sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Série Instrumentos Mortais - Cidade das Cinzas 1

PARTE UM
1 – A Flecha de Valentine

Uma temporada no inferno

Eu acredito que estou no inferno, portanto estou nele.
Arthur Rimbaud

“Você ainda está bravo?”

Alec, se encostando contra a parede do elevador, olhou através do pequeno espaço para Jace. “ Eu não estou
com raiva.”

“Ah, sim, você está.” Jace gesticulou acusadoramente para seu meio-irmão, então gemeu enquanto a dor
acertava acima de seu braço. Cada parte dele doía desde a queda que ele teve naquela tarde quando ele tinha
se deixado cair de três andares através da madeira apodrecida e sobre uma pilha de metais. Até seus dedos
estavam machucados. Alec, que tinha recentemente colocado de lado as muletas que ele tinha utilizado
depois de sua luta com o Abbadon, não parecia muito melhor do que Jace sentia. Suas roupas estavam
cobertas com lama e seu cabelo pendurado escorrido, em suadas tiras. Havia um longo corte do lado de sua
bochecha.

“Eu não estou,” Alec disse, através de seus dentes. “ Só porque você disse que dragões demônios estavam
extintos...”

“Eu disse a maioria extinta.”

Alec mostrou um dedo em direção a ele. “ Maioria extinta,” ele disse, sua voz tremendo com raiva, “ é NÃO
O SUFICIENTE EXTINTA”.

“Tô vendo,” Jace disse. “ Eu terei que mudar a definição no livro de textos de demonologia o „quase extinto‟
para „não extinto o suficiente para Alec. Ele prefere seus monstros realmente, realmente extintos.‟ Isso vai te
fazer feliz?”

“Meninos, meninos,” Isabelle disse, que estava examinando o seu rosto na parede espelhada do elevador. “
Não briguem.” Ela se virou se afastando do vidro com um sorriso luminoso. “ Tudo bem, isso foi só um
pouco mais de ação do que nós esperávamos, mas eu acho que foi divertido.”

Alec olhou para ela e balançou a cabeça. "Como é que você consegue nunca ter lama em você?"

Isabelle encolheu os ombros filosoficamente. "Eu sou pura de coração. Isso repele a sujeira."

Jace aspirou tão alto que ela se virou para ele com uma carranca. Ele balançou seus dedos untados de lama
para ela. Suas unhas eram arcos negros. "Imundo por dentro e por fora."

Isabelle estava prestes a responder quando o elevador aterrissou em uma parada com o som do freio chiando.
"Está na hora de consertar está coisa ", ela disse, puxando a porta para abrir. Jace a seguiu pela entrada, já se
preparando para despir sua armadura e armas e ir para uma ducha quente. Ele tinha convencido seus meio-
irmãos a caçarem com ele, apesar do fato de que nenhum deles estava inteiramente confortável em sair por
conta própria agora que Hodge que não estava lá para lhes dar instruções. Mas Jace tinha precisado do
esquecimento da luta, a atenção da dificuldade de matar, e a distração das lesões. E sabendo que ele
precisava disso, eles tinham ido com ele, rastejando através dos desertos e imundos túneis do metrô até eles
encontrarem o demônio Dragonidae e matado ele. Os três trabalharam em conjunto em perfeito uníssono, do
jeito que sempre fizeram. Como família.

Ele abriu seu casaco e o lançou em um dos ganchos pendurados na parede. Alec estava sentado no banco de
madeira ao lado dele, chutando suas botas cobertas de lama. Ele estava zumbindo desafinado sob a sua
respiração, deixando Jace sabe que ele não estava chateado. Isabelle estava puxando os grampos para fora de
seu longo cabelo escuro, permitindo que ele caísse em torno dela. "Eu estou com fome agora", ela disse. "Eu
queria que mamãe estivesse aqui para cozinhar para nós alguma coisa".

"É melhor que ela não esteja", disse Jace, desfivelando seu cinto de armas. "Ela já estaria gritando por causa
dos tapetes."

“Você está certo sobre isso,” disse uma voz fria, e Jace girou ao redor, suas mãos ainda em seu cinto, e viu
Maryse Lightwood, seus braços cruzados, de pé na porta de entrada. Ela usava um rígido blazer preto de
viagem e seu cabelo, preto como de Isabelle, estava preso atrás em uma fita grossa que prendia ele até a
metade de suas costas. Seus olhos, de um azul glacial, varreram sobre os três como um holofote de inspeção.

“Mãe!” Isabelle, recobrando sua compostura, correu para sua mãe para um abraço. Alec ficou sob seus pés e
se juntou a eles, tentando esconder o fato de que ele ainda estava mancando.

Jace ficou onde ele estava. Havia alguma coisa nos olhos de Maryse quando ela o encarou que tinha
congelado ele no lugar. O que ele tinha dito era tão mal assim? Aquela piada sobre a obsessão dela com os
antigos tapetes o tempo todo...

“Onde está papai?” Isabelle perguntou, se afastando de sua mãe. “E Max?”

Então houve uma imperceptível pausa. Em seguida Maryse disse, “Max está em seu quarto. E seu pai,
infelizmente, ainda está em Alicante. Haviam alguns negócios lá que requeriam sua atenção.”

Alec, geralmente mais sensitivo a temperamentos do que sua irmã, pareceu hesitar. “Há algo de errado?”

“Eu poderia perguntar a você isso. O tom de sua mãe era seco. “Você está mancando?”

Alec era um terrível mentiroso. Isabelle interferiu por ele, facilmente: “Nós estávamos correndo atrás de um

demônio Dagronidae nos túneis do metro. Mas não foi nada.”

“E eu suponho que o Grande Demônio que vocês lutaram na semana passada, não foi nada também?”

Mesmo Isabelle ficou em silêncio com aquilo. Ela olhou para Jace, que preferiu que ela não tivesse olhado.

“Aquilo não foi planejado”. Jace estava tendo dificuldade em se concentrar. Maryse não tinha
cumprimentado ele ainda, não dito muito mas que um oi, e ela ainda estava olhando para ele com olhos
como punhais azuis. Houve uma sensação de um buraco oco em seu estômago que estava começando a se
alastrar. Ela nunca tinha olhado para ele daquele jeito antes, não importasse o que ele fizesse. “ Foi um
erro...”

“Jace!” Max, o mais jovem dos Lightwood, expremeu seu caminho em torno de Maryse e se arremessou no
quarto, escapando das mãos de sua mãe.” Vocês voltaram! Todos vocês voltaram.” Ele virou em um círculo,
sorrindo para Alec e Isabelle em triunfo. “Eu pensei ter ouvido o elevador.”

“E eu pensei ter dito a você para ficar em seu quarto,” Maryse disse.

“Eu não me lembro disso,” Max disse, com uma seriedade que mesmo Alec teve que sorrir. Max era
pequeno para sua idade, ele parecia ter sete, mas ele tinha uma auto-contida seriedade que, combinado com
o tamanho desproporcional de seus óculos, davam a ele o ar de alguém mais velho. Alex se aproximou e
bagunçou o cabelo de seu irmão, mas Max ainda estava olhando para Jace, seus olhos brilhando. Jace sentiu
o frio soco que apertava seu estômago, relaxar mesmo ligeiramente, provavelmente porque Jace era muito
mais indulgente com a presença de Max. “Ouvi dizer que você lutou com um Grande Demônio,” ele disse. “
Foi incrível?”

„Foi...diferente,” Jace disfarçou. “Como foi em Alicante?”

“Foi incrível. Nós vimos as coisas mais legais. Existe um enorme arsenal em Alicante e eles me levaram a
alguns dos lugares onde eles fazem as armas. Eles me mostraram uma nova maneira de fazer lâminas
serafim também, para que elas durem mais, eu estou indo tentar que Hodge me mostre...”

Jace não pode falar nada; seus olhos piscaram instantaneamente para Maryse, sua expressão incrédula. Então
Max não sabia sobre Hodge? Ela não tinha dito a ele?

"Eu sei", Clary disse, pegando uma batata frita e mergulhando ela na lata na bandeja equilibrada entre a tv e
eles. "Por alguma razão eles são sempre muito melhores lutadores do que monges guerreiros que podem
enxergar." Ela olhou para a tela. "São aqueles caras dançando?"

"Isso não é dançar. Estão tentando se matar um ao outro. Esse é o cara que é o inimigo mortal do outro cara,
se lembra? Ele matou o pai dele. Por que eles estariam dançando?"

Clary mastigou sua batata e olhou pensando para a tela, onde animados redemoinhos de rosa e nuvens
amarelas ondulavam entre as figuras de dois homens alados, que flutuavam em torno um do outro, cada
golpe um movimento brilhante. De vez em quando um deles falava, mas desde que tudo estava em japonês e
com legendas em chinês, aquilo não esclarecia muito. "O cara com o chapéu", ela disse. "Ele era o cara
malvado"?

"Não, o cara de chapéu era o pai. Ele era o imperador mágico, e aquele era o seu chapéu de poder. O cara
mal era o com a mão mecânica que fala."

O telefone tocou. Simon colocou o saco de batatas fritas para baixo e fez como se fosse levantar para
atender. Clary colocou sua mão em seu pulso. "Não. Deixa prá lá."

"Mas pode ser o Luke. Ele poderia ligar do hospital."

"Não é o Luke", disse Clary, soando com mais certeza do que ela sentia. "Ele ia ligar para o meu celular, e
não para sua casa."

Simon olhou para ela por um longo momento antes de se afundar abaixo no tapete ao lado dela. "Se você
está dizendo." Ela podia ouvir a dúvida em sua voz, mas também a certeza não dita, eu só quero que você
seja feliz. Ela não tinha certeza se "feliz" era alguma coisa que ela provavelmente era agora, não com sua
mãe no hospital, ligada a tubos e máquinas estridentes, e Luke como um zumbi, desmoronado em uma
cadeira de plástico duro ao lado de sua cama.

Não se preocupando com Jace o tempo todo e pegando o telefone uma dúzia de vezes para ligar para o
Instituto antes de colocá-lo de volta, sem discar o número. Se Jace quisesse falar com ela, ele podia ligar.

Talvez tivesse sido um erro levá-lo para ver JoceIyn. Ela tinha tido tanta certeza de que se sua mãe apenas
ouvisse a voz de seu filho, seu primogênito, ela poderia despertar. Mas ela não tinha. Jace tinha estado rígido
e desajeitado perto da cama, seu rosto como uma pintura de um anjo, com os olhos vazios e indiferentes.
Clary tinha finalmente perdido a paciência e gritado com ele, e ele gritou de volta antes de ir embora
irritado. Luke tinha observado ele ir embora com um tipo de interesse clínico em seu rosto esgotado. "Essa é
a primeira vez que eu vi vocês agirem como irmã e irmão", ele observou.

Clary tinha dito nada em resposta. Não havia importância em dizer a ele como terrivelmente ela queria que
Jace não fosse seu irmão. Você não pode arrancar o seu próprio DNA, não importa o quanto você desejasse
que pudesse. Não importa o quanto aquilo iria fazer você feliz.

Mas mesmo que ela não pudesse conseguir ser muito feliz, ela pensou, pelo menos aqui na casa de Simon,
em seu quarto, ela se sentia confortável e em casa. Ela conhecia ela a tempo suficiente para lembrar quando
ele tinha uma cama moldada como um caminhão de incêndio e brinquedos Lego empilhados em um canto
do quarto. Agora, a cama foi um futon com uma brilhosa colcha listrada que tinha sido um presente de sua
irmã, e as paredes eram lotadas com posters de bandas como Rock Solid Panda e Stepping Razor. Tinha uma
bateria postada no canto do quarto onde o Legos tinham ficado, e um computador no outro canto, a tela
continuava congelada em uma imagem do World of Warcraft. Era quase tão familiar como no seu próprio
quarto em casa, que já não existia, então, pelo menos, esta era a segunda melhor coisa.

"Mais chibis", Simon disse melancolicamente. Todos os personagens na tela tinham mudado em versões de
si mesmos, em tamanhos pequenos de bebês e estavam perseguindo uns aos outros em torno de balançantes
potes e panelas. "Estou mudando de canal", anunciou Simon, segurando o controle. "Estou cansado deste
anime. Eu não posso dizer sobre o que é, e ninguém faz sexo." chibi é criança em japonês, Simon fala
daqueles animes que de repente os personagens ficam pequenininhos como criancinhas.

"Claro que não", Clary disse, pegando outra batata. "Anime é um saudável entretenimento familiar".

"Se você estiver com disposição para um entretenimento menos saudável, nós poderíamos tentar os canais
pornos", observou Simon. "Quer ver As bruxas de Breastwick ou Como eu deitei Dianne?"

"Me dá isso!" Clary agarrou o controle remoto, mas Simom, gargalhando, já tinha mudado a tv para outro
canal.

Sua risada se interrompeu abruptamente. Clary olhou acima com surpresa e o viu olhar sem expressão para
TV. Um antigo filme em preto-e-branco estava passando - Drácula. Ela tinha visto este antes, com a mãe
dela. Bela Lugosi, magro e de cara branca, na tela, envolto na conhecida capa de colarinho alto, os lábios
puxados para trás de seus pontiagudos dentes. "Eu nunca bebo... vinho ", ele entonou em seu pesado sotaque

húngaro.

"Eu adoro como as teias de aranha são feitas de borracha", Clary disse, tentando soar leve. "Você pode
perfeitamente dizer".

Mas Simon já estava em seus pés, largando o controle remoto na cama. "Eu vou voltar", ele murmurou. O
rosto dele estava da cor do céu do inverno pouco antes de chover. Clary o observou ir, mordendo forte seu
lábio – era a primeira vez desde que sua mãe tinha ido ao hospital que ela notou que talvez Simon não estava
muito feliz também.

Enxugando seu cabelo, Jace observou o seu reflexo no espelho com uma depreciativa carranca. Uma runa
cicatrizando que tinha sido cuidada das piores de suas contusões, mas aquilo não melhorava as sombras sob
os seus olhos ou as linhas apertadas nos cantos da boca. Sua cabeça doia, e ele se sentiu um pouco tonto. Ele
sabia que ele devia ter comido alguma coisa naquela manhã, mas ele acordou enjoado e ofegando por causa
dos pesadelos, não querendo parar para comer, só esperando o alívio da atividade física, para queimar os
seus sonhos em contusões e suor.

Jogando a toalha de lado, ele pensou saudosamente no chá preto doce que Hodge usava para fermentar,
vindo das flores que floresciam à noite na estufa. O chá levava embora as pontadas de fome e trazia um
rápido aumento de energia. Desde o sumiço de Hodge, Jace tinha tentado ferver as folhas das plantas em
água para ver se ele conseguia produzir o mesmo efeito, mas o único resultado foi amargo, um líquido com
sabor de cinzas que fez ele engasgar e cuspir.

De pés descalços, ele caminhou para o quarto e jogou um jeans e uma camisa limpa. Ele puxou para trás
seus molhados cabelos loiros, franzindo as sobrancelhas. Eles estavam muito longos agora, caindo em seus
olhos – alguma coisa Maryse iria com certeza desaprovar nele. Ela sempre desaprovava. Ele podia não ser
filho biológico dos Lightwoods, mas eles tratavam ele como o fosse, desde que ele tinha sido adotado aos
dez anos, depois da morte de seu próprio pai. A suposta morte, Jace se lembrou dela, daquele buraco dentro
de seu estômago voltando à tona novamente. Ele se sentiu como uma lanterna do jack pelos dias passados,
como se as suas tripas tivesse sido arrancadas para fora com um garfo e despejadas em uma pilha, enquanto
um sorriso forçado permanecia engessado em seu rosto. Ele várias vezes se perguntou se alguma coisa que
ele pensava sobre a sua vida, ou de si próprio, havia sido verdade.

Ele achava que ele era um órfão, e ele não era. Ele achava que ele era apenas uma criança, e ele tinha uma
irmã. Lanterna do Jack = aquelas abóboras imensas do dia das bruxas, onde é moldado, geralmente, um
rosto

Clary.

A dor veio novamente, mais forte. Ele a empurrou para baixo. Seus olhos caíram sobre o pedaço de espelho
quebrado que descansava em cima de sua penteadeira, ainda refletindo os galhos verdes e um céu azul de
diamante. Era quase crepúsculo agora em Idris: O céu estava escuro como cobalto. Sufocando o vazio, Jace
puxou com força suas botas, e se conduziu escadas abaixo para a biblioteca.

Ele se perguntou, enquanto ele se movia com barulho nos degraus de pedra abaixo, o que era que Maryse
precisava dizer a ele sozinho. Ela parecia querer arrastar ele e o castigar. Ele não conseguia lembrar da
última vez que ela tinha descido uma mão sobre ele. Os Lightwoods não davam castigos corporais – uma
grande mudança ao ser trazido de Valentine, que tramava todos os tipos de castigos dolorosos para
incentivar a obediência. A pele de Caçador de Sombras de Jace sempre se curava, cobrindo tudo menos o
pior de todos os elementos de prova. Nos dias e semanas após o seu pai morrer, Jace podia se lembrar de
procurar por cicatrizes em seu corpo, por alguma marca que seria um símbolo, uma recordação que o ligasse
fisicamente a memória do seu pai.

Ele chegou a biblioteca e bateu uma vez antes de empurrar a porta aberta. Maryse estava ali, sentada na
antiga cadeira de Hodge perto do fogo. A luz fluia através das janelas altas e Jace podia ver o toques de cinza
em seus cabelos. Ela estava segurando uma taça de vinho tinto; havia uma garrafa para servir vinho sobre a
mesa ao lado dela.

"Maryse", ele disse.

Ela saltou um pouco, derramando um pouco do vinho. "Jace. Não ouvi você chegar"

Ele não se moveu. "Você se lembra daquela música que você costumava cantar para Isabelle e Alec –
quando eles eram pequenos e tinham medo do escuro, para fazê-los dormir?"

Maryse pareceu ficar surpresa. "Do que você está falando?"

"Eu costumava ouvir você através das paredes", ele disse. "O quarto de Alec era ao lado do meu."

Ela não disse nada.

"Era em francês," Jace disse “A música".

"Não sei por que você se lembrou de algo como isso." Ela olhou para ele como se ele a estivesse acusando
de alguma coisa.

"Você nunca cantou para mim."

Houve uma pausa quase imperceptível. Então, "Ah, você," ela disse. "Você nunca teve medo do escuro."

"Que tipo de criança de dez anos de idade, nunca tem medo do escuro?"

Suas sobrancelhas se levantaram. "Sente-se, Jonathan", ela disse. "Agora".

Ele foi, lentamente o suficiente para irritar ela, atravessando toda a sala, e se atirando em um dos encostos da
cadeira ao lado da mesa. "Eu prefiro que você não me chame de Jonathan."

"Porque não? É o seu nome." Ela olhou para ele considerando."Há quanto tempo você sabe?"

"Sabe o quê?"

"Não seja estúpido. Você sabe exatamente o que estou perguntando a você." Ela virou sua taça em seus
dedos. "Há quanto tempo você sabe que Valentine é o seu pai?"

Jace considerou e descartou várias respostas. Normalmente, ele poderia ter mudado o rumo da conversa com
Maryse , fazendo ela rir. Ele era uma das únicas pessoas no mundo que poderia fazê-la rir. "Quase o tanto de
tempo que você sabe."

Maryse balançou a cabeça lentamente. "Eu não acredito nisso."

Jace se sentou ereto. Suas mãos estavam em punhos onde elas repousavam sobre os braços da cadeira. Ele
podia ver um ligeiro tremor nos seus dedos, e imaginou se ele já tinha tido isso antes. Ele achou que não.
Suas mãos sempre tinha sido tão firmes quanto o seu batimento cardíaco. "Você não acredita em mim?"

Ele ouviu a incredulidade de sua própria voz e tremeu no íntimo. Claro que ela não acreditava nele. O que
tinha sido evidente desde o momento em que ela tinha chegado em casa.

"Não faz sentido, Jace. Como você não pode saber quem é seu próprio pai?"

"Ele me disse que ele era Michael Wayland. Vivíamos no país na casa de Wayland..."

“Um bonito toque”, Maryse disse, “isso. E seu nome?” Qual é o seu verdadeiro nome?”

“Você sabe meu verdadeiro nome.”

“Jonathan Christopher. Eu sabia que este era o nome do filho de Valentine. Eu sabia que Michael tinha dado
a seu filho o nome de Jonathan também. É um nome comum de Caçador de Sombras - eu nunca pensei que
fosse estranho que eles compartilhassem isso, e pelo sobrenome do menino de Michael, eu nunca perguntei.
Mas agora eu não consigo imaginar. Qual era o verdadeiro nome do meio do filho de Michael Wayland? A
quanto tempo Valentine esteve planejando o que ele ia fazer? A quanto tempo ele sabia que iria assassinar
Jonathan Wayland...? Ela se interrompeu, seus olhos fixados em Jace. “Você nunca se pareceu com Michael,
sabia?” ela disse. “ Mas as vezes as crianças não se parecem como seus pais. Eu não pensei sobre isso antes.
Mas agora eu posso ver Valentine em você. O jeito como você olha para mim. Este desafio. Você não se
importa com o que eu disse, não é?

Mas ele se importava. Tudo estaria bem se ele tivesse certeza de que ela não poderia ver isso. “Faria
diferença se eu me importasse?”

Ela colocou a taça sobre a mesa ao lado dela. Estava vazia. “ E você responde perguntas com perguntas
lançadas a você, do jeito que Valentine sempre fazia. Talvez eu deveria ter sabido.”

“Talvez nada. Eu continuo sendo exatamente a mesma pessoa. O que eu tenho sido há sete anos. Nada
mudou em mim. Se eu não fazia você lembrar de Valentine antes, eu não vejo o porquê eu o faria agora.

Ela moveu seu olhar sobre ele e o afastou como se ela não pudesse suportar olhar diretamente para ele. “
Certamente quando falávamos sobre Michael, você devia saber que não era possível ser sobre seu pai. As
coisas que nós dissemos sobre ele nunca poderiam ser aplicadas a Valentine.”

“Vocês diziam que ele era um bom homem.” A raiva girava dentro dele. Um corajoso Caçador de Sombras.
Um pai carinhoso. Eu pensei que aquilo era suficientemente o bastante.

“E fotografias? Você deve ter visto fotografias de Michael Wayland e percebeu que ele não era o homem que
você chamava de pai.” Ela mordeu seu lábio. “ Me ajude com algo, Jace”

“ Todas as fotografias foram destruídas na Revolta. Isso foi o que você me disse. Agora eu me pergunto se
isso não era o porque de Valentine ter queimado todas elas, então ninguém poderia saber quem estava no
Circulo.Eu nunca tive uma fotografia do meu pai,” Jace disse, e se perguntou se ele soava tão amargo quanto
ele se sentia.

Maryse colocou uma mão em sua têmpora e a massageou como se sua cabeça estivesse doendo. “ Eu não
acredito nisso,” ela disse, como se para si mesmo. “ Isso é loucura.”

“Então não acredite nisso. Acredite em mim.” Jace disse, e sentiu o tremor em suas mãos aumentar.

Ela deixou cair sua mão. “ Você não acha que eu quero? ela desabafou, e por um momento ele ouviu o eco
na voz dela, da Maryse que entrou no quarto dele a noite quando ele tinha dez anos e fitando com os olhos
secos o teto, pensando em seu pai, ela sentava em sua cama com ele até que ele dormisse pouco antes do
amanhecer.

“Eu não sei,” Jace disse de novo. “ E quando ele me perguntou se eu queria ir como ele de volta para Idris,
eu disse não. Eu ainda estou aqui. Isso não conta para nada?”

Ela virou o olhar de volta para a garrafa, como se considerando outro drink, então pareceu descartar a idéia.
"Eu gostaria que contasse", ela disse. "Mas há tantas razões para que seu pai pudesse querer que você
continuasse no Instituto. Quando se trata de Valentine, eu não posso me dar ao luxo de confiar em ninguém
tocado por sua influência."

"Sua influência tocou você," Jace disse, e instantaneamente lamentou aquilo pelo olhar que apareceu através
do rosto dela.

“E eu repudio ele,” Maryse disse. “ E você?” Você pode? Seus olhos azuis da mesma cor dos de Alec, mas
Alec nunca tinha olhado para ele daquele jeito.” Me diga que você odeia ele, Jace. Me diga que você odeia
aquele homem e tudo o que ele defende.”

Um momento se passou, e outro, e Jace, olhando abaixo, viu que suas mãos estavam tão apertadas que os
nós dos dedos estavam brancos e duros como os ossos em uma espinha de peixe. “Eu não posso dizer isso.”

Maryse sugou sua respiração. “Por que não?”

“Por que você não pode dizer que você confia em mim? Eu vivi com você quase metade da minha vida.
Você deveria me conhecer, com certeza, melhor do que isso?

“Você soa tão sincero, Jonathan. Você sempre foi, mesmo quando você era um garotinho tentando colocar a
culpa em Isabelle ou Alec, de algo que você fazia de errado. Eu conheci apenas uma pessoa que podia soar
tão persuasivo quanto você.”

Jace sentiu um gosto metálico em sua boca. “Você quer dizer o meu pai.”

“Havia apenas dois tipos de pessoas no mundo para Valentine,” ela disse. “ Aqueles que eram do Circulo e
aqueles que eram contra ele. Estes últimos eram os inimigos, e os primeiros eram as armas de seu arsenal.
Eu vi ele tentar mudar cada um de seus amigos, mesmo a sua própria esposa, em uma arma para a Causa – e
você quer que eu acredite que ele não faria o mesmo com o seu próprio filho?” Ela balançou sua cabeça. “
Eu o conheci melhor do que isso”. Pela primeira vez, Maryse olhou para ele com mais tristeza do que com
raiva. “Você foi a seta atirada diretamente no coração da Clave, Jace. Você é a seta de Valentine. Quer você
saiba, quer não.”

Clary fechou a porta do quarto da tv com o volume alto e foi a procura de Simon. Ela o encontrou na
cozinha, curvado sobre a pia com a água correndo. Suas mãos estavam sobre o escorredor.

Simon?” A cozinha era brilhante, de um amarelo alegre, as paredes decoradas com emoldurados desenhos à
lápis e giz que Simon e Rebecca haviam feito na escola. Rebecca tinha algum talento para desenho, você
podia dizer, mas nos rabiscos de Simon todas as pessoas pareciam como parquímetros com tufos de cabelos.

Ele não tinha olhado até agora, embora ela pudesse dizer pela firmeza dos músculos em seus ombros que ele
tinha ouvido ela. Ela foi até a pia, descansando uma mão levemente em suas costas. Ela sentiu a acentuada
saliência de sua espinha através do fino algodão de sua camiseta e se perguntou se ele tinha perdido peso.
Ela não podia dizer só de olhar para ele, mas olhando para Simon era como se estivesse olhando em um
espelho – quando você vê alguém todo dia, você nem sempre nota as pequenas mudanças em sua aparência
exterior. “Você está bem?”

Ele revolveu a água com um duro movimento de seu punho. “Claro. Eu estou bem.”

Ela deslizou um dedo contra o lado de seu queixo e virou o rosto dele na direção do dela. Ele estava suando,
seu cabelo escuro que caia sobre sua testa estava preso à sua pele, mas o ar que vinha pela janela semi-aberta
estava frio. “ Você não parece bem. Foi o filme?“

Ele não respondeu.

“Me desculpe. Eu não deveria ter rido, é só que...”

“Você não se lembra?” Sua voz soou rouca.

“Eu...” a voz de Clary morreu. Aquela noite, recordando, parecia como correr ao longo de um nevoeiro, de
sangue e suor, de sombras vislumbradas em entradas, que caiam através do espaço. Ela se lembrava dos
rostos brancos dos vampiros, como papel recortado contra a escuridão, ela se lembrou de Jace abraçando ela,
gritando roucamente em seu ouvido. “ Não realmente. É um borrão.”

Seu olhar se moveu passando por ela, e em seguida, de volta. “Eu pareço diferente para você?” ele
perguntou.

Ela levantou seus olhos para os dele. Eles eram da cor de café preto – não realmente preto, mas um rico
castanho sem um toque de cinza ou avelã. Ele parecia diferente? Podia haver um toque extra de confiança no
jeito como ele ficou desde o dia em que ele matou o Abbadon, o Grande Demônio; mas também havia uma
cautela nele, como se ele estivesse assistindo ou esperando alguma coisa. Era algo que ela tinha notado em
Jace também. Talvez aquilo fosse apenas a consciência da mortalidade. “Você continua o mesmo Simon.”

Ele semicerrou seus olhos como se em alivio, e enquanto seus cílios se abaixavam, ela viu como os ossos de
seu rosto pareciam angulares. Ele tinha perdido peso, ela pensou, e ela estava prestes a dizer isso quando ele
se inclinou para baixo e a beijou.

Ela ficou tão surpresa com a sensação da boca dele sobre a sua que ela ficou toda rígida, agarrando o canto
do escorredor para apoiar a si mesma. Ela, no entanto, não o empurrou para longe e claramente fazendo
disso como um sinal de encorajamento, Simon deslizou sua mão atrás da cabeça dela e aprofundou o beijo,
separando os lábios dela com os seus. Sua boca era suave, mais suave do que a de Jace havia sido, e a mão
que se fechava sobre seu pescoço era quente e gentil. Ele tinha gosto de sal.

Ela deixou seus olhos se fecharem e por um momento flutuou vertiginosamente na escuridão e no calor, ela
sentiu os dedos dele movendo através de seus cabelos. Quando um estridente toque de telefone cortou o seu
entorpecimento, ela pulou para trás como se ele tivesse empurrado ela para longe, embora ele não tivesse se
movido. Eles olharam um para o outro por um momento, em selvagem confusão, como duas pessoas que se
encontram de repente transportadas para um estranho cenário em que nada é familiar.

Simon se afastou primeiro, para alcançar o telefone pendurado na parede ao lado do armário de temperos.
“Alô?” ele soava normal, mas o peito dele subia e descia rápido. Ele segurou o fone para Clary. “É para
você.”

Clary pegou o telefone. Ela podia sentir o coração dela batendo na garganta, como as asas de um inseto
preso debaixo de sua pele. É Luke, ligando do hospital. Alguma coisa aconteceu com minha mãe.

Ela engoliu. “Luke? É você?”

“Não. É Isabelle.”

“Isabelle?” Clary olhou para cima e viu Simon olhando para ela, inclinado contra a pia. O rubor em suas

bochechas tinha sumido. “ Por que você...quero dizer, o que houve?”

Havia um nó na voz da outra garota, como se ela tivesse chorado. “Jace está aí?”

Clary afastou o telefone então ela pôde olhar para ele antes de trazê-lo de volta ao seu ouvido. “Jace? Não.
Porque ele estaria aqui?”

A resposta de Isabelle ecoou pela linha telefônica como um suspiro. “O problema é que...Jace se foi.”

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