EU NEM CHEGUEI A DIRIGIR.
Sydney também não, para sua indignação, apesar de que
Dimitri fez algumas observações rápidas para explicar o porquê. Tudo começou
quando Victor descobriu que seu carro estava com problemas no motor. Ele não
estava muito feliz com isso mas também não fez nenhuma acusação. Mas acho que
todos lá, inclusive Sonya e Robert poderiam adivinhar que o problema não era
coincidência. Isso significava que todos tinham que se amontoar no CR-V, que
não havia sido projetado para acomodar tantas pessoas, foi por isso que Dimitri
traçou um plano de lugares bem criativo. Evidentemente um desses lugares acabou
sendo no espaço do bagageiro. Foi de bom tamanho, mas quando Sydney descobriu
que era o assento dela, ela acusou Dimitri de adicionar insulto ao ato de tomar
as suas chaves.
Eu não ia dizer isso a ela, mas colocá-la lá atrás foi
uma boa escolha. O mapa de assentos do Dimitri foi configurado para minimizar
as ameaças dentro do carro. Dimitri dirigia, a espingarda ia com Robert, e eu
entre Victor e Sonya no banco traseiro. Isso colocava um guardião em cada
linha, separava os irmãos, e mantinha usuários de espírito separados também.
Quando argumentei que ele e eu poderíamos trocar os pontos e ainda manter a
mesma segurança.
Dimitri disse que eu dirigindo não iria ser seguro
caso eu tivesse que de repente entrar na mente de Lissa. Foi uma argumentação
justa.
Quanto a Sydney… bem ela não era nem uma ameaça, nem
uma força de combate, então ela foi posta nos fundos. E por falar em peso
morto.
— Temos que nos
livrar de Victor e Robert agora — eu murmurei para Dimitri que carregava o CR-V
com mantimentos e nossas bagagens — reduzindo ainda mais o espaço de Sydney,
para sua indignação. —
— Eles deram o que precisávamos. Mantê-los é perigoso.
É hora de os entregar aos Guardiões. — Os irmãos queriam continuar conosco para
encontrar o irmão de Lissa. Nós íamos deixá-los — mas não por generosidade — Nós
simplesmente não poderíamos deixá-los fora de nossas vistas.
— Aprovado — disse
Dimitri, franzindo ligeiramente a testa. — Mas não há nenhuma boa maneira para
faze-lo. Ainda não. Nós não podemos deixá-los amarrados na beira da estrada, eu
não poderia deixar com que eles fugissem e pedissem carona. Também não posso transformar
eles em um de nós, por razões óbvias —
Eu joguei um saco dentro do carro e me encostei no pára-choques.
— Sydney poderia transformar eles — assentiu Dimitri. — Isso é provavelmente a
nossa melhor aposta, mas não quero a participação dela até chegarmos onde quer
que nós vamos. —
— Nós podemos
precisar de ajuda —
Eu suspirei. — E assim nós os arrastamos junto —
— Temo que sim
— disse ele. Ele me deu um olhar desconfiado. — Você sabe que enquanto eles
estão sob custódia, há uma chance muito boa deles terem um história para contar
sobre nós para as autoridades. —
— Sim — Estive
pensando sobre isso também. Acho que isso é um problema para mais tarde. Tenho
que lidar com os problemas imediatos em primeiro lugar —
Para minha surpresa Dimitri sorriu para mim. Eu
esperava algum comentário, prudente, sábio. — Bem essa sempre foi nossa
estratégia, não foi? — perguntou ele.
Eu sorri de volta, mas foi por uma curta duração, uma
vez que estávamos pegando a estrada. Felizmente Victor não estava com seu
costume chato de ficar falando, o que suspeitei ser porque ele estava fraco por
falta de sangue. Sonya e Robert deveriam estar sentindo a mesma coisa. Isso
seria um problema se nós não encontrássemos um alimentador em breve, o que não
sei como faríamos.
Tive a impressão que Sydney não tinha percebido nada
disso, o que era bom. Ser um humana no meio de um grupo de vampiros me deixa
nervosa.
Ela na verdade estava mais segura de todos estando
sequestrada no bagageiro. As direções de Sonya eram vagas e muito necessárias.
Ela só nos deu informação de curto prazo e muitas vezes nos avisava de uma curva
só quando estávamos em cima dela. Não tínhamos ideias de onde iríamos ou quanto
tempo isso levaria. Ela fuçou em um mapa e em seguida disse I-75. Quando
perguntei quanto tempo levaria nossa viagem sua resposta foi: — Não muito,
poucas horas. Talvez mais. —
E com essa explicação misteriosa, ela se encostou na
cadeira e não disse nada. Havia uma expressão pensativa e assombrada em seu
rosto, tentei imaginar como ela se sentia.
Apenas um dia atrás que deixou de ser Strigoi. Ela
ainda estava processando os acontecimentos? Ela vê os rostos de suas vítimas
como Dimitri? Estaria se atormentando com a culpa? Ela quer voltar a ser
Strigoi?
Deixei ela sozinha. Agora não era momento para
terapia. Eu fui para trás me preparando para ser paciente. Um arrepio de consciência,
de repente acendeu o vínculo, deslocando a minha atenção para dentro. Lissa
estava acordada. Eu pisquei o olho e olhei para o relógio do painel. Tarde para
os humanos. Os Moroi da Corte devem estar dormindo até agora. Mas ela não, algo
tinha a despertado. Dois Guardiões estavam em sua porta, os rostos impassíveis.
— Você tem que vir conosco — disse um deles. — É hora do próximo teste. —
Lissa ficou assombrada. Ela sabia que o próximo teste
seria em breve, mas não havia ouvido mais detalhes desde o retorno do teste de
resistência. A viagem ocorreu durante a noite Moroi. Ela pelo menos teve um
aviso justo. Eddie ficou próximo ao seu quarto tendo substituído minha mãe como
a proteção de Lissa a algumas horas atrás. Christian sentou-se na cama de Lissa
bocejando. Eles não pegaram quente e pesado, mas Lissa gostava de ter ele por
perto. Aconchegada com o namorado, enquanto Eddie estava na sala não parecia
tão estranho como quando minha mãe estava lá. Eu não a culpo
— Eu posso me
trocar? — Lissa perguntou.
— Seja rápida —
disse o Guardião
Ela pegou a primeira roupa que pode e correu para o
banheiro, sentindo-se confusa e nervosa. Quando ela saiu Christian já tinha
colocado a calça e estava pegando a camiseta.
Eddie por enquanto avaliando os Guardiões, eu pude
adivinhar seus pensamentos, porque eu teria compartilhado os mesmos. Essa
chamada de despertar parecia oficial, mas ele não conhecia esses Guardiões e
nem confiava neles.
— Posso
acompanhar ela? — perguntou ele.
— Somente ao
longo da área de testes — disse o segundo guardião
— E quanto a
mim? — perguntou Christian.
— Somente ao
longo da área de testes. —
A resposta do Guardião me surpreendeu, mas depois
percebi o quão comum era os candidatos a monarca irem com comitivas para os
testes — mesmo os inesperados ao longo da noite. Ou talvez não tão inesperado.
A área da Corte estava praticamente deserta, mas quando o grupo dela chegou ao
seu destino - uma pequena e afastada seção de um edifício de tijolos vermelhos
— ela teve de passar por vários grupos de Moroi alinhados nos corredores.
Aparentemente, a palavra tinha saído.
Aqueles que estavam reunidos se afastaram
respeitosamente. Alguns, provavelmente advogados das outras famílias, lhe
fizeram cara feia. Mas muitas outras pessoas sorriram para ela e chamaram de
retorno dos Dragomir. Alguns até esfregaram as mãos em seus braços como se
estivessem pegando sorte ou poder dela. A multidão era bem menor do que aquela
que a cumprimentou após o primeiro teste. Isso melhorou a sua ansiedade, mas
ela decidiu não tomar conclusões precipitadas e encarar seriamente os testes.
Os rostos dos espectadores brilhavam com espanto e curiosidade, querendo saber
se ela pode ser a próxima pessoa a governá-los.
Uma porta no fim do corredor marcou a conclusão de sua
jornada. Não foi nem necessário dizer para Eddie e Christian que esse era o
máximo que poderiam ir. Lissa olhou para os dois sobre os ombros antes de
seguir o Guardião que estava lá dentro, levando o conforto e as faces de apoio
de seus entes queridos.
Depois da aventura épica do primeiro teste, Lissa
esperava algo igualmente intimidador. Mas o que ela encontrou foi uma velha
Moroi sentada confortavelmente em uma cadeira em uma ala quase vazia. Suas mãos
estavam cruzadas no colo, segurando algo que estava embrulhado em um pano.
A mulher cantarolava, parecendo muito contente. E
quando digo velha quero dizer muito velha. Os Moroi poderiam viver perto de cem
anos e aquela mulher definitivamente ultrapassou aquela marca.
Sua pele pálida era um labirinto de rugas, cabelos
grisalhos e finos. Ela sorriu quando viu Lissa e acenou para uma cadeira vazia.
Uma pequena mesa estava ao lado com uma jarra d'água. Os Guardiões deixaram a
mulher sozinha. Lissa olhou ao seu redor. Não haviam outros móveis, embora
houvesse uma porta no lado oposto da que ela entrou. Ela se sentou e virou para
a mulher.
— Olá — disse
Lissa. Tentando manter sua voz forte. Eu sou Vasilisa Dragomir.
A mulher deu um pequeno sorriso mostrando seus dentes
amarelados. Um de seus dentes estava faltando. — Sempre boas maneiras na sua
família — ela resmungou.
— A maioria das
pessoas vem aqui e já começam falando de negócios. Mas me lembro de seu avô.
Ele também foi educado durante o teste —
— Você conheceu
meu avô? — Lissa exclamou. Ele morreu quando ela era muito, muito jovem. Então
ela pegou um outro significado nas palavras da mulher. — Ele concorreu para
Rei? —
A mulher assentiu com a cabeça. Passou em todos os
testes. Acho que teria vencido a eleição se não tivesse se retirado no último
momento. Depois foi um lance de moedas entre Tatiana Ivashkov e Tarus Jacob.
Muito perto aquele. Tarus ainda guarda rancor. —
Lissa nunca tinha ouvido nada disso. — Porque meu avô
se retirou? —
— Como seu
irmão tinha acabado de nascer. Frederick decidiu que precisava dedicar a sua
energia a sua jovem família em vez da nação. —
Lissa conseguia entender isso. Quantos Dragomirs
estavam lá naquela época? Seu avô, seu pai, André e sua mãe, mas apenas por
casamento. Eric Dragomir não tinha irmãos ou irmãs. Lissa sabia pouco sobre seu
avô, mas em seu lugar, ela decidiu que também teria gasto bastante tempo com
seu filho e neto, ao invés de ouvir os discursos intermináveis que Tatiana
tinha tido que lidar.
A mente de Lissa vagueou, e a mulher observava
atentamente.
— Esse … é o teste? — Perguntou Lissa, uma vez que o
silêncio ficou muito longo. — É, tipo, uma entrevista? —
A velha balançou a cabeça. — Não, não é —
Ela desembrulhou o objeto em seu colo. Era um copo, um
cálice ou uma taça, eu não tinha certeza qual. Mas era bonito, feito de prata e
parecia brilhar com luz própria. Rubis vermelho sangue foram espalhados ao
longo dos lados brilhando em cada volta do copo.
A mulher parecia afeiçoada.
— Mais de mil anos e ainda brilha. — Ela pegou a jarra e encheu o cálice com água,
enquanto Lissa e eu processávamos as palavras. Mil anos? Eu não era
especialista em metal, mas mesmo eu sabia que a prata deveria ter manchado com
o tempo.
A mulher estendeu o copo para Lissa. — Beba dele, e
quando quiser parar, diga pare —
Lissa pegou o copo, mais confusa do que nunca com as
estranhas instruções. O que ela deveria parar? De beber? Assim que seus dedos
tocaram o metal ela entendeu. Bem, mais ou menos. Um arrepio que ela conhecia
bem percorreu seu corpo.
— Isso é
encantado — disse ela.
A mulher balançou a cabeça — Infundido com todos os
quatro elementos e uma magia há muito tempo esquecida — Encantado também com o
espírito, pensou Lissa. Isso também deve ter sido esquecido e colocado de lado.
Elementos encantados tem diferentes efeitos. Encantamentos da Terra — como a
tatuagem que foi dada a ela — muitas vezes eram amarrados com magia da
compulsão menores. A combinação de todos em uma estaca ou ward[1]
resulta em uma explosão unificada de vida que bloqueia os mortos vivos. Mas o
espírito …. bem, ela estava aprendendo rapidamente que os encantamentos de
espírito abrangem uma vasta gama de efeitos imprevisíveis.
A água, sem dúvida ativou a magia, mas Lissa tinha a
sensação de que o espírito era a peça chave. Mesmo que fosse o poder que
queimava em seu sangue, isso ainda a assustava. A magia composta nesse cálice
era complexa, muito além de suas habilidades, e ela temia o que ele faria. A
mulher olhou sem pestanejar.
O mundo desapareceu, se materializando em algo
completamente diferente. Nós reconhecemos o que era aquilo. Um sonho de
espírito. Ela já não estava mais na sala. Estava ao ar livre, o vento
chicoteando o seu longo cabelo na gente do rosto. Ela o afastou de lado o
melhor que podia. Outras pessoas estavam ao seu redor, todas elas de preto, e
ela logo reconheceu a igreja e o cemitério da Corte. Lissa se vestia de preto
junto a um casaco de lã para se proteger contra o frio. Eles estavam reunidos
em volta de um túmulo, o padre ficou perto dele, suas vestes de trabalho
oferecendo a única cor naquele dia cinzento. Lissa deu uns passos adiante,
tentando ver de quem era o nome que estava na lápide. O que ela descobriu me
chocou mais do que chocou ela:
ROSEMARIE HATHAWAY
Meu nome foi escrito no granito com letras elaboradas.
Abaixo do meu nome havia uma estrela da batalha significando que matei mais
Strigoi do que se podia contar. Abaixo haviam três linhas de texto em Russo,
Romeno e Inglês. Eu não preciso da tradução em Inglês para saber cada linha
porque esse era o padrão para uma sepultura de Guardião: Serviço Eterno.
O padre falou palavras habituais de funerais, me dando
as bençãos de uma religião que não tinha certeza se acreditava. Isso foi o
menos estranho aqui já que eu estava vendo meu próprio funeral. Quando ele
terminou Alberta tomou seu lugar. Louvar as realizações do falecido era normal
em um funeral de Guardião, e Alberta tinha muito a dizer sobre mim. Se eu
estivesse lá, eu teria chorado.
Ela concluiu descrevendo minha última batalha, como eu
morri defendo a Lissa.
Isso na verdade não me assustou tanto. Tipo, não me
entenda errado. Tudo acontecendo nesse sonho era completamente louco. Mas,
razoavelmente falando, se eu estivesse mesmo assistindo meu próprio funeral,
faria sentido que tivesse morrido protegendo a Lissa.
Lissa não achava o mesmo que eu. Essas notícias foram
um tapa em sua cara. De repente ela ficou com um súbito vazio em seu peito,
como se uma parte dela tivesse ido embora. O laço só funcionava de um lado,
ainda que Robert tenha jurado que perder seu parceiro de laço tenha deixado ele
em agonia. Lissa entendia isso agora, aquela dor terrível e solitária. Ela
estava perdendo algo que ela nem sabia que tinha. Lágrimas surgiram em seus
olhos.
Isso é um sonho, ela disse para ela mesma. Isso é
tudo. Mas ela nunca tece um sonho de espírito como esse. Suas experiencias
tinham sido sempre com Adrian, e os sonhos tinham sido parecidos com
telefonemas.
Quando as pessoas dispersaram do cemitério, ela sentiu
uma mão em seu ombro. Christian. Ela se jogou gratamente em seus braços, tentando
muito segurar seus soluços. Ele parecia real e sólido. Seguro. — Como isso
aconteceu? — ela perguntou. — Como isso pode ter acontecido? —
Christian a soltou, seus olhos de um azul cristal mais
sérios e tristes como ela nunca tinha visto. — Você sabe como. Aqueles Strigoi
estavam tentando matar você. Ela se sacrificou para salvar você. —
Lissa não conseguia se lembrar disso, mas não
importava. — Eu não posso... eu não posso acreditar que isso esteja
acontecendo. — Aquele agonizante vazio crescendo dentro dela.
— Eu tenho mais
péssimas notícias. — disse Christian.
Ela o encarou com espanto. — Como isso pode ficar
pior? —
— Estou indo
embora. —
— Indo... o
que? Da Corte? —
— Sim. Deixando
tudo. — a tristeza no rosto dele cresceu. — Deixando você. —
Sua mandíbula caiu um pouco. — Qual... qual o
problema? O que foi que eu fiz? —
— Nada. — ele
apertou a mão dela e a largou. — Eu amo você. Sempre irei amar você. Mas você é
quem você é. Você é a última Dragomir. Sempre vai haver algo que você tenha que
fazer... eu só fico no seu caminho. Você precisa refazer sua família. Eu não
sou quem você precisa. —
— É claro que
você é! Você é o único! O único que eu quero construir meu futuro junto. —
— Você diz isso
agora, mas espere. Há escolhas melhores. Você ouviu a piada do Adrian. Pequenos
Dragomirs? Quando você estiver pronta para crianças daqui a alguns anos, você
vai precisar de um monte. Os Dragomir precisam ser muitos e sólidos de novo. E
eu? Eu não sou responsável o suficiente para lidar com isso. —
— Você será um
ótimo pai. — ela argumentou.
— Yeah, — ele
zombou. — E eu vou ser uma grande posse para você também — a princesa casada
com o cara da Familia de Strigoi. —
— Eu não ligo
para nada disso, e você sabe! — ela puxou sua camisa, o forçando a olhar para
ela. Eu amo você. Quero que você faça parte da minha família. Nada disso faz
sentido. Você esta com medo? É isso? Você esta com medo do peso do nome da
minha família? —
Ele desviou seus olhos. — Vamos só dizer que não é um
nome fácil de se carregar. —
Ela o chocalhou. — Eu não acredito em você! Você não
tem medo de nada! Você nunca desistiu! —
— Estou
desistindo agora. — Ele gentilmente saiu de perto de dela. — Eu realmente amo
você. É por isso que estou fazendo isso. É para o melhor. —
— Mas você não
pode... — Lissa apontou para meu túmulo, mas ele já estava indo embora. — Você
não pode! Ela se foi. Se você se for também, não haverá ninguém... —
Mas Christian tinha ido embora, desaparecendo numa
névoa que não estava la há alguns minutos. Lissa tinha sido deixada somente com
minha lápide para fazer companhia. E pela primeira vez em sua vida, ela estava
real e verdadeiramente sozinha. Ela tinha sido deixada sozinha quando sua família
morreu, mas eu tinha sido sua ancora, sempre em suas costas, a protegendo.
Quando Christian tinha vindo, ele também tinha mandado a solidão para longe,
enchendo seu coração com amor.
Mas agora... agora nós dois tínhamos ido embora. Sua família
tinha ido. O buraco dentro dela ameaçando a engolir, e era mais do que a perda
do laço. Ficar sozinha é uma terrível, terrível coisa. Não há ninguém para te
socorrer, ninguém para se confiar, ninguém que se importa com o que acontece
com você. Ela tinha estado sozinha na floresta, mas não era nada como isso.
Realmente nada a ver.
Olhando em volta, ela desejou afundar no meu tumulo, e
acabar com seu tormento. Não... espere. Ela realmente podia acabar com isso.
Diga 'pare', tinha dito a mulher. Era só isso que precisava para acabar com
essa dor. Isso era um sonho de espírito, certo? Verdade, esse era mais o mais realístico
que ela já tinha enfrentado, mas no final, todos os sonhos acabavam. Uma palavra,
e isso se tornaria um pesadelo que acabaria.
Olhando em volta da Corte agora vazia, ela quase disse
a palavra. Mas... ela queria acabar com isso? Ela prometeu passar por essas
provas. Ela iria desistir por causa de um sonho? Um sonho sobre estar sozinha?
Isso parecia uma coisa pequena, mas essa verdade gelada a atingiu o rosto: Eu
nunca estive sozinha. Ela não sabia se podia se se virar sozinha, mas então,
ela percebeu que se isso não fosse um sonho - e, Santo Deus, parecia real - não
uma magica que — parasse — a vida. Se ela não pudesse lidar com a solidão num
sonho, era nunca seria capaz de o fazer na vida real. E por mais que isso a
assustasse, ela decidiu que não daria para trás nisso. Alguma coisa a impeliu
pela névoa, e ela andou entre ela - sozinha.
A névoa deveria ter a levado para o jardim da Igreja.
Em vez disso, o mundo se re-materializou a ela se encontrou numa sessão do
Conselho. Era uma aberta, com uma audiência Moroi assistindo. Diferente do
usual, ela não estava sentada com a audiência. Ela estava na mesa do Conselho,
com suas treze cadeiras. Ela estava sentada na carteira dos Dragomirs. A
cadeira do meio, a cadeira do Monarca, estava ocupada pela Ariana Szelsky.
Definitivamente um sonho, alguma parte irónica dela pensou. Ela tinha um lugar
no Conselho e Ariana era a Rainha. Bom demais para ser verdade.
Como sempre, o Conselho estava num acalorado debate, e
o tópico era familiar: o decreto da idade. Alguns membros do Conselho disseram
que era imoral. Outros diziam que a ameaça Strigoi era muito grande. Tempos
desesperados pediam ações desesperadas, aquelas pessoas diziam.
Ariana olhou para baixo na mesa para Lissa. — O que a família
Dragomir pensa? — Ariana não estava sendo tão gentil quanto foi na van nem tão
hostil quanto Tatiana tinha sido. Ariana era neutra, uma Rainha administrando
um Conselho e pegando a informação de que precisava. Todos os olhos na sala se
viraram e pararam em Lissa.
Por alguma razão, toda ideia coerente saiu de sua
mente. Sua língua parecia densa em sua boca. O que ela achava? Qual era sua
opinião sobre o decreto da idade? Ela desesperadamente tentava desenterrar uma
resposta.
— Eu… eu acho
que é ruim. —
Lee Szelsky, que deve ter pego o lugar da família
quando Ariana se tornou rainha, bufou em desgosto. — Você poderia explicar,
princesa? —
Lissa engoliu em seco. — Diminuir a idade dos
guardiões não é um jeito de nos proteger. Precisamos... precisamos aprender a
nos proteger, também. —
As palavras dela foram recebidas com mais desdém e
choque.
— Por favor diga, — disse Howard Zeklos, — como você
planeja fazer isso? Qual é sua proposta? Treino obrigatório para todas as
idades? Começar um programa nas escolas? —
Novamente Lissa procurou pelas palavras. Qual era o
plano? Ela e Tasha tinham discutido isso muitas vezes, fazendo estratégias
sobre esse problema de como implementar o treino. Tasha tinha praticamente
grudado esses detalhes na cabeça dela na esperança de que Lissa pudesse se
fazer ouvir. Cá estava ela agora, representando sua família no Conselho, com a
chance de mudar as coisas e melhorar a vida Moroi. Tudo o que ela tinha que
fazer era se explicar. Tantos estavam contando com ela, tantos estavam
esperando para ouvir essas palavras pelas quais ela se sentia tão passional.
Mas quais eram elas? Por que Lissa não podia se lembrar? Ela deveria ter
demorado muito para responder porque Howard levantou sua mão em desgosto.
— Eu sabia. Nós
fomos idiotas em deixar essa garotinha participar desse Conselho. Ela não tem
nada de útil a oferecer. Os Dragomirs se foram. Eles morreram com ela, e
precisamos aceitar isso. —
Eles morreram com ela. A pressão de ser a última de
sua linhagem tem pesado sobre Lisa desde o momento em que o doutor disse que
seus pais e irmão tinham morrido. A ultima de uma linhagem que tinha dado mais
poder aos Moroi e produzido alguns dos maiores reis e rainhas. Ela tinha jurado
a si mesma de novo e de novo que ela não desapontaria sua linhagem, que ela
veria o orgulho de sua família recuperado. E agora isso estava indo à baixo.
Até mesmo Ariana, de quem Lissa considerava ter apoio,
parecia desapontada. A audiência começou a zombar, ecoando o chamado de remover
esta chamada criança do Conselho. Eles gritaram para ela se retirar. O pior,
ainda: — O dragão está morto! O dragão está morto! —
Lissa quase tentou fazer outro discurso, mas estão
algo a fez olhar para trás. Ali, os selos das doze famílias estavam pendurados.
Um homem apareceu do nada e estava tirando o elmo do dragão e a inscrição da Roménia.
O coração da Lissa afundou enquanto os gritos na sala se tornavam mais altos e
sua humilhação aumentava. Ela se levantou, querendo correr dali e se esconder
da desgraça. Ao invés disso, seus pés a levaram para a parede com os selos. Com
mais força do que ela esperava ter, ela arrancou o selo do dragão do homem.
— Não — Ela
gritou. Virou seu olhar para a audiência e segurou o selo, desafiando qualquer
um deles a ir e tirá-lo dela ou negar seu lugar de direito no Conselho. — Isso.
É. Meu. Vocês me ouviram? Isso é meu! —
Ela nunca saberia se eles ouviram porque eles sumiram,
assim como o cemitério. O silêncio caiu. Ela agora estava sentada em uma das
salas para exames na St. Vladimir. Os detalhes familiares eram estranhamente
reconfortantes: a mesa com seu sabonete laranja de mãos, armários e gavetas
nitidamente marcados, e até mesmo os posteres com informativos de saúde nas
paredes. ESTUDANTES: PRATIQUEM SEXO SEGURO!
Igualmente bem-vinda era a médica residente da escola:
Drª Olendzki. A doutora não estava sozinha. Ao redor de Lissa — que estava
sentada na ponta da cama de exame — estava uma terapeuta chamada Deidre e... eu.
Vendo-me ali era bem excêntrico, mas depois do funeral, eu estava começando a
aceitar tudo isso.
Um surpreso misto de sentimentos passou pelo rosto de
Lissa, sentimentos fora de seu controle. Felicidade por nos ver. Desespero pela
vida. Confusão. Desconfiança. Ela não parecia poder se prender a um único
sentimento ou pensamento. Era um sentimento muito diferente do Conselho, quando
ela apenas não pôde se explicar. Sua mente estava ordenada — ela apenas se
perdeu. Ali, não havia nenhuma pista. Ela estava uma bagunça mental.
— Você entende?
— perguntou Drª Olendzki. Lissa suspeitou que a doutora já havia feito essa
pergunta. — Está além do que podemos controlar. Medicação já não funciona. —
— Acredite em
mim, nós te queremos se ferindo. Mas agora que outros estão correndo risco... bem,
você entende porque nós temos que fazer algo. — Essa era Deirdre. Eu sempre
pensei nela como uma convencida, particularmente desde que seu método terapêutico
envolvia responder perguntas com perguntas. Não havia humor astuto agora.
Deidre estava muito séria.
Nenhuma daquelas palavras fez sentido para Lissa, mas
a parte de não se machucar acordou algo nela. Ela olhou para seus braços. Eles
estavam descobertos... e cobertos de cortes. Os cortes que ela costumava fazer
quando a pressão do espírito ficava muito grande. Eles haviam sido sua única
saída, um horrível tipo de libertação. Estudando-os agora, Lissa viu que os
cortes eram maiores e mais fundos do que antes. Os tipos de cortes que
combinavam com suicídio.
— Quem... quem
eu machuquei? —
— Você não se
lembra? — perguntou Dr. Olendxki.
Lissa negou com a cabeça, parecendo completamente
desesperada, procurando por respostas. Seu olhar caiu em mim, e meu rosto
estava tão escuro e sombrio quanto o de Deirdre. — Está tudo bem, Liss, — eu
disse. — Tudo vai ficar bem. —
Não estava surpresa com isso. Naturalmente, isso era
tudo o que eu diria. Eu sempre tranquilizaria Lissa. Eu sempre tomaria conta
dela.
— Não importa,
— disse Deirdre, a voz suave e verdadeira. — O que importa é que ninguém mais
se machuque. Você não quer machucar alguém, quer? —
É claro que Lissa não queria, mas sua mente estava
confusa. — Não fale comigo como se eu fosse uma criança! — A altura de sua voz
preencheu a sala.
— Eu não tive a
intenção, — disse Deirdre, a modelo de paciência. — Nós só queremos te ajudar.
Queremos que fique segura. —
Paranóia cresceu e ficou em primeiro lugar nas emoções
de Lissa. Nenhum lugar era seguro. Ela estava certa sobre isso... e nada mais.
Exceto talvez alto sobre um sonho. Um sonho, um sonho...
— Eles serão
capazes e cuidar de você em Tarasov, — explicou Drª Olendzki. — Eles vão se
assegurar de que você está confortável. —
— Tarasov? — Lissa
e eu falamos em uníssono. Essa outra Rose cerrou os punhos e encarou.
Novamente, uma reação típica de mim.
— Ela não vai
para aquele lugar, — rosnou Rose.
— Você acha que
queremos fazer isso? — perguntou Deirdre. Era a primeira vez que vi sua máscara
fria desmoronar. — Não queremos. Mas o espírito... o que está fazendo... não
temos escolha... —
Imagens de nossa viagem à Tarasov passou pela mente de
Lissa. Os corredores tão frios. Os gemidos. As pequenas celas. Ela se lembrou
de ver a ala psiquiátrica, a seção em que os outros usuários de espírito eram
trancados. Trancados indefinidamente.
— Não! — ela
gritou, pulando da mesa. — Não me mande para Tarasov! — ela procurou ao redor
por uma saída. A mulher ficou entre ela e a porta. Lissa não podia correr. Que
mágica ela poderia usar? Certamente havia algo. Sua mente tocou o espírito,
enquanto ela procurava por um feitiço.
A outra-Rose segurou sua mão, provavelmente porque
sentiu o espírito e queria pará-la. — Existe outro meio, — meu alter-ego disse
a Deirdre e Dª. Olendzki. — Eu posso tirar isso dela. Posso tirar tudo isso
dela, como Anna fez com St. Vladimir. Eu posso tirar a escuridão e instabilidade.
Lissa ficará sã novamente. —
Todos olharam para mim. Bem, para o outro eu.
— Mas então
estará em você, certo? — perguntou Dr. Olendzki. — Não vai desaparecer. —
— Não ligo, — eu
disse teimosamente. — Irei para Tarasov. Não a mandem. Posso fazer isso
enquanto ela precisar. —
Lissa me assistia, mal acreditando no que ouvia. Seus
pensamentos caóticos se tornaram alegres. Eba! Saída. Ela não ficaria louca.
Ela não iria para Tarasov. Então, em algum lugar na confusão de suas memórias...
— Anna se suicidou,
— murmurou Lissa. Sua compreensão da realidade ainda era tênua, mas aquele
pensamento sóbrio foi o bastante para momentaneamente acalmar sua mente
acelerada. — Ela ficou louca por ajudar St. Vladimir. —
Meu outro eu se recusou a olhar para Lissa. — É apenas
uma história. Tomarei conta de escuridão. Mande-me. —
Lissa não sabia o que fazer ou falar. Ela não queria
ir para Tarasov. Aquele prisão lhe dava pesadelos. E cá estava eu, oferecendo-a
um saída, oferecendo-me para salvar sua vida como sempre. Lissa queria aquilo.
Ela queria ser salva. Ela não queria ficar louca como todos os outros usuários
de espírito. Se ela aceitasse a oferta, seria livre.
Ainda... na beira do sim ou não, ela ligava muito pra
mim. Eu tinha feito muitos sacrifícios por ela. Como ela poderia me deixar
fazer isso? Que tipo de amiga ela seria, condenando-me àquela vida? Tarasov
assustava a Lissa. Uma vida numa jaula assustava Lissa. Mas eu encarando aquilo
a assustava ainda mais.
Não havia bons resultados aqui. Ela queria que tudo pudesse
simplesmente ir embora. Talvez se ela apenas fechasse os olhos... espera. Ela
se lembrou novamente. O sonho. Ela estava num sonho de espírito. Tudo o que ela
precisava era acordar.
Dizer — Pare. —
Foi mais fácil dessa vez. Dizer aquela palavra foi uma
saída simples, a solução perfeita. Nada de Tarasov para nenhuma de nós, certo?
Então, ela sentiu uma leve pressão em sua mente, um silêncio daqueles
sentimentos caóticos. Seus olhos se ampliaram quando ela percebeu que eu já
tinha começado a sugar a escuridão. — Pare — foi esquecido.
— Não! — Espírito
queimava dentro dela, e ela colocou uma parede no laço, bloqueando-me dela.
— O que você
está fazendo? — meu outro eu perguntou.
— Salvando
você, — disse Lissa. — Salvando a mim mesma. — Ela se virou para Drª Olendzki e
Deirdre. — Eu entendo o que vocês têm que fazer. Está tudo bem. Levem-me para
Tarasov. Levem-me para onde eu não for machucar mais alguém. — Tarasov. Um
lugar onde verdadeiros pesadelos andavam nos corredores. Ela se abraçou
enquanto o escritório sumia, pronta para a próxima parte do sonho: uma fria
cela de pedra, com correntes nas paredes e pessoas gemendo nos corredores...
Mas quanto o mundo se recompôs, não havia mais
Tarasov. Havia uma sala vazia com uma velha e um cálice prateado. Lissa olhou
ao seu redor. Seu coração estava acelerado, e seu senso de tempo não estava
funcionando. As coisas que ela viu duraram uma eternidade. Ainda,
simultaneamente, parecia que apenas alguns segundos tinham se passado desde que
ela e a velha tinham conversado.
— O que... o
que foi isso? — perguntou Lissa. Sua boca estava seca, e a água soava boa agora...
mas o cálice estava vazio.
— Seu medo, — disse
a velha, olhos brilhando. — Todos os seus medos, ordenadamente dispostos em uma
fileira. —
Lissa colocou o cálice na mesa com as mãos tremendo. —
Foi terrível. Era o espírito, mas... mas não era como qualquer outra coisa que
eu tenha visto antes. Invadiu minha mente. Foi tão real. Houve momentos em que
achei que fosse real. —
— Mas você não
parou. —
Lissa franziu o cenho, pensando em quão perto ela
tinha ido. — Não. —
A velha sorriu e nada disse.
— Eu... terminei?
— perguntou Lissa, confusa. — Posso ir? —
A velha assentiu. Lissa ficou de pé e olhou entre as
duas portas, a que ela entrou e a comum no fundo. Ainda em choque, Lissa
automaticamente se virou na direção da porta pela qual ela entrou. Ela
realmente não queria ver aquelas pessoas alinhadas no corredor novamente, mas
jurou que colocaria uma expressão de boa princesa. Além do mais, havia apenas
uma fração aqui comparada ao grupo que a cumprimentou no último teste. Seus
passos eram hesitantes quem a velha falou novamente e apontou para o fundo da
sala.
— Não. Essa é
para os que falham. Você vai por essa porta. —
Lissa se virou e se aproximou da porta comum. Parecia
que levava ao ar livre, o que provavelmente era bom. Paz e silêncio. Ela sentiu
como se devesse dizer algo para sua companhia, mas não sabia o quê. Então, ela
simplesmente girou a maçaneta e andou para fora...
Para a multidão que torcia pelo dragão.
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