquanto ele confirmava:

– Sim, Antanasia. Isso foi determinado por lei.

– É verdade – concordou um dos outros (Horatiu era o nome dele?).

Parei um segundo, tentando pensar, mas não consegui. Simplesmente não consegui.

– E então, princesa? – pressionou Flaviu de novo por um decreto meu. – A destruição de

um Vladescu deve ser tratada como a destruição de um Dragomir, agora que você está no

comando?

Eu não podia fazer nada. Era a princesa mais impotente do mundo. Não somente Flaviu

tinha virado o primado da lei contra nós como havia colocado milhares de anos de ódio

entre os Vladescu e os Dragomir em jogo. Eu não podia demonstrar preferência se quisesse

criar o verdadeiro reino unido que Lucius vislumbrava.

E assim, mesmo sabendo que poderia estar condenando o vampiro que eu amava à

destruição, flagrei-me dizendo:

– Se esta é a lei, então Lucius será detido em solitária, alimentando-se apenas de pão e

água. Tal como o assassino de Constantin Dragomir.

Fiquei tão perturbada que nem cogitei se aquilo poderia ser posto em votação. Talvez eu

pudesse ter convencido alguns Anciões a apoiar o direito de Lucius pelo menos poder beber

o sangue de que precisaria, e poupar-lhe um destino que alguns diziam ser pior do que a

destruição.

Eu havia acabado de permitir que Flaviu me pressionasse – me ludibriasse – a tomar uma

decisão sobre a qual jamais poderia recuar. Terei ainda menos tempo para encontrar o

verdadeiro assassino, porque Lucius vai precisar de sangue. Talvez eu precise marcar seu

julgamento antes de reunirmos provas para inocentá-lo. E não poderei visitá-lo para lhe pedir

ajuda.

Frustrada, declarei:

– A reunião está encerrada. – E, embora eu devesse ser a primeira a sair, não consegui fazer

com que as pernas funcionassem, por isso quebrei o protocolo, dizendo a eles: – Estão

dispensados.

Era a coisa mais parecida com uma ordem que eu já dera aos Anciões. E tive certeza de que

todos sabiam o motivo de haver dito aquilo: eu precisava ټcar sozinha para enterrar o rosto

nas mãos e chorar.

Dorin fez uma tentativa débil de ficar, dando um tapinha no meu ombro.

– Antanasia... sinto muito.

Mas afastei-me de seu toque.

– Por favor, saia.

Ainda estava sentada com a cabeça apoiada nos braços cerca de uma hora depois, quando

senti uma mão muito mais forte apertar meu ombro. O aperto foi tão poderoso e

reconfortante que eu nem me sobressaltei, mesmo não tendo ouvido ninguém entrar na

sala, pois durante uma fração de segundo pensei que, de algum modo, Lucius havia voltado.

Que todo aquele negócio de detenção tinha sido uma piada ou um equívoco.

Mas quando virei o rosto para olhar meu ombro, não encontrei a aliança reluzente de

Lucius, e sim um redemoinho de tatuagens.

– Antanasia, precisamos conversar, sim?

E foi no instante que ele falou comigo que enټm encontrei o símbolo que havia notado de

forma inconsciente, escondido no meio de todas as tatuagens em redemoinhos: O mesmo

“b” cirílico que tinha visto no diário de minha mãe, desenhado perto da palavra romena

“blestemată”.

Uma palavra e um símbolo reservado para os vampiros amaldiçoados.

CAPÍTULO 46

Antanasia

O escritório de Lucius ټcava perto do salão de reuniões, por isso levei Raniero

até lá para conversarmos.

Sentei-me na poltrona de Lucius, e quando a movi, bati na mesa e a tela do laptop se

iluminou, revelando que ele não tinha se desconectado do e-mail. Havia uma série de

mensagens... que não eram da minha conta, ainda que fôssemos casados.

– Você quer alguma coisa? – perguntei a Raniero. – Está com fome?

– Não, grazie – disse ele, para meu alívio. Eu não seria capaz de enfrentar o fracasso em

mais uma coisa naquele dia, nem que fosse apenas pedir o chá. – Você está muito cansada –

observou ele. – Talvez não queira conversar esta noite.

– Estou cansada, mas não vou conseguir dormir. É melhor conversarmos.

– A reunião foi ruim hoje.

Era uma afirmação, não uma pergunta.

– É... foi ruim. Eu...

Mas Raniero levantou a mão.

– Não precisa contar o que aconteceu. Ouvi tudo da antessala.

Senti as bochechas ficarem vermelhas, mas Raniero balançou a cabeça.

– Não se sinta mal. Você enfrentou Flaviu muito bem para alguém que não foi criada entre

vampiros. Ele é bem ardiloso, sim?

– É – concordei. – Perdi totalmente o controle, e agora Lucius vai ficar sem sangue.

– Este é o modo secular que eles têm de obrigar o acusado a confessar. É o que muitos

chamariam de tortura, mas os vampiros consideram uma atitude muito razoável. – Ele me

lançou um olhar tranquilizador. – Mas Lucius é forte, como você já sabe. Não deve se

preocupar. E acho que você nunca poderia ter evitado isso. Ele deseja, acima de tudo, seguir

a lei. Aprovaria sua atitude.

Eu não conhecia Raniero bem, e tinha motivos para conټar e desconټar dele ao mesmo

tempo. Mas ele era vampiro havia mais tempo do que eu, por isso perguntei, sentindo o

estômago revirar:

– Quanto tempo um vampiro consegue aguentar sem beber sangue? O que acontece de

verdade? Porque eu só ouvi histórias...

– Eu gostaria de ser honesto com você. Embora Lucius seja forte, ele vai começar a ټcar

muito cansado em poucos dias, pois está acostumado a beber com frequência. E antes

mesmo de uma semana é possível que comece a entrar no que os romenos chamam de luat,

ou limbo.

A resposta me deixou perplexa. Eu havia pensado que Lucius teria muito mais tempo.

Semanas, talvez até meses. Meu estômago ficou mais embrulhado ainda quando perguntei:

– O que, de fato, isso significa? É como um coma?

– Não, não é como um coma. É uma coisa diferente. – Raniero me encarou com um olhar

ټrme. – Os vampiros que voltam dizem que é um reino de sonhos terríveis, entre a

existência e a escuridão eterna. Há mortos-vivos que ټcam lá para sempre, incapazes de

retornar mesmo depois de receberem sangue de novo. E os que voltam quase sempre ټcam

transټgurados. Muitos se tornam loucos, ou ټcam à beira da insanidade. – Seus olhos

pareceram escurecer mais ainda, porém ele continuou a contar sem rodeios: – São raros os

casos em que o vampiro retorna inteiro, inalterado.

Fiquei calada. O fogo estalava na lareira, mas não parecia aquecer a sala.

– E, enquanto estiver longe de Lucius, também deve ter o cuidado de beber o suټciente,

Antanasia – lembrou Raniero. – Sei que não vai querer, mas deve. Seu corpo ainda não

precisa da mesma quantidade que o de Lucius, mas agora você é uma vampira, e necessita de

sangue.

Eu estava sentada com um vampiro marcado como indigno de conټança, mas ٽagrei-me

confidenciando:

– Antes de Lucius, só bebi uma vez. – Lembrei-me de quando estava na garagem de meus

pais e bebi sangue. Tinha ټcado com raiva de Lucius por ter me dito o que agora eu sabia

ser verdade: que eu não estava pronta para ser uma princesa. Então peguei um copo que ele

sempre carregava e tomei tudo, dizendo que eu era vampira. – Desde então, só foi com ele.

Isso fazia parte de ser casada: compartilhar o sangue um do outro.

– Não é errado beber para sobreviver – garantiu Raniero. – Se vocês ټcarem separados por

mais do que alguns dias, você deve beber o sangue que estiver disponível aqui, na adega, sem

se sentir culpada. Não é bom para Lucius que você ټque fraca, e ele não iria querer que você

se arriscasse.

Assenti.

– Certo.

Mas eu iria me sentir culpada de qualquer forma.

– Você não condenou seu marido – garantiu Raniero de novo. – É uma cultura cruel que

faz isso, e existe uma boa chance de ele ser libertado antes que você ao menos precise se

preocupar, sim?

Minha voz saiu abafada:

– E se ele não for?

– Lucius é forte. Duvido que ele tenha medo de espectros em sonhos. – O vampiro

misterioso sorriu, mas foi outro sorriso sério, muito diferente de seu riso feliz em nosso

casamento. – Se ele não temeu Raniero Vladescu Lovatu quando aquele vampiro terrível

encostou uma estaca no peito dele, não vai temer demônios da própria imaginação.

Então me lembrei de que Lucius havia insistido recentemente que eu não tivesse medo dos

meus sonhos.

– Você tem o poder de convocar o julgamento dele – observou Raniero.

– Não! – Balancei a cabeça, estarrecida com a sugestão. – Nesse momento todas as provas

apontam para a culpa de Lucius. Eles iriam condená-lo em minutos! – E ele seria destruído no

mesmo instante. Eu nem sequer conseguia suportar o pensamento, a responsabilidade, a

perda. – Eu estaria matando meu marido! – Olhei para Raniero como se estivesse

implorando sua aprovação, pois parte de mim sabia o que Lucius, um sujeito intrépido e

disposto a correr riscos, poderia dizer. – Lucius é forte – acrescentei, talvez tentando me

convencer. – Vai lutar contra esse tal limbo. Não posso convocar um julgamento enquanto

não tivermos provas para salvá-lo.

Raniero deu de ombros, como se a decisão não tivesse tanta importância. Como se as

escolhas de vida e morte não fossem nada. Nesse sentido, ele também se parecia com Lucius.

– Talvez você esteja certa.

Mas dava para ver que ele não tinha se convencido, que pensava no que Lucius faria.

Então ټcamos em silêncio, só nos avaliando, até que o fogo estalou ruidosamente na

lareira e eu disse:

– Acho que é hora de você me contar quem é de verdade, Raniero.

Ele arqueou uma sobrancelha, um maneirismo dos Vladescu.

– Lucius contou a você...?

– Quase nada.

– E você quer saber...?

– Tudo. Conte-me tudo.

Raniero assentiu e, mesmo sentando-se mais rigidamente do que o surټsta que eu

conhecia, de algum modo reconheci o filósofo que havia nele quando me disse:

– Então deveríamos começar pelo começo, sim?

E a história que ele me contou... Era mais complicada e medonha do que eu jamais haveria

imaginado, mesmo quando ele mencionou, quase por acaso, que tinha encostado uma estaca

no coração de meu marido.

CAPÍTULO 47

Antanasia

– Nasci em uma casa de campo nas proximidades de Tropea, Itália, à

vista do mar Tirreno, em uma das famílias de vampiros mais ricas – começou Raniero. – Era

muito amado por meus pais. Bastante mimado pela minha mãe, que é irmã de Valeriu

Vladescu, pai de Lucius.

Eu já conhecia a relação de parentesco. Apesar de se chamarem de irmãos, Lucius e

Raniero eram primos. Mas eu não sabia muito mais do que isso.

– Como sua mãe foi parar na Itália?

– Minha mãe não é igual à maioria dos Vladescu. Ela quer uma vida mais pacíټca do que

esta da Romênia. É igual a mim, não gosta de violenza. Assim, ainda jovem, ela se mudou

para a Calábria, onde existem muitos vampiros, mas também muito sol e risos. Uma cultura

diferente, sim? Foi lá que ela conheceu meu pai, Alrigo Lovatu, e os dois se casaram.

Eu já tinha um milhão de perguntas, mas deixei que ele continuasse.

– Logo depois eles tiveram um ټlho, que chamaram de Raniero, e por muitos anos foram

felizes e não sentiram falta de nada. Principalmente de amor. – Ele me olhou de novo. – Nós

somos incomuns para os vampiri. Amamos muito, como você e Lucius.

– E o que aconteceu?

Ele se remexeu no sofá e apoiou as palmas das mãos no couro, como se estivesse se

preparando para dar más notícias, e eu também fiquei tensa.

– Quando eu estava com 8 anos, os Anciões chegaram à nossa porta e disseram à minha

família que era hora.

– Hora de...?

Meu coração sofria por ele, porque eu já adivinhara a resposta.

– De eu deixar minha família e viajar para a Romênia, onde seria treinado como tenente,

possível sucessor, de um príncipe vampiro que nasceu no mesmo ano que eu. Um príncipe

muito promissor e que está sendo preparado para comandar os clãs. – Ele me lançou um

olhar significativo. – E sendo preparado para se casar com uma princesa.

– E seus pais deixaram você ir? – perguntei, incrédula.

Meus pais biológicos também haviam me entregado, mas para uma família bondosa, a ټm

de me salvar.

E a dor que vi nos olhos de Raniero era um contraste chocante com a expressão suave e

tranquila que ele ostentava quando eu o conheci.

– Minha mãe lutou muito – disse ele. – Lembro-me de como ela chorou, pois conhecia a

Romênia. Conhecia os Anciões. Mas, no ټm, meu pai concordou que nosso dever era servir

ao mundo dos vampiros. – Um lampejo de raiva cruzou o rosto dele. – Talvez meu pai

também fosse ambicioso e quisesse ټcar próximo dos vampiros mais poderosos da terra,

sim? Porque, apesar de os Lovatu serem mais ricos do que os Vladescu, nosso nome não é

tão temido nem tão famoso. Até que eu fui dado.

Arfei, surpresa. Os Lovatu eram mais ricos do que os Vladescu? Eu não podia imaginar.

Mas, claro, esse não era o ponto principal da história.

– O que aconteceu quando você chegou à Romênia?

– Meus novos tios começaram meu treinamento. – Raniero não tentou esconder a

amargura da voz. – Fui obrigado a lutar com Lucius e era espancado quando não atendia às

expectativas como guerreiro, mesmo sendo apenas uma criança. – Seu olhar voltou para

mim. – Mas você conhece essa história.

– Conheço – respondi baixinho. – Lucius me contou que era espancado com frequência.

Raniero assentiu.

– Sim. Mas Lucius foi criado assim desde o nascimento e nunca conheceu nenhum toque

suave. E é corajoso por natureza. Ser derrubado, açoitado ou ganhar cicatrizes só o fez ټcar

mais forte e mais decidido a lutar.

Eu sentia orgulho de meu marido, mas queria chorar por ele, como na primeira vez em

que ele admitira que levava surras – do mesmo modo que eu queria chorar por Raniero

agora.

– E você?

Ele apertou o braço do sofá, de modo que os nós dos dedos ficaram brancos.

– Fiquei fisicamente forte, mas com raiva.

Outra interminável tempestade dos Cárpatos estava em curso, furiosa, e o vento desceu

pela chaminé, estimulando uma labareda, o que me fez dar um pulo. Ou talvez fosse a

expressão de Raniero.

Ele não falou durante um minuto e permiti que ټcasse olhando para o nada. Seu peito

subia e descia, e achei que talvez ele até estivesse praticando alguma técnica de meditação,

tentando se acalmar. Quando enټm voltou a me encarar, parecia menos agitado – mas eu

sabia que o pior da história ainda estava por vir. Eu tinha visto a estaca dele...

– Raniero? – instiguei-o ټnalmente, mas com cautela. – Como você ganhou essa tatuagem

na mão? A que não é símbolo de paz?

CAPÍTULO 48

Antanasia

Raniero olhou para a própria mão como se nunca a tivesse visto – ou talvez

como se a odiasse. Ficou girando-a, examinando os dedos como se fossem seus inimigos

mortais. Depois levantou os olhos outra vez e percebi que não estava mais com raiva. Só

atormentado. E confuso.

– Não sei tudo o que aconteceu – disse ele. – Há um ponto em que tudo pareceu pura

loucura. Quando a pressão cresceu a ponto de virar dor.

Senti um aperto no peito. Eu sabia como era. Também estava cedendo sob a pressão. Tinha

sonhado tão vividamente que era capaz de jurar que havia ferido Lucius...

– Comecei a me sentir cada vez menos capaz de me controlar. – Raniero deu o sorriso mais

amargo que já vi. – E, no entanto, estava me tornando exatamente o que eles queriam: o

maior guerreiro. Tão astuto e cruel que, quando tinha 15 anos, os Anciões decidiram que

Lucius e eu havíamos treinado o suټciente e eu ganharia outra utilidade. Recebi um novo

objetivo.

– Um... objetivo?

– Sim. – Raniero dominou as emoções e me lançou um olhar ټrme. – Fui despachado para

viajar pelo mundo, encontrando vampiros desgarrados e trazendo à justiça.

Encolhi-me um pouco, depois me senti mal. Mas sabia a que ele se referia. Lucius havia

descrito esses vampiros para mim quando explicou como a “justiça” funcionava.

– Fui mandado na função que você chamaria de caçador de recompensas – esclareceu

Raniero, usando a mesma expressão que havia passado pela minha cabeça quando Lucius leu

os livros jurídicos para mim. – E recebi a ordem de destruir os que não viessem para o

julgamento de forma espontânea.

Mal ouvi minha pergunta seguinte, de tão relutante que estava para fazê-la:

– Com que frequência isso acontecia?

Os olhos de Raniero estavam livres de remorso.

– Você está começando a conhecer nossa raça. – Ele fez uma pausa. – Há quem diga que eu

não era um caçador de recompensas, e sim um assassino. Quando Lucius fala em acabar com

os linchamentos como forma primária de justiça para os vampiros, fala de mim e de outros

como eu. Eu era da turba que linchava, mas trabalhava com tanta eټciência que não

precisava de ajuda. Eu era uma “turba” de um homem só.

O vento rugia em volta do castelo e eu olhei para Raniero, não muito certa se estava

horrorizada ou aliviada por saber a verdade a respeito dele. Provavelmente um pouco das

duas coisas. O vampiro que agora não seria capaz de matar um inseto já havia ceifado muitas

vidas.

Mas eu sabia que a história não tinha chegado ao fim.

– Por que eles tomaram sua estaca?

Ele passou a mão pelos cabelos, um gesto que também me fazia lembrar de Lucius. Será que

Lucius está com frio nessa tempestade horrorosa? Será que tem fogo lá para ele se aquecer? Ou

será que está em uma região tão profunda do castelo que nem percebe que o local inteiro está

quase se sacudindo no vendaval?

– É confuso até para mim, mesmo agora – disse Raniero. – No verão, aos 16 anos, voltei à

Romênia para o congresso de vampiros...

Encolhi-me à menção do encontro no qual aconteceria a votação para validar minha

capacidade e a de Lucius para governar – isto é, se conseguíssemos sobreviver até lá.

– ... e, claro, ټquei infeliz por ver os que me transformaram em algo que não queria ser.

Que me deturparam até eu não saber quem, ou o quê, eu era. – Ele pareceu mais confuso

ainda enquanto revivia a lembrança. – E certa noite, tudo deu errado.

– Errado?

– Sim – respondeu ele, mas estava perdido em pensamentos. – Em um momento estava

com raiva, mas controlado. E no outro comecei a fazer coisas que não entendia. Coisas

muito erradas. – Ele balançou a cabeça, parecendo perplexo. – Enټm, sem ao menos saber o

que fazia, destruí um vampiro sem motivo. – Ele deu de ombros, como se aquele ato não

tivesse signiټcado nada na ocasião. – Eu o vi, pequei minha estaca e o destruí, só pela

empolgação. – Raniero franziu ainda mais as sobrancelhas e a testa. – Era como se eu

estivesse assistindo a tudo. Como um sonho, mas era real. Uma allucinazione que eu acordo e

descubro que aconteceu de verdade.

Meus dedos se contraíram nos braços da poltrona de Lucius. Eu tinha diټculdades com o

idioma romeno, mas reconheci a palavra italiana que ele havia acabado de usar. Alucinação.

Tremi tal como as janelas que chacoalhavam ao vento. Será que a pressão daquele lugar era

mesmo capaz de enlouquecer as pessoas?

– Eu nunca havia experimentado nada assim – disse ele. – Antes eu era um assassino, mas

nunca sem ordem dos Anciões.

– E destruir sem ser provocado é o maior dos crimes, não é?

– Sim – conټrmou Raniero. – Tenho sorte por não haver sido destruído pelos que

testemunharam meu ato naquela noite.

– Então por que você ainda está...?

Vivo?

– Lucius dispersou as pessoas, porque, mesmo sendo jovem, já tinha autoridade sobre os

outros vampiros. E no meu julgamento ele implorou pela minha vida. Seu poder era

suټciente para conseguir uma suspensão da pena. – Ele estendeu a mão. – Em vez de morto,

fui marcado como blestemată. Um vampiro que será destruído sem ao menos a garantia de

um julgamento caso cometa outro ato de violência. – Ele baixou a mão. – Claro, nenhum

vampiro marcado assim viveu muito tempo, porque violência atrai violência no nosso

mundo, mas sou grato a Lucius pela clemência. Eu não merecia isso, especialmente dele.

Eu também estava meio confusa com a compaixão de Lucius.

– É, já que vocês lutaram um contra o outro até sangrarem. Como terminaram virando

“irmãos”?

Enfim Raniero voltou a esboçar um sorriso sincero.

– Você não entendeu. Nós éramos obrigados a lutar. Mas os Anciões sabiam que na

verdade isso iria forjar um laço entre nós. Quando não estávamos em batalha, ríamos de

nosso destino fatídico, com a boca sangrando. – O sorriso ټcou mais caloroso. – E éramos

rebeldes juntos também, principalmente quando muito jovens. Não éramos controlados

com facilidade e gostávamos de criar problemas para os tios.

Dei meu primeiro sorrisinho do dia. Conseguia visualizar Lucius como uma criança

travessa. Fiquei feliz por ele ter tido um amigo.

Meu sorriso morreu depressa. E se Lucius não houvesse conhecido a amizade? Será que

teria ټcado igual aos tios? Será que meu marido não possuiria aquele brilho nos olhos e a

disposição de se sacriټcar pelos outros? Será que seria frio e incapaz de amar até mesmo a

mim?

Então percebi que a infância de Raniero tinha sido roubada e desperdiçada por minha

causa, também. E de repente, enquanto percebia a ligação entre aqueles dois vampiros

muito diferentes, também entendi o sacrifício que Raniero estava fazendo ao retornar à

Romênia.

– Você sente como se estivesse arriscando tudo ao vir aqui, não é? Sente que pode perder o

controle de novo, ou ser sugado para a violência que já começou. É por isso que vive desse

jeito, surfando e meditando na praia.

– Eu sigo um novo caminho, sim. – Ele deu de ombros. – Mas devo minha vinda a Lucius,

que não acredita que algum dia vou perder o controle de novo. Ele acredita que posso

ajudar vocês dois sem me tornar aquele vampiro que destrói aleatoriamente; ou que destrói

simplesmente.

Examinei os olhos perturbados de Raniero.

– Quando está aqui, enfrentando as lembranças terríveis da infância, você perde a fé em si

mesmo, não é?

Ele ficou calado por um instante.

– Eu acho que a pergunta, princesa, é se você conټa em mim. Porque agora você ocupa o

trono. Pode me dispensar ou usar minha ajuda, como Lucius quer, e devo admitir que sei

como encontrar e castigar os piores de nossa raça.

Assenti, entendendo minha escolha. Será que eu conټava que Raniero não iria

desmoronar? Eu já o vira agitado, naquela noite mesmo. E se sua sede de sangue voltasse e

ele partisse para cima de mim – ou de Mindy ou de qualquer outra pessoa?

Enquanto o vento rugia ao redor, um pensamento horroroso me abateu. E, se ele perder o

controle e fizer algo terrível, eu serei responsável por destruir meu primeiro vampiro – ou

vampiros. As atitudes dele – e suas consequências – estarão em minhas mãos, porque, de forma

egoísta, eu quis que ele salvasse Lucius, em vez de deixá-lo livre para “seguir seu caminho”.

– Tenho que pensar. – Levantei-me, e ele também. – Preciso de tempo, mas não tenho, não

é? Eu não sabia que Lucius ficaria fraco tão depressa.

Raniero assentiu.

– É, você tem escolhas a fazer, e depressa. – Ele seguiu para a porta. – Vou esperar sua

decisão a meu respeito.

– Raniero? – interrompi-o enquanto ele estendia a mão para a maçaneta. – Mindy...

– Não se preocupe – tranquilizou ele. – Nós gostamos muito um do outro. – E deu um

sorriso triste. – Se bem que ela nem sempre acha isso! – Em seguida fez uma pausa e ټcou

pensativo. – Mas concordamos que não existe futuro.

Notei que ele não disse “para nós”. Era como se estivesse resignado a não ter futuro caso

fosse apanhado pelo mundo que havia abandonado.

– Certo. Só quero que ela fique em segurança, está bem?

– Também quero isso. Não consigo me imaginar fazendo algum mal a ela, mesmo se eu

perdesse qualquer traço de sanidade.

Por algum motivo, acreditei naquelas palavras.

– Ela sabe sobre seu passado?

– Muito pouco – admitiu ele. – Tentei me convencer de que o antigo Raniero não existia, e

de que ela não precisava saber sobre ele. – De todas as coisas que Raniero me dissera naquela

noite, essa conټssão foi a que pareceu deixá-lo mais arrasado. – Claro, eu estava me

enganando. E pior ainda, estava enganando Mindy.

– Eu também me enganei. E a Lucius, ټngindo que era capaz de lidar com essa vida. Não se

sinta tão mal.

– Gostaria que você não contasse minha história a Mindy – acrescentou ele. – Agora não

tem motivo para isso.

– Se você tem certeza de que não há nada entre vocês... Porque, se houvesse, eu teria que

contar.

Deu para notar a dor dele ao dizer:

– Tenho certeza. Não há nada.

Então, enquanto girava a maçaneta, Raniero se virou mais uma vez.

– Esqueci de contar a história de como quase destruí Lucius, instigado por Claudiu.

Congelei.

– E... por que isso aconteceu?

Raniero abriu a porta e deu de ombros de novo.

– Claudiu apenas brincou com a ideia de eu ascender ao trono. Aټnal, na posição de único

outro ټlho existente de uma Vladescu de sangue puro, irmã do pai de Lucius, sou o

próximo na linhagem para governar. Mas isso é uma história para outro dia, sim?

O próximo na linhagem? E Claudiu...?

Fiquei surpresa demais para falar, e Raniero já tinha me deixado de queixo caído e com

muita coisa em que pensar, desde julgamentos, passando pela sucessão, até a revelação

arrepiante de que eu não era a única a ter alucinações naquele castelo... isso sem contar as

consequências terríveis sofridas pelo primeiro vampiro que viu coisas.

CAPÍTULO 49

Lucius

Raniero,

Dentre os vários luxos dos quais sem dúvida sentirei falta (liberdade, luz... alimento) como

prisioneiro em minha própria casa, a tecnologia já está se mostrando importante na lista de

coisas pelas quais mais anseio. (Omito a companhia de minha esposa dessa lista de propósito;

palavras como “anseio” ou mesmo “saudade” são inadequadas para explicar como já me sinto

por ser separado de Antanasia à força. Talvez não haja maneira de descrever, mesmo em meu

vocabulário vasto.)

Avaliando apenas as perdas que posso expressar, eu diria que e-mail, internet e os vários

aplicativos de meu celular constituem as privações mais irritantes.

Pego-me estendendo a mão para meu celular a todo momento, com a intenção de negociar

ações, verificar a situação do mundo – e, devo admitir, desfrutar de um joguinho de polo virtual.

Depois me flagro lembrando que não há “barras” de sinal atrás das barras subterrâneas, e de que

preciso me contentar com a única diversão disponível, que consiste em chutar um rato persistente

e agressivo que parece acreditar que tem direitos de proprietário sobre este canto lamentável do

mundo. (A luta pela supremacia acontece até aqui. Talvez seja travada com mais fervor quando

o prêmio são apenas migalhas de pão!)

O mais perturbador é eu estar nessa posição de “mandar um bilhete” para você

disfarçadamente, como se ambos estivéssemos na Escola Woodrow Wilson. (E, acredite, Raniero,

você tem sorte por não haver passado por essa experiência. Você pode ter sofrido alguns golpes

eventuais no Castelo Vladescu, mas pelo menos jamais suportou um ano de “Conceitos de

Saúde” com o professor substituto de educação física “Vic” Baker. Imagine um curso obrigatório

inteiro dedicado a encorajar indivíduos maduros a escovar os dentes – ao passo que o curso de

economia básica era “eletivo”! Quando o sistema econômico americano desmoronar de uma vez

por todas, pelo menos os moradores terão dentes brilhantes para roer o destino que eles próprios

provocaram!)

No entanto, admito (de má vontade) que a escola tinha certo charme em comparação às

minhas acomodações atuais.

Raniero, a situação é feia. Não faço ideia de como o sangue de Claudiu manchou minha arma,

mas, pelo que começo a deduzir, a trama que se desdobra promete ser, no mínimo, intrigante.

Orquestrar minha destruição empregando contra mim minha própria insistência no primado da

lei... Existe certa elegância que eu até apreciaria mais se não tivesse acabado de chutar um rato.

Mas enquanto reflito, as ideias pulando em minha mente enquanto meu companheiro pula no

meu pé, também penso na sabedoria do perpetrador ao me escolher como primeiro alvo da

trama.

Você e eu fomos treinados como caçadores, Raniero, e a primeira lição que o predador aprende é

derrubar antes a presa mais fraca. Depois, alimentado com essa vítima, ele tem forças para

perseguir uma caça mais poderosa.

Não quero descrever Antanasia como fraca – ainda que ela se perceba cada vez mais assim –,

mas ambos sabemos que sou um inimigo mais poderoso, e enfrentarei esse jogo de modo tão

implacável quanto qualquer oponente. (Sob o risco de transparecer arrogância: mais implacável,

e mais hábil.)

Portanto a pergunta é: será que o vampiro que tenta me sobrepujar é incrivelmente corajoso e

poderoso ou apenas insensato? Ou será que a trama é tão tortuosa que estou deixando de

enxergar algum fato como um todo? Um fim que nem eu imaginei?

Essas são perguntas que precisamos responder – e depressa, irmão.

Também preciso que você “espalhe a notícia”, com discrição, de que, se algum mal acontecer a

Antanasia enquanto eu estiver encarcerado, eu não somente vou derrubar estas paredes, pedra

por pedra, como – assim que estiver livre – vou despedaçar o primado da lei e destruir, com

grande satisfação, qualquer um que provoque em mim a menor desconfiança. Na verdade, se um

fio de cabelo que seja de minha esposa for tocado enquanto eu não puder protegê-la, este reino

verá uma vingança que entrará para os livros de história – para ser lido pelos muito poucos que

permanecerão de pé.

Lucius

P.S.: Você vai notar que optei por me corresponder com você, e não com Antanasia. Ainda que

eu não tenha permissão para receber visitas, no momento não existe regra determinando se posso

me comunicar por escrito. Sei que você, habilidoso na arte de criar subterfúgios, saberá trocar

mensagens sem atrair atenção para esta “região nebulosa”. Além disso, se eu começasse a parecer

fraco ou incoerente, só serviria para preocupar Antanasia e distraí-la dos deveres que ela deve

cumprir com coragem. É melhor que ela não testemunhe quando eu – sejamos diretos –

inevitavelmente vacilar, caso meu encarceramento continue. Resumindo: sua total discrição sobre

nossas comunicações faz-se necessária.

P.P.S.: Se sua resposta incluir uma breve atualização de como estão os jogos da NBA, ficarei

muito grato.

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