sábado, 5 de outubro de 2013

CSUVA - 118-119-epílogo

CAPÍTULO 118

Mindy

Encontrei Raniero e Ylenia em frente à sala do tribunal – ela não chegou

muito longe –, mas quando abri caminho à força pela multidão que assistia, ele já a havia

colocado contra uma parede e segurava uma estaca, avisando-a na voz mais profunda e

apavorante que eu já tinha visto alguém usar:

– Por sua causa estou marcado para a destruição, e hoje você também será destruída.

– Você não entende – balbuciou ela. – Eu só queria que você me mordesse naquela noite.

Só coloquei um pouco de sálvia no sangue que dei a você, porque tinha ouvido falar de uns

caras que faziam isso com as garotas... Achei que, se você me mordesse uma vez, nós

ټcaríamos juntos e eu faria você feliz. Se me conhecesse, iria gostar de mim, mas você nem

me olhava...

Vi a mão dele começar a tremer com a estaca, e nunca me senti pior por estar certa a

respeito de alguma coisa na vida. Eu sabia que ela havia drogado Raniero. E Jess. Tinha feito

essa conexão porque vira o colega de Ronnie pirando, e ele ټcou igualzinho a Jess quando

ela desmoronou. Tinha adivinhado, dias antes, que Ylenia havia imitado algum truque de

seus amigos doidões do colégio interno e sacaneado os dois.

Uma pena ela não ter lido a matéria aprofundada da revista Garota Moderna: “Quase ilegal:

o que seus amigos PODEM estar usando para ټcarem doidões”. Talvez, se tivesse lido, ela

preferisse lhe dar um pouco de xarope para tosse em vez de sálvia, uma planta com efeitos

similares ao do LSD e que podia fazer a pessoa ficar violenta.

Talvez assim não acabasse acuada contra uma parede por um vampiro cuja mão, que

segurava uma estaca sangrenta, tremeu ainda mais quando ele rosnou, parecendo mais

apavorante:

– Você é a culpada por eu destruir um vampiro e virar blestemată. É SUA CULPA eu estar

marcado para a destruição e acreditar que sou pior ainda do que sou. Por sua causa eu vivo

cada dia dos últimos dois anos imaginando se poderia destruir injustamente de novo! Eu me

desprezo!

Eu não sabia se deveria correr e segurar a mão dele ou se isso só o faria se distrair e

cometer algo terrível, mas, antes que eu pudesse decidir, o rosto de Ylenia se retorceu de

um modo esquisito e de repente ela não estava mais chorando. Estava gritando.

– Você não se acha nada menos do que perfeito! Você e Lucius acreditam que são os donos

do mundo!

Raniero ainda estava com ela encostada na parede, mas Ylenia fechou o punho pequenino

e começou a espernear como uma pirralha mimada, como se odiasse todo mundo a ponto

de nem se importar se seria morta.

– Odeio todos vocês, e espero que Lucius passe a eternidade se retorcendo no limbo, de

modo que ela também ټque arrasada para sempre! Ela é uma Dragomir e nem sabe falar

romeno, nem encontrar o próprio quarto, e ele a ama mesmo assim, e você nunca nem me

olhou! Espero que eles dois apodreçam e sofram para sempre, e que você seja destruído,

também!

Uma coisa era arruinar a vida de Raniero e fazer com que ele fosse marcado para a

destruição, mas outra era insultar seus amigos e estragar a vida deles, e acho que foi isso que

o fez estourar do jeito que ele temera durante anos. A última gota que o fez enlouquecer

não foi uma droga mais ou menos liberada, foi uma adolescente aspirante a princesa

vampira, fracassada e ciumenta, que arruinaria a vida de todos nós se eu não dissesse alguma

coisa, porque, pela primeira vez desde que o conheci, Raniero me pareceu feio.

Ele recuou a mão com a estaca e seu rosto ټcou de um jeito que eu mal reconheci, e acho

que foi por isso que fechei os olhos – para poder visualizar o Ronnie que eu queria de volta.

Daí gritei para ele, o mais alto que pude, como se também fosse uma rainha:

– Pare, Raniero Lovatu! Pare com isso agora mesmo, seu vampiro italiano idiota! Pare,

porque eu te amo e quero viver com você na praia, e quero que você deixe o cavanhaque

crescer de volta, encontre sua camisa idiota do taco e saia daqui comigo no próximo avião

antes que a gente não consiga construir mais nada juntos! Desculpe se um dia eu quis que

você mudasse ou que brigasse com alguém. Só... PARE COM ISSO! AGORA!

Todo o ruído do mundo parou. Até os vampiros que estavam traduzindo tudo para um

punhado de línguas europeias se calaram e não se mexeram.

E quando tive coragem de abrir os olhos, vi os ombros de Raniero tremendo, e as mãos

também, e achei que fosse morrer antes de descobrir qual Ronnie eu veria quando ele

começou a se virar para mim.

CAPÍTULO 119

Antanasia

O guarda que estava preparando Dorin para o cárcere havia deixado a chave da

cela de Lucius à vista, e eu controlei os dedos para abrir a fechadura, depois passei pelas

barras e corri até meu marido, que estava deitado de lado, os olhos fechados.

– Lucius. – Eu o sacudi devagar. – Por favor. Abra os olhos.

EPÍLOGO

Antanasia

Deitei-me ao lado de Lucius e fiquei observando-o dormir ao sol que penetrava em nosso

quarto. O rosto dele estava tão tranquilo... Agora ele sempre parecia sereno, e isso me

reconfortou.

– Acorde – Dei uma leve sacudida nele. – O sol nasceu.

Ele abriu os olhos e notei outra vez que ele havia mudado desde a prisão.

Não estava preocupado e arrependido por ter me levado para o nosso mundo, e me considerava

uma pessoa igual a ele de novo. Sentia orgulho de mim.

Recuei e lhe dei espaço para se apoiar nos braços fortes – ele não havia demorado muito para

se recuperar –, e olhou para o relógio. Depois caiu de volta no colchão e riu para mim.

– Por que deixou que eu dormisse tanto tempo em um dia tão importante? Não quer que seu

marido, o futuro rei, esteja com a melhor aparência?

– Ainda gosto quando você descansa.

Ele puxou meu braço e eu caí em cima do peito dele, e senti os músculos, que pareciam

ótimos. De volta à forma perfeita.

– Estou bem há meses, Antanasia. Você não precisa mais me tratar como um bebê.

Mas era difícil parar. Ele estava tão fraco quando foi carregado para o nosso quarto que mal

consegui obrigá-lo a beber. Tive que cortar o pulso de novo e deixar o sangue pingar na boca

dele. E quando fitei seus olhos pela primeira vez, ainda na cela, poderia jurar que ele não

voltaria mais.

Mas ele era Lucius Vladescu e, claro, tinha lutado para voltar para mim, de modo que

pudéssemos realizar o sonho que ele havia sussurrado ao meu ouvido na noite de nosso

casamento.

– Você acha mesmo que vamos ter o voto de confiança? – perguntei, encarando aqueles olhos

negros, pois sabia que iria ler a verdade ali. – Acha que todos aqueles vampiros que estão

apinhados em nossa casa confiam o suficiente em nós?

– Acho que temos uma boa chance. Melhor do que eu tinha no julgamento, e eu venci ali.

– Eu venci – lembrei a ele. – Eu, Mindy e Raniero.

– Sim, sim – concordou ele, rindo. – Eu sei. Você vive me lembrando disso.

Fiquei séria.

– Naquele primeiro dia no tribunal você não conseguia mesmo falar?

Ele pôs um de meus cachos atrás da orelha.

– Você estava se saindo bem sozinha. Eu não tinha nada a acrescentar.

Eu lhe perguntava aquilo de vez em quando, só para me lembrar exatamente de quanta fé ele

tinha em mim. E a resposta era sempre a mesma. Depois fiz outra pergunta, só para ver a

malícia que ela sempre provocava nos olhos dele:

– Onde você estava naquela noite em que tentei encontrá-lo no escritório e você voltou para a

cama tão tarde?

Ele me lançou o olhar que eu esperava. A sobrancelha arqueada.

– Jessica, você quer mesmo saber de todos os meus segredos?

Talvez sim... talvez não.

Aquele olhar – e os pensamentos sobre aquela noite – me lembrou de outra coisa.

– Raniero vem hoje?

Lucius balançou a cabeça, os cabelos curtos e bem-cuidados brilhando ao sol.

– Não. Ele fez o bastante por nós. Eu o liberei de votar, apesar de ele ter se oferecido.

Não mencionamos a ausência de minha prima Ylenia ou de meu tio Dorin, apesar de eles

nunca se distanciarem do meu pensamento. Eu era uma princesa esperando virar rainha, mas

ainda sofria com a lembrança de ter dado a sentença de destruição aos dois. Não era

exatamente culpa o que eu sentia por ter presidido os julgamentos de ambos enquanto Lucius

se recuperava. Era uma tristeza mais profunda, conflituosa, mas com a qual eu precisava

aprender a conviver.

Lucius deve ter notado que fiquei melancólica e quis acabar com aquilo, porque de repente, e

com facilidade, me fez rolar, me deitando de costas, e apesar de eu já estar vestida para o

maior dia da assembleia do verão, o dia de nosso voto de confiança, ele me beijou de um modo

que indicava que ele estava forte de novo, porém não desesperado por sangue, e que ainda

estava, e sempre estaria, muito sedento de mim.





Mindy

– Quer, tipo, um taco ou um burrito no almoço? – perguntei ao meu namorado vampiro

surfista, que largou a prancha na praia ao lado da minha espreguiçadeira barata e sacudiu um

bocado d’água dos cabelos compridos, bem em cima de mim. – Ei! Eu vou pagar o almoço,

então não me deixe furiosa!

– Hoje eu vou pagar o almoço para você – ofereceu Raniero. Em seguida se abaixou e me

beijou, o que ajudou a compensar por ele ter me molhado toda, depois se jogou na areia. – Il

mio trattare: por minha conta!

– E você vai pagar com o quê?

– Eu ganhei 200 dólares tirando o segundo lugar na competizione, lembra-se?

Fitei-o e revirei os olhos. Pelo jeito seria assim que íamos viver. Acompanhando as

competições de surfe de praia em praia, e eu cortando cabelos quando tinha oportunidade.

Cheguei a achar que não faria isso de novo, mas a gente precisava de grana, e eu meio que já

possuía uma reputação no circuito do surfe.

Então olhei para o mar, que estava superagitado naquele dia, e me lembrei da aparência dos

olhos de Raniero quando ele se virou, prestes a cravar uma estaca no coração de Ylenia

Dragomir.

Ele não tinha perdido o controle, mas havia chegado muito mais perto do que seria confortável

para todo mundo.

Nunca perguntei se ele sabia o tempo todo que Ylenia era má... ou se ele tinha começado a

vacilar um pouquinho, de verdade, e sonhado com o poder e as riquezas no jardim do castelo.

“Para mim, é melhor ter areia escorrendo pelos dedos vazios do que sangue em mãos cheias

de dinheiro.”

Meu surfista-praticamente-príncipe-filósofo dizia isso às vezes, e eu tinha que concordar.

De repente, me lembrei de algo no qual eu quase não pensava mais: no tempo.

– Ei... não é hoje a grande votação de Jess e Lucius?

– Sim – assentiu Ronnie. – Eu me ofereci para ir, mas Lucius insistiu que o mar está bom

demais agora para eu deixar a Califórnia. Eles vão vencer ou perder sem o meu voto.

– Vão vencer – afirmei.

E esperava que eles vivessem felizes para sempre no castelo. Talvez a gente pudesse fazer

uma visitinha de vez em quando.

Ou não.

Talvez eles devessem nos visitar. A gente poderia abrir espaço, agora que eu tinha, tipo, só

seis pares de chinelos. Todos os meus sapatos ainda estavam na Pensilvânia, onde minha mãe

os guardava como reféns até eu criar juízo e voltar para a faculdade ou algo assim – coisa que

não iria acontecer.

Peguei a mão de Raniero na areia. Ele permitiu, e a sensação era boa e fria.

– Então, o que vai ser? Taco ou burrito?

– Eu gostaria de uma vampira – disse ele, rindo para mim feito um idiota. Agora ele vivia

pegando no meu pé para eu virar morta-viva. – Quando você vai deixar que eu a torne minha

para sempre? A vida é boa, se você ficar longe da violência.

– Sei lá – respondi, soltando a mão dele. – Não tenho pressa.

Mas eu sabia que um dia o faria. Quanto mais ficava perto dele, mais me acostumava à ideia

de beber sangue.

Certo, talvez eu meio que quisesse aquilo.

Mas não deixaria que ele soubesse por enquanto.

Primeiro, ele precisava provar que ia mesmo me levar ao Taiti. Aí a gente conversaria sobre a

eternidade.

– Venha. – Fiquei de pé e espanei a areia da bunda, depois estendi a mão para puxar Raniero. –

Vamos almoçar.

O desempregado de cabelo revolto, cavanhaque e bermuda – e barriga tanquinho, que agora eu

via o tempo todo, já que as camisas eram totalmente opcionais – se agarrou a mim de novo e

continuou com os dedos entrelaçados aos meus por todo o caminho até o Terrible Taco, e eu

senti orgulho de verdade por ele ser meu.

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