sábado, 5 de outubro de 2013

CSUVA - 35-36-37-38-39

CAPÍTULO 35

Mindy

Eu não sentia medo por estar no castelo de Jess – até por volta da meia-noite,

quando me vi sozinha na cama, os bolinhos tinham acabado, o fogo na lareira foi ټcando

menos vívido e comecei a me perguntar se o vampirinho bonito chamado Emilio

continuava à porta do meu quarto, pois não havia nenhum barulho.

Joguei as cobertas para o lado, fui até a porta na ponta dos pés, destranquei a fechadura e

abri só uma fresta.

Emilio saltou, alerta.

– A senhorita deseja... alguma coisa?

– Ah... não. – Fechei a porta, feliz por ele ainda estar ali. Mesmo tendo consciência de que

ele era um vampiro. Virei a chave. – Mesmo assim, obrigada – gritei.

Então, só para garantir, fui para o outro lado do quarto veriټcar se as janelas também

estavam trancadas, mesmo sabendo que meu quarto ټcava, tipo, no quinto andar, dando

para a frente do castelo, de modo que eu tinha uma vista fantástica do grande vale que

parecia prestes a engolir o lugar inteiro. Eu sabia que os vampiros não voavam como os

morcegos, como nos filmes – eles surfavam –, mas era melhor não me arriscar.

Quando cheguei à primeira janela e olhei para fora, vi que estava nevando. Flocos grandes

e redondos passavam pela janela. Encostei a cabeça no vidro, olhando para o pequeno

círculo de luz que marcava a porta da frente – bem onde Claude tinha sido “destruído”, que

era a palavra que os vampiros sempre usavam. Não eram mortos, e sim “destruídos”.

Então pensei ter visto uma coisa se mexendo perto daquela luz e pisquei duas vezes.

Estava escuro lá embaixo, mas por acaso aquilo era alguém andando na neve..?

Era...?

Não!

Pisquei de novo e a pessoa – ou vampiro – sumiu, e comecei a veriټcar todas as fechaduras

feito louca, duas vezes, depois pulei de volta na cama e puxei as cobertas até o queixo,

pensando que talvez algo naquele lugar ټzesse a gente realmente ter alucinações, pois eu

também estava começando a ver coisas.

CAPÍTULO 36

Antanasia

Encostei a cabeça no peito de Lucius, tentando desfrutar do ritmo lento da

égua, que escolhia o caminho pela neve funda que havia caído durante a noite. Mas as

perguntas ainda sem resposta que tinham me mantido acordada a noite inteira continuavam

arruinando o que deveria ser uma cavalgada tranquila ao amanhecer na silenciosa ٽoresta

dos Cárpatos.

Como o sangue de Claudiu foi parar na estaca de Lucius? Como vamos explicar isso? Porque

não podemos...

– Lucius? – Comecei a me remoer de novo e ouvi ecos de Dorin em minha voz. – O que

vamos dizer aos Anciões?

– Tente não se preocupar agora, Jessica – disse ele, e apertou minha cintura com mais

força.

Claro que eu era uma amazona boa o suټciente para montar meu cavalo sozinha, mas

Lucius quis que cavalgássemos juntos naquela manhã e nem se deu ao trabalho de selar uma

das poucas éguas mansas do estábulo que ele gostava de preencher com montarias ariscas.

– Vamos dizer a eles o pouco que sabemos – aټrmou. – Exatamente como discutimos. – Ele

roçou o nariz em minha nuca, sussurrando: – E agora, como não podemos fazer mais nada,

vamos só aproveitar que estamos juntos, certo?

– Vou tentar.

Mas eu não entendia como ele conseguia aproveitar qualquer coisa naquele momento e me

encolhi dentro do casaco, porque estava com muito frio. Não era frio de temperatura nem

de vampiro, e sim frio de medo.

Talvez pudéssemos continuar cavalgando até outro país. A Moldávia fica perto e ninguém iria

nos procurar por lá.

Continuamos em silêncio por uns 20 minutos e comecei a ter esperanças de que talvez

estivéssemos mesmo indo para a fronteira, até que de repente a égua saiu da região coberta

por uma densa copa de árvores rumo a uma clareira cinza e tristonha, e então percebi onde

estávamos. Pressionei o meu corpo contra o de Lucius, tal como havia feito na noite

anterior quando ele me mostrara a sala cheia de estacas – mas desta vez para ټrmar meu

corpo, pois aquele lugar...

A oportunidade de enfim conhecê-lo fez com que eu me encolhesse de modo diferente.

CAPÍTULO 37

Antanasia

O portão de ferro preto do cemitério onde nossas famílias estavam enterradas se

destacava contra a neve, e permaneci rígida mesmo quando Lucius abriu a tranca e estendeu

a mão, dizendo:

– Por favor, Jessica. Não há o que temer aqui.

Ah, há sim...

Mas o que eu podia fazer, além de dar um passo relutante à frente e me juntar ao príncipe

que me chamava? Assim que passei pelo portão percebi que, no reino dos vampiros, a morte

espelhava a vida. Nem precisei perguntar qual dos dois mausoléus maiores – obviamente

túmulos das famílias reais – pertencia aos Vladescu e qual pertencia aos Dragomir.

Os Vladescu – pelo menos os reis e rainhas – repousavam em uma estrutura altíssima

pontuda e negra, feita de pedra e mármore, que ecoava o castelo gótico que podia ser visto

se assomando à distância.

E meus pais... Sem precisar perguntar, eu sabia que seus corpos estavam dentro da cripta

mais baixa e discreta de mármore branco, do lado oposto do cemitério.

Parei, e Lucius também.

– Ficamos separados mesmo na morte – disse ele com reverência silenciosa. – Como

vampiros, somos segregados dos humanos e obrigados a enterrar nossos cadáveres neste

lugar escondido no alto das montanhas. Mas nos dividimos dentro deste cemitério também.

Sua família ټca longe da minha, como se nunca pudéssemos compartilhar a terra. – Ele me

olhou. – Isso me parecia natural, até me apaixonar por você.

Eu nunca me cansava de ouvir Lucius declarar que seu amor por mim havia apagado o

ódio por minha família que provavelmente estava entranhado nos genes dele. Mas eu não

desejava enfrentar aquilo. Pelo menos não naquele momento.

– Não quero ver mais nada – falei, sem me mexer quando ele recomeçou a avançar.

Lucius parou e eu olhei seu rosto, então pensei que ele fosse protestar e me empurrar para

que me aproximasse dos túmulos das duas famílias. Ele já vinha me pressionando em direção

àquelas criptas – para enfrentar a perda de meus pais e nosso possível futuro – desde a noite

na Pensilvânia em que me mostrara sua valiosa genealogia. E também manteve uma das

mãos pousada em meu ombro enquanto eu assinava meu nome em nossa certidão de

casamento, dando mais um passo para perto daquele lugar.

Só que desta vez resolvi ser incisiva.

– Não vou chegar mais perto – insisti. – Pelo menos não hoje.

Já estou enfrentando coisas demais. Não consigo encarar a destruição de meus pais de cabeça

erguida. Ou o que pode acontecer com a gente, pois apesar de termos uma chance de

imortalidade, também podemos acabar aqui.

Durante mais de um segundo Lucius pareceu a ponto de protestar, depois assentiu.

– Claro. Tudo a seu tempo.

Talvez nunca conseguisse. Como não consegui participar do julgamento nem aplicar a justiça...

– Por que estamos aqui? – perguntei, examinando o rosto dele. Talvez eu estivesse evitando

olhar o mausoléu de minha família. – Por que hoje?

Os olhos de Lucius não ofereciam muito consolo. Estavam sepulcrais como... as sepulturas

ao redor, e ele segurou minhas mãos, por isso pensei mais uma vez em meu casamento.

Estávamos ali de pé como noivos. Mas eu também não queria pensar nisso bem ali, no

cemitério.

– Antanasia, o que nos espera nas próximas horas, e talvez nas próximas semanas, pode ser

muito ruim. – Ele juntou as palmas de minhas mãos e seu olhar pousou sobre as criptas que

ele não tinha medo de encarar. – E até descobrirmos quem destruiu Claudiu, você vai ter

que ser tão ټrme e forte quanto essas pedras à nossa volta, filha da formidável Mihaela

Dragomir.

Eu sabia que Lucius adorava simbolismos e metáforas, mas naquele momento eu os odiava.

E me senti quase envergonhada ao ser comparada à minha mãe poderosa, porque estava

começando a ficar óbvio que eu não era igual a ela.

– Será que a gente pode ganhar algum tempo? – sugeri. – Adiar a reunião, pelo menos?

Não seria o mesmo que fugir.

Mas Lucius balançou a cabeça.

– Não, Jessica. Estamos tentando criar uma nova ordem entre os vampiros. Concordamos

que precisamos do primado da lei. Que mensagem eu transmitiria se tentasse fugir da

estrutura que nós mesmos estamos estabelecendo?

Eu odiava aquilo também: o fato de eu concordar – em tese – com a necessidade de

atualização de nossos clãs.

– Um governante que desaټa as próprias leis não é um príncipe, e sim um déspota –

acrescentou Lucius. – E não queremos ser déspotas, não é?

– Neste momento não tenho muita certeza.

Lágrimas começaram a fazer meus olhos arderem.

Por que Lucius Vladescu teve que escolher esse momento para abraçar o primado da lei

democrática? Na Pensilvânia, ele falava incessantemente sobre realeza, autocracia e sobre

como os “camponeses” precisavam de uma “mão ټrme”. Mas minha família o havia

transformado. Ensinamos um príncipe a dobrar a própria roupa lavada e acabamos

mudando tudo.

Lucius sorriu, como se soubesse o que eu estava pensando. Depois me puxou para perto e

insistiu:

– Chore agora, Jessica, para que isso não aconteça quando eu for levado embora, pois no

nosso mundo não existe ټança. Claro que serei detido, já que o crime é a destruição e as

provas são contundentes. Essa também é nossa lei.

– Claro – concordei, como se estivesse fazendo todo sentido.

Mas na minha mente eu ficava repetindo as palavras dele. Levado embora... Ele vai ser levado

para longe de mim...

Fiquei aterrorizada por ele. Será que Lucius teria que se posicionar de novo naquele

círculo desgastado no tribunal? Será que a situação chegaria tão longe? E uma parte menor

minha estava apavorada por mim mesma. Com medo de ټcar sozinha, tentando governar

sem ele.

– E se não conseguirmos descobrir quem destruiu Claudiu? – perguntei, quase incapaz de

pôr as palavras para fora.

Lucius agarrou meu queixo.

– Vamos encontrar a verdade. A verdade sempre é revelada no fim.

Minha família tinha oferecido uma boa dose de televisão a ele também...

– Nós não estamos em um seriado de investigação policial – lembrei. – E nem sei como

começar a buscar a verdade, principalmente se você não estiver livre para me ajudar.

Lucius sorriu de novo.

– Sua inteligência foi uma das primeiras coisas pelas quais me apaixonei, Jessica. Isso e sua

habilidade para limpar os estábulos – provocou. Seus olhos se enevoaram um pouco. – E,

conforme nós dois sabemos, eu possuo, para o bem e para o mal, uma vasta experiência na

área das tramas diabólicas. Tenho certeza absoluta de que, juntos, vamos descobrir quem

destruiu Claudiu. Talvez o encarceramento seja bom, porque não terei nada além de tempo

para pensar e desvendar a trama.

– E lá se vai o voto de conټança e nossa coroação – consegui dizer, enxugando uma

lágrima que caía. – Acho que isso realmente já era!

Lucius deslizou as mãos para cima, segurou meus braços e ficou sério.

– Primeiro vamos nos preocupar em provar minha inocência, depois pensaremos na

coroação. Mas não perdi a esperança em relação a nenhuma das duas coisas.

Meu queixo começou a tremer e não consegui controlar o choro.

– Ah, Lucius...

Enterrei as mãos sob o casaco dele e comecei a soluçar, e quando ټquei sem lágrimas ele

segurou meus braços de novo e, pela primeira vez desde o casamento, me afastou só um

pouquinho, como se já estivesse me obrigando a me virar sozinha, mesmo eu não estando

nem um pouco preparada.

– Antanasia – disse ele baixinho, porém com ټrmeza. – Sei que é difícil para você enfrentar

este lugar hoje. E não vou ټngir que sou mais sábio do que você. Mas sei alguma coisa sobre

sofrimento, e aprendi há muito tempo, tanto experimentando a violência quanto prevendo-

a, que o medo é o pior tipo de sepultura, pois enterra gente viva. Como seu marido, eu

imploro: não se coloque em um túmulo prematuramente, porque, como todos aqui

atestariam se pudessem, nossa hora já chega cedo demais.

Naquele momento eu estava perturbada demais para poder assimilar suas palavras sábias.

– Vamos embora – falei, ainda sem olhar a cripta branca que se erguia sobre a neve mais

branca ainda. Nem a preta, por sinal. – Eu gostaria mesmo de sair daqui.

– Claro. – Ele olhou para o céu. – Parece que há outra tempestade vindo aí, não é?

– É – concordei, sem me dar ao trabalho de olhar as nuvens.

Não precisava. Sempre havia algum tipo de tempestade se formando nas montanhas.

Cavalgamos de volta em silêncio enquanto o vento aumentava e chegamos em casa assim

que a nevasca piorou, mais forte ainda que o normal, fato que tinha algum signiټcado nos

Cárpatos. Até os cavalos mais selvagens de Lucius pareceram se encolher nas baias, como se

soubessem que a coisa ficaria feia.

– Lucius. Princesa.

A voz baixa veio das sombras do celeiro escuro, dando um susto em mim e na égua que

Lucius puxava para a baia. Ela refugou e quase me derrubou quando Lucius e eu nos viramos

e demos de cara com um vampiro que eu não tinha previsto que voltaria a ver – talvez nunca

mais – e que devia ter chegado no meio da noite.

Lucius, no entanto, não pareceu nem um pouco surpreso.

CAPÍTULO 38

Antanasia

– Raniero. – Lucius largou a rédea e estendeu a mão para o primo que ele

chamava de irmão. – Que bom ver você! Se bem que eu não esperava encontrá-lo aqui.

O surټsta hippie-retrógrado que eu não via desde nosso casamento se aproximou, tirando

as mãos dos bolsos para apertar a mão de Lucius.

– Dormi no estábulo esta noite – disse ele com seu sotaque italiano carregado. – Cheguei

muito tarde e não quis incomodar vocês. – Ele me olhou. – Ouvi quando vieram pegar o

cavalo hoje cedo, mas estava com preguiça demais para sair de debaixo do cobertor e dar

um oi.

– Acredito que você estivesse com preguiça – comentou Lucius, rindo. – Mas também acho

que você dormiu aqui porque preferiu não entrar no castelo. Queria evitar o destino pelo

maior tempo possível.

Raniero sorriu, mas não era exatamente a expressão plácida e descuidada que ele ostentara

durante quase todo o nosso casamento.

– Não ligo mais para opulência.

– É, parece que você abriu mão disso, assim como o gosto por usar calças.

O sorriso de Raniero ټcou um pouco mais caloroso com a brincadeira, mas o corpo devia

estar congelando, pois ele estava de fato usando uma bermuda verde-oliva desbotada e uma

camiseta marrom com a propaganda de um tal Terrible Taco. Bem no meio do peito dele

estava o desenho de um taco, o prato mexicano, no estilo monstro Godzilla esmagando uma

cidade, com alface voando para todo lado.

Os vampiros eram frios por natureza, mas não éramos ursos-polares e precisávamos de

mais do que uma camiseta em meio a uma nevasca. Olhei para seus braços nus. Aquelas

tatuagens também não iriam mantê-lo aquecido.

Qual é a dessas tatuagens? E por que ele não quis entrar?

De repente me lembrei de uma coisa na qual não havia pensado desde que tinha sido

distraída pelo sangue de Claudiu na estaca de Lucius. Por que a arma de Raniero está

aposentada – e coberta de sangue?

– Hum, não quero ser grosseira – falei, interrompendo o que obviamente era uma conversa

que só os dois entendiam. – Mas por que Raniero está aqui? – perguntei a Lucius.

Ele pegou a rédea da égua outra vez.

– Desculpe se não contei que ele viria se juntar a nós. Eu estava meio preocupado, achando

que ele poderia desafiar minha ordem de vir, o que teria me colocado na difícil posição...

– … de ter que me destruir por insubordinação – completou Raniero. – Por isso ټz o

obséquio de responder à convocação do príncipe Lucius. – Ele se virou para mim e eu não

soube se estava brincando quando acrescentou: – Preټro não obrigar meus melhores amigos

a me matarem. Meu desejo é não fazer mal!

Eu estava ficando mais confusa.

– Então por que...?

Lucius deu um tapa na anca da égua, mandando-a para a baia.

– Antanasia, nós dois sabemos que a lei é clara. Eu serei detido. E, apesar de você estar

crescendo em seu papel – Ha, ha, até parece! –, vai precisar de proteção. Mais do que

Emilian pode oferecer. – Ele olhou para o primo, que estava cabisbaixo, as mãos nos bolsos

de novo. – Confio em Raniero para cuidar de você.

Fiquei apavorada diante da ideia de que Lucius pudesse mesmo ser preso. Mas, quando

olhei para Raniero, quase gargalhei. Ele ia me proteger? Falando sério: o cara conseguia ser

menos sanguinário do que o taco em sua camiseta.

Então pensei na estaca aposentada e meus olhos tentaram acompanhar as tatuagens

estranhas dele sob a penumbra. Havia algo ali... e talvez algum método na loucura de Lucius.

– Antanasia, você se importa se eu conversar com Raniero enquanto andamos? – Lucius

olhou para nós dois. – Haverá muitas oportunidades para vocês se conhecerem melhor, mas

esta pode ser a última chance de eu colocá-lo a par da situação. E no café da manhã

poderemos discutir o que provavelmente acontecerá a seguir.

Meu coração quase parou à simples menção do que aconteceria a seguir, mas tentei ser tão

corajosa quanto Lucius.

– Claro. Conversem à vontade.

Então Lucius deu um tapa no ombro de Raniero e começou a guiá-lo para o castelo onde

ele não queria entrar por algum motivo, os dois vampiros conversando em uma mistura do

que parecia romeno, italiano e inglês, e talvez um pouquinho de alemão para completar.

Segui os rastros que eles deixavam na neve, os olhos indo das costas retas de Lucius, com a

capa longa e escura e os cabelos negros bem cortados, para os ombros caídos de Raniero, a

bermuda completamente inadequada e a juba ondulada revolta e cheia de reflexos dourados.

O contraste era grande, no entanto as cabeças dos dois estavam bem perto uma da outra e

eles se comunicavam com facilidade na mistura de idiomas – e não havia dúvida de que

eram ټsicamente equivalentes. Raniero era só um pouquinho mais baixo, talvez por causa da

postura, mas tinha o mesmo corpo esguio e musculoso.

Mesmo assim, eu não conseguia imaginá-lo me protegendo como Lucius fazia.

Fechei mais o meu casaco por causa da tempestade que aumentava.

Para começar, eu não conseguia me imaginar ali sem Lucius para me proteger. Não

poderia governar sem ele. Seria destruída, se não literalmente, pelo menos ټgurativamente,

como princesa.

Quando chegamos perto o bastante do castelo para enxergá-lo com clareza através da

neve, notei movimento em uma janela e ergui os olhos, notando que Mindy observava nós

três, e a expressão dela...

Era como se um de nós já fosse um fantasma.

CAPÍTULO 39

Antanasia

Passei a maior parte do café da manhã em silêncio enquanto Lucius e Raniero

continuavam a conversar naquela confusão de idiomas.

Os empregados entravam e saíam, servindo o café forte e doce que Lucius preferia e chá

para mim e Raniero. Por força do hábito, peguei um pedaço do pão que era servido quase

todo dia, seguindo a tradição romena. Mas não o comi. Era como se tivesse ټcado

entorpecida lá na neve. Entorpecida e hipnotizada.

Flagrei-me examinando sem parar aquela profusão de tatuagens que me lembrava um jogo

com o qual eu costumava brincar na infância: Encontre os objetos escondidos nesse desenho.

Raniero pousou a mão na mesa, sem comer nada também, e graças a anos vivendo com um

pai hippie-retrógrado consegui identiټcar um “om” escrito em devanágari, os caracteres

chineses que signiټcavam “paz” e a mão aberta dos jainistas, que prometiam não fazer o mal,

tal qual Raniero.

– Antanasia?

A voz de Lucius me trouxe de volta à realidade e percebi que os dois vampiros me

observavam com atenção enquanto eu olhava o braço de Raniero.

– Sim?

– Raniero, como sempre, deu uma sugestão muito boa – disse Lucius.

Olhei para o cara com a camisa de taco e cheguei à conclusão de que não lhe pediria nem

mesmo uma simples informação caso o visse na rua. A não ser que eu quisesse achar uma

praia ou um bom burrito.

Então olhei para o rosto dele mais atentamente. Será que havia uma nova fagulha em seus

olhos?

Quem é ele?

– Qual é a sugestão?

– Você está interessada em estabelecer o primado da lei, sim? – perguntou Raniero. – E

também quer deixar claro que está no poder, que tem autoridade, sim?

Assenti com cautela.

– Sim...

– Então acho melhor que você ordene que Lucius seja detido, e que depois supervisione o

procedimento pelo qual ele será aprisionado.

Larguei o pão que eu estivera esmigalhando e encarei os dois, incrédula. E eu tinha

considerado ruim o plano de minha prima sobre a apresentação das estacas. Pelo rosto de

Lucius, porém, dava para notar que era assim que as coisas iriam se desenrolar. Mas eu

precisava protestar, de um jeito ou de outro.

– Vocês estão brincando, não é? Não posso ordenar que você seja preso!

Mas Lucius balançou a cabeça.

– Raniero está certo, Antanasia. Se você exigir minha detenção, os Anciões vão considerá-

la uma pessoa poderosa e vão entender que estamos falando sério sobre cumprir a lei.

Haverá uma votação, claro, mas é você quem deve controlar os acontecimentos posteriores.

Balancei a cabeça.

– Mas...

– Você precisa se provar como soberana hoje – insistiu Lucius. – Como diriam seus

compatriotas americanos: vamos tirar as rodinhas da bicicleta. E agora.

De repente tive uma lembrança muito nítida do tombo de bicicleta que levei quando meu

pai me deixou andar sem aquelas duas rodinhas de apoio pela primeira vez. Bati direto em

uma árvore perto de nossa casa.

– Não sei, Lucius...

– Na verdade, não há opção – disse ele. – Querendo ou não, você vai assumir o poder esta

tarde.

Os olhos dele se suavizaram, como se soubesse que eu não conseguia me imaginar dando as

ordens que iriam tirá-lo de mim, mesmo que ele não fosse muito além das catacumbas nas

profundezas do castelo. Principalmente se fosse para lá.

– É apenas simbólico, Antanasia – continuou ele, me encorajando. Lucius estava de fato

lendo minha mente. – Você consegue. Vai lhe parecer errado, mas na verdade é um gesto

por nós. Para sua proteção e nosso futuro.

Eu não me achava capaz de fazer o que ele estava pedindo. Mas não podia dizer nada – até

porque Raniero estava nos observando – a não ser:

– Certo. Vou dar a ordem.

Então afundei na cadeira, não muito diferentemente de Raniero.

Meu primeiro decreto como princesa vai ser ordenar que meu marido seja acorrentado e preso.

E, mesmo tendo muito com que me preocupar, notei que Mindy – que com certeza estava

acordada e adorava um bom café da manhã romeno, até mais do que eu, quando eu ainda

comia – não tinha se juntado a nós à mesa.

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