sábado, 5 de outubro de 2013

CSUVA - 86-87-88-89-90

CAPÍTULO 86

Mindy

– Melinda Sue, não acredito que Ylenia Dragomir represente algum tipo de

ameaça a Antanasia ou a qualquer pessoa – disse Raniero. Ele se levantou da cama e

começou a vestir a camiseta cinza que havia sido tirada enquanto nos beijávamos, de modo

que voltou a se assemelhar ao novo Raniero. Ele passou a cabeça pelo tecido, depois os

braços, os mesmos que eu ainda podia sentir em volta de mim... e que não sentiria de novo. –

Ela é tímida por natureza, e meiga.

– Ela foi ousada o bastante para se aproximar de um assassino em uma festa – comentei.

– Ela sentiu pena de mim, Mindy Sue. E tinha medo de mim, mas a pena foi maior do que

o medo. Eu me lembro de como ela se aproximou de mim, como se fosse um pássaro

nervoso chegando perto de um leão ferido!

Não sei por que um pássaro se aproximaria de um leão, ferido ou não.

– E então ela implorou que você a transformasse em uma vampira completa. Isso é que é

coragem!

Ainda doía muito dizer aquilo e imaginar a prima de Jess com o cara que estava sentado na

cama calçando os tênis descolados que também tinham sido removidos durante o beijo. Ele

deveria ser meu, mas agora nunca seria. A culpa era ao mesmo tempo minha e dele.

– Foi uma noite estranha, Melinda, e acredito que ela estivesse sofrendo também. – Ele

puxou os cadarços com força. – Ela estava como eu naquela noite. Sozinha. Acho que

sempre foi uma garota solitária. Eu a vi no Ateneu, e ela sempre ټcava olhando para mim e

para Lucius de sua poltrona, lá nos fundos. E estava sempre sozinha.

Arregalei os olhos.

– Você se lembra dela? Porque ela sem dúvida se lembra de você lá.

Ronnie apenas deu de ombros e começou a amarrar o outro tênis.

– Eu sou um assassino treinado para vigiar um príncipe, Melinda Sue. Noto todo mundo.

Sobretudo os que olham para Lucius e para mim no meio de multidões. – Ele se aprumou de

novo. – Acho que você é boa querendo ajudar Antanasia, mas o que nós enfrentamos aqui

não tem nada a ver com uma colegial infeliz. É uma tentativa de derrubar um governo e

destruir um príncipe. – Sua voz ټcou baixa. – Tenho quase certeza de que o que ocorre no

momento é obra de Flaviu Vladescu. É só uma questão de criar uma armadilha para ele.

Engatinhei até a beira da cama e me sentei ao lado dele. Não deveria ter tocado nele, mas

segurei sua mão de novo.

– Ronnie, você pensa como... a realeza, e sabe tudo sobre tramas para derrubar príncipes.

Mas eu conheço estudantes magoadas e ciumentas, e estou dizendo que, mesmo que Ylenia

não tenha matado seu tio Claudiu, ela está metida nisso de algum modo. E se você quiser

ajudar Jess e Lucius, comece a vigiá-la mais de perto.

Dava para ver que ele continuava não engolindo o que eu dizia, mas me encarou.

– Você acredita mesmo nisso?

– Acredito. Acho que ela tem todo tipo de segredos e raiva reprimidos naquele corpinho,

e, se eles derramarem, vão explodir.

– E como você sugere que eu exponha esses segredos? Porque não acho que ela vá me

contar nada. Principalmente depois do que fiz com ela.

Eu não queria dizer, mas precisava. E a coisa entre mim e Ronnie já era mesmo. Não

importava o que ele fizesse com outra garota.

– Talvez... – comecei. – Talvez você devesse só... tentar conhecer Ylenia melhor. Convide ela

para fazer alguma coisa...

Ele arqueou uma sobrancelha de repente.

– Você está dizendo para... convidar Ylenia Dragomir para um encontro?

Não, eu não queria dizer isso. Mas confirmei.

– É. Tipo isso.

Ele balançou a cabeça com força e puxou a mão da minha.

– Mindy Sue, eu já ټz mal a ela. Não posso usá-la como se fosse um brinquedo. – Ele olhou

aquelas estacas às quais não estávamos nos referindo. – Sobretudo porque estou

amaldiçoado. Sobretudo porque não acredito que ela tenha cometido nenhum crime pior

do que ser uma garota solitária!

– Escute, Raniero... – Eu me atrapalhei com as palavras, porque de repente sabia estar

dizendo uma coisa bem diferente de minha ideia original, mas que também devia ser

verdade. – Mesmo que você não acredite que ela é sinistra, como eu acho, especialmente se

não acredita nisso, talvez, só para fazer a coisa certa, você devesse pelo menos pedir

desculpas e deixar que ela decida se quer ter alguma coisa com você. – Eu não conseguia

olhá-lo mais. – Talvez, considerando a importância do que vocês dois ټzeram juntos...

talvez, só talvez, vocês devessem ao menos conversar.

– Mindy Sue...

Ele parecia chocado com o que eu dizia.

Seria porque eu estava mesmo afastando-o? Não do mesmo jeito que fazia quando rompia

com ele, esperando que voltasse, ou mesmo dizendo para ele ټcar com uma garota para

descobrir suas tramas, mas sugerindo com todas as letras que, se ele não acreditava que

Ylenia fosse uma vaca cheia de armações, provavelmente devia alguma coisa a ela. Talvez dar

uma chance de ficarem juntos.

De repente não estávamos falando só de um plano para ajudar Jess.

Mas de eternidade. Para sempre.

– Você acredita mesmo que estou errado em nunca mais mencionar aquela noite terrível?

– perguntou ele. A voz saiu muito baixa. – Que estou errado em me manter longe de Ylenia

e em deixá-la livre de mim?

Continuei olhando para o chão.

– É. Talvez. – Senti as lágrimas começando a brotar, mas me obriguei a encará-lo. – Se você

me mordesse daquele jeito, eu pelo menos iria querer que tentasse me conhecer. Que nos

desse uma chance, e não que fizesse parecer a pior transa da sua vida.

Ele balançou a cabeça.

– Não há chance. Não há futuro. Sobretudo neste lugar.

– Se você acredita mesmo que ela é inocente e meiga – repeti –, então precisa dar a

oportunidade de ela decidir isso também.

Os olhos de Raniero reٽetiram um milhão de mudanças. Eu nem sabia dizer o que ele

estava pensando, mas de repente pareceu se decidir e falou:

– Se isso é o que você acha certo, quaisquer que sejam os motivos em seu coração, vou fazer

o que pede. Vou pelo menos conversar com ela, ver se ela tem algum desejo de pegar o erro

que já cometemos e prolongá-lo mais ainda, junto comigo.

Ele se levantou e foi para a porta, chutando a serragem. Eu não soube dizer se ele estava

com raiva de mim ou de si mesmo – ou se não estava com raiva nenhuma. Raniero só

parecia... frio. Totalmente desligado.

– Aonde você vai?

– Nós vamos para o seu quarto. É hora de concluir a transformação que comecei. Agora

não há como recuar.

Acompanhei-o pela porta, e só muito, muito tempo depois percebi que eu não tinha

perguntado sobre aquelas estacas no chão, mesmo tendo quase tropeçado nelas de novo por

causa das lágrimas que ainda borravam meus olhos.

CAPÍTULO 87

Antanasia

– Vă mulţumesc. – Tirei os fones do ouvido e afastei o livro de exercícios e o

iPod, que eu havia carregado com o Fluente em cinco minutos, a ټm de abrir espaço na

penteadeira para a bandeja trazida pela serviçal. – Vă rog. Sticla. Masa.

Só usei poucas palavras, “por favor”, “garrafa” e “mesa”, mas também apontei um pouco,

de modo que ela entendeu e pôs o sangue e a pequena taça de prata onde eu queria.

– Vă mulţumesc.

Lucius poderia não ter agradecido duas vezes, como eu, mas eu deټnitivamente estava

melhorando em dar ordens. A serviçal usou um instrumento de estanho manchado, como

um saca-rolhas antigo, para abrir a garrafa, mas antes que pudesse servir eu a dispensei

dizendo: Ești demis.

Ela fez uma reverência silenciosa, saiu do quarto e eu assumi, servindo uma dose generosa

do sangue que havia pedido. Ainda não queria fazer aquilo, mas precisava estar forte para a

reunião que tinha convocado para aquela tarde. Ergui a taça e cheirei o conteúdo. O líquido

grosso não era tão pungente quanto o sangue que Dorin havia trazido para mim, e dava

para sentir o cheiro da mistura de ervas usadas e da rolha apertada para impedir que ele

coagulasse na garrafa. Mas ainda que aquele sangue não fosse ofensivo ao meu nariz, não

tinha o cheiro inebriante e delicioso do de Lucius, e eu não bebi de imediato. Fiquei um

pouco aliviada quando alguém bateu à porta, de modo que pude pousar a taça.

– Entre. Intră!

– Antanasia, você está linda. – Dorin entrou no quarto e fechou a porta. – Muito régia!

Fiquei mais ereta no terno escuro que tinha escolhido.

– Obrigada. Quero que pareça que estou levando isso a sério.

– E está, e está! – Ele franziu a testa. – Mas por que vai reunir os Anciões? Todo o castelo

está morrendo de curiosidade. – Ele contorceu as mãos. – Há alguma novidade? Você

descobriu alguma coisa sobre Claudiu?

Eu queria contar tudo ao meu tio, mas as palavras de Raniero, dizendo que a surpresa era

uma arma, me contiveram, assim como a mão dele havia feito na masmorra. Não que eu

precisasse surpreender meu próprio tio, mas ele tinha dificuldade para guardar segredos.

– Só acho que é hora de avançar – respondi vagamente. – E mostrar que estou no

comando.

– Bem, acho que isso é bom. – Dorin atravessou o quarto para se juntar a mim e franziu a

testa de novo quando viu a garrafa em minha penteadeira. – Mas o que é isso?

Notei então que ele segurava uma bolsa enټada na dobra do braço, daí ele a abriu e pegou

uma garrafa verde e rotulada à mão. Franţa 1977. Em seguida se curvou para olhar de perto

o sangue que eu havia pedido – que também tinha um rótulo: Romănia 1872. Depois, se

empertigou e balançou a cabeça.

– Não, Antanasia, eu trouxe coisa melhor. Você ainda não sabe pedir a bebida. Esse sangue

não vai ter gosto bom. O sangue romeno dessa época é famoso por ser ruim.

Ele começou a afastar a taça, mas eu o ټz parar e ټquei surpresa ao descobrir que, só de

lidar comigo, sem Lucius por perto, ele estava meio trêmulo.

Será que ele sempre treme?

– Vou beber este mesmo – falei. – Eu realmente não me importo com o sabor. Mas, mesmo

assim, obrigada.

No entanto, Dorin foi em frente e abriu a garrafa com uma torção da mão direita, ainda

balançando a cabeça.

– Não, não... Este é muito melhor. – Assim que ele tirou a rolha pude sentir o cheiro forte,

amargo e acre que pelo jeito era uma característica do sangue “bom”, e me encolhi só de

pensar em bebê-lo. Dorin pareceu não perceber, e começou a estender a mão para a minha

taça mais uma vez, como se fosse derramar meu sangue de safra romena. – Eu lhe disse há

muito tempo, o siberiano é melhor! Digno de uma princesa!

Parei a mão dele de novo, frustrada. Se eu era mesmo uma princesa, por que não podia ter

o que queria?

– Não, Dorin. Eu pedi este. E quero este. Se não posso ter Lucius, quero um sangue que

não me faça ter ânsia de vômito.

Foi uma das poucas vezes em que cheguei perto de tratar Dorin como algo diferente de

um conselheiro – de um igual, se não superior –, e a expressão consternada, quase de

pânico, no rosto dele não me ajudou a engolir o sangue romeno suave que eu tomava. Ainda

sentia vontade de vomitar ao bebê-lo, mas não me sentia tão culpada. Não estava traindo

Lucius. Estava salvando-o.

Pelo menos era o que esperava, porque a partir daquela tarde o relógio começaria a

marcar o tempo até o julgamento.

CAPÍTULO 88

Mindy

Eu e Raniero não conversamos enquanto eu me preparava para cortar seus

cabelos.

Ele pegou a cadeira da pequena penteadeira do meu quarto, que parecia uma versão em

miniatura da de Jess, a colocou no meio do cômodo e tirou a camisa de novo, como se

soubesse que muito cabelo iria cair. Depois montou na cadeira ao contrário e cruzou os

braços lindamente bronzeados no encosto enquanto eu abria uma das grossas toalhas

brancas dos Vladescu e a colocava em seus ombros, sabendo que podia ser a última vez que

iria tocar neles.

Então peguei o estojo que costumava usar para deixar Jess linda, encontrei minha tesoura

profissional e enfiei a mão em suas ondas fartas.

Exatamente o que você sempre quis fazer, Min. Dê-lhe o corte com o qual você sempre sonhou.

– Eu vou...

– Faça como quiser – interrompeu ele. – Tenho certeza de que vai ټcar bom, porque você

tem talento para isso. E sei que você sempre quis cortar meu cabelo.

Foi só isso que falamos.

Eu sempre quis que ele tivesse cabelos mais curtos, então por que doeu tanto quando dei

aquela primeira tesourada, tirando uns 15 centímetros, deixando o cabelo acima da orelha?

Por que pareceu tão ruim torná-lo mais bonito ainda?

Porque você não o está deixando bonito, Mindy. Ele já era bonito, para começo de conversa.

Senti a garganta apertar, mas continuei cortando. Tirando mais e mais ondas castanhas

com ټos dourados pelo sol, e era como se estivesse cortando a praia que ele tanto amava.

Jogando as ondas e o sol ali no chão, de modo que viraram somente... lixo. Mais serragem

idiota. Eu estava esculpindo Raniero até ele virar uma estaca. Terminando de transformá-lo

em assassino outra vez. Tornando-o alguém que ele não queria ser – para outra garota.

Ele ټcou imóvel, mas não parecia meditar. Dava para notar que estava todo tenso, mesmo

que eu não conseguisse ver seus olhos. Eu só me concentrava no cabelo e no modo como

aparava atrás para mostrar como o pescoço dele era forte. Ele não poderia mais esconder

isso, nem fazer um rabo de cavalo.

Quando a forma básica estava deټnida – um corte baixo atrás, um pouco mais comprido

na frente, de modo que o que restava das ondas emoldurasse aqueles olhos que eu não

conseguia encarar –, peguei minha navalha e deixei tudo... perfeito.

Perfeitamente terrível.

Nunca tinha cortado o cabelo de alguém sem conseguir olhar o rosto da pessoa, mas não

precisava vê-lo. Ele parecia mais gato do que qualquer modelo. E aquilo era horrível.

– Acho que é isso aí. – Recuei e olhei para o chão. – Está pronto!

Mas ele segurou minha mão, fazendo com que eu quase derrubasse a navalha.

– Não. Ainda não.

Enټm ټtei seus olhos. Seus maravilhosos olhos acinzentados, que estavam ټcando tão

severos de novo. Mais severos ainda do que quando o obriguei a parar diante do quarto de

Jess e ele me afastou.

– O que mais?

– Faça minha barba.

– Não... – Ele não ia perder o cavanhaque também. E ele mesmo poderia se barbear, caso o

quisesse. Se eu o ټzesse, teria que segurar seu queixo e olhar cada centímetro do rosto que

eu também nunca mais tocaria. O rosto que eu estava ajudando a arruinar por completo. –

Não quero.

Ele me segurou com mais força, e foi o mais perto que chegou de me machucar – tipo no

sentido físico.

– Por favor. Só termine o que você começou.

Encarei-o durante cerca de um minuto e ele retribuiu o olhar, até que desisti e me

desvencilhei de sua mão.

– Certo.

Então entrei no banheiro e não consegui encarar meu rosto feio enquanto pegava um copo

d’água e o tubinho de gel que havia levado para raspar as pernas. Quando voltei ao quarto,

ele ainda estava sentado, imóvel. Mergulhei os dedos na água e pus um pouquinho nas

bochechas dele, sentindo a barba crescida. Então espremi um pouco de gel nos dedos e

passei no rosto inteiro. A pele dele estava áspera e a sensação era tão boa sob meus dedos!

Eu queria tocá-lo daquele jeito durante horas. Jogar fora a porcaria do creme de barbear e

apenas tocar Raniero...

Não consegui evitar olhar nos olhos dele de novo, para ver se ele também sentia, mas ele

os havia fechado. Tinha se fechado totalmente para mim.

Peguei a navalha de novo.

– Isso pode doer.

Doer em mim. Em nós dois.

– Estou acostumado com a dor – respondeu ele sem abrir os olhos. – Isso não vai ser nada.

– Certo.

Segurei-lhe o queixo e comecei a passar a navalha pelas bochechas, e meus dedos tremiam

tanto que eu morria de medo de cortá-lo em pedacinhos. Mas, de algum modo, deu tudo

certo. Fiz linha após linha em meio à espuma, e em pouco tempo o cavanhaque que eu

sempre odiara tinha sumido. Ele nem se encolheu nas vezes em que repuxei os ټos e cortei a

pele.

Afastei-me e olhei de novo para o chão.

– Está totalmente acabado.

Do canto do olho, o vi arrancar a toalha dos ombros, virá-la para o lado limpo e começar

a enxugar os pequenos pontos de espuma que ainda estavam no rosto. Ele se levantou

enquanto fazia isso, em seguida vestiu a camisa de Lucius.

– Como estou, Mindy Sue?

Eu não tinha escolha a não ser olhar para ele da cabeça aos pés. E o que vi quase me fez

soluçar. Eu deveria ter sido uma artista da Renascença italiana, porque o vampiro à minha

frente estava muito mais incrível do que qualquer estátua. O corpo dele sempre fora

perfeito, mas quando ele ټnalmente ټcou parado, de um modo que mostrava como era

poderoso, aquilo me fez inspirar com força. Fiquei sem fôlego. Sem a barba bagunçada, dava

para ver o queixo, e até ali havia músculos. E o cabelo curto realçava os maxilares, os

ombros e os olhos... Os olhos...

– Ah, Raniero!

Meio que ofeguei, admirando-o. E chorei ao mesmo tempo.

– Está bom, sim? – perguntou ele. – Você criou em mim o vampiro dos seus sonhos? O

Raniero que sempre desejou?

Não, eu não ټz aquilo, nem um pouco. Queria o antigo Ronnie de volta. Este novo... Eu

não gostava dos olhos dele. Eram severos, mas repletos de dor, e ele era louco também.

– Não sei, Raniero...

No entanto, ele sabia como estava. Sabia que todas as pessoas em um teatro chique iriam se

virar para olhá-lo de novo.

Será que um lado dele sempre me odiara por querer que ele mudasse? Tanto quanto eu me

odiava agora?

– Obrigado, Mindy Sue – falou, como se nunca tivesse existido nada entre nós.

Como se eu tivesse cortado aquilo também.

– De nada.

Não consegui pensar em mais nada para dizer.

Raniero jogou a toalha no chão, deixando a sujeira para as empregadas, e foi para a porta,

mas eu precisava saber e o chamei pouco antes de ele sair:

– Raniero? – Era possível perceber minha voz chorosa outra vez. – Por que... por que você

nunca se ofereceu para me morder?

– Eu amava você demais para trazê-la para este mundo onde estou entrando de novo. Não

queria obrigá-la a conviver com isso, quando você nitidamente não tinha certeza do que

sentia por mim. Esperei você pedir, no tempo que fosse certo para você. Mas, claro, esse

tempo nunca chegou, até ser tarde demais.

Raniero sempre misturava os tempos verbais, mas eu notei que ele fora muito claro ao

dizer “amava” e não “amo”.

Ele estava esperando por mim o tempo todo. Mas agora é mesmo tarde demais.

– Obrigado, Mindy Sue – repetiu ele. – Obrigado pelo corte de cabelo e por mostrar que

eu estava errado no tratamento para com Ylenia. Eu não tinha enxergado pelo ponto de

vista dela.

Eu não era capaz de dizer “de nada” outra vez. Apenas o deixei sair, depois fiquei de quatro

e comecei a limpar os cabelos do chão, pois também não podia esperar pelas empregadas.

Precisava tirar aquela bagunça dali, porque o que havia começado como um plano para

ٽagrar Ylenia Dragomir fazendo algo ruim havia se transformado na entrega do cara que eu

amava a uma garota que já tinha direitos sobre ele, pela eternidade.

Aquele cabelo parecia mesmo serragem em minhas mãos.

CAPÍTULO 89

Raniero

Lucius,

É meu prazer ser flexível em relação às suas regras além do que você pretende e dar uma olhada

em você de vez em quando. Nem que seja para ver como vai o rato. E, sim, eu levei sua mulher

também. Não se preocupe. Você não está vendo coisas... ainda.

Sei que luta para pensar com clareza, mas existe alguma coisa da qual você consiga se lembrar

da noite em que eu virei um vampiro amaldiçoado? Algum detalhe que não tenha compartilhado

comigo, especialmente em relação a Ylenia Dragomir?

Enquanto isso, saiba que a data do julgamento vai ser marcada hoje. Sua esposa, que ganha

poder à medida que você enfraquece, convocou uma reunião dos Anciões para fazer o anúncio.

Permaneça forte, irmão.

R.
CAPÍTULO 90

Antanasia

Um lado meu queria que Dara Packwood estivesse ali para me abraçar, do jeito

que havia feito antes de cada uma de minhas competições de matemática e de hipismo, mas

afastei a ideia e aprumei os ombros. E, como sempre acontecia, a porta dupla foi aberta a

partir de uma deixa que aparentemente nem mesmo eu precisava saber, e me vi diante de

uma mesa comprida ocupada por vampiros que não tinham me visto fazer nada além de

fracassar.

Mas isso ia mudar. Ou, se eu fracassasse, cairia lutando, conforme havia prometido a

Raniero.

Entrando na sala, ټtei um por um, e enquanto enfrentava os olhares astutos e frios de

repente ټquei muito ciente de um erro que eu cometera desde que me juntara à classe dos

vampiros.

Essa pequena parte de mim havia desejado que eles gostassem de mim, como se eu fosse

uma espécie de aluna nova na escola em vez de governante deles. Ou, se não desejara

exatamente que gostassem de mim, pelo menos tinha esperado que me aceitassem na

panelinha, nem que fosse como a garota menos importante, mantida à margem.

Mas quando encarei Flaviu e vi sua fome de poder e seu desdém por mim, eu soube que,

claro, jamais gostaríamos um do outro. Ele era um vampiro maligno de uma linhagem de

vampiros malignos, e com certeza estava tentando arruinar, ou encerrar, a vida de Lucius e

a minha.

Uma rainha tem poucos amigos, minha mãe havia tentado alertar em seu diário. Se ela tiver

muitos, decerto está fazendo alguma coisa errada.

Enquanto continuava a encarar Flaviu, também me lembrei de como Lucius havia

caminhado pelo refeitório em um de seus primeiros dias na escola. Eu me senti mal quando

os alunos se desviaram dele, mas ele pareceu satisfeito com o que entendera como uma

deferência à sua superioridade.

Tudo tem a ver com percepção, falei para mim. Minha – e deles.

E, sem deixar de encarar Flaviu, ټz minha primeira mudança de plano improvisada, indo

não para meu lugar de sempre ao pé da mesa, mas direto à cadeira de Lucius, na cabeceira,

onde – sem me sentar – anunciei claramente:

– Convoquei-os aqui com o objetivo de marcar a data do julgamento de Lucius para daqui

a dois dias.

Minhas palavras provocaram um coro de murmúrios – que eu esperava serem de tensão

por parte de Flaviu. E o tio de Lucius de fato pareceu meio pálido. Mas eu sabia que a maior

parte daqueles vampiros estava empolgada com a perspectiva quase certa de ver um príncipe

ser destruído.

Então me sentei, e mesmo estando cansada de seu medo interminável, olhei, por hábito,

para Dorin – e provavelmente não deveria ter ټcado surpresa ao notar que ele parecia mais

pálido e mais chocado ainda do que Flaviu.

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